09/03/08

O problema de Sócrates

Perante a marcha dos professores só uma coisa, de natureza contabilística, atormenta Sócrates, o bem real pelo qual se batem os políticos: votos. Aqui, porém, as contas são complicadas. Se ele tivesse a certeza que ganhava mais do que perdia, já teria despedido Maria de Lurdes Rodrigues e o séquito. Sócrates não sabe nada de educação e as suas convicções no assunto foram pautadas pela estratégia soprada ao ouvido de que bater nos professores dava votos. Agora, não sabe o que fazer. O grande incêndio de ontem já passou, mas o pior são as pequenas fogueiras, país fora, a queimar todos os dias. Já me esquecia, talvez o próprio Sócrates descubra que os fogachos da Saúde estão, também eles, longe de estar apagados.

Afinal, sempre caiu

Não, não foi a ministra da educação, foi o treinador do Benfica. Sem manifestações, embora com lenços brancos. De saudoso à chegada, vai-se embora sem deixar saudades. A equipa não ajuda, a máquina na retaguarda também não me parece particularmente interessante, e a falta de dinheiro completa o ramalhete de papoilas que um dia foram rubras, mas agora são cor-de-rosa, tão anémicas se tornaram.

António Barreto - Avaliação

O sistema de avaliação que a ministra pretende impor e que os sindicatos recusam é apenas um dos temas de contestação. Mas é o que tem surgido com mais evidência. A coberto de uma virtude indiscutível, a ideia de avaliação não é recusada por ninguém. É de bom-tom dizer que se é "a favor da avaliação, mas contra esta avaliação". Para todos, ou quase, é uma espécie de santo-e-senha de honorabilidade. Acontece que não é. A palavra, o conceito, o mito e o tique nasceram há vinte ou trinta anos. Em Portugal e na Europa. Criado por burocratas e tecnocratas, os defensores da avaliação acreditam que um sistema destes promove a boa educação, melhora o ensino, castiga os maus profissionais, detecta os talentos, permite corrigir erros e combate o desperdício. Na verdade, o sistema e a sua ideologia, que infestaram o Ministério da Educação, são próprios de uma educação centralizada, integrada e uniforme. Na impossibilidade humana de "gerir" milhares de escolas e centenas de milhares de professores, os esclarecidos especialistas construíram uma teoria "científica" e um método "objectivo" com a finalidade de medir desempenhos e apurar a qualidade dos profissionais. Daí os patéticos esquemas, gráficos e grelhas com os quais se pretende humilhar, controlar, medir, poupar recursos, ocupar os professores e tornar a vida de toda a gente num inferno. O que na verdade se passa é que este sistema implica a abdicação de princípios fundamentais, como sejam os da autoridade da direcção, a responsabilidade do director e dos dirigentes e a autonomia da escola. O sistema de avaliação é a dissolução da autoridade e da hierarquia, assim como um obstáculo ao trabalho em equipa e ao diálogo entre profissionais. É um programa de desumanização da escola e da profissão docente. Este sistema burocrático é incapaz de avaliar a qualidade das pessoas e de perceber o que os professores realmente fazem. É uma cortina de fumo atrás da qual se escondem burocratas e covardes, incapazes de criticar e elogiar cara a cara um profissional. Este sistema, copiado de outros países e recriado nas alfurjas do ministério, é mais um sinal de crise da educação. Mais do que dos sindicatos ou dos professores, a ministra Maria de Lurdes Rodrigues é vítima da 5 de Outubro. Sociólogo [Público, 9 de Março de 2008]
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Depois de Vasco Pulido Valente, é a vez de António Barreto descobrir o verdadeiro sentido da avaliação de professores. Está tudo escrito no texto, mas convém esclarecer o seguinte: 1. A ministra não é vítima apenas da burocracia do Ministério, é vítima dela mesmo e da sua equipa. A senhora não é ingénua nem inocente. Ela jura a pés juntos que o modelo é competente e parece acreditar com uma fé inquestionável no que diz; 2. O problema é que este modelo não é tanto um modelo europeu, mas mais um modelo sul-americano, imposto no Chile e na Bolívia, julgo que a conselho do FMI (cf. aqui). 3. Este modelo tem uma finalidade objectiva: evitar que os alunos da escola pública façam frente aos dos colégios privados.

Georges Rouault - El huerto de los olivos

Siglo XX. Vanguardias Históricas/Expresionismo, 1935-36. Óleo. 44 x 33 / 30 x 20 cm. Museo Idemitsu. Tokio. Japón.

O sociólogo Santos Silva

O doutor Santos Silva é um sociólogo do norte, metido a político desde os tempos frouxos do Engenheiro Guterres. Parece que foi ontem vaiado à entrada da porta do PS de Chaves. Eu sei que é muito desagradável ouvir o zumbido das Erínias. Por mim, deixava os homens do PS em paz, mas as benevolentes lá sabem o que fazem. O que eu acho estranho é que em Santos Silva ou Lurdes Rodrigues a condição de sociólogos lhes faleça mal sentem que as suas extremosas ideias políticas e técnicas não são apreciadas por aí além. Se o doutor Santos Silva estivesse na universidade e fosse o PSD a fazer este conjunto de disparates, não faltaria palavras de encorajamento aos professores em luta pela liberdade e pela dignidade e por mais o que ocorresse naquelas cabeças aziagas.

PSD, o pezinho para a chinela

O PSD decidiu, há tempos, despedir expeditamente Luís Marques Mendes da direcção do partido. Entregou o directório da congregação ao senhor Luís Filipe Menezes. Parece que o primeiro não era populista suficiente para enfrentar Sócrates, para além do problema da altura, ou falta dela. Ora o doutor Menezes não só perdeu o pio como não tem uma única ideia, pequena que seja, para governar. Marques Mendes, mais sólido, estaria agora em condições de aproveitar o descontentamento com o governo que começa a surgir. Ao PSD lá lhe fugiu o pezinho para a chinela, porque não há partido mais tuga em toda a tugolândia, e agora olha perplexo para o país, a imaginar manhãs radiosas, que ainda não merece, conforme o chefe da colectividade, com siso, reconheceu.

O diletantismo de alguns inimigos

Sei que é difícil escrever contra comentadores e fazedores de opinião, eu que faço opinião, certamente paroquial, num jornal local, há longos anos. Paulo Guinote faz uma lista de comentadores que zurzem, com prazer, os professores. João Marcelino, Henrique Monteiro, Fernando Madrinha, José António Lima, David Pontes, Paulo Baldaia (aqui). Acrescento Emídio Rangel. Haverá, por certo, mais, e há blogues que sentem um prazer inaudito ao mostrar a inferioridade ontológica, quase que nos negam o estatuto de pessoas, do professorado português.

Há duas coisas que unem todos estes «inimigos figadais» dos professores. Não percebem nada de educação, não percebem sequer o que está em jogo. As suas opiniões sobre a realidade educativa têm o valor da conversa da treta. Pensam, porém, arrastados pela verborreia e pelo lugar social que ocupam que o que sai das suas cabeças é a verdade, talvez revelada por Deus. O que sai de lá, porém, nada tem a ver com conceitos sobre o que é melhor para a educação. O que lhes sai é apenas preconceitos, na dupla acepção da palavra: estereótipos, frases feitas e noções que não chegam a ser conceitos, são pré-conceitos. Que esta gente, que “pensa” de uma forma tão diletante, tão pré-conceptual, tenha o papel que tem na imprensa mostra bem o baixo nível da coisa.

Pode-se, óbvia e felizmente, discordar dos professores, mas seria interessante que rebatessem as ideias destes, aquelas que dão corpo à sua indignação, e, mais do que isso, mostrassem, uma vez na vida, que sabem pensar, mostrando a qualidade técnica das opções ministeriais. Coisa que, até hoje, ninguém verdadeiramente fez. Era tempo de passar dos pré-conceitos aos conceitos, era tempo de, no lugar da manipulação, haver pensamento. Mas isto será pedir demais a uma certa «malta» dos jornais.

José Madureira Pinto - Política educativa: uma estranha coerência

Com conteúdos e qualidade muito diversos, as medidas de política educativa do actual Governo manifestam, em qualquer caso, um princípio unificador bastante preciso: retirar direitos ("privilégios", no entendimento dos responsáveis governamentais), poder e auto-estima aos professores dos ensinos básico e secundário. Intrigado com esta estranha coerência, terminava José Gil a sua coluna na Visão de 21 de Fevereiro com a seguinte interrogação: "Nisto tudo, porquê tanto ódio, tanto desprezo, tanto ressentimento contra a figura do professor?"

