23/06/09

Os balanços da senhora ministra


A senhora ministra da Educação faz balanço positivo da época de exames e congratula-se com o profissionalismo das partes envolvidas. É comovente tanta atenção e tanta motivação positiva dispensada às partes. Parece que vamos ter resultados bons, o que será já uma consolidação do trabalho vindo do ano passado.

O que eu não percebo é a estratégia tão arrevesada seguida para atingir tão nobres fins. No fundo, fazer novo estatuto da carreira docente, ter que suportar greves e manifestações a roçar a unanimidade albanesa do professorado foi um suplício desnecessário. Bastava a senhora ministra ter orientado politicamente a política de exames como orientou e ter ameaçado os professores com a sua responsabilização pelo facto dos alunos não quererem estudar. Os resultados seriam os que vamos ter, brilhantes, e não haveria tanto cansaço e tanto desgaste político.

Os pais que interessam, aqueles que têm dinheiro e vivem em Lisboa e Porto, há muito que têm os filhos nos colégios privados e não são afectados pelas políticas da senhora ministra. Os outros têm direito ao sucesso nas notas. Contentem-se com isso. Que os filhos tenham um bom ensino não está inscrito na carta dos seus direitos. As boas universidades, as que exigem conhecimento, não são para os filhos deles.

Como professor há uma coisa, porém, que não me deixa de intrigar. Se compararmos os actuais exames com os anteriores, verificamos que os maus resultados que havia não se deviam aos professores, mas às equipas de exames que faziam provas demasiado difíceis para os alunos. Não compreendo como é que essas equipas não foram duramente castigadas e por que motivo se perseguiu e vilipendiou na praça pública toda a classe docente. Afinal, a culpa não era dos professores. Há sempre qualquer coisa na lógica deste Ministério da Educação que me escapa.

22/06/09

Metamorfoses XLI

Olivier Messiaen - Quator pour la fin du temps

a cidade desfalece ao crepúsculo
casas caídas ruínas vindas da terra jubilosa
a visão solar do casario ao longe
as árvores ressequidas pelo calor de junho
e o insuportável cristal a tudo deixa ver

um cheiro a urina seca vem das esquinas
aqui e ali miam gatos vadios pardos cansados
à luz dos candeeiros chega a liturgia da noite
ilumina as velhas paredes do castelo
onde cessaram de repente todos os combates

sigo com atenção o lento trabalho do bolor
um exército de cavaleiros azuis invade a laranja
delimita o território conquistado
traça universos de morte na madeira das casas
anuncia na língua dos profetas o porvir

entro num café ainda aberto as mesas vazias
no balcão estão copos sujos cascas de tremoços
– um súbito clarão atravessa a rua e logo um carro o segue –
a televisão grita no silêncio furioso da sala
e numa cadeira de fórmica o dono dormita babando-se

é tarde as cores esbatem-se num cinza matizado
das paredes das casas vêm ondas de calor
aqui e ali ouvem-se vozes e uma bicicleta passa
corta o ar quente e perde-se na curva ao entrar
nos meus olhos abertos para a cegueira que os contamina



De queda em queda...


Mas o que é que se passa no Benfica? Quem são estes figurões? Como é que o maior e mais importante clube de Portugal chegou aqui?

O exame de Matemática do 9.º ano

Continua a saga dos exames nacionais. Hoje foi a vez do exame de Matemática do 9.º ano. A tragédia do ensino em Portugal está contida na profunda divergência que as duas associações profissionais fazem da prova.


Já a Sociedade Portuguesa de Matemática acha que a prova é absolutamente elementar:

" 1. Após análise ao Exame do 9º ano hoje efectuado, a SPM verifica que o nível geral da prova é de novo demasiado elementar. O exame destina-se a alunos no final da escolaridade obrigatória. Após nove anos de ensino de matemática exigir-se-ia um maior grau de dificuldade.
2. Logo na pergunta 1, pede-se a média aritmética de três números: 382, 523 e 508. A facilitar ainda os cálculos, que são triviais na posse da calculadora permitida nesta prova, fornece-se a soma (1413) — é uma questão do 6.º ano de escolaridade. Na pergunta 5, pede-se ao aluno que leia valores num gráfico simples. Após leitura desses dados pede-se que calcule o valor de 100 euros em libras, sendo sabido quantas libras vale um euro. A pergunta 6 está ao nível do 3.º ano de escolaridade. Na pergunta 7, pede-se para identificar um sistema de duas equações a duas incógnitas que nem se pede para resolver.
3. Em quase todas as perguntas, os conceitos são testados com exemplos demasiado elementares. Os cálculos são todos muito simples, a equação do segundo grau é trivial, para mais sendo fornecida a fórmula resolvente, e os exemplos de geometria são demasiado directos.
4. Não há problema algum em introduzir num exame perguntas de anos anteriores ou de grau de dificuldade baixo. O que é prejudicial é que um número exagerado de perguntas corresponda a tópicos que deveriam estar sabidos anos antes e que todas ou quase todas as perguntas tenham um grau de dificuldade muito baixo. 5. Grande parte da matéria essencial do 9.º ano de escolaridade não foi coberta por esta prova. É o caso da resolução de inequações, sistemas e equações literais, multiplicação de polinómios, intervalos de números reais, proporcionalidade inversa e igualdade ou semelhança de triângulos.
6. Tanto professores como alunos que se empenharam durante estes anos lectivos sentem-se desacompanhados e desapoiados com esta prova. O que exames deste tipo transmitem é a ideia de que não vale a pena estudar mais do que as partes triviais das matérias. Tanto os jovens que prosseguem os seus estudos no Secundário como os que terminam aqui a sua escolaridade não podem concluir estar bem preparados pelo facto de conseguirem um resultado satisfatório neste exame.
7. Pode pensar-se que provas elementares têm a vantagem de ajudar a perceber que as questões matemáticas não são intransponíveis. Mas estabelecer patamares demasiado baixos, em vez de incentivar a mais estudo e mais conhecimento, acaba por prejudicar todos — tanto os melhores, que se sentem desincentivados, como os menos treinados, que sentem menos necessidade de trabalhar para aumentar o seu domínio das matérias. Em suma, uma prova demasiado elementar como esta não serve o progresso do ensino. Pelo contrário, cria precedentes difíceis de contrariar.
8. A matemática é uma das matérias mais importantes para a formação dos nossos técnicos e dos cidadãos do futuro. Estamos no século XXI. É urgente formar técnicos competentes, capazes de competir num mercado internacionalizado e numa economia em que o conhecimento tem uma importância cada vez maior.
"

