16/11/07

A Cidade Flutuante - 12. Uma espiral de cinza e fumo ergue-se

Uma espiral de cinza e fumo ergue-se,
ergue-se entre jardins de erva rala,
seixos rolados pelo rio
e pedras brancas,
da serra as trouxeram.

Se oiço gritos,
sento-me e vejo os carros a passar
e conto as pessoas uma a uma,
sem lhes olhar as faces
nem pressentir os dedos.
Deixo-as ir perdidas, cansadas,
envoltas num manto de cristal,
a cantar ladainhas,
a esconder segredos.

Depois levanto-me
e corro pelos jardins ardidos
e de olhos especados
deixo que as lágrimas venham
e sejam um rio,
um rio suave vindo da memória,
um rio sem foz
nem nascente,
nem leito,
nem margens,
nem história.

[JCM. A Cidade Flutuante, 1993/2007]

A escola do vazio

Heidegger dizia que aquele que ensinava era o que mais aprendia. Durante muitos anos, confirmei esta verdade. Ensinava e saía da escola sempre com alguma mais-valia. Mas desde que este governo veio redefinir o papel do professor, saio vazio da escola. Olho para o lado e só vejo gente vazia. A escola tornou-se um vácuo, a profissão um exercício de nulidade, as regras uma ociosidade despótica. Já não há professores, há apenas balões que vão, mais tarde ou mais cedo, rebentar. Os seres humanos, por perspicazes que sejam, iludem-se sempre. Apesar de se saber que a nossa época é a era do vazio, acreditou-se que a escola poderia não o ser, que o professor poderia ainda ter a função de transmitir algo de substancial aos seus alunos, de fazer frente à degradação de todos os valores, de evitar, talvez miraculosamente, o crescimento do nada. Ilusão vã, ninguém resiste ao espírito do tempo.

Sócrates, Valter Lemos, Lurdes Rodrigues têm mil vezes razão. A escola que havia era desadequada ao mundo, ainda havia resquícios de ensino, ainda havia gente que valorizava o saber e que se esforçava por ensinar. Havia que controlar essa gente tresloucada e anacrónica. Na era do vazio, a escola só pode ser uma nulidade. É esse o papel do actual governo, adequar a escola à nulidade em que se vive, transformar a escola num cemitério do saber, matar o professor, fazer crescer o vazio, assegurar que os alunos não deixem de ser absolutas nulidades. Abra-se a escola à comunidade! Escancarem-se as portas para que o vazio da comunidade entre e tome conta de tudo. Os professores ainda conseguiram resistir a Roberto Carneiro, o grande anunciador do vazio educativo, mas hoje estão completamente derrotados. A irrelevância, o vazio, a nulidade, o nada triunfaram. Sócrates, Valter Lemos e Lurdes Rodrigues ganharam, esta é já a sua escola, à sua imagem e semelhança. O que vemos quando olhamos para estas personagens? Nada.

Jornal Torrejano, 16 de Novembro de 2007

Chegou nova edição do Jornal Torrejano, por curiosidade a n.º 593 desta sua segunda série, já que a primeira nasceu em 1884 e morreu há tanto tento que ninguém se lembra quando. Mais deixemo-nos de apartes e vamos à primeira página, com os nobres 10 anos de voluntariado da Liga dos Amigos do Hospital. Ainda por lá uma referência à Feira da Golegã, que é como quem diz a uma feira global cá da zona e arredores, sendo estes muito latos. Não se esqueça ainda a dança da Susana Gaspar.
Na opinião, e para começar o rol, Santana Kid no cartoon de Hélder Dias. Depois, vem a veia queirosiana de José Ricardo Costa e Numa Rua de Lisboa, a que se segue Médicos Divididos, de Carlos Nuno (como o entendo, caro doutor, no seu desprezo pelo vocábulo utente. Um doente é um doente; um aluno é um aluno. Utente é uma palavra que me dá vómitos). Depois, vem A excelência e a diferença, de Santana-Maia Leonardo, a que se segue o Aniquilado, de Carlos Henriques. Por fim, Porque não te calas?, crónica deste blogger.
Acabados os autos, lavra-se a presente acta que se dá a conhecer aos eventuais leitores deste mísero e insípido blogue. Grato pela atenção dispensada e até para a semana, se ainda houver semana na semana que vem e semanantes que a semanem e o blogger pertencer ao número desses semanantes.

Estranhas metamorfoses

Estranhas metamorfoses se dão pelos céus. Há cores em reboliço, cores sombrias e pesadas, mas que, sem se dar por isso, se tornam cada vez mais claras e luminosas. Está a chegar a aurora. Bom dia.

Caligrafias de pedra V

15/11/07

A Cidade Flutuante - 11. Os campos

Os campos,
os que havia na minha cidade,
rossios azuis maculados de areia
e de folhas acobreadas pelo Outono,
eram páginas de um livro
onde me liam histórias que não conheci.

