06/03/09

Haja esperança (II)

As sondagens parecem não correr de feição para o partido do governo. É já qualquer coisa. Isto não significa que Sócrates não possa a vir a obter uma maioria absoluta. Mas talvez os portugueses estejam a despertar de um sonho, e comecem a perceber que afinal era um pesadelo. Não é que o nível político das oposições seja sequer recomendável. Não é pior nem melhor do que o do governo, é igualmente medíocre. Mas uma situação confusa, talvez seja um princípio de saída. Alguma coisa terá de acontecer, alguma coisa será melhor do que o estado a que se chegou. Haja esperança.

Haja esperança (I)


Nem tudo corre pelo pior. Em 2008, nasceram mais bebés do que em 2007. Os números estão, agora, ao nível de 2006. O aumento de nascimentos, num país envelhecido como o nosso, é uma coisa salutar e que convém sublinhar, como se sublinhou aqui, em anos anteriores, o desastre demográfico. Este aumento pode não querer dizer nada, mas também pode representar um princípio de esperança. Por muito trabalho que dêem a educar, uma comunidade precisa desesperadamente de novos elementos. Caso contrário, morrerá. Haja esperança.

05/03/09

Moisés David Ferreira - Reencontro XV

o que eu digo é: abre os ossos
com a leveza de um outono a tombar.
as palavras são globos subterrâneos,
vazios ao meio – têm de chegar à boca
como um extenso ritual a desfazer-se.
até à derradeira deserção.
o que eu digo: escreve
como se caçasses uma visão,
ou um fantástico animal
se conduzisse, incisivo, para o teu ventre,
e lhe tomasses o instinto como
se a morte fosse o destino desse amplexo.

Gotan Project - Milonga de amor

Democracia na era da suspeita



Historicamente, a democracia manifestou-se sempre tanto como uma promessa, tanto como um problema. Promessa de um regime harmonizado com as necessidades da sociedade, sendo esta última fundada sobre a realização de um duplo imperativo de igualdade e de autonomia. Problema de uma realidade, muitas vezes, bastante longe de satisfazer estes nobres ideais. O projecto democrático nunca deixou de ficar incompleto lá mesmo onde ele era proclamado, quer tenha sido grosseiramente pervertido, subtilmente contraído ou mecanicamente contrariado. No sentido mais forte do termo, nunca conhecemos regimes plenamente «democráticos». As democracias realmente existentes permaneceram inacabadas ou mesmo confiscadas, em proproções, segundo os casos, muito variáveis. Daí que os desencatamentos andem a par com as esperanças que fizeram nascer as rupturas com os mundos da dependência e do despotismo [Pierre Rosanvallon (2006). La contre-démocracie. La politique à l'âge de la défiance. Paris: Ed. du Seuil].

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Não se encontrará a nossa democracia perto do quadro descrito por Rosanvallon? Não se estará ela a tornar numa «democracia» confiscada. É certo que as instituições vão funcionando, mas vive-se um momento em que a tensão entre a esperança na democracia e a descrença (o autor fala em défiance - desconfiança, suspeita) nela parece estar a pender para o lado da suspeita. Muita gente começa a suspeitar da capacidade da democracia realizar as suas promessas.

O interesse do texto de Rosanvallon reside em chamar a atenção sobre o óbvio: a democracia realiza-se num cumprimento de um duplo imperativo, o da igualdade e o da autonomia, isto é, da liberdade. Durante os últimos decénios a querela entre igualdade e liberdade tem animado as discussões sobre filosofia política, tendo a consideração da igualdade sofrido um abalo, até como desforra dos tempos em que o igualitarismo marxista tomou conta de uma parte do mundo e arrastou uma parte substancial do Ocidente a inventar o Estado-Providência, uma forma democrática de assegurar uma certa igualdade entre os membros de uma sociedade.

O que interessa, neste momento em que as desigualdades entre os homens se acentuam, é chamar a atenção para uma outra perspectiva. A querela entre liberdade e igualdade sublinhou apenas os aspectos aparentemente incompatíveis entre ambas. Mas o que ficou recalcado foi o facto de liberdade e igualdade se requererem mutuamente. O perigo das desigualdades sociais acentuadas não é apenas do aumento do fosso entre ricos e pobres, mas o de abrir o caminho para uma efectiva eliminação da autonomia de larga massa de indivíduos e a consequente supressão da liberdade.

