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07/09/11

O Cristo do Facebook

Ecce Homo

Foi através do Público que cheguei a esta página do Facebook, Jesus Daily. A página tem milhões de seguidores e acumula likes como nenhuma outra. Se se perder algum tempo a ver as fotografias que pretendem representar Cristo, descobre-se o que resta do cristianismo e de Cristo neste tipo de manifestações. Uma moral vagamente consoladora das misérias humanas e um Cristo ao nível do terapeuta familiar. Embora este tipo de "religiosidade" seja uma marca das seitas protestantes, o próprio catolicismo, talvez devido à concorrência, alberga muitos impulsos no mesmo sentido. Entre o Cristo que oferece o sacrifício, o seu próprio, como modelo para um caminho de transformação e emancipação, e o Cristo dos milhões de likes nada há em comum. O cristianismo nunca pretendeu ser uma terapia de adaptação ao mundo, pelo contrário. Se os responsáveis das Igrejas cristãs, nomeadamente da Católica e das Ortodoxas, pensarem que tamanha profusão de comentários e de likes é o sinal de uma revivescência dos ideais cristãos, de uma aspiração ao retorno a uma sociedade dirigida pela inspiração crística, estão bem enganados. Estes fenómenos são o sintoma de uma decadência que já nada esconde.

27/02/10

A canonização de uma insubmissa


A canonização desta mulher, Mary MacKillop, levanta dois problemas. O primeiro diz respeito à relação de pessoas excepcionais com a hierarquia da Igreja Católica, hierarquia essa composta por gente normal, a maior parte das vezes com uma visão do mundo, da vida, da moral e da religião puramente convencional. Certos religiosos de ordens contemplativas ou de ordens activas, como é o caso de Mary MacKillop, têm um comportamento que ultrapassa em muito a capacidade de compreensão daqueles que possuem o poder na Igreja, numa Igreja que foi criada para a excepção da santidade, mas que, como em todas as coisas humanas, prefere a rotina da convencionalidade. Daí nasce a incompreensão e desta à perseguição vai um passo. Mary MacKillop chegou a ser excomungada. Não deverá ser o primeiro caso em que um excomungado é reconhecido depois como santo.

O segundo ponto é o da necessidade dos milagres para declarar alguém digno da glória dos altares. Mas a santidade, isto é, a excepcionalidade da experiência religiosa de uma pessoa, não se deveria medir pela capacidade taumatúrgica, mas pela vida que viveu, pelos milagres que operou não contra as leis da natureza, mas aqueles que resultaram de uma acção verdadeiramente livre que conseguiu, em certo momento, flectir o curso habitual do mundo e abrir caminhos que os outros puderam trilhar. A santidade é uma luta contra a inelutabilidade do destino, uma afirmação da liberdade contra o peso da necessidade.

23/02/10

Salvação



É bem lamentável que esta bela metáfora cristã, «a salvação», seja tão usada e por consequência tão desprezada. Tornou-se um insípido sinónimo de «piedade» e perdeu a sua significação profunda. A «salvação» ultrapassa, aliás, as simples conveniências morais. É um termo que implica um profundo respeito pela realidade metafísica do homem, reflecte o interesse que Deus lhe dá, o amor e o cuidado que Ele tem com o ser íntimo do homem, Seu filho, com tudo o que nele há de divino. Não é apenas a natureza humana que é «salva» pela misericórdia divina, mas sobretudo a pessoa humana. O objecto de salvação é único, insubstituível, incomunicável: é o si mesmo. E este verdadeiro eu interior deve ser retirado, como uma pérola, do fundo do mar, e salvo da confusão, da vacuidade, da imersão no que é vulgar, heteróclito, banal, sórdido, efémero. [Thomas Merton (1963). Semences de contemplation. Paris: Seuil, pp. 36/7]

15/02/10

A Igreja e a sexualidade


A reunião de Bento XVI com a hierarquia da Igreja irlandesa por causa de práticas pedófilas encobertas pela própria hierarquia local (aqui ou aqui) mostra um problema que está longe de se circunscrever à Irlanda (ver, por exemplo, aqui). Esta generalização da descoberta de uma praxis repugnante e hedionda não deve ser apenas pensada pela Igreja do ponto de vista do pecado e do crime individuais. Não estou a dizer que todos os padres devem pagar por aquilo que alguns fizeram. Os actos comprometem os que os praticaram, mas também aqueles que calaram e encobriram. Mas a Igreja deve ir mais longe e interrogar a relação da casta sacerdotal católica com a sexualidade.

