19/07/07

Vestígios III

18/07/07

Eugénio de Andrade - V. (Sem título)

Nem sempre o corpo se parece com
um bosque, nem sempre o sol
atravessa o vidro,
ou um melro canta na neve.
Há um modo de olhar vindo
do deserto,
mirrado sopro de folhas,
de lábios, digo.

Eugénio de Andrade, O Peso da Sombra

Luchino Visconti - O Leopardo


Eis a história da Europa. Ali, num dos mais famosos bailes de todo o cinema, vê-se a emergência do mundo que ainda é o nosso. Numa Itália em processo de unificação, 1860, a jovem burguesa, Angélica (Claudia Cardinalli) dança com o Príncipe de Salina, Don Fabrizio (Burt Lancaster), tio de Tancredi (Alain Delon), noivo de Angélica. O baile é o momento simbólico em que a antiga aristocracia abre os braços aos senhores do dinheiro, abraça-os, de facto, ao ritmo envolvente da música. Mas se olharmos a montante e a jusante desde momento simbólico, o que encontramos na história da Europa? A montante, a Revolução Francesa (1789) e o triunfo do 3.º estado, da burguesia, para falar em linguagem corrente. A jusante, a história é menos jubilosa: duas guerras mundiais, que começaram por ser duas guerras civis europeias (1914-18; 1939-45).

O Príncipe de Salina julgava salvar o seu mundo naquela dança. Mas por trás da angélica face de Angélica, escondia-se o braço férreo do dinheiro. Os valores da aristocracia morreram ali. Um mundo mais inflexível tinha chegado à dominação. Talvez a pergunta que devamos fazer seja esta: como se passa da Revolução de 1789 paras as catástrofes de 1914-18 e 1939-45? Resposta: a dançar.

Pena que não tenhamos acesso à versão original de Visconti, em italiano, mas a uma dobragem em espanhol. Enfim, é a Europa.

O valor das certezas

O grande valor prático das certezas não nos deve dissimular a sua fragilidade teórica. Elas murcham, elas envelhecem, enquanto as dúvidas guardam uma frescura inalterável.

E. M. Cioran, La chute dans le temps.

A vidinha do PSD II

A crise do PSD reflecte-se na perda dos jovens eleitores para o PS. Os arrivistas em início de carreira, a gente nova desejosa de trepar na vida, que, há 20 anos, se tivessem idade, votariam Cavaco, hoje sentem algum conforto com o nome de Sócrates. Não haja ilusões. Qual o melhor líder para o PSD? Sarkozy. Não pode? Já está ocupado? Então, paciência…

A vidinha do PSD I

Da vida das marionetas. Rio declina, ainda não chegou o seu tempo, pensa. Ferreira Leite faz tabu, exemplo do mestre, ou incerteza sobre se o seu tempo não terá já passado, ou, a magna questão, será que tudo isto vale a pena? Mendes é mais duro de roer do que se pensa.

Música às quartas - 9 Mísia - Garras dos Sentidos

Voltemos ao fado. Voltemos também a uma tradição inaugurada por Amália Rodrigues, a de cantar grandes nomes da literatura portuguesa.

Mísia é um estranho objecto estelar que se move no universo do fado. Aqui uma contradição: uma estrela que se move. E move-se não porque acompanha o movimento da galáxia à qual a necessidade mecânica do universo a submete, mas move-se a si mesma, com movimento autónomo, vindo talvez do desejo que a habita, desejo que, todos os que leram Aristóteles, sabem ser o desejo do divino.

Há toda uma carga genética que confere densidade à personagem (ver aqui a sua página oficial), porque Mísia é uma personagem que a si se compõe e recompõe, reconfigura e transfigura. Em Mísia não há apenas o canto mas um sentido romanesco de si mesma e um trabalho estético sobre o corpo próprio, que já não é um mero corpo, perdido na multidão dos corpos, mas um corpo pensado no cruzamento entre a persona (a máscara teatral), a pessoa social, aquela que é portadora de nome e bilhete de identidade, mas também do reconhecimento dos outros, e o mistério de si mesma. É tudo isto que se manifesta e revela na interpretação das canções que escolhe para dar vida na sua voz.