Procurando contribuir para responder à pergunta, direi que a atitude governamental em causa, para se poder apresentar com tanta convicção e coerência, teve de basear-se em alguns equívocos, que passo a tentar enunciar.

O primeiro equívoco consiste em admitir que a sociedade portuguesa oferece aos jovens condições homogeneamente favoráveis de acesso e de relacionamento com a escola, tornando por isso fácil e padronizável a acção pedagógica. Partindo deste equívoco, o corolário político extraído pela actual equipa ministerial foi o de que os alegados maus resultados obtidos no sistema educativo português são directamente imputáveis aos seus protagonistas mais salientes: os professores e os órgãos de gestão das escolas.

A verdade é que, para sustentar tal posição, é preciso acreditar que: a sociedade portuguesa não é marcada por fortes desigualdades económico-sociais; é estatisticamente irrelevante a proporção de crianças e jovens a viverem em situação de pobreza ou em famílias com horizontes de emprego precários; não há défices de instrução e de literacia muito elevados entre a população adulta, portanto entre os pais de muitos alunos que hoje frequentam a escola; não há falta de tempo nem de preparação de muitos encarregados de educação para o acompanhamento escolar dos filhos; não há espaços residenciais estigmatizados nem formas de socialização desviantes a eles associadas; não há diluição de factores de motivação para o trabalho escolar induzidos pelo consumismo e por ilusões de ascensão social difundidas no campo dos media e das indústrias culturais e de lazer; não há carências nem falta de coordenação entre instituições de apoio social às populações e grupos escolares mais desfavorecidos; não há desmotivação dos jovens para o prosseguimento de estudos por falta de perspectivas profissionais valorizadoras das aprendizagens escolares; não há pressão para a saída precoce da escola em direcção a postos de trabalho precários e muito pouco qualificados (em Portugal ou até em Espanha); etc.

O segundo equívoco é, em grande medida, uma projecção do primeiro no modo de conceber o quotidiano concreto das escolas e desdobra-se, também ele, em múltiplas crenças: os equipamentos escolares têm sempre grande qualidade; as turmas reais têm a dimensão que lhes atribuem as "médias" oficiais; é estável, transparente e coerente a malha de regulamentação das actividades lectivas de iniciativa governamental (raramente avaliadas, aliás) a que os professores têm de se adaptar; não há alunos com dificuldades acumuladas nas turmas; há acompanhamento permanente a esses alunos por parte de equipas pluridisciplinares devidamente preparadas e estáveis; há muito tempo disponível no horário dos professores para se relacionarem com os colegas, para prepararem conscienciosamente as aulas e para se encontrarem consigo próprios no quadro de estratégias de autoformação consistentes e estimulantes; a sala de aula é um espaço de transmissão da mensagem pedagógica sem resistências nem dissidências por parte dos receptores, e onde a indisciplina é pontual e passageira; não há sofrimento nem forte incidência de burnout entre os docentes; etc.

Assumidas estas ficções sobre a sociedade portuguesa e as suas escolas concretas, basta que se assuma também o pressuposto (individualista/subjectivista) segundo o qual a acção dos professores depende exclusivamente de qualidades e intenções que lhes são "próprias", e não sobretudo, como acontece na prática social em geral, da estrutura de limitações e oportunidades com que se confrontam - basta que se assumam aquelas ficções e este pressuposto para se começar a acreditar, e depois a jurar, que os problemas da escola portuguesa começam e acabam na inabilidade, preguiça, "corporativismo", desleixo, desinteresse dos professores, responsabilizando-os publicamente por isso.

Foi esta a armadilha intelectual em que se deixou cair a equipa ministerial, quase desde o momento em que iniciou funções. Daí à hostilização sistemática dos professores, habilmente mediada pelo ataque às suas estruturas sindicais, não foi senão um passo. (...) Numa altura em que os teóricos da organização e gestão empresarial defendem cada vez mais a importância do envolvimento e participação criativa dos trabalhadores (encarados como actores "reflexivos"), desconfiando dos que teimam em racionalizar e controlar os comportamentos no espaço do trabalho sem ter em conta a pluralidade e riqueza das suas dimensões humanas, a obsessão "gestionária" do Governo no modo de conceber a actividade docente (actividade relacional por excelência) tem o seu quê de anacrónico - e pode vir a ter consequências muito negativas, se não forem revistos alguns dos seus fundamentos e modos de concretização.
Sociólogo; professor da Universidade do Porto. [Público, 9 de Março de 2008]

Marcha de professores, o que me comoveu

Acabei de chegar de Lisboa. Era para ter ficado por lá, o corpo resolveu engripar ou coisa que o valha. Mas mesmo a aspirina e a brufen lá fui à minha «primeira» manifestação a sério. Talvez escreva, mais logo, alguma coisa sobre o assunto. Hoje queria deixar uma nota sobre o que mais me comoveu, a mim que não sou particularmente dado a comoções.

Como desfilei desde o Marquês de Pombal até ao Terreiro do Paço sempre chegado ao lado esquerdo vi muito do público que assistiu ao passar da manifestação. Muitas dessas pessoas seriam professores aposentados, gente idosa, gente que passou uma vida dedicada aos seus alunos. Olhavam-nos, olhavam-me e nos seus olhos havia uma imensa gratidão para connosco, incentivam-nos e havia aqui e ali lágrimas. Era como se na tarde deste sábado 100 mil professores resgatassem a sua dignidade e a de milhares de colegas que já deixaram a escola.

Em todos eles, porém, havia um sinal de espanto. Era como se uma vida inteira dedicada aos outros encontrasse, numa tarde fria de Março, o ajuste de contas com quem, durante décadas, sim, já são décadas, tem, para além de destruir o sistema de ensino com reformas delirantes, tentado destruir a imagem dos professores e diabolizar a sua profissão.

08/03/08

Vasco Pulido Valente - Pelos professores

Hoje, 70.000 professores vêm a Lisboa protestar contra o Governo e a ministra da "Educação". Não posso simpatizar mais com eles. Mas não me parece que tenham percebido bem o fundo da questão: nem eles, nem a generalidade do público. Toda a gente parte do princípio que os professores devem ser avaliados; mesmo os próprios professores, que só criticam o método proposto pela 5 de Outubro. Ninguém ainda disse que os professores, pura e simplesmente, não devem ser avaliados, nem que a avaliação demonstra a (incurável?) deformidade do sistema de ensino. Em cada manifestação aparecem professores furiosos proclamando que não temem a avaliação. Acredito que sim. Infelizmente, não se trata disso.

Uma avaliação pressupõe critérios: parece que neste caso à volta de catorze (e pressupõe avaliadores, muitos dos quais sem qualquer competência científica ou pedagógica ou interesses de uma total irrelevância para a matéria em juízo). Os critérios medem, peço desculpa pelo truísmo, o que é mensurável como, por exemplo, a assiduidade ou notas de uma exactidão discutível, como perfeitamente sabe quem alguma vez deu notas. Não medem nem a "moral", nem o "ambiente", nem os valores da escola ou a contribuição de cada professor para a sobrevivência e a força dessa "moral", desse "ambiente" e desses valores. Numa palavra, não medem a qualidade, de que depende, em última análise, o sucesso ou o fracasso do acto de ensinar. Criam uma trapalhada burocrática que esteriliza e que massacra e acaba sempre por promover a mediocridade, o oportunismo e a rotina. A sra. Thatcher ia matando assim a universidade inglesa.

