08/05/07

Aconchego

07/05/07

Cardílio - XIV

Sinto o vento no rosto e na mão trago
Um trevo iluminado pelo sangue
Que do teu sexo pálido assim cai,
Como um cão que cantasse pela névoa

Do olival. Que odor férvido é o teu?
O perfume do azeite, o verde mênstruo
Que em meu olhar se prende, flor de pétalas
Sôfregas ou roseira amarga e lúgubre.

Penumbra em que repousas a cabeça,
Véu de branda loucura, lua deserta
Onde prendo o fantasma que há em mim;

Na ruína dos teus passos, eu te sigo,
Cansado de sonhar deuses, esferas,
Sombras de vento ou cálices de pólen.

Aparências 3 – Prós e Contras: Choque de Valores?

O Partido Comunista está indignado com a não participação de nenhuma personalidade da sua área no programa Prós e Contras. Neste caso, o PCP tem razão e a razão é-lhe dada não tanto por não haver nenhum comunista para debater o tema «choque de valores», mas por não estar presente ninguém da sua área para discutir aquilo que vai ser efectivamente discutido: política.

De facto, a RTP, na informação sobre o programa, centra toda a discussão não no choque de valores de carácter ético ou civilizacional, mas em temas políticos conflituais (as eleições francesa e madeirense, a questão de Lisboa, a direita e a esquerda, as agendas políticas e o significado destes conceitos). A RTP ao escolher personalidades políticas partidariamente conotadas (no activo ou relativamente retiradas) deu um cunho bastante partidário ao tema e discriminou uma das forças políticas mais importantes.

Esta discriminação, porém, é apenas o véu que cobre uma situação que julgo bastante mais grave e que se liga com o pluralismo político que a RTP deveria respeitar escrupulosamente. É inaceitável que personalidades claramente alinhadas com o PSD e o PS tenham programas de comentário político na RTP, refiro-me a Marcelo Rebelo de Sousa e António Vitorino, enquanto os outros pontos de vista com clara representação nacional estão excluídos (PCP, CDS e BE). Isto acaba por induzir sistematicamente na opinião pública a existência de apenas dois pontos de vista possíveis - muitas vezes, estes dois pontos de vista são apenas um - e a eliminação de outras perspectivas sobre os problemas. Por brilhantes que sejam Rebelo de Sousa e António Vitorino, e são-no, não deixam de fazer parte de uma certa urdidura cuja finalidade é «achatar» a opinião disponível na esfera pública portuguesa e, dessa forma, empobrecer a democracia.

Aparências 2 – A vitória francesa de Sarkozy

A vitória de Sarkozy desencadeou o protesto dos sectores mais radicais e ligados às crises dos «banlieues». Tenta-se colar ao novo presidente francês uma imagem de racista e de inimigo dos imigrantes, a partir da sua acção como Ministro do Interior. Mas esta operação serve para esconder as reais dificuldades do problema e esquece de sublinhar a realidade mais transparente: Sarkozy é ele próprio filho de imigrantes, vindos da Hungria, salvo erro. Esconde ainda que muitos imigrantes de origem portuguesa foram apoiantes e até responsáveis pela candidatura de Sarkozy.

O que está a ser escondido é o problema das diversas origens da imigração, da sua diversidade cultural e da forma como as segundas e terceiras gerações se integram ou não na cultura de acolhimento. Este é o verdadeiro choque e pouco tem a ver com pobreza e segregação, por muito que isto custe a alguns. Não é um problema de luta de classes, mas de conflito cultural acentuado. Os portugueses sabem muito bem como foram tratados quando chegaram a França. Não viviam nos «banlieues», viviam nos «bidonvilles», eram pobres e certamente passaram momentos muito duros. No entanto, havia uma proximidade cultural e isso permitiu fazer dos portugueses gente bem sucedida em França.

Relativamente às eleições francesas, vale a pena perguntar em que país ocidental, exceptuando os EUA, seria possível eleger Presidente da República ou primeiro-ministro, no caso das monarquias, um filho de imigrantes? Alemanha? Inglaterra? Espanha? Itália? Portugal?

