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21/10/07

Bento XVI - A razão grega e a razão crística

Aqui gera-se um dilema, na compreensão de Deus e consequentemente na realização concreta da religião, que nos desafia hoje de maneira muito directa: a convicção de que o agir contra a razão estaria em contradição com a natureza de Deus, faz parte apenas do pensamento grego ou é válida sempre e por si mesma? Penso que, neste ponto, se manifesta a profunda concordância entre o que é grego na sua parte melhor e o que é a fé em Deus baseada na Bíblia. Modificando o primeiro versículo do livro do Génesis, o primeiro versículo de toda a Sagrada Escritura, João iniciou o prólogo do seu Evangelho com estas palavras: «No princípio era o λόγος». Ora, é precisamente esta a palavra que usa o imperador: Deus age «σuν λόγω», com logos. Logos significa conjuntamente razão e palavra – uma razão que é criadora e capaz de se comunicar, mas precisamente enquanto razão. Com este termo, João ofereceu-nos a palavra conclusiva para o conceito bíblico de Deus, uma palavra na qual todos os caminhos, muitas vezes cansativos e sinuosos, da fé bíblica alcançam a sua meta, encontram a sua síntese. No princípio era o logos, e o logos é Deus: diz-nos o evangelista. Este encontro entre a mensagem bíblica e o pensamento grego não era simples coincidência. A visão de São Paulo – quando diante dele se estavam fechando os caminhos da Ásia e, em sonho, viu um macedónio que lhe suplicava: «Passa à Macedónia e vem ajudar-nos!» (cf. Act 16, 6-10) – esta visão pode ser interpretada como a «condensação» da necessidade intrínseca de aproximação entre a fé bíblica e a indagação grega. Ler todo o texto aqui.
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Nada do que é dito neste excerto de Bento XVI é novo. No entanto, o discurso proferido no encontro com os representantes das ciências, na Aula Magna da Universidade de Regensburg [sim, esse mesmo que provocou a polémica com o mundo islâmico], é uma peça fundamental para perceber qual o papel que Bento XVI se atribui a si no xadrez complexo da vida mundial. O que está a ser sublinhado é o importante papel da razão na religião, mas por extensão na vida das comunidades.

Ratzinger representa talvez a última oportunidade para uma Europa em busca de si. Eu sei que muita gente anda preocupada com a moral conservadora da igreja, com a manutenção das conquistas «progressistas» do Vaticano II, com a possibilidade de voltar a missa em Latim, com a ameça que parece vir do Vaticano ratzingeriano contra a proliferação do Kitsch na liturgia e mesmo da cultura pimba, que há muito se apoderou das celebrações religiosas, pelo menos em Portugal. Mas tudo isso é irrelevante.

Bento XVI pensa como chefe da cristandade católica, mas pensa não apenas do ponto de vista religioso, fá-lo também do ponto de vista político. Não que vise uma reinstauração anacrónica de qualquer império. Pensa antes do ponto de vista da necessidade de uma comunidade política, social e económica regida pelos princípios da razão grega. Se João Paulo II foi uma resposta ao marxismo do leste, Bento XVI surge claramente como uma resposta ao niilismo ocidental, à destruição da razão. O que é interessante é que esta resposta de Ratzinger é fundamentalmente o reavivar das grandes conquistas da filosofia de Platão e de Aristóteles e é nestas filosofias da razão que uma parte substancial do cristianismo deverá encontrar a sua estrutura.

O problema que me interessa não é o religioso, mas o político. É aqui que, julgo, joga Ratzinger: a necessidade do Ocidente para permanecer fiel aquilo que é não abandonar de vez o cristianismo. Mas o que significa não abandonar o cristianismo? Significa não apenas o culto da visão crística do homem, mas a necessidade de devolver às comunidades ocidentais uma estrutura racional herdada da velha filosofia política grega.


Teses subjacentes ao que se disse no comentário: não há comunidade política sem religião, não há cidade (polis) sem os seus deuses. Se perdermos os nossos outros virão. Vale mais uma divindade que se manifesta como logos, do que uma divindade que se manifesta na pura arbitrariedade.

10/09/07

Magia e Técnica

«Acabámos de dizer que a magia tende a assemelhar-se às técnicas, à medida que ela se individualizava e se especializava na persecução dos seus fins. Mas há, entre estas duas ordens de factos [magia e técnica], mais do que uma similitude exterior: há identidade de função, pois uma e outra, (…), tendem para os mesmos fins. Enquanto a religião tende para a metafísica e se absorve na criação de imagens ideais, a magia sai, por mil fissuras, da vida mística onde vai buscar as suas forças, para se misturar na vida laica e servi-la. Ela tende para o concreto, como a religião tende para o abstracto. Ela trabalha no mesmo sentido que trabalham as nossas técnicas, indústrias, medicina, química, mecânica, etc.» [Marcel Mauss, Teoria Geral da Magia – Conclusão]

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Se Marcel Mauss diz que a magia tende assemelhar-se à técnica, não se poderá inferir que a técnica se assemelha à magia? Melhor, que a técnica é uma forma de magia? Mas se for assim pensada, não encontramos uma base para explicar a capacidade de fascinar que a técnica possui? Esta capacidade de fascínio não reside tanto na paixão que a modernidade devota às possibilidades da técnica, mas no facto desta [isto é, das suas realizações] permanecer praticamente inquestionada.

Mas se se admitir a técnica como uma forma de magia, deveremos conduzir o inquérito mais longe. O que está na base da técnica? A ciência moderna. E o que está na base da ciência moderna? A lógica, o pensamento racional. Isso significa, então, que a ciência e o próprio pensamento racional ainda seriam modalidades do pensamento mágico. Argumentar-se-á que a indistinção entre pensamento mágico e pensamento racional não ajudará a explicar nem um nem outro. Talvez, mas não seria desinteressante explorar a comunidade que existirá entre eles. Uma coisa, porém, poderia encontrar um princípio de explicação na continuidade entre pensamento mágico e pensamento racional: o problema de um mundo racionalizado produzir fenómenos absolutamente irracionais. Por exemplo, o planeamento familiar conduzir à inexistência de famílias. Por exemplo, a racionalidade presente no extermínio dos judeus pelo nazismo. Por exemplo, a organização racional das instituições conduzir a formas de vida institucionais absolutamente inumanas.