Os professores não precisam de uma vigilância vexatória e nociva por "avaliações". Precisam de um ethos, que estabeleça uma noção clara e unívoca de excelência. Se o ensino superior for de facto excelente (e não o travesti que por aí vegeta) e se tiver inteira liberdade de seleccionar alunos (como agora não tem), os professores ficarão com um objectivo, o de preparar as crianças para o ensino superior, que os distinguirá entre si, sem regras de espécie alguma; e que tornará o seu trabalho pessoalmente mais compensador, interessante e útil. Desde o princípio que o Estado democrático não compreendeu esta evidência. Começou as reformas por baixo e não por cima. Aturou sem vergonha os mercenários que exploravam a universidade. E de repente quer que os professores paguem a conta do desastre. Não é admissível. [Público, 8 de Março de 2008]

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Não poderia estar mais de acordo. Muitos professores, porém, sabem perfeitamente que o problema não reside na avaliação, mas no «ethos» que guia a prática docente. Sabem também que estas avaliações vão castigar os melhores professores, aqueles que ensinam, e promover os medíocres. Aceitar a avaliação do inavaliável é uma cedência ao Zeitgeist, o reconhecimento de uma impotência perante um discurso ideológico que se apoderou de uma parte dos tecnocratas de serviço e da opinião publicada. Aceitar alguma forma de avaliação é uma tentativa, talvez infrutífera, de tentar que o essencial não seja completamente destruído pelos irresponsáveis políticos que tomaram conta da educação, e o essencial é a transmissão de saber, o conhecimento. Por fim, um agradecimento a Vasco Pulido Valente, a José Manuel Fernandes, a todos aqueles que perceberam, ao fim de três anos, que o que os professores contestam, desde o início deste mandato, é uma concepção de sistema educativo geradora de mais incompetência, um sistema que irá produzir um monumental embuste de sucesso escolar ao mesmo tempo que destrói o que ainda resta de sério na profissão de professor.

07/03/08

O silêncio da terra sombria – 14. Ave esquiva

Morre o pássaro indolente,
ave esquiva de asas
tecidas pela
mão que escreve.
Ali mesmo
onde a noiva, húmida,
abre o segredo sobre o altar,
a luva pendente entre lábios,
a voz escamada
como um bloco de azul
abandonado
na poeira da casa.

Sobre tudo isto caiu
o som das folhas de outono
quando os plátanos
entregaram a voz
à clemência do inverno.

[Jorge Carreira Maia, O Silêncio da Terra Sombria, 1993]

Renata Tebaldi is Madama Butterfly

Bernardo Daddi - La Crucifixión

Siglos XIII y XIV. Gótico, Italia. Escuela de Florencia, Italia. Escuela de Florencia.

A minha primeira manifestação

Amanhã vou à minha primeira manifestação. Primeira? – Perguntarão aqueles que me conhecem. – Então e nos anos de 74 e 75? É verdade, naqueles anos participei, sempre aqui na zona – nunca me manifestei em Lisboa, por exemplo –, em algumas manifestações. Não muitas, até porque por cá nunca houve excessos. E, para dizer a verdade, aquilo não eram bem manifestações, eram mais procissões a um deus novo e desconhecido, um deus prazenteiro, umas vezes, impetuoso e um pouco arisco, outras. Mas manifestações, manifestações a sério aquilo não era, juro-o. Depois, acabou-se o meu interesse pela coisa. Assisti, mas não participei, ainda a uma manifestação em Madrid de apoio a Timor, mas para dizer a verdade aquilo parecia mais uma cerimónia religiosa. E é assim, com esta leitura truncada da realidade, que chego quase virgem ao dia de amanhã e lá me irei manifestar de forma concreta contra alguma coisa e a favor de alguma coisa.

Por que razão vou manifestar-me amanhã? Vou manifestar-me contra a irracionalidade e a burocracia, vou manifestar-me contra a destruição da profissão de professor. Vou manifestar-me pela autonomia verdadeira das escolas, e não aquela que pretende vergar as escolas aos interesses partidários locais, vou manifestar-me por uma avaliação sensata dos docentes, uma avaliação centrada na transmissão de saber, vou manifestar-me pela dignidade da profissão que é a minha e que está a ser impiedosamente destruída. Mas e fundamentalmente vou manifestar-me pelos meus alunos, os de hoje e os de amanhã. Vou manifestar-me porque julgo que eles merecem ter os professores ao serviço das suas aprendizagens. Vou manifestar-me porque os meus alunos não merecem ter em lugar de professores especialistas em eduquês, em gestionês ou em burocratês. Vou manifestar-me por uma educação que permita tirar o melhor de cada aluno. Se fosse apenas por mim, com tanta coisa interessante para fazer, nem punha lá os pés. [Desenho: Jacinta Gil Roncalés - Manifestación]

José Manuel Fernandes - Por que é que, desta vez, são os professores que têm razão

Vamos imaginar uma sociedade ideal formada por seres humanos ideais. Como poderia ser essa sociedade? Nela cada um contribuiria o melhor que pudesse e soubesse para o bem comum, e receberia da comunidade aquilo de que necessitasse. Uns contribuiram mais e receberiam menos, pois eram melhores, mais fortes e mais saudáveis. Outros contribuiram menos mas nunca seriam abandonados.

Perfeito. Mais perfeito ainda que um igualitarismo cego. Impossível de contrariar como ideal, ou como utopia. Os seres humanos no seu melhor, dando o seu melhor, solidários, desprendidos.

Quem, em nome deste ideal perfeito, não aceitaria que, aqui e além, no caminho para transformar a actual sociedade e acabar com todas as suas injustiças, os nossos dirigentes procurassem atalhar caminho seguindo, porventura, métodos menos ortodoxos? Castigando, por exemplo, os egoístas. Ou os que dessem sinais de preguiça. Ou, simplesmente, os que tivessem outro ideal de mundo perfeito. Poucos, dirão muitos.Pois é. Mas o ideal que descrevemos é o da sociedade comunista perfeita, um ideal muito anterior ao marxismo ou ao leninismo. O que estes lhe acrescentaram foi que era legítimo recorrer a métodos extremos para atingir este bem supremo. O resultado foram algumas das maiores tragédias do século XX.

Serve esta alegoria para que se distinga entre o que se pretende com a avaliação dos professores - um bem que ninguém devia discutir - dos métodos que estão a ser seguidos para a pôr em prática. Se o objectivo fosse utilizar a demagogia, incluiria nesses métodos as incursões intimidatórias ontem realizadas pela PSP em algumas escolas, mas não acredito que tenham sido ordenadas pela ministra da Educação (ou, pelo menos, recuso-me, para já, a acreditar). Mas não é necessário: o que importa reter é que a forma como o ministério está a actuar indica que, para este, o objectivo a atingir - avaliar de forma séria os professores - é mais importante que os métodos utilizados para o fazer, ou para o impor, pois é isso que está a suceder. Esse foi o primeiro pecado mortal dos regimes inspirados pelas doutrinas de Marx e Engels, e essa forma de actuar contraria a essência de uma democracia aberta, em que os métodos e as regras (as leis comummente aceites) se sobrepõem aos fins. Julgo não ser necessário argumentar sobre a vantagem do segundo sistema relativamente ao primeiro.
O segundo pecado mortal do regime que a ministra da Educação está a procurar impor é o do centralismo. Ora, o centralismo não surge por acaso: o centralismo é o resultado de uma forma de pensar, esta herdada do pior da Revolução Francesa e da essência do bolchevismo, de que existe uma elite iluminada (Lenine chamou--lhe "vanguarda") que tem o direito e o dever de impor as suas certezas a todos. As "certezas" da ministra e do seu cão-de-fila, o secretário de Estado Valter Lemos, são, para eles, tão científicas e indiscutíveis como o era o chamado "socialismo cientítico". Só indivíduos malévolos, preguiçosos, desestabilizadores ou membros de sindicatos podem estar contra elas - um tipo de raciocínio que os bolcheviques aplicavam a todos os que se lhes opunham, apodados de "contra--revolucionários".

Clarificado o essencial - os professores devem ser avaliados e o sistema em vigor não era adequado -, condenado o princípio de que um bom fim justifica um mau método e dito de uma vez por todas que ninguém pode arrogar-se o direito de querer mandar em tudo por acreditar na sua maior clarividência, importa perceber por que é que, para além destas questões de princípio, os professores têm, desta vez, razão.

