19/10/07
18/10/07
A Origem da Luz - Quatro
Tão alegre o tempo em que voltavas com teus mostruários,
pequenos faróis vermelhos, ébrios de tanto caminhar.
Sonolentas bicicletas iam e vinham, cerziam a aldeia de lés-a-lés,
como se um deus pequeno e infrutífero descesse
e poisasse na calma placidez dos dias.
Aqui, destas janelas, avistei o insuspeitado mundo
e nada era puro ou mácula alguma habitava
o regaço das mulheres. As coisas eram o enorme
incêndio de serem apenas coisas, pedaços terríveis
na sujeição ao tempo, feroz tribunal sem lei.
Eras a presença tutelar, o meu respeito,
caminho de argila e calcário a abrir-se ao mundo.
Trazias-me as cores e um dever ser, o crime jamais
alguém o pagará. Pedra a pedra o universo construiu-se e
sobre mim desabou. No centro, um deus pequeno e infrutífero nascia...
Jorge Carreira Maia, A Origem da Luz (1981)
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Marcadores: Poesia - em mim
Sócrates e as preposições
O extraordinário Sócrates enche a boca com a necessidade de apostar no conhecimento. É por isso que o financiamento do ensino superior, desde que ele pastoreia o povo, já desceu 14%. Julgo que o forte de sua excelência não será a sintaxe e a semântica do português: ele diz economia do conhecimento quando quer dizer economia no conhecimento. É um problema com as preposições. Quando aparecem contraídas baralham um bocado… Acontece muito com os meus alunos. Farto-me de corrigir preposições.
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O tratado de Lisboa e o que interessa à Europa
O que é que conta a cimeira de Lisboa? Pode contar muito, mas a verdade é que a imprensa internacional tem mais coisas interessantes para destacar do que aquilo que se joga na capital portuguesa. Acabei de dar uma pequena volta por jornais on-line europeus e descobri que a cimeira praticamente não existe. Para os espanhóis (El Pais, El Mundo, La Vanguardia), para os franceses (Le Figaro, Le Monde, Liberátion), para os italianos (La Stampa, Il Messagero) o acontecimento é a separação entre Nicolas Sarkozy e a mulher, Cécilia. Na Alemanha (Die Welt, Frankfurter Allgemeine, Berliner Morgenpost), juntamente com o italiano Corriere de la Sera, o que conta são as palavras de Putin e para os ingleses (Times, Telegraph e Guardian) o importante é mesmo o retorno de Benazir Bhutto ao Paquistão. Não quer dizer que aqui e ali não existam referências ao que se está a passar, mas são pequenas referências perdidas na página. Talvez logo a coisa mude, fundamentalmente se os polacos ou os ingleses disserem não.Esta pequena viagem é bastante esclarecedora do actual estado de espírito europeu. Para além dos políticos, parece que mais ninguém se interessa pelo tratado reformador e no entanto… Aqui entre nós, que ninguém nos ouve, também acho a notícia da Cécilia muito mais interessante…
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As primeiras folhas outonais
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Luz da Normandia - XXIV
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17/10/07
A Origem da Luz - Três
Olhar a macieira, imóvel espectro no centro
da terra, era de todos o único sonho.
Parados no soalho da casa, olhavam especados…
Ó como tomar da memória a coloração dos sons,
o timbre metálico dos odores, a caducidade dos gestos.
Dos vidros restava o estilhaçado papel de guerra,
essa recordação profunda do teu corpo.
Ó como os deuses desciam envoltos em seus halos
e em lentos e breves haustos abençoavam
pedras e heras, suspensas em ocultas mãos as amavam.
Galáxia ou um império de frutos a nascer,
os dedos aprenderam a luz da noite. A maçã,
em secreto pudor, reinava nas brancas paredes dos quartos,
onde disformes silhuetas jogavam os primeiros dados.
Lentamente, um pequeno raio fulgia e afogava os astros.