Nem vou comentar. O leitor perceberá as intencionalidades das várias partes em conflito. Pobre país.

O nascimento da UDP em Torres Novas

Primeiro símbolo da UDP

Continuando com o exercício de memória política: como nasce da UDP em Torres Novas? Antes, um pouco de história da organização. Tanto quanto me recordo, a UDP nasce da confluência de três grupos “m-l” (marxistas-leninistas), de orientação maoísta. São eles, o CARP-ML (Comités de Apoio à Reconstrução do Partido- Marxista Leninista), fundado em 1973, e que tinha militantes como Francisco Martins Rodrigues, João Pulido Valente e Rui d’Epinay, o CCRML (Comités Comunistas Revolucionários Marxistas Leninistas), fundado em 1969, e onde se podiam encontrar como militantes João Bernardo (um grande teórico da extrema-esquerda), Acácio Barreiros, Mariano Gago e Jorge Coelho (sim, esses mesmos), e a URML (Unidade Revolucionária Marxista Leninista), fundada em 1971. São este três grupos que dão origem à UDP em finais do ano de 1974. Não vejo aqui, prolongando a conversa do post anterior, qualquer presença dos grupos católicos. Mas descortina-se a presença de muitos estudantes ligados ao Instituto Superior Técnico, também antigos quadros do CMLP (Comité Marxista Leninista Português), resultante da cisão original no PCP dos maoístas portugueses.

O núcleo UDP de Torres Novas nasce ligado a uma estrutura muito curiosa. No Entroncamento havia um grupo maoísta com certo peso (ainda se reflecte hoje na votação do BE) que não pertencia a nenhum dos grupos referidos anteriormente e estava organizado em torno do jornal Ribatejo na Luta. Desse grupo, havia gente com ligações ao IST, entre eles o José Manuel Alcobia, falecido há muito. Esse grupo participa na fundação da UDP, mas de forma autónoma, sem filiação em nenhum grupo "ml". Foi no contacto com essas pessoas, nomeadamente com um estudante do Técnico, e hoje professor na Universidade de Coimbra (aliás um tipo absolutamente notável, que tinha um Citroën 2 cavalos, que metia água por tudo o que era sítio, e possuía uma belíssima colecção de música clássica, com a qual me iniciei verdadeiramente nessa música), que estava destacado na região para fazer trabalho político (era assim que se falava na altura), que nasceu a UDP de Torres Novas. Ainda me lembro de quem foram os fundadores (quase tudo gente pouco mais do que imberbe), mas não vou referir nomes. Um deles era eu (também pouco mais do que imberbe). Refiro apenas que havia um professor da escola secundária (hoje, ES Maria Lamas) que também tinha sido formado pelo Técnico. Era na casa desse professor que decorriam as reuniões do partido. Depois, a UDP alugou uma sede em frente à antiga Tipografia Conde Marques. Não me recordo agora o nome da rua e o prédio já não existe. Às vezes, penso que alugaram a casa para sede da UDP com medo das ocupações, muito em moda na época. O preço da renda era 300 escudos, que foram pagos escrupulosamente, pelo menos até à altura em que saí. Mas as pessoas eram cordatas e honestas e o ímpeto revolucionário era mais fruto da época do que condição natural das pessoas, digo eu. Muitas dessas pessoas não têm, hoje em dia, nada a ver com essas opções do passado. Julgo que, como eu, abandonaram, com uma ou outra excepção, a política activa. Ideologicamente não sei onde se situam. Como é público e notório, eu não me situo, nem de perto nem de longe, nas proximidades daquilo que eram as minhas opções há mais de 30 anos. Nem sequer consigo dizer se há alguma linha de continuidade entre o Bloco de Esquerda local e o antigo núcleo da UDP.