O primeiro motivo deriva do absurdo de tudo se querer regulamentar. A ministra bem pode argumentar, como ontem tentou fazer na RTP, que os professores estão a querer passar a ideia de que o método de avaliação imposto é complexo e implica uma burocracia kafkiana. Para além de ser humilhante e poder gerar injustiças e arbitrariedades. Quem leu e tentou decifrar a avalanche de despachos interpretativos de interpretações que inundou as escolas nas últimas semanas sabe que a ministra não tem razão: o gráfico em que o PÚBLICO sintetizava os passos do processo de avaliação não complicava o fácil, antes eliminava algumas das complicações adicionais. Mais: só por estar em absoluto desespero se pode explicar que este ministério, que desde que tomou posse tratou de regulamentar tudo e diminuir a autonomia das escolas, tenha ontem distribuído por todas as redacções um documento de "perguntas e respostas" sobre o sistema de avaliação em que remete para autonomia das escolas opções que a letra da lei não autoriza. Pior: este é o mesmo ministério que, além de querer impor um absurdo - uma mesma grelha de avaliação para escolas com poucas dezenas ou com milhares de alunos, para estabelecimentos do pré-escolar ou do ensino secundário -, ainda tem tentado impor grelhas de avaliação das famosas aulas observadas por colegas, grelhas essas que imporiam a todos os professores a utilização do mesmo método de ensino estivessem eles a lidar com uma turma onde coexistissem mais de dez etnias ou a dar aulas numa zona sociologicamente homogénea a filhos de professores, engenheiros ou médicos. Grelhas, naturalmente, infectadas pelo vírus do pior "eduquês".

É possível - vamos admiti-lo por absurdo - que Maria de Lurdes Rodrigues não tenha consciência de tudo o que está a sair dos seus serviços para as escolas, mas quando vê, como todo o país está a ver, que a revolta dos professores há muito que saiu da esfera dos sindicatos e que estão contra ela muitos dos melhores profissionais, que estão a ir às manifestações cidadãos que nunca se manifestaram na vida, que mesmo os que o seu sistema teria beneficiado, os professores titulares, estão revoltados, então deveria parar para pensar. Deixar de ouvir apenas os yes men que por aí abundam. Tentar perceber por que motivos tem dificuldade em indicar escolas boas onde o seu sistema esteja a ser bem recebido. Se o fizesse, até porque se acredita que não perdeu a honestidade intelectual, não recorreria à demagogia rasteira de que tudo se resume a maus professores que não querem ser avaliados e a um governo justiceiro que os quer meter na ordem.

Pensaria então em alternativas. Que deveriam balizar-se em dois parâmetros muito simples: primeiro, dar muito mais autonomia às escolas e partilhar com as comunidades locais a sua gestão e orientação; segundo, criar mecanismos objectivos, inatacáveis, de aferição dos resultados dos professores.

O primeiro destes princípios permitiria que, de acordo com orientações muito mais gerais do que as das leis contestadas, as escolas percorressem o seu caminho. O segundo permitiria que todos fossem comparáveis com todos. E a melhor forma de o fazer seria utilizar o que é mensurável e comparável: os resultados de um aluno, ou de um grupo de alunos, em exames nacionais antes e depois de passar pelas mãos de um determinado professor.

Ao mesmo tempo que dava mais autonomia às escolas, teria de permitir que as famílias tivessem real liberdade de escolha, "votando com os pés" ao mudar os filhos de uma escolha pior para uma melhor, por exemplo.

Para o ministério ficaria o mínimo - a definição de orientações gerais e a montagem de sistemas que permitissem comparar prestações mensuráveis -, e para as escolas, as comunidades e os cidadãos ficaria o máximo. Como fica nas democracias evoluídas onde princípios como a humildade democrática, a participação, a responsabilização, a transparência, a liberdade de escolha e a subsidiariedade não são palavras vãs.

É por tudo isso que, apesar dos sindicatos, apesar dos maus professores, apesar do sistema em vigor ser ineficaz, desta vez os professores têm razão.
[Público, 7 de Março de 2006]
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Sem comentários.

Jornal Torrejano, 7 de Março de 2008

Nova edição on line do Jornal Torrejano. Na primeira página, Torres Novas e Tomar ficam com urgências básicas. Referência, também, para fecho de fábrica de cebolas em Bugalhos e, ainda, para a actuação, no próximo dia 15, de Mário Laginha e Bernardo Sassetti no Virgínia, a não perder.

Na opinião, comece-se com o cartoon de Hélder Dias. Depois, temos a escrita, muita prosa para todos os gostos. José Ricardo Costa escreve De Beata Vita, Santana-Maia Leonardo, Já vão sendo horas de acordar!, Jorge Salgado Simões, Mulher, José Gil Serôdio, conhecidíssimo e muito conceituado especialista em educação, escreve Professores em desnorte, Vítor Lúcio Freire, Posso dizer que sou professor?, José Trincão Marques, 1985-1990, Carlos Henriques, Emoções ao rubro e este pobre blogger que, sendo professor é por isso quase um criminoso, escreve A luz e as sombras.

Ficando aguardar as notícias da semana que vem, esperamos também a descoberta, no nosso Jornal Torrejano, de novos especialistas, nomeadamente em educação. Então um bom fim-de-semana.

06/03/08

O silêncio da terra sombria – 13. Horizonte

Construíste o horizonte
num espelho quebrado
e uma tímida paixão caiu-te
no rosto como vento
a desenhar fantasmas.

Sorris agora
e tudo se apaga
no indeciso lugar
onde a terra se abre
para que nela
exausto
possa descansar.

[Jorge Carreira Maia, O Silêncio da Terra Sombria, 1993]

Ecos de Kosmografias

Já que se está em guerra de professores e governo e depois de mais uma boa sessão de demagogia da senhora ministra, a quem eu, pobre Cavaradossi, já dediquei a cena final da Tosca, cantada pelo Gigli e pela Caniglia, dedicatória essa que mostra que nós, professores, somos muito civilizados e que mesmo às pessoas que nos odeiam conseguimos enviar, com prazer, flores ou música. Para os professores, pobres Cavaradossis, recomendo um blogue, cujo nome é equívoco: ecos. Será de (b)ecos ou de ditadorz(ecos). Quem sabe? Os posts são assinados por kosmografias e merecem a atenção toda, digamos uma atenção kosmográfica e kosmológica.

Dedicado à senhora ministra da educação

Beniamino Gigli & Maria Caniglia - Final Scene from Tosca. [De um pobre, entre milhões, Cavaradossi]. Quem será a Tosca?

A ministra na televisão

Acabei de ver a ministra da educação na televisão. É eficaz o estilo que utiliza. Quem não vive nas escolas parece-lhe a anunciação do céu. O problema é quem lá vive e conhece o que se passa. A senhora tem alguma tendência para desenhar paisagens utópicas. A melhoria dos resultados, por exemplo. Haverá algum professor que acredite que aos melhores resultados corresponde gente melhor preparada? De facto, é preciso validação externa. Mas mesmo os resultados dos exames não são fiáveis. A comparação só terá sentido se for feita por autoridades externas.

A senhora apagou três anos de tratamento abjecto por parte do ministério. Mas como a coisa está na massa do sangue, a abjecção continua. Quando diz que os professores estão revoltados porque ganham menos, trabalham mais e com piores alunos. Mais uma vez a senhora ministra desconsidera e destrata os professores. Vem dizer para a opinião pública que os professores protestam porque não querem trabalhar. Esqueceu a arbitrariedade do concurso para titulares, esqueceu a concentração do trabalho em aspectos meramente burocráticos, esqueceu o estatuto do aluno. Há um prazer sádico em humilhar as pessoas.

Por fim, uma nota para a rigidez de posições. O que a move é a fé e contra a fé não há razões possíveis. A vitória do eduquês em toda a linha. A escola pública estava muito mal, agora está moribunda.

Jean-Pierre Le Goff - La barbarie douce


Já falei deste livro (aqui e aqui). Mas em tempo de «revolta de professores», este é um livro luminoso sobre os processos de modernização cega nas escolas e nas empresas. Vale a pena encomendar (Amazon.fr, p. ex.) e ler. O que o sociólogo francês nos diz sobre o que se tem passado em França, sobre o que há de bárbaro nestes processos, é o que se projecta para Portugal, nomeadamente nas reformas educativas. No livro, pode-se perceber como é que os intrumentos de avaliação «libertadores» (não é a senhora ministra que diz que esta avalição é boa para os professores?) são formas de manipulação da realidade. Percebe-se também a verdadeira natureza totalitária do «eduquês». Um livro já de 1999, mas que, para nós, é absolutamente actual. Livro de releitura...

Operação Professorzeco

Agora a polícia anda muito preocupada com o trânsito. Parece que visita escolas para saber se vai haver muito tráfego, no Sábado, para Lisboa (aqui). Talvez esteja mesmo a pensar em fazer uma daquelas operações especiais que é hábito realizar nas épocas mais concorridas, como o Natal ou a Páscoa. Será a Operação Manifestação? Será a Operação Maria de Lurdes? Será a Operação Professorzeco? É a minha preferida. Não há tino neste país?