Aparências 1 – A vitória de Jardim

Segundo parece esta foi 2.ª maior vitória de Alberto João Jardim, numas eleições regionais. O PS Madeira ficou pulverizado. Mas será esta vitória de Jardim uma vitória efectiva? Embora ninguém o tenha sublinhado, apesar do carácter plebiscitário da eleição, Jardim não obteve a sua maior vitória de sempre. Mas o importante não é isso. O que desencadeou a demissão de Jardim foi o corte orçamental levado a efeito pelo executivo de Sócrates, e esse corte permanecerá. À partida, as eleições não serviram para nada, a não ser mas confortar o ego fragilizado de Jardim. Ele perdeu, apesar da grande vitória de ontem. Perdeu porque deixou de ser capaz de influenciar as decisões de Lisboa. Contrariamente ao que se possa pensar, a política da Madeira passa pouco pelo eleitorado madeirense e muito pelo beneplácito dos governos de Lisboa. Jardim é derrotado porque perdeu o crédito em Lisboa. Sócrates tirou-lhe o dinheiro e Cavaco Silva não se opôs.

Que pode agora fazer Jardim? Conduzir uma guerrilha institucional sob a ameaça de separatismo? Onde é que isso o pode levar e aos madeirenses? A um beco sem saída, para além do facto não comover ninguém no continente.

Um outro equívoco é ver o resultado da Madeira como uma vitória do PSD e uma derrota do PS. As coisas são mais complexas. Esta vitória do PSD – Madeira enfraquece o PSD nacional, e a derrota do PS – Madeira, está longe, muito longe, de ser má para o governo de Sócrates. Ninguém já tem «saco», no continente, para o discurso de Jardim. E, neste caso, até é possível que ele tenha alguma razão.

Iluminação


05/05/07

Cardílio - XIII

Quando os archotes ébrios, os teus dedos,
Incendiaram na noite a branca cólera,
Gritaste como só uma mulher grita,
No pavor arruinado de uma súplica.

Alucinada rosa desvairada,
Os dias aos dias seguiram imperfeitos
Como estátuas dum deus alucinado
Preso em polida pedra calcinada.

Não há mãos pelos seios, nem alegria
No teu doce cantar. Apenas mágoas
Te recolhem na fístula da tarde.

Aí, na flâmula acesa, transfigura-se
Em voz o débil sopro que dos lábios
Sai, como se a manhã a noite roubasse.

Ver em DVD - A Fúria da Razão

A “Planeta DeAgostini” está a editar, a preços relativamente sensatos, uma colecção de filmes de e com Clint Eastwood, o que é não só ocasião para coleccionar os DVD, como para rever e, em alguns casos, ver parte significativa da obra do actor e realizador.

Comece-se com um filme de 1971, onde ainda não se está perante Clint Eastwood realizador. “A Fúria da Razão” (Dirty Harry) é um thriller policial, onde Eastwood desempenha o papel do detective Harry Callahan. A realização pertence a Don Siegel e, curiosamente, encontramos no filme já muito do que vai ser a obra de Clint Eastwood, enquanto realizador.

A trama romanesca gira em torno de um psicopata que chantageia a cidade de S. Francisco, exigindo um pesado resgate para não matar alguém, mais ou menos ao acaso. Para além do desempenho excelente de Eastwood, o filme surge como uma reflexão estética sobre um conflito que percorre não apenas as sociedades ocidentais, mas também a própria filosofia: o conflito entre o «direito natural» e o «direito positivo».

Para quem não é iniciado neste tipo de linguagem, a coisa explica-se facilmente. O «direito positivo» é o direito que realmente existe nas várias sociedades, produto do processo legislativo. São as leis e as regras que factualmente regulam a sociedade. O «direito natural» é, fundamentalmente, uma concepção filosófica sobre aquilo que é justo e o que não o é. O que acontece muitas vezes é que existe um afastamento, se não mesmo um conflito, entre as leis existentes e os ideias de justiça de uma sociedade.

Esta é uma temática que se encontra em Eastwood e que neste filme é o eixo da acção narrativa. A lei e os regulamentos aplicados à acção policial acabam por favorecer e proteger o criminoso e dar-lhe a possibilidade de continuar a matar inocentes. É nesta fissura que age o duro detective Callahan, contrapondo o sentimento de justiça, de que se sente investido, e a positividade da lei e dos seus representantes, que acabam por ser impotente perante o crime, se não mesmo seus protectores.

