20/01/08

Igreja da Santíssima Trindade - XIII

19/01/08

Marquesa de Alorna - V "Cantiga Anacreôntica"

Dentre as canas buliçosas
Leve Zéfiro respira,
Movem-se as folhas lustrosas,
Amor palpita e suspira.

Nestes doces movimentos
Vão-se as sombras desfazendo,
Vão-se espreguiçando os Ventos,
Lúcifer esmorecendo.

Vai-se a manhã levantando,
Acordam com ela as cores,
Vão com ela despertando
Pardas rochas, lindas flores.

Ante os raios refulgentes
Cessa o tímido segredo,
Abrilhantam-se as correntes,
Nascem coros no arvoredo.

Sai do seio do descanso
Vigorada a fantasia;
As ideias são mais claras
Na hora em que nasce o dia.

Depois de um sono quieto
Tudo acorda com vigor:
Porque razão quando dorme
Não desperta assim o Amor?

O potencial de paz dos atentados

Consta que os serviços secretos espanhóis (CNI) desarticularam em Barcelona uma célula de 14 islamistas, de nacionalidade paquistanesa e indiana, em fase de actividade (cf. El País). As autoridades espanholas avisaram também França, Reino Unido e Portugal de que células itinerantes estavam na disposição de cometer atentados de forma iminente. É evidente que nada disto é real, aliás como não o foi o ataque às torres gémeas de Nova Iorque, o massacre de Madrid ou o de Londres.

É também evidente que não existe qualquer conspiração que vise a Europa ocidental, nem passa pela cabeça de ninguém a islamização, de múltiplas formas, dessa mesma Europa. Aliás, como se tem visto, mal os muçulmanos chegam à Europa convertem-se logo ao nosso modo de vida, adoptam os nossos valores e comportamentos. A coisa é de tal maneira que as próprias Igrejas cristãs não têm mãos que cheguem para baptizar tanto ex-muçulmanos convertidos aos valores de Cristo. Por outro lado, como todos sabem, o Islão não faz proselitismo nem nunca usou a força como forma de conversão. Supor o contrário, é imaginação de gente reaccionária e incapaz de perceber o potencial de paz, de concórdia e de diálogo que os atentados trazem consigo.

A verdadeira oposição

Onde se encontra a oposição mais acutilante? À direita ou à esquerda? Em nenhum dos lados. A verdadeira oposição tem um e só um nome: Balsemão. Veja-se a preocupação da SIC com a questão da saúde. Leia-se o Expresso de hoje e a chamada para primeira página da perda real dos salários da função pública [manchete: Profs perdem 12% do salário em 8 anos]. Esta táctica de Balsemão faz lembrar as presidências abertas de Mário Soares, no tempo de Cavaco. Ao mostrar a realidade, foram mortíferas. O melhor que Sócrates tem a fazer é esquecer a ideia de um quinto canal de televisão em sinal aberto.

Peter Sloterdijk - O fim da fé na educação

A velha social-democracia tinha lançado a palavra de ordem «saber é poder» como uma receita prática e razoável. Ao fazer isto, ela não pensava grande coisa. Ela queria dizer que seria necessário aprender qualquer coisa sólida para ter, mais tarde, uma vida melhor. Uma fé pequeno-burguesa na escola tinha ditado esta máxima. Esta fé está hoje (1981) em decomposição. É apenas nos nossos jovens médicos cínicos que uma trajectória clara conduz dos estudos ao conforto. Quase todos os outros correm os risco de fazer os seus estudos para nada. Quem não procura o poder também não quererá o saber que lhe corresponde, nem as malhas que este tece; recusar os dois é, secretamente, não ser mais cidadão desta civilização. Muita gente não está disposta a acreditar que se deve primeiramente «aprender qualquer coisa» para ter mais tarde uma vida melhor. Vê-se desenvolver nessas pessoas, parece-me, um pressentimento que entre os cínicos antigos era uma certeza: que se deve primeiramente ter uma vida melhor para poder aprender qualquer coisa razoável. A socialização pela formação, tal como ela se pratica neste país (Alemanha – RFA), é estupidificação a priori, após a qual é dificilmente imaginável que uma aprendizagem ofereça ainda uma oportunidade para que as coisas melhorem um dia. A inversão entre viver e aprender está no ar: o fim da fé na educação, o fim da escolástica europeia. Eis o que inquieta, ao mesmo tempo, conservadores e pragmáticos, espreitadores (voyeurs) do declínio e bem-pensantes. No fundo, ninguém acredita mais que aquilo que aprendemos hoje possa resolver os «fenómenos» (problemas) de amanhã; ao contrário, é quase certo que aquilo que aprendemos hoje é de natureza a fazê-los nascer.

