15/08/09

Quarenta anos de Woodstock

Jimi Hendrix - Purple Haze at Woodstock 1969

The Who - My Generation [Woodstock 1969]

Jefferson Airplane Saturday Afternoon Woodstock 1969

As efemérides são sempre amigas dos bloggers falhos de imaginação. Passam hoje 40 anos do Woodstock. Podemos dizer que o evento condensou toda uma cultura juvenil que se foi formando ao longo da década de sessenta. De certa maneira é o sumário do passado e um programa de futuro. Quarenta anos depois, o mundo que é o nosso é o que aquela gente e muitos dos que gostariam de lá ter estado formataram. Não se pode dizer que seja um mundo brilhante, mas há uma coisa de que não podemos acusar a geração do Woodstock: falta de eficiência. O niilismo e o relativismo que a animava foram eficientemente disseminados e tomaram conta do Ocidente.

Alma Pátria - 26: Fernando Farinha - O Meu Destino & Sempre Linda


Fernando Farinha - O Meu Destino - Sempre Linda

Fernando Farinha era um dos fenómenos da Rádio nos anos sessenta e, presumo, cinquenta. Era conhecido como o Miúda da Bica, referência ao bairro da Bica, Lisboa, para onde veio residir em criança, vindo do Barreiro. Começou a cantar muito cedo. Esta gravação parece ter sido feito quando ele tinha apenas 11 anos. É uma curiosidade, pois trata-se de um velho 78 rpm. Eis como soava, mais ou menos, um disco nos finais dos anos trinta ou início dos quarente.

Volta a Portugal - algumas memórias XI/XII

Mário Silva e Pedro Moreira

Junto aqui dois ciclistas bem presentes na minha memória. Têm palmarés dissemelhantes, melhor o do portista, mas como o blogue é meu, junto quem me apetecer. Mário Silva ganhou a Volta (1961) muito novo, tinha apenas 21 anos. Na Volta do ano seguinte ganhou o Prémio da Montanha. Na altura, era sempre apontado como um dos candidatos ao triunfo na prova, mas o melhor que alcançou foi um 3.º lugar. António Pedro Moreira nunca obteve uma classificação brilhante na Volta a Portugal (o melhor que conseguiu foi um 7.º lugar), mas está associado na minha memória às metas volantes, um enigmático prémio existente na Volta a Portugal, não sei se noutras. Ganhou o prémio das metas volantes três vezes (1966, 67 e 68). Ganhou ainda a classificação por pontos (camisola verde) em 1966. Ambos eram nomes emblemáticos dos respectivos clubes.

A paródia pós-moderna

A Condição Pós-moderna, escrita como uma encomenda oficial, restringe-se essencialmente ao destino epistemológico das ciências naturais - a cujo respeito, como Lyotard mais tarde confessou, o seu conhecimento era menos do que limitado. O que ele entreviu nelas foi um pluralismo cognitivo, baseado na noção - inédita para os públicos franceses, embora já há muito estereotipada para os anglo-saxonicos - dos diferentes e incomensuráveis jogos linguísticos. A incoerência da concepção original de Wittgenstein, muitas vezes notada, foi apenas acrescida pela afirmação de Lyotard de que tais jogos eram autárcicos e agonísticos, como se pudesse haver um conflito naquilo que não possui uma medida comum. A influência subsequente do livro esteve, neste sentido, em relação inversa ao seu interesse intelectual, quando se converteu na inspiração de um relativismo vulgar que, muitas vezes - aos olhos quer dos amigos, quer dos inimigos - passa pela marca do pós-modernismo. [Perry Anderson, As Origens da Pós-Modernidade. Lisboa: Ed. 70, pp. 39/40]


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Esta mesma marca de irrelevância intelectual de um dos mais famosos livros sobre a pós-modernidade é assumida pelo próprio Lyotard: "Inventei histórias, referi-me a um rol de livros que nunca lera, aparentemente causou impressão nas pessoas, mas tudo se resume a um pouco de paródia... É o pior dos meus livros; quase todos são maus, mas este é o pior": [Lotta Poética, Terceira Série, Vol. l, N° l, Janeiro 1987, p. 82 (idem, pp. 39)].


