11/11/09

Impressões - XXXVIII


John Singer Sargent, Yoho Falls (1916)

que sol iluminará a queda
essa lâmina que atravessa o coração
e te deixa exangue
à porta de minha casa

os astros estiveram de feição
mas o voo das aves
trouxe outro veredicto

nem sempre a perda é uma maldição
pode ser um pomar de macieiras
ou os olhos rasos de água
de quem volta de um longo exílio

De rastos



Por que temos todos a impressão, talvez a certeza, de que a Justiça, nesta embrulhada das escutas telefónicas e das certidões judiciais, vai sair, aos olhos da opinião pública, mais uma vez de rastos? Se alguém quisesse destruir a independência do Poder Judicial, e mostrar a inanidade do princípio, não faria melhor do que a Justiça portuguesa faz. É provável que Manuela Ferreira Leite tenha razão, e que o primeiro-ministro tenha o dever político de explicar aquilo em que foi escutado. Mas os responsáveis pela Justiça em Portugal não terão contas a prestar? Como é possível que tudo se discuta na praça pública? Como é possível o triste espectáculo a que assistimos?

A morte de Robert Enke



Por causa do presuntivo suicídio do antigo guarda-redes do Benfica, Robert Enke, actualmente a jogar no Hannover 96, João Gonçalves escreve isto, e o Zé Ricardo, isto. Mas talvez a questão do acto de Enke não resida nem em Deus nem na alma, não possua uma explicação filosófica, ou teológica, ou sociológica. Talvez a explicação seja idêntica àquela que se dá quando alguém morre de  cancro ou de tuberculose, ou sei lá eu de quê, tantas são as estratégias da morte ligadas às patologias. Se Thanatos escolhe uma desregulação na multiplicação das células, uma pneumonia ou uma depressão que aniquila o livre-arbítrio e conduz o paciente para a auto-imolação, estará a fazer coisas diferentes? Tecnicamente falando, do ponto de vista da ordenação jurídica da vida, o caso de Enke foi um suicídio, mas terá sido? A morte por cancro é um suicídio?

10/11/09

Impressões - XXXVII


Stanislas Lépine, Le Port de Caen (1859)

regressamos sempre ao mesmo passado
a rosa que nos atormenta
com a ferocidade dos espinhos
as buganvílias que vimos crescer
no porto da infância
aqueles barcos de pavilhão arvorado
à espera que o imperador regresse

e é sempre tudo em vão
o trabalho da flor sobre a água
os remos estendidos no barco
as velas que o vento já não sopra

os portos onde depositámos a infância
são agora desertos de areia e betão
iluminados por um sol frio
que tumultua as ruas onde ninguém passa

Educação Sexual



Não percebo a pressa que há em disseminar pelas escolas essa disciplina retrato do niilismo educativo, Educação Sexual. A única coisa que se deveria dizer seria para os jovens aguardarem pelos 70 anos. Segundo a opinião de Jane Fonda, o sexo aos setenta e um é melhor do que antes. Sendo assim, e como não se presume que a escolaridade obrigatória se prolongue até tão tarde, o melhor mesmo seria ensinar gramática às crianças. Não é afrodisíaca? Depende. Talvez a morfologia não seja particularmente interessante. Mas se se aprender a metaforizar, talvez se compreenda que da morfologia das palavras à morfologia dos corpos a distância não é assim tão grande. Por outro lado, a fonética é imediatamente pregnante no acto sexual. O estudo dos sons, da sua emissão e recepção, não deixaria de fornecer matéria suficiente para a reflexão sobre a praxis sexual. Incontornável, porém, é a sintaxe. A arte da combinação das palavras numa frase é uma excelente propedêutica para a combinação dos corpos numa cama, a reflexão sobre o que deve vir antes e o que deverá vir depois, as possibilidades de alteração da ordem natural, etc. Como se vê, ensinando seriamente gramática aos alunos, fornecer-se-ia os instrumentos básicos de uma sexualidade realizada e feliz. Não há pois sexualidade que não tenha a sua grámatica, que não mobilize os conhecimentos morfológicos, que não dependa da fonética, que não utilize as regras da sintaxe. Mesmo que nem todos fossem poetas do sexo, pelo menos saberiam escrever e falar, o mínimo exigido para haver comunicação decente. E o sexo não é comunicação? Se se continuar a insistir na Educação Sexual e na Educação Cívica e no Estudo Acompanhado e na Área de Projecto, os alunos nunca terão tempo para aprender a complexidade do saber gramatical. Nem aos setenta anos poderão dizer que o sexo é melhor do que antes. Faltar-lhes-á a gramática que superintende um bom desempenho na linguagem do amor e fornece o padrão de avaliação da performance.

