18/05/08

Combustões - Nada na vida é a brincar

É por isso que os homens são desiguais: há os que investem no trabalho, no estudo e na obra e há os que vivem na procura insaciável de divertimentos. Ouvi ontem um desses pedagogos do facilitismo e do "ludismo" falar sobre experiências pedagógicas revolucionárias, em escolas onde se aprende a brincar e brinca aprendendo e onde até os professores se transformam, eles também, em alunos dos seus alunos. Claro está, o pedagogo-demagogo era homem dos seus 60 anos, da geração do Não à Guerra, do Make Love not War e do cannabis. Nasceu no boom económico do pós-guerra, teve o Estado algibeiras-sem-fundo a alimentar-lhe as lutas e pedradas no campus universitário, as férias pagas, o primeiro emprego aos trinta anos, os anos perdidos na universidade paga pelos contribuintes, o "rendimento mínimo", as bolsas, hospital de graça, subsídio de desemprego ou mesada. Aquilo foram trinta anos de forrobodó. Agora, o Ocidente está pobre, mas eles não aprenderam a lição; pior, transformaram-se em líderes e dominam o Estado, o ensino, a saúde, a assistência social e a comunicação social, são amigos dos banqueiros, influenciam os governantes e vão, alegremente e a brincar, hipotecando o nosso futuro.

Quando cheguei à Ásia, inscrevi-me numa escola de línguas asiáticas adepta de tais brincadeiras. Claro, a instituição é americana e os senhores que dela vivem são naúfragos da geração de ouro. O lema inscrito no portal, flamejante como uma mentira, rezava: aqui não há testes nem avaliação; aqui brinca-se e é a diversão que ensina. Ao fim de três meses dei comigo a questionar-me sobre os resultados de tal pilhéria. Não havia aprendido nada e só me martelava a cabeça o dinheiro gasto e as horas diárias ali enterradas. Mudei. Em dois meses passei a falar com desembaraço uma língua asiática, não pelo método faz-de-conta, mas à custa de noitadas de vigília, gramática, exercícios de escrita e pronúncia, testes e exame final. O curioso de tudo isto é que sinto uma alegria incontida, uma curiosidade crescente pela língua desta terra na descoberta da sua inteligência, das suas subtilezas e até equívocos intencionais. O estudo - como qualquer empresa - custa, mas só deste sacrifício retiramos proveito pessoal que a sociedade retribui com o reconhecimento pelas canseiras. Moral da história: nada é a brincar, nem o jogo do Monopólio, que é cruel batalha pela posse do tabuleiro. Jogamo-lo com os amigos, com gargalhadas e um copo na mão, mas não deixa de ser uma frenética luta pelo sucesso !
[Combustões, 13 de Maio]
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Este excerto longo de um post do blogue combustões é uma belíssima e serena análise da realidade. Um dia destes falarei aqui, no A Ver o Mundo, de um dos blogues mais interessantes dablogosfera nacional.

17/05/08

António Manuel Couto Viana - Vista Geral da Ilha

Jorra da terra o impudor das águas
Para estreitas estradas coleantes
Que, tentadas pio abismo azul do mar,
Se abraçam à verdura das montanhas.

Aqui, o ibisco sensual, vermelho.
Além, a orquídea, a esterlícia, a acácia,
Acenos tropicais da bananeira,
Canas-de-açúcar adoçando o espaço.

Cimos de neve e espuma de onda morna.
Vergam-se vimes. Na videira, os bagos
São já licor bebido no aroma.

E em noite límpida as estrelas descem,
Salpicando de lumes latejantes,
A prolongar o céu pelas vertentes.

Arvo Pärt - Spiegel Im Spiegel


Monochrome Vivant
Colocado por foxart

Vivemos numa época interessante!