Há, no entanto, qualquer coisa no livro de Lyotard que é pregnante. Essa força advém-lhe do próprio carácter paródico. Lyotard podia saber pouco do que falava no seu célebre relatório, podia ter inventado histórias, podia citar livros que nunca lera, mas isso não torna a sua obra menos significativa relativamente ao espírito pós-moderno. Pelo contrário, o livro como atitude intelectual parece ser o resumo da pós-modernidade, do carácter paródico em que a própria vida e o saber se tornaram. A pós-modernidade é esse momento que, após a solidez material do mundo moderno, tudo se dissolve, se torna leve e risível.


A risibilidade da existência só encontra o seu outro na risibilidade do saber, de um saber que cresce exponencialmente, mas com o qual os seres humanos são cada vez menos sábios e menos humanos. Um relatório sobre o destino epistemológico das ciências naturais pode ser um motivo tão válido como uma investigação sobre colecções de cromos da bola para evidenciar o carácter risível do mundo. Lyotard escolhe muito bem a palavra paródia, evitando a referência directa à comédia. Esta deve ser sempre pensada na sua relação ancestral com a tragédia. A segunda, no dizer de Aristóteles, trata dos homens superiores, enquanto a primeira trata dos homens comuns ou inferiores.


Ora a paródia pós-moderna trata da ausência dos próprios homens, superiores ou inferiores, do mundo da vida. Ela assinala o lugar onde o homem se ausentou de si mesmo, dissolveu-se, reduziu-se a uma condição onde inferior e superior apenas fazem sentido entendidos num contexto zoológico. No entanto, não se deve interpretar o zoológico como referência a uma ciência, ainda que taxionómica, como a Zoologia. Deve ser ligado àquilo que entendemos quando escutamos a expressão "jardim zoológico". Ali os animais são criados em cativeiro para exposição pública. A pós-modernidade refere-se ao momento em que o mundo da vida se resume a um jardim zoológico, onde diferentes espécies de macacos se exibem perante outros macacos. A paródia é o contexto da risibilidade do animal humano reduzido ao horizonte dos seus apetites naturais. Um deles é exibir-se paroxisticamente perante o próximo. A característica essencial, porém, da paródia é o seu carácter de reinterpretação de um original. Agora os animais humanos parodiam o homem que um dia foram.

14/08/09

O comentador que o país consagrou

O ubíquo e conspícuo Moita Flores veio anunciar ao mundo que não votaria na dr.ª Ferreira Leite, mas espera que o PSD de Santarém continue a apoiar a sua independente candidatura à câmara local. Este intelectual do regime, que transpira palavras de ética por todos os ecrãs que apanha a jeito, deveria pura e simplesmente não aceitar candidatar-se pelo partido chefiado pela senhora que parece abominar. Se as pessoas não gostam de um partido ou do chefe, o caminho é ir para outro lado, ou ficar quietas em casa à espera que as chamem para comentar mais um crime ou um jogo de futebol.

Alma Pátria - 25: Filarmónica Fraude - 25


Filarmónica Fraude - 25

Uma fraude que nasceu em 1968 e terminou em 1969. Nasceu, segundo parece, entre o Entroncamento e Tomar. A Filarmónica Fraude representou um corte com o tipo de música que se praticava em Portugal, combinando o ritmo da pop ou o rock progressivo com a música tradicional portuguesa. Não consegui nenhum vídeo com os grandes temas da banda, nomeadamente Flor de Laranjeira e Menino. Aliás, este tema, 25, uma referência à guerra colonial, foi o único vídeo disponível que encontrei e diz respeito a uma das faixas do único álbum do grupo, Epopeia.

Volta a Portugal - algumas memórias IX/X

Joaquim Andrade e Venceslau Fernandes

No ciclismo nacional, para além dos três grandes do futebol, há equipas que fazem parte da mitologia da disciplina. Já aqui falámos do velho Ginásio de Tavira. Podia falar no Águias de Alpiarça, em cuja pista, ainda muito novo, cheguei a ver provas. Mas talvez o mais mítico desses clubes seja o Sangalhos. O grande corredor da terra bairradina foi, sem qualquer dúvida, Alves Barbosa (ganhou as Voltas de 1951, 56 e 58 e participou no Tour), mas dele não me lembro enquanto corredor. As minhas figuras míticas do Sangalhos são os irmãos Oliveira (Herculano e Celestino) e Joaquim Andrade. Este ganhou a volta de 1969, a segunda que era disputada por Joaquim Agostinho. Junto, neste post, outro grande ciclista que correu pelo Sangalhos (embora tivesse corrido por muitos outros clubes, entre eles o curioso Benfica de Luanda), Venceslau Fernandes. Ambos, Andrade e Fernandes, nasceram no ano de 1945, mas Venceslau só venceu Volta em 1984, correndo por uma marca, a Ajacto.

