11/04/07
10/04/07
Bernardim Ribeiro
Dentro de meu pensamento
há tanta contrariedade
que sento contra o que sento
vontade e contra vontade.
Estou em tanto desvairo.
que não me entendo comigo.
Donde esperarei repairo?
que vejo grande o perigo
e muito mor o contrairo.
Quem me trouxe a esta terra
alheia, onde guardada
me estava tamanha guerra.
e a esperança levada?
Comigo me estou espantando
como em tão pouco me dei;
mas cuidando nisto estando.
os olhos com que outrem olhei
de mim se estavam vingando.
[Écloga de Jano e Franco – extracto]
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Amigos
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09/04/07
Antero de Quental - a J. Felix dos Santos
Sempre o futuro, sempre! e o presente
Nunca! Que seja esta hora em que se existe
De incerteza e de dor sempre a mais triste,
E só farte o desejo um bem ausente!
Ai! que importa o futuro, se inclemente
Essa hora, em que a esperança nos consiste,
Chega… é presente… e só à dor assiste?...
Assim, qual é a esperança que não mente?
Desventura ou delírio?... O que procuro,
Se me foge, é miragem enganosa,
Se me espera, pior, espectro impuro…
Assim a vida passa vagarosa:
O presente, a aspirar sempre ao futuro:
O futuro, uma sombra mentirosa.
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Universidade Independente - um exemplo
Independentemente do debate que virá, parece que há uma coisa que sai claramente derrotada: a ideia de que a educação (preferiria ensino) é um negócio. A peregrina ideia, que circula em certos sectores, de que se deve olhar o aluno como cliente, a quem as instituições de ensino vendem um produto, deveria ser completamente erradicada.
A lógica das escolas e das universidades não é a mesma do mundo empresarial. Os bens fornecidos e a forma como se adquirem são completamente diferentes. Se eu quero comprar um carro, basta-me ter dinheiro. O saber, porém, não é adquirido com dinheiro. Exige esforço, trabalho, disciplina. Exige que o aluno se entregue e implica uma transformação pessoal. No ensino, nem os professores são vendedores ao serviço de uma empresa, nem os alunos são compradores. No ensino, apenas há o esforço de ensinar e o esforço de aprender. Qualquer consideração de carácter comercial deverá ser erradicada.
Hoje, no Público, o Prof. Santana Castilho alerta para a “ânsia de aumentar o protagonismo da iniciativa privada e do mercado na definição das políticas educativas». O Estado, nomeadamente os dois grandes partidos de governo, andam a brincar com coisas muito sérias. O carácter eminentemente político do bem que a educação fornece deveria levar a ter muito cuidado com as aventuras “privatizadoras” do ensino, em qualquer nível. Os vários casos no ensino superior privado são alertas. Imagine-se o que será privatizar os ensinos básico e secundário. Imagine-se a imensa criatividade dos nossos empresários. Imagine-se a catástrofe.
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08/04/07
Sá de Miranda - Comigo me desavim
Comigo me desavim,
Sou posto em todo o perigo;
Não posso viver comigo
Nem posso fugir de mim.
Com dor da gente fugia,
Antes que esta assi crecesse:
Agora já fugiria
De mim, se de mim pudesse.
Que meio espero ou que fim
Do vão trabalho que sigo,
Pois que trago a mim comigo
Tamanho imigo de mim?
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O eterno retorno do mesmo...
Descubra as semelhanças “A 30 [de Janeiro de 1892], Oliveira Martins reapareceu, para revelar ao país «a extensão das nossas amarguras»: havia um défice de 10 000 contos, o equivalente a 25 % das receitas, e uma dívida flutuante de 23 000 contos. Para evitar a «bancarrota», propôs um drástico agravamento dos impostos, cortes nos ordenados dos funcionários e deduções de 30 % nos juros da dívida pública interna. Aboliu ainda o subsídio ao teatro da ópera de São Carlos e suspendeu indefinidamente as admissões na função pública.” [Rui Ramos, D. Carlos, pp. 87]
Desequilíbrio das contas públicas, agravamento de impostos, corte nos ordenados da função pública, suspensão de admissões na mesma função pública. Tal como agora. Até o nome de Oliveira Martins continua presente passados 115 anos, agora no Tribunal de Contas. Guilherme d’Oliveira Martins é um descendente de Oliveira Martins, um dos ministros da Fazenda de D. Carlos. Em Portugal, parece que tudo tende a perpetuar-se, das dívidas às famílias protagonistas da cena política.