Sobre os militantes católicos

Liga Operária Católica


Aproveito a converso com o Zé Manel, e um comentário anterior, para retornar à questão dos militantes católicos. Diz: “Os militantes desta corrente de pensamento dividiram-se em 1974 pelo PSD, pelo PS e até curiosamente pela UDP (que tinha uma grande influência na LOC).”

A minha memória não é efectivamente essa. É verdade que muitos militantes católicos se dividiram pelo PPD e pelo PS. Relativamente à UDP, não tenho essa impressão.

Para além do PSD e do PS, há uma franja enorme, entre jovens universitários e quadros operários católicos, que está na origem do MES (Movimento da Esquerda Socialista). Alguns desses militantes são pessoas notáveis e tiveram, e ainda têm, um papel político importante. Penso que também havia gente católica na FSP (Frente Socialista Popular) do Manuel Serra, uma cisão do PS, e na LUAR. É provável que também estivessem noutras organizações da extrema-esquerda, de que já não recordo o nome. Uma fatia deles terá ido para o PCP ou para o MDP-CDE, na altura.

Que memórias tenho eu sobre isso relativamente a Torres Novas? Eu não conhecia as organizações católicas (JOC e LOC) por dentro, mas conhecia as pessoas (naquele tempo, toda a gente conhecia toda a gente em TN). Os militantes católicos locais devem ter-se distribuído pelo PPD, pelo PS, claramente, pelo PCP (aliás, já antes do 25 de Abril havia uma cooperação local entre os jovens comunistas e os sectores católicos, isso eu conheço bem). Não tenho memória de ninguém dessa área católica na UDP, mas tenho no PRP (Partido Revolucionário do Proletariado). Julgo que o PRP, dirigido por Isabel do Carmo, tinha gente de extracção católica, mesmo a nível nacional. A nível local tinha de certeza.

Portanto, tanto quanto o meu conhecimento alcança, não havia ligação entre os militantes católicos e a UDP, mas não sei como era a nível nacional (nunca passei de um militante local), embora exista a referência do Padre Max, assassinado no norte, e do padre Martins Júnior, na Madeira. Mas julgo que essa presença de militantes católicos era excepcional, pois a UDP tinha uma forte e muito dogmática estrutura ideológica fundada nos princípios marxistas e no ateísmo. Veja-se o seu primeiro símbolo (no próximo post).

21/06/09

Metamorfoses XL

Pierre Boulez: ...explosant-fixe...

avança avança sempre e sempre
um cheiro sortido o pus em combustão
o abecedário de letras moribundas
a pele rasgada o mato rasteiro queimado
e a sombra vinda do céu avança sempre
exército astucioso sem pálpebras
orelhas hirtas e vestes esfarrapadas

nada o detém na quietude da planície
nada o detém à porta das cidades
ouve-se o troar dos combates
os vidros partidos as janelas a sangrar
a roupa pendurada nas varandas
é agora uma visão a profecia deste sonho
de cães a uivar e anjos degolados

a árvore desfeita em cinza
o rosto de todas as mães apagado
da memória dos filhos imundos
o exército marcha sob a luz do tambor
avança sempre sem homens triunfal
canta uma canção de embalar
canta sem voz sem face sem dor canta

Da democracia cristã em Portugal

Leão XIII

Continuemos a conversa com o Zé Manel, do Canhotices, a propósito de duas postagens e respectivos comentários do averomundo (esta e esta). Algumas indicações históricas fundadas na memória pessoal, em leituras diversas, e não na investigação científica.

A questão da democracia cristã em Portugal. Em Coimbra, foi criado em 1901 o CADC (Centro Académico de Democracia Cristã), inspirado na encíclica Rerum Novarum, publicada em 1891 pelo Papa Leão XIII. Fizeram parte do Centro, salvo erro, o Prof. Oliveira Salazar e o futuro Cardeal-Patriarca de Lisboa, Gonçalves Cerejeira. Com a ditadura, estes sectores cristãos são absorvidos pelo regime, juntamente com monárquicos anti-liberais e republicanos de direita. É a isto que Oliveira Salazar vai chamar União Nacional.

A democracia cristã hibernou em Portugal durante a ditadura, embora a partir dos anos sessenta houvesse núcleos católicos que, inspirando-se na doutrina social da Igreja, contestavam o regime. A revista o Tempo e o Modo, posteriormente tomada pelo MRPP, teve aí a sua origem. Nomes como Alçada Batista, Bénard da Costa, M. S. Lourenço, José Escada, etc. são preponderantes nesse movimento. Também dentro dessa inspiração encontramos o grande poeta Ruy Belo.

Com o 25 de Abril, nasceram muitos partidos e pelo menos dois reclamavam-se da democracia-cristã. O PDC (Partido da Democracia-Cristã) de Silva Resende e Sanches Osório, partido menor e claramente à direita e sem relação com a tradição centrista de esquerda da democracia-cristã europeia, mas que ainda teve alguma visibilidade nos anos quentes da revolução, onde chegou a ser proibido.

