13/02/09

As coisas secretas da nossa secreta

Como se vê aqui, tudo o que diz respeito à nossa secreta é secreto. O facto de, nos computadores da Presidência do Conselho de Ministros, centenas de pessoas terem acesso à identificação, com fotografia e tudo, de 23 dos nossos secretos espiões é apenas um pormenor sem relevo. Por uma questão de fé, confiamos todos nos serviços secretos ou discretos, ou talvez nem isso. E quando nos asseguram qualquer coisa sobre eles, nem uma sombra de desconfiança floresce no coração dos portugueses. Parece que anda tudo a brincar.

Suspensão de facto dos direitos sindicais

O que é narrado, nestas notícia aqui e aqui, é intolerável. Não apenas porque a violência é um atentado intolerável contra a integridade da pessoa, mas também porque a liberdade do mundo do trabalho se organizar e de fazer greve é um direito essencial da cidadania. Para milhões de pessoas, os direitos sindicais são último refúgio da cidadania. Um Estado que permite isso está à beira de deixar de ser um Estado de direito. Maus ventos estão a começar a correr na sociedade portuguesa.

Jornal Torrejano, 13 de Fevereiro de 2009

Em linha (este blogue acaba de sofrer uma inflexão nacionalista) está já a nova edição do Jornal Torrejano. Destaque para as primeiras propostas do PSD para as autárquicas. Referência também para a comemoração, na novíssima biblioteca municipal, do Dia Europeu da Internet Segura, com um debate. Triste é a notícia que refere o Desportivo: cada vez mais último.

Na opinião, para não variar, comece-se com o cartoon de Hélder Dias. Na crónica escrita, Carlos Henriques escreve Jornada de emoções, Carlos Nuno, Cenas quentes, Inês Vidal, Amor Virtual, Jorge Moita Fazenda, Carta Aberta às vítimas do genocídio social de 2009, José Ricardo Costa, Engenharia Social e Miguel Sentieiro, Passa ao outro e não ao mesmo.

Acabou-se, para a semana haverá mais, se houver. Bom fim-de-semana.

Falta de leituras

Falta de leituras. É o que dá o espírito do tempo. As pessoas chegam a ministros e não leram nada do que é essencial, e depois são apanhadas de surpresa. Foi o que aconteceu com o nosso pobre ministro das Finanças, foi apanhado de surpresa. E isto de um ministro das Finanças ser apanhado de surpresa é coisa rara. Só mais raro é um ministro dos Negócios Estrangeiros ser apanhado de surpresa. Mas vamos ao que interessa. Perante os resultados fornecido pelo INE e referentes ao último trimestre de 2008, onde se mostra que o país entrou em recessão técnica, Teixeira dos Santos disse «Não esperaríamos quebra tão acentuada» Fiquei perplexo. Eu já estou habituado a que os economistas se entreguem às previsões mais desencontradas e que não acertem em nenhuma, mas este grau de surpresa deixa-me atónito. Eu recomendava ao senhor ministro uma leitura sistemática dos fragmentos de Heraclito. Mas Heraclito era economista? Não. Seria Heraclito ministro das Finanças de Éfeso? Também não. Mas sabia pensar, qualidade que entretanto se deteriorou. Num dos fragmentos diz que quem não espera o inesperado não o encontrará. Equipado por tal sabedoria, Teixeira dos Santos já não seria apanhado de surpresa e teria evitado a necessidade de mais um orçamento rectificativo. [Cartoon rapinado daqui]

A santidade científica

Ontem foi dia de S. Darwin. Sempre me espanta o espírito religioso não apenas dos ateus mais acérrimos (a crença na inexistência de Deus é tão religiosa como o seu contrário), mas das gentes da ciência. Na galeria dos santos da ciência há alguns que são inevitáveis. S. Galileu, S. Darwin. Einstein está a caminho da beatificação. Estes santos têm os seus dias de culto e há cerimónias litúrgicas para os incensar. Não vejo, do ponto de vista da propensão geral da humanidade para a superstição, problema nenhum no assunto. No entanto, há duas pequenas coisas que sempre me acodem ao espírito quando vejo este tipo de rituais.