Não se trata de um lugar-comum tão inocente como possam imaginar, pois, tal como os Chineses, que atravessaram muitos períodos de desordem e violência semelhantes ao nosso, eu usaria a palavra interessante num sentido algo mordaz. Diz-se que, tradicionalmente, sempre que um sábio chinês desejava rogar uma praga fulminante ao seu inimigo limitava-se a dizer: «Que ainda venhas a viver numa época interessante!» Os Chineses sabiam que das coisas boas da vida poucas se podem consumar no meio de derrocadas morais e cataclismos políticos. [Lewis Mumford in Arte & Técnica]

O vento que varre

A tarde declina com uma luz ferida por raras nuvens e na copa das árvores vê-se o vento a correr sem mansidão. Suspeito deste vento que desce da serra e fustiga o que apanha pelo caminho. Dentro dele há um mistério, um segredo que a sua voz, por vezes tão ruidosa, sempre cala. O que diz o vento? Continua a soprar na lonjura das ruas, enquanto as nuvens cavalgam indecisas pela planície azul, o céu dizem. Às vezes, mas tão poucas, suspeito que ele quer varrer tudo à sua frente, como se fosse possuído por um demónio de limpeza. Não, não pode ser, os demónios amam, todos eles, a sujidade, a porcaria, e o vento que varre parece desejar um horizonte sem mácula. Talvez o vento seja um deus ou a voz de um deus que por nós chama, talvez. Mas quem, na azáfama dos dias, ouve a sua voz?

Manuel Maria Carrilho - Heróis do nosso tempo

O que me surpreende no vivo debate que entre nós se tem travado sobre o ensino é que ele gire tanto em torno de estatísticas, procedimentos e regulamentos da escola e tão pouco à volta de ideias, conteúdos e objectivos da educação.

Isto acontece, a meu ver, porque se têm acumulado diversos equívocos sobre a educação, a escola e o ensino. Equívocos que, em grande parte, têm bloqueado diversos impulsos reformistas nas últimas décadas.

A educação, é bom lembrá-lo, era já o que mais parecia querer mudar nos últimos tempos da ditadura, com Veiga Simão à frente do Ministério da Educação a abrir a frente da massificação escolar. E depois de 25 de Abril a educação foi regularmente apontada como o factor diferenciador e decisivo do regime democrático, como a resposta que se impunha ao nosso ancestral atraso e aos desafios dos novos tempos. Mas a aposta ficou-se pela massificação/democratização, com resultados que não nos tiraram da cauda da Europa.

Assim, sem uma forte visão estratégica que a orientasse, foram vários os equívocos que entretanto se abateram sobre o sector. Que atingiram a educação, cada vez mais desorientada pela multiplicação - quantas vezes contraditória - de objectivos que se lhe exigem. Que atingiram a escola, transformada numa instituição à qual (em consequência das crises da família, da autoridade, e outras) se pede soluções para tudo, sem se adequarem os seus meios e sem se avaliarem os seus limites. E que atingiram o próprio ensino, objecto de uma mutação radical que levou à desvalorização dos conteúdos, dos "saberes" a transmitir, colocando o aluno não só como criança ou adolescente mas também como cidadão, no centro de todas as preocupações.

Todas estas alterações ocorreram, todavia, num contexto civilizacional que importa ter em conta. Porque, por paradoxal que tal possa parecer, todos estes equívocos se têm intensificado no quadro da sociedade contemporânea, como Marcel Gauchet mostrou em análises notáveis. Por um lado, devido à bolha mediática que instaurou um paradigma que reformata tudo o que toca. Por outro lado, devido ao modo como se têm valorizado simultaneamente três exigências dificilmente compatíveis entre si: a do reconhecimento do mérito, a da igualdade de oportunidades e a da "obsessão" individualista.

A escola do Estado-Providência nasceu, em grande medida, justamente como resposta à tensão entre elas, procurando equilibrá-las. Mas o que por todo o lado aconteceu desde os anos 70 (num movimento que apanhou Portugal "em falso", entre o seu lastro pré-moderno e as suas ilusões pós-modernas) foi o crescente domínio do individualismo, que esfarelou o modelo educativo tradicional, sem propiciar qualquer alternativa.