Nasceu também o CDS (Partido do Centro Democrático Social) que, também ele, reivindica a ideologia da democracia cristã. O papel do CDS na revolução está envolto na ganga ideológica e conflitual da altura, mas hoje começa a ser possível perceber algumas coisas. Em primeiro lugar, o núcleo original do CDS é claramente centrista, com certos laivos à esquerda, e democrata-cristão. Se na altura, quando se olhava da esquerda ou da extrema-esquerda, se via o CDS como um partido quase fascista, isso devia-se à cegueira ideológica que os anos quentes da revolução semearam em todos nós. O CDS tinha de facto uma elite política notável (Freitas do Amaral, Lucas Pires, Adriano Moreira, Basílio Horta, Amaro da Costa, Vítor Sá Machado, Rui Pena (torrejano, segundo julgo), etc.), mas não de direita. Não é por acaso que muitos dos seus dirigentes, incluindo o pai fundador, Diogo Freitas do Amaral, acabaram por se cruzar com o Partido Socialista.

O papel do CDS na revolução foi o de integrar as franjas mais conservadoras da sociedade portuguesa, uma sociedade ainda bastante ruralizada e arcaica, apesar do crescimento industrial dos anos 60 e 70, na democracia. Há que reconhecer, hoje em dia, que o CDS o fez com elevada competência. Apesar de não ter votado a constituição de 76, o CDS manteve dentro do regime e da vida democrática sectores sociais importantes que estavam amarrados à ditadura. Havia, de facto, um “abismo” entre a notável e esclarecida elite partidária e a massa eleitoral, sendo esta muita mais direitista que aquela. Esse papel importante teve como consequência tornar o CDS, agora também PP, naquilo que é hoje, um partido médio, ideologicamente inconsistente, onde não encontramos já, embora isso seja comum aos outros partidos, o nível intelectual e político que as suas primeiras elites apresentavam.

Em resumo, podemos dizer que a democracia cristã em Portugal sacrificou-se duas vezes. A primeira vez, sacrificou-se dissolvendo-se dentro do regime autoritário de Salazar. A segunda vez, sacrificou-se para mediar a entrada dos sectores mais conservadores da sociedade dentro do regime democrático. Se o primeiro sacrifício é desprezível, o segundo é amplamente meritório e talvez seja isso que, inconscientemente, certos sectores da direita portuguesa não perdoam a Diogo Freitas do Amaral, personagem incontornável na consolidação da democracia portuguesa.

Hoje, como se pode constatar, não existe nenhuma corrente credível da democracia cristã em Portugal. Isso deve-se, por certo, aos sacrifícios que apontámos atrás e ainda à crise das ideologias. Mas haverá outras razões, nomeadamente sociológicas. Um exemplo. Que impacto poderia ter em Portugal, um país tão pouco industrializado, a encíclica de Leão XIII? Apenas nos sectores intelectuais católicos. A Rerum Novarum dirigia-se ao mundo operário, era uma tentativa da Igreja não perder esse mundo para o marxismo e o ateísmo. Só bem mais tarde a inspiração dessa encíclica pôde fermentar nos sectores operários portugueses, mas a ditadura não deu possibilidades de se formar um autêntico pensamento político democrata-cristão. Como não tivemos social-democracia, também não tivemos democracia-cristã como a europeia, nomeadamente como a que existia em Itália (onde acabou muito mal, apesar de ter começado muito bem) e na Alemanha (onde continua de boa saúde).

Continuaremos esta deambulação, com outras memórias, a partir do diálogo com o Zé Manel.

20/06/09

Metamorfoses XXXIX

Henri Dutilleux – Ainsi la Nuit

alguém desenhou a lua nova
contra um céu de trevas
e deixou dentro da noite uma janela
de onde se olha a escuridão

foram levados os rebanhos
e na cidade roubaram o que havia
a garrafa partida
um candeeiro de cristal
o santo que perdera a devoção

apagaram as palavras
e o silêncio fulgurou como uma ave
na transparência do céu

não era uma ilha a mudez da noite
nem a plataforma continental
que em desvario se desloca
arremessando cidades pelo chão

apenas uma lua nova
a escurecer em fundo de trevas
quando nada há para dizer
as palavras em pó
a esclerose sobre os dedos
a abrir cáries nas ruas
feridas pelos jardins
e um grito ermo no lugar da solidão

A tradição social-democrata

Stalin, Lenin e Kalinin dirigentes do Partido Operário Social-Democrata Russo

A propósito do comentário feito pelo Zé Manel ao post anterior, fundamentalmente à ausência de representantes do Partido Socialista nos conflitos laborais, vale a pena olhar para a tradição social-democrata portuguesa. O que acontece, e isso talvez seja o essencial, é que não existe nenhuma tradição social-democrata em Portugal.

A social-democracia europeia tem a sua fundação no movimento operário do século XIX, na denominada II Internacional. Os partidos social-democratas (chamando-se social-democratas, socialistas ou trabalhistas) são, originariamente, partidos revolucionários que, a partir de determinada altura, se tornam reformistas e acabam por se transformar num dos pilares do sistema político europeu no século XX. O seu núcleo de apoio essencial residiu nos sindicatos (veja-se, por exemplo, o caso inglês e o caso alemão).