Por vezes eram um cântico,
outras, uma dor,
as mais, um riso suave na sombra da tarde.
Se chegavam, os cavaleiros da noite
guardavam neles as suas montadas
e corriam ruas velhas de casas vazias,
as telhas partidas, as paredes muradas.

Não há campos na minha cidade,
os rossios perderam o azul, a areia,
e do Outono já não chega o cobre
às folhas que pela aurora deslizam
e cansadas adormecem pelo chão.

[JCM. A Cidade Flutuante, 1993/2007]

A vida simples de Miss Pearls


Na última visita a Miss Pearls, deparo-me com um post intitulado “A vida simples”. É um post simples, composto por três fotografias, das quais me apropriei, de forma indecorosa, da primeira. Esta, como as outras, não tem, em aparência, nada de especial, mas, mal entrei no blogue, o olhar ficou preso nela. Se me impunha correr por ali abaixo e ver o que por lá havia, qualquer coisa me puxava para a fotografia. Uma sensação de desconforto assaltava-me perante “a vida simples” que ali se mostrava. Não sei que rua é aquela, nem onde fica, nem quem lá mora. O mais certo é nunca ter passado por lá. No entanto, já vi e já percorri aquela rua milhares de vezes. Uma curva, a estrada empedrada, as casas brancas e já cariadas, os telhados desalinhados, o portão vermelho, as paredes salitradas, a erva a crescer pelos telhados, o cinzento das barras, as portas a cair para a estrada. Quantas vezes terei passado por sítios assim? Perscruto a fotografia como se esperasse uma ameaça. Nada acontece. Uma súbita revelação, porém, dá-se ao olhar e aquilo que se viu milhares de vezes e em milhares de sítios surge agora como uma essência depurada. Está ali tudo o que somos. O que vejo já não é aquela rua, mas o país. Um país que nos apressamos a esconder, que nos apressamos a esquecer, como se tivéssemos vergonha da simplicidade que nos instituiu, como se temêssemos a natureza que nos coube. Olho a fotografia, é um exercício de rememoração, uma ascensão ao mundo da verdade. O que ali está não é uma rua concreta, mas a ideia viva de um país que morre, que se desfaz, que se desfarela. Se, em vez de esquecer, houvesse a coragem de deixar o olhar correr por ali fora, talvez ainda fosse possível fundar alguma grandeza na mera simplicidade de uma simples vida.

Avista-se um incêndio na linha do horizonte. Arderão matas e florestas? Haverá aldeias em perigo? Não, é apenas o Sol a anunciar a sua chegada. Não choverá. Bom dia.

Caligrafias de pedra IV

14/11/07

A Cidade Flutuante - 10. Entro numa igreja

Entro numa igreja,
as paredes nuas,
um Cristo pende sobre o altar.
Ali, naquele silêncio divino,
oiço a rua a passar
e penso em quem aqui vem
e as dores que há-de ter
e as casas que há-de habitar
e as ruas a percorrer.

É esta a minha oração,
sentado diante de Cristo
falo-lhe da cidade
e das árvores
e das gentes. Ele nada me diz,
naquele silêncio pendente que é o d’Ele.
Depois ergue a cabeça e sorri,
pois os deuses também sorriem,
e logo a deixa tombar
como um fruto maduro
que se desprende
e de súbito fende o ar.

[JCM. A Cidade Flutuante, 1993/2007]

Universidades em colapso financeiro

Quando António Nóvoa, Reitor da Universidade de Lisboa, veio dizer que o governo investe mais nos EUA que em certas universidades portuguesas, logo veio um coro arregimentado dar apoio ao governo. Agora, porém, é Seabra Santos, presidente do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas (CRUP), que vem dizer que há quatro ou cinco universidades públicas à beira do colapso financeiro e que tem havido uma diminuição no investimento nas universidades (ver TSF online). O que emerge de tudo isto parece ser a vontade do governo, para além da retórica vazia da aposta no conhecimento, de estrangular financeiramente algumas universidades e com isso atingir o coração da democratização do acesso ao ensino superior.

As pessoas terão de compreender uma coisa: pela mão da governação de Sócrates, está a produzir-se a mais gigantesca operação de elitização social do ensino superior. Esta operação começa no ensino básico e secundário, com a desvalorização sistemática da escola pública e uma política que favorece objectivamente os colégios privados e as elites que os frequentam, prolonga-se, agora, na universidade, através do seu estrangulamento financeiro. Não haja ilusões, no Portugal socrático, só as elites sociais terão direito ao melhor ensino. O que Maria de Lurdes Rodrigues fez aos professores do ensino não superior, está Mariano Gago a preparar-se para fazer, de forma mais florentina, claro, aos do ensino superior, a alguns, pois. E o ataque que se faz aos professores é apenas o sintoma do que se quer fazer aos alunos desses professores. Notável, porém, é que sejam os socialistas a fazê-lo.