A escola viu-se assim transformada. E de factor de conquista de uma ambicionada igualdade de oportunidades - que era o principal tópico legitimador das "políticas" da educação -, ela passou a ser sobretudo e cada vez mais um espaço de expressão da igualdade entre cidadãos.

Esta mudança veio também consagrar novos objectivos, já não a aquisição de conteúdos formadores, mas o "desenvolvimento multifacetado" do aluno, que deverá simplesmente tornar-se capaz de - e a fórmula diz tudo! - "aprender a aprender".

Enquanto o ensino tradicional hierárquico visava a transmissão de conhecimentos, o ensino individualista e democrático aposta na aprendizagem, quantas vezes confundida com uma misteriosa espontaneidade de competências. No primeiro caso, o professor desempenhava uma função de indispensável mediação, no segundo ele tende a tornar-se num animador quase supérfluo.

Compreende-se assim que o maior equívoco seja aquele a que se chega no termo do processo, e que se pode sintetizar na questão formulada por M. Gauchet, quando pergunta se a introdução da democracia na escola não terá, na realidade, por efeito paradoxal, contribuído para a inviabilização da própria escola. Ou, dito de outro modo, que fazer quando todos reclamam educação, mas na realidade quase ninguém quer - e isso aparece cada vez mais como um direito - ser educado?

É que a possibilidade de ensinar depende estreitamente do estatuto, e da autoridade, que a sociedade reconhece não só aos saberes mas também aos professores, indispensáveis intermediários da mediação educativa, que nenhuma tecnologia consegue substituir (muito pelo contrário - sobre isto é confrangedor o que se diz por aí...).

A erosão daqueles factores deixa aos professores uma tarefa cada vez mais impossível. Daí que reconhecer neles os heróis do nosso tempo - no sentido em que eles enfrentam o que todos evitam - seja uma condição prévia para, simplesmente, tornar a educação viável. O que só acontecerá se ela assentar numa relação institucional, mas também pessoal, que por um lado garanta a efectiva transmissão de conhecimentos e, por outro, seja capaz de enquadrar as motivações pessoais num registo democrático que tem que ser reinventado.
[Manuel Maria Carrilho, Diário de Notícias, 17 de Maio de 2008]

16/05/08

António Manuel Couto Viana - Jau

Sou a tua presença, aos pés, calada, quieta,
O jau, com quem me identifico tanto
Nesta gruta onde estou e escuto o canto
Das cigarras que é, hoje, a voz do teu poeta.

António sou (tenho o teu nome)
E escravo, também, da poesia.
Para ela é que estendo, em cada dia,
A mão à minha fome.

Verdi - Nabucco


Nabucco Verdi
Colocado por paradixman

Os bispos católicos e as fraldas

Como se vem tornando público e notório, estou longe de ser um anticlerical militante. Pelo contrário, vejo a intervenção da Igreja Católica, em muitos domínios, como profundamente positiva e um oásis no deserto em que se vive. Confesso que a vetustez da instituição provoca em mim um imenso respeito. Mas aquilo que me espanta é a inocuidade de muitas posições que a hierarquia decide tomar e, ainda por cima, publicitar. Por exemplo, segundo o Diário Digital, “Os bispos católicos da União Europeia defendem a redução do Imposto sobre o Valor Acrescentado (IVA) em fraldas para bebés, nas cadeirinhas para os automóveis e produtos específicos de cuidados infantis”. Óptimo. Também estou de acordo. Mas os bispos julgarão que fazem parte de um sindicato? E julgarão que os europeus desatam a emprenhar as europeias só porque os governos decidem baixar o IVA das fraldas? Estarão convencidos que a questão demográfica se deve à falta de dinheiro? Não quero ser de intrigas, mas há qualquer coisa que não está a funcionar na comunicação entre os bispos e o Espírito Santo. Talvez se os bispos estivessem mais preocupados com a essência da cristianismo e a forma de o tornar acessível aos homens modernos, educados na autonomia da razão, fosse mais produtivo, cultural e religiosamente, do que estar preocupados com fraldas, carrinhos, preservativos e outro tipo de mundaneidades.