Em primeiro lugar, não esqueço que entre a ciência, produto da aliança entre a razão e a experiência, mediada pela imaginação, e a religião há um efectivo elo de ligação. Comte bem o pressentiu. A religião é um produto da imaginação, fundada numa certa experiência empírica do mundo e articulado pela razão. É do fundo religioso que vai emergir a filosofia, a qual estabelece o nexo, agora oculto, entre religião e ciência. Tende-se a esquecer que ambas são produtos das faculdades humanas e a obnubilar o efectivo traço que existe entre elas. Traço esse, aliás, que se manifesta na santificação e culto dos cientistas.

Em segundo lugar, a minha razão ri-se sempre um pouco (maldita razão céptica) com a pretensão da ciência como explicação do mundo. Não é apenas a revisibilidade a que os conhecimentos científicos estão sujeitos, devido ao progresso da investigação. É mais do que isso. Um dia chegará, poderemos imaginá-lo, em que as explicações científicas, isto é, o empreendimento da ciência, parecerá às mentes mais racionais desse tempo uma coisa tão irrazoável como hoje parece ser, para as mentes racionais, os discursos religiosos de Abraão, de Moisés, de Cristo, de Maomé, de Lao Tsé, etc. E estes discursos, podemos constatá-lo, representaram formas muito interessantes de razoabilização da vida humana.

Esta minha posição não representa uma atitude anticientífica. Mas entedia-me a tentação de absolutização, ainda que subreptícia, de uma coisa que só pode ser relativa e ter um significado relativo, pois é produto do espírito humano. Mas, note-se, o problema não está em retornar às velhas explicações criacionistas para contrapor a Darwin, ou ao cosmos ptolemaico-aristotélico em contraposição a Kepler e a Galileu. O problema é que talvez tenha chegado a hora de se começar a pensar na pós-ciência. Por vezes, interrogo-me que caminhos poderiam ser abertos por uma análise transcendental (atenção, à maneira kantiana) das faculdades humanas, agora porém iluminada pelos contributos da própria ciência, da neurobiologia, por exemplo.

Dir-me-ão: mas não será contraditório fundar-se na ciência a sua ultrapassagem? Eu respondo com duas perguntas: não foi na religião que se encontrou o fundamento da filosofia? Não foi na filosofia que se encontrou o alicerce que fez nascer a ciência?

Até esses?

Segundo o DN, o próprio aparelho do Partido Socialista tem reservas, um efectivo eufemismo, relativamente à proposta de "casamento" entre pessoas do mesmo sexo. Para dizer a verdade, o povo de esquerda, aliás como o de direita, não percebe a pertinência do assunto, ainda por cima com a economia a derreter-se aos olhos de toda a gente, os empregos a esfarelarem-se, as famílias a tremerem pelo dia de amanhã. O truque de Sócrates para distrair as pessoas e tentar roubar meia dúzia de votos ao Bloco de Esquerda se não causar estragos, pelo menos não terá o impacto que os spnin doctors que o conceberam imaginaram. Na prática, tirando meia dúzia de militantes da causa, ninguém quer saber do assunto. E isto significa, na generalidade, que não quer sequer que o assunto faça parte da agenda política. Que tal Sócrates, por exemplo, falar dos 150 mil empregos que prometeu criar?

12/02/09

Será obsceno?



Pelo contrário, eu não acho que se esteja perante uma coisa estúpida ou obscena, nem sequer desumana. Que haja alguém que consiga vender um litro de água a 100 contos é sintoma de inteligência. Já não ponho as mãos no lume pela inteligência de quem compra. Mas se não é inteligente, é pelo menos livre. Ele não é obrigado a comprar. Quando decidiu dar o dinheiro pela água, não foi coagido por ninguém. Portanto, se pagar a água... Também não acho que, neste caso, se esteja perante uma obscenidade desumana. Pelo contrário, estamos perante um puro acto de filantropia e amor à humanidade. Um tipo está cheio de dinheiro e não sabe o que há-de fazer com ele. Bem, decide dar 500 € por uma garrafa de um litro de água. Veja-se o valor acrescentado que essa água representa. O que significa isto? Que esses 500 € se vão distribuir por aí fora. Pelo proprietário do restaurante, pelos empregados, pela empresa de distribuição e seus empregados, pela empresa engarrafadora e seus empregados, etc. Por sua vez, estes distribuem a sua parte por outros ainda, consumindo outros bens. Eu sei que havendo fome, parece obsceno que alguém possa dar tanto dinheiro por um litro de água, mas esse gesto é, de facto, altamente meritório e consegue evitar que não sei quantas pessoas percam o seu emprego. Não é por isto que o capitalismo vai acabar, nem isto é sintoma da estupidez do mercado. De facto, se alguém deu 500 € pelo litro de água, ele valeu mesmo isso. Se ninguém der nada, então nada vale. O único problema que existe não se encontra aqui, mas no facto do mercado não ser suficientemente amplo para democratizar o acesso (há também o problema do trabalho ser entendido como mercadoria, mas esse é um problema bem difícil). Se houvesse muita gente a pagar 500 € por um litro de água, mais e mais pessoas teriam acesso ao mercado, comprando e vendendo. Mas isto sou eu a dizer, eu que não percebo nada de economia e apenas sigo um raciocínio lógico, e não tenho intenções de proselitismo a favor seja do que for, muito menos do capitalismo.