Descubra as diferenças
“Mais uma vez, o rei resolveu solidarizar-se com a nação. Logo a 29, enviou uma carta aberta ao chefe do governo: «Querendo eu e a família real ser os primeiros nos sacrifícios que as circunstâncias do Tesouro impõem à nação», cedia 20% da dotação. «Em tudo e por tudo, hei-de seguir a sorte da nação, à qual reputo essencialmente ligados os meus destinos e os da minha dinastia.»” [Rui Ramos, D. Carlos, ibidem]
Imagina a classe política actual, perante o défice, a tomar uma atitude idêntica? Se imagina, então está a viver uma alucinação. O que o actual governo fez foi atacar certos sectores inofensivos do funcionalismo (pequenos funcionários, professores, etc.) e recatar-se a si e aos sectores de que tem medo (militares, magistratura, catedráticos).
A discussão das retribuições da classe política é sempre muito mal vista. Apesar de partilhar a ideia de que ela, classe política, não é particularmente bem paga, o problema diz respeito à justiça, enquanto virtude das instituições políticas, e liga-se à distribuição dos sacrifícios numa situação como a actual. Um acto idêntico ao do penúltimo Bragança, acto esse que incluísse uma clara redução dos gastos envolventes da acção política – secretárias, motoristas, carros, assessores, etc., etc. –, não esquecendo neste pacote as câmara municipais, não só cairia bem na população como permitiria ao governo tomar medidas mais difíceis, mas que implicassem uma real e efectiva distribuição dos sacrifícios por todos, pelo menos por todos os que se encontram ligados ao Estado.
A forma como o actual governo atacou violentamente alguns sectores que prestam serviço no Estado português aliada ao modo como resguardou outros, e entre estes a própria classe política, mostra a venalidade das nossas elites políticas.
Talvez tenham razão. A Carlos de Bragança pouco valeu a sua disponibilidade. Não escapou, passados anos, ao assassinato.
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Música em tempo de Páscoa V
Para concluir a música em tempo de Páscoa propõem-se, de novo, duas obras.Bach, para concluir como se começou. Neste caso, o Oratório de Páscoa (Osteroratorium). O CD está integrado na Bach Edition, da etiqueta Brilliant. Como curiosidade, refira-se que a Bach Edition, a edição completa de Bach, é composta por 155 cd’s. É uma edição, do ponto de vista económico, bastante acessível (na amazon está a ser vendida a cerca de 150 €, embora quando comprei, na altura do lançamento, o preço fosse bastante mais baixo, julgo que não chegava a 90 €). Este tipo de edição tem tantos defensores como detractores, nomeadamente entre os especialistas em música erudita. Para o ouvinte comum, julgo ser uma excelente porta para a obra do compositor alemão. Por norma, as edições da Brilliant, apesar do seu reduzido preço, apresentam bastante qualidade.
A gravação deste oratório é de 1999, feita na igreja de Pforzheim, Alemanha. Foi dirigido pelo Prof. Rolf Schweizer. Christine Brenk (soprano), Anne Greiling (alto), Frank Bossert (tenor) e Thomas Pfeiffer (baixo) são os intérpretes.
A segunda proposta parece nada ter a ver com a Páscoa. É ópera de Mozart, A Flauta Mágica, filmada por Ingmar Bergman. Se
esta obra apresenta marcados caracteres maçónicos e iluministas, não deixa, no entanto, de ser possível aproximá-la da Páscoa cristã. O que na ópera está em jogo é a iniciação do herói, Tamino, à sabedoria. Esta iniciação, na leitura de Bergman, passa pela experiência simbólica da morte em imagens que remetem tanto para o Inferno, de Dante, como para o mito de Orfeu. Ao vencer a morte, o herói acede à vida verdadeira, à luz da sabedoria. Toda a temática é analogável à paixão do Cristo.
Pequenos óbices: 1. a ópera, nesta encenação cinematográfica, é cantada não em alemão, mas em sueco; 2. existem no mercado edições com interpretações bastante mais convincentes; 3. a fixação da imagem em DVD não é muito boa.
A arte de Bergman e o encanto da obra de Mozart superam tudo isso. Vi no cinema, no velho Virgínia, acerca de 30 anos e foi para mim uma autêntica revelação. Tornei a vê-la, agora, em DVD e o encanto permanece intacto. Está legendada em português.
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07/04/07
João Roiz de Castelo-Branco - Partindo-se
Senhora, partem tão tristes
meus olhos por vós, meu bem,
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.
Tão tristes, tão saudosos,
tão doentes da partida,
tão cansados, tão chorosos,
da morte mais desejosos
cem mil vezes que da vida.
Partem tão tristes os tristes,
tão fora de esperar bem,
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.