09/11/09

Impressões - XXXVI


Pierre-Albert Marquet, Tempête en Mer (1899)

como um incêndio no mar
o sopro do vento
abre uma pústula de fogo
nas mãos dos remadores

cantam a areia frágil
onde a vida escreve
numa folha de água
a esperança desmedida

O filosofês técnico

Como se banaliza, até o reduzir a um puro flato destituído de significado, um conceito filosófico? Assim: «Sócrates: Queda do Muro significou "novo paradigma mundial"». A noção de paradigma, importada do eidos (ideia) platónico pela mediação da teoria do desenvolvimento da ciência de Thomas S. Kuhn, tornou-se um bordão na mão de quem não faz a mínima ideia do que é efectivamente um paradigma, qual a arqueologia do conceito, e para que finalidade foi criado. Quando oiço alguém utilizar a palavra paradigma dá-me vontade de o mandar calar de imediato, ou de desligar a televisão. Tornou-se uma daqueles noções que se exibem mecanicamente para se mostrar uma erudição inútil e que de facto não se possui. No caso vertente, um filosofês técnico.

Jorge Sá Borges

Ao ler o In Memorian, de Medeiros Ferreira, sobre o antigo dirigente e fundador do PPD, Jorge Sá Borges, apetece voltar à inocência da primeira juventude, e perguntar por que razão pessoas como ele não têm lugar na política portuguesa? Dirigente estudantil na crise académica de 1962, católico, advogado de sucesso, pessoa elegante. As intervenções políticas de Sá Borges eram, ainda segundo Medeiros Ferreira, informadas, inteligentes, conciliatórias. Foi também, para o antigo renovador, o melhor ministro de Conselho de Ministros. Tudo isto no período quente do pós 25 de Abril. Hoje, salvas raras e honrosas excepções, resta uma gente funesta, cuja inteligência se mede pelas sondagens e a elegância, mesmo se composta por fatos caros e gravatas bem combinadas (coisa, aliás, rara), anda não muito longe da elegância do Zé Povinho do Bordalo.

08/11/09

Impressões - XXXV


José Nogué, La esfinge marina (1910)

a trémula água que se agita
o peso do céu a arder
ou a rosa que se abre
para a desdita

tudo conspira
para que o teu nome
venha envolto de espuma
e em cada olhar se veja
não a pedra não a rocha
mas a velha esfinge
que devorou a bruma

Os crucifixos italianos



O Tribunal Europeu dos Direitos do Homem decidiu proibir os crucifixos nos estabelecimentos escolares italianos. Segundo o Público, uma sondagem do Corriere della Sera mostra, porém, que a grande maioria dos italianos, 84%, é favorável à manutenção dos crucifixos na sala de aula. Dentro desta maioria conta-se 68% daqueles que nunca vão à missa.

O preocupante nesta história não é o conflito entre o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem e o sentir da imensa maioria dos italianos, nem tão pouco o direito de ingerência em assuntos internos que os países europeus criaram para certas instâncias internacionais. Aquilo que é mesmo preocupante centra-se no escavar da identidade europeia, na abolição sistemática dos símbolos que nos conduziram até aqui. Mais tarde ou mais cedo tudo isto se pagará. Seja pela sujeição a símbolos que são radicalmente estranhos à tradição europeia, seja pelo acréscimo de intolerância e fanatismo religiosos dos próprios europeus. Contrariamente ao que pensam os herdeiros do Iluminismo e do Jacobinismo, não há vazios religiosos. A destruição do cristianismo, fundamentalmente do catolicismo, é apenas a antecâmara para que outras religiões, porventura bem menos civilizadas, tomem o lugar daquela que venera o Crucificado.

Mais um passo...



Uma vitória de Barack Obama. A Câmara dos Representantes dos Estados Unidos aprovou a proposta de reforma do sistema de saúde, que prevê o alargamento da cobertura médica a quase toda a população norte-americana. Falta agora a votação no Senado, para os EUA, em matéria de Saúde, darem um passo para fora das trevas medievais. Mais um passo...

Lá se vai mais um bocado da auto-estima



O dr. Manuel Damas formou-se em Medicina Nuclear, mas a sua especialidade é sexologia, e dirige o Centro Avançado de Sexualidades e Afectos, no Porto. Deu uma entrevista à revista Sábado. Parece apostado em reforçar a baixa auto-estima dos portugueses do sexo masculino, mostrando o que se esconde por detrás da prosápia heróica com que se pintam. Transcrevo...

Diz que o homem português ainda tem muito a aprender, no que toca ao sexo.

É muito marialva, mau amante. Passou da figura do Rafael Bordalo Pinheiro, baixo, gordo, careca e de bigode, para um homem mais alto, mais magro e de brinco à Cristiano Ronaldo. Ou seja, modernizou-se aparentemente, mas com muita superficialidade. Temos de avançar para o futuro. E isso passa também pela sexualidade e pelos afectos. Há muita desinformação, muito analfabetismo na área da sexualidade.