Aquelas imagens que passam

Edward Hopper - New York Movie (1939)


Aquelas imagens que passam
e a melancolia que há nos olhos
são um rasto de sombra no Inverno
ou a lenta queda de um grave.

Se fosse apenas ciência,
ainda poderia acreditar nos passos que oiço,
se ao longe ecoa o restolhar das folhas caídas.
Mas um simulacro de vida,
quem nele pode confiar?

Sento-me e deixo a escuridão correr,
como se a noite me visitasse
para anunciar a hora que vai chegar.

Abro os olhos, mas nada vejo.
Oiço-te a soletrar breves palavras
e todo o teu corpo me cheira a cansaço.

Cala-te, o filme acabou.

Mahler 2nd - Finale End - Simon Rattle/CBSO

The overwhelming close of Mahler's 'Resurrection' Symphony from a fantastic performance by The City of Birmingham Symphony Orchestra in '98. Soloists are Anne-Sofie von Otter and Hillevi Martinpelt.

A paz perpétua - Primeira Secção, § 6

Kant

«Nenhum Estado em guerra com outro deve permitir tais hostilidades que tornem impossível a confiança mútua na paz futura, como, por exemplo, o emprego pelo outro Estado de assassinos (percussores), envenenadores (venefici), a rotura da capitulação, a instigação à traição (perduellio), etc.»

São estratagemas desonrosos, pois mesmo em plena guerra deve ainda existir alguma confiança no modo de pensar do inimigo já que, caso contrário, não se poderia negociar paz alguma e as hostilidades resultariam numa guerra de extermínio (bellum internecinum); a guerra é certamente apenas o meio necessário e lamentável no estado da natureza (em que não existe nenhum tribunal que possa julgar, com a força do direito), para afirmar pela força o seu direito; na guerra, nenhuma das partes se pode declarar inimigo / injusto (porque isto pressupõe já uma sentença judicial). Mas o seu desfecho (tal como nos chamados juízos de Deus) é que decide de que lado se encontra o direito; mas entre os Estados não se pode conceber nenhuma guerra de castigo (bellum punitivum) (pois entre eles não existe nenhuma relação de um superior a um inferior). – Daqui se segue, pois, que uma guerra de extermínio, na qual se pode produzir o desaparecimento de ambas as partes e, por conseguinte, também de todo o direito, só possibilitaria a paz perpétua sobre o grande cemitério do género humano. Por conseguinte, não deve absolutamente permitir-se semelhante guerra nem também o uso dos meios que a ela levam. — Que os mencionados meios levam inevitavelmente a ela depreende-se do facto de que essas artes infernais, em si mesmas nunca convenientes, quando se põem em uso não se mantêm por muito tempo dentro dos limites da guerra, mas / transferem-se também para a situação de paz como, por exemplo, o uso de espias (uti exploratoribus), onde se aproveita a indignidade de outros (que não pode erradicar-se de uma só vez); e assim destruir-se-ia por completo o propósito da paz.
[Immanuel Kant, A Paz Perpétua - Um Projecto Filosófico]

Três (pequenos) poemas de Álvaro de Campos


POEMA I

Porra!
Nem o rei chegou, nem o Afonso Costa morreu quando caiu do carro abaixo!
E ficou tudo na mesma, tendo a mais só os alemães a menos...
E para isto se fundou Portugal!


