02/08/07

António Arnaut - 1

Como não sou leitor habitual da Visão, só agora li a entrevista dada por António Arnaut, antigo ministro socialista e pai do Serviço Nacional de Saúde, a Miguel Carvalho, na edição de 26 de Julho.

Como descreve a geração que está no poder?

É um produto das circunstâncias. Noto falta de cultura cívica. É gente sem reflexão sobre os comportamentos, a arte, a literatura e a história do nosso povo. A cultura é uma sabedoria que se recolhe da experiência vivida. Muitos deles não têm uma ideia para Portugal, não conhecem o País. Vivem do imediatismo, da conquista do poder. Conquistado, vivem para aguentá-lo. Esta geração vale-se mais da astúcia do que da seriedade. E aprendeu os ensinamentos de Maquiavel.
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Sem comentários.

Dalila Rodrigues

O governo continua em grande forma. Agora a vítima foi Dalila Rodrigues, directora do Museu Nacional de Arte Antiga. Demitida, claro. Expressou divergências com a política governativa para a área. Que interessa o excelente trabalho realizado? Na era socrática só há uma qualidade importante: saber curvar a espinha.

Os professores deprimem-me

Os professores correm para os sindicatos em busca de auxílio jurídico para contestar os resultados do concurso para professor titular. Oiço as razões e deprimo-me. Discutem o problemazinho pessoal, os que tiveram cargos e há 7 anos não têm, os que estão no 10.º escalão e são ultrapassados pelos outros com menos pontuação. Tudo verdade, mas tudo irrelevante. Ninguém diz que os critérios são altamente prejudiciais para os alunos, que não se valoriza o acto de ensinar, a qualidade científica das aulas, etc. Olho o espectáculo e vejo um bando de burocratas a lastimar-se de não terem sido ainda mais burocratas. Na cabeça de todos eles há já uma Maria de Lurdes a trabalhar. Misericórdia.

Paisagens marítimas - II

01/08/07

Cesário Verde - II. Cinismos

Eu hei-de lhe falar lugubremente
Do meu amor enorme e massacrado,
Falar-lhe com a luz e a fé dum crente.

Hei-de expor-lhe o meu peito descarnado,
Chamar-lhe minha cruz e meu Calvário,
E ser menos que um Judas empalhado.

Hei-de abrir-lhe o meu íntimo sacrário
E desvendar a vida, o mundo, o gozo,
Como um velho filósofo lendário.

Hei-de mostrar, tão triste e tenebroso,
Os pegos abismais da minha vida,
E hei-de olhá-la dum modo tão nervoso,

Que ela há-de, enfim, sentir-se constrangida,
Cheia de dor, tremente, alucinada,
E há-de chorar, chorar enternecida!

E eu hei-de, então, soltar uma risada…

Cesário Verde, Obra Poética Integral

História, mal e negatividade

O cristianismo disseminou a ilusão que a história, apesar do mal e da negatividade, conduziria os homens a um fim feliz. Hoje dissipou-se a ilusão cristã, mas resta a história que apenas leva a mais história e a mais história, isto é, resta apenas o mal e a negatividade sem fim.

Diário de um banhista - I

Adoro a praia. É um amor enternecido e respeitoso. Estou a banhos desde Domingo passado e, felizmente, ainda não pisei areia. Não se deve pisar aquilo que amamos. Há movimento cá por casa, gente que vai até à beira-mar, volta crestada pelo sol, enfarinhada de areia, comenta-se a excelência do tempo, do sol, da temperatura, da água… Eu acredito, acredito em tudo piamente, mas a minha devoção a tanta praia impede-me estes excessos…

Paquistão e o que vem atrás

O regresso de Benazir Bhutto ao Paquistão parece estar para breve. A crise da Mesquita Vermelha veio pôr a nu a fragilidade de Musharraf e a força do fundamentalismo. Independentemente dos acordos para a partilha de poder entre Bhutto e Musharraf, a questão fundamental da política paquistanesa já não se joga entre estes protagonistas. O islamismo radical parece ganhar força a cada dia. O interessante é, contudo, meditar no seguinte cenário: Paquistão atómico com islamistas radicais no poder, Irão fundamentalista com a bomba ao virar da esquina e a Arábia Saudita e amigos armados agora por Bush a cair nas mãos de movimentos radicais. Será preciso muita imaginação para ver o sarilho que se prepara?

BE & PS, passo a passo

Passo a passo, o Bloco de Esquerda lá se vai chegando ao PS. A aproximação pode começar em torno de um qualquer plano verde, no município de Lisboa, mas até onde irá? Tudo depende das próximas eleições legislativas. Será que falta muito para vermos Louçã, Fazenda e companhia na governação da pátria? Sem gravata, claro. Nada contra, mas é só para sublinhar a coisa.

Música às quartas - 11 Anaís Abreu - Ciertos Boleros con Filin

Hoje uma cantora cubana, nascida em Camaguey, de nome Anaís Abreu. O CD escolhido é o que me fez descobrir esta intérprete: Ciertos Boleros com Filin, portanto uma clara inscrição na música popular cubana. Boleros, apesar da sua origem obscura, fazem parte da tradição cubana. E o filin? Bom, segundo parece o filin é uma espanholização cubana do inglês feeling, que sintetiza os ritmos tradicionais de Cuba com os standards de Jazz. Aqui o leitor pode imaginar a Cuba pré-castrista, os lugares onde se ouvia jazz ou onde se dançavam os boleros, a má vida que a tudo contaminava, mas que deu à luz, como pode ouvir na voz quente e sensual (isto é aquilo que um leigo em música diz quando não sabe dizer mais nada) de Anaís Abreu, excelentes filhos, tudo gente da mais alta estirpe popular, isto é, música plebeia para ouvidos plebeus e corações aristocráticos.

