30/10/08

A Ver o Mundo

Agradeço a todos os que têm estranhado esta ausência de novos posts no A Ver o Mundo e têm manifestado preocupação com este blogger. Nada de anormal se passa, apenas um certo cansaço, uma necessidade imperiosa de fazer uma pequena pausa. Em princípio, o A Ver o Mundo retorna no início da próxima semana. Muito obrigado.

23/10/08

Thomas Merton - A escuridão me basta

Para estes tempos de interregno do blogue: a escuridão me basta.

17/10/08

Gosto assim destas paisagens

Kazimir Malevich - Apples Trees in Blossom - 1904

Gosto assim destas paisagens
onde a presença dos homens
é uma ténue e delida sombra no horizonte:
casas e telhados
um pomar de macieiras são o rosto
daquele trabalho que traça
a fronteira onde os deuses já não vão.

Se de súbito uma ave cantar
recolhe a face e no silêncio da hora
deixa o deus murmurar.

Gershwin - Rhapsody in Blue

Jornal Torrejano, 17 de Outubro de 2008

On-line esta já a edição semanal do Jornal Torrejano. Para destaque foi seleccionada a reacção do CRC de Assentis, que referiu os subsídios em dívida, durante a cerimónia das Memórias da História. Refira-se ainda a passagem a independente do vereador do PSD, Nuno Santos, magna questão da política local.

No opinião, Acácio Gouveia que escreve A importância das associações de pais, Carlos Henriques, Quim, o melhor em campo, Carlos Nuno, Serviço nacional de socorro, Inês Vidal, (In)conveniente, este blogger, Porque se reformam os professores?, José Ricardo Costa, Andar aos papéis, Miguel Sentieiro, O Fintinhas, Santana-Maia Leonardo, Casamento da treta.

Acabou-se por esta semana. Daqui a sete dias haverá mais Jornal Torrejano e notícia dele, por aqui. Assim os deuses no-lo acordem. Bom fim-de-semana.

16/10/08

Se o crepúsculo chegar

Wassily Kandinsky – Cidade Antiga II - 1902

Se o crepúsculo chegar
com a seda da noite a envolver-lhe as mãos,
abrirei para ti os meus braços
e desenharei uma estrada de terra batida
e jardins de relva azul
e flores brancas como estrelas.

Não haverá o roncar das máquinas
que pelos rios de alcatrão cavalgam…
Apenas os teus passos virão
no encalço dos meus
e se a tua voz falar, ouvi-la-ei
como oiço agora repicar
ao longe o bronze dos sinos.

Tudo será então misterioso
e as palavras que teremos
na língua que será a nossa
voarão sobre os telhados e
deixarão cair sílabas pelos quintais
ou pequenas letras na
ramagem verde das árvores.

Tu, pelo inverno, sairás de casa
para as colher e com elas
atearás a lareira onde um
fogo de palavras vermelhas
incendiará o amor
nos cansados corações,
animais deserdados
pelas primeiras névoas outonais.

Albinoni oboe concerto D minor Movement 1

Limpar as mãos à parede

Alguém ainda se lembra quando a Europa era sinónimo de eliminação da pobreza? Os europeus ufanavam-se do esplendor do seu equilíbrio social. Todos sabemos que a Europa se expandiu, mas, apesar dessa sabedoria, é com amargura que se vê que europeus com trabalho, com trabalho, repito, que vivem, União Europeia fora, abaixo do limiar de pobreza são já 8%, para não falar dos desempregados e daqueles que já nem sequer para as estatísticas contam. Podemos começar a limpar as mãos à parede com o que fizemos nestes últimos 20 anos. Talvez seja a altura de recomeçar a pensar o equilíbrio social e a justiça na distribuição de rendimentos e encargos.

Interesses de Estado

A tortura da água? A história dos prisioneiros suspeitos de terrorismo é uma página negra na história americana e, por repercussão, na própria história dos países ocidentais. Eu sei que as razões de Estado justificam tudo. Mas as razões de Estado devem mover-se pela defesa dos interesses do Estado, órgão de decisão de uma comunidade politicamente organizada. O que é curioso na democracia ocidental, e isto é uma das coisas mais notáveis que ela possui e lhe dá superioridade, é que os valores éticos possuem eles próprios um valor político. Talvez, para a defesa dos interesses políticos do Estado americano e dos estados ocidentais em geral, seja mais importante a imagem de respeito pelos direitos do homem e dos prisioneiros do que as informações vergonhosamente obtidas sob tortura. Um Estado democrático que tortura é um Estado que se está a fragilizar e a pôr em causa os seus próprios e mais fundamentais interesses. Mas Bush e a gente que o rodeia conseguirão acompanhar a extensão do raciocínio?

