02/10/08

A minha desrazão

O Público escreve isto: “O Presidente do Banco Central Europeu (BCE), Jean-Claude Trichet, afirmou hoje que a actual crise financeira constitui um acontecimento “sem precedentes desde a II Guerra Mundial” e pediu uma maior cooperação dos países europeus para a enfrentar. “Nada no passado se assemelha ao que assistimos actualmente”, afirmou o líder da entidade central, em entrevista ao canal de notícias France 24, antes de acrescentar: “Os acontecimentos que enfrentamos são provavelmente os mais graves desde a II Guerra Mundial”. Não sei se estaremos a perceber o que se vai dizendo. Sinto muita comichão quando vejo em tão curto espaço duas referências à II Guerra Mundial. Parece que eu sou pessimista, mas gostava que o optimismo reinante me mostrasse a minha desrazão.

Sobre o acaso

«- Enganas-te quanto à escala do drama; reduzes-lhe as proporções. É por essa razão que desde há um ano abundas em pequenas vaidades e em pequenos escrúpulos, o que é a mesma coisa. Espero que isso tenha agora acabado. Em todo o caso, escuta-me bem, pois vou dizer-te coisas difíceis. E eis a primeira: não foi por acaso que nos encontrámos. O que poderá constituir o teu primeiro tema de meditação: o acaso não existe. Não é pelo facto de duas nuvens se aproximarem que o relâmpago salta, é para que o relâmpago salte que as nuvens se aproximam. Compreendeste?» [Raymond Abellio, Os Olhos de Ezequiel Estão Abertos]

01/10/08

O que serão as flores

Charles Courtney Curran - Garden Walk


O que serão as flores
quando forem apenas flores
em tua mão?

Um traço de luz, uma ilha escondida,
talvez uma página de assombro
na tarde desmedida.

O que serão as pétalas
quando forem apenas pétalas
em tua mão?

Uma nuvem, um astro no céu,
talvez uma lágrima de cristal
sob a sombra do véu.

O que serás tu
quando fores apenas tu
em minha mão?

Um anjo, uma égua alada,
talvez uma águia a cavalgar
pela noite incendiada.

O apóstolo Paulo


- O apóstolo Paulo tinha um emprego oficial?

- Não. Paulo não tinha emprego oficial.

- Tinha acaso uma outra maneira de ganhar muito dinheiro?

- Não, não tinha nenhuma maneira de ganhar dinheiro.

- Era, ao menos, casado?

- Não, Paulo não era casado.

- Mas então Paulo não era um homem sério?

- Não, Paulo não era um homem sério. [Kierkegaard]

Santana Castilho - O Magalhães, o porco e o Sócrates (o outro)

Sobre o Magalhães (refiro-me ao computador português feito no estrangeiro) já se escreveram muitos e interessantes comentários, uns a favor e outros contra. Tudo visto, parece-me que resta uma generalizada (mas para mim preocupante) aceitação da medida. Ouviram-se escolas e professores sobre a iniciativa? Não, porque por elas pensa a ministra, para quem o Magalhães constitui "o instrumento principal da democratização do ensino"; ponderou-se o impacto que a tecnologia tem na melhoria do aproveitamento escolar dos jovens, analisando estudos disponíveis sobre a matéria, que concluíram pela sua irrelevância? Não, porque o coordenador do Plano Tecnológico já disse ao que vai: dois alunos por computador em 2010!Dou de barato não saber que critérios presidiram à escolha deste computador e não de outro, da Intel ou da empresa de Matosinhos, e simplesmente não engulo a fantasia da ausência de custos para o Estado. Mas o que acho verdadeiramente preocupante é a generalizada adesão ao culto duma modernização pacóvia, que tudo resume ao mero mercantilismo (e não utilitarismo, como muitos impropriamente referem o conceito que, enquanto teoria filosófica, é coisa bem diferente). A formação sólida, que constitui a missão da Escola e dos professores, deve assentar numa clara hierarquia de valores: primeiro o conhecimento puro, depois o instrumental. Mas o que se tem feito ultimamente é a secagem das actividades cognitivas, substituindo-as pelas meramente instrumentais. Foi assim que se trocaram clássicos da literatura por textos ditos pragmáticos (simples formulários, notícias jornalísticas ou mensagens publicitárias) e se preferiram as actividades conducentes à aquisição de "competências" em detrimento das actividades de forte componente cognitiva. Foi assim que se enfraqueceu o ensino da Gramática, da Filosofia e da História e se reforçaram iniciativas híbridas ("área projecto" e "estudo acompanhado"). Surpreendente? Não, se tivermos em vista que quem decide são tecnocratas deslumbrados pela tecnologia e convencidos que os "bichavelhos" são suficientes para educar o povo.Parece-me evidente que há mais gente satisfeita com este bodo de Magalhães a eito que gente insatisfeita e ciente, como eu, de que as crianças do ensino básico não vão aprender melhor a ler e a interpretar o que lerem por causa dos computadores; ou de que não aprenderão mais cedo e melhor a Matemática fundamental por via do Magalhães; ou de que não se iniciarão precocemente na actividade de pensar e perceber o que as rodeia, por via do portátil. E é aí que reside o problema: fornecer tecnologia sem cuidar da literacia que a permite utilizar é drasticamente pobre. O impacto da componente cognitiva do ensino só pode ser comparado com o da sua vertente instrumental por quem conhece as duas e tem do exercício profissional uma autoridade que os tecnocratas desprezam. O tecnocrata é por norma e por formação pouco sólida um fanático da tecnologia, que com ela se satisfaz e nem sequer aprende com a natureza efémera de tantos projectos tecnológicos (lembram-se do ensino assistido por computador, do Minerva, do Nónio, das Cidades Digitais e do endereço electrónico para cada português, entre outros?). Stuart Mill referiu-se assim a esta questão fundamental do pensamento e da natureza humana:"É indiscutível que o ser cujas capacidades de prazer são baixas tem uma maior possibilidade de vê-las inteiramente satisfeitas; e um ser superiormente dotado sentirá sempre que qualquer felicidade que possa procurar é imperfeita. (...) É melhor ser um ser humano insatisfeito do que um porco satisfeito; um Sócrates insatisfeito do que um idiota satisfeito. E se o idiota ou o porco têm opinião diferente, é porque apenas conhecem o seu lado da questão. A outra parte da comparação conhece ambos os lados..." [Público, 01 de Outubro de 2008]

