07/12/09

A minha primeira vez





Não queria deixar de assinalar aqui, no averomundo, o acontecimento. Ontem, pela primeira vez, entrei no novo estádio do Sport Lisboa e Benfica. Há muitos anos, desde o fim da faculdade, que não ia ver o Benfica a jogar na Luz. Ontem, graças à generosidade e à estratégia de marketing do clube, lá fui para a bancada TMN. O jogo, enfim, é o que menos conta. Apesar de ser um espectador fleumático e de o futebol me interessar já muito pouco, gosto de ver o ambiente e de sentir o fervor do clube. Isso liga-me à minha infância e à memória do meu pai. Uma das coisas que tenho pena foi não ter conseguido levá-lo a ver a nova Luz, inaugurada quando ele estava já gravemente doente. Ontem, porém, pude ver a obra por dentro. Ela é, do ponto de vista arquitectónico, muito mais interessante vista do interior do que do exterior. Há uma leveza naquela arquitectura de ferro que faz lembrar uma águia planando sobre a presa. Depois, a concepção permite um escoamento fácil. Acabado o jogo, tudo flui e os vestígios do acontecimento nas imediações do estádio desaparecem rapidamente. Para coroar a visita, 4 golos à Académica. Talvez lá volte um dia destes.

05/12/09

A continuação do regabofe



Esta declaração da autarca socialista, Maria de Lurdes Rosinha, no congresso da Associação Nacional de Municípios, é um sinal de que esta gente ainda não percebeu nada do que se passa. A senhora quer uma "revisão urgente da lei das finanças locais para fazer face à crise orçamental de muitos municípios num período de crise".  Isto é, quer mais dinheiro para os seus estimáveis projectos. Ainda não percebeu que a crise não é conjuntural. Não se está a viver um período de crise que vai levar, naturalmente, a um período fora de crise, a um período de abundância. Para além da crise internacional, há um estado crítico estrutural que atinge o país devido à irresponsabilidade, fraqueza e oportunismo de uma classe política completamente desajustada da realidade, composta por gente que pensa que o dinheiro cai do céu aos trambolhões. E os municípios, esse glorificado exemplo do poder pós 25 de Abril, bem podem limpar as mãos à parede com o contributo que deram para se chegar onde se chegou. Por exemplo, os presidentes de Câmara deveriam fazer um voto de silêncio durante os próximos anos e evitar reunir-se em conclave para dizerem dislates deste género.

Quotas e outras batotas



Há uma falta de honestidade essencial na relação do governo com os professores. A questão das quotas na avaliação, do ponto de vista da apreciação do mérito, são uma mentira sem fim. Aliás, a própria avaliação, a que vai acabar ou a que vai entrar, não discernirá o mérito de quem quer que seja. Mas a desonestidade governamental, desonestidade que passou do anterior para o actual governo, deve-se a um pormenor que não é assumido publicamente. Não há dinheiro para pagar os salários dos professores. O país não gera riqueza para tal. Isso não é assumido porque o problema não diz respeito apenas aos professores. Não há dinheiro para pagar como se paga aos juízes, aos militares, aos universitários, aos médicos, aos enfermeiros, às chefias e aos quadros superiores da função pública, não há dinheiro para pagar a maior parte dos salários dos funcionários públicos, centrais e locais. Não há dinheiro para tanta gente dependente do Estado. Não há dinheiro para pagar muitas das reformas que o Estado tem de pagar a antigos servidores. Não há dinheiro para tanto assessor e chefe de gabinete que as classes políticas, locais e centrais, criam para assegurar o seu poder. O governo anterior pensou que proletarizando os professores estabelecia um pacto de silêncio com os outros corpos servidores do Estado e que o regabofe poderia continuar. Não resolveu problema nenhum e criou um enorme conflito com os docentes.

As coisas chegaram a um ponto que vai, mais tarde ou mais cedo, ter de se mexer na constituição para poder anular certas direitos conquistados, pelo simples motivo que não há dinheiro para os pagar. Sócrates teve uma maioria para fazer isso. Preferiu escolher um bode expiatório e fingir que resolvia o problema. Um dia destes acordamos e estamos na Argentina de há uns anos atrás. Sócrates tornou-se um impecilho, até para o seu próprio partido. O pântano cresce todos os dias. Portugal está gravemente doente. Está a chegar a hora em que a batota já não consegue encobrir a incompetência que tomou conta do país desde que entrámos na CEE. Sim, Cavaco foi o primeiro culpado disto a que se chegou. Os outros têm sido uns meros continuadores da desgraça que se começou a desenhar no cavaquismo. Fingir-se civilizado, só porque os outros nos dão muito dinheiro para fazermos auto-estradas e rotundas, deu nisto. Vamos pagar duramente.