07/11/09

Impressões - XXXIV


Leopold Romañach, Marina


este equilíbrio
entre terra e água
é um fogo que brilha
na curva da tarde

incendeia mãos e olhos
traça um rumor de madeira
como se anunciasse
uma praia de carvão

este equilíbrio
branco como a vertigem
anoitece pela casa
que o tempo trai

Chemins qui ne mènent nulle part


O tempo das avaliações



Afinal não são só professores que estão sob o fogo da avaliação. O senhor Procurador-Geral da República veio informar-nos que as conversas escutadas entre o sr. dr. Vara, distinto administrador de bancos, e o sr. eng.º Sócrates, não menos distinto primeiro-ministro de Portugal, estão também sob avaliação. Qual será a escala e os indicadores utilizados? Será que o eng.º Sócrates vai ser obrigado a fazer um relatório de auto-avaliação?

Deixando de lado a tolice das avaliações, há coisas que me fazem espécie, como se diz por estes lados. Em primeiro lugar, faz-me espécie a gestão do segredo de justiça. Como é que conversas inerentes a um processo ainda em segredo de justiça, conversas que envolvem o primeiro-ministro de Portugal, são mais públicas que um resultado de um jogo de futebol transmitido pela RTP? Não se trata de defender Sócrates. Trata-se de exigir que a Justiça portuguesa não continue a atolar-se na lama, lama que já lhe cobre os ombros. Esta publicidade extemporânea serve para quê e a quem? É sintoma de quê? Faz-me espécie também que o senhor Procurador-Geral venha lançar uma sombra com a história da avaliação. Não deveria eximir-se a abrir a boca e agir se tivesse de o fazer e quando fosse a hora de o fazer? Faz-me espécie, por fim, a propensão que há para associar o nome do primeiro-ministro a casos desagradáveis.

06/11/09

Impressões - XXXIII


Van Gogh, Paisaje fluvial con barcas de remos en la orilla (1887)

um rio – floresta de rosas azuis
onde barcos dançam
sonâmbulos
no sono da margem

o vento tacteia os cascos
e os remos são pétalas
desamparadas
a cair para fora da viagem

A sombra



(Imagem retirada, com a devida vénia, do aluaflutua)

Militantes socialistas de Braga condenam ataques de Correia de Campos, antigo ministro da Saúde, a Manuel Alegre. Por si só, esta posição significa pouco, mas ela não deixa de indicar o rumor que, como uma sombra, começa a atravessar as hostes socialistas, depois de uns anos de ataraxia mental.

O fim da infância



Há dias disseram-me que a casa onde nasci tinha sido demolida. Em sua substituição está, um pouco atrás, a ser construída uma outra. Apossou-se de mim uma sensação de vazio, como se só agora me tivesse realmente separado dela. Não sei que relação as pessoas têm com as casas onde nasceram, mas eu tinha uma relação muito forte, embora a casa já não estivesse na posse da família há cerca de 30 anos. Foi ali que vi o mundo, que descobri a luz, que sujei as mãos na terra, que vi a erva pela primeira vez. Foi lá que descobri o céu e os astros. Foi lá que o meu pai fez o meu primeiro presépio, com um céu azul e estrelas e um Menino nas palhas. Foi lá que vi os primeiros animais, foi lá que vi a minha avó chegar uma e outra vez, com os cabelos que para mim sempre foram brancos. Foi lá que escutei os meus tios-avós, os donos primitivos da casa, de quem ainda guardo uma grata recordação. Foi lá que ouvi a voz da minha mãe e que vi as suas flores, e escutei as suas orações. Foi lá que descobri a água dos poços e os frutos da terra. A demolição dessa casa, já irreal, representa a expulsão definitiva do paraíso e a sentença de um retorno impossível, mesmo que ele fosse ilusório e nunca verdadeiramente desejado. Talvez a minha infância tenha agora acabado de acabar. Não tenho casa onde voltar.

05/11/09

Impressões - XXXII


Berthe Morisot - Boat - Entry to the Midina in the Isle of Wight (1875)

as águas ondulam
sob o império de um barco
a luz ferida que avança
deixa esteiras à passagem
inunda o olhar de gratidão

que destino o teu
se o desalento da tarde
descai sobre os ombros
e a mão outrora feroz
não é mais que água
sob tirania de um casco
que vai a passar

A lei das compensações



Os ingleses é que pagam as frustrações de Braga. A vida é assim, umas coisas compensam as outras. Mas para se ficar mais tranquilo sobre o real valor da coisa, é preciso ganhar aos grandes de cá, não bastam os médios de lá de fora.