Em muitas religiões, inclusive em confissões cristãs, a casta sacerdotal não é obrigada, a não ser em caso de vocações muito específicas, ao celibato. A hierarquia e o clero da Igreja Católica são compostos por homens comuns e nada nas suas funções implica a negação da sexualidade própria. O recalcamento da sexualidade bem como o afastamento dos padres de uma vivência familiar com filhos acaba por os tornar insensíveis a estes problemas e a pactuar com o diabo, para falar eufemisticamente. Se compararmos, pelo menos ao nível daquilo que se conhece publicamente através da comunicação social, os cleros das várias confissões cristãs, é praticamente apenas na confissão católica que o problema da pedofilia atinge as proporções absolutamente dramáticas que se estão a conhecer. Isto não quer dizer que o celibato conduza à pedofilia, nem quer dizer que não haja pedófilos casados e pais de família. Mas dever-se-á, pelo menos, perguntar se não haverá uma correlação entre a exigência do celibato pela hierarquia e este tipo de crimes, se o celibato coercitivo não perverterá a sexualidade de alguns padres e tornará outros insensíveis ao problema? A Igreja Católica precisa de repensar muito claramente a sua relação com a sexualidade, se quiser viver e ter ainda alguma influência sobre o mundo.

06/01/10

Dia de Reis

Círculo de Hugo van der Goes - La Adoración de los Magos

Hoje é dia de Reis, na tradição Católica. Revive-se o momento em que os Reis Magos vindos do Oriente adoram o Menino. Dia de desmanchar os presépios e de retirar das casas os símbolos natalícios.

Escrevi revive-se e não comemora-se pelo simples motivo de que no pensamento mítico-religioso, do qual o cristianismo, apesar dos seus elementos racionalizantes, faz parte, a festa não é apenas um reavivar da memória mas um tornar a viver um acontecimento eterno que se reflecte no espelho fracturado do tempo. É como se os Reis Magos eternamente chegassem a prestar vassalagem ao Menino. É evidente que, hoje em dia, já não se revive nem sequer se comemora coisa alguma. Mas isso é outro assunto. Fiquemos então com estranho mistério de três reis do Oriente, guiados por uma estrela, virem expressamente inclinar-se perante um recém-nascido.

03/01/10

Do mistério da Trindade


Este comentário do Zé Ricardo ao meu post sobre o direito à blasfémia merece mais do que uma mera resposta na caixa de comentários. Merece uma elucidação do que eu disse e uma argumentação sobre a minha posição.

Em primeiro lugar, eu não digo “que na Europa as igrejas se deverão voltar a encher”. É o Zé Ricardo que mo atribui, mas eu digo outra coisa. Digo que “julgo ser útil e necessária a presença do Cristianismo no tecido social da Europa”, e digo também que “A Europa necessita que as igrejas se voltem a encher e a prática da moral cristã, transmitida pelos evangelhos e pela tradição, ganhe preponderância. Temo que a Europa, enquanto lugar de liberdade e de razão, sem esses valores desapareça.” O verbo dever implica a ideia de um imperativo. Eu apenas refiro que seria útil e necessário para a preservação de uma certa Europa a presença do Cristianismo na sociedade e que as igrejas se voltassem a encher. Não digo que isso vá acontecer ou que tenha necessariamente de acontecer, por um decreto do destino ou da providência. Mas terá de acontecer para aquela Europa ser preservada.

Em segundo lugar, eu não preciso de ser crente católico para advogar essa necessidade. Posso ser ateu ou agnóstico, posso mesmo ser budista zen, e compreender e afirmar a necessidade dos valores cristãos para o funcionamento de uma certa ideia de Europa, ideia essa que foi formada por esses mesmos valores (aliás, os pais fundadores da União Europeia, na altura CEE, eram todos eles cristãos). É um exercício puramente intelectual. Por isso, e contrariamente ao que o Zé Ricardo afirma, eu mesmo não indo à missa em Santiago ou em S. Pedro (aliás, igrejas onde fui muitas vezes à missa até aos meus 14 ou 15 anos), tenho toda a legitimidade intelectual para fazer um juízo sobre o decurso da história, aliás um juízo meramente analítico, para utilizar a linguagem de Kant.