Em Portugal, porém, nada disto aconteceu. Houve, nos finais de século XIX, um Partido Socialista, mas com pouquíssima influência, ainda por cima num país excessivamente rural e com uma indústria incipiente. O movimento operário português, até aos anos 30 de século XX, é mais representado pelo anarquismo do que pela social-democracia. Depois, é o Partido Comunista que assume um papel de representação política do mundo operário.

O actual Partido Socialista nasce não do movimento operário, mas de elementos provenientes da tradição republicana e burguesa, nomeadamente de certos sectores da advocacia e de outras profissões liberais. Esta origem burguesa-liberal do PS explica a profunda incapacidade do partido penetrar no mundo laboral. A própria UGT, controlada pelo PS, foi uma criação pós-25 de Abril e pouca influência tinha ou tem no mundo operário.


Mas esta origem burguesa-liberal e republicana do PS explica ainda uma outra coisa. Explica a actual evolução dos socialistas portugueses. Por um lado, adoptam políticas tipicamente de direita, mas devido à costela republicana original sentem uma necessidade constante de "revolucionar" a sociedade, tornando a vida infernal em todos os sectores a que decidem levar o seu iluminismo jacobino. De facto, é esta a raiz do PS, uma raiz republicana, burguesa, iluminista e jacobina. É isto que, ao combinar-se com certas castas universitárias, o torna insuportável e um factor de desagregação social.

Autoeuropa e um conflito político surdo

Havia qualquer coisa que não estava clara na minha cabeça. Ao ouvir que os trabalhadores da Autoeuropa tinham recusado o acordo negociado entre a Comissão de Trabalhadores, liderada pelo bloquista António Chora, e a Administração da empresa, a ideia que me passou logo foi a da influência do PCP nesta decisão. Mas no que li, que foi pouco, e na lógica das coisas, isso não era claro. Um decisão de ruptura deste género é mais a marca dos antigos partidos (UDP e PSR) que compõem o núcleo central Bloco de Esquerda do que do PCP, sempre mais responsável, negociador, menos dado a aventuras. A última página do Expresso de hoje mostra-me, porém, que a minha intuição estava certa. O peso dos sindicalistas da CGTP foi decisivo no chumbo do acordo

Em torno deste pré-acordo e da sua rejeição parece travar-se, ainda que por interposta motivação (a da defesa dos trabalhadores e dos seus direitos), um duro conflito entre o BE e o PCP. A posição de António Chora representa a típica atitude da esquerda social-democrata, que reinou durante muito tempo na Alemanha Federal. Uma atitude ponderada e equilibrada, uma atitude onde já não se inscreve a destruição do capitalismo, mas da instauração de um regime de intercomunicação entre partes que, tendo interesses divergentes, não são compreendidas como mortalmente opostas. A manobra da CGTP, escorada na necessidade de defender conquistas adquiridas, visa mostrar o carácter não revolucionário dos homens ou do homem do BE. Define de forma clara e transparente, ao escolher o conflito em lugar da negociação, perante a classe operária quem é o partido revolucionário e quem são os reformistas.

Mas a parada tornou-se demasiado alta. Se a Administração despedir mesmo os 250 trabalhadores contratados? Quem será responsável pela sua transformação em vítimas sacrificiais e subsequente imolação aos interesses da estratégia revolucionária? Os partidos comunistas, por norma, têm uma longa tradição de luta sabem até onde podem levar os conflitos sem que sejam conduzidos a um desastre, mas também têm uma longa tradição de sacrificar gente à sua estratégia política.

Em tudo isto, porém, há qualquer coisa anacrónica. Conflitos como este, entre sectores da esquerda, foram muitos nos anos quentes do pós 25 de Abril, embora o PCP tivesse uma posição mais social-democratizante e os pré-BE mais radicalizada. O problema é que as condições geopolíticas são completamente diferentes. De facto, neste momento, não há dois mundos possíveis, o capitalismo e o socialismo. Este morreu por incompetência. Há apenas o capitalismo, cuja crise parece servir apenas para mostrar a sua força. Nestas circunstâncias, o caminho reformista fundado na comunicação e diálogo talvez seja o mais sensato. Veremos o que nos vai ensinar o futro da Autoeuropa em Portugal. Veremos se não vamos jogar no lixo uma empresa fundamental à economia do país.

As palavras alemãs


As palavras alemãs pendem da língua alemã como pesos de chumbo, disse eu a Gambetti, e fazem o espírito baixar, em qualquer caso, para um nível pernicioso a esse mesmo espírito. O pensar alemão, tal como o falar alemão paralisam rapidamente sob o fardo desumano da sua língua, que reprime tudo o que é pensado ainda antes de chegar a ser expresso; com a língua alemã, o pensamento alemão só dificilmente se conseguiu desenvolver e nunca atingiu a sua plena floração, ao contrário do pensamento românico com as línguas românicas, como prova a história dos esforços seculares dos Alemães. Embora eu tenha em mais apreço o espanhol, provavelmente porque me é mais familiar, Gambetti deu-me nessa manhã mais uma preciosa lição sobre a fluidez, a leveza e a infinidade do italiano, que está para o alemão como uma criança duma família feliz e abastada, que cresceu inteiramente livre, para uma que foi oprimida, espancada e se tornou, por isso, aleivosa, nascida de gente pobre ou paupérrima. Muito mais apreciadas devem ser, portanto, disse eu a Gambetti, as obras que os nossos filósofos e escritores conseguiram realizar. Cada palavra, disse eu, puxa forçosamente o seu pensamento para baixo, cada frase, seja o que for que eles se tenham atrevido a pensar, pende para o chão e assim faz cair sempre tudo no chão. Por isso, é também a sua filosofia e é também o que eles escrevem como se fossem de chumbo. [Thomas Bernhard, Extinção]