A solução encontrada pelo realizador, Don Siegel, é bastante eastwoodiana. É o indivíduo, Callahan, que pela sua acção consegue fazer a síntese entre o direito positivo e o ideal de justiça, o direito natural. Repousa na pessoa singular, concreta e real esse dever de evitar que lei e justiça divirjam e, dessa forma, a própria lei se torne um símbolo de opressão e de injustiça. Esta perspectiva acaba por recolocar a responsabilidade individual como única resposta ao trágico da acção.

Entre o ideal que nos move e as circunstâncias em que agimos, só o indivíduo poderá fazer a síntese que impeça o triunfo da injustiça. Está aqui muito do posterior Eastwood: o herói singular que vive no dilaceramento da justiça e do direito.

Apesar de um certo estereótipo que marca as personagens – são demasiado «lisas» quando comparadas com as de Eastwood realizador –, a dinâmica narrativa é sempre segura e eficaz, conseguindo dar coerência estética ao problema ético que percorre o filme, sem recurso à retórica, como, por exemplo, acontece em muito cinema português de «mensagem». Há «mensagem», mas ela está toda na acção. Leia quem puder.

O eterno retorno ou a transfiguração

Ao estudarmos essas sociedades tradicionais, surpreendeu-nos sobretudo um aspecto: a sua revolta con­tra o tempo concreto, histórico, a sua nostalgia de um regresso periódico ao tempo mítico das origens, à Idade do Ouro. Só descobrimos o significado e a função daquilo a que chamámos «arquétipos e repetição» quando com­preendemos a vontade que essas sociedades tinham de recusar o tempo concreto e a sua hostilidade em relação a qualquer tentativa de «história» autónoma, isto é, de história sem regulação arquetípica. Esta recusa não é simplesmente o efeito das tendências conservadoras das sociedades primitivas, como este livro provará. Quanto a nós, dever-se-á ver nesta depreciação da história, ou seja, dos acontecimentos sem modelo trans-histórico, e nesta recusa do tempo profano, contínuo, uma certa valoriza­ção metafísica da existência humana. Mas esta valoriza­ção não é, de modo nenhum, a mesma que certas corren­tes filosóficas pós-hegelianas tentam dar, nomeadamente o marxismo, o historicismo e o existencialismo, depois da descoberta do «homem histórico», do homem que existe na medida em que se faz a si próprio no seio da história. [Mircea Eliade, O Mito do Eterno Retorno.]

-------

Mircea Eliade deixou, há muito, de ser um autor que se possa citar em público. No entanto, muito do que escreveu merece leitura e o seu silenciamento deveria ser motivo de interrogação, se não mesmo de inquietação.

Mircea Eliade, como outros autores, desenha perfis de sociedades e modos de vida diferentes dos nossos, mas com a particularidade de não serem sociedades utópicas, produtos da imaginação mais ou menos delirantes dos seus autores. Fala de sociedades que existiram, as chamadas sociedades tradicionais. Estas foram absolutamente recalcadas, bem como os seus fundamentos metafísicos, com a vitória do mundo moderno, o mundo histórico em que o “homem existe na medida em que se faz a si próprio no seio da história”.

Esta ideia do «homem se fazer a si próprio» que habitava no seio do marxismo e das correntes pós-hegelianas não passava de uma ideia ainda ingénua. Mas esta ingenuidade – o eu é o fruto de uma experiência histórico-social – abriu as portas para os dias de hoje, nos quais essa ingenuidade desapareceu por completo. O desenvolvimento da ciência e da técnica traçaram o caminho para uma reconstrução da natureza humana, o primeiro passo para a sua transfiguração. Estas sociedades históricas são movidas pela atracção do futuro, mas esse futuro, começamos a descobri-lo, não nos fará mais humanos, mas tornar-nos-á noutra coisa qualquer, que ainda não sabemos, que está velada, mas que acabará por se revelar, isto é, mostrar-se naquilo que é em sua verdade.

