11/02/08

António Ramos Rosa - III A Pedra

A pedra é bela, opaca,
peso-a gostosamente como um pão.
É escura, baça, terrosa, avermelhada,
polvilhada de cinza.
Contemplo-a: é evidente, impenetrável,
preciosa.

António Ramos Rosa, Ocupação do Espaço, 1963

Dakar na América do Sul

Uma coisa o terrorismo islâmico já conseguiu, a transferência do Dakar para a América do Sul (Argentina e Chile). Quaisquer laços que possam ligar ocidentais e muçulmanos parece que terão de ser cortadas. Enfim, nada de infiéis de jeep e de moto a profanar a sagrada terra dos camelos. Até a geografia anda fora dos eixos.

Trovante - Timor

As eleições americanas

As próximas eleições americanas serão um belo retrato do estado da União. Há coisas que já se sabem. Eleger um Presidente mórmon não é, por enquanto, possível. Mas os Democratas estão interessados em fazer uma experiência: Será que o negro Obama ou a senhora Clinton poderão chegar à Casa Branca? Que América seria essa que elegeria uma mulher ou um não branco para a presidência? Por agora, apesar da liderança da senhora, o homem que «veio» da Nigéria parece estar a preparar-se para defrontar um antigo herói de guerra. A acompanhar com interesse não apenas políticos, mas também sociológico.

Timor-Leste

Construir uma democracia sem um conjunto de bens económicos e sociais para distribuir é missão quase impossível. Num dia, dois atentados contra o Presidente da República e Primeiro-Ministro até em Timor-Leste é obra. Mesmo que o líder da revolta tenha morrido, a situação é frágil e os tempos vão continuar negros. Onde falta quase tudo, nunca falta motivo para aventuras militares.

Jan van Eyck - The Crucifixion

Siglo XV. Gótico Flamenco. Primer Tercio (Los Iniciadores), 1425-1430. Óleo sobre lienzo transferred from wood. Each panel. 56,5 x 19,7 cm. The Metropolitan Museum of Art. New York. USA.

10/02/08

António Ramos Rosa - II Sílabas

O álcool de Dezembro é frio e rouco.
O cigarro amarga. É um cigarro clínico.
Sílabas.
Com sílabas se fazem versos.

O tampo da mesa é liso.
Uma colher é uma forma complexa
familiar e deliciosa.
Um copo é nítido
como um criado sem servilismo.
Uma mulher condensa-se
no olhar do poeta.
Um corpo. Duas sílabas.
O dinheiro à justa. A gola da gabardina
para tapar a nuca
e os ouvidos.
Sílabas.

António Ramos Rosa, Viagem Através Duma Nebulosa, 1960

Giotto - El llanto sobre el Cristo muerto


Siglos XIII y XIV. Gótico. Italia. Escuela de Florencia, 1302-1305. Fresco. 200 x 185 cm. Capilla de los Scrovegni. Padua. Italia.

As falácias de António Barreto

Como é possível que um homem como António Barreto fale com tanta altivez do que não sabe? Como é possível que a crença ideológica na bondade da municipalização do ensino lhe obscureça a independência e a objectividade que deveria ser a do cientista social? No artigo de hoje no Público, fez de novo a sua apologia da entrega das escolas às câmaras, verberou os centralistas educacionais, e fantasiou sobre uma realidade e sobre motivações que claramente não conhece. Vejamos três pequenos exemplos.

Diz António Barreto «E a criação do conselho geral da escola, com a participação de pais e autarcas, é uma boa indicação que poderia enriquecer o sistema educativo.» Se António Barreto conhecesse a realidade talvez não dissesse isto. Há muitos anos que os pais, as autarquias, as associações locais estão representados na Assembleia de Escola, órgão que foi agora substituído pelo Conselho Geral. Que contributo deram essas incensadas presenças para a melhoria do ensino? Parece que nenhuma, pois, ao fim de tão longa experiência, a escola portuguesa, no dizer de muitos, está de rastos.

Diz António Barreto: «Nas escolas, como em qualquer instituição, a autoridade difusa, camuflada de colegial, tem dado maus resultados.» Eu não sou defensor do actual modelo de gestão, mas gostaria de ver evidências empíricas da maldade da existência de uma gestão eleita e projecções convincentes sobre a bondade da nova forma de gestão. O que me espanta é um cientista social fazer pura ideologia, sem qualquer sobressalto na consciência. Depois, gostaria que me explicassem, com evidência empírica, duas coisas: 1. quais as causas efectivas dos maus resultados do sistema educativo português, analisando todas as variáveis em jogo e não ocultando algumas que interessam, por motivos ideológicos, ocultar; 2. por que razão a escola portuguesa, aquela que não presta, envia tantos alunos para a universidade, por que motivo uma percentagem significativa desses alunos se perde e por que razão muitos dos que terminam os cursos não encontram trabalho de acordo com a formação?

Diz António Barreto «O afastamento das comunidades e das autarquias, relativamente às suas escolas, tem tido, há décadas, consequências nefastas, nomeadamente a do desinteresse dos pais pelo destino das escolas dos seus filhos.» Como é possível uma pessoa intelectualmente honesta estabelecer esta relação? Em primeiro lugar, o conceito de comunidade é, ele sim, tão difuso que não significa nada. Mas como é que o afastamento dessa entidade mítica e das autarquias implica o desinteresse dos pais? Que relação lógica existe entre uma coisa e outra? E o que explica o desinteresse dos pais pela aprendizagem dos filhos? Será também o não controlo das escolas pelas autarquias? Como é possível fazer passar tanta falácia como mercadoria decente e de boa lógica?

