17/03/08

A crise financeira

A crise financeira mundial tem a sua origem no desnorte que atingiu o mercado imobiliário norte-americano. Diz Alan Greespan que “esta crise fará numerosas vítimas, e o sistema de avaliação de riscos actualmente no terreno será particularmente afectado”. Talvez, mas o mais interessante será saber se a primeira vítima não é o próprio estatuto de hiperpotência dos EUA. Dito de outra maneira, a crise financeira não será mais um sintoma da rápida decadência americana?

16/03/08

Ricardo Reis - Odes - «O deus Pã não morreu»

O deus Pã não morreu,
Cada campo que mostra
Aos sorrisos de Apolo
Os peitos nus de Ceres —
Cedo ou tarde vereis
Por lá aparecer
O deus Pã, o imortal.

Não matou outros deuses
O triste deus cristão.
Cristo é um deus a mais,
Talvez um que faltava.
Pã continua a dar
Os sons da sua flauta
Aos ouvidos de Ceres
Recumbente nos campos.

Os deuses são os mesmos,
Sempre claros e calmos,
Cheios de eternidade
E desprezo por nós,
Trazendo o dia e a noite
E as colheitas douradas
Sem ser para nos dar
O dia e a noite e o trigo
Mas por outro e divino
Propósito casual.

Ricardo Reis, Odes

Antevisão do futuro da escola portuguesa

Modernização e totalitarismo

O discurso da modernização rompe com uma continuidade histórica, e a forma como o poder é levado a legislar sem cessar conduz à inversão da função da lei que, longe de ser um factor de estabilidade, é posta ao serviço de um movimento de adaptação destabilizante. As exigências da modernização respondem a um movimento histórico que parece igualmente sem fim. E todos aqueles que fazem valer a sua ligação à herança cultural, que entendem não se submeter, não adquirem o estatuto de inimigos objectivo que entravam o movimento [de modernização]? [Jean-Pierre Le Goff, La démocratie post-totalitaire, pp. 23]
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O movimento de modernização que atinge os países ocidentais tem duas características que se devem sublinhar: por um lado, o corte com a tradição, aquilo que Le Goff chama a herança cultural; por outro, a perversão da função das instituições tal como o homem as foi criando. Veja-se o caso da lei. Até aqui, a lei tinha a função de estabilizar a sociedade. Hoje, e o governo português é apenas um exemplo, a lei serve para criar dinâmicas de ruptura dentro da vida social. Em lugar da estabilidade, o que se pretende é uma mobilização sem fim que, aliada ao corte com a tradição, acabe por destruir em cada homem o significado da sua humanidade. O que está em jogo nos processos de modernização é apenas e só a destruição da humanidade, a passagem para um tempo pós-humano.

Poluição política

Segundo a imprensa, o comício de ontem do PS foi o pontapé de saída para uma longa maratona eleitoral em 2009. Mas será possível que ainda existam portugueses que dêem atenção a este tipo de coisas? Há muito que se percebe que esta forma de actividade partidária se deveria inscrever no âmbito das figuras mais funestas da poluição. Não se poderá arranjar um sistema de coimas para quem faça poluição política?

Jan Provost - Cristo en la Cruz


Siglos XV y XVI. Renacimiento, 1470. Óleo sobre tabla. 24 x 18 cm. Colegio del Corpus Christi. Valencia.

15/03/08

O silêncio da terra sombria – 21.

Tempo árduo o que espreita das ameias.
De cima, avistam-se os campos em volta,
a terra escalavrada, carcomida pelo estio,
um lago onde nascem bancos de areia,
barcos esmagados pelo peso da água,
a fortuna a rolar entre seixos.

Cansado, deito-me no vento da tarde
e entrego-me a um sono de ervas azuis
espalhadas nos interstícios do soalho.
Viagem após viagem o sol deixa um rasto
calcinado e o mundo, já morto, recompõe-se
na noite que galga as escadas do coração.

[Jorge Carreira Maia, O Silêncio da Terra Sombria, 1993]

Norma "Casta Diva", Maria Callas

Henry de Groux - Estudio para "El Cristo de los ultrajes"

Siglos XIX y XX. Modernismo, 1888-89. Óleo sobre lienzo. 115 x 87.5 cm. Colección particular. París. Francia.

14/03/08

O silêncio da terra sombria – 20.

Conheço a humildade da terra,
a doença que se abre à maturação dos frutos.
Dominado pela arquitectura do mundo,
entrego-me ao êxtase com o olhar cativo
e corro na luz fria e derramada
a clamar pelos favos que te adoçam
a boca imóvel na soberania da tarde.

Oiço então um brado claro,
uma voz esquiva debruada pela sede,
como se fora uma fonte de penumbra
ou a margem secreta do rio da infâmia.
Sobre o equívoco daqueles dias, cresceram
fogos-fátuos, atearam incêndios, escureceram
de terror o indecifrável vazio que te escorre das mãos.

[Jorge Carreira Maia, O Silêncio da Terra Sombria, 1993]

Stacey Kent - The Boy Next Door

Não nos equivoquemos

Se é verdade o que se diz aqui, que se está a convocar uma espécie de manifestação de professores para perto do comício do PS, no Porto, então anda alguém bastante enganado. Os professores não ganham nada com esse tipo de afronta. O governo e o partido que o apoia têm o direito às suas manifestações sem serem incomodados. O pior que pode acontecer aos professores é dar oportunidade ao governo de aparecer como vítima e campeão da liberdade. Não tenhamos ilusões, os professores são apenas professores, não são profissinais da política. Um passo em falso e os «spin» governamentais dão cabo da imagem dos professores em três tempos. Não nos equivoquemos.