Ressuscitar fantasmas

O juiz Baltasar Garzón ordenou uma investigação aos desaparecidos nos tempos do franquismo. Argumenta o magistrado que o caso se inscreve na esfera de competências da mais alta instância judicial espanhola e dá uma razão espantosa: na origem do conflito, em Julho de 1936, esteve um levantamento militar “ilegal”. A ser assim, se essa moda pega, em Portugal não faltarão julgamentos. A começar pelo levantamento ilegal do 25 de Abril de 1974, depois pelo 28 de Maio de 1926, pelo 5 de Outubro de 1910, pelas guerras liberais – também não estavam inscritas na ordenação jurídica do reino –, pelo 1.º de Dezembro de 1640 e, para encurtar razões, até ao 24 de Junho de 1128, quando Afonso Henriques, em S. Mamede, derrota as tropas de sua mãe. Por vezes, os juízes tentam julgar a história, mas o julgamento da história é apenas feito pela memória e pelos vencedores do momento. A história é uma soma de ilegalidades, a destruição da ordem vigente anterior e a instalação de uma nova ordem. Assim, até ao infinito. Se a justificação da legitimidade de abertura do processo é absolutamente risível, do ponto de vista histórico-político, esse não é ainda o seu maior problema. A democracia espanhola nasceu, cresceu e fortificou-se no silêncio dos cadáveres. Esse silêncio permitiu que as partes desavindas, há longas décadas, se aproximassem, que esquerda e direita convivessem no parlamento e na sociedade. Que esquerda e direita se sucedessem na governação. Toda a gente sabe que há muito ressentimento escondido, que o tempo diluirá. Mas também se sabe que não há ali ninguém que tenha as mãos limpas de sangue. Esquerda e direita mataram-se impiedosamente. As esquerdas (republicanos, socialistas, comunistas, trotskistas, anarquistas) mataram-se entre si. A direita terá assassinado mais, pois foi a vencedora. Mexer em cadáveres é ressuscitar fantasmas. E, nestas coisas, os nossos fantasmas são sempre melhores e mais vítimas do que os dos nossos adversários. Por vezes, é melhor para os vivos deixar os mortos em paz, mesmo injustiçados. Talvez eles próprios agradecessem.

15/10/08

Assim demoramos

Van Gogh – A sesta – 1889/90

Assim demoramos
nesta tarde azul
sobre a palha onde poisam
- leves pássaros de linho -
os sonhos verdes
onde dormimos.

Sonhamos os flocos de neve,
eles virão depositar a água fria
sobre o fogo de teu corpo,
para que minha mão
te incendeie,
no segredo da noite,
ao chegar.

Sonhamos campos de miosótis
e bandos de aves
brancas como margaridas.
Colho ali um ramo
e atravesso no céu azul
o largo oceano
para aos teus pés o deixar.

Sonhamo-nos deitados
na tarde de estio
e o teu sonho cresce
nas asas do meu:
águia branca sobre rocha negra
que pelas fragas sombrias
faz raiar no horizonte
o fulgor do meio-dia.

Leonard Cohen: The Stranger Song

Portugal 0 - Albânia 0

A cada jogo que passa, vejo confirmadas as minhas razões para não ter gostado da vinda de Carlos Queirós para a selecção (ainda bem que não veio para o Benfica). Há uma outra coisa que também se confirma: muitos dos resultados obtidos anteriormente devem-se a Scolari. Ele inventou um Portugal futebolístico que não existe. Nunca percebi o acinte que ele gerou em certas áreas. Antes, percebi demasiado bem. Queirós falhou no Sporting, no Real Madrid e está a falhar na selecção. Grandes resultados tem-nos como adjunto, no Manchester United, ou como seleccionador dos mais novos. Mas, diga-se em seu abono, também não tem à sua disposição a elite do futebol mundial que uma imprensa tresloucada vende para vender jornais. Scolari era mesmo especial, apesar das birras e do Ricardo.

O retorno do mouro?