A democracia é promessa e problema. Promessa de uma sociedade mais justa, problema de encontrar a justa medida onde igualdade e liberdade se maximizem mutuamente. A suspeita que nasce sobre a democracia funda-se nessa clivagem entre igualdade e liberdade, clivagem que faz parecer que a liberdade apenas serve para que os mais fortes oprimam os mais fracos. Se não quisermos ver a liberdade suprimida, então será melhor que cuidemos e reinventemos novas formas de realizar os imperativos da democracia.

A feroz concorrência


O mercado em Portugal sempre foi uma armadilha para os portugueses. A concorrência deveria fazer baixar os preços e encontrar formas de melhor servir os consumidores. Mas, por cá, quanto mais concorrência existe, mais devagar descem os preços. Pelo menos, parece. Veja-se o caso dos lucros da Galp no último trimestre de 2008. O lento acerto no preço dos combustíveis, relativamente à evolução do preço internacional do petróleo, gerou um acréscimo dos lucros, segundo o Público, de 105 milhões de Euros. Dito de outra maneira, foram os consumidores penalizados em 105 milhões de euros, só nas compras efectuadas à Galp, pela concorrência feroz que existe no mercado português dos combustíveis. Depois, os nossos liberais ficam espantados pelas saudades dos consumidores dos tempos em que os preços eram tabelados politicamente. Vá lá saber-se por quê.

04/03/09

Moisés David Ferreira - Reencontro XIV

a cabeça a despegar-se
da gasta dilação com que se prende ao corpo. com a faca
de nenhum gume: o poema. o sopro das próprias
fundações da carne –
que atira a cabeça para longe,
com a bússola da noite
a servir de antecâmara.
retira-se a cabeça: cirurgicamente,
como a chegada das estações. porque: quando chega
uma estação, a cabeça esvazia-se,
deixa-se inaugurar.
faz-se espaço. flui.
e o sangue a cavalo nessa nudez é o óbolo
para a mais vincada migração:
permanecer.

Patti Smith - Smells Like Teen Spirit

A crise contínua


Na Alemanha, o professor Cavaco Silva alertou para a necessidade de ser muito eficaz na resolução da actual crise, caso contrário, novas e mais graves crises se perfilarão no horizonte. Cavaco diz a que prioridade deverá ser “minimizar as consequências de escassez de crédito e restaurar a confiança nos mercados financeiros”. Acrescentou que "restringir de forma explícita ou implícita, o grau de abertura das economias será uma resposta tão contraproducente em termos económicos, como perigosa em termos políticos”. Mas como conseguir este duplo milagre?


Por tudo isto, as pessoas podem começar a perceber a realidade do que vem aí. Mais e mais desemprego, volatilização das classes médias, a manutenção da tendência globalizadora, o que implicará a subsquente baixa dos salários devido à concorrência das hiper-potências demográficas. E talvez tudo isso não passe de um cenário idílico. Nada, neste momento, nos garante de que não vai ser bem pior, que as tais crises mais graves de que fala o Presidente da República não sejam mesmo a realidade futura, mesmo que se aja bem, segundo o paradigma de Cavaco Silva. Talvez a crise contínua seja o destino próximo do Ocidente.

03/03/09

Moisés David Ferreira - Reencontro XIII

subo ainda para o coração de treva
onde as portas se intersectam
(lâmpadas trazendo
à idade mínima do espanto
o peso nebular de um labirinto).
tudo conduz
à friável câmara
da voz, musical lume
cerrando nas paredes líquidas
as suas línguas de sombra, as suas danças sentadas
no degrau de uma cifra. acende-se
um cálice de orvalho nas volutas do sangue,
a palavra recolhe-se ao seu lugar mais tenso,
abre-se o tempo sazonado e vertical
à chegada dos rostos.

