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16/10/08

Limpar as mãos à parede

Alguém ainda se lembra quando a Europa era sinónimo de eliminação da pobreza? Os europeus ufanavam-se do esplendor do seu equilíbrio social. Todos sabemos que a Europa se expandiu, mas, apesar dessa sabedoria, é com amargura que se vê que europeus com trabalho, com trabalho, repito, que vivem, União Europeia fora, abaixo do limiar de pobreza são já 8%, para não falar dos desempregados e daqueles que já nem sequer para as estatísticas contam. Podemos começar a limpar as mãos à parede com o que fizemos nestes últimos 20 anos. Talvez seja a altura de recomeçar a pensar o equilíbrio social e a justiça na distribuição de rendimentos e encargos.

15/10/08

Manifestações de professores

A FENPROF convocou uma nova manifestação de professores, para 8 de Novembro. O meu problema não está nos motivos da manifestação, mas na forma como o confronto com o ME tem sido travado pelas estruturas sindicais. Por outro lado, os movimentos independentes de professores já tinham agendado uma manifestação para 15 de Novembro. Mário Nogueira, da FENPROF, demarca-se desta última manifestação por, diz ele, ser anti-sindical. Mas estarão os sindicatos, perante os professores de mãos limpas? Oiçam os professores nas escolas e perceberão o modo com estes vêem os sindicatos. Resta-me uma ténue e risível esperança que, em tempos a vir, alguém repare no absurdo em que se tornou a escola portuguesa e rompa com o novo paradigma, para falar ao gosto de certa gente.

13/10/08

Salvar o quê e a quem?

Há uma coisa que me atormenta no meio destas medidas todas para fazer face à crise financeira global, seja o dinheiro disponibilizado por Sócrates, sejam os acordos europeus, seja a política de Bush: o que visa todo esse dinheiro salvar? Por vezes sou assaltado pela dúvida, eu que nada sei de feitiçaria económica, de que esse dinheiro se destina a manter o status quo e a premiar aqueles que conduziram as finanças mundiais ao colapso onde se encontram, à custa da economia produtiva e do rendimento dos mais fracos. Mas eu, repito, não sou feiticeiro. Desconfio que não são só os loucos e os políticos que são inimputáveis.

12/10/08

Fair-play democrático

Nas eleições americanas a animação está ao rubro. Os republicanos sugerem que Obama é terrorista. Os democratas acusam McCain de racista. Isto é o mais puro fair-play. Ah!, mas estamos em política e nesta, segundo a lição de Maquiavel, não entra no jogo o cálculo ético. É verdade, mas também é verdade que entra o cálculo político. Ora se este tipo de insultos soezes são pronunciados é porque os candidatos julgam que eles serão acolhidos pelo eleitorado. Sendo assim, esta animação de arrivistas expressa a saúde moral dos americanos, gostemos ou não.

11/10/08

Nacionalizemos, então

Afinal nacionalizar bancos não é uma coisa intrinsecamente má. Parece que os campeões da liberalização e do anti-estatismo se converteram às práticas gonçalvistas de 75. O que me faz rir, não porque seja adepto das nacionalizações, mas porque mostra a volubilidade dos homens e o ridículo que existe em todas as posições ideológicas extremas, sejam socialistas, sejam liberais. A maior parte das vezes, os protagonistas sociais, políticos e económicos deveriam pura e simplesmente estar calados. Os americanos que, na sequência da queda da União Soviética, lançaram um ataque impiedoso ao Estado providência, não têm agora pejo em armar o seu próprio Estado em deus benévolo que suprirá não a desgraça dos fracos, mas o desatino dos fortes. A humanidade desespera-me e dá-me vontade rir.

10/10/08

Histórias mal contadas

Há histórias mal contadas, há histórias desagradáveis e há histórias que são ao mesmo tempo mal contadas e desagradáveis. Esta é uma delas. Se o veterano da primeira guerra do Iraque estiver a falar verdade, se os EUA tiverem efectivamente usado uma bomba nuclear na I Guerra do Golfo, se se desmentir a versão do Pentágono, o Ocidente terá dado um passo decisivo para a sua completa irrelevância e legitimado de uma vez por todas a proliferação de armas nucleares e o seu uso convencional. Esperemos que haja explicações convincentes.

08/10/08

Nova maioria absoluta?

