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16/02/10

O livro do entardecer 40 - entardecer

não sei se o caminho é este
onde canto no silêncio
ou oiço a voz obscura da terra
a zunir num coro de cigarras
se é verão e transpiro de cansaço

não sei a porta por onde entrarás
vestida de vazio e dor
trazendo um vinho já amargo
a pele gasta pelo tempo
que te deixou ser rapariga

nada sei de caminhos e portas
nem de vozes a cantar no silêncio
sento-me na minha cadeira
e é tudo o que tenho para esperar
desde manhã até ao entardecer

15/02/10

O livro do entardecer 39 - carnaval

dançam dançam dançam
remadores do rio da morte
dançam braços pernas ao vento
à chuva pesada e fria
dançam na melancolia
dançam no inverno
corpos a baloiçar
a pender do patíbulo
enquanto a vida foge pelo mastro
de onde cristo algum ressuscitaria

14/02/10

O livro do entardecer 38 - nenhum sentido havia

nada sei desse nome soberano
sobre a vida se ergue
e um caminho de pedra rasga
onde tudo era água e areia
ou fogueira onde se aqueciam
as doces raparigas
junho as trazia no regaço

se era triste a tristeza
e o vento falava com a sua voz de sopro
nenhum sentido havia
a não ser o tempo a correr
enquanto o coração batia
aos frágeis indícios
de um inverno por anunciar

10/02/10

O livro do entardecer 37

a que distância ficam os teus olhos
se a noite cai
e tudo se cala
no fulgor da tempestade

a tardia luz
desce sobre ti
e os teus dedos
são uma colónia
de mágoa e esquecimento

09/02/10

O livro do entardecer 36 - ave

desfigura-se a casa onde
o coração poisou
a janela aberta
vidro partido
e a ave que um dia chegou
tem nas asas a força do vento

imóvel é uma sombra na parede
o desejo à espera do momento

08/02/10

O livro do entardecer 35

tínhamos a vida por diante
e um desprezo pelas horas
leve e fundo
o sono iluminado por archotes
e dos caminhos queríamos atalhos

éramos hóspedes e não o sabíamos
nem das fogueiras víamos a cinza
apenas o fulgor da eternidade
ou o leito para sempre o nosso

mãos nas mãos desfiamos agora quimeras
naturezas mortas

um rosário de sombra e esquecimento

07/02/10

O livro do entardecer 34 - cinza

uma monte de cinza
no umbral
as janelas de onde olhávamos
à espera de uma maçã
ou da noite que tudo cobrisse

descrevemos sempre o mundo
à espreita da súbita revelação
o fulgor de uma flor na encosta
o fátuo fogo de um olhar apaixonado
o revérbero que se desprende de um
para outro coração

06/02/10

O livro do entardecer 33 - queda

abandonamos aquilo que mais amamos
com a leviandade com que se afasta a infância
uma ilusão de árvore a crescer
algumas promessas na algibeira
sonhos exíguos
onde encaixotamos paixões

assim amadurecemos
até a putrefacção tornar as rosas
insuportáveis para o sofrimento
de quem nos vê cair

05/02/10

O livro do entardecer 32 – o que avança para nós

certas palavras chegam pela manhã
não para a anunciar as flores do dia
mas para esquecer o terror
que a noite deixou no olhar

com elas tomamos o mundo nas mãos
e navegamos sem rota ou destino
vigiamos as águas à espera
que o que avança para nós
se abeire dos olhos
como uma fotografia que ninguém vê

04/02/10

O livro do entardecer 31

esqueço tudo quando o verão chega
espreita para lá dos cedros
e traça com letra de fogo
uma ordem de rendição

a carne ainda sedenta de frio
entrega-se à dolência das tardes
sem incêndio nem esperança
apenas um desejo de sombra
desenhado no rosto de quem passa

oiço o mar como uma miragem
e vejo a exaltação do teu olhar
ali mesmo onde só a cinza avança