Goya - Le Christ au Jardin des Oliviers

Siglos XIX y XX. Neoclasicismo/Romanticismo. Óleo sobre lienzo. 47 x 35 cm. Iglesia Colegio Escolapios de San Antón. Madrid. España.

13/03/08

O silêncio da terra sombria – 19. Clareira

Noite, furtiva clareira,
respiração que tomba
na dádiva aberta
ao silêncio da terra.
Sobre o teu rosto,
a pálida face,
caem as últimas violetas
ou um véu negro
suspenso na hera.

[Jorge Carreira Maia, O Silêncio da Terra Sombria, 1993]

Purcell - Dido and Aeneas

Entre passado e futuro

O conflito que atinge a área da educação em Portugal reflecte um conjunto de aporias que operam subterraneamente e, como não são reconhecidas, não são pensadas e muito menos solucionadas. Vejamos uma dessas aporias.

Ela diz respeito àquilo que a escola deve fazer. Durante muito tempo, era claro que a escola deveria transmitir um conjunto de valores sociais e cognitivos vindos do passado. O currículo era o depositário de uma selecção de valores que a comunidade, para persistir no tempo enquanto comunidade, entendia ser necessário transmitir às novas gerações. De certa maneira, a escola tinha uma função conservadora e estava ligada à autoridade daquilo que vem de trás. A confusão instala-se no momento em que as classes políticas deixam de visar, pela sua acção, a gestão do presente e pretendem criar o futuro e, através de engenharia social, fazer nascer o homem desse futuro.

É o rebatimento deste imperativo político sobre a escola que está a gerar a profunda desorientação que atinge todos os actores. Os valores do passado estão constituídos e podem ser trabalhados e ensinados. A dificuldade reside em transmitir o que não existe. A solução seria então, pensam no íntimo os políticos e os técnicos, não tanto transmitir valores cognitivas, mas uma atitude, uma atitude futurante, uma atitude que transforme todos os alunos em criadores do futuro, planificadores do que há-de vir, gente que pela sua iniciativa domesticaria o tempo que está para chegar.

O curioso é que os actores deste drama não percebem o sem sentido da sua pretensão. O domínio do futuro sempre foi um anseio da humanidade. Para tal, inventou coisas como a astrologia, ou a interpretação dos sonhos, ou o marxismo. Mas, em todos estes casos, o tempo riu-se dos homens e mostrou a puerilidade das suas pretensões. Olho para a ministra da educação e vejo-a tomada por uma fé, a fé de que, por um controlo técnico-burocrático, as escolas passarão a fabricar esse aluno que domesticará o futuro. Que ela não perceba a infantilidade da sua convicção torna tudo o que se está a passar não numa tragédia, mas numa comédia, numa risível comédia de enganos. Comédia porque o futuro é inapreensível e as construções do homem do futuro só têm por modelo aquilo que conhecemos desse futuro: nada.

Jacques Villon - The Crucifixion

Siglo XX. Vanguardias Históricas/Cubismo, 1930-1950. Color lithograph on Rives BFK. 64,1 x 47,6 cm. Museo de Bellas Artes de San Francisco. San Francisco. California. USA.

O jogo do gato e do rato

Qual vai ser a estratégia do Ministério da Educação no conflito com os professores? Fingir que não aconteceu nada. Como não aconteceu nada, os processos devem continuar conforme o estipulado, a vida decorre com toda normalidade, o que está está e não se fala mais no assunto. O facto de a generalidade dos professores achar inaceitável este processo de avaliação é irrelevante. Começou agora o jogo do gato e do rato. Veremos quem apanha quem.

12/03/08

O silêncio da terra sombria – 18.

Quando a viu
deu-lhe um nome
frágil como a terra

agora sulca o mundo
dia após dia
e espera ao vento
os frutos calcinados
pelo rancor do verão.

[Jorge Carreira Maia, O Silêncio da Terra Sombria, 1993]

Uma mal dada

Os americanos têm uma obsessão com o sexo e, nada melhor, para animar a sociedade, enquanto se espera a próxima vaga de tiroteios nas escolas, do que um bom escândalo sexual. Agora foi a vez do pobre Eliot Spitzer, saravá…, governador de Nova Iorque, a deixar o cargo ao ter sido apanhado com a boca na botija, salvo seja. Consta que o senhor, com um casamento sólido e tradicional, era um moralista político, adversário da corrupção e da prostituição. Ora foi apanhado pelo FBI a contratar e a desfrutar da companhia de uma acompanhante. Esta história é elucidativa do way of life daquele país que não é para velhos. Em primeiro lugar, um casamento sólido e tradicional parece não dispensar umas companhias, o que, por certo, tornará tudo mais sólido, menos insípido e, por certo, menos solitário. Depois, já sabemos, os moralistas americanos são o que são, têm hormonas como os outros e pronto. Quando as hormonas ladram a boca saliva e zás… Por fim, descobrimos também que o FBI não tem mais nada para fazer do que espreitar as acompanhantes e aqueles que as acompanham. A única coisa que me ocorre dizer é que o senhor Spitzer, saravá…, deve achar que nunca deu uma tão mal dada.