Mas se António Barreto, em vez de fazer ideologia, quisesse estudar por que razão os professores se opõem à gestão dos docentes pelas câmaras, encontraria, não o fantasioso medo de aparecerem escolas revolucionárias no Alentejo ou reaccionárias no Minho, mas a questão do nepotismo, da protecção dos amigos políticos, do recrudescimento da desigualdade de tratamento dos alunos. Como é possível que uma das autoridades da doxa nacional emita opinião sem cuidar de saber do que fala?

Mais uma manhã solar

Mais uma manhã solar, uma manhã cobreta de ligeira névoa, como se um véu descesse dos cumes celestes e, imponderável e translúcido, pairasse sobre a terra. Bom dia.

Cicatrizes XI

09/02/08

António Ramos Rosa - I

Em qualquer parte um homem
discretamente morre.

Ergueu uma flor.
Levantou uma cidade.

Enquanto o sol perdura
ou uma nuvem passa
surge uma nova imagem.

Em qualquer parte um homem
abre o seu punho e ri.

António Ramos Rosa, O Grito Claro, 1958

Marc Chagall - White Crucifixion


Siglo XX. Escuela de París, 1938. Óleo sobre lienzo. 60 3/8 x 55 in. Instituto de Arte de Chicago. Chicago. USA.

Paco de Lucia - Concerto de Aranjuez


Vasco Pulido Valente - Onde nós chegámos

O arcebispo de Cantuária, Rowan Williams, primeiro dignitário da Igreja de Inglaterra, de que a rainha é o chefe supremo, declarou anteontem que, tarde ou cedo, a Inglaterra tem de "incorporar" a lei islâmica, a Sharia, porque os muçulmanos não se reconhecem na lei em vigor, evidentemente de origem cristã. Isto implica que passaria a existir uma lei para cada religião e que ficaria ao arbítrio de qualquer um escolher a mais favorável ao seu caso ou mais conforme às suas convicções de momento. E presume também que a tradição jurídica anglo-saxónica se tornaria um resíduo, só aplicável a um pequeno grupo de anglicanos, se eles por acaso quisessem. O arcebispo de Cantuária não falou nisso, mas com certeza que, estabelecida a Sharia, os católicos não prescindiriam de uma lei católica, como os judeus de uma lei judaica e a menor seita, por esotérica que fosse, das suas próprias regras, cuja igualdade e dignidade não se poderiam negar.

Se Rowan Williams estivesse comprovadamente louco, o episódio não merecia uma linha. Sucede que não está. Pior ainda, o que ele veio dizer é um desenvolvimento inevitável e lógico da doutrina do multiculturalismo. De facto, se em toda a parte e em todo o tempo, uma cultura vale em teoria outra cultura, e todas devem conviver em paz, não há razão para que uma defina e domine a ordem jurídica do Estado. O arcebispo sempre vai avisando que não gostaria de importar certas versões, quanto a ele excessivamente radicais, da Sharia. Em Cantuária e em Liverpool, talvez não caísse bem o apedrejamento da mulher adúltera, o uso obrigatório do véu ou a taxativa proibição do divórcio. Não se percebe esta reserva do reverendo Williams. Quem aceita e recomenda a Sharia, aceita e recomenda a Sharia na forma e na interpretação que os muçulmanos lhe entenderem dar. Não cabe, como é óbvio, a um arcebispo herege meter o seu irrelevante bedelho no assunto.

Por absurdo que pareça, Rowan Williams espera da próxima vigência da Sharia uma Inglaterra mais "coesa". Não lhe ocorreu que tolerar a tolerância leva à intolerância absoluta. O que não admira, porque, no admirável mundo da "correcção", a tolerância acabou muitas vezes por impor uma autoridade que roça o terrorismo moral, ideológico e político. Sendo uma aberração do século, o arcebispo de Cantuária não se distingue no essencial dos mil censores da nossa consciência e dos nossos costumes. A liberdade, para ele, não conta.
[Vasco Pulido Valente, Público, 9/02/08]

Desconcertante - A "questão islâmica" na Europa

No espaço de uma geração a Europa terá de adoptar uma de duas soluções em relação à "questão islâmica". Ou faz aquilo que o arcebispo da Cantuária propôs para o Reino Unido – a adopção (parcial?) da Sharia – ou terá de forçar os muçulmanos à conversão: ao "ateísmo" ou ao "cristianismo". Aqueles que, legitimamente, não aceitem nenhuma das duas opções serão então expulsos. Será o regresso dos princípios de "razão de Estado" adoptados pelos reis católicos no século XV. O resto é wishful thinking. [Fernando Martins, Desconcertante]

Veio o sábado

Veio o sábado como se fosse uma primavera antecipada. Sol triunfante num céu branco como uma campânula, árvores a verdejar que suspendem a triste sombra que o betão arvora pela cidade. Bom dia.

Cicatrizes X

08/02/08

James Ensor - Cristo agonizante

Siglos XIX y XX. Simbolismo, 1886. Carboncillo y lápiz sobre papel pegado sobre lienzo. 61 x 76 cm. Musée Royaux des Beaux-Arts. Bruselas. Bélgica.

Manuel Alegre - Entrevista ao Público

Público - A remodelação foi suficiente? O que acha da política de educação?

Estive numa reunião, em Gaia, onde estavam muitos professores e fiquei muito impressionado com a maneira como os professores se sentem humilhados, desapossados da sua dignidade. Não se faz uma reforma nas escolas contra os professores e sem os professores ou humilhando os professores ou deixando os professores de fora da gestão ou fora das soluções, ou regressando ao papel de director, que ainda por cima pode ser alguém de fora da escola
. [Público, 8 de Fevereiro de 2008]