Do novo regime

Ainda não consegui compreender, certamente por limitação minha, a ânsia que existe em certos sectores por aquilo a que chamam um novo regime, ou outro regime, ou outra coisa. A ideia do novo regime, de um regime presidencialista, é uma reformulação do messianismo sebástico. Mas, para além da referência à mitografia nacional, o que mais pode oferecer um novo regime? Não pode alterar o povo que somos, e logo aí 95% da virtude do novo regime se desvanecem. Restam 5%. Dizem respeito ao pastor do povo, o miraculado Presidente a vir com o novo regime. Mas onde iríamos nós buscar essa ditosa pessoa que nos salvaria de nós próprios? Não estou a ver onde, a não ser à classe política, às gentes que pululam no PS e no PSD. Com um novo regime, como é moda agora querer, a vigorar, talvez o Presidente-Rei e primeiro-ministro se chamasse José Sócrates. Um Sócrates ainda mais exuberante, sem o contraponto de Belém nem o aborrecimento de ter de ouvir seriamente os deputados, valham estes o que valerem. O problema fundamental não é de regime. Os mesmos vícios e as mesmas escassas virtudes estiveram presente no constitucionalismo monárquico, na primeira República, no Estado Novo, na República actual. O que variou foi o uso do cajado pelo pastor, umas vezes mais brando, outras mais duro. A essência não muda, pois como se sabe, desde o velho Platão, as essências são eternas e imutáveis.

13/08/09

Alma Pátria - 24: Alfredo Marceneiro - Amor de Mãe


Alfredo Marceneiro - Amor de Mãe

Depois do interregno de ontem, volta o Alma Pátria com um nome grande do fado, Alfredo Marceneiro. Aqui não é o lugar para contar a história dos artistas seleccionados, nem o blogger tem competência para o fazer (pode ver aqui uma pequena biografia do grande Marceneiro). Não identifiquei o autor, talvez seja o próprio Marceneiro, mas a letra deste fado é uma nova e exuberante lição de sociologia pátria. "Há vários amores na vida / Lindos como o amor perfeito / Belos como a Vénus querida / De tantos que a vida tem / Só um adoro e respeito / É o santo amor de mãe". Elucidativo.

Volta a Portugal - algumas memórias VII/VIII

Leonel Miranda & Fernando Mendes
Como ontem, devido a um imprevisto, não foi possível vir ao blogue, faço hoje, para compensar, uma heresia e junto um corredor do Sporting e outro do Benfica, nesta peregrinação à minha memória ciclística. São dois nomes grandes do pelotão dos anos sessenta e início de setenta. Leonel Miranda nunca ganhou a Volta a Portugal. Fernando Mendes ganhou em 1974, no ano da Revolução. Em compensação, Leonel Miranda ganhou o Prémio da Montanha (1967), a classificação por pontos (1968, 69 e 70 - Mendes ganhou em 72, 73 e 74). Ambos ganharam uma vez a classificação das metas volantes. Outra coisa que ambos tiveram em comum foi o terem sido ensombrados pelo fenómeno Joaquim Agostinho. Não fora isso, e os seus nomes seriam ainda maiores no panorama do ciclismo nacional.

Tratar da vidinha

Sabe-se que os inovadores da pátria não gostam de Medina Carreira. É um pessimista e catastrofista, etc., etc., etc., dizem. Como também não sou especialmente adepto do optimismo, escuto e leio sempre com atenção o que diz este antigo ministro. Por exemplo, vale a pena ler isto: «Sempre que um partido em Portugal tem maioria absoluta, os deputados ficam reduzidos a zero. Se tem maioria relativa, há estas contendas brutais em que o PSD está metido porque sabem que sem ir ao Governo não têm lugares para tratar da vida e dos negócios. E, portanto, digladiam-se para ver se têm acesso aos lugarzitos que restam». Ou então isto: «É para empregar os primos, os tios, para fazer negócios de auto-estradas e outras coisas no género. Portugal hoje é um grande BPN». O problema dos inovadores da pátria é que eles pertencem a este tipo de gente que Medina Carreira denuncia. O seu optimismo é optimismo que advém da expectativa da política lhe abrir outros horizontes, e ninguém está a pensar em horizontes espirituais. O pessoal quer é tratar da vida, isto é, da sua vidinha.