Jorge Carreira Maia, A Origem da Luz (1981)
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Marcadores: Poesia - em mim
Notas sobre a guerra colonial, a propósito do programa de Joaquim Furtado
Ontem começou a ser transmitida uma série sobre a guerra colonial, da autoria de Joaquim Furtado. O excelente episódio apresentado foi dedicado ao eclodir da guerra no norte de Angola, em 1961, fundamentalmente aos acontecimentos de 15 de Março. Houve duas coisas que me impressionaram vivamente. A primeira foi a bárbara acção da UPA (União dos Povos de Angola, que viria a dar origem à FNLA) de Holden Roberto. A guerra começou com ataques violentíssimos contra civis, brancos e negros, que estavam completamente desprotegidos e foram apanhados de surpresa. Eu já conhecia essa violência, mas nunca, que me lembre, tinha visto imagens. Estas são, ainda hoje, absolutamente horríveis. Ora, à luz do direito internacional hodierno, aqueles ataques dirigidos contra brancos e negros bailundos só poderiam configurar aquilo a que nos habituámos a chamar limpeza étnica. Não foram os militares ou as forças da ordem que foram atacados, foram populações muito pouco protegidas, fundamentalmente mulheres e crianças. Por muitas razões que os angolanos tivessem contra o regime colonial, o que aconteceu no 15 de Março foi uma página negra na história de libertação de Angola.A segunda coisa a impressionar-me foi a natureza do nosso colonialismo. Era um colonialismo ingénuo e absolutamente amador, fundado na crença profunda da verdade da propaganda de Salazar. Aqueles colonos brancos acreditavam piamente que os angolanos queriam ser portugueses e que eram portugueses. Apesar de todos os problemas na fronteira de Angola com o Congo belga, apesar do conflito na colónia belga, ninguém, entre os colonos portugueses, acreditava numa revolta dos angolanos. Não havia praticamente exército de “ocupação” colonial, as populações europeias e as africanas próximas das europeias estavam completamente desprotegidas. Há, por tudo isto, uma coisa que parece certa: a autenticidade das convicções de Salazar. Salazar e uma parte dos portugueses, bem como dos angolanos, acreditavam na possibilidade de uma nação multi-territorial. Não havia cinismo, havia apenas uma incompreensão profunda do desenvolvimento da história mundial, um desconhecimento absoluto da realidade colonial e um amadorismo político-militar indescritível. Todos estes factores convergiram numa tragédia, muitas vezes silenciosa e muitas vezes silenciada, que tocou aos portugueses e aos povos que connosco estivem em guerra.
Nota: quem não viu o 1.º episódio, pode vê-lo no próximo Sábado, às 23, na RTP N.
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A vergonha do Presidente da República
Parece que o senhor Presidente da República se envergonha com os números da pobreza em Portugal. Ainda bem, estamos todos mais reconfortados, ainda por cima o senhor Presidente nunca governou o país, nem teve quaisquer responsabilidades nas orientações económicas que a pátria trilha. Pena é que não tenha também corado…
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Menezes, porque não…
Fui jantar à Golegã para ver se o Bife à Central ainda mantinha a sua aura. Acabado de jantar, sem ter bebido nada que se visse, dou por mim a pensar nessa extraordinária dupla composta por Luís Filipe Menezes / Pedro Santana Lopes. O que se passa comigo, será que o jantar me caiu mal? Pensei. Passados instantes tudo se iluminou, eu estava perante o edifício para onde, para gáudio do povo, Santana Lopes tinha deslocalizado a Secretaria de Estado da Agricultura. Eis o que nos espera, se Menezes chegar a primeiro-ministro e tudo, neste país, é possível. Se Santana foi, se Santana quer vir a ser sabe-se lá o quê, se Sócrates é, porque não o Menezes…
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Marcadores: 500 caracteres, Política
De caverna em caverna
Os dias declinam, mas a luz ainda é uma mancha que cobre a cidade, ateia incêndios nos telhados, faz resplandecer o verd’oiro das árvores. As gentes começam a regressar a casa, abandonam a fadiga que o dia sempre traz, escondem-se nas cavernas onde só as sombras reinam. De caverna em caverna, eis o destino que nos coube e a luz, se nos ilumina, logo fenece e se entrega aos deuses telúricos da noite. No horizonte, há manchas de sangue a pontuar as poucas nuvens que avisto. Caminho pela cidade, na esperança do silêncio, mas os gritos invadem a tarde como se, no crepúsculo que já se adivinha, carpissem o dia, à morte que será a sua ele se entrega.
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Gato Fedorento - Forum Filosofia
Graças ao Zé Ricardo cheguei a este notável exercício de filosofia.
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My Funny Valentine By Nico
Para hoje uma diva underground, numa interpretação de um dos mais conhecidos temas de jazz, My Funny Valentine. Há qualquer coisa nesta "leitura" que me faz lembrar a de Chet Baker. Será o underground?
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Marcadores: Música
Luz da Normandia - XXIII
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Marcadores: Fotografia
16/10/07
A Origem da Luz - Dois
Falar de Maio, o mês onde o sol se conjurou
com as primeiras, as definitivas lições.
Na casa havia um hálito quente, o calor
a inundar as pálidas flores do jardim,
um retrato abandonado às chuvas de Dezembro.
Qual a matéria dos actos? Em desespero,
cavalgam os astros, voam como sóis ao luar,
cantam a cordata sapiência das horas,
as pequenas traições, a corola branca dos gestos.