O CD é de 2001 e foi editado pela EMI. Faixas: 1. Como Te Atreves 2. Nocturnal 3. Conformidad/Una Semana Sin Ti 4. Salvame 5. Corazon Para Que 6. Cosas Buenas de La Vida 7. Viaje 8. Asi Canta Corazon 9. Amor Es Eso por Si Vuelves 10. Por Las Cosas 11. Yo Tu Ley 12. Soy Tu Amor Soy Tu Castigo

No vídeo, proveniente do Youtube, Una Decepcion, do CD De Lujo.


Paisagens marítimas - I

31/07/07

Cesário Verde - I. De Tarde

Naquele pic-nic de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandeza,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o Sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!

Cesário Verde, Obra Poética Integral

Evanescência e fragmentação

Se tudo se resume a experiências evanescentes, se as grandes totalidades éticas desapareceram, então a vida dos homens é como seria a das palavras se estas existissem independentes umas das outras, sem as totalidades lexicais e contextuais que lhes conferem sentido. Mas não será assim, na evanescência e na fragmentação, que os animais não racionais apreendem e relacionam-se com a realidade?

Miss Pearls

Para esta semana um blogue no feminino: Miss Pearls. A epígrafe reza assim: “um blog com seriedades, muitas banalidades, algumas frivolidades, pechisbeque, chá e torradas. Que me diverte.” E é assim, com esta leveza, não a insustentável leveza do ser, mas pelo contrário com uma leveza sustentável, educada num certo Zeitgeist, aquele que em certos círculos é de bom tom pertencer, mas mesmo assim a merecer a visita, diária visita no périplo pelo caminhos blogosféricos.

Há música, museus, livros, pequenas reflexões, isto e aquilo, como o mundo que nos coube em sorte nos dias de hoje, um mundo disto e daquilo.

Michelangelo Antonioni, o eclipse definitivo

Dias negros para os grandes cineastas europeus. Ontem foi anunciada a morte de Ingmar Bergman, hoje a de Michelangelo Antonioni. Tanto um como outro fazem parte do grande cinema europeu, de um cinema que é muito mais do que entretenimento, como agora se chama à indústria que produz irrelevâncias. O cinema americano tem grandes, enormes realizadores. Mas há sempre nos filmes norte-americanos um toque industrial, algo que os remete para além da pura obra de autor. No cinema europeu, e foi através dele que comecei a amar o cinema, o conceito está mais próximo da literatura. A indústria está, pelo menos, dissimulada. São obras de autores, mais próximas do trabaho de artista do que de gestor de filmagens. Michelangelo Antonioni é um desses grandes autores do cinema europeu. Centrado no neo-realismo italiano, o cinema de Antonioni marcou múltiplas gerações de europeus, com filmes como Profissão: Repórter, A Aventura, Eclipse, O Mistério de Oberwald ou Blowup.

No vídeo, um excerto de Profissão: Repórter. Observe-se o processo de revelação presente neste take. Desde a câmara que se fixa até ao seu lento mover-se, como se a verdade fosse um longo processo de revelação sensorial, mas de uma revelação que necessita de confirmação.


Rendimento social de inserção

Em Portugal, segundo o Público, 106 570 famílias recebem o rendimento social de inserção. No Porto, assiste-se ao crescimento exponencial de famílias dependentes deste tipo de subsídio, enquanto em Lisboa o número de famílias em situação de extrema dificuldade vem diminuindo consistentemente. Portugal é um país onde existe um número assinalável de pessoas em situação de difícil integração. Mas o que se torna claro é o mito que rodeia o norte trabalhador. O norte viveu durante muito tempo de mão-de-obra barata, assente em baixíssimas qualificações. Num momento de reorientação da economia, estes sectores mostram a sua fragilidade e tecem uma teia de pobreza que só admira aos mais distraídos.

Sulcos IX

30/07/07

Amor - VI. No corpo

No corpo,
o fogo e a senda.

Na pele,
sede a incendiar a contenda.

Micropoemas, Amor

De "Amor" a Cesário Verde

Com Do Corpo termina a publicação de mais uma série de micropoemas, esta intitulada Amor. Amanhã iniciar-se-á uma viagem pela poesia de Cesário Verde.

Pinóquio

Os primeiros livros que li, pelo menos de que tenho memória, são os do Pinóquio. Nestas investigações de Verão, encontrei esta capa editado pela Agência Portuguesa de Revistas. Ora a minha memória remetia para outra editora, a Romano Torres, julgo que publicava os livros de Walter Scott. Procurei pela Internet e lá encontrei referência a diversas aventuras de Pinóquio, mas não as originais de Carlo Collodi, entre elas uma de que me lembro muito bem de ter lido: Pinóquio no México, de um tal José Rosado (não consegui encontrar capa na Internet e esses livros há muito se foram).

O curioso é que estes livros eram, em Torres Novas, comprados numa mercearia, o Machado & Lopes, era assim mesmo que se dizia, no singular e no masculino, que além das mercearias propriamente ditas, vendia fazendas e ainda fazia de livraria, à qual dedicava uma das suas montras, perante a qual passei longos instantes a projectar os livros a comprar e a ler, nesse Portugal de província no final dos anos 60 e início dos 70. Atesto que tudo isto é verdade, pois, agora que olho o espelho, vejo que o nariz não me cresceu.