17/06/08

Sulcos breves, pedras

Sulcos breves, pedras
há no etéreo olhar
com que fitas, só,
tão cansada e triste,
deslumbrada e pálida,
tudo o que a vida,
com luz desmedida,
rouba quando prá
morte então caminha.

Jorge Carreira Maia, Pentassílabos, 2008

Michael Nyman Band - Water Dances: Stroking

A crise nos transportes

A grave crise do petróleo está gerar greves de camionistas um pouco por todo o lado. Os acontecimentos, contudo, são capazes de encerrar uma outra lição não muito agradável para as empresas de transporte e para os camionistas. O transporte de mercadorias tem passado essencialmente pela rodovia, mas todos estes acontecimentos não estarão a obrigar a uma mudança de paradigma? Por exemplo, a ferrovia e o transporte marítimo e fluvial, onde for possível, não poderão dar uma resposta mais eficiente, até ao nível ecológico, às necessidades de circulação das mercadorias? Até quando será viável e desejável ter as estradas sobrelotadas com camionetas de grande tonelagem? Os tempos de crise são sempre tempos muito propícios a respostas que pareciam não estar inscritas na realidade. Será o caso dos transportes?

O assalto dos incobráveis

A imaginação nunca falta à nossa gente. Agora uma organização esotérica que dá pelo sacro nome de ERSE (Entidade Reguladora do Sector Energético) propõe “que os custos com as facturas incobráveis passem a ser partilhados por todos os consumidores de electricidade.” (Público) É como se todos os que comem pão tivessem de pagar os calotes que alguns fazem na padaria. Seja como for, acho a proposta de uma profundidade inusitada. Abre-se assim o caminho para que todos os consumidores se tornem consumidores cujas facturas são incobráveis.

16/06/08

A viagem tem

A viagem tem
um sabor de cal
quando vou por ti,
na rua, deslumbrado.

Oiço então os pássaros
que o Inverno traz
e no seio da terra
logo se escondem.

Vejo-os vivos, pálidos,
infelizes mármores
que da pedra foram
por tuas mãos libertos.

Cantam livres do
coração que assim,
com tão doces modos,
em mim os prendeu.

Jorge Carreira Maia, Pentassílabos, 2008

O amigo petróleo

O petróleo nunca nos desilude, sempre em boa forma, record atrás de record. Hoje quase chegou aos 140 dólares o barril. A desculpa é o incêndio numas plataformas lá para a Noruega. Qual será a próxima? As vacas estão cada vez mais magras, como diria o outro se ainda houvesse Conversas em Família.

O desvario tecnológico

O objectivo do governo, para a educação, é agora colocar Portugal entre os “cinco países europeus mais avançados na modernização tecnológica dos estabelecimentos de ensino” (Público). Há uma coisa que os governos portugueses sabem fazer: gastar dinheiro que não lhes custou a ganhar. A tresloucada ambição de equipar as escolas com alta tecnologia é exactamente igual ao projecto de dotar o país com 10 estádios moderníssimos, no último europeu. Qual foi o benefício social da ambição? O problema da educação em Portugal não está na falta de equipamentos, mas na falta de vocação dos alunos para estudar e dos portugueses para darem importância ao que tem realmente importância. Entrámos no delírio eleitoral.

Obscenidades europeias

Não há nada de mais obsceno, no panorama político europeu, do que uma certa campanha de intimidação da Irlanda. Dessa campanha faz parte a extraordinária ideia democrática de a pôr fora da União Europeia. Isto mostra bem o que vai na cabeça de certos democratas e liberais. Não acharão surpreendente que o único povo que foi autorizado a pronunciar-se sobre o magnífico Tratado de Lisboa o tenha rejeitado?

Esbjorn Svensson Trio - Dodge The Dodo

Ao abrir o Público on-line, deparei-me com a notícia da morte do pianista de jazz Esbjörn Svensson, o líder do E. S. T. O pianista sueco era um dos músicos de jazz europeus mais interessantes e influentes.