Em terceiro lugar, eu não afirmo que essa Europa da razão e da liberdade se vá salvar. Digo apenas que para se salvar é necessário que o Cristianismo retome a preponderância no tecido social. E deixo subentendido que se isso não acontecer, então essa Europa da razão e da liberdade perecerá. Esta é a tese problemática e não a minha incapacidade para crer no mistério da Trindade. Será possível construir uma civilização fundada na liberdade e na razão se evacuarmos o Cristianismo? Eu acho que não (o que só pode ser discutível). Porquê? Porque a razão é impotente por si só para o fazer. O que a experiência histórica tem mostrado desde o tempo do Iluminismo, nomeadamente desde o sonho kantiano da autonomia da razão, é que a razão se abisma e se mostra impotente quando desligada de uma justificação transcendente (veja-se o século XX, veja-se as experiências totalitárias). Em segundo lugar, porque a liberdade tal como a compreendemos é o fruto do Cristianismo. Isto significa que a ideia de Europa que está em jogo é aquela onde a razão se funda na liberdade, isto é, na essência do Cristianismo. Ao evacuarmos o Cristianismo, evacuamos a liberdade e deixamos a razão à deriva. Assim lançada aí, a razão não tardará a procurar âncora noutro porto. Se este porto não é o da liberdade, então só pode ser o da servidão.

Em quarto lugar, eu não digo que o destino da Europa não seja a servidão. Não sei, não sou profeta, o futuro é para mim um lugar impenetrável. O que vejo no presente não me tranquiliza. Gostaria que os meus filhos e netos, e por aí fora, vivessem num mundo livre, mas esse meu desejo não passa disso mesmo, um desejo. O Zé Ricardo já sabe que a Europa não vai tornar a ser cristã (“Pois, é este o destino da Europa. Os netos, ao contrário dos avós, já não conseguem acreditar que 2+2=5. No mundo islâmico ainda acreditam.”), eu não tenho, como já disse, o dom da profecia. Aparentemente as coisas são assim, mas será que são? Será que o jogo terminou e o resultado está feito? Acreditar na liberdade significa acreditar, apesar das evidências, num mundo em aberto. Sei que a crença na liberdade é tão inverosímil quanto a crença na Trindade, provavelmente são até a mesma crença, e descubro mesmo que os mais insuspeitos defensores da liberdade afinal crêem no destino.

O direito à blasfémia


Para aqueles que o Benfica é uma religião, esta montagem é uma blasfémia. Deveria ser proibida? Claro que não. Mas se se blasfemar contra uma religião, daquelas que fazem parte do património cultural da humanidade, deverá haver punição? Isso acontece, por exemplo, na Finlândia e vai passar a acontecer na Irlanda. Eu que não sou blasfemo, nem vejo um particular interesse na blasfémia, fico perplexo pelos caminhos que se estão a seguir. O direito a blasfemar deve ser garantido como uma das formas mais genuínas da liberdade de expressão. Por que razões? Por quatro razões.

1. Porque a blasfémia atinge apenas o núcleo das crenças de um conjunto de pessoas, mas não atinge a integridade dessas pessoas. Desrespeitar crenças não é desrespeitar pessoas. O acto de blasfemar apenas pode prejudicar, do ponto de vista da salvação eterna, o blasfemador e nunca as supostas vítimas da blasfémia. Desde que o blasfemador não tente interferir na liberdade de crer e na liberdade de praticar o culto da religião em que se acredita, nada justifica a intervenção do Estado para punir o acto de blasfémia.

2. Uma segunda razão prende-se com a intervenção estatal. Que autoridade e que critérios possui um Estado laico, ou outro qualquer, para determinar que um conjunto de crenças tem natureza religiosa e que merece, por isso, o respeito? Um Estado limita-se a aceitar a liberdade de praticar determinados cultos, mas não tem competência para determinar se eles merecem o respeito ou a derrisão de terceiros. Haverá maior blasfémia para um cristão do que negar a divindade de Jesus Cristo? Deverá, então, o Estado perseguir todos os judeus e muçulmanos que não a aceitam? Onde começa e onde acaba o acto blasfemo?

