20/07/09
Perigosos esquerdistas - I
Deparamos com a realidade de que a contratação do trabalho e a comercialização de quase todos os produtos se encontram nas mãos de um pequeno número de ricos e opulentos que, desta forma, impõem a essa grande multidão de proletários um jugo que em nada difere do jugo dos escravos (Leão XIII - 1891).
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19/07/09
Metamorfoses LVII
Anton Webern – Symphony Op. 21
nada sei da alegria da cidade
erguida na distância dos teus passos
brancos muros perdidos
no desconsolo com que respiras
o sabor ondulado do horizonte
peço-te a alegria de uma hora de luz
doem-me tanto as sombras
os olhos enevoados pelo entardecer
aquelas árvores que a tudo dissipam
o limiar daquilo que existe
disseste então enquanto esperavas
se o que vinha a ti era um deus
ou apenas o frívolo viajante
que no caminho pára e fala de amor
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Alma Pátria - 3: Maria de Fátima Bravo - Vocês Sabem Lá
Maria de Fátima Bravo - Vocês Sabem Lá
Em 1958, o existencialismo penetrava no espírito da pátria. Não, não foi numa faculdade de filosofia, mas na canção popular. Jerónimo Bragança e Nóbrega e Sousa compõem, Maria de Fátima Bravo canta Vocês Sabem Lá. Claro que é um existencialismo fundado na saudade, mas esse é o toque nacional, um existencialismo mais bucólico. De resto, está lá tudo. Desde o Dasein heideggariano e o seu ser-para-a-morte, até ao absurdo de Camus, passando pela náusea de Sartre. Se Maria de Fátima Bravo fosse francesa talvez rivalizasse com a Juliette Greco na rive gauche... Aqui deve ter andado pelos festivais da canção.
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Projectos, objectivos, avaliação
Este senhor, João Tiago Silveira (JTS), é o novo porta-voz do PS, para além de secretário de Estado de não sei de quê. Substituiu Vitalino Canas na função e hoje dá uma entrevista ao DN. Para além de confessar que é amigo pessoal de Manuela Ferreira Leite e da conversa de pau que seria de esperar de alguém no cargo, há na entrevista um momento que mostra a essência do espírito do tempo que nos cabe viver.
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18/07/09
Metamorfoses LVI
Luc Ferrari – Harmonie du Diable
não há palavras que possam dizer a secura
que uma mágoa desenha num rosto
não há flores que cubram o entardecer
se o vento corre por cima dos túmulos
um viajante come pelas tabernas
– no sarro do balcão servem copos de vinho –
ali espera que a solidão chegue
para ir dormir onde a noite o acolha
sonha então as mágoas que são as suas
e olha as longínquos constelações
anunciam no esplendor do céu
a chaga que no peito rasga o inferno
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Um devaneio tipográfico
Quem era este senhor? Tinha por nome Claude Garamond (1480-1561). O que faz aqui o seu retrato? Para dizer a verdade está no lugar de um outro, o de Jakob Sabon, que não consegui. Mas a que propósito vem isto? Para dizer a verdade, vem a propósito do romance de Vergílio Ferreira que acabei de ler, na nova edição das obras completas lançada pela Quetzal. Na última página do livro, a editora coloca a seguinte nota:
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Alma Pátria - 2: Duo Ouro Negro - Maria Rita
Duo Ouro Negro - Maria Rita
A cançoneta data de 1969 e Portugal era, na altura, um império colonial, talvez não tanto império nem lá muito colonial. Por cá dizia-se que tínhamos províncias ultramarinas. O Duo Ouro Negro era o resultado disso. Angolanos de nascimento, Milo e Raul Indipwo abrilhantavam a cena musical da metrópole, como então também se dizia. Maria Rita e as festas do S. João, no Porto, mais um centelha da alma pátria, em tonalidade colonial.
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Ainda a proibição do comunismo
No sequência da boutade jardinista - a anunciar que nos encontramos já em plena silly season, como se o ano todo, na nossa paróquia, não fosse uma enorme, infinita silly season - alguns comentadores aproveitaram para achar (há por cá muitos especialistas em achamento) muito bem que se proibisse os partidos comunistas e afins. Em Portugal, isso representaria tirar a cerca de 20% dos portugueses representação partidária, o que geraria, como muito bem viu Vasco Pulido Valente, uma ditadura talvez mais feroz do que a de Salazar. Como será difícil acusarem-me de simpatias pró-comunistas ou pró-bloquistas, gostaria de sublinhar algumas coisas que foram propositadamente esquecidas.