11/08/09

Alma Pátria - 23: Simone de Oliveira - Desfolhada Portuguesa

Simone de Oliveira - Desfolhada Portuguesa

Simone de Oliveira é uma presença constante, desde os finais dos anos cinquenta, no panorama da cultura popular portuguesa. De certa forma, ela acompanha a evolução da vida social e política portuguesa. Começa a sua preparação, enquanto cançonetista, numa "escola" do regime, o Centro de Preparação de Artistas da Emissora Nacional. A sua estreia, como cantora, dá-se em 1958. Onze anos depois, vence o Festival RTP com uma canção, Desfolhada Portuguesa, escrita pelo poeta e letrista comunista José Carlos Ary dos Santos. O delicioso desta história reside no facto da afirmação, no corpo do poema, "quem faz um filho, fá-lo por gosto" tem gerado controvérsia, o que levou a que se considerasse a letra como muito ousada. Curioso também é ter passado na censura. Estávamos a começar a primavera marcelista e havia um certo amaciamento, que desapareceu rapidamente, do regime. Já agora, note-se a força que emana de Simone de Oliveira.

Volta a Portugal - algumas memórias VI

Américo Silva

Américo Silva ganhou a Volta a Portugal de 1968, envergando a camisola do Sport Lisboa e Benfica. Curiosamente essa Volta foi dominada pelo Sporting. Ganhou por equipas, ganhou no Prémio da Montanha com um tal Leonel Moreira (mas não sei se este nome está correcto, se não será Leonel Miranda) e ganhou a classificação por pontos, através de Leonel Miranda. E o Sporting teve ainda uma outra vitória na Volta desse ano. A estreia do super Joaquim Agostinho, que ficou em segundo lugar. Valeu aos benfiquistas, como eu, a classe de Américo Silva e a conquista das metas volantes pelo inevitável Pedro Moreira.

10/08/09

Será que somos normais?

Muitas vezes tenho a estranha sensação de que nós, portugueses, sofremos de uma qualquer anormalidade. Dito de outra maneira, não somos bons da cabeça. Nas estradas, constatamos isso com frequência. Agora, teve de vir a ministra da Saúde chamar a atenção para comportamentos anti-sociais de certos adultos, comportamentos esses que visam propagar entre crianças o vírus da gripe A, segundo parece, como retaliação. Este tipo de comportamento não é criminalizado? Quando nem a boa educação, coisa de que uma parte dos portugueses não faz ideia do que é, nem os imperativos da consciência moral são suficientes para travar certos actos, deve ser o Direito a fazê-lo.

Volta a Portugal - algumas memórias V

Jorge Corvo

Apesar de ter terminado a sua carreira em 1967, lembro-me perfeitamente de Jorge Corvo fazer parte do pelotão da Volta à Portugal. Recordo-me, também, de ler nos jornais desportivos (li-os desde muito cedo, embora já não olhe para eles há muitos anos) que o tavirense era um grande corredor. Nunca ganhou a nossa Volta, embora tivesse obtido três segundos lugares. Fazia parte de uma equipa mítica do ciclismo nacional, o Ginásio de Tavira. Quem quiser saber um pouco mais de Jorge Corvo poder consultar aqui.

Alma Pátria - 22: Os Conchas - Acredita e Be Bop A Lula


Os Conchas - Acredita e Be Bop A Lula

Este vídeo pertence a uma apresentação de Os Conchas (José Manuel Aguiar de Concha e Fernando Gaspar) na RTP, em 1960. O Rock'n' Roll estava no auge da sua popularidade nos EUA e as novas gerações europeias ansiavam pela americanização, vista talvez como uma certa libertação dos constrangimentos que a velha Europa impunha. Portugal, apesar da ditadura do Prof. Salazar, não ficou imune. Os Conchas são uma prova disso. A capa apresentada não corresponde às canções do vídeo. Pertence ao primeiro EP gravado pelo duo, mas um EP partilhado com Daniel Bacelar. Duas canções para Os Conchas, duas para Daniel Bacelar. Era equitativo e o vinil estava caro.