19/06/09

Do "à socapa" à prestidigitação (2)

Quando se ouve isto, não deveríamos parar todos para pensar? O que pretende este governo quando permite que todos os dias venham alunos para a televisão rir-se do grau de dificuldade dos exames? Não seria menos confrangedor acabar já com os exames? Não seria mais honesto, no acto da matrícula no 1.º ano, combinar com a família que diploma se vai entregar à criança no fim dos 12 ou 15 ou 17 anos de escolaridade? Então, o menino João vai ser mestre em quê? Mestre em engenharia civil, responde o papá deslumbrado. Lá fica o registo, que acompanha o processo do aluno até ao fim da universidade, quase me ia enganando e escrever até ao fim dos estudos superiores, mas como não é preciso estudar, não faz sentido falar em estudos superiores ou mesmo inferiores. Bastaria não morrer e ter o processo que comprovasse o precoce desejo do papá. As próprias universidades poderiam fazer previsões estatísticas correctas dos diplomas que teriam de passar. Tudo seria mais honesto e simples, ou simplex.

Do "à socapa" à prestidigitação

O Público de hoje traz duas referências à natureza da política educativa dirigida por Maria de Lurdes Rodrigues. Comecemos pela última página e pela secção "Sobe e desce". A Maria de Lurdes Rodrigues foi atribuída uma seta para baixo, e o texto diz tudo: "Não é transparente nem honesto que o Ministério da Educação altere à socapa, no seu site, o enunciado de um exame que entregou com um erro aos alunos." É preciso, porém, lembrar de que este "à socapa" está na génese da política educativa deste governo. Se se ler hoje o programa que o PS apresentou em 2005 a sufrágio (pp. 44 e seguintes), percebe-se que muito do que aconteceu nas escolas está lá, mas "à socapa". Está apresentado de uma forma geral sem que seja possível deduzir quais as acções concretas que serão tomadas. Com o mesmo programa poder-se-ia fazer coisas diametralmente opostas. Esta má-fé política constitui o fundamento da acção governativa a nível da educação. O truque com a prova de Biologia é apenas um pequeníssimo exemplo de uma atitude geral do partido do governo na área educativa.

Mas o título de primeira página do mesmo jornal mostra um outro e gravíssimo problema na educação. Diz o título: «Boas notas nas provas de aferição voltam a não convencer professores», e logo de seguida acrescenta: «Regressa crítica às facilidades em Língua Portuguesa e Matemática. "Só falta escreverem os textos" pelos alunos, dizem os docentes de Português.»

O problema reside na má-fé política originária ter desencadeado uma enorme vaga de contestação e o governo ter respondido com a politização dos exames. Politizar os exames significa entendê-los como prova da justeza da acção governativa. Ao politizar os exames, o governo governamentalizou-os. Ao governamentalizá-los, o governou partidarizou os exames nacionais. São agora usados como matéria de propaganda das mirabolantes políticas educativos do extraordinário ministério. Este truque está a desvalorizar o valor social dos exames. Por muito que Lurdes Rodrigues, o inefável Valter Lemos, ou o engenheiro Sócrates falem da evolução na educação, ninguém na sociedade civil acredita e as pessoas começam a convencer-se de que os exames são mesmo facilitados para que toda a gente tenha direito ao sucesso, quer trabalhe ou não, e o governo tenha o sucesso eleitoral que deseja. Os próprios alunos sabem disso e dizem-no às televisões. Esperam exames fáceis, pois estamos em ano de eleições. A crise na credibilidade do sistema nacional de exames e de provas de aferição vai levar anos a ser corrigida, se é que o próximo governo vai estar interessado em corrigi-la. O "à socapa" inicial transformou-se numa enorme manobra política de prestidigitação com a finalidade de mostrar como boas as péssimas medidas de política educativa. Quem paga isto? Os alunos e o país.