A época que vivemos não deixa de ser um óptimo refúgio para o governo de Sócrates. Apesar da economia estar à beira da recessão, apesar de em todas as áreas cruciais da governação existir um profundo desconforto, a verdade é que o terramoto da economia internacional veio da uma ajuda grande às gentes do governo. O conjunto de medidas anunciado para fazer frente à crise (aqui ou aqui) dá a ideia, à opinião pública, de que o governo está activo e governa. Se isto adicionarmos o temor do desconhecido e da instabilidade política, para além da ausência de alternativa consistente, podemos conjecturar que uma nova maioria absoluta está no horizonte dos possíveis de Sócrates. Lamentavelmente.

01/10/08

Sob o princípio da irresponsabilidade

A vida não deixa de ser irónica. Há dez anos atrás alguém imaginaria ver um primeiro-ministro russo dar lições de economia e de resolução de crises económicas aos americanos? Não há quadro mais claro da humilhação americana do que as palavra de Vladimir Putin: “Não é tanto a irresponsabilidade de pessoas em concreto, mas sim a irresponsabilidade do sistema que, como é de conhecimento público, tenciona ser líder mundial”. Assim, da irresponsabilidade da regulação económica Putin passa e torna clara a irresponsabilidade na gestão dos negócios políticos mundiais.

30/09/08

Tranquilidade

Percebo, um primeiro-ministro não pode fazer outra coisa, mas que garantias pode José Sócrates dar daquilo que diz? Será que os portugueses com poupanças podem estar tranquilos? E os muitos portugueses que não têm rendimentos nem para ter poupanças, também podem estar tranquilos? Diz, o primeiro-ministro, que a culpa é dos americanos. Claro, mas os europeus, coitados, nunca alinharam em nada daquilo, nem fizeram proselitismo dos novos tempos da economia mundial. Mas para que serve culpar agora os americanos? O importante é compreender até onde vai a interdependência das economias. Tranquilidade? Mas não é quando o mar está mais tranquilo que ele é mais perigoso?

29/09/08

Pobre escola portuguesa

A FENPROF pede reunião urgente com a ministra da educação (Público). Alega o clima de mal-estar que se vive nas escolas, a pouca disponibilidade que os professores têm para o ensino. Independentemente das culpas da FENPROF em muitas das idiotices que caíram, ao longo dos anos, na escola portuguesa, a central tem, neste caso, quase toda a razão. A que lhe falta reside na pressuposição de que a ministra e o seu ministério estejam preocupados com o clima das escolas ou com as efectivas aprendizagens dos alunos. Não o estão, como todos nós o sabemos. Apenas esperam que chegue ao fim a legislatura, para se livrar do fardo que criaram. Nem sequer são eles que vão a votos, mas o engenheiro.

28/09/08

O caso austríaco

Se se confirmarem as previsões feitas à boca das urnas, dois partidos de extrema-direita austríaca atingirão, nas eleições de hoje, um resultado à volta dos 30% de votos. Há dois caminhos para ler o acontecimento. Por um lado, poder-se-á achar que os austríacos são especialmente perversos e que estão a fortalecer aquele campo político só para aborrecer as boas consciências europeias. Por outro, haverá a possibilidade de olhar para a Áustria e tentar compreender o que está a correr mal no projecto europeu e na orientação política que o mundo ocidental decidiu escolher na sequência do fim da “Cortina de Ferro”.

O exemplo sul-americano

O referendo equatoriano de hoje sobre uma nova constituição de teor socializante é mais uma peça do interessante jogo político que se está a desenrolar na América Latina. De uma forma democrática, como já tinha acontecido, em 1973, no Chile de Allende, a imensa mole de pobres está a permitir uma inclinação à esquerda (não confundir com a esquerda europeia) das governações de muitos países da zona. Ora o que se está a passar ali não é imediatamente transferível para a Europa. No entanto, se as políticas de pauperização e proletarização das classes médias continuarem, a tentação do exemplo sul-americano renascerá. De todos os países europeus, Portugal será aquele que está mais exposto. As sondagens, com as intenções de voto no PCP e no BE, são já um sintoma disso.

27/09/08

As razões do silêncio

Tem toda a razão Medeiros Ferreira. O PSD nada tem a oferecer de diferente daquilo que o PS decidiu dar ao país. O silêncio de Ferreira Leite não é astúcia estratégica, apenas a confissão de que José Sócrates é o efectivo chefe do PSD. As contas que se fazem em S. Bento, não o esqueçamos, ou na S. Caetano, à Lapa, prognosticam uma maioria relativa do PS, seguida de turbulência política e, por decisão presidencial, dissolução da Assembleia da República com novas eleições. Aí, presumem os estrategas, o povo entregará a governação de mão beijada ao pessoal da laranja. Mas será isto assim tão líquido?

