23/06/09
22/06/09
Metamorfoses XLI
Olivier Messiaen - Quator pour la fin du temps
a cidade desfalece ao crepúsculocasas caídas ruínas vindas da terra jubilosa
a visão solar do casario ao longe
as árvores ressequidas pelo calor de junho
e o insuportável cristal a tudo deixa ver
um cheiro a urina seca vem das esquinas
aqui e ali miam gatos vadios pardos cansados
à luz dos candeeiros chega a liturgia da noite
ilumina as velhas paredes do castelo
onde cessaram de repente todos os combates
sigo com atenção o lento trabalho do bolor
um exército de cavaleiros azuis invade a laranja
delimita o território conquistado
traça universos de morte na madeira das casas
anuncia na língua dos profetas o porvir
entro num café ainda aberto as mesas vazias
no balcão estão copos sujos cascas de tremoços
– um súbito clarão atravessa a rua e logo um carro o segue –
a televisão grita no silêncio furioso da sala
e numa cadeira de fórmica o dono dormita babando-se
é tarde as cores esbatem-se num cinza matizado
das paredes das casas vêm ondas de calor
aqui e ali ouvem-se vozes e uma bicicleta passa
corta o ar quente e perde-se na curva ao entrar
nos meus olhos abertos para a cegueira que os contamina
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Jorge Carreira Maia
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De queda em queda...
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O exame de Matemática do 9.º ano
Continua a saga dos exames nacionais. Hoje foi a vez do exame de Matemática do 9.º ano. A tragédia do ensino em Portugal está contida na profunda divergência que as duas associações profissionais fazem da prova.
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Jorge Carreira Maia
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O nascimento da UDP em Torres Novas
Primeiro símbolo da UDPO núcleo UDP de Torres Novas nasce ligado a uma estrutura muito curiosa. No Entroncamento havia um grupo maoísta com certo peso (ainda se reflecte hoje na votação do BE) que não pertencia a nenhum dos grupos referidos anteriormente e estava organizado em torno do jornal Ribatejo na Luta. Desse grupo, havia gente com ligações ao IST, entre eles o José Manuel Alcobia, falecido há muito. Esse grupo participa na fundação da UDP, mas de forma autónoma, sem filiação em nenhum grupo "ml". Foi no contacto com essas pessoas, nomeadamente com um estudante do Técnico, e hoje professor na Universidade de Coimbra (aliás um tipo absolutamente notável, que tinha um Citroën 2 cavalos, que metia água por tudo o que era sítio, e possuía uma belíssima colecção de música clássica, com a qual me iniciei verdadeiramente nessa música), que estava destacado na região para fazer trabalho político (era assim que se falava na altura), que nasceu a UDP de Torres Novas. Ainda me lembro de quem foram os fundadores (quase tudo gente pouco mais do que imberbe), mas não vou referir nomes. Um deles era eu (também pouco mais do que imberbe). Refiro apenas que havia um professor da escola secundária (hoje, ES Maria Lamas) que também tinha sido formado pelo Técnico. Era na casa desse professor que decorriam as reuniões do partido. Depois, a UDP alugou uma sede em frente à antiga Tipografia Conde Marques. Não me recordo agora o nome da rua e o prédio já não existe. Às vezes, penso que alugaram a casa para sede da UDP com medo das ocupações, muito em moda na época. O preço da renda era 300 escudos, que foram pagos escrupulosamente, pelo menos até à altura em que saí. Mas as pessoas eram cordatas e honestas e o ímpeto revolucionário era mais fruto da época do que condição natural das pessoas, digo eu. Muitas dessas pessoas não têm, hoje em dia, nada a ver com essas opções do passado. Julgo que, como eu, abandonaram, com uma ou outra excepção, a política activa. Ideologicamente não sei onde se situam. Como é público e notório, eu não me situo, nem de perto nem de longe, nas proximidades daquilo que eram as minhas opções há mais de 30 anos. Nem sequer consigo dizer se há alguma linha de continuidade entre o Bloco de Esquerda local e o antigo núcleo da UDP.
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Sobre os militantes católicos
A minha memória não é efectivamente essa. É verdade que muitos militantes católicos se dividiram pelo PPD e pelo PS. Relativamente à UDP, não tenho essa impressão.
Para além do PSD e do PS, há uma franja enorme, entre jovens universitários e quadros operários católicos, que está na origem do MES (Movimento da Esquerda Socialista). Alguns desses militantes são pessoas notáveis e tiveram, e ainda têm, um papel político importante. Penso que também havia gente católica na FSP (Frente Socialista Popular) do Manuel Serra, uma cisão do PS, e na LUAR. É provável que também estivessem noutras organizações da extrema-esquerda, de que já não recordo o nome. Uma fatia deles terá ido para o PCP ou para o MDP-CDE, na altura.