3. A blasfémia tem uma função terapêutica dentro da sociedade. As religiões são crenças no absoluto. O problema, contudo, é que essas crenças são tidas por seres relativos, os seres humanos. A fé pouco esclarecida e a ausência de um espírito crítico por parte do fiel, aliada a interesses pessoais mais ou menos obscuros, conduzem a que se dê uma valor absoluto àquilo que são apenas visões e perspectivas meramente subjectivas. A blasfémia choca o que há de humano nas religiões, mostra a irrisão das pretensões de um grupo de homens. Ao fazê-lo, relativiza as suas pretensões ao absoluto e torna uma dada Igreja (entenda-se por Igreja uma qualquer sociedade religiosa) menos agressiva, mais humilde e mais afável com a espécie humana.

4. Por fim, blasfemar é um exercício, do ponto de vista do divino, absolutamente inútil. Se Deus não existir, não poderá ser insultado pelo blasfemador. Se Deus existir, como poderá a palavra de um homem atingir a divindade? Mais, a blasfémia muitas vezes não é mais do que o reconhecimento e a glorificação, ainda que por vias negativas, do divino (lembram-se de Paulo de Tarso?). Aqueles crentes que protestam contra os blasfemadores e exigem o seu castigo público estão mais preocupados consigo do que com Deus. Devem deixar a Deus a liberdade de castigar no além aquele que blasfema, se assim o entender, e preocuparem-se em respeitar a vida dos seres humanos e serem exemplares na sua relação com os outros.

Como já escrevi várias vezes, julgo ser útil e necessária a presença do Cristianismo no tecido social da Europa. Os valores por ele veiculados são estruturantes de uma civilização fundada na liberdade. A Europa necessita que as igrejas se voltem a encher e a prática da moral cristã, transmitida pelos evangelhos e pela tradição, ganhe preponderância. Temo que a Europa, enquanto lugar de liberdade e de razão, sem esses valores desapareça. No entanto, o pior que pode acontecer é voltar a uma espécie de autos-de-fé fundados na lei civil. A punição da blasfémia é uma ingerência inaceitável do poder civil na liberdade religiosa.

08/12/09

Alexandre del Valle - Eurabismo e a morte do pai



Segundo Bat Ye'Or, o eurabismo ambiciona libertar a Europa cristã das suas bases judaicas e respectivas raízes bíblicas. Assim como os nazis queriam arianizar o cristianismo e os islâmicos quiseram palestinizá-lo, assim como determinadas igrejas do Médio Oriente pretenderam criar uma espécie de síntese islamo-cristã, assim também estará a dar-se - afirma Bat Ye'Or - uma islamização do cristianismo por via da palestinização. Trata-se de uma estratégia teo-geopolítica partilhada por personalidades como René Guenon, que sonhava, como certes nazis viriam a sonhar, com a possibilidade de fazer regressar às fontes um ocidente em declínio, islamizando a Europa e cristianizando o islão, movimento que designava por regresso salvífico ao oriente. Assim, e ainda segundo Bat Ye'Or, a propensão que diversos dirigentes europeus eurabianos - de que são exemplo, nomeadamente Jacques Chirac e José Luis Zapatero - mostram ter para a glorificação do passado arabe e islâmico da Europa, e a corte que fazem às nações mais radicalmente inimigas de Israel, são indícios de uma atitude mais ou menos consciente de rejeição do pai hebreu, ou seja, da origem fundamentalmente judaica da civilização cristã. [Alexandre del Vale (2009). A Islamização da Europa. Porto: Civilização Editora, pp. 41]

30/11/09

O sarilho europeu



A Europa está metida num belo sarilho. Veja-se aqui a reacção europeia ao resultado do referendo suíço sobre a construção de minaretes. A esquerda horrorizada e a direita dividida entre a concordância e a rejeição das opções dos suíços. Uns insistem que não se está a passar nada, outros aproveitam o medo para vender a sua mercadoria contaminada, os mais sensatos estão perplexos e tentam encontrar um caminho para um dos grandes problemas que desafia a humanidade europeia. Esse problema não é a questão da liberdade religiosa. A proibição da construção de minaretes é mais delicado do que isso. Esse problema nasce do medo perante a exibição crescente de uma militância político-religiosa, nasce do medo perante a diluição e a erosão dos valores ocidentais em relação a um islão militante.