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17/07/09
Alma Pátria - 1: Tony de Matos - Só nós dois é que sabemos
Tony de Matos - Só nós dois é que sabemos
Estamos em época estival. Aqui começa uma rubrica sobre a alma pátria, quero dizer da minha pátria, daquela onde cresci. Quando passar o calor, talvez eu esteja melhor. Por agora, recomendo apenas uma visão atenta do vídeo. Uma lição sobre sociologia pátria. Mais uma coisa: o Tony de Matos era artista a sério, apesar de eu, na altura, achar tudo aquilo execrável, ou não achar mesmo nada. A canção foi editada num EP, em 1962, ano em que entrei para a escola primária.
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Uma pandemia
Devida a umas leituras irregulares que estou a fazer, deparei-me com os nomes de Sabbataï Zevi (1626-1676) e de Jackob Franck (1726-1791). O que têm estes homens em comum? Três coisas essenciais. São ambos judeus, ambos se declararam Messias, e ambos apostataram. O primeiro converteu-se ao Islão. O segundo, ao Cristianismo. A ideia de um Messias apóstata seduziu-me de imediato. Aliás, o próprio Cristianismo está fundado, para o judaísmo, num Messias apóstata, Jesus Cristo. Poder-se-ia meditar, à maneira de Jorge Luís Borges, sobre a estranha conexão entre a ideia de Salvador e a ideia de apóstata e concluir pela proposição lógica que toda a Salvação radica numa apostasia. Mas deixemos os devaneios da imaginação. O que descobri, já que nunca me tinha interessado muito pelo assunto, foi uma quantidade enorme de Messias (ver na Wikipedia a lista). E há Messias judaicos, mas também cristãos, muçulmanos e de combinação vária. E é aqui que descubro um Messias cristão com uma curiosa doutrina; melhor, com uma curiosa prática. Jesu Oyingbo declarou-se Messias em Lagos, na Nigéria. Até aqui tudo bem. Fundou a "New Jerusalem" em Maryland, Lagos. Segundo se lê na Wikipedia, era um homem muito dado a limpezas espirituais. Consta que manteve relações sexuais com todas as mulheres da sua comunidade (camp), incluindo as suas filhas. Razão? Nada que Freud possa explicar, apenas o desejo de limpeza espiritual. Mas para que o nosso espírito patriótico não fique desiludido também tivemos o nosso Messias. Bem, nosso não será, mas descendente de Marranos. Abraham Miguel Cardozo (1630-1706) nasceu em Espanha, mas descendente de judeus portugueses de Celorico. A sua história e o seu trânsito de mero profeta a Messias pode ser lida aqui. Tem muito de portuguesa. Esta coisa de alguém se declarar o Salvador e de as pessoas esperarem também o Salvador é estranha. Poderíamos pensar que fosse apenas uma mera patologia psico-social, mas a insistência com que aparecem os Messias somos levados a pensar estar perante uma pandemia.
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A guerra dos contentores
É por estas e por outras semelhantes, umas mais pequenas e locais, outras maiores e nacionais, que o regime se está a corromper a cada dia que passa. O Tribunal de Contas arrasou 0 contrato de exploração do terminal de contentores de Alcântara, em Lisboa. O contrato foi feito entre o governo e uma empresa do grupo a que pertence Jorge Coelho, a Mota Engil. Não houve concurso público e os juízes do Tribunal de Contas consideram-no ruinoso para o Estado, isto é, para os contribuintes e a comunidade nacional. E dizem mais: só serviu os interesses do promotor. Chegou a altura do Partido Socialista ir a águas, nem que seja para o Cartaxo. Depois, deverá correr com a actual elite dirigente e, esperar talvez sem grande fé, que surja gente mais capaz e com outra visão do Estado. Se continuar assim, o Partido Socialista arrisca-se a ser conhecido, no futuro, não como o partido da liberdade, mas como o da ruína do Estado
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Tao Te King - III
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Colher tempestades
Eis o admirável mundo novo que estamos a construir. Trabalhadores franceses ameaçam fazer explodir fábrica. Dir-se-á que é o resultado da crise económica, da recessão e do encurtamento do mercado. É verdade. Mas esta verdade é sempre uma verdade limitada. Há o desespero do momento, mas há o desconsolo acumulado de uma vida. Os trabalhadores europeus foram educados como pertencendo não a um proletariado desenraizado, mas a uma classe média emergente. A globalização remeteu-os para onde estavam os seus pais ou mesmo os seus avós. Ao mesmo tempo, aqueles que os remetiam para essa situação prosperavam. Perante um novo desenraizamento retornam as respostas explosivas. Quem semeia ventos colhe tempestades. Não acreditam, mas elas chegarão.