Cáspite, José Ricardo Costa

Estava eu entretido a ler o excelente, como sempre, artigo do Zé Ricardo no JT (obrigatório ler aqui), quando me deparo, depois de uma périplo pela metamorfose do Kafka, com esta frase: “Caramba, ainda que eu acordasse de manhã com um corpo de insecto seria o mesmo benfiquista de sempre.” Mas o que tem a frase assim de tão espantoso? Será acordar de manhã transformado em insecto? Não, pois já o sou desde que o PS ganhou as eleições com o meu voto. Não tenho o corpo, julgo, mas fui reduzido à essência do insecto. Então será a continuidade do benfiquismo? Também não, se ele resistiu já a tanta coisa, também resistirá à minha metamorfose insectívora. O que me siderou foi a interjeição caramba. Caramba!

Nós temos boas interjeições, mesmo pondo de lado aqueles palavrões ordinários que podem servir de interjeição. Apre!, Bolas!, são interjeições dignas de interjeitar seja o que for. São preferíveis ao uso de uma interjeição dicionarizada como porra, de feição mais vulgar. Caramba, porém, é mais sonora, prolonga-se no tempo, tem outra ductilidade. Mas aquela de que mais gosto e que me levou a este escrito, nunca a tinha ouvido até ontem, embora já a tivesse lido múltiplas vezes. Ontem, ao passar pela televisão, estava no ar uma telenovela brasileira, onde brasileiros falavam num português italianizado a fingir que eram italianos a tornarem-se brasileiros. No momento exacto da minha passagem, ouvi, em italiano, a minha interjeição : caspita, disse o ítalo-brasileiro. Foi uma revelação: lá está a minha velha amiga cáspite, da literatura do século XIX. Nimbado há mais de 24 horas pela luz do cáspite!, não pude deixar de constatar o que aquela frase, que tão bem descreve o estado daqueles que além de serem benfiquistas, votaram no PS e são professores, teria ganho se tivesse substituído a bamboleante interjeição «caramba», de dúbia origem castelhana, pela ríspida, mas cosmopolita, cáspite. Cáspite, que sou um insecto e continuo benfiquista. Cáspite, que votei no José Sócrates e ajudei-o a dar a mão à Maria de Lurdes. Cáspite, que o Valter Lemos é quem manda na educação. Cáspite, que não há pachorra para o Mário Lino. Cáspite, que o Alberto João não se candidatou à presidência do PSD. Cáspite, Zé, o teu artigo só não te leva já a professor titular porque trocaste cáspite por caramba. Cáspite, reavivemos esta digna herança italiana. Sempre que interjeitarmos, interjeitemos com cáspite! [Não há problema sobre aquilo que eu disse relativamente aos diversos membros do governo. Cáspite, para eles, é um champô para a caspa.]

PINTURA DE ABÍLIO PINTO VICTOR

Hoje proponho um blogue de um colega de escola. Abílio Victor é uma das figuras mais marcantes, ainda em actividade, da ES Maria Lamas. Engenheiro de formação (formado no Técnico, nada de confusões), professor de Física por profissão e vocação, tem despertado com o seu trabalho e exemplo inúmeras vocações para a área científica. Mas este homem tranquilo e cordato tem outras e intensas paixões: África, a sua paisagem, a sua flora e fauna, bem como a paisagem portuguesa. Como caçador, está profundamente ligado à natureza.