28/01/10

O livro do entardecer 30

uma cor de seda na voraz voz da verdade
animais sem eira pelas praças
carros suspensos a balançar ao vento
tudo crepita no teu olhar

deixas poisar cada pesadelo
no escuro da noite
paisagens azuis sulfurosas
brancas a arder no peito

as mãos entregam-se à urgência
na clareira onde tudo resplandece

frases desconexas o sangue exausto
a espádua rasgada da respiração crepita
como uma alma ressuscitada que desfalece

27/01/10

O livro do entardecer 29 - comércio de afectos

olhei agora para as ruas da cidade
gatos e homens dormiam
pelos bancos
perdidos do mundo
esquecidos de si

são imagens de papel sem história
respiram a vida a que ninguém
os chamou
signos da ausência
a que o comércio de afectos
sempre os habituou

26/01/10

O livro do entardecer 28 - as tuas mãos

olhava estradas e caminhos pela manhã
a quase dor a pairar silenciosa
pintada de água e sono
à luz sonâmbula das margens

pessoas animais promessas de vida
tudo a que nos convida a fatalidade da hora -
a camélia e o silêncio crescem
e um suspiro anuncia-lhes a morte
aberta sobre o meio-dia

pela primavera, quando as pétalas enlouqueciam
restos de inverno rescendiam a estátuas
o olhar de pedra sobre a boca
as tuas mãos – não mais as tomarei

25/01/10

O livro do entardecer 27

o excesso de azul no céu
fulgura a manhã que declina
e deixa que o brilho que te move
empalideça como a ilha de onde partimos
e a que não voltaremos

não preciso dessas confidências
basta-me estar sentado
e ver o tempo passar
no voo das gaivotas

cerra as pálpebras
há olhos a mais nos teus olhos
e eu já só sei as palavras
que me conduzem na cegueira

tudo se torna tão longe
a água que cai
a lua nova
o desejo que se esqueceu
de quanto desejou

24/01/10

O livro do entardecer 26 - alvo

de que boca bebo a água que mata
e me rouba as palavras
que tenho para dizer

não há inocência nesses lábios
nem sombras onde se oculte a voz –
é dessa cor a natureza que te coube
branca como a erva sob a geada
fria ao sol de agosto

sem casa ou bosque que te acolha
nem a flecha escura do desejo
de ti fará brando alvo

23/01/10

O livro do entardecer 25

pela sombria e táctil ilusão da infâmia
que glória desceu dos céus para te iluminar
que voz ecoou nos ermos campos da cidade

contra ti ergueu-se a espada em alvoroço
rasgou-te a carne e abocanhou a memória
para que entrasses vazia na noite

a reverberação que havias empalideceu
perdeste a certeza das rosas
e as asas caíram ao voares

contas agora nomes e crepúsculos
e um resíduo de dor é tudo
a que chamas alma

22/01/10

O livro do entardecer 24 - espera

sobre o sentimento
erguia madeixas de cabelos negros e frios
as mãos sujas suadas
sempre um ar de devastação

coleccionava naufrágios
havia neles uma beleza – dizia
e sentava-se olhando o poente
à espera que o inverno viesse
cobri-la com sal e solidão

20/01/10

O livro do entardecer 23 - palavras

acabaram-se as palavras
roídas pela astúcia dos dias –
chegavam e partiam
e acendiam a noite e as trevas
e o verde do mar
onde tudo então nascia

agora são apenas balbucios
trazidos pela inconstância do vento
ecoam exaustas e negras
mas não as oiço –
por dentro são ocas e frias
a sua verdade não vale o lamento

19/01/10

O livro do entardecer 22

e tudo crescia para além da esperança
o caminho costumado que te levava
um raio de sol na poeira
o cavalo na saliência do dia

se a primavera começava
esmagavas nas mãos as flores
e sentada de coração escalavrado
esperavas o fim do estio a chegar

17/01/10

O livro do entardecer 21 - o silêncio

o silêncio é um verão antigo
onde se guarda a memória
daquilo que então amámos
o olhar que se cruza contigo
um rosto que não teve história
a voz com que cantámos