Sob o princípio da irresponsabilidade

A vida não deixa de ser irónica. Há dez anos atrás alguém imaginaria ver um primeiro-ministro russo dar lições de economia e de resolução de crises económicas aos americanos? Não há quadro mais claro da humilhação americana do que as palavra de Vladimir Putin: “Não é tanto a irresponsabilidade de pessoas em concreto, mas sim a irresponsabilidade do sistema que, como é de conhecimento público, tenciona ser líder mundial”. Assim, da irresponsabilidade da regulação económica Putin passa e torna clara a irresponsabilidade na gestão dos negócios políticos mundiais.

30/09/08

Tão ínfima a esperança, o mar a esconde

Charles Amable Lenoir – A dance by the sea

Tão ínfima a esperança, o mar a esconde,
e tamanha a luz que meus olhos vêem.

Não fora o vento, e um véu de palavras
cobriria o teu corpo e seriam folhas
e penas e restos de jornal:
da avidez do olhar te roubariam.

Mas o deus veio e com as suas flautas
acordou a brisa que corre,
e como se fosse um rio levou-te,
na melancolia da tarde,
de minhas mãos surpresas
para o silêncio que desagua
numa dança de gaivota
ao cair no mar.

Do nosso parentesco

De todo o ente existente, o ser vivo é provavelmente para nós o mais difícil de pensar, pois ele é, de uma certa maneira, o nosso parente mais próximo e ao mesmo tempo está separado por um abismo da nossa essência ek-sistente. Em troca, poderá parecer que a essência do divino nos seja mais próxima que esta realidade impenetrável dos seres vivos; compreendo por isso: mais próxima segundo uma distância essencial, que é como distância, todavia, mais familiar à nossa essência ek-sistente que o parentesco corporal com o animal, de natureza insondável, dificilmente imaginável [Heidegger, Lettre sur l'humanisme].

Madredeus "O Pastor" (Live)

Tranquilidade

Percebo, um primeiro-ministro não pode fazer outra coisa, mas que garantias pode José Sócrates dar daquilo que diz? Será que os portugueses com poupanças podem estar tranquilos? E os muitos portugueses que não têm rendimentos nem para ter poupanças, também podem estar tranquilos? Diz, o primeiro-ministro, que a culpa é dos americanos. Claro, mas os europeus, coitados, nunca alinharam em nada daquilo, nem fizeram proselitismo dos novos tempos da economia mundial. Mas para que serve culpar agora os americanos? O importante é compreender até onde vai a interdependência das economias. Tranquilidade? Mas não é quando o mar está mais tranquilo que ele é mais perigoso?

29/09/08

Tão longe te levam os sonhos

Friedrich von Amerling - In Traumen Versunken

Tão longe te levam os sonhos
e tão serena pousa a mão
sobre o véu que ao pensar cobre.

Não é Deus que está em teus olhos
nem a fímbria da tarde
ou um bando de aves a esvoaçar
sobre os plátanos de Abril.

Se orasses, a que deus pedirias auxílio
para o leve estremecimento
que em teus lábios espreita?

Houvera um deus das tempestades
e tudo em ti clamaria
para que, por ardil ou maldição,
do vento bonançoso fizesse
ventania e vendaval e furacão.