Na Alemanha, as vendas do Capital, de Karl Marx, dispararam, em relação aos anos anteriores, e a expectativa é que continuem a crescer. Não se pense, contudo, que é o marxismo que está de volta. Este movimento de retorno a Marx inscreve-se na esfera dos eruditos. Não é o Marx que guia a acção e que conduzirá os homens ao paraíso, mas o Marx que se tornou um autor clássico. E como todos os grandes autores clássicos, e Marx é um grande autor clássico, é um mestre do pensamento, alguém que ajuda a pensar melhor e a melhor interpretar o mundo. É um Marx lido ao arrepio da sua célebre 11.ª tese ad Feuerbach: «Os filósofos limitaram-se até agora a interpretar o mundo de diferentes modos; do que se trata é de o transformar». Afinal, parece que é mesmo preciso continuar a interpretar o mundo. O velho Hegel sabia muito mais do que seu distante e belicoso discípulo.

Manifestações de professores

A FENPROF convocou uma nova manifestação de professores, para 8 de Novembro. O meu problema não está nos motivos da manifestação, mas na forma como o confronto com o ME tem sido travado pelas estruturas sindicais. Por outro lado, os movimentos independentes de professores já tinham agendado uma manifestação para 15 de Novembro. Mário Nogueira, da FENPROF, demarca-se desta última manifestação por, diz ele, ser anti-sindical. Mas estarão os sindicatos, perante os professores de mãos limpas? Oiçam os professores nas escolas e perceberão o modo com estes vêem os sindicatos. Resta-me uma ténue e risível esperança que, em tempos a vir, alguém repare no absurdo em que se tornou a escola portuguesa e rompa com o novo paradigma, para falar ao gosto de certa gente.

14/10/08

Pudera ver assim o céu azul

Van Gogh - Barcaças de carvão - 1888

Pudera ver assim o céu azul
e em cada partícula desse anil
saber o verde e o amarelo e o vermelho,
as mil cores que sobre a terra
a luz faz descer,
logo pintaria de branco as negras barcaças
e no lugar do carvão
levaria raparigas de saias largas
e cabelos ao vento.

Se as águas fossem bonançosas,
cantaríamos pela tarde fora
e eu beberia o vinho novo
que naqueles lábios o dia fermentou.
Se, sorrateira, a tempestade viesse,
armaria o velho cavalete
e onde o céu visse negro
o faria azul e no anil dos olhos
presos em mim eu provaria
o verde e o amarelo e o vermelho
que se escondem na noite sem fim.

Jacques Brel - Amsterdam

Os que se vão embora

Manuel António Pina fala de A grande evasão. Refere-se ao pedido de reforma de muitos e muitos professores. Julgo que o Ministério de Educação está feliz com o acontecimento. É muito provável que haja quem pense que a eliminação da geração dos mais velhos, daqueles que ainda souberam o que é uma escola, amainará os ímpetos dos de meia-idade e deixará campo aberto aos jovens professores que, livres dessas ideias estapafúrdias de que a escola é um lugar de trabalho, que os professores devem ensinar e os alunos estudar, farão crescer, no terreno – acho que é assim que falam –, as luminosas ideias das mentes ministeriais, que nos hão-de conduzir ao Olimpo da ignorância e da insensatez. Na próxima sexta-feira, no Jornal Torrejano, também falaremos desses professores que se vão embora.

A euforia das bolsas

A euforia voltou às bolsas. Parece que o maldito dinheiro do Estado tem animado, mundo ocidental fora, os génios sofisticados da bolsa, certamente adeptos da mão invisível e de menos Estado, ou de preferência Estado nenhum, ou quase. Mas o que cada vez me preocupa mais é mesmo o estado de euforia daquela gente. Parece que voltaram a ganhar muito dinheiro, mas quem o estará a perder?

Ser capitalista

A crise financeira tem pelo menos a virtude, não despicienda, de nos fazer sorrir. O governo português ameaça agora os bancos que não amortizarem as dívidas garantidas pelo Estado de os intervencionar, fazendo assim entrar o sector público no capital privado. O negócio não é mau. Se as coisas correrem bem, os bancos pagam ao Estado e amigos como dantes. Se correrem mal, o Estado entra no capital de um Banco que para estar morto só falta ser-lhe rezada uma missa pro defunctis. Cada vez mais acho que ser capitalista, do ramo da finança, não é nada mau. Bem me queriam atirar para um curso de economia, lá tinham as suas razões.