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Jornal Torrejano, 17 de Julho de 2009
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16/07/09
Metamorfoses LV
Hans Werner Henze – Symphony No. 10
por vezes os rios tinham uma história
escutávamo-la se o coração se calava
e a tarde caía lentamente
por detrás da cinza daqueles montes
tão estranhas elas eram
águas que corriam
barcos que retornavam do passado
a vida na rochosa oclusão das margens
sonhavam os barqueiros longas travessias
ao sol quebrado pelas árvores matinais
e um rumor louco ventava desmesurado
ou um passageiro caía nas águas mais frias
são agora uma longa enfermidade os rios
sem flores a secar pelas margens
sem nuvens espelhadas no ondular
com que caminhavam exactos para o mar.
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O adversário de Jardim
Enquanto o homem se mantiver na Madeira, nós, os continentais ou cubanos, ainda nos podemos rir e galhofar com a personagem. Agora, em revisitação a um dos seus topos antigos, vem propor que a proibição do comunismo passe a vigorar na constituição. Ninguém leva isto a sério. Ninguém, não. O PSD e Manuela Ferreira Leite devem levar isto muito a sério. Se o PSD quiser ganhar as eleições legislativas precisa dos votos do centro e do centro-esquerda. Nestas áreas, não há ninguém que sustente tal coisa. Pelo contrário, muita gente dessa área, perante tal ameaça, preferirá dar o seu voto aos socialistas. O que significa tudo isto? Talvez que Alberto João Jardim não esteja nada interessado que Manuela Ferreira Leite ganhe. Complexo? Não, muito simples. Ganhem os socialistas ou o PSD as próximas eleições legislativas, há uma coisa que se mantém inalterável: a falta de dinheiro. É muito mais fácil, para Alberto João Jardim, fazer chantagem política com um governo adverso do que com um governo da mesma cor. O dr. Jardim anda nisto há muito tempo e sabe o que é essencial. Sabe perfeitamente que o comunismo não representa qualquer ameaça e sabe que falar em perseguição e proibição afasta eleitores do PSD. Portanto, a conclusão é muito simples.
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15/07/09
Cuba e Obama
Começou o degelo. Obama suspendeu por seis meses a lei de sanções a Cuba. Para o regime cubano esta boa vontade americana é muito mais perigosa do que o boicote e as duras sanções. Ao eliminar as razões de vitimização das elites políticas cubanas, Obama dá um passo decisivo para que a democracia ocidental se torne mais e mais apetecível a um povo com baixíssimo nível de vida e nula liberdade política. O povo cubano precisa de comer, os americanos precisam de pôr fim a muitos conflitos inúteis, os próprios dirigentes comunistas precisam de ter um futuro político para além da sombra de Fidel Castro. Tudo parece conjugar-se para um final feliz, embora lento. Com Bush filho os americanos tiveram 8 anos de exercício da força e de ausência de inteligência. Com Obama regressou a inteligência. Veremos o que o mundo e, neste caso, Cuba apreciam mais.
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14/07/09
Intromissões inaceitáveis
Comecei por ler isto no Ponteiros Parados. Curioso, segui para aqui. Mas, embora hipertenso, não estava particularmente interessado em campanhas profilácticas, tais como a que está por detrás deste belo slogan "an orgasm a day keeps the doctor away" e que talvez visem assegurar o bem estar cardíaco das futuras gerações. Lastimo muito a sorte das mulheres frígidas e dos homens impotentes e já estou farto de polémicas sobre a educação sexual na escola. Por isso segui para aqui, onde leio isto: "PARENTS should avoid trying to convince their teenage children of the difference between right and wrong when talking to them about sex, a new government leaflet is to advise. " O que me choca não é tanto a ideia de que no processo de transmissão de valores morais, dentro da família, o sexo seja excluído. O que é mesmo chocante é a intervenção do governo. Depois, toda esta ideologia está assente num equívoco: que pode haver sexualidade humana sem valores morais. Nós, seres humanos, não somos nem puros animais que estejam aquém da moralidade, nem deuses que estejam para além dessa mesma moralidade. Há ainda uma outra coisa: se não são os pais a transmitir, relativamente à sexualidade, os seus valores de bem e de mal, onde as crianças e os jovens os vão buscar? No panfleto governamental, parece surgir a ideia de uma auto-descoberta, como se fosse possível o uso da razão sem uma educação da razão. Na verdade, o que é absolutamente imoral é um governo ocidental intrometer-se na educação moral dada pelas famílias e, ainda por cima, em nome do bom selvagenzinho do Rousseau. É pena que o Labour em vez de se preocupar com os problemas políticos, económicos e sociais de grande parte da população, se preocupe com a opinião que se possa transmitir sobre os negócios da cama. Claro, esta inaceitável intromissão na vida das pessoas é feita, como sempre, em nome da saúde. A saúde está para o ocidente como Alá para o mundo islâmico.
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