POEMA II

Arre, que tanto é muito pouco!
Arre, que tanta besta é muito pouca gente!
Arre, que o Portugal que se vê é só isto!
Deixem ver o Portugal que não deixam ver!
Deixem que se veja, que esse é que é Portugal!
Ponto.

Agora começa o Manifesto:
Arre!
Arre!
Oiçam bem:
ARRRRRE!


POEMA TRÊS

Ora porra!
Então a imprensa portuguesa é
que é a imprensa portuguesa?
Então é esta merda que temos
que beber com os olhos?
Filhos da puta! Não, que nem
há puta que os parisse.

11/02/09

Jogos de linguagem


No Tempo das Cerejas, há um interessante post sobre uma reportagem que mostra os graves problemas de subsistência vividos por muitas famílias num condado do Estado de Oregon, nos EUA. Vítor Dias, o autor do blogue, chama atenção, porém, para um fenómeno curioso de manipulação da linguagem e, através desta, a manipulação da realidade. Assim, os responsáveis pela Agricultura convidaram os organismos governamentais, em 2006, a não empregar o termo fome para referir aquelas pessoas. As pessoas que não têm dinheiro para comprar a sua alimentação não passam fome, mas encontram-se numa situação de «muito fraca segurança alimentar». Eu diria, porém, que o problema mais grave não é o da ocultação da situação real das pessoas, a ocultação de que elas passam fome. O problema maior está na transformação da situação de carência (neste caso, fome é uma carência alimentar devido à organização social que produz a situação) numa situação de segurança. Não estamos perante um mero eufemismo para edulcorar a situação, mas perante uma mudança de jogo de linguagem, que oblitera a situação real das pessoas e focaliza a atenção numa outra coisa, no problema da segurança alimentar. Da segurança alimentar a mente rapidamente transita, por contiguidade, para a ideia de alimentação segura. O que será uma alimentação segura? Evitar que se comam certas coisas. Em última análise, não é fome o que as pessoas passam, pois acabam por comer demais ou comer coisas que não deviam. Elas são assim responsáveis pela dieta tão perigosa a que se entregam. Na linguagem não há inocências.

Na Venezuela, a democracia progride

Chávez pensa proibir a entrada de Lech Walesa na Venezuela. Qual o crime de Walesa? Disse o que pensava do governo Chávez. Como em todos os regimes populistas, Chávez confunde um ataque à sua governação com um ataque à Venezuela. No entanto, o que é sintomático não é a opinião de Walesa sobre a maravilhosa construção política venezuelana, mas o facto de Chávez, mesmo que não o venha a fazer, pensar proibir a entrada ao antigo presidente polaco. De certa maneira, é aquilo a que poderíamos chamar de progressão do espírito democrático.

10/02/09

Les Huguenots - duet - "Si j'étais coquette"

Dame Joan Sutherland as Marguerite de Valois and Anson Austin as Raoul sing a duet from act II of Les Huguenots by Meyerbeer. This is from Joan's last performance at the Sydney Opera House.

Perfilados de medo

O General Ramalho diz que existe um clima de medo crónico de criticar para não ser prejudicado e de arriscar. Por que razão será? Porque a nossa sociedade é constituída por gente muito dependente. A sociedade portuguesa é uma teia de gente frágil, onde alguns menos frágeis ditam o rumo que lhes interessa. Os portugueses não foram educados num espírito de independência e de amor pela liberdade. Veja-se o caso mais paradigmático de todos. O Partido Socialista nasceu como um grande partido da liberdade e de homens livres, de gente independente que afrontou o anterior regime e fez frente à possibilidade de uma nova ditadura vinda do outro lado do espectro político. Mas o que é hoje o Partido Socialista? Onde está aquele espírito dos heróis fundadores? Foi deglutido pelos profissionais da política, por gente que nunca afrontou nada de perigoso, por gente que pensa apenas nas suas carreiras. O Partido Socialista tornou-se num partido perigoso. As pessoas têm medo dele e ele dá-lhes razão e gosta de que as pessoas tenham medo. Quem se mete com o PS leva. Esta frase de um antigo dirigente mostra o espírito da coisa. Se o Partido Socialista se tornou uma agência de dominação, como não hão-de os portugueses, na sua miséria ancestral, não ter medo. Em Portugal, sabe-se muito bem quanto o poder é poderoso, como ele liquida a vida das pessoas, como os seus braços são como Deus, estão em toda a parte e cuidam de nós. Os portugueses foram treinados, e continuam a sê-lo todos os dias, para o medo e para a cobardia. E se levantam a cabeça, aprendem muito rapidamente que os olhos não se devem levantar do chão. O General, um homem corajoso, às vezes confunde-se. Perfilados de medo...

