Impressões - XXXVIII
à porta de minha casa
os astros estiveram de feição
mas o voo das aves
trouxe outro veredicto
nem sempre a perda é uma maldição
pode ser um pomar de macieiras
ou os olhos rasos de água
de quem volta de um longo exílio
A verdade é um erro exilado na eternidade. (Cioran)
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Jorge Carreira Maia
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Como se banaliza, até o reduzir a um puro flato destituído de significado, um conceito filosófico? Assim: «Sócrates: Queda do Muro significou "novo paradigma mundial"». A noção de paradigma, importada do eidos (ideia) platónico pela mediação da teoria do desenvolvimento da ciência de Thomas S. Kuhn, tornou-se um bordão na mão de quem não faz a mínima ideia do que é efectivamente um paradigma, qual a arqueologia do conceito, e para que finalidade foi criado. Quando oiço alguém utilizar a palavra paradigma dá-me vontade de o mandar calar de imediato, ou de desligar a televisão. Tornou-se uma daqueles noções que se exibem mecanicamente para se mostrar uma erudição inútil e que de facto não se possui. No caso vertente, um filosofês técnico.
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Ao ler o In Memorian, de Medeiros Ferreira, sobre o antigo dirigente e fundador do PPD, Jorge Sá Borges, apetece voltar à inocência da primeira juventude, e perguntar por que razão pessoas como ele não têm lugar na política portuguesa? Dirigente estudantil na crise académica de 1962, católico, advogado de sucesso, pessoa elegante. As intervenções políticas de Sá Borges eram, ainda segundo Medeiros Ferreira, informadas, inteligentes, conciliatórias. Foi também, para o antigo renovador, o melhor ministro de Conselho de Ministros. Tudo isto no período quente do pós 25 de Abril. Hoje, salvas raras e honrosas excepções, resta uma gente funesta, cuja inteligência se mede pelas sondagens e a elegância, mesmo se composta por fatos caros e gravatas bem combinadas (coisa, aliás, rara), anda não muito longe da elegância do Zé Povinho do Bordalo.
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