Ao usar o conceito de «transfiguração», remeto para o domínio da arte. Toda a arte é transfiguração de uma matéria plástica (som, cor, luz, materiais diversos, língua, etc.). O que começamos a assistir é à transformação do homem em matéria humana plástica e assim ao abrir caminho para esse trabalho de transfiguração. A História, entendida como o processo do homem histórico, significa, desse modo, apenas a morte do homem. A dinâmica que nos empurra para o futuro não nos traz apenas a morte do indivíduo, mas prefigura a morte da própria espécie às mãos da sua arte de transformação. É este o verdadeiro significado do conceito de progresso.

As sociedades tradicionais representam a recusa de compreender o homem como uma ponte – uma ponte entre o animal pré-humano e aquilo que virá depois do homem. Dessa forma, recusam a morte do homem e, por isso abominam, a história. Não é que não tenham consciência do tempo, nem da passagem deste. Recusam, porém, a sua linearidade e sublinham a natureza cíclica, o que supõe um eterno retorno do mesmo. Este ciclo do eterno retorno é a imagem da eternidade e a natureza não seria mais do que um espelho dessa eternidade, onde a humanidade permanece sempre aquilo que é.

A verdadeira clivagem que existe no mundo não é entre liberalismo e marxismo, entre esquerda e direita, entre democracia e ditadura. A clivagem efectiva é entre tradição e modernidade, entre sociedades históricas e sociedades não-históricas.

Aquilo que dá que pensar não é tanto a recusa da história pelas sociedades tradicionais, mas o ímpeto não questionado que nós, modernos, colocamos na aventura histórica que se dirige para a nossa própria transfiguração, isto é, para a nossa morte.

A passagem


04/05/07

Cardílio - XII

Que nome ao rio lhe davas, esse rio
Que vejo pobre e solto entre nuas margens?
Quando o Sol inclemente te cansava,
As suas funestas águas te acolhiam.

Suspenso pelas margens frias do Outono,
De amargo fel rasgadas, tão parado
Na lânguida quietude dessa tarde,
Entregavas da língua o prostrado

Murmúrio, velho canto para sempre
Na treva soterrado. Navegante
Não és, nem tens do rio o saber sagrado:

Os deuses, os teus deuses embarcaram,
Rumaram para longe, para um céu
De vidro transparente na verde água.

O trabalho da memória

Estranhamente, disse Aurach, essa tarde passada em Wurzburg [há muitos anos, em 1933] com o tio Leo só lhe viera à memória uns meses antes quando, ao folhear um álbum de ilustrações acabado de sair sobre a obra de Tiepolo, ficara preso às reproduções do monumental fresco de Wurzburg, às suas beldades brancas e negras, ao mouro ajoelhado com o guarda-sol e à magnífica amazona com o toucado de penas. Passei um serão inteiro, disse Aurach, sentado com essas imagens, procurando, mediante uma lupa, penetrar mais profundamente nelas. E foi então que, pouco a pouco, foi sugerindo a recordação desses dia de Verão em Wurzburg, do regresso de Munique, da situação de lá, cada vez mais insuportável, do ambiente cada vez mais sufocante de casa dos meus pais, do silêncio cada vez mais denso. [W. G. Sebald, Os Emigrantes]


A narrativa de Sebald constrói-se à imagem deste pequeno excerto. Há qualquer coisa que desencadeia a reminiscência e, como um detective ou um herói dos diálogos platónicos, a personagem vai à procura de uma verdade recalcada no fundo, o mais abissal, da sua consciência. Este processo narrativo encontra a sua consumação no romance Austerlitz, onde este, Austerlitz, vai à procura da sua longínqua infância, da qual nada sabia, enterrada não apenas no seu esquecimento, mas também no lugar negro da história dos homens do século XX. Não será preciso dizer que Austelitz e Aurach são judeus e que na altura do consulado nazi, os pais conseguiram fazê-los sair da Alemanha, antes de serem, os pais, deportados para os campos de concentração e morrerem.