Jornal Torrejano, 19 de Junho de 2009


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Reflexões sobre a liberdade



Enquanto quiserdes viver plenamente autónomos, como senhores absolutos, sem mesmo um deus para vos dar ordens, vivereis fatalmente como escravos ou como membro isolado de uma organização qualquer. Paradoxalmente, é ao aceitar Deus que vos tornareis livres e libertos da tirania humana, pois quando O servirdes, o vosso espírito não mais se transvia na servidão. Deus não convidou os filhos de Israel a abandonar a servidão no Egipto; Ele ordenou-lhes que o fizessem. (Thomas Merton, Semences de Contemplation)

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Este texto de Merton tem o poder de mostrar duas coisas essenciais da nossa cultura ocidental. Em primeiro lugar, a filiação da liberdade na tradição religiosa judaico-cristã. E a liberdade não deve ser aqui entendida na visão dualista da liberdade negativa - liberdade positiva, herdada da reflexão de Isaiah Berlin e, de certa forma, da tradição liberal (cf artigo da Stanford Encyclopedia of Philosophy, onde é feita uma exposição aturada dos dois conceitos e a sua discussão), mas a liberdade como acto de libertação e de emancipação. O que surpreendemos no texto é o devir histórico do ser livre, mas um devir histórico que é, curiosamente e ao mesmo tempo, pré-político e político. É pré-político no sentido que tem um cunho religioso e a liberdade vem da relação com o absoluto que emancipa e liberta da servidão perante as coisas relativas. É político pois a imagem da libertação do povo de Israel do cativeiro está ligada à separação de uma comunidade política, a do Egipro, e à formação de outra comunidade política, neste caso de uma Teocracia.

Merton mostra ainda uma outra coisa, um estranho paradoxo: a liberdade nasce de uma injunção exterior. Não nasce da deliberação e do livre-arbítrio do indivíduo, mas da ordem que Deus dá ao povo de Israel: deixai de ser escravos! Esta injunção à liberdade, exterior à consciência, evidencia a complexidade da temática da liberdade consubstanciada na dialéctica da autonomia e da obediência. Ordenam-me que seja livre. Só chegarei à liberdade se obedecer à injunção divina. Este paradoxo fascinou os filósofos e está presente, por exemplo, na moral kantiana onde, em última instância, a única coisa que está em jogo é o tornar-me livre, o realizar a liberdade, facto que me é ordenado através de um imperativo formal e categórico. Ou então na filosofia moral de Sartre onde a liberdade é ressentida como uma condenação, estou condenado a ser livre.

Esta dialéctica da obediência e da autonomia que institui a liberdade só podia ser sentida pela consciência humana como algo divino. O mundo natural, o curso natural das coisas, está submetido à férrea necessidade (a cadeia causal dos acontecimentos que são regulados pelas leis naturais) ou o acaso. Em ambos, na necessidade e no acaso, não há liberdade. Esta é radicalmente estranha à ordem natural das coisas, mesmo das coisas humanas. É essa estranheza que o Antigo Testamento, no livro do Êxodo, capta em linguagem religiosa, como se a desmesura da liberdade só pudesse chegar aos homens por uma ordem de Deus.

Toda esta dimensão da reflexão sobre a liberdade é, lógica e ontologicamente, anterior à problemática da liberdade negativa e da liberdade positiva, sendo a primeira entendida como ausência de coacção, barreiras e obstáculos, e a segunda, a liberdade positiva, entendida como possibilidade de agir autonomamente e realizar os seus objectivos fundamentais. Tanto num caso como no outro, há que considerar um devir da liberdade, um tornar-se livre, mas um tornar-se livre obedecendo a uma injunção. Fica a questão seguinte: os perigos, apontados pela tradição liberal à liberdade positiva, não estarão ligados a este paradoxo originário da liberdade, à perversão da injunção originária, à transição da ordem de Deus para uma ordem colectiva, onde o colectivo é visto como totalidade orgânica onde se dissolvem, na obediência puramente humana, as liberdades individuais?

18/06/09

Metamorfoses XXXVIII

Krzysztof Penderecki – Sextet

dançam ao som da tempestade
e bebem até o corpo se dissolver
levado pelos últimos raios de sol

não pagam a taça erguida à memória
que dos céus revoltosos se desprende
e gritam se lhes arde o corpo iluminado
por algum relâmpago vindo do outro lado

não sabem o preço da servidão
nem do destino a cor que se pega à alma
apenas do corpo escorre um sangue esverdeado
inunda o chão vai por baixo das portas
na rua é um lago onde adormecem os barcos

dançam incrédulos sob a luz da ignorância
e lá fora os deuses trovejam cólera
um imposto de sangue está em dívida
e à luz intermitente que vem dos céus
avançam altivos pés ligeiros faces iradas
incendeiam os campos de trigo
lançam sobre as vinhas o granizo
semeiam epidemias nos rebanhos adormecidos

e dançam os homens no crepúsculo infestado
dançam como se dormissem ao beber
os pés no chão o corpo fremente as mãos pelo ar
dançam ao som dos carros de combate
dançam na luz sobrenatural que cai
dançam na noite que chega vinda do mar


Da arte de cumprimentar

Depois de o Zé Ricardo ter escrito isto e isto, espero não lhe retirar matéria para nova incursão na sociologia das relações interpessoais, digamos assim. Um tormentoso problema atravessa certas áreas da sociedade portuguesa. Como cumprimentar, com um ou dois beijos? Consta que a tradição dos dois beijos é de influência francófona, que se teria disseminado nas aristocracias ibéricas. O problema dos dois beijos reside na sua popularização e, hoje em dia, não há cão nem gato que não use dois beijos para saudar alguém do sexo oposto. As famílias aristocráticas, refugiadas em Inglaterra durante as guerras liberais, trouxeram para cá a forma de cumprimentar seca e rápida dos círculos aristocráticos ingleses onde se moviam, um beijo. É este cumprimento que agora começa, também ele, a democratizar-se. Contrariamente ao que pensa uma certa casta social que julga diferenciar-se do poviléu pelo facto de se saudar apenas com um beijo em vez da popularizada e democrática saudação com dois, a sua forma de cumprimento está irremediavelmente contaminada pela mimésis popular. Há muito que o beijo único na face deixou de fazer parte de círculos restritos e caiu nas mãos, quero dizer nas faces, dos que gostam de macaquear as famílias bem. Daqui até ao uso generalizado é um passo.