Chávez e Espanha

Chávez anuncia “profunda revisão” das relações com Espanha. Está a jogar até ao fim o efeito da disputa com Juan Carlos. Mais, está a explorar a fraqueza que Espanha deu mostras, seja pela intervenção pedagógica de Zapatero, seja pela intervenção intempestiva do Rei. É bom que não se esqueça que Chávez chamou fascista a Aznar, mas recebeu em júbilo Ahmadinejad. O mundo está cada vez mais perigoso. Veremos se a reacção de Chávez deriva do cálculo político, se da necessidade pessoal de limpar a afronta. Até onde vai o talento político do militar? Como vai Espanha resolver este assunto? E o petróleo? Esperemos pelos próximos episódios.

Atahualpa Yupanqui - El Bien Perdido

Um pássaro risca as planícies azuis do céu, fende os ares, desaparece, iluminado pelo Sol, na linha do horizonte. Terminou a quietação nocturna e na cidade borbulha já a agitação diária. Bom dia.

Caligrafias de pedra III

13/11/07

A Cidade Flutuante - 9. Quando os teus olhos

Quando os teus olhos
eram os olhos de domingo
e vazia te sentavas ao meu lado,
a cidade erguia-se da penumbra
e havia castelos e rios e praças
e gente de mãos dadas.

As paredes abriram frestas
e se tudo reluz
não é sol o que brilha
mas a noite de néon,
a tudo cobre, a tudo declina.

Os domingos já não têm olhos,
nem na penumbra se ergue uma cidade.
Caíram os castelos,
secaram os rios
e nas praças quem passa apenas vai,
caminha na noite de néon,
olhos rasos, o corpo inclinado,
pedras de cinza a tombar para o chão.

[JCM. A Cidade Flutuante, 1993/2007]

Milton Friedman Choir - The Corporation

Via Arrastão e Zero de Conduta.

Alguém ainda duvida de que o liberalismo se está a constituir como uma nova forma de totalitarismo? Estamos na China a ouvir os guarda-vermelhos? Na União Soviética a escutar os pioneiros? Ou serãos os joviais cânticos da mocetagem ariana? Quando começam a cantar, é altura de começar a chorar.

Daniel Sampaio, Valter Lemos e o mal-estar

Na cerimónia de entrega do Prémio Nacional do Professor, o presidente do júri, Professor Daniel Sampaio lançou um duro ataque à política governamental, chamando a atenção para o estado de degradação em que se encontra a profissão. Sublinhe-se, porém, não o que disse o Professor Sampaio, mas este pedaço de prosa emitida, segundo consta (ver Diário Digital), por essa miraculosa personagem que dá pelo nome de Valter Lemos: «Ficou claro que o professor Daniel Sampaio se referia a um mal-estar do ponto de vista geral e não a um mal-estar destes ou daqueles docentes. É um mal-estar docente internacional que também existe em Portugal».

Segundo conseguimos apurar, através dos nossos múltiplos contactos, o Professor Sampaio estava a pensar nos professores do Paquistão, do Butão, da Namíbia, da Venezuela e da Quirquízia. Depois, parou a pensar e descobriu que havia um mal-estar internacional entre os professores. Passado um quarto de hora de discurso, o Professor Sampaio disse: «bom, bom, se há um mal-estar internacional entre os professores, é provável que também exista em Portugal». Foi assim, por dedução a partir duma proposição universal, que o psiquiatra chegou à conclusão particular de que havia uma mal-estar entre os docentes portugueses.

Claro que ninguém pensa que o senhor Lemos, a senhora dona Maria de Lurdes e o engenheiro Sócrates têm alguma coisa que ver com esse mal-estar. São pessoas sempre dispostas a apoiar os professores portugueses, agora até lhe dão prémios. Obrigado, senhor Lemos, pela sua preclara visão da realidade. Que tal aprender a ler…

desconcertante

O blogue desta semana obriga a uma estadia demorada, os posts têm conteúdo, há reflexão tranquila. Questões políticas, históricas e sociais vão ritmando o dia-a-dia de o desconcertante, que apresenta como uma espécie de epígrafe a frase «não passa de uma intenção». Qual será a intenção do desconcertante? Só pode ser a de desconcertar. Então estaremos perante um projecto desarranjador, destruidor da ordem e da harmonia? Não nos esqueçamos da epígrafe. Sendo assim, estamos perante um blogue onde se respira, busca e cultiva uma certa harmonia, marcada pela pausa reflexiva e alguma ironia. Não se desconcerte, vá até ao desconcertante, o blogue de Fernando Martins, pelo menos é este o nome que assina a postagem.

O Prémio Nacional do Professor

É provável que o professor Arsélio Martins tenha merecido o Prémio Nacional do Professor (ver Lusa). É até bastante provável que mereça mais do que isso, mas não deixa de ser um triste marco ser aquele que ganhou pela primeira vez um prémio instituído pelo governo que mais desprestigiou, perseguiu e humilhou os professores. É preciso não esquecer que este prémio foi criado para adoçar uma das campanhas políticas mais abjectas que foram feitas, neste país, contra uma profissão.