O romance é a prova da vitalidade do platonismo. Não há narrativa possível sem memória e não há memória sem o exercício da reminiscência, desse momento cuja dialéctica nos leva e eleva à verdade, mesmo que esta não seja, como diz Cioran, mais do que um erro exilado na eternidade.
[Imagem: vista geral do fresco de Wurzburg, de Tiepolo]

Música para o fim-de-semana: Haydn & Roedelius

Uma primeira proposta: "Die Sieben Letzten Worte Unseres Erloseres am Kreuze", que é como quem diz "As sete últimas palavras do nosso Salvador na cruz", de Haydn. Esta proposta é a obra coral, pois há também uma versão, de Haydn, para quarteto de cordas. O Kodaly Quartet, por exemplo, tem uma gravação na Naxos. Esta versão é da Teldec. Inga Nielsen (soprano), Margareta Hintermeier (contralto), Anthony Rolfe Johnson (tenor), Robeert Holl (baixo). o "Arnold Schoenberg Chor" é dirigido por Erwin Ortner, e o "Concentus musicus Wien", por Nikolaus Harnoncourt. Basta este último nome para assegurar a qualidade do projecto, editado em 1992.

Uma segunda proposta de um campo musical bem diferente. Hans-Joachin Roedelius, nascido em Berlin, no ano de 1934, é um dos pioneiros da música electrónica e, ainda hoje, uma das suas «vozes» mais interessantes. O álbum proposto é «Tace!», de 1999, uma edição da etiqueta Prudence. É uma obra da vanguarda electrónica, onde se nota a presença do minimalismo e o uso da dissonância na criação de universos misteriosos, convidativos à reflexão e à suspensão da azáfama quotidiana.

Câmara de Lisboa, o romance

O romance da Câmara Municipal de Lisboa, o suspense com o demite-se ou não do Presidente, a rábula em torno das demissões dos vereadores e das dezenas de suplentes que ali estão esquecidos, mas que não existindo existem, à maneiras das bruxas que não existem, mas que as há, lá isso há, adicionando, ainda por cima, a história da não demissão da Assembleia Municipal, tudo isto mostra apenas uma coisa: a completa desadequação do modelo autárquico à realidade. O poder local que, a um dado momento, era uma espécie de jóia da coroa da democracia, está hoje de tal maneira enredado no modelo, tem tão pouco prestígio, que seria bom que fosse refeito de alto a baixo. Quatro ideias, nada inovadoras, para a reformulação: 1. Fazer depender o executivo da Assembleia Municipal. 2. Acabar com a promiscuidade de vereadores com pelouros e vereadores sem pelouros, isto é, excluir a oposição do governo. 3. Obrigar os executivos a prestar contas na Assembleia, sendo coagidos a fornecer todos os dados às oposições, de forma atempada e sob pena de perda de mandato. Tudo isto claramente regulado por lei e com sanções claramente inscritas. 4. O Presidente da Câmara seria o primeiro da lista vencedora para a Assembleia Municipal e poderia escolher entre os eleitos os vereadores, o que significa que em vez de eleger dois órgãos apenas se elegeria um.

Abandono

03/05/07

Carmona Rodrigues, uma não-realidade

Há na história da demissão/não-demissão de Carmona da Presidência da Câmara Lisboa um toque de uma comovente tristeza. Ele que é independente e não é político sente-se abandonado e traído pelos políticos. Esta narrativa agrada a muita gente. Parece haver apoiantes revoltados com o que os maus dos políticos fizeram ao bom do não-político. Mas se Carmona é um não-político o que está ele a fazer na Câmara de Lisboa? E o que fez quando esteve no governo? Foi não-política? Foi não-governação? Quando se entra na vida política não há independência. Entra-se num jogo que tem regras e compromissos. Quem não gostar não entra, ninguém é obrigado. Mas agora fazer o discurso de vítima da malvada máquina política, da qual se fez parte por vontade própria, é coisa que só nos pode comover e deixar tomados pela mais profunda tristeza com a maldade do mundo… Eu até acredito que o homem seja inocente, mas haja tino. Isto é uma não-realidade.

Cardílio - XI

Cânticos invernais ouvem-se à luz
De lápides, tijolos ou no pudor
Das aves esmagadas p’la amargura
Dos anos que passados se perderam.

Os deuses estão mortos, as estátuas
De cal jazem erguidas sobre a terra,
Cruéis, cansadas, exaustas pelos anos
Que sobre elas passaram tão velozes.

No ardor dos dias, na rápida e trémula
Cinza, há vencidos pássaros, que cantam,
Que cantam o teu nome enegrecido;

São pássaros finais, grasnam na noite
Sem lua, na ventania sobre os telhados.
Gritam a breve glória nunca havida.