Que memórias tenho eu sobre isso relativamente a Torres Novas? Eu não conhecia as organizações católicas (JOC e LOC) por dentro, mas conhecia as pessoas (naquele tempo, toda a gente conhecia toda a gente em TN). Os militantes católicos locais devem ter-se distribuído pelo PPD, pelo PS, claramente, pelo PCP (aliás, já antes do 25 de Abril havia uma cooperação local entre os jovens comunistas e os sectores católicos, isso eu conheço bem). Não tenho memória de ninguém dessa área católica na UDP, mas tenho no PRP (Partido Revolucionário do Proletariado). Julgo que o PRP, dirigido por Isabel do Carmo, tinha gente de extracção católica, mesmo a nível nacional. A nível local tinha de certeza.
Portanto, tanto quanto o meu conhecimento alcança, não havia ligação entre os militantes católicos e a UDP, mas não sei como era a nível nacional (nunca passei de um militante local), embora exista a referência do Padre Max, assassinado no norte, e do padre Martins Júnior, na Madeira. Mas julgo que essa presença de militantes católicos era excepcional, pois a UDP tinha uma forte e muito dogmática estrutura ideológica fundada nos princípios marxistas e no ateísmo. Veja-se o seu primeiro símbolo (no próximo post).
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21/06/09
Metamorfoses XL
Pierre Boulez: ...explosant-fixe...
avança avança sempre e sempre
um cheiro sortido o pus em combustão
o abecedário de letras moribundas
a pele rasgada o mato rasteiro queimado
e a sombra vinda do céu avança sempre
exército astucioso sem pálpebras
orelhas hirtas e vestes esfarrapadas
nada o detém na quietude da planície
nada o detém à porta das cidades
ouve-se o troar dos combates
os vidros partidos as janelas a sangrar
a roupa pendurada nas varandas
é agora uma visão a profecia deste sonho
de cães a uivar e anjos degolados
a árvore desfeita em cinza
o rosto de todas as mães apagado
da memória dos filhos imundos
o exército marcha sob a luz do tambor
avança sempre sem homens triunfal
canta uma canção de embalar
canta sem voz sem face sem dor canta
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Jorge Carreira Maia
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Da democracia cristã em Portugal
Leão XIIIA questão da democracia cristã em Portugal. Em Coimbra, foi criado em 1901 o CADC (Centro Académico de Democracia Cristã), inspirado na encíclica Rerum Novarum, publicada em 1891 pelo Papa Leão XIII. Fizeram parte do Centro, salvo erro, o Prof. Oliveira Salazar e o futuro Cardeal-Patriarca de Lisboa, Gonçalves Cerejeira. Com a ditadura, estes sectores cristãos são absorvidos pelo regime, juntamente com monárquicos anti-liberais e republicanos de direita. É a isto que Oliveira Salazar vai chamar União Nacional.
Continuaremos esta deambulação, com outras memórias, a partir do diálogo com o Zé Manel.
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20/06/09
Metamorfoses XXXIX
Henri Dutilleux – Ainsi la Nuit
alguém desenhou a lua nova
contra um céu de trevas
e deixou dentro da noite uma janela
de onde se olha a escuridão
foram levados os rebanhos
e na cidade roubaram o que havia
a garrafa partida
um candeeiro de cristal
o santo que perdera a devoção
apagaram as palavras
e o silêncio fulgurou como uma ave
na transparência do céu
não era uma ilha a mudez da noite
nem a plataforma continental
que em desvario se desloca
arremessando cidades pelo chão
apenas uma lua nova
a escurecer em fundo de trevas
quando nada há para dizer
as palavras em pó
a esclerose sobre os dedos
a abrir cáries nas ruas
feridas pelos jardins
e um grito ermo no lugar da solidão
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A tradição social-democrata
Mas esta origem burguesa-liberal e republicana do PS explica ainda uma outra coisa. Explica a actual evolução dos socialistas portugueses. Por um lado, adoptam políticas tipicamente de direita, mas devido à costela republicana original sentem uma necessidade constante de "revolucionar" a sociedade, tornando a vida infernal em todos os sectores a que decidem levar o seu iluminismo jacobino. De facto, é esta a raiz do PS, uma raiz republicana, burguesa, iluminista e jacobina. É isto que, ao combinar-se com certas castas universitárias, o torna insuportável e um factor de desagregação social.