04/12/09

Heitor Villa-Lobos - Bidu Sayão - Bachiana nº 5 - Cantilena


Universidade Independente



O esplendor de Portugal, ou aquilo em que se vem transformando, mais uma vez. É o que se chama amor ao saber, nomeadamente ao Inglês, o que é natural numa universidade.

Jornal Torrejano, 4 de Dezembro de 2009



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03/12/09

Impressões - LVI


Edouard Manet, Corrida de Toros (1865-6)

solto do labirinto corre
na sombra da investida
um grito na clareira
anuncia a negra flor
coberta de seda
pela fúria desmedida

Joy Ryder - Wayne Shorter Quartet


Que fazer?



Não é de bom tom, à esquerda, chamar a atenção para os oráculos do FMI. Mas gostava de saber como se vai resolver a situação económica nacional. Uma despesa pública enorme com salários e contribuições sociais, uma economia desvitalizada e quase moribunda, um povo sem ambição e com uma formação, mesmo quando se possui vários diplomas, a roçar a indigência, uma imaginação habituada a um longo exercício mimético mas incapaz de produzir o inédito e o não existente. Que fazer?

Desamiganços


Consta que foi criada uma nova palavra de língua inglesa. Um verbo, mais precisamente. To unfriend, que significa retirar alguém de uma rede social da Internet (tipo Facebook), abolindo o seu estatuto de "amigo". O Público traduz literalmente como desamigar. Porém, este verbo lembra um outro que, porventura, já caiu em desuso, o verbo amigar. A não sei quantas amigou-se com o não sei quantos. Amigar-se era estabelecer, na linguagem pós-moderna que nos cabe, uma união de facto. Mas se hoje - bem, já há uns tempos - uma união de facto é coisa vista com bonomia e mesmo como prova de sensatez, já o amiganço, no tempo em que não era união de facto, era olhado de esguelha. Seria uma espécie de solução de recurso para a impossibilidade de um casamento segundo o regulamento geral. Se o amiganço tinha um estatuto sombrio, o desamiganço era invisível. Para além dos dramas efectivos dos desamigados, a estrutura social ignorava-o, apesar de se sentir reforçada, pois o desamiganço acabava por ser um tributo tardio à ordem regular do matrimónio.

O novo desamiganço, o das redes sociais da Internet, é leve e pueril, embora a sua puerilidade possa provocar, por vezes, dor e infortúnio. Amigar e desamigar nas redes sociais não passam de práticas metafóricas, digamos assim. Esses amigos virtuais representam uma espécie de plateia, num mundo que se tornou num imenso espectáculo virtual. Eu exponho-me à plateia dos meus amigos virtuais e em troca eles têm-me como espectador. Mas nada disto representa uma amizade séria. A amizade implica uma certa igualdade. Só os iguais são efectivamente amigos. Esta igualdade não é de classe, embora esta possa ter peso. Diria antes que é uma afinidade electiva a partir da qual se constrói um mundo de referências partilhadas, de vivências e, fundamentalmente, de segredos. Os segredos não precisam de ser de coisas escabrosas ou muito importantes. Por exemplo, a saúde dos pais dos meus amigos é uma coisa privada, a qual é partilhada entre nós com vivo interesse, como se fosse um segredo. Mas há outros segredos na amizade mais secretos, que só entre amigos se partilham.

A amizade efectiva recolhe os amigos, iguais entre si, num círculo de onde o espectáculo e a exposição públicos são reduzidos ao mínimo possível. O amiganço nas redes sociais é transversal e democrático, pois permite que todos sejam amigos de todos com a facilidade de um ou dois cliques. A grande questão é se a democratização da amizade não significa a morte da verdadeira amizade. É que se há coisa que não é mesmo nada democrática é a amizade. A afinidade electiva que leva as pessoas a aproximarem-se entre si é apenas o primeiro impulso, o qual deve ser secundado por um conjunto infinito de provas iniciáticas, nas quais os amigos vão consolidando o cenáculo constituído. Perder um amigo, por exemplo, devido à deslealdade, é provação ontológica. Ser descartado numa rede social pode ser um ferrete no narcisismo de quem colecciona espectadores, mas nunca uma dor que atinja o núcleo essencial daquilo que se é.