09/02/09

A vida amorosa

A SIC decidiu prendar o país com uma mini-série sobre a vida íntima de Oliveira Salazar. Independentemente da qualidade e da verosimilhança, o que ocorre perguntar é a intencionalidade da coisa. É provável que não se pretendesse mais nada do que explorar, para consumo popular e voyeurista, a equivocidade da vida sentimental do ditador. Mas estes projectos não são inócuos. Como é dito no Portugal dos Pequeninos, para estudar o Estado Novo e Salazar não é preciso a vida íntima de Salazar para nada. Mas o problema não é tão simples. Salazar sempre foi discreto em relação à sua vida amorosa e deixou transparecer uma espécie de castidade que legitimava a sua pertença à imaginária galeria dos heróis e santos varões que tinham feito de Portugal um imenso império. A gestão da sua intimidade não pode ser desligada nem da ideologia nem da forma como fazia política. Contudo, esta mini-séria da SIC não é a desmontagem de um mito, mas o sintoma de que os tempos mudaram. Se homens como Salazar e Cunhal eram mais ou menos secretos na sua vida amorosa, se os outros eram relativamente discretos, isso acontecia não apenas por uma questão de carácter, mas porque o tempo lhes exigia isso, porque a política era suficiente para concentrar o interesse público. O que se passa hoje em dia é uma alteração do interesse público. Este retraiu-se para a esfera da intimidade e as pessoas, treinadas pelos reality shows e por uma televisão sôfrega de episódios picarescos, apenas se interessam em espreitar para a suposta vida íntima das grandes personagens. O que este episódio televisivo mostra não é Salazar, mas a destruição do espaço público na nossa sociedade e o desinteresse geral que a política gera no mercado das emoções populares. A intencionalidade desta realização não é desmontar ou reabilitar a personagem do Professor Salazar, mas cimentar o novo espírito do tempo, o espírito niilista que toca em tudo e a tudo dissolve no acto de espreitar.

Façamos de conta

Muito bem, Mário Crespo. Façamos de conta, então. Façamos de conta que Portugal é um país. Façamos de conta que Portugal possui uma elite política. Façamos de conta que não nos faltam estadistas. Façamos de conta...

Filhos de políticos para a escola pública


Um amigo meu contou-me que, segundo lhe disseram, há no Brasil um movimento cívico ligado a professores do ensino secundário que exige que os políticos ponham os seus filhos na escola pública. Não sei até que ponto isto é verdade. Sei, no entanto, e apesar de considerar, como aliás esse meu amigo, a exigência demagógica, que é uma exigência justa. Em Portugal, todos os políticos do Partido Socialista, e já agora dos outros partidos também, deveriam tirar os seus filhos de instituições privadas e colocá-los na escola pública, que eles formataram e levaram ao lugar onde ela se encontra. Assim, os jovens nascidos dos nossos responsáveis políticos poderiam gozar dos benefícios das políticas educativas que os seus progenitores aprovaram para a plebe democrática. Fundamentalmente, deveriam ir para a escola pública político-descendentes que frequentam os colégios das grandes cidades. Querem apostar que muita coisa mudava imediatamente na escola pública?

07/02/09

Mais tarde

Edward Hopper - Morning Sun (1952)
Mais tarde,
o silêncio da luz veio
soletrar uma trégua
nas frívolas águas de Janeiro.

Que palavra terás para dizer?

Casas de tijolo,
as lágrimas sufocadas,
os lençóis intactos,
onde a noite descansou.

Que palavras terás para dizer?

As romãs estão maduras,
não há quem as colha.

Olho-te,
nesse abandono
com que o sol te ilumina,
e espero a tarde que vem
para atear a sombra
e roubar-te a seiva
que me há-de caber.

Pablo Neruda & Paco Ibáñez: Puedo escribirte los versos...

Pablo Neruda, "Puedo escribirte los versos más tristes esta noche"; Paco Ibáñez & Cuarteto Cedrón;Barbra Streisand, "The Prince of Tides" (1991)