O CD proposto é Garras dos Sentidos, de 1998, editado pela Detour, que na altura pertencia à Erato. Os 11 fados, ou canções, têm textos de Agustina Bessa-Luís, Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Lídia Jorge, José Saramago, Mário Cláudio, António Botto e Natália Correia. Como se vê, tudo pesos pesados da nossa literatura.

O vídeo, proveniente do YouTube, não diz respeito a este álbum, mas a Ritual, a faixa Duas Luas.


Vestígios II

17/07/07

Eugénio de Andrade - IV. Matéria Solar 16.

Tu estás onde o olhar começa
a doer, reconheço o preguiçoso
rumor de Agosto, o carmim do mar.

Fala-me das cigarras, desse estilo
de areia, os pés descalços,
o grão do ar.

Eugénio de Andrade, Matéria Solar

A caminho da Madeira

Agora que Marques Mendes decidiu relegitimar, como se diz no jargão corrente, a sua liderança, surgem de novo os múltiplos candidatos a chefe do partido e putativos primeiros-ministros. Aguiar Branco, Luís Filipe Meneses e quantos mais? Mas quem é Aguiar Branco ou quem é Luís Filipe Meneses para quererem ser primeiros-ministros? Pura pergunta de retórica. Quando homens como Santana Lopes ou José Sócrates chegaram lá, qualquer militante dos grandes partidos do poder tem o legítimo direito a sonhar que há-de chegar a sua vez. Parece, aliás, que tirando essa gente, não há quem queira o opróbrio de ser chefe de governo. Não tarde muito, estamos na Madeira.

Os resultados do liberalismo

Onde conduziu a política da senhora Tatchter e do New Labour, de Tony Blair? Os resultados da vitória do liberalismo, inclusive no campo dos socialistas, conduziu ao aumento da distância entre ricos e pobres, a maior desde há 40 anos, segundo um estudo da Fundação Joseph Rowntree, citado pelo Diário Digital. Os mais ricos viram crescer desproporcionadamente a sua riqueza e a quantidade de famílias com menos recursos tem aumentado nos últimos 15 anos. Outro dado é o afastamento espacial cada vez maior entre pobres e ricos. Estes não têm oportunidade para se cruzar com aqueles. Ao menos, valha-nos isso. Que desagradável seria ver as classes mais ricas com problemas de consciência. Longe da vista, longe do coração…

Blogosfera torrejana e circundante

Para hoje a blogosfera local. O Jornal Torrejano já falou dela, mas não fica mal retomá-la, acrescentar uma coisa ou outra, quase nada. Comecemos pela mais persistente:

José Pereira [do lado esquerdo da vida], pelo que leio, formado em Sociologia (que mais pecados terá?) e torrejano militante, mantém há largo tempo e muita constância o seu Canhotices. Blogue de intervenção política, na área do PCP, mas também de divulgação cultural. Tem uma marcada preocupação de intervenção local, sempre bem informada, embora não descure a intervenção política mais geral.

O médico António Ventura [cor de laranja, aroma de rosas] reparte-se entre dois amores: Alcobaça e Torres Novas. Gere, desde Janeiro passado, o seu a.ventura.em.gestão.corrente. Blogue político e cultural. No âmbito da cultura, dá um largo destaque à poesia, à pintura, mas também à música, nomeadamente ao jazz. Na política, menos aroma de rosa, mais odor laranja, ou pelo menos certa expectativa que surja aí algo que valha a pena. Há também belas fotografias de lugares, julgo serem da sua autoria.

Desde Julho de 2006, a Graça Martins tece com mil cuidados e apurada sensibilidade o blogue Índigo. Não pense o leitor que o blogue é azul, azul índigo. Não, não é. É preto de fundo, branco na letra, e com apresentação esmerada. Blogue pessoal onde se reflecte sobre a multiplicidade da vida e da arte. A Graça Martins é pintora e toda a sua experiência estética se reflecte na tecelagem comque compõe o Índigo. Arte, educação, política, vida, tudo se encontra aí.