Nota: foram censurados alguns comentários ao post anterior sobre o referendo suíço. Uma coisa é alertar para o perigo e a perplexidade que atravessa a Europa, outra é permitir comentários racistas ou a desvalorização da pessoa que pratica o islão. O islão, desde que respeite os direitos humanos e as liberdades civis, políticas e individuais, desde que não queira misturar religião e política, é muito bem vindo à Europa. Tem valores notáveis para partilhar com os não islâmicos. Todavia, a Europa não pode permitir certos projectos, mais ou menos radicais, que visam a sua destruição.

29/11/09

O referendo aos minaretes



A Suíça aprovou hoje, por mais de 57 por cento, os apelos da extrema-direita a que seja proibida a construção de novos minaretes no país. Há muitas formas de tratar um assunto delicado e que atravessa, cortante, as nossas ilusões. A utilização, na frase do Público, da expressão "apelos da extrema-direita" tem uma função tranquilizadora perante o problema. Afinal essa coisa da proibição tem a ver com os pró-fascistas. Assim dormir-se-á mais descansado. Nada que nos turve a razão. O problema, porém, são os 57% de eleitores que decidiram participar na proibição da construção de minaretes. "O maior partido nacional, o Partido do Povo da Suíça, alega que os minaretes ou torres erguidos no topo dos templos muçulmanos são um símbolo do islão militante."

Nós podemos querer enterrar a cabeça na areia. Podemos fingir que a ideia do islão militante é um produto da imaginação dos sectores mais reaccionários da sociedade europeia. Podemos até acreditar piamente que as sociedades islâmicas e as comunidades migrantes são respeitadoras dos direitos humanos e que partilham connosco um sério entusiamo pela igualdade de todos perante a lei, fundamentalmente a igualdade entre homens e mulheres. Podemos criar as ilusões que quisermos. Mas a verdade é que, para além da capa de um conjunto de opiniões politicamente de acordo com a cartilha em vigor, a população dos países europeus onde existem grandes comunidades islâmicas, nascidas da imigração, está longe de se sentir tranquila.

Mas há uma coisa muito mais tenebrosa, coisa que toda a gente se recusa a ver. A estratégia que a Europa seguiu para lidar com as guerras religiosas provocadas pela separação das Igrejas cristãs, a separação entre Igreja e Estado, entre Religião e Política, está a ser fortemente desafiada pela presença de grandes comunidades islâmicas no Ocidente. Eis um problema. Até onde é que a separação da Religião e da Política é operativa, quando o que está em causa é o militantismo político-religioso. Educados no desencantamento do mundo e na compreensão da política de um ponto de vista burocrático, para falar à maneira do grande sociólogo alemão Max Weber, as lideranças europeias não sabem o que fazer quando o religioso e o simbólico retornam em força dentro do campo da política e da guerra.

27/11/09

A confiscação



Por vezes há, mesmo entre pessoas sempre prontas para gritar contra o cristianismo, uma estranha tolerância, para não dizer uma não dissimulada simpatia, com certas causas muçulmanas. Ainda ontem, por exemplo, ouvi a um especialista brasileiro em Michel Foucault a referência à simpatia com que o pensador francês olhava os jovens oposicionistas do Xá da Pérsia, tendo apenas posteriormente percebido o que se escondia por trás daquela militância. Esta notícia é das mais extraordinárias, entre as extraordinárias que o Irão sempre está disposto a proporcionar. Para além de outras tropelias bem mais graves, o regime de Teerão confiscou, à activista dos direitos humanos, Shirin Ebadi, a medalha e o diploma recebidos quando foi premiada com o Nobel da Paz em 2003. Os objectos foram retirados de um cofre pessoal num banco em Teerão há cerca de três semanas. É o que se chama descer ao pormenor.