Jean Arp - The Crucified on black ground

Época:70.50 - Siglo XX. Vanguardias Históricas/Surrealismo, Abstracto, 1962. Woodcut. 25,4 x 27 cm. Museo de Bellas Artes de San Francisco. San Francisco. California. USA.

A Holanda e o terrorismo

A Holanda elevou o nível de alerta antiterrorista. Vai estrear um documentário anti-islâmico. Depois do assassinato de Théo Van Gogh, as autoridades preparam-se para o que possa acontecer. Em tudo isto há uma novidade, embora já com alguns anos. Para os europeus as ameaças à liberdade sempre foram claras: ou vindas do exterior, por exemplo o nazismo em tempo de guerra; ou internas, de gente que pertencendo à mesma cultura, mas com uma visão política autoritária. A novidade é que a ameaça é, ao mesmo tempo, interna e externa. É gente que pode viver dentro da comunidade nacional, mas que quer ser radicalmente alheia aos seus valores e à sua cultura. Lembram-se dos pacatos “ingleses” que atacaram o metro de Londres?

Manifestações e comícios

Um amigo meu diz que o PS vai ter uma grande manifestação de apoio, no dia 15. Os professores estão contra o governo, mas o povo, aquele que comemorou a vitória de António Costa em Lisboa, é muito mais do que os professores. Medeiros Ferreira, porém, diz (aqui) que acha mal que o PS responda assim às manifestações de professores. Para mim, este facto é um revelador essencial da qualidade política dos governantes e da sua estatura de estadistas. Mal as coisas apertam, lá foge o pezinho para a arruaça. Como dizia Jorge Coelho, quem se mete com o PS leva…

05/03/08

O silêncio da terra sombria – 12. Eco

Quando a erva desliza
por teus olhos,
uma ave de papel
deixa a seiva
na luz seca do mar.
Assim escurecida,
é agora um eco
ou uma mancha
breve e inconsolável
a perder-se ao longe
sob o telhado de estrelas
que desaguam ao luar.

[Jorge Carreira Maia, O Silêncio da Terra Sombria, 1993]

Maestro del Monograma TK - Camino al Calvario

Siglos XV y XVI. Renacimiento. Tabla. 70 x 84 cm. Museo del Louvre. París. Francia.

CANNONBALL ADDERLEY - Somethin' else

Educação e engenharia social

No post anterior referi que as reformas educativas em Portugal eram feitas para alunos, famílias e professores que não existem. Isso tem sido verdade até hoje. Mas o actual governo foi mais longe na lógica. Pretende criar, por decisão política, esses alunos, famílias e professores que não existem. A «escola a tempo inteiro», um orgulho do actual governo, não é mais do que a tentativa totalitária de criar crianças e famílias que estejam adequadas às utopias educativas que alucinam os governantes. O Estatuto da Carreira Docente, o modelo de avaliação de professores e a nova forma de gestão são os instrumento para liquidar o velho professor e construir, por engenharia social, o novo professor que, de braço dado com os alunos e as famílias reconstruídos pela escola, erguerão bandeiras e cantarão o glorioso amanhã que estará para chegar. O mais espantoso é, porém, que na esfera pública portuguesa ninguém consiga ler o óbvio: a natureza absolutamente totalitária da reforma educativa em curso. Estamos perante um dos mais graves atentados à liberdade, um atentado inimaginável numa sociedade plural. A utopia que se começou a desenhar com Veiga Simão, que tomou o pulso da escola com Roberto Carneiro, mostra agora a sua verdadeira face distópica e totalitária.

Educação, uma janela de oportunidade

Num post anterior comentámos o sentido da revolta dos professores do ponto de vista destes. Mas o que significará toda esta convulsão que abala o mundo da educação? Ele significa o derruir de um sistema que está há muito minado por amplas contradições. O igualitarismo ideológico que se confronta com a diversidade dos alunos, o currículo uniforme a par com a ideologia da diferenciação, um sistema centrado na produção de alunos para a universidade a emparelhar com um discurso da escola voltada para a vida activa, a necessidade de gerar gente mais bem preparada gémea da necessidade de passar o maior número possível (o chamado combate ao insucesso escolar). A estas contradições estruturais adicione-se a constante produção de reformas, de alterações curriculares e a contínua produção de uma legislação ciclópica. Alunos e professores foram as grandes vítimas dos equívocos ideológicos que, chegados do estrangeiro, começaram a ganhar substância com a reforma de Veiga Simão e que não pararam até hoje. É aqui que começa um desastre absolutamente inaudito.

As reformas educativas portuguesas sempre foram motivadas não pelas necessidades da sociedade portuguesa e da escola portuguesa, mas pelos modelos externos que enxameavam e enxameiam a imaginação dos detentores do poder educativo. A dinâmica reformista continuamente fez tábua rasa da realidade social portuguesa, dos alunos e das famílias existentes e dos próprios professores disponíveis. As reformas eram e são feitas para alunos, famílias e professores que não existem, para servir uma sociedade que ela mesmo não existe e não pode ser criada pela escola. Os modelos externos que sempre nos guiaram e que se apresentavam como ideais estavam também longe da perfeição que se pretendia com eles introduzir na educação portuguesa. Quarenta anos a projectar uma escola para uma realidade que não existe só pode desembocar numa explosão.

Esta explosão poderá ser rica para o país, se se conseguir discutir seriamente uma forma de dar coerência ao sistema educativo, adequando-o à realidade portuguesa. Uma maioria absoluta teria sido o momento para esse debate e essa clarificação. O que se viu, porém, foi mais do mesmo, agora revestido com uma autoridade quase sem pudor e um desprezo, que faz lembrar certo discurso populista de rua, pelos professores. Se houvesse talento político no Ministério da Educação, estávamos, com esta revolta, perante uma extraordinária «janela de oportunidade» para dar um caminho à educação em Portugal. O que todos suspeitam é que o talento político do ministério da educação se esgotou nos truques baratos que visaram dar uma péssima imagem dos professores como forma de legitimar socialmente o sacrifício de que estes foram vítimas. Pelo que assistimos nos últimos dias, o mais provável é que será esse comportamento de truques baratos que pautará, nos próximos tempos, a acção da actual equipa governativa. É uma pena.

San Francisco Post-War California Down Home Blues


Santana Castilho - A revolta dos professores

Há evidências incontestáveis: as manifestações dos professores um pouco por todo o país (Viseu, Guarda, Braga, Coimbra, Castelo Branco, Portalegre, Setúbal e Faro), que culminarão com a anunciada marcha de 8 de Março, expressam a revolta dos docentes, que não suportam mais a indignidade com que têm sido tratados.

Sinistramente, primeiro-ministro, ministra da Educação e secretários de Estado começaram por incendiar a sociedade contra os professores. Entre outras, propalaram falsas ideias (que nesta coluna desmenti, com recurso a estatísticas da UE), segundo as quais os professores teriam fartos privilégios, ganhando mais que os colegas europeus e trabalhando menos que eles, apesar de serem (assim insinuaram) os responsáveis principais pelos elevados níveis de abandono e de insucesso escolar que caracterizam o sistema de ensino. Depois, seguiram-se as previsíveis medidas "moralizadoras" das quais recordamos três:

1. O horário de trabalho dos professores foi drasticamente aumentado. A incontinência legislativa deste governo inundou as escolas de decretos, portarias, despachos e circulares, que tornaram a vida dos professores num inferno de cumprimentos burocráticos inúteis. As alterações das reduções de tempo de serviço em função da idade e da própria idade de reforma, como é sabido, tornaram mais penoso o exercício profissional em contextos de maior debilidade física. Escravizaram-se muitos professores, obrigando-os a permanecer nas escolas sem condições nem motivo (a farsa e a desumanidade de muitas "aulas de substituição") e vergaram-se muitos outros a exercícios profissionais próprios de auxiliares ou de amanuenses. Quem resista fisicamente e queira cumprir, pode ter que trabalhar hoje mais de 50 horas por semana. Como contrapartida, reduziram administrativamente os salários e aprestam-se agora a "depurar" o sistema, recambiando para o quadro dos disponíveis, com as desumanas consequências inerentes, os professores doentes, que consagraram vidas inteiras à Escola e ao ensino.