Peter Sloterdijk (1987). Critique de la Raison Cynique. Christian Bourgois éditeur, pp. 10/11.

Manhã brilhante

Manhã brilhante e solar, manhã de inverno a lembrar os dias felizes de primavera. Assim começa o fim-de-semana como uma promessa que o domingo, lá para a tarde, trairá. Bom dia.

Igreja da Santíssima Trindade - XII

18/01/08

Marquesa de Alorna - IV "Como, importuno Amor, inda procuras"

Como, importuno Amor, inda procuras
Misturar-te entre as minhas agonias?
Vai, cruel, para onde os alegrias
No seio da Fortuna estão seguras;

Onde em taças douradas, formosuras,
Esgotando o prazer, passam seus dias;
Onde acariciado tu serias
Por quem nem sabe o nome às desventuras.

Ao som de harmoniosos instrumentos,
No peito, que é de pérolas ornado,
Criarás mil suaves sentimentos;

Mas em mim, que sou vítima do fado?!...
Cercada dos mais ásperos tormentos,
Achas uma alma só — e um só cuidado.

Vasco Pulido Valente - A liberdade vai morrendo

A Mesquita Central de Oxford, muito conspícua, com minarete e cúpula, reclamou agora o direito de fazer apelo à oração, com o ruído que a ortodoxia recomenda. Para quem viveu em Oxford, isto é difícil de engolir. Mas suponho que não haverá grandes problemas. Pouca gente irá protestar contra a "islamização" da cidade e as coisas seguirão em sossego, de acordo com as regras do multiculturalismo. Já em Roma, um grupo de professores não permitiu que o Papa Ratzinger - um académico, um filósofo e um teólogo - fosse à Universidade de Roma, "La Sapienza", em nome da laicidade da investigação e do que ele pensa (se pensa) sobre a condenação de Galileu. Aqui, manifestamente, o multiculturalismo não vale. Vale o velho ódio à Igreja Católica e a intolerância da "correcção política".O direito de cada minoria se afirmar - ou, pelo menos, de certas minorias se afirmarem - acabou em conflito. Não acabou, como se esperava, numa nova espécie de coexistência pacífica. O universalismo da civilização do Ocidente, agora desprezada, está a ser substituído por uma série de particularismos, que não reconhecem o direito à diferença e que se querem impor ou separar. Usando uma antiga estratégia, o islão invoca a liberdade contra a liberdade. Um método que sempre seduziu a "inteligência" europeia, invariavelmente partidária da força e da repressão: a liberdade invocada para autorizar um muezzin em Oxford é a mesma liberdade invocada para não permitir que o Papa fale na Universidade em Roma. A liberdade condena a "islamofobia" em Oxford e aprova a "catolicofobia" em Roma.A intolerância aumenta; governa a religião, a saúde, a ética sexual (só uma é aceitável) e, contra toda a inteligência e toda lógica, começa a ressuscitar o nacionalismo. Na Bélgica, em Espanha, na Itália (embora moderadamente), a exclusividade regional reaparece, com um ódio hesitante mas profundo. A "Europa", afinal, não juntou, separou. Por um lado, em Bruxelas, para as pessoas se entenderem, falam inglês. Por outro, na Catalunha ou no País Basco, há quem se queira afastar ou isolar do mundo mais próximo. A fragmentação cultural do Ocidente não trouxe a ninguém autonomia e poder de escolha. Trouxe, e continua a trazer, fanatismos de vária ordem, que pretendem reger, "regularizar" e limitar o comportamento do cidadão comum. A liberdade vai morrendo. [Vasco Pulido Valente, A liberdade vai morrendo. Público, 18 de Janeiro de 2008]