Seja como for, a decisão por um beijo ou dois não deixa de ser uma decisão complexa numa situação tão rápida e evanescente quanto aquelas que ocorrem na grande-área e exigem o juízo instantâneo e preclaro do árbitro. Esta complexidade é atestada por quem menos se espera. Não deveria o embaixador do reino de Sua Majestade, a Rainha Isabel II, saber qual o cumprimento a usar em cada momento? Se acha que sim, então está enganado e deve ler este post, do embaixador britânico, Alex Ellis, no seu blogue Brandos Costumes. Se nem um embaixador britânico se sabe orientar em tão espinhoso e melindroso, quão importante, assunto, o que se poderá dizer dos pobres plebeus que vivem naquela fronteira entre o popular "dois beijos" e o em vias de popularização "um beijo"?

No mundo profissional, julgo que se está a expandir, mesmo entre mulheres, um cumprimento mais adequado: o aperto de mão. Desde que seja uma aperto de mão formal, seco, nem demasido mole nem demasido rígido, nem exessivamente rápido nem excessivamente longo, julgo que a alternativa é adequada, pelo menos não é tão má quanto as pessoas andarem a trocar beijos, seja um ou dois, nos locais de trabalho. Aliás o único local de trabalho onde se pode trocar beijos é na escola pública portuguesa, mas são beijos na boca até os participantes, vulgo alunos, perderem a respiração. Mas, como se sabe, a escola em Portugal não deve ser entendida como um local de trabalho, mas um parque de diversões e uma estância de férias prolongadas para muitos dos alunos.

Esta história de nos saudarmos com contacto corporal é coisa que acho dispensável. Por que razão as faces das mulheres que eu encontro têm de levar com a minha de raspão? Por que motivo temos de andar a apertar as mãos uns aos outros, alguém é capaz de dizer? Nada melhor do que usar uma pequena vénia. O homem passa por uma mulher, inclina levemente a cabeça, ela semicerra os olhos, eventualmente esboça um leve sorriso, e cada um vai à sua vida. Entre pessoas do mesmo sexo, bastava um pequeno cumprimento oral, quero dizer um bom-dia ou boa-tarde, um olá, um viva, um como está?, um bem obrigado, etc. Depois, do ponto de vista erótico, nada pior que os cumprimentos que utilizam beijos. Numa vénia ligeira e distante pode desenhar-se todo o espaço do jogo amoroso, que, como se sabe, precisa de espaço e de distância para que, como todos os jogo, se possa desenrolar. Portanto, nem um beijo, nem dois, nem aperto de mão. Uma vénia ligeira e discreta. Para todos? Seria o ideal, mas poderiam começar os sectores mais diferenciados da sociedade. Enquanto o povo se empanturra de beijos, as classes com mais capital simbólico, chamemos-lhe assim, começavam a usar a vénia com esperança de que o seu exemplo civilizasse a turba e tudo se tornasse um pouco mais discreto ou menos boçal.

17/06/09

Metamorfoses XXXVII

Sofia Gubaidulina - In Tempus Praesens

o sossego das tardes de verão
a tinta a escorrer pela parede
e as mãos sujas de chumbo

oiço trovejar ao longe
os vidros abanam
anunciam a tempestade

alguém se esconde num telheiro

a tudo isso chamo mundo
e ele desaba no meu olhar
com o silvo de uma palavra
que se despedaça
rasga-se em sílabas
mostra o esqueleto
os ossos polidos
a carne devorada pelas moscas

da água escura vem um presságio
o jardim das camélias incendiado
o barco que se afunda
na volúpia do rio
a ruína da casa onde te ouvia

o sossego das tardes de verão

Juízes e futebol

A propósito disto, também fiquei ontem perplexo. Aquela cara não me era desconhecida, mas eu nem queria acreditar. A princípio cheguei a pensar que era o Emídio Rangel, o homem do jornalismo. Mas não, era mesmo o juiz Rui Rangel. Não é de agora que os juízes se imiscuem no futebol. Mas depois de toda a sociedade ter compreendido que o mundo do futebol está longe de ser uma coisa recomendável, nem que seja pelo carácter absoluto das paixões clubísticas, não seria de bom senso que juízes ou magistrados não interferissem nas coisas da bola, e que moderassem absolutamente as suas paixões clubísticas? Como pode o cidadão comum acreditar na justiça que se faz nos casos do futebol? Não pode. Aos olhos da opinião pública, o que sepassa nos estádios é transferido directamente para as salas de audiência.