Mas é à sua pintura que o blogue PINTURA DE ABÍLIO PINTO VICTOR se dedica. A pintura de Abílio Victor não se inscreve nas tendências de vanguarda ou pós-modernistas. A sua tradição é o naturalismo marcado por uma forte veia científica. Nos quadros que apresenta, há uma combinação entre o etnólogo e o naturalista que representam com minúcia o objecto da observação. Devedora do conceito grego de mimésis, esta pintura regista o mundo no ínfimo detalhe com que ele se apresenta ao espectador/investigador atentos e ao paciente caçador. Uma pintura que liga África a Portugal, o Homem à Natureza. Para ir até lá, basta clicar aqui. Depois aguarde-se que novos quadros cheguem até ao blogue.

Jornal Torrejano, 16 de Maio de 2008

Mais uma edição on-line do Jornal Torrejano. Para primeira página vieram as contas da Câmara Municipal. Auditoria arrasa gestão de António Rodrigues, titula o JT. Na parte luminosa do jornal, porém, vem a sobre a subida dos Amarelos à terceira divisão nacional: CD Torres Novas Campeão distrital (valha-nos ao menos o Desportivo. Depois do brilhante 4.º lugar obtido pelo SLB, só faltava mesmo que os Amarelos não subissem ao nacional).

Na opinião, José Ricardo Costa escreve Manuela Moura Guedes, Jorge Salgado Simões, Air Fátima, José Trincão Marques, Alterações climáticas: o perigo e a inevitabilidade, ÉlioBatista, Blackout é estupidez!, Carlos Henriques, Benfica fora da Champions (o pessoal já sabia, escusavam de recordar a coisa) e este blogger, Brinquemos, então…

Assim acabou a notícia das notícias. Aguardemos que para a semana se possa de novo noticiar o Jornal Torrejano. Um bom fim-de-semana.

15/05/08

António Manuel Couto Viana - Meditação de Natal

Direi Natal este Natal?
Irás, meu Deus, nascer deste cansaço,
Desta carência d’alma com que traço
O meu ponto final?

Irás, meu Deus, uma vez mais,
Trazer-me a fé na vida, em meus irmãos?
Irei erguer pra Ti as minhas mãos,
Como noutros Natais?

E o cadáver da criança
Que no meu peito esfria e já demora
Irás ressuscitá-lo nesta hora
Pura, inocente, mansa?

Irás nascer deste cansaço
Pra que eu diga Natal este Natal
E não seja, afinal, ponto final,
Mas fuga no espaço?

Marianne Faithfull - Why d'ya do it (live)


A senhora, apesar da aparência ser uma enorme sombra do passado, parecia estar em grande forma...

Marianne Faithfull - Why d'ya do it (live)
Colocado por patvar

O rosnar da noite

Oiço o rosnar da noite ao cair sobre as avenidas indefesas. Por lá vão homens a correr, como se a chuva fosse a metralha de um bombardeiro inimigo. Nas entranhas da terra, uiva uma matilha de lobos inquietos e esfaimados. Quando a treva chegar, sairão à procura do festim. Quando voltarem, a boca ensanguentada, a noite expirará e a aurora sorrirá no horizonte, promessa enganadora que anuncia a cordialidade da manhã. Exaustos, os lobos bocejarão antes de adormecer. A luz toma então conta do mundo e os homens retornam ao desassossego do dia, como se a luz nunca mais morresse.

Obrigado, Eriksson

Não sei se Eriksson recusou ou se foi o Benfica que não pôde esperar pela situação contratual do sueco, como refere Rui Costa no Público. Seja como for, fico, como adepto benfiquista, agradecido a Eriksson por não vir. Chega de equívocos.

O que se esconde na avaliação burocrática de professores

Uma formação para professores avaliadores de professores, formação levada a efeito pelo Instituto Nacional de Administração (INA), tem sido objecto de comentário em inúmero blogues ligados aos docentes. Este pequeno acontecimento, que chegou a ter facetas picarescas, é relevante da tendência que percorre a escola portuguesa. Há um primeiro sintoma da realidade quando é o INA que leva a efeito este tipo de formações. O que significa isso?