Jardim do Arraial [Domine, ut videam. Domine, ut sit.] é o irónico nome de um blogue de autor desconhecido, mas claramente torrejano ou integrado na paróquia. Parece estar desde Junho em pousio. É um blogue de orientação política mais à direita, muitas referências a Josemaría Escrivá de Balaguer, fundador da Opus Dei, apresenta uma fotografia de Duarte de Bragança, talvez sugestão de simpatia monárquica, e foi militante dedicado anti-aborto. Para quando a saída de pousio?

PeDuke alimenta o lapas do almonda, blogue de intervenção política na área do PCP, julgo. Problemas políticos gerais e intervenção local são os ingredientes deste bolgue.

Maximino Romão é o responsável pelo Novas Torres, blogue de intervenção política na área do BE. Ali se expõem algumas causas que dão vida a essa organização política.

Tarambolas é o blogue de João Quaresma, advogado e militante do PSD. Blogue político de actualização compassada, onde também surgem algumas notas pessoais.

Quatro blogues incertos:

Jornal Meiaviense On-line é um blogue de um jovem meiaviense, que desconheço, que o vai alimentando de tempos a tempos. Para mim é o jornal da minha terra e pronto. Que não esmoreça.

Também da Meia Via vem o Blog dos Veteranos do CDOM e Amigos. É um blogue desportivo e de memórias fotográficas da rapaziada que jogou à bola no clube da minha terra. Muitos não conheço, outros foram meus colegas de escola, outros conheço-os de vista. Só espero que alimentem bem o blogue. O Operário é um dos meus clubes, conheço-o desde que nasci (o meu pai foi um dos fundadores e foi presidente, isto para não falar dos primos que também fundaram e presidiram). Portanto, força Operário.

O blogue de carácter pessoal Lado Lunar, de autora incerta, decidiu suspender as actividades por uns tempos. Esperemos que retorne.

O meu amigo José Carlos Reis e Silva, professor de Português, criou o Tufeiras [Sobre Tudo e Sobre Nada], mas desde o dia 5 de Junho que não dá post que se veja. Vamos lá, Zé Carlos, toca a postar.

Blogue com contactos torrejanos:

Não é um blogue torrejano, mas o diálogo que o seu autor, José Luís Ferreira, vem mantendo com Zé Ricardo e comigo, devido aos artigos do Jornal Torrejano, já fizeram deste advogado lisboeta um quase torrejano. O seu blog, Flash, tem intervenção política, bem humorada, com uma retórica saborosa, venenosa, por vezes, mas sempre muito polida, do francês poli, claro. Depois, através do Flash poderá sempre descobrir os outros blogues do autor.
Por hoje, fica assim.

Vestígios I

16/07/07

Eugénio de Andrade - III. Rente ao Chão

Caminhas devagar
entre muros e muros que se repetem
na chama extenuada dos espelhos

Ninguém te segue
só um pássaro te confunde
com a pele rugosa das águas de Setembro

De perfil lembras um claro timbre de vogais
arder no vento –
rente ao chão

Eugénio de Andrade, Véspera da Água

A res publica portuguesa

Por vezes temos a tentação de ser condescendentes com o que vem do mundo da política. A crítica deve ser construtiva, diz-se. Não, não pode haver lugar para condescendências. Tudo o que vem da política tem como finalidade o embuste: fala-se em nome dos cidadãos, mas só há interesses particulares. Em Portugal, não há res publica.

O conflito educativo e as artes do funâmbulo

A história nacional [de França] é reinterpretada com fins polémicos, para encerrar o adversário numa relação patológica com a temporalidade. De um lado, os «conservadores», refundadores da escola segundo os princípios, idealistas ligados ao passado «mítico», suspeitos de querer, antes de mais, preservar os seus lugares e os seus privilégios. Do outro, os realistas furiosos da adaptação às crianças tais como elas são, à sociedade moderna e ao seu futuro, prontos para entregar a escola aos imperativos do mercado e ingénuos a ponto de não verem que contribuem para fazer da escola o maior vector das desigualdades que eles dizem querer combater.

Blais, MC, Gauchet, M. & Ottavi, D. (2002). Pour une Philosophie Politique de l'Éducation. Paris: Bayard, pp. 63.
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De certa forma, esta polémica entre «republicanos» e «pedagogos» também percorre o sistema de ensino português. Por um lado, um certo ressentimento contra o tempo e o louvor dos bons velhos tempos. Por outro, o militantismo «revolucionário» que quer adequar a escola às crianças e soçobra no tenebroso eduquês, fonte do facilitismo e da mais acentuada discriminação entre alunos.