16/11/09

Sinal de contradição



É isto que se espera da Igreja Católica, que esteja neste mundo mas não lhe pertença. Bento XVI criticou o «egoísmo que permite que a especulação penetre mesmo no mercado dos cereais, colocando a comida no mesmo plano que todas as outras mercadorias». Este sinal de contradição é o melhor serviço que se pode prestar às sociedades humanas. A voz dos homens é a dos interesses pessoais e do egoísmo. Estes interesses e egoísmo têm um papel na iniciativa dos indivíduos e na dinâmica das sociedades, mas deverão ser contrabalançados pela moral, pela religião, pela política e pelo direito. O ideal seria que o equilíbrio se estabelecesse a partir da própria consciência, isto é, a partir das convicções morais e religiosas. Mas como o egoísmo tem pouca propensão para a consciência moral e faz ouvidos moucos à religião, aquilo que o Papa pede só pode ser realizado por iniciativa política. Esta, como se sabe, serve os senhores deste mundo. Sendo assim, ao menos que a voz do Papa clame, mesmo que seja no deserto, mesmo que ninguém o escute.

08/11/09

Os crucifixos italianos



O Tribunal Europeu dos Direitos do Homem decidiu proibir os crucifixos nos estabelecimentos escolares italianos. Segundo o Público, uma sondagem do Corriere della Sera mostra, porém, que a grande maioria dos italianos, 84%, é favorável à manutenção dos crucifixos na sala de aula. Dentro desta maioria conta-se 68% daqueles que nunca vão à missa.

O preocupante nesta história não é o conflito entre o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem e o sentir da imensa maioria dos italianos, nem tão pouco o direito de ingerência em assuntos internos que os países europeus criaram para certas instâncias internacionais. Aquilo que é mesmo preocupante centra-se no escavar da identidade europeia, na abolição sistemática dos símbolos que nos conduziram até aqui. Mais tarde ou mais cedo tudo isto se pagará. Seja pela sujeição a símbolos que são radicalmente estranhos à tradição europeia, seja pelo acréscimo de intolerância e fanatismo religiosos dos próprios europeus. Contrariamente ao que pensam os herdeiros do Iluminismo e do Jacobinismo, não há vazios religiosos. A destruição do cristianismo, fundamentalmente do catolicismo, é apenas a antecâmara para que outras religiões, porventura bem menos civilizadas, tomem o lugar daquela que venera o Crucificado.

28/10/09

O Bispo de Hanôver



Esta bela senhora, Margot Kässmann, é o Bispo de Hanôver e foi eleita para liderar a Igreja Luterana Alemã. Há, no entanto, qualquer coisa que não funciona. Eu sei que sou suspeito, pois fui educado na tradição católica, onde não há bispos de saia, apenas de sotaina, que não é bem a mesma coisa. Na fotografia de cima, Margot Kässman podia ser uma cientista a proferir uma conferência, seria absolutamente credível, apesar de ela não ser cientista. Na foto de baixa, Margot Kässmann poderia ser, com toda a verosimilhança, uma enérgica mulher de negócios, que não é. Ela é Bispo, tal como aparece na fotografia do meio, mas, em abono da verdade, é o papel onde, fotograficamente, ela é menos credível. Há qualquer coisa que não funciona nestas Igrejas.

Ratzinger, o estranho inquisidor



Música sacra moderna, orações, ladainhas e cantos marianos em várias línguas, incluindo o português, preenchem “Alma Mater - Música do Vaticano”, disco gravado pelo Papa Bento XVI e que estará à venda dentro de um mês. Não é isto, porém, que é motivo de admiração. Quando Ratzinger foi eleito Papa, não faltou gente a afirmar que o Grande Inquisidor, o Perfeito para a Congregação da Fé, tinha chegado à cadeira de S. Pedro. O intuito era desvalorizar a figura de um intelectual eminente, agora Papa. Quis-se colar-lhe a etiqueta de intolerante. Aqui temos mais um prova da sua fanática intolerância. As oito músicas originais do disco foram seleccionadas por uma comissão formada por três compositores, um ateu, Simon Boswell, um católico, Stefano Mainetti, e um muçulmano, Nour Eddine. Que estranho inquisidor este. Que estranho fanatismo este.