Cantam, no fundo da terra, o murmúrio do mar.
Exíguos raios de luz erguiam brancas paredes
e a casa debatia-se entre a placidez dos elementos
e a fúria de pequenas mãos, absortas e criminosas.
Aspidistras tombavam nos corredores e fugindo
de meus pés formava-se uma rua de cal e ambrósia.
Jorge Carreira Maia, A Origem da Luz
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Marcadores: Poesia - em mim
No Gattopardo, Pedro Mexia e a constituição
A única matéria que se afigura discutível é a dimensão institucional. Ou seja, é possível que haja quem queira alterar a natureza do regime. Sejamos claros: há quem pretenda o presidencialismo. Se é esse o caso, mais vale assumir tal proposta com clareza. E cá estaremos para lembrar os defeitos do presidencialismo, os desvios cesaristas, os conflitos com o governo, e o mais que os manuais registam.Se é isso, conversaremos em devido tempo. Se não é isso, é pólvora seca. [Pedro Mexia, Não precisamos de uma nova Constituição ]
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Marcadores: Comentário, Política
Adriano Correia de Oliveira
Quando, por volta de 1973, comecei a frequentar o Cine Clube de Torres Novas com o fito de jogar xadrez (joguei intérminas partidas com o Luís Paulo Costa, mas não só) acabei por descobrir a política e a música portuguesa de resistência à ditadura. Havia por lá um gravador e duas cassetes, julgo que eram apenas duas, dessa música que ouvi, e os que frequentavam o Cine Clube, muitas e muitas vezes. Zeca Afonso, Sérgio Godinho, José Mário Branco, Luís Cília, José Jorge Letria e Adriano Correia de Oliveira. Esta música, muito curiosamente, abriu-me para outras músicas, abriu-me para o jazz e para a música erudita. Como? Por ela própria já ser outra música, pelo facto de em muitas canções, nem todas, haver uma belíssima poesia e uma sonoridade a que não estava habituado. Essa música também me ajudou a fazer-me cidadão, mesmo que há muito a minha compreensão da música e da cidadania tenha abandonado a visão ingénua que, na altura, era a minha. Hoje que faz 25 anos que morreu Adrianao Correia de Oliveira coloco um vídeo proveniente do YouTube com uma das suas canções, talvez aquela de que mais gostei.
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Marcadores: Arqueologias, Memorália, Música
Rui Pereira e a falta de vergonha do PS
O Partido Socialista perdeu completamente a vergonha. Chamado ao Parlamento para explicar a visita da polícia a uma delegação de um sindicato de professores, o ministro Rui Pereira achou por bem escudar-se na ausência de ilícito no comportamento dos agentes e em explicações técnicas, para referir que foi «normal» a visita ao referido sindicato. Que esta visita tenha sido feita na véspera de uma manifestação que iria afrontar a política, perante o primeiro-ministro, do seu governo, que este ande incomodado com os protestos, que este governo tenha um passado de perseguição e humilhação dos professores, que haja um conflito aberto entre o governo e os professores, nada disso tem, para a excelsa personagem que Rui Pereira incarna, qualquer significado político. A visitinha não tem leitura política? Como foi possível que o partido da liberdade se tenha transformado no partido que justifica recados aos sindicatos dados pela polícia? Que gente é esta que tomou conta do PS? Que gente é esta que acha normal que a polícia visite um sindicato e lhe faça recomendações? Não há ninguém que se indigne dentro da congregação? Ou o direito à indignação de Mário Soares é só para usar com o PSD?
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Nádya, Música e Outras Artes
Para hoje propõe-se um blogue brasileiro dedicado à música, especificamente ao piano, Nádya, música e outras artes. O blogue pertence a uma pianista e compositora, que também ensinou piano e História da Música, e que se apresenta apenas como Nadya (Duarte de Carvalho). O que tem este jovem blogue (nascido em Setembro) de especial? Utiliza vídeos do YouTube, seleccionando de forma pertinente o que dá a escutar, além disso, desde Outubro, introduz certas composições através de pequenos textos didácticos.O que é que encontramos lá? Muita música para piano, Ravel, Scarlatti, Bach, Brahms e Debussy, só para falar da postagem de Outubro. E ao piano? Pierre-Laurent Aimard, Irena Koblar, a belíssima (isto é um aparte) Hélène Grimaud, Gherard Oppitz, Daniel Barenboim, Alexis Weissenberg, entre outros. A vantagem deste blogue é que serve de filtro didáctico sobre o mar imenso que é o YouTube. Para amantes de música. Espera-se uma longa vida.
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Marcadores: Blogosfera, Música
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