Jornal Torrejano, 18 de Janeiro de 2008

Já disponível na internet, a edição semanal do Jornal Torrejano chama para primeira página o problema das urgências no hospital Rainha Santa Isabel. Destaque também para as comemorações dos 50 anos do Rancho Folclórico de Torres Novas.

Na opinião, comecemos com o cartoon de Hélder Dias. Depois,bem depois vem O tempo das distritais de José Ricardo Costa, A profissão mais antiga do mundo de Santana-Maia Leonardo, A bicha e a fila de Carlos Nuno, De Herodes para Pilatos de Fernando Faria Pereira, Melão encarnado de Carlos Henriques e A igreja da Santíssima Trindade deste blogger.

Acabou-se, para a semana haverá mais, caso o andamento contubado do mundo o permita. Então, bom fim-de-semana.

Desce do céu

Desce do céu uma cortina de espuma e aos olhos apenas sombras e vestígios de fantasmas chegam. Ouvem-se ruídos, mas sabe-se lá a que corresponderão eles... Bom dia.

Igreja da Santíssima Trindade - XI

17/01/08

Marquesa de Alorna - III "Dúvida"

Logo que Armínio aparece
Ergo os olhos com temor,
Quero falar-lhe, não posso.
Será isto acaso amor?...

Quando fala, não percebo
Que haja um som de voz melhor,
Mais graça, mais elegância.
Será isto acaso amor?...

Se entre aquelas que eu estimo
Fala alguma a seu favor,
Desconfio, tenho raiva.
Será isto acaso amor?...

Se ele se vai, não encontro
Em nada chiste ou sabor;
Nem céu nem terra me agrada.
Será isto acaso amor?...

Se ostenta co’as outras belas
Ar polido e sedutor,
Forcejo por lhe ter ódio.
Será isto acaso amor?...

Gato Fedorento - Filósofo matarruano

O Tratado de Lisboa e a «sociedade civil»

Segundo a Lusa, o «Governo aprovou hoje a resolução sobre o Tratado de Lisboa da União Europeia, documento que segue agora para ratificação no Parlamento, mas que o executivo diz pretender que seja também amplamente debatido na sociedade civil.» O que entenderá o governo por «sociedade civil»? O problema não reside na sociedade civil, reside noutro lado: no povo onde deveria residir a soberania. E ao povo, melhor, aos povos europeus, não foi dada a possibilidade de debater e escolher o grau de alienação da soberania que o Tratado de Lisboa implica.

A «sociedade civil, isto é, o grupo de interesses que se movem em torno do poder, não precisa de debate, mas apenas de esclarecimento sob a forma como pode tirar partido, para os seus interesses privados, do Tratado. Esta troca de linguagem, a troca de povo por sociedade civil, não é neutra e muito menos inocente. Esta geração de socialistas pura e simplesmente não tem vergonha. A retórica universitária tornou-se uma mola para as piruetas mais injustificadas.

Voltaram as neblinas

Voltaram as neblinas matinais. O mundo é uma sombra leitosa onde deslizam outras sombras. Neste império de obscuridade, a luz dissolve-se e as trevas, já ao longe, permanecem como uma ameaça. Bom dia.

Igreja da Santíssima Trindade - X

16/01/08

Marquesa de Alorna - II "Deitei-me sobre a fresca relva um dia"

Deitei-me sobre a fresca relva um dia,
E dando a um sono leve alguns instantes
Cós prazeres sonhei, que lá distante
Debuxava a estragada fantasia.