Entre uma escola centrada nos «princípios» e uma escola centrada nos alunos, há o caminho de uma escola centrada no saber. Aquele que os professores devem transmitir, e por isso devem-no possuir, e aquele que os alunos devem adquirir, e por isso devem trabalhar.

O resto? O resto são estatísticas, avaliações de escolas, avaliações de desempenhos, avaliação das organizações, avaliações de tudo menos dos alunos. Tudo palavreado inútil e pernicioso. Tudo distrações, tudo forma de enganar as pessoas, tudo perversão da realidade. Chegámos, em Portugal, ao tempo em que as escolas que mal ensinam são consideradas exemplares e de excelente qualidade. Amanhã, todas as nossas escolas serão exemplares, embora os alunos pouco ou nada saibam. Como dizia Santana Lopes, está escrito nas estrelas. A educação em Portugal está entrega a funâmbulos. A coisa vai acabar mal, muito mal.

Ingmar Bergman - Morangos Silvestres



Não é bom sinal andar a escavar a memória. Nestes trabalhos de arqueologia, começamo-nos a parecer com o velho Professor Borg. Este é a personagem principal de um dos meus filmes preferidos, Morangos Silvestres, de Ingmar Bergman. Nele, há uma viagem de recapitulação da vida do Professor, no dia em que a Universidade de Lund o vai premiar por uma vida de árduo trabalho. Um dos momentos essenciais do filme é o sonho que antecede a viagem. Aqui fica no vídeo, graças ao dailymotion. Também se encontra no YouTube. Em ambos, as legendas são em inglês. Depois, quem não viu deve procurar o DVD. Quantas vezes terei visto este filme? Espero ainda torná-lo a ver, uma e outra vez…

Acreditar na abstinência sexual

Voltemos ao anel de castidade. O Público on-line publica a notícia com uma fotografia kitsch, sob a qual escreve: «Lydia Playfoot acredita na abstinência sexual antes do casamento». Faz sentido que as pessoas acreditem na existência de Deus, ou na Sua inexistência. Faz sentido acreditar na vitória do Benfica, etc. Mas crer na abstinência sexual? Nem os santos acreditavam. Acreditavam em Deus e praticavam, se é que o faziam, a abstinência. Crer na castidade é um grave pecado. É pôr um ídolo no lugar de Deus. Eu prefiro acreditar no Barca Velha, ou mesmo em alguns Quinta do Côtto. Vale tanto como acreditar na abstinência e levam mais depressa ao céu.

Nós, socialistas de esquerda

Ouvi Francisco Louçã começar uma frase assim: “nós, socialistas de esquerda, …” Este começo, além de sublime, é subliminar e presta-se a múltiplas interpretações. Poder-se-á dizer que ele está a lançar uma pedrada aos socialistas afirmando: «vocês são socialistas, mas de direita.» Pessoas mais maldosas, porém, escutam outra coisa: «atenção PS, olhem que nós, os do BE, também somos socialistas.» A esquerda seria acrescentada para não desanimar as hostes que sonham com revoluções, chavismos e outras coisas do género. Essas pessoas maldosas sempre acharam o BE uma forma de um conjunto de intelectuais com pretensões políticas se socialdemocratizar, sem dar muito nas vistas. Mas quem pode levar a sério pessoas maldosas?

Uma questão de bijutaria

Uma decisão de um juiz do High Court deu razão a um colégio no Reino Unido que admite expulsar uma aluna de 16 anos. E qual o motivo de tão drástica medida? A pobre rapariga insiste em usar o anel de castidade, um símbolo da fé cristã, segundo a aluna. O colégio argumenta que não discrimina os símbolos religiosos, pois já os autorizou a alunos muçulmanos e hindus. Não admite, porém, o uso de bijutaria e o anel de castidade, não sendo um símbolo cristão, insere-se nessa categoria. Nada mais verdadeiro. Se olharmos para os Evangelhos percebemos que Cristo não tinha uma especial preocupação com a sexualidade das mulheres ou dos homens. Por outro lado, um anel de castidade? Só pode ser mesmo bijutaria…