24/09/08

McCain, o imaginativo

Não falta imaginação aos “spin” de John McCain. Quando a campanha começava a correr mal devido ao fracasso da política económica republicana e à crise financeira consequente, o candidato republicano tira um coelho da cartola: suspende a campanha e pede adiamento do debate de sexta-feira com Obama. Motivo invocado: quer ajudar a combater a crise financeira, que ele próprio ajudou a criar ao legitimar as políticas de Bush. Poder-se-á admirar a esperteza, a capacidade para retomar a iniciativa e o que nos apetecer. Mas em tudo isto não há o mínimo de grandeza ou de fair-play. De facto, aquele país não é para aristocratas.

21/09/08

Maldito princípio de realidade - II

Os campeões da desregulação, os entoadores de hinos à «mão invisível» do mercado, o exemplo da pátria liberal, decidiram em desespero de causa e para evitar a falência da banca norte-americana, intervir no mercado e disponibilizar 700 mil milhões de dólares para evitar a catástrofe que as suas ideias produziram. Se tivessem regulado um pouco a montante, talvez evitassem esta regulação a jusante. Mas os EUA, como muitos liberais, têm, também eles, um problema aguado com o maldito princípio de realidade.

Maldito princípio de realidade

Ufanava-se este governo que os resultados escolares tinham a ver com o acréscimo de trabalho dentro das escolas. As explicações passaram para dentro da escola, chegou-se a dizer. Mas a realidade parece ter feito um pacto contra os nossos governantes educativos. Segundo o Público, o mercado de explicações continua em crescimento. A grande transformação, e talvez seja isto que entusiasma o governo, é que os explicadores domésticos, a maioria professores que ganham um complemento do ordenado com trabalho extra, estão a ser trocados pelas multinacionais das explicações (existem mesmo).

20/09/08

Rumo traçado

O engenheiro Sócrates afirmou que o PS vai prosseguir no rumo traçado em 2005. Assim, ao contrário de então, ninguém se poderá queixar de enganos. Já todos conhecemos o rumo traçado na Justiça, na Educação, na Saúde, na Segurança Social, na Segurança Interna, na Economia. Portanto, os portugueses das classes populares e das classes médias, se estiveram interessados em continuar a ser os bodes expiatórios e o bombo da festa desta gente que tomou conta do governo, sigam o rumo traçado e façam o favor de votar no engenheiro-chefe dos socialistas.

13/09/08

O que será que os junta?

Há qualquer coisa que junta Aníbal Cavaco Silva e Maria de Lurdes Rodrigues. Se não tivesse vivido a reforma cavaquista da educação, não teria percebido. Mas quem a viveu, percebe muito bem que há coisas que unem ambas as políticas: a irrelevância do ensino, a transformação da escola pública num interminável jardim de infância. Mas esta estima mútua é também, e talvez fundamentalmente, cultural, como se ambos pertencessem ao mesmo mundo e tivessem um inimigo comum e oculto: o mundo dos intelectuais e da cultura, mundo esse que deve ser expulso rapidamente e em força da escola pública.

09/09/08

O socratismo

Que dizer de um governo que chega ao fim da legislatura e só pode apresentar resultados positivos numa área, a educação, onde todos os protagonistas afiançam a pés juntos que os dados não possuem qualquer valor de verdade? Sócrates até poderá tornar a ganhar com maioria absoluta, mas os portugueses vivem pior e as instituições continuam doentes, talvez mais do que estavam. A política em Portugal esgotou-se. Ninguém espera já nada. Os fracos enfraquecerão e os fortes tornar-se-ão mais raivosos. É isto o socratismo, um vazio absoluto num mar de propaganda.

Delírios da propaganda

Chumbos atingiram o valor mais baixo da última década, titula a TSF. E ainda só a procissão vai no adro, acrescento eu. Quem, sendo penalizado na sua avaliação profissional, vai chumbar um aluno? A ministra, na sua contínua campanha eleitoral, diz que os resultados se devem a mais tempo de trabalho com alunos na escola. Mas se a senhora ministra acha que foi essa a causa, então desligue a avaliação de professores dos resultados dos alunos e recoloque o nível de exigência dos exames no patamar de há uns anos atrás. Depois, conversaremos sobre causas de sucesso.