09/08/09

A ETA de novo

Esta notícia e mais esta mostram que a organização separatista basca ETA continua bem viva. Espanha já tentou tudo, desde a repressão franquista, ao olho por olho e dente por dente do tempo de González, à repressão democrática com Aznar e ao diálogo com Zapatero, mas os resultados são pura e simplesmente nulos. Há problemas que são insolúveis e a ETA parece ser um deles. Se o Estado espanhol quisesse correr riscos talvez houvesse uma possibilidade de deslegitimar completamente a ETA. Se permitisse um referendo sobre o País Basco, um referendo não nacional mais autonómico, talvez a ETA perdesse e ficasse deslegitimada aos olhos das novas gerações. Isso é, porém, um risco. Em primeiro lugar, porque nada garante que uma derrota da ETA nas urnas a levasse a depor definitivamente as armas e os atentados terroristas. Em segundo lugar, poderia acontecer uma coisa paradoxal: o País Basco votar pela continuação na coroa espanhola e outras autonomias exigirem o referendo mas com resultado diverso. A ETA está para Espanha como o Médio-Oriente para o mundo. São problemas insolúveis.

Hermann Hesse

Não há nada melhor, para um blogger veraneante, do que as efemérides. Sempre dão motivo para que se blogue qualquer coisa. Hermann Hess morreu faz hoje precisamente quarenta e sete anos, eis a efeméride. É um autor que a morte não apagou. Os seus livros continuam a traduzir-se e a vender. O que terei lido dele? Tanto quanto recordo, li o inevitável Siddhartha, Narciso e Goldmundo, Ele e o Outro, Lobo das Estepes e Jogo das Contas de Vidro. Todos estas obras deram-me prazer ao lê-las e talvez tenham contribuído para um certo auto-conhecimento. Essa é uma das funções fundamentais da literatura, possibilitar ao leitor o reconhecimento de si mesmo. Mas é também com Hermann Hesse que faço uma outra experiência fundamental da literatura: o do limite da obra. Quando tentei uma releitura de obras como o Lobo das Estepes ou Jogo das Contas de Vidro, obras de que tinha gostado particularmente, não o consegui fazer. As obras tinham-se tornado, para mim, desadequadas, como se a experiência ontológica que elas permitem estivesse há muito ultrapassada. Isso manifestava-se em cada linha do texto, em cada imagem apresentada. Esta experiência não se deve confundir com uma outra corrente em literatura, a experiência da datação da obra. Certas obras fazem sentido na sua época, mas não contêm em si um princípio de universalidade e tornam-se, passado algum tempo, ilegíveis. Esta é uma experiência mais de carácter social e tem uma dimensão quase objectiva. A outra experiência é subjectiva, não depende das metamorfoses sociais, mas das transformações pelas quais passa o sujeito que lê.

Alma Pátria - 21: Luís Cília - Canto do Desertor


Luís Cília - Canto do desertor

A pátria, in illo tempore, tinha uma alma oculta, uma alma que não podia manifestar-se na Rádio e na Televisão portuguesas, mas manifestava-se, por exemplo, na televisão francesa. Era uma alma recalcada. A voz de Luís Cília - não é uma grande voz, mas é uma voz de que gosto bastante pelo seu timbre nostálgico - era uma das vozes dessa alma abscôndita, que atravessava o país pelo silêncio da noite. Aqui canta uma canção contra a guerra colonial. O original em disco é de 1964 e a gravação que se apresenta, em condições não muito boas, é de 1966. Pelo que se percebe da imagem da capa, no canto superior direito, o disco foi editado pela célebre editora discográfica de gauche Le Chant du Monde.

Volta a Portugal - algumas memórias IV

João Roque


Eis um dos grandes ciclistas portugueses dos anos sessenta, João Roque. Ganhou a Volta a Portugal em bicicleta em 1963, e era sempre um dos grandes candidatos à vitória final na Volta. À escala nacional, era um dos grandes contra-relogistas. Tenho a memória, talvez incorrecta, de ter sido João Roque quem descobriu o super Joaquim Agostinho. Pelo menos eram ambos do concelho de Torres Vedras. Pode-se ver mais informação sobre João Roque aqui.