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Marcadores: Política
Autoeuropa e um conflito político surdo
Havia qualquer coisa que não estava clara na minha cabeça. Ao ouvir que os trabalhadores da Autoeuropa tinham recusado o acordo negociado entre a Comissão de Trabalhadores, liderada pelo bloquista António Chora, e a Administração da empresa, a ideia que me passou logo foi a da influência do PCP nesta decisão. Mas no que li, que foi pouco, e na lógica das coisas, isso não era claro. Um decisão de ruptura deste género é mais a marca dos antigos partidos (UDP e PSR) que compõem o núcleo central Bloco de Esquerda do que do PCP, sempre mais responsável, negociador, menos dado a aventuras. A última página do Expresso de hoje mostra-me, porém, que a minha intuição estava certa. O peso dos sindicalistas da CGTP foi decisivo no chumbo do acordo
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As palavras alemãs
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19/06/09
Do "à socapa" à prestidigitação (2)
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Do "à socapa" à prestidigitação
O Público de hoje traz duas referências à natureza da política educativa dirigida por Maria de Lurdes Rodrigues. Comecemos pela última página e pela secção "Sobe e desce". A Maria de Lurdes Rodrigues foi atribuída uma seta para baixo, e o texto diz tudo: "Não é transparente nem honesto que o Ministério da Educação altere à socapa, no seu site, o enunciado de um exame que entregou com um erro aos alunos." É preciso, porém, lembrar de que este "à socapa" está na génese da política educativa deste governo. Se se ler hoje o programa que o PS apresentou em 2005 a sufrágio (pp. 44 e seguintes), percebe-se que muito do que aconteceu nas escolas está lá, mas "à socapa". Está apresentado de uma forma geral sem que seja possível deduzir quais as acções concretas que serão tomadas. Com o mesmo programa poder-se-ia fazer coisas diametralmente opostas. Esta má-fé política constitui o fundamento da acção governativa a nível da educação. O truque com a prova de Biologia é apenas um pequeníssimo exemplo de uma atitude geral do partido do governo na área educativa.
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Jornal Torrejano, 19 de Junho de 2009
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Reflexões sobre a liberdade
Enquanto quiserdes viver plenamente autónomos, como senhores absolutos, sem mesmo um deus para vos dar ordens, vivereis fatalmente como escravos ou como membro isolado de uma organização qualquer. Paradoxalmente, é ao aceitar Deus que vos tornareis livres e libertos da tirania humana, pois quando O servirdes, o vosso espírito não mais se transvia na servidão. Deus não convidou os filhos de Israel a abandonar a servidão no Egipto; Ele ordenou-lhes que o fizessem. (Thomas Merton, Semences de Contemplation)
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Este texto de Merton tem o poder de mostrar duas coisas essenciais da nossa cultura ocidental. Em primeiro lugar, a filiação da liberdade na tradição religiosa judaico-cristã. E a liberdade não deve ser aqui entendida na visão dualista da liberdade negativa - liberdade positiva, herdada da reflexão de Isaiah Berlin e, de certa forma, da tradição liberal (cf artigo da Stanford Encyclopedia of Philosophy, onde é feita uma exposição aturada dos dois conceitos e a sua discussão), mas a liberdade como acto de libertação e de emancipação. O que surpreendemos no texto é o devir histórico do ser livre, mas um devir histórico que é, curiosamente e ao mesmo tempo, pré-político e político. É pré-político no sentido que tem um cunho religioso e a liberdade vem da relação com o absoluto que emancipa e liberta da servidão perante as coisas relativas. É político pois a imagem da libertação do povo de Israel do cativeiro está ligada à separação de uma comunidade política, a do Egipro, e à formação de outra comunidade política, neste caso de uma Teocracia.
Merton mostra ainda uma outra coisa, um estranho paradoxo: a liberdade nasce de uma injunção exterior. Não nasce da deliberação e do livre-arbítrio do indivíduo, mas da ordem que Deus dá ao povo de Israel: deixai de ser escravos! Esta injunção à liberdade, exterior à consciência, evidencia a complexidade da temática da liberdade consubstanciada na dialéctica da autonomia e da obediência. Ordenam-me que seja livre. Só chegarei à liberdade se obedecer à injunção divina. Este paradoxo fascinou os filósofos e está presente, por exemplo, na moral kantiana onde, em última instância, a única coisa que está em jogo é o tornar-me livre, o realizar a liberdade, facto que me é ordenado através de um imperativo formal e categórico. Ou então na filosofia moral de Sartre onde a liberdade é ressentida como uma condenação, estou condenado a ser livre.
Esta dialéctica da obediência e da autonomia que institui a liberdade só podia ser sentida pela consciência humana como algo divino. O mundo natural, o curso natural das coisas, está submetido à férrea necessidade (a cadeia causal dos acontecimentos que são regulados pelas leis naturais) ou o acaso. Em ambos, na necessidade e no acaso, não há liberdade. Esta é radicalmente estranha à ordem natural das coisas, mesmo das coisas humanas. É essa estranheza que o Antigo Testamento, no livro do Êxodo, capta em linguagem religiosa, como se a desmesura da liberdade só pudesse chegar aos homens por uma ordem de Deus.