Saturno vagaroso me trazia
Um diadema de lúcidos diamantes,
Enramado de mirtos odorantes,
O qual Cípria na fonte me cingia.

A Fortuna risonha se mostrava,
Mas no disco da roda vacilando,
Voltando-a, me levou quanto eu sonhava.

Já Délio para os mares ia olhando,
E Bóreas, que raivoso murmurava,
Me acordou, como dantes, suspirando.

Anouar Brahem - Kashf

O Papa, os cientistas e os pobres homens

O Papa tinha sido convidado para participar na abertura do ano lectivo da Universidade romana La Sapienze (cf. Público). Gerou-se de imediato um clima de contestação, com um grupo de professores a dizer que a visita papal os humilha e ofende. Tudo porque há 20 anos o Cardeal Ratzinger terá citado, segundo uns, um filósofo austríaco que terá dito que o julgamento de Galileu foi racional e justo, ou, segundo outros, ter-se-á mostrado favorável ao julgamento de Galileu por heresia. O grupo de professores afirmou mesmo que Bento XVI é “um teólogo retrógrado que põe a religião à frente da ciência”. Resultado do charivari: o Papa desconvidou-se da cerimónia. Este é um episódio gratificante e de forte pendor didáctico. Vejamos:

1. Ratzinger tem uma propensão significativa para as citações, nomeadamente para aquelas que dizem coisas que os outros não gostam de ouvir. Umas vezes são filósofos, outras vezes são imperadores; umas vezes aborrece os cientistas, outras os muçulmanos. Seja como for, a citação matreira lá vai saindo.

2. Esta ambiguidade, que parece muito característica de Bento XVI, deixa as pessoas perplexas e desconfiadas. Que pensará efectivamente sobre o julgamento de Galileu? Recorde-se que Galileu foi absolvido, pela Igreja Romana, em 1999 das acusações de heresia, absolvição que deverá ter tido a mão de Ratzinger, devido ao papel que ele tinha, na altura, na Congregação para a Doutrina da Fé (antiga Inquisição). Seja como for, o que ressalta é ainda a tensão entre religião e ciência. E muitos de nós, onde me incluo, têm uma desconfiança acentuada sobre o que pensa da ciência muita gente ligada à Igreja. Dito de forma mais clara: haverá muita gente que gostaria de rasurar o conhecimento científico que, por exemplo, negasse o significado literal dos textos sagrados: conhecimentos de cosmologia e da evolução das espécies, por exemplo. Em todas as religiões há uma reserva de fundamentalismo que, havendo condições, explodirá.

3. Do lado da ciência, o panorama não é muito melhor. Quando os professores universitários proclamam que Bento XVI é “um teólogo retrógrado que põe a religião à frente da ciência”, o que quereriam eles? Que um Papa achasse a ciência mais importante do que a religião? Queriam que aquilo que diz respeito ao estudo da natureza fosse, para ele, mais importante do que o culto divino?

4. Mas esta atitude dos professores italianos evidencia uma outra coisa. A ciência é uma actividade racional de investigação. No entanto, o culto da ciência tem aspectos irracionais que não diferem do fundamentalismo religioso. A forma como o próprio Galileu é apresentado faz dele uma espécie de santo e mártir de uma religião. Aliás, é uma figura muito curiosa e muito próxima, por exemplo, de Che Guevara. Mas os dois decalcam, na retórica dos cultuantes, a figura desse mártir por excelência que é o Cristo.

5. O que nós, cidadãos deste conturbado mundo, poderemos desejar não será a vitória de um dos campos. O importante é que estes jogos entre as várias linguagens de poder que povoam o mundo (política, religião, ciência, economia) se equilibrem, se anulem no anseio fundamentalista, e permitam assim a existência de uma clareira onde os pobres homens comuns possam existir livremente.