Pedro o Louco

Pierrot le Fou, do cineasta francês Jean-Luc Godard, passou ontem no “Virgínia”. Este filme é uma das imagens de marca da chamada «Nouvelle Vague», pelo menos de um retomar do fôlego desse movimento cinematográfico, e teve uma enorme influência na minha geração. Esta influência é, porém, tardia e deve-se ao atraso cultural que a ditadura impôs ao país. De facto, o filme é de 1965, tinha eu então 9 anos e interessava-me por tudo menos pela «Nouvelle Vague». Não se pense que este tudo era muito intelectual. Não era, pelo contrário.

Mas na minha já longínqua juventude era de bom-tom, pelo menos em certos meios onde me movia, gostar do novo cinema francês, da nova literatura francesa e até da nova filosofia francesa, embora tudo isso, naquela altura, já não fosse propriamente novo. Quando ontem revi o filme apenas reconheci algumas cenas, com mais clareza aquela onde se vê o cineasta Samuel Fuller a fumar e a explicar, naquele tom de americano que nunca deixa de mastigar, o que é o cinema. Como reagi a um filme de vanguarda com 42 anos?

Reagi com duplicidade. Por um lado, com uma certa nostalgia dos tempos em que a França e a cultura francesa representavam ainda alguma coisa. Pierrot le Fou é um produto acabado dessa cultura onde se cruzavam o existencialismo sartriano e o estruturalismo, de Lacan a Althousser e a Lévy-Strauss, a literatura do «Nouveau Roman» de Alain Robbe-Grillet, Nathalie Sarraute, Michel Butor, Margarite Duras, entre outros, e uma boémia para-intelectual e marcadamente de «gauche». Hoje, porém, reconheço que muito dessa cultura já nos meus tempos estava um pouco datada. É esse datamento, do ponto de vista artístico, que também encontro no filme.

Todo aquele trabalho de colagem de referências (cinematográficas, literárias, musicais, etc.) que constrói e, ao mesmo tempo, desconstrói uma trama narrativa, que combina uma espécie de filme policial e de amor, sob a suspeição de um qualquer interesse vagamente político, me parece hoje entediante. Há demasiada necessidade de parecer inovador e essa necessidade de aparência acaba por matar a qualidade da inovação. Era como se fosse necessário estar a cada momento a fazer cortes com o passado e a executar, de princípio ao fim, toda a arte narrativa anterior. Isto está na massa do sangue dos franceses. Esta ideia de corte aparece, por exemplo, na filosofia da ciência de um Bachelard, ou na filosofia mais política (marxiana) de Althousser. Mas o pai de toda esta gente é o longínquo Réné Descartes com o «seu corte» com toda a tradição filosófica anterior.

Do ponto de vista cultural a obra apresenta, no entanto, um interesse assinalável. Não apenas por ser um dos filmes chave de Godard, mas porque permite perceber o ambiente cultural que antecedeu o denominado Maio de 68. A revolta estudantil dos jovens filhos família contra o tédio da vida burguesa está já prefigurado em Pierrot le Fou (Pedro o Louco).

Olhar o filme do ponto de vista sócio-cultural e como prenúncio do espírito do tempo a vir é um exercício didáctico interessante e estimulante. É um documento que vale a pena. Outra coisa, porém, é olhá-lo como obra de arte. Será que ainda se poderá considerar uma obra-prima como durante os anos sessenta e setenta foi incensado? Pessoalmente, não o levaria no lote dos 20 filmes que temos o direito de levar para a tal ilha deserta, de onde não há retorno.

Aquilo que é


02/05/07

Cardílio - X

Existem sons nas pedras, ervas, águas,
Verdes prados cerzidos na memória.
Nas folhas da figueira, corre a seiva
Fugaz, o hálito puro da fria boca.

P’la rua, se caminhavas, desprendia-se
Da luz um raio de âmbar e dos gestos,
Que de ti se afastavam, a distância
Árida como o lume e a primavera.

Nas sílabas abertas em teu rosto,
Vincado pelos dias de branca névoa,
Ouve-se ainda altivo e luminoso

O sonoro descanso de tua voz,
Coberta no mar frágil da memória:
Lácio, língua, silêncio e branca ardósia.