[Exit Music] - Brad Mehldau Trio

Desígnio Inteligente


O Zé Ricardo escreve aqui sobre o encontro a decorrer no Vaticano entre teólogos e cientistas a propósito dos 200 anos do nascimento Darwin e da teoria do "desígnio inteligente", uma teoria pseudo-científica que pretende ver na evolução das espécies um sinal do plano criador divino. Ele suspeita que a discussão está inquinada: «Digam o que disserem os eminentes cientistas, os teólogos irão sempre encontrar sinais de Deus na evolução das espécies pelo simples facto de desejarem aí ver sinais de Deus, visto que, para eles, o mundo não faz sentido sem sinais de Deus.» Mas se ele ler aqui descobrirá que os teólogos católicos mais depressa se acordarão com os cientistas do que com os defensores da teoria do "desígnio inteligente", de origem protestante e americana. Não quero dizer que não haja um ou outro católico que não gostasse de fundir ciência e crença religiosa, mas vejo com muita dificuldade o Vaticano cair nessa armadilha. É preciso não esquecer que a Igreja Católica possui muitas e fortíssimas universidades, produz muitos cientistas e que a tradição filosófica e o discurso racional são estruturantes do catolicismo. Como é que um intelectual notável como Ratzinger iria permitir que a fé e a crença em Deus dependessem de uma teoria que tem pretensões de ser científica? No Vaticano lê-se e estuda-se muito. A Igreja Católica dificilmente abandonará a diferenciação dos dois planos: o que é matéria de fé não é objecto de investigação empírica; a ciência não investiga o sobrenatural. Eu diria que este encontro talvez seja mais um sinal de conflito teológico entre duas versões do cristianismo do que uma tentativa da Igreja Católica cavalgar o triunfo de Darwin. Ela sabe que as vitórias humanas são sempre muito temporárias.

Sócrates está conseguir

Imagem do Raiva Escondida

O governo está a conseguir realizar a sua agenda. "Os portugueses vão ter das pensões mais baixas entre o conjunto dos 30 países mais desenvolvidos do mundo dentro de 20 anos, revela um relatório da OCDE". Parabéns a José Sócrates e ao seu excepcional governo. Talento não lhes falta. Com uma nova maioria absoluta vão conseguir aproximar o país do nível médio de desenvolvimento de África. Ditosa Pátria que tais filhos tens!

02/03/09

Moisés David Ferreira - Reencontro XII

dedos abalados, um justo esquecimento a entrar
na flutuação das miragens. (cada passo,
desligado de mim, aplaude.)
como um correr de sinos sobre a pele,
a rebelde inflorescência, um rasgo de seiva
destravando a sonolência com que as mãos percorrem
o esboroado tecido do mundo.
onde as inteligências, em golfadas de discórdia
e impudor, se afundam na cegueira,
eu faço aparecer um vento
sem rasto para ouvidos (presos
à usada predação de um fim).
e é nesse vento discreto, talvez fundamental,
que se passeia o riso das coisas,
como um vestido de núpcias agarrado ao fogo
que cresce no âmago da primeira chuva.

Apocalypse Now..Ride Of The Valkyries (Richard Wagner)

Arte e guerra


Em 1871, Friedrich Nietzsche ainda frequentava o casal Wagner e via no compositor, Richard Wagner, o símbolo de uma nova era. Por isso, escreve nos finais daquele ano, um prefácio dedicado a Richard Wagner que antepõe à sua primeira grande obra, Origem da Tragédia. Os anos de 1870 e 1871 foram, na Alemanha, anos de intenso fervor patriótico. Uma guerra franco-prussiana terminou com a vitória do lado germânico, com enormes perdas territoriais por parte da França, para além de elevadas indemnizações a pagar por esta à Alemanha.

No prefácio em causa, Nietzsche refere os horrores da guerra e a exaltação patriótica, mas fá-lo para dizer que a problemática da sua obra é, de facto, tão ou mais importante para o destino da Alemanha do que os acontecimentos que a História dera a viver naqueles dois anos. E que tipo de problema subjaz a essa obra? Um problema estético.

Em plena euforia nacionalista, Nietzsche vem dizer que a questão fundamental que se coloca à Alemanha é uma questão artística. Todas as vezes que lecciono essa obra começo pela justificação que Nietzsche dá para semelhante tese: "proclamo a minha convicção profunda de que a arte é a missão suprema e a actividade essencialmente metafísica da vida humana".

Dito de outra maneira, o sentido da vida dos homens não é dado nem pela História, nem pela Religião, nem pela Ciência ou tão pouco pela Filosofia. É na arte que se consuma a essência do homem e é ela que o leva para além das aparências. A obra é um longo argumentário que pretende mostrar que na Alemanha estava a nascer uma nova civilização trágica, a partir do espírito da música, um espírito que ia de Bach a Wagner, passando por Beethoven.