Chick Corea & Gary Burton Duet - Monks Dream

Da essência da leitura [à maneira de Borges e para a m/amiga Gláucia Campregher]

Em novo lera muitos livros, mas chegado aos trinta anos descobrira que tanta informação pouco ou nada o fizera aprender. Decidiu, então, ler um só livro o resto da vida, mas lê-lo continuamente até descobrir o segredo que lá se ocultaria. Hesitou. Talvez a Bíblia devesse ser o livro escolhido, ou o D. Quixote, porventura a República. Por fim, elegeu a Ilíada. Ao fim de dez anos, sentiu que ainda assim havia excesso de palavras e o progresso na aprendizagem era pouco. Decidiu que apenas leria, mas leria total e completamente, o chamado catálogo das naus. E assim fez durante outros dez anos. No dia do quinquagésimo aniversário a razão segredou-lhe que o melhor seria apenas ler um e só um verso. Aí não teve dúvidas. Escolheu o primeiro da Ilíada, pois nele está já contido todo o poema. Dia após dia, mês após mês, ano após ano, lia ininterruptamente: «Canta, ó deusa, a cólera de Aquiles, o Pelida». Quando fez oitenta anos, já há vinte, de manhã à noite, que apenas lia uma palavra: «cólera». A morte surpreendeu-o pela tarde luminosa de um dia de Junho. A face mantinha o sorriso de quem aprendera a suavizar o coração. A boca, porém, diz quem o viu, continuava a dizer pausadamente có-le-ra, có-le-ra, có-le-ra…

Pobre escola portuguesa

A FENPROF pede reunião urgente com a ministra da educação (Público). Alega o clima de mal-estar que se vive nas escolas, a pouca disponibilidade que os professores têm para o ensino. Independentemente das culpas da FENPROF em muitas das idiotices que caíram, ao longo dos anos, na escola portuguesa, a central tem, neste caso, quase toda a razão. A que lhe falta reside na pressuposição de que a ministra e o seu ministério estejam preocupados com o clima das escolas ou com as efectivas aprendizagens dos alunos. Não o estão, como todos nós o sabemos. Apenas esperam que chegue ao fim a legislatura, para se livrar do fardo que criaram. Nem sequer são eles que vão a votos, mas o engenheiro.

Uma questão de segurança

As pedras maiores são normalmente colocadas sobre as sepulturas dos mais ricos, pois é de temer que invejem a herança aos descendentes e tentem recuperar o que perderam. Os pesados blocos colocados sobre eles por segurança são, naturalmente, com uma astúcia ilusória, disfarçados de monumentos de uma profunda veneração. É significativo que seja desnecessário fazer tal despesa quando desaparece um dos nossos irmãos mais humildes que à hora da morte, provavelmente, não tem mais nada a que possa chamar seu além do fato que o amortalhou, pelo menos foi o que pensei enquanto, das filas de sepulturas mais altas, contemplava o cemitério de Piana e as coroas prateadas das oliveiras para lá do muro, até ao Golfo de Porto que reluzia ao longe [Sebald, Campo Santo].

Presunções

Nunca conheci homem mais presunçoso do que eu próprio, e o ser eu a dizê-lo mostra que é verdade o que eu digo.

Nunca pensei que alguma coisa tivesse que ser alcançada, sempre pensei que já a tinha. Se me tivessem posto uma coroa na cabeça, eu teria pensado que não havia coisa mais natural... [Goethe, Auto-Retrato]

28/09/08

Trazem nos olhos um voo de gaivotas e

Sophie Gengembre Anderson – Birdsong

Trazem nos olhos um voo de gaivotas e
por isso repousam em suave quietação,
levemente tocadas pelo vento,
enquanto um ar de assombro desenha
mapas de urze sob a capa do sentimento.

Ainda não choram,
pois trazem toda a inocência
na nudez daqueles pés tão leves,
à terra mal a tocam.

Mas quando o corvo vier
e o canto dos pássaros vespertinos
se tornar em vermelho grasnar,
não haverá gaivotas que em voo
aos olhos possam serenar.

Atahualpa Yupanqui - Alazán

Da muita música, de incidência política, que se ouvia nos anos quentes da década de setenta, a de Atahualpa Yupanki, pelo menos para mim, nunca perdeu o encanto. Muita da outra não era música, mas a de Yupanki, sim. Depois, há esse cruzamento estranho entre a nostalgia poética e a própria voz do artista. Ainda hoje, por vezes, oiço os discos de Yupanki e sinto um certo reconforto espiritual.

Atahualpa Yupanki y Borges- El Legado (Extracto 5)

As histórias cruzadas de Borges e de una paisanita iletrada, vizinha de Yupanki, são uma belíssima lição sobre a relação do homem com o mundo. A voz profunda e grave do músico argentino, a voz de um grande narrador, ajudam a tornar verosímil a lição moral que as habita.

Ah, este vazio!


Ah, este vazio! este vazio que sinto no peito! Muitas vezes penso, se pudesses uma vez, pelo menos uma vez, tê-la nos braços, bem junto ao coração, como este vazio ficaria ocupado... [Goethe, A Paixão do Jovem Werther]

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Hoje o jovem Werther apenas poderia dizer assim:

Ah, este vazio! este vazio que sinto no peito! Quantas vezes a tive nos braços, bem junto ao coração e como este vazio me consome o coração e o ocupa...

Em pouco tempo, considerando o devir da História, passámos da ilusão romântica à desilusão. O vazio, porém, ficou.