02/12/09

Impressões - LV


Vincent Van Gogh, A las afueras de París cerca de Montmartre (1887)

a cidade tem uma fronte
um cavalo rasgado
na paixão do silêncio

agora pedra de sangue
na luz amotinada
a crescer no ocidente

Eugénia Melo e Castro - Bem que se quis


O monstro por trás da carne






No post anterior, disse-se que a filosofia é um espreitar os monstros e um aprender a conviver com esses monstros. Mas o que significa essa extravagante metáfora? Vejamos o exemplo deste produto da investigação científica. Não é a carne produzida em laboratório que é monstruosa. Pode ser pouco sápida, por exemplo. Mas o monstruoso não está aí. O monstruoso reside em dois outros lugares.
 
Primeiro, o monstruoso é o poder de fazer que fez aquela carne. Depois, monstruoso é a teleologia inerente a esse fazer. É monstruoso o poder decifrador da vida, por muito interessante que possam ser os seus resultados. Há uma metamorfose dentro dos poderes humanos. Até aqui o homem apoderava-se da vida nas suas particularidades, capturando-a por fora. Por exemplo, nos animais que criava e que imolava para as suas necessidades. Ele dispunha daquelas vidas, mas não da vida. Agora desenha-se um poder não apenas sobre as vidas particulares, mas sobre a própria vida, entendida no seu princípio originário e, por isso, na sua máxima extensão.
 
Mas a teleologia imanente a este poder também não deixa de ser monstruosa. A finalidade não é, por exemplo, fornecer carne abundante sem matar animais e poluir. A finalidade reside na ideia de reconstrução da realidade. Subjacente está uma outra ideia que parece afastada. A natureza material é má. A sua maldade reside na sua imperfeição. Numa espécie de novo gnosticismo, os iniciados condenam a natureza existente e vão reconstruí-la segundo uma ideia abstracta, isto é, sem as imperfeições da matéria.
 
O trabalho filosófico não será lutar contra os monstros, nem transformar a realidade para que os monstros deixem de existir, mas olhá-los, contemplá-los na sua essência, isto é, na sua monstruosidade.

Convívio com monstros


Não foi um acaso que, durante o seu primeiro período, quando praticava explicitamente a introdução à filosofia como uma iniciação, ele [Heidegger] invocasse o medo e o aborrecimento: o primeiro por que ele tira, pela perda do mundo, o sujeito ordinário da sua vulgaridade, o segundo porque ele atinge um resultado similar pela perda de si, e ambos porque fazem resvalar a existência quotidiana e incitam a meditar sobre o lado monstruoso da situação fundamental, o ser-no-mundo enquanto tal. É a razão pela qual o caminho do pensamento, no sentido forte do termo, passa unicamente por aquilo que a tradição religiosa denomina como temor e tremor, ou aquilo que a linguagem política do século XX chama estado de excepção. A filosofia, concebida como meditação do estado de excepção, tem na sua consequência última uma dimensão anti-escolar. Visto que a escola encarna o interesse pelos estados normais, ela possui mesmo, e justamente, uma orientação anti-filosófica, quando pratica a filosofia como disciplina. [Peter Sloterdijk (2000), La Domestication de l'Être. Paris: Mille et Une Nuits, pp. 8/9]


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Retomar esta citação aqui postada há muito, mas não comentada. O interesse não reside tanto na constatação de que a escola, ou a universidade, quando pratica a filosofia enquanto disciplina é essencialmente anti-filosófica. Isso decorre da natureza indisciplinar, para não dizer indisciplinada, da filosofia. O seu uso na escola, ou mesmo na academia, tem que ver com razões extrínsecas à própria filosofia. Resulta de um tributo que a sofística reinante desde sempre - é ela que determina a escola - sente necessidade para apaziguar a sua velha inimiga. A filosofia na escola e na universidade é uma espécie de concessão e uma forma de disciplinar socialmente o indisciplinar que a filosofia potencialmente representa.

Esta natureza indisciplinar da filosofia reside, e é isso que me interessa, no estado de excepção, no temor e tremor que a desencadeia. A filosofia não é assim uma forma de raciocinar melhor, de cumprir as regras lógicas e as normas retóricas da argumentação. Ela é um adentrar-se no perigo, no "lado monstruoso da situação fundamental". Esse perigo e esse monstruoso são o impensado. O impensado é aquilo que não foi reduzido à dimensão do conceito, não foi submetido à luz da razão. Quando se pensa que a filosofia tem esta ou aquela finalidade social ou política, já não se está no âmbito da filosofia.