Como já se sabia, a avaliação de professores é um instrumento meramente burocrático e que não visa a melhoria científica e técnica dos professores, mas aparentemente o controlo da sua ascensão na carreira. Dito de outra maneira, a avaliação dos professores visa apurar não os que são melhores professores, mas aqueles que são burocraticamente mais expeditos. Mas esta decisão não é o efeito de uma singularidade da senhora ministra da Educação, nem das gentes do INA. Ela inscreve-se numa concepção da realidade que convém perceber para descobrir o seu verdadeiro sentido.

Um dos pressupostos deste tipo de avaliações (e de formações) é que o conteúdo de uma determinada instituição, aquilo que ela faz, é irrelevante. Com ligeiras alterações, o que se aplica à avaliação de um hospital, de uma empresa de seguros, de uma companhia de bombeiros voluntários, de uma fábrica de preservativos, ou de uma escola, é essencialmente o mesmo. Concomitantemente, pouca diferença faz avaliar médicos, jogadores de futebol, operários da construção civil, ou professores. Estamos perante um puro formalismo da avaliação. Possui-se um esquema que se aplica, com uma ou outra alteração, a todas as realidades diferenciadas. Este esquematismo é assim um formalismo e um formalismo cuja estrutura é burocrática.

Esta estrutura burocrática deve ser pensada à luz do conceito weberiano de burocracia. Como se sabe, esta diz respeito à eficiência das organizações e é um dos traços sociais mais marcantes do século XX e também já do século XXI. Mas a razão burocrática esvaziou-se no puro exercício da busca da eficiência e anulou o conteúdo moral da razão. É uma razão que se desrazoabilizou ao tornar-se num elenco de normas que visam a eficiência. A razão é agora uma pura forma sem conteúdo.

O que significa esta forma sem conteúdo? Significa a indiferenciação. O esquema formal aplica-se, como se viu, a qualquer lado. Mas ele é incapaz de perceber a variabilidade da vida das instituições, a riqueza informal que emerge no contacto entre aqueles que nelas operam. Um projecto de avaliação fundado nestes princípios burocráticos tem pressuposto, independentemente da consciência que os actores e decisores têm dele, a uniformização dos avaliados. Apesar da retórica que fala na diferenciação para reconhecer o mérito, o modelo é um elemento absolutamente indiferenciador e visa tornar todos os actores idênticos ao modelo. Estamos perante um paradoxo: ao pretender-se um modelo de avaliação diferenciador a única coisa que se visa é a indiferenciação. Dito de outra maneira: tornar todos os professores idênticos ao modelo.

A indiferenciação dos actores está fundada na indiferenciação do conteúdo da instituição. O que interessa é a adequação dos actores ao conteúdo prescritivo do modelo e não ao conteúdo da função que desempenha a instituição. Daí ser possível que professores de Biologia possam avaliar professores de Matemática. No limite e em coerência com o modelo, um professor de Filosofia ou mesmo de Educação Física, ou mesmo alguém sem formação académica, poderia, se dominasse as normas do modelo, avaliar o professor de Matemática ou qualquer outro. A instituição escola já não tem conteúdo e como tal o que se avalia não é o domínio e a transmissão do conteúdo, mas a adequação comportamental do actor às normas impostas pelo modelo.

É na conjugação dos conceitos de modelo e de indiferenciação que podemos encontrar o novo sentido da escola portuguesa. O modelo é um conjunto de normas vazias – por isso podem ser aplicadas em qualquer situação –, as quais necessitam e ao mesmo tempo produzem a indiferenciação. Dito de outra maneira: o modelo indiferencia os conteúdos e reproduz, de forma cada vez mais intensificada, a indiferenciação, para poder subsistir. O que se poderá entender por indiferenciação. Esta não é um igualitarismo de diferentes, mas a aniquilação de toda e qualquer diferença. A diferenciação é o cerne da vida. Esta é múltipla e essa multiplicidade exige a diferenciação contínua como forma de a vida persistir. A indiferenciação é o retorno a um caos, a um vazio, o que está de acordo com a natureza do modelo.