19/10/09

Leituras superficiais



A Igreja Católica tem uma funda sabedoria dada por dois mil anos de existência, mas os judeus são muito mais antigos e, por isso mesmo, mais sábios. Veja-se, por exemplo, o que o rabino Eliezer di Martino, responsável pela comunidade judaica de Lisboa, disse sobre o livro de Saramgo. José Saramago “não conhece a Bíblia nem a sua exegese”, fazendo “leituras superficiais das narrativas da Bíblia”. Eliezer di Martino recolocou a discussão no seu devido lugar. Depois, como resposta à afirmação de Saramago de que «o livro possa incomodar os judeus, mas isso pouco me importa», disse que «continuamos (os judeus) a existir e a acreditar naquele livro [Bíblia] desde há milhares de anos, embora tenhamos ataques e perseguições precisamente por acreditarmos». E encerrou qualquer tipo de polémica com o escritor.

18/10/09

O exercício da banalidade



O que me espanta não é o ateísmo militante de Saramago, uma ateísmo que roça o proselitismo. É um direito seu exactamente igual ao dos crentes  militantes e proselitistas. O que me acaba sempre por desapontar é a banalidade dos ataques à religião, a incompreensão do fenómeno e das raízes racionais que estão presentes na ideia de Deus. Compreender a religião e a ideia de Deus não implica acreditar ou não nelas, mas tentar uma aproximação racional ao fenómeno religioso. O que está muito longe de acontecer com Saramago, como se prova por isto: «O Corão, que foi escrito só em 30 anos, é a mesma coisa. Imaginar que o Corão e a Bíblia são de inspiração divina? Francamente! Como? Que canal de comunicação tinham Maomé ou os redactores da Bíblia com Deus, que lhes dizia ao ouvido o que deviam escrever? É absurdo. Nós somos manipulados e enganados desde que nascemos!» Isto está ao nível das crises religiosas da adolescência.

02/09/09

O princípio de autoridade

Tentemos perceber o que está em questão. Segundo o Público, o Cardeal Patriarca, D. José Policarpo, terá repreendido bispos e padres que, no trabalho pastoral, decidem pela própria cabeça. Se há uma coisa que é clara na Igreja Católica é o princípio de autoridade. A subjectividade dos membros da Igreja, incluindo o clero, deve submeter-se à autoridade do Vaticano e da hierarquia. A Igreja Católica não é uma organização democrática, onde a liberdade de opinião seja um valor fundamental. A liberdade está submetida, através do princípio de obediência, à autoridade. Caso contrário, não estaríamos perante a tradição católica, mas numa espécie de Igreja protestante. Aí sim, a autoridade perdeu o valor central. É ainda nesta perspectiva que se deve ler a seguinte constatação de D. José Policarpo: "muitas vezes o pastor assemelha-se mais a um gestor de empresas do que ao pastor que conhece as pessoas, com os seus problemas próprios e o seu ritmo de caminhada". Todos sabemos como o espírito empresarial do capitalismo moderno está ligado à ética protestante. De certa maneira, entre o catolicismo e o capitalismo, por muito estranho que possa parecer, sempre houve um contencioso irresolúvel. Esse contencioso reside no valor da decisão individual, na afirmação da subjectividade em detrimento da comunidade. Mas será curial a Igreja adoptar esta posição? Se olharmos a partir do Zeitgeist, nada é mais errado. Mas se olharmos para a História, descobrimos que o princípio de autoridade é o que mantém viva a Igreja Católica há já 2000 anos.

20/07/09

Perigosos esquerdistas - II

Este acumular de poderio e recursos… é consequência lógica da concorrência desenfreada, à qual só podem sobreviver os mais fortes, isto é, ordinariamente os mais violentos competidores e que menos sofrem de escrúpulos de consciência (...) toda a economia se tornou horrendamente dura, cruel, atroz (Pio XI - 1931).

Perigosos esquerdistas - I

Deparamos com a realidade de que a contratação do trabalho e a comercialização de quase todos os produtos se encontram nas mãos de um pequeno número de ricos e opulentos que, desta forma, impõem a essa grande multidão de proletários um jugo que em nada difere do jugo dos escravos (Leão XIII - 1891).