Toda esta dimensão da reflexão sobre a liberdade é, lógica e ontologicamente, anterior à problemática da liberdade negativa e da liberdade positiva, sendo a primeira entendida como ausência de coacção, barreiras e obstáculos, e a segunda, a liberdade positiva, entendida como possibilidade de agir autonomamente e realizar os seus objectivos fundamentais. Tanto num caso como no outro, há que considerar um devir da liberdade, um tornar-se livre, mas um tornar-se livre obedecendo a uma injunção. Fica a questão seguinte: os perigos, apontados pela tradição liberal à liberdade positiva, não estarão ligados a este paradoxo originário da liberdade, à perversão da injunção originária, à transição da ordem de Deus para uma ordem colectiva, onde o colectivo é visto como totalidade orgânica onde se dissolvem, na obediência puramente humana, as liberdades individuais?
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18/06/09
Metamorfoses XXXVIII
Krzysztof Penderecki – Sextet
dançam ao som da tempestade
e bebem até o corpo se dissolver
levado pelos últimos raios de sol
não pagam a taça erguida à memória
que dos céus revoltosos se desprende
e gritam se lhes arde o corpo iluminado
por algum relâmpago vindo do outro lado
não sabem o preço da servidão
nem do destino a cor que se pega à alma
apenas do corpo escorre um sangue esverdeado
inunda o chão vai por baixo das portas
na rua é um lago onde adormecem os barcos
dançam incrédulos sob a luz da ignorância
e lá fora os deuses trovejam cólera
um imposto de sangue está em dívida
e à luz intermitente que vem dos céus
avançam altivos pés ligeiros faces iradas
incendeiam os campos de trigo
lançam sobre as vinhas o granizo
semeiam epidemias nos rebanhos adormecidos
e dançam os homens no crepúsculo infestado
dançam como se dormissem ao beber
os pés no chão o corpo fremente as mãos pelo ar
dançam ao som dos carros de combate
dançam na luz sobrenatural que cai
dançam na noite que chega vinda do mar
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Da arte de cumprimentar
Depois de o Zé Ricardo ter escrito isto e isto, espero não lhe retirar matéria para nova incursão na sociologia das relações interpessoais, digamos assim. Um tormentoso problema atravessa certas áreas da sociedade portuguesa. Como cumprimentar, com um ou dois beijos? Consta que a tradição dos dois beijos é de influência francófona, que se teria disseminado nas aristocracias ibéricas. O problema dos dois beijos reside na sua popularização e, hoje em dia, não há cão nem gato que não use dois beijos para saudar alguém do sexo oposto. As famílias aristocráticas, refugiadas em Inglaterra durante as guerras liberais, trouxeram para cá a forma de cumprimentar seca e rápida dos círculos aristocráticos ingleses onde se moviam, um beijo. É este cumprimento que agora começa, também ele, a democratizar-se. Contrariamente ao que pensa uma certa casta social que julga diferenciar-se do poviléu pelo facto de se saudar apenas com um beijo em vez da popularizada e democrática saudação com dois, a sua forma de cumprimento está irremediavelmente contaminada pela mimésis popular. Há muito que o beijo único na face deixou de fazer parte de círculos restritos e caiu nas mãos, quero dizer nas faces, dos que gostam de macaquear as famílias bem. Daqui até ao uso generalizado é um passo.
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17/06/09
Metamorfoses XXXVII
Sofia Gubaidulina - In Tempus Praesens
o sossego das tardes de verão
a tinta a escorrer pela parede
e as mãos sujas de chumbo
oiço trovejar ao longe
os vidros abanam
anunciam a tempestade
alguém se esconde num telheiro
a tudo isso chamo mundo
e ele desaba no meu olhar
com o silvo de uma palavra
que se despedaça
rasga-se em sílabas
mostra o esqueleto
os ossos polidos
a carne devorada pelas moscas
da água escura vem um presságio
o jardim das camélias incendiado
o barco que se afunda
na volúpia do rio
a ruína da casa onde te ouvia
o sossego das tardes de verão
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Juízes e futebol
A propósito disto, também fiquei ontem perplexo. Aquela cara não me era desconhecida, mas eu nem queria acreditar. A princípio cheguei a pensar que era o Emídio Rangel, o homem do jornalismo. Mas não, era mesmo o juiz Rui Rangel. Não é de agora que os juízes se imiscuem no futebol. Mas depois de toda a sociedade ter compreendido que o mundo do futebol está longe de ser uma coisa recomendável, nem que seja pelo carácter absoluto das paixões clubísticas, não seria de bom senso que juízes ou magistrados não interferissem nas coisas da bola, e que moderassem absolutamente as suas paixões clubísticas? Como pode o cidadão comum acreditar na justiça que se faz nos casos do futebol? Não pode. Aos olhos da opinião pública, o que sepassa nos estádios é transferido directamente para as salas de audiência.
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Jorge Carreira Maia
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