A ilusão nietzschiana reside menos na leitura que faz da tragédia grega de Ésquilo e de Sófocles, do que na esperança de ser possível restaurar o velho espírito trágico dos gregos, antes deste ter sido contaminado pelo optimismo "científico" de Sócrates. Mas esta história de uma grande ilusão só fica completa se se souber que, por um lado, Wagner acabou por não se reconhecer no papel que Nietzsche lhe atribuía e que, por outro, a Alemanha acabou sempre por optar pelo poderio militar em vez da arte.

Se houve tragédia, não foi a da ressurreição do espírito da música, não foi o artifício de uma combinação estética entre espírito apolíneo e espírito dionisíaco, mas o barulho dos exércitos a desfilar, das bombas a rebentar, enfim, a tragédia de duas guerras mundiais, onde o estético cedeu lugar ao assassínio em massa.

No entanto, talvez haja neste obra de Nietzsche qualquer coisa de premonitório. O horror e o pessimismo dos estados dionisíacos mais violentos encarnaram na dança dos exércitos. Os bacantes entregavam-se ao fervor do sangue, esse filtro estranho mais poderoso do que o álcool, as drogas ou o sexo. Por duas vezes, no século passado, Diónisos é retalhado nos campos de batalha. Não houve véu apolíneo que ocultasse tamanho horror.

Guiné-Bissau e o som da música da História

Bandeira da Guiné-Bissau

Quando comecei a interessar-me por política, por volta do ano de 1973, a questão colonial era um problema nuclear em Portugal. Formado na escola oposicionista do Cine-Clube de Torres Novas, o meu idealismo juvenil logo se deixou arrebatar pela simpatia para com os movimentos libertadores. Entre eles, brilhava a grande altura, na época, o PAIGC. Quando Portugal reconheceu as independências das suas ex-colónias, rejubilei (como muitos outros e ao contrário também de muitos outros) com o acontecimento: o sentido da História cumpria-se, os povos libertavam-se da opressão colonial. E nós cantávamos ao som da Guiné-Bissau livre e independente.

Nem vale a pena falar do que foram os anos posteriores às independências das colónias. A guerra contra Portugal transformou-se, nas principais colónias, em guerra civil (umas mais quentes, outras mais frias e disfarçadas). Os acontecimentos de hoje com os assassinatos de Nino Vieira, o presidente da Guiné-Bissau, e do general Tagme Na Waie, chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas mostram, mais uma vez, como o idealismo que nos coube em sorte na juventude pouco sabia da realidade do mundo, dos homens e da política.

Não é que eu ache que Portugal deveria ter continuado o esforço de guerra e tentado evitar a descolonização. Continuo a julgar que descolonizar era a única solução possível. O que não encontro, agora que estou a ficar velho, é motivo para aquele júbilo que acometeu tantos de nós. Se eu, na época, tivesse já sido instruído pela leitura de Hegel, talvez tivesse contido a alegria, pois saberia que o motor da História é sempre o negativo, a morte, a violência. Perante este cortejo de horrores, pode haver tudo menos vontade de rejubilar. Com o tempo, se não somos uns refinados filhos da puta (o leitor que me perdoe o excesso de linguagem), aprendemos que nunca se deve cantar e dançar ao som da música da História. É sempre uma marcha fúnebre.

01/03/09

Moisés David Ferreira - Reencontro XI

o crepúsculo faz ascender aos ombros
a matriz radicular da claridade.
e os braços levitam, submergindo
no inacabado friso de mortos que
coroa o anoitecer.
do alto, a paisagem
soletra
uma cintura muda de cânticos,
cerrado, vertiginoso húmus.
adensando as cordas da respiração,
a concisa margem do silêncio,
e as ruas cobertas de uma neve
de que jamais serão o cálice.

Maria Callas - Otello: Ave Maria

Então, não havia de querer?

Segundo o Jornal de Notícias, o aparelho do Partido Socialista quer já para 2010 o referendo sobre a regionalização. Então, não havia de querer? Como se sabe, a oferta de lugares públicos é escassa para a voracidade dos aparelhos.