15/06/08

Sem alma se torna

Sem alma se torna
a vida que imita
passados de glória
com restos de palha,
roseiras feridas,
ardis sem história.

Jorge Carreira Maia, Pentassílabos, 2008

Robert Wyatt - Sea Song

É verdade, gosto disto, quero dizer de Robert Wyatt e também dos Soft Machine. Não é todos os dias, mas uma vez por outra...

Robert Wyatt - Sea Song
Colocado por robojames

Exames e sexo dos anjos

O Público de hoje decidiu discutir, a propósito dos exames nacionais, o sexo dos anjos. Consta que alguns “especialistas alertam para "efeitos perversos" das provas nacionais”. Algumas das luminárias acusam os professores de prepararem os alunos para exame. Esta é uma discussão que não tem resolução, tal como a discussão em torno do sexo (agora dir-se-ia do género) dos anjos. Os exames existem para aferir socialmente as aprendizagens e denotam a necessidade do sistema prestar provas do que faz. Se a sociedade tivesse uma confiança absoluta no que é feito nas escolas, os exames seriam, em princípio, dispensáveis. Um dos argumentos contra os exames centra-se na ideia de que há saberes e competências, como agora é moda dizer, que o exame não avalia. Mas o problema não está na ideia de exame e de prestação de provas, mas na forma e na qualidade desses mesmos exames. Mas uma coisa que os defensores da abolição dos exames não conseguem fazer é a demonstração de que os alunos saberiam mais se não houvesse exames.

Restaurante Famado - Vale de Urso

Passear pela zona sul das Aldeias do Xisto, visitar a Figueira e a Foz do Cobrão, respirar o ar puro do pinhal. Muito bem, tudo muito ecológico e saudável, mas onde comer? Aqui a solução é Vale de Urso, uma aldeia junto a Proença-a-Nova, na Estrada Nacional 233. Não desespere se não encontrar indicações em Proença. É preciso não esquecer que estamos em Portugal. Mas vale a pena ir até lá? Se estiver por aqueles lados nem vale a pena hesitar, o Famado é um restaurante bastante simpático, com serviço eficiente, uma atenção discreta do gerente, o qual sabe muito bem o que está a fazer. Comi lá uma das melhores sopas de peixe da minha vida. Há um mistério, para mim, irresolúvel: por que razão é que as sopas de peixe são tanto melhores quanto mais nos afastamos da costa? O segredo, diz o gerente, está na qualidade dos vegetais usados, nomeadamente o tomate, tudo produto local. E dos temperos, claro. Depois, experimentei o “plagaio” com batata frita e legumes cozidos. E o que é o “plagaio”? É um enchido da zona de Proença-a-Nova, com farinheira e entrecosto. Não sendo tão bom quanto a sopa de peixe, é um prato curioso e que merece boa nota. Excelente é a tigelada que se pode comer como sobremesa. Diferente da de Abrantes, esta é enriquecida com mel e canela. E que beber? Experimentou-se um tinto beirão da Adega Cooperativa do Fundão, o Fundanus Prestige, de 2003. Um vinho exuberante, com um belo aroma, a pedir para ser aberto bem cedo e arejado. Um vinho ainda com muita vida pela frente. É a prova de que se encontram coisas interessantes feitas pelas adegas cooperativas. Ir a Vale de Urso não é uma perda de tempo.

Na zona do Pinhal Interior

A crise europeia

Segundo o Público (sem link permanente), aumenta a pressão para que a Irlanda faça um segundo referendo. No Sol, um ministro alemão diz que o resultado do referendo irlandês não deve ser sobrevalorizado. Estamos já perante a estratégia que pretende fazer desaparecer as regras do jogo. A batota parece ser o caminho escolhido pelas elites políticas europeias para impor uma constituição. A verdade, porém, é que a democracia está a desaparecer assim como o que ainda resta da credibilidade das classes políticas europeias. A crise da Europa não se deve ao «não» irlandês. Ela está concentrada no conjunto de inutilidades que tomaram conta do poder na Europa, com Durão Barroso à cabeça.