2. A fractura da carreira única em duas, com a emergência dos professores titulares, foi servida por um processo escabroso. É impossível descrever ao cidadão comum o quadro de injustiças cometidas. A insanidade que queimou carreiras e dedicações de vidas à aleatoriedade dos últimos sete anos, provocou chagas incicatrizáveis no tecido social das escolas. É simplesmente insuportável que um estalar de dedos ministeriais ponha à frente dos melhores muitos dos menos preparados, dos menos formados, dos menos experientes, dos menos competentes.

3. O modelo de avaliação do desempenho que se quer impor é insensato e irresponsável: como compreender que se seja penalizado por parir ou ficar viúvo? É tecnicamente medíocre: a formulação de descritores, por exemplo, entrou em roda-viva de apressados improvisos (vide o escabroso caso debatido na Assembleia da República), quando a validade de qualquer deles passaria obrigatoriamente por exercícios de pré-testagem, que não estão previstos. É leviano nos prazos que impõe: é factualmente impossível cumprir um digrama de execução daqueles em coincidência com o período de maior concentração de tarefas escolares. É fantasioso numa sujeição a emanações teóricas e científicas de órgãos que, previstos, nunca foram constituídos: onde está o decantado conselho científico? Está eivado de critérios ridiculamente subjectivos: como se mede a relação de um professor com a comunidade?Num debate televisivo recente, a ministra ripostou a uma interveniente que não interessavam as pessoas mas sim as políticas. Enganou-se. São as pessoas que definem as políticas. E quando na defesa dessas políticas permitem que se crie o ambiente que hoje se vive, transformando as suas relações com a sociedade que governam num caso continuado de tribunal, só sobra uma solução: a saída dessas pessoas.
[Público, 5/3/2008]

04/03/08

O silêncio da terra sombria – 11. Asas fluviais

Tão denso o mundo
dos insectos,
formigas amarelas
presas nas asas fluviais,
marejadas de vinhas,
suspensas no pó,
vergadas ao peso ínfimo
onde descansam
os brancos rebanhos.

[Jorge Carreira Maia, O Silêncio da Terra Sombria, 1993]

Eleições americanas – aviso

Sou talvez o único português que não tem candidato nas eleições americanas. Para dizer a verdade já me dá tanto trabalho ter de escolher candidatos nas eleições portuguesas, que me falece o apetite para votar o meu coração à escolha do próximo inquilino da Casa Branca. A América, para mim, é mesmo outro mundo do lado de lá do grande oceano. Aquilo é gente que não nos compreende, nem nós a eles. Aviso: ganhe quem ganhar, logo se vê. O melhor é só abrir o embrulho quando chegar. Escusa de haver decepções.

Giuseppe Di Stefano - "Che Gelida Manina" (1950?)

O que quer Sócrates dos professores?

O conflito entre governo e professores, apesar da tentativa de amaciamento de ontem no Prós e Contras, continua em escalada. Os professores vêm para a rua e percebe-se que muita gente tende a compreender, apesar do esoterismo da matéria, as suas razões. O conflito passa pelos tribunais, mas passa também na opinião publicada. Aqui começamos a ver a artilharia para-governamental, com artigos inflamados a favor da ministra, mas pouco informados da substância do conflito.

Qualquer governo com sentido de Estado faria um compasso de espera e escutaria com atenção aquilo que os professores, não apenas os sindicatos, mas os professores que dão aulas, têm para dizer e, depois, tentaria compatibilizar as perspectivas. O governo decidiu mudar a educação de alto abaixo sem se preocupar com a opinião dos executores dessa mudança. Por este governo, os professores foram sempre tratados com desprezo, como se não passassem de gente menor, de gente incapaz de ter alguma ideia na cabeça.

Imaginemos que este braço de ferro entre ministério e docentes é ganho em toda a linha pelo governo. Que interesse haverá em ter nas escolas, a formar cidadãos, um corpo humilhado e ressentido? Terão os pais e os alunos interesse numa derrota e na humilhação, mais uma, dos professores? Sócrates e Maria de Lurdes Rodrigues já pensaram bem no que estão a fazer às escolas e aos alunos? Não aprenderam nada ontem com o professor Câmara? Não aprenderam com as sábias palavras sobre a experimentação, sobre a necessidade de tempo e de adequação? Não aprenderam nada com as palavras de Lobo Antunes sobre a necessidade de respeitar os professores? Escutar e compreender as objecções não é uma forma de respeito? E a mudança na educação não deverá ser feita em conjunto? O que quer Sócrates dos professores? Usá-los como bombos da festa e como troféu na disputa eleitoral? É isto sentido de Estado?

Pablo Picasso - La crucifixión

Siglo XX. Vanguardias Históricas/Surrealismo, 1930. Óleo sobre contrachapado. 51.5 x 66.5 cm. Musée Picasso. París. Francia.

03/03/08

O Silêncio da Terra Sombria - 10.

Fulgura uma colmeia na
rota ferida pelas mãos,
a boca seca
cansada de pólen,
talvez um deus de água
ou um pássaro cego
ou uma quietação na tarde.

[Jorge Carreira Maia, O Silêncio da Terra Sombria, 1993]

Fátima Campos Ferreira e a avaliação

Prós e Contras – intervalo. Ainda não compreendi a eficácia da avaliação na RTP. Como é possível entregar um programa deste formato a uma pessoa como Fátima Campos Ferreira? Como é possível que ela interrompa os convidados para dirigir e interpretar as suas palavras? Como é possível tanto enviesamento da opinião? Fora isso, os quatro convidados, mesmo alguns dos que falaram da plateia acabam, de forma implícita, por dar razão ao sentimento dos professores. Nota-se que tanto a universidade como as empresas não se revêm no monstro burocrático. Será que Fátima Campos Ferreira lhes vai perdoar?

Raymond Daussy - Judas

Siglo XX. Vanguardias Históricas/Surrealismo, 1963. 48 x 24 cm.

Ana Luísa Amaral - Coisas de Partir


O TOM DA PACIÊNCIA

Não são só os cromáticos momentos
que esculpem edifícios:
a lama serve o barro, o barros as casas
até conter o círculo

do infinito tom da paciência
da lama no cinzento:
aos bocados de sol sempre é tempo
e traços de palácios

Estratégia dos professores

O conflito que opõe professores/governo está mais aceso do que nunca. Do ponto de vista estratégico, seria interessante que os professores tornassem muito claro para a opinião pública aquilo que é absolutamente injusto (por exemplo, o concurso de professores titulares), aquilo que prejudica claramente os alunos (uma avaliação altamente burocratizada que desvia o professor da sua função; o estatuto do aluno que semeia a irresponsabilidade; a possibilidade duma escola dominada partidariamente devido à nova gestão).

Os professores deverão, porém, manter uma posição de respeito institucional e pessoal mesmo por quem no ministério não os respeitou. Deverão também, sem deixar de ser firmes nas suas convicções e razões profundas, abrir linhas que permitam concertação de posições, se o ministério der algum passo nesse sentido. Os professores têm de recordar a cada momento que o que está em causa é uma concepção de escola burocrática e autoritária profundamente prejudicial para a educação e instrução dos seus alunos e é contra isso que, em primeiro lugar, protestam. Os aliados naturais dos professores são os alunos e as famílias. Se houver guerra suja, que não seja da parte dos professores. Se o ministério estiver disposto a ouvir as razões dos professores, coisa que nunca fez até agora, estes deverão ouvir as razões da outra parte.

Entre-os-Rios e sociedade civil

Segundo o Público, os «familiares das 59 vítimas mortais da queda da ponte de Entre-os-Rios desistiram da intenção de pedir indemnizações ao Estado, lamentando que, sete anos após a tragédia, a justiça continue sem atribuir responsabilidades pelo colapso da ponte.» O problema destas pessoas é que o Estado, através daqueles que a cada momento detêm o poder, nada pode ganhar com elas. Passou o momento da comiseração nacional e a realidade voltou ao de cima: uma sociedade civil muito frágil, composta por pessoas que não contam e uma elite política e social fria, cínica e impiedosa. Este é o velho Portugal que todos conhecemos.

CONFAP e a sociedade civil

Para que serve a sociedade civil em Portugal? A resposta será sempre embaraçosa. Tomemos o exemplo da CONFAP (confederação de associação de pais) dirigida pelo sr. Albino Almeida. À partida dir-se-ia um bom exemplo de iniciativa da sociedade civil. Mas se olharmos para o seu orçamento descobrimos como tudo está inquinado. No ano de 2006, recebeu do Ministério da Educação mais de 150 mil euros e das quotizações dos seus associados, pasme-se, 1302 euros (cf. aqui). Não admira que apareça ao lado da ministra no conflito que opõe governo/professores. A CONFAP é apenas mais um exemplo, ainda por cima lamentável, da fragilidade e da artificialidade da “sociedade civil” portuguesa.