Que “escola” é esta que está presente na nova forma de avaliação de docentes? É uma “escola” niilista. O que significa isso? Significa que não tem conteúdo, é vazia, que não tem vida, pois é indiferenciada. É uma “escola” onde o “nada” do modelo se aplica a assegurar que o “nada” não se torne em alguma coisa. É uma escola da morte.

Mas o que morre na escola niilista que nos foi dada a viver? Responda-se a outra questão: o que era a escola moderna? Era o lugar onde, nos Estados-Nação, se fabricava, através da transmissão de um currículo, a soberania pela disseminação da vontade de vivermos uns com os outros. A escola importada pelo actual governo visa a destruição ou a morte dessa escola anterior e concomitantemente da soberania. O que está em jogo não é apenas o destino dos indivíduos, professores ou alunos, mas o da função da escola: a produção de soberania. Porquê? Porque a própria soberania é já uma diferenciação relativamente a outras soberanias. Ao transformarmos professores, alunos (agora também submetidos ao modelo pela a acção dos professores) e conteúdos curriculares em magma indiferenciado, estamos a atingir o núcleo central da produção da soberania. A soberania é um exercício da vontade (a vontade de os indivíduos e de uma comunidade em ser soberanos). Ao indiferenciarmos, estamos a aniquilar a vontade dos indivíduos e, por essa via, a da comunidade. A única coisa que os indivíduos poderão querer é a conformação com o modelo vazio.

Na questão da avaliação de professores, tal como é agora concebida, esconde-se, então, uma pulsão de morte de uma comunidade, pois a instituição escola, que pela sua finalidade não era analogável a qualquer outra instituição, deixou de assegurar a sua missão. Agora, reduzida à sua nova função, ela deixou de ter o antigo préstimo. O seu conteúdo começa já a dissolver-se. Um cheiro nauseabundo paira nos ares e, ao longe, pressente-se o bater de asas dos abutres.

Suicídio e agonia

Segundo o INE, a população portuguesa entrou em crescimento natural negativo. No ano passado, houve mais óbitos do que nascimentos (Público). Desde 1900, é a primeira vez que isso acontece. Mário Leston Bandeira, presidente da Associação Portuguesa de Demografia, afirma que é “mais um passo no declínio”. Importa sublinhar, porém, que a novidade desta inversão da tendência não se deve a causas naturais, a grandes quebras espontâneas da natalidade ou ao efeito de epidemias. Deve-se pura e simplesmente a causas culturais e à decisão de os indivíduos deixarem de se reproduzir. É como se uma comunidade, tendo os meios para isso, decidisse suicidar-se lentamente e em prolongada agonia.

14/05/08

António Manuel Couto Viana - Voo doméstico

Daqui pràqui, dentro do território
Meu e conhecido.
Trânsito transitório,
Num céu pequeno e poluído.

Visibilidade nula
Só para os passageiros de passagem
Que o desconforto interior não estimula
A prosseguir viagem.

O voo é curto e o rumo é o chão da pista,
Longe dos jactos internacionais,
Sem torre de controlo que me assista
E avesso aos quatro pontos cardiais.

O elogio de Chavez

Segundo a Lusa “O presidente da Venezuela, Hugo Chavez, fez hoje elogios à "humildade" do primeiro-ministro, José Sócrates, em contraponto à chanceler germânica, Angela Merkel, que acusou de atirar pedras à América Sul.” É um facto que os nossos emigrantes na Venezuela e o petróleo valem a “humildade” de Sócrates. Mas o que saiu da boca de Chavéz não foi uma glória para Sócrates e o ataque à senhora Merkel está muito longe de ser uma nódoa no currículo desta.