13/06/08

Passado, passaste

Passado, passaste
tão rápido, sombra
delida e impressa
na boca feroz
do tempo. Ó ruína
que fazes de mim
fantasma dolente
a vogar por pedras
e casas despidas
de gente. Caminho
entre arcos, caminho
por ruas despidas,
sem vida, e aspiro
as nuvens de cinza
que se abrem além.
Esqueço então
os nomes, as horas,
aquilo que amei,
esqueço-me a mim
e aquilo que fui.
Apenas recordo,
se o faço então,
as horas perdidas
nas águas serenas
a olhar o teu rosto
que, preso no meu,
da vida se afasta
e acorda feliz
no porto de júbilo
onde sopra gélido
o vento da morte.

Jorge Carreira Maia, Pentassílabos, 2008

Sonny Rollins Trio - St. Thomas 1959

Para começar o fim-de-semana, a coisa nem está mal. Uma fina ironia corre o "texto" musical de princípio até ao fim.

Jornal Torrejano, 13 de Junho de 2008

Já nas bancas e on-line está o Jornal Torrejano. Para primeira página é “puxado” o custo do aluguer da ponte militar. O Município já pagou 180 mil euros. Referência para subida do Monsanto, do vizinho concelho de Alcanena, à segunda divisão nacional. Curiosidade: a aldeia só possui 700 habitantes. Saliente-se ainda o êxito do Festival de Folclores da Lamarosa. É assim a vida na província.

Na opinião, comece-se como é hábito pelo cartoon de Hélder Dias. Depois, José Ricardo Costa escreve A las cinco de la tarde (afinal, não estou só com o meu gosto de touradas. Belo texto, Zé. O pessoal de filosofia começa a tornar-se suspeito), Santana-Maia Leonardo, O peso do chumbo, Jorge Salgado Simões, Também em defesa do touro bravo (ó Jorge, não havia necessidade…), Carlos Henriques, Com o pé direito, e este blogger, O nosso atraso.

Para a semana mais haverá, por Toutatis, desde que o céu não desabe sobre as nossas pobres e pouco úteis cabeças. Bom fim-de-semana.

Grande Sócrates

O génio político e o grupo de geniozinhos que tomaram conta do PS devem estar à beira de um ataque de nervos. Apesar da abulia em que continua a viver o PSD, o partido do senhor engenheiro apresenta apenas mais 1% de intenções de voto. Mas a extraordinária estratégia política de destruição das classes médias, levada a cabo pelo nosso condottiero, já conseguiu que PCP e BE se aproximassem dos 25%. Repito: quase um em cada quatro portugueses está disposto a votar acentuadamente à esquerda. Grande Sócrates.

(Barómetro Marktest)

Irlanda 1 – Sócrates 0

O génio político da casa parece que perdeu o jogo na Irlanda. Se há uma coisa que mostra a menoridade política de Sócrates é a recusa de referendar o Tratado de Lisboa, depois da promessa eleitoral de o fazer. Mancomunado com o Presidente da República e o bando de mediocridades que governa a Europa, Sócrates deu o dito por não dito. Tinha, na sua pequena cabeça, a garantia da entrada para a história como o homem do Tratado de Lisboa, aquele onde a soberania era trocada por sabe-se lá o quê. Azar mesmo é ainda haver, nalguns sítios, democracia. Os irlandeses, uns ingratos, cortaram cerce os sonhos de glória do pobre homem e devolveram à Europa um mínimo de dignidade. Nós precisamos da União Europeia, o que não precisamos é de batota, como aquela que suportava a aprovação do Tratado de Lisboa às escondidas. Por muito que custe a Sócrates, a Barroso e à corja de burocratas que domina de fio a pavio a Europa, os povos europeus ainda existem. E se querem ser europeus, também gostam de ser portugueses, ou franceses, ou irlandeses. A pergunta que fica, porém, é a seguinte: o que irão os burocratas e a elite política europeia inventar a seguir para destruir os Estados-nação europeus?