Maria Gabriela Llansol (1931-2008)

Morreu hoje a escritora Maria Gabriela Llansol. Ler o "in memoriam" no Da Literatura. O retrato, belíssimo, foi copiado desse mesmo blogue, e é da autoria de Vasco Rosendo.

02/03/08

O silêncio da terra sombria – 9.

Desabam palavras sobre as ruas,
sílabas na poeira do coração.

Iremos tão longe na terra, ouvi,
ao centro da palavra, ao som eterno
esboçado na boca desta frase…

Nasce assim um corpo magoado
ou uma crina de névoa a arder
na fútil gramática
que ao de leve
sobre a paisagem vai.

[Jorge Carreira Maia, O Silêncio da Terra Sombria, 1993]

Ignacio Pinazo - Cristo yacente

Siglo XIX. Impresionismo, 1896. Óleo sobre lienzo. 66 x 126 cm. Museo del Real Colegio del Corpus Christi. El Patriarca. Valencia. España.

Eleições russas

Esta coisa de votações à albanesa ou à soviética, o que é mais apropriado ao caso, entranhou-se nos russos. Parece que o novo Presidente, Dmitri Medvedev, ganhou as eleições com 69,6%. Apesar da quase unanimidade do povo russo, os dirigentes deverão estar muito preocupados. Putin, nas últimas eleições, ganhou com 71,3%. Perante uma quebra de quase 2% na legitimação do novo Presidente, não haverá já quem esteja a pensar na estratégia para nas próximas eleições se voltar a votações mais de acordo com a tradição?

O êxito da marcha do PCP

A marcha organizada, ontem, pelo PCP tem uma dupla virtualidade. Em primeiro lugar, mostra que o partido está vivo e recomenda-se, salientando a sua ligação aos problemas reais das populações. Em segundo lugar, é uma espécie de negativo do retrato daquilo que os partidos do arco governamental têm feito ao país e aos portugueses.

A União Europeia foi uma oportunidade, quase já perdida, para inverter uma situação social injusta, para quebrar a ligação de grande parte da população à miséria e à descrença social. Ao fim de todo este tempo, encontramo-nos numa sociedade cada vez mais dividida, dirigida por uma elite, política e social, arrogante, fria e cínica. O êxito da marcha do PCP é um grito de alerta de uma sociedade que se afunda. Pode-se fingir que não aconteceu nada, mas os problemas estão aí.

António Freitas Cruz - Saber ter razão

Das duas uma ou a ministra se cansou muito depressa do breve intervalo de paz que as circunstâncias lhe concederam ou não percebeu como escapou ao cutelo da remodelação a que se atreveu o primeiro-ministro. Seja como for, aí está ela de volta às hostilidades com os professores.

Medindo a tarefa ciclópica (e onde é que eu já ouvi isto?) de educar e ensinar os jovens portugueses, muitos dos quais não querem ser ensinados (e ainda menos educados), qualquer alma caridosa não deveria desejar à ministra um tão sinistro destino. Mas lá que ela o merece - ai isso merece!

Na história moderna, e nem por isso honrosa, do Ministério, cujos resultados os portugueses pagam mas não vêem, não pode ser ignorada a comissão de "sábios" que por lá se foi instalando. Não agora, mas desde há anos. Faltava juntar à obra, se é que faltava, a desautorização dos professores, expondo-os ao desrespeito atrevido e ignorante de toda a gente, incluindo pais (eles próprios tantas vezes carecidos de educação e instrução). Foi o que a ministra fez - ou consentiu que se fizesse - alienando os que melhor apoio lhe poderiam dar, os mais antigos, ultrapassados por motivos pouco claros.

Não consigo apartar-me de três ideias primeiro, quem anda por lá a teorizar já esqueceu (se é que alguma vez soube) o que é uma escola; depois, não conhecem limites o autismo e a arrogância dos que nada perguntam, a ninguém ouvem e tudo sabem; finalmente, importantes são as estatísticas para Bruxelas, em nome das quais todas as enormidades se admitem.

Esta ministra, cujo feitio nem sequer nos seduz a reconhecer-lhe a razão mesmo quando ela acaso a tem, deveria aprender com o que aconteceu ao colega que foi queimado em lume brando até que a rua o mandou para a rua. Sem piedade.
[António Freitas Cruz, JN, 2/3/08]

Daniel Sampaio e a morte do estatuto do aluno

Daniel Sampaio parece começar a perceber uma das razões que está na base da revolta dos professores. O Estatuto do Aluno é uma aberração indescritível. Como diz Sampaio, na Pública de hoje, não basta a sua suspensão, “tem de estar morto”. Quanto mais curta for a agonia melhor.

Os crimes e o pelotão da frente

Depois dos crimes da noite portuense, temos agora os crimes na zona de Lisboa. É evidente que nada disto está ligado à situação social e política que vivemos. Não é uma situação normal, diz o director do Gabinete Coordenador de Segurança (cf. aqui). Talvez não, mas esta onda de crimes mostra pelo menos que nos estamos a aproximar rapidamente das sociedades desenvolvidas. Se o Plano Tecnológico falha, ao menos que algo nos aproxime do pelotão da frente.

Pão e Vinho, no Vale de Santarém

Não se iluda o leitor se, nestas Viagens na Minha Terra, se ouvir falar do Vale de Santarém. Não é da história da pobre Joaninha de olhos verdes que aqui se dá conta. Não é das paixões do coração que vamos falar, mas do prazer da mesa. Pois bem, nesse Vale de Santarém há um belíssimo restaurante que dá pelo poético nome de Pão e Vinho. Vai-se pela antiga estrada que liga Santarém a Lisboa, na rua José Matias Júnior 52, ali mesmo quando subimos em direcção ao Cartaxo. Um ambiente bastante tranquilo, numa casa antiga recuperada, discreta e orientada para o prazer da comida. O responsável é Luís Miravent e, talvez motivado por este nome de tonalidade francesa, a cozinha que apresenta tem, dentro da tradição nacional, um toque de leveza e distinção que faz lembrar a boa comida francesa.

Farto das diatribes da Ministra da Educação, dos seus acólitos e dos seus defensores na praça pública, lá decidi, ontem, matar as mágoas e reconfortar o ânimo. Nas entradas, conjugou-se os peixinhos-da-horta e as empadinhas de galinha (excelentes, isto é, suaves e cremosas, até para mim que não particular adepto da invenção). Depois, os filetes de garoupa acompanhados por um arroz de tomate (não há nada mais português) que, passadas tantas horas, ainda me faz(em) salivar. Nada de complicações, apenas um trabalho sábio a salientar o gosto que a natureza deu, tudo combinado segundo o princípio grego da justa medida. No prato de carne, optou-se por uma perdiz de escabeche acompanhada por batata palha. Também aqui o nada em excesso se fez sentir. O escabeche pode ser uma porta aberta para um «flop» culinário, mas, neste caso, apenas realçou a carne do pobre bicho. A batata estava como deve ser, fazendo-nos esquecer que é frita. Para terminar experimentou-se, a contento dos comensais, o crumble de maçã. A acompanhar, Diónisos, o travesso deus, segredou o nome de um tinto, Quinta do Falcão, Reserva de 2004, que cumpriu com a honra a sua missão, mostrando, mais uma vez, que o Ribatejo é terra de vinho, de bom vinho.