Aproximar-se do impensado significa, em primeiro lugar, um trabalho de destruição. Destruição do pensado. A filosofia é um enorme estaleiro que visa um deitar abaixo. Nesse ponto, não se separa da poesia, onde o metaforizar é destruição da significância vulgar da linguagem. A metáfora mostra, por efeito comparativo, a insignificância da linguagem submetida à usura do uso (assim mesmo). Este destruir efectivado pela filosofia é, porém, apenas o primeiro passo para o essencial. O essencial é aprender a conviver com o monstruoso. Muitos pensam que o pensar filosófico é uma espécie de domesticação de monstros. Reduz-se o  monstro a conceitos e ele deixa de ser monstro. O filósofo seria então um domador. Mas aqui já se está no campo da sofística, o campo dos monstros amestrados para exibição nas grandes feiras anuais, isto é, nas escolas e nas universidades, bem como na retórica política. A filosofia não dá tamanho consolo nem contribui para a paz pela redução do monstro ao animal amestrado. A filosofia é um espreitar os monstros (eis a sua dimensão teórico-contemplativa, o filósofo é um voyeur consumado, pese a 11.ª tese de Marx ad Feuerbach) e um aprender a conviver com esses mesmos monstro (eis a sua dimensão prática, uma espécie de manual de sobrevivência do indivíduo na terra dos monstros). A filosofia é um convívio com as trevas. Todo o resto que se lhe atribui é literatura da má.

Um século de futebol



Este belíssimo cartaz anuncia a exposição, inaugurada no passado 28 de Novembro, sobre os 100 anos de futebol em Torres Novas. Quem puder passar pela Biblioteca Municipal Gustavo Pinto Lopes, um excelente  projecto arquitectónico enquadrado numa das zonas mais atraentes da cidade, não perderá o seu tempo. Até 10 de Janeiro.

01/12/09

Impressões - LIV


José Solís, Alta Mar (1920)

o dorso do mar é uma raiz
de água tinta de branco
em sobressalto de azul
ali mesmo onde o animal
se debruça no labirinto
e grita na noite escura
sem orvalho sem maresia
sem a espuma que a areia
em teu coração secou

Georges Ivanovitch Gurdjieff - Bayaty



Anja Lechner: Violoncello
Vassilis Tsabropoulos: Piano

Pessoa e o concurso do SPN



Vale a pena ler este artigo sobre o lançamento de uma edição fac-similada que marca 75 anos da "Mensagem" de Fernando Pessoa. A obra tinha ido a concurso organizado pelo Secretariado de Propaganda Nacional (SPN). O concurso foi ganho por um jovem missionário de 23 anos, Vasco Reis, com um dramalhão em verso, absolutamente suporífero, denominado Romaria. O artigo mostra o júri e evidencia o facto de todos os seus componentes estarem longe de ser analfabetos literários. A verdade é que preferiram o risível à genialidade de Pessoa. O tempo pôs tudo no seu lugar. Ninguém sabe quem é Vasco Reis, se escreveu mais livros ou se missionou muito e bem, convertendo almas para as suas romarias. De Pessoa, provavelmente ainda se sabe menos, mas todos julgamos que sabemos muito mais.

Defenestrem-no!



Fui educado no prazer da defenestração do Miguel de Vasconcelos. Aprendi na escola, nas conversas em casa, sei lá onde. O tipo era um vil serventuário, para usar uma linguagem tipo MRPP, dos castelhanos. Portanto, a defenestração foi coisa decente. E aqui estou eu, republicano confesso, a comemorar o facto e o retorno da coroa para as mãos de um português, mesmo que a posteridade de D. João IV, olhada globalmente, pareça-me não ter justificado a honra que coube aos Braganças. Há excepções, claro. Seja como for, hoje é o dia em que monárquicos e republicanos estão irmanados. Apesar de isto não ir lá grande coisa e de eu não ter nada contra Espanha, pelo contrário, gosto de pertencer a uma velha nação livre e independente. Um copo em honra dos conjurados. Pena é que a defenestração tenha caído em desuso.

30/11/09

Impressões - LIII


Salvador Tuset, Anticoli (1913)

reclino a cabeça perante a dor
o tempo a traz no regaço
promessa de cal a arder
ou vento a ferir as paredes
que resguardam da luz
a infâmia e o cansaço