Vasco Pulido Valente - A avaliação dos professores

Como se pode avaliar professores, quando o Estado sistematicamente os "deseducou" durante 30 anos? Como se pode avaliar professores, quando o ethos do "sistema de ensino" foi durante 30 anos conservar e fazer progredir na escola qualquer aluno que lá entrasse? Como se pode avaliar professores, se a ortodoxia pedagógica durante 30 anos lhes tirou pouco a pouco a mais leve sombra de autoridade e prestígio? Como se pode avaliar professores, se a disciplina e a hierarquia se dissolveram? Como se pode avaliar professores, se ninguém se entende sobre o que devem ser os curricula e os programas? Como se pode avaliar professores se a própria sociedade não tem um modelo do "homem" ou da "mulher" que se deve "formar" ou "instruir"?Sobretudo, como se pode avaliar professores, se o "bom professor" muda necessariamente em cada época e cada cultura? O ensino de Eton ou de Harrow (grego, latim, desporto e obediência) chegou para fundar o Império Britânico e para governar a Inglaterra e o mundo. Em França, o ensino público, universal e obrigatório (grego, latim e o culto patriótico da língua, da literatura e da história) chegou para unificar, republicanizar e secularizar o país. Mas quem é, ao certo, essa criatura democrática, "aberta", tolerante, saudável, "qualificada", competitiva e sexualmente livre que se pretende (ou não se pretende?) agora produzir? E precisamente de que maneira se consegue produzir esse monstro? Por que método? Com que meios? Para que fins? A isso o Estado não responde.O exercício que em Portugal por estúpida ironia se chama "reformas do ensino" leva sempre ao mesmo resultado: à progressão geométrica da perplexidade e da ignorância. E não custa compreender porquê. Desde os primeiros dias do regime (de facto, desde o "marcelismo") que o Estado proclamou e garantiu uma patente falsidade: que a "educação" era a base e o motor do desenvolvimento e da igualdade (ou, se quiserem, da promoção social). Não é. Como se provou pelo interminável desastre que veio a seguir. Mas nem essa melancólica realidade demoveu cada novo governo de mexer e remexer no "sistema", sem uma ideia clara ou um propósito fixo, imitando isto ou imitando aquilo, como se "aperfeiçoar" a mentira a tornasse verdade. Basta olhar para o "esquema" da avaliação de professores para perceber em que extremos de arbítrio, de injustiça e de intriga irá inevitavelmente acabar, se por pura loucura o aprovarem. Mas loucura não falta. [Público, 2/03/08]
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Como em Descartes, claro e distinto.

01/03/08

O silêncio da terra sombria – 8.

Terra sem frutos, caminhos de poeira
entre campos, cabras amotinadas
pelos dedos caídos pela véspera.

Mundo sem sol,
dedilhado sobre a trave, perfeito,
um fósforo aceso no recanto do chão.

Corto por uma rua estreita,
iluminada de parreiras,
sacos de plástico pelas janelas…

Abrem-se então linhas no granito
ou escamas no ombro descaído,
talvez uma rosa no tecido rasurado e
fresco como o hálito da primavera.

[Jorge Carreira Maia, O Silêncio da Terra Sombria, 1993]

O sentido da revolta dos professores

Voltemos ao conflito governo-professores. Neste momento, existem duas leituras que dominam a opinião pública. Por um lado, os professores são considerados vítimas da prepotência do ministério e da ministra. Por outro, a ministra é uma reformista que os professores rejeitam, pois está a acabar-lhe com os privilégios. Mas será isto o essencial? Será este o verdadeiro sinal que deveremos retirar do conflito. Sou professor, e por isso sou suspeito, mas tentemos uma outra leitura.

O que rejeitam os professores? Em primeiro lugar, rejeitam, de facto, um tratamento arbitrário a que foram submetidos impiedosamente durante três anos (poderia explicar como muitas das medidas tomadas foram completamente arbitrárias e injustas, fica para outra ocasião). Mas curiosamente não foi isto que desencadeou os protestos massivos a que se assiste. O que exasperou os professores foi o crescimento desmesurado da burocracia e a diminuição da importância dada à transmissão do saber.

É neste dois sinais que podemos encontrar uma interpretação muito mais interessante da actual situação. Os professores, talvez pela primeira vez em Portugal, tornam-se um sinal daquilo que é mais avançado ao nível social. Nas sociedades pós-modernas, ditas sociedades do conhecimento, a burocracia tornou-se o maior inimigo da adequação ao mundo em que vivemos. Por outro lado, se queremos viver numa sociedade do conhecimento, então é necessário que alguém, os professores, o transmita e fomente o desejo de conhecer.

Contrariamente aos adeptos do reformismo ministerial, os professores querem uma escola mais adaptada à realidade: uma escola sem burocracia e concentrada e centrada no acto de ensinar. Retrógrados socialmente são a ministra, os secretários de estado, o primeiro-ministro, os comentadores que apoiam estas medidas. Pretendem uma escola organizada burocraticamente como se vivêssemos em plena era industrial. Os modelos de gestão e de avaliação propostos talvez fossem adequados há 50 ou 60 anos, ainda quando o taylorismo e o fordismo tinham algum sentido. Hoje em dia, na chamada sociedade do conhecimento, aquela a que se gosta de referir o primeiro-ministro, não faz sentido o tipo de controlo que se propõe.

Precisamos de uma escola muito menos burocrática e não mais como quer Maria de Lurdes Rodrigues. Precisamos de uma escola mais centrada no saber e não menos como está a ser imposto aos professores. Não é por acaso que o conflito está muito para além das estruturas sindicais: é uma guerra contra uma visão ultrapassada da escola, uma visão que prolongará a agonia do país.

Os professores surgem como o primeiro grupo social que rejeita claramente a visão burocrática da vida profissional. Não rejeitam a avaliação, mas uma escola toda ela organizada burocraticamente com a finalidade não de ensinar, mas de se avaliar a si mesma e festejar na excelência da organização burocrática o seu esplendor. Os professores querem concentrar-se no ensino, no saber e nos seus alunos, procuram estruturas mais leves, menos hierarquizadas, mais adequadas ao tempo em que se vive. O ministério multiplica as hierarquias, intensifica a burocracia, impõe uma máquina pesadíssima e sem qualquer utilidade na sociedade do conhecimento.

Embora não goste da palavra, se há neste conflito reaccionarismo social, ele está todo do lado do ministério. Quer impor uma visão de escola do passado. Seria bom que, para além das leituras mais imediatas do conflito, se começasse a perceber o que há de novo, do ponto de vista social, nesta revolta extra-sindical dos professores.

Em tudo isto há um equívoco estranho e que mostra a fragilidade cultural dos dirigentes políticos: como será possível deslocar um país para a sociedade do conhecimento, se se hostiliza os primeiros e principais agentes de distribuição social desse conhecimento? Que um engenheiro não o entenda, compreende-se; mas uma socióloga? Eis a prova de que ser universitário está longe de ser uma mais-valia.

Fra Angelico - Crucifixión con la lanza

Siglos XIV/XV. Gótico/Renacimiento, 1450. Fresco. 196 x 199 cm. Museo de San Marcos. Florencia. Italia.

O casal Toffler e a educação

Esta intervenção de Alvin Toffler, também da mulher, mostra bem aquilo a que o sector da educação está sujeito. É verdade que o ensino se generalizou para desruralizar a população e a preparar para a sociedade industrial. Mas daí tirar a conclusão que muito do que esse ensino trouxe já não serve para as sociedades pós-industriais é um abuso. O exemplo da disciplina que a escola exige não serve apenas para a sociedade industrial. Serve também para os indivíduos poderem gerir da melhor forma o seu tempo, seja numa sociedade moderna, seja numa sociedade pós-moderna.


Espanta-me, também, o ar incrédulo do casal Toffler perante a angústia japonesa. Parece que os japoneses se queixam da pouca criatividade das suas crianças, seja lá isso o que for. Mas, em vez de adoptarem as utopias ocidentais, parece que se estão a recolher à Índia e a um ensino massificado, baseado na memorização, melhor no adestramento da memória. O exemplo da memorização da tabuada é excelente. Já estou a imaginar um aluno a decorar a tabuada do 84. Há uma coisa, porém, que não é dita. As sociedades ocidentais, incluindo nelas os EUA, perderam o viço e o vigor, estão em decadência, enquanto a Índia é super-potência emergente, nomeadamente na área da informática. Por que razão deveriam os japoneses preferir as ideias do casal Toffler aos resultados dos indianos?


Mas há uma coisa que não percebo em toda esta história. Foi o mal-fadado sistema de ensino que, antes de ser colonizado por reformistas e modernizadores, deu uma amplo avanço ao Ocidente e desencadeou uma potência criadora de que não há registo na história. Agora, quando essa potência criadora toma conta do mundo, parece que não se quer ter em conta o que lhe deu origem. Quer criar-se a criatividade negando aquilo que, de forma sólida, a desencadeou. Não há, porém, criatividade fora do trabalho duro, nem há aprendizagem do pensar sem disciplina intelectual e sem aquisição de matéria para pensar. Mais, não há pensamento nem criação sem memória. É lamentável, pois contraria as teses utópicas que, de todos os lados, se abatem sobre a educação das novas gerações.