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Música em tempo de Páscoa IV
Começar com a música de um príncipe da renascença, Carlo Gesualdo, príncipe de Venosa. Gesualdo é conhecido pela sua música, nomeadamente pelos livros de madrigais os quais seriam, segundo alguns historiadores da música, bastante inovadores para a época, bem como pelos tenebrae responsoria, música idêntica à dos madrigais, mas com textos sobre a paixão de Cristo. Também ficou conhecido pelos assassinatos da sua primeira mulher, Maria d’Avalos e do duque de Andria, que mantinham um já prolongado «love affair» e a quem surpreendeu em flagrante.Tenha-se em consideração as palavras iniciais de Renaud Machart, no “booklet”: “Desde que se trate de invocar a obra de Gesualdo, é necessário fazer previamente uma espécie de «tabula rasa» relativamente à personagem, pois o mito parece ocultar a realidade”. Marchart, por exemplo, não acompanha a ideia de Gesualdo ser um autor de vanguarda, mas um homem de «stile antico», embora com uma escrita musical muito singular. Fazer «tabula rasa» significa pura e simplesmente ouvir sem preconceito.
O CD proposto é da etiqueta harmonia mundi: Gesualdo, “Sabbato Sancto – responsoria”. Phillipe Hereweghe dirige o Ensemble Vocal Européen. O CD inclui anda 4 motetes, de Gesualdo, e um Requiem do compositor contemporâneo Sandro Gorli.
Segundo informação do «booklet» a “obra, uma encomenta da rádio alemã do oeste, foi oficialmente escrita para as celebrações do 700º aniversário da catedral de Münster, mas o ano da sua criação coincide também com o milénio da introdução do cristianismo na Polónia. Questionado sobre o que tinha motivado a música, Penderecki respondeu: ‘bastou ter convicções religiosas e querer exprimi-las. Não tenho objecções a que se considere a minha música como uma profissão de fé.’
Era talvez inevitável que Penderecki fosse fortemente influenciado por Bach na composição da Paixão segundo S. Lucas, e ele mesmo reconhece esta dívida para com este último. A forma de oratória em várias secções adoptadas por Penderecki na sua Paixão segue de perto o modelo de Bach.”
O CD é da Argos. O próprio compositor dirige a Orquestra Sinfónica da Rádio Nacional Polaca.
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06/04/07
XII - Coro e timpani "...non ho paura della morte..."
dos amigos dos mais queridos entre aqueles que lhe queriam
se despediu. Devemos um galo a Asclépio, disse e fechou
os olhos mesmo se antes não desistira de aos seus sondar,
esconder a vertigem, o coração encobrir. À mulher afugentou:
em casa chorasse se chorar fosse a vontade.
Nem só de atenienses se rodeara. Também de Mégara e de Tebas
vieram, pois a morte de todos os lados aos mortais puxa, e não há
lugar na Terra de amplo seio, ou na Hélade à barbárie avessa
que homens aos homens não gostem de ver, mesmo se tranquila e serena
mesmo se horrível e violenta, a morte chegar. Sentaram-se e
conversaram, enquanto a benfeitora caminhava, atravessava as ruas,
procurava, em desconcerto e ânsia, pela cidade de Atenas
o corpo do velho corruptor, ainda a falar, a falar,
os amigos dolosos inquietos pelo destino breve e o filósofo,
tão preso no seu desprendimento, tão cansado da vida,
pronto para que a caminhante que não pára chegasse e como
uma amante, mais bela que Alcibíades o fora, no leito o tomasse.
A morte, não a teme ele, mas ilumina-o a ira do deus:
Críton, devemos um galo a Asclépio… Paguem-lhe, não se esqueçam!
O que tanto falara pelo silêncio tomado, os amigos choram,
Diotima esquecida na penumbra. Resta nas cruas paredes da prisão
o aprisionado eco onde, ainda hoje, os caminhantes ouvem
a última interrogação: Paguem-lhe!, disse e a morte,
esquecida do calendário dos homens, confundiu-o com Lázaro e passou.
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Se até o FMI...
Isto toda a gente já tinha percebido. Também se tinha percebido que a intensificação da globalização pouco ou nada tinha a ver com uma repentina ternura para com o mundo de leste e a China, mas que foi estrategicamente planeado pelos interesses dos grandes grupos económicos multinacionais, como meio para encontrar mão-de-obra quase escrava. Tudo isto foi logo, como se tornou um triste hábito, abraçado pelas elites políticas ocidentais, numa clara e insidiosa traição aos povos que as elegeram. O notável é ser agora o FMI a reconhecer a situação difícil a que se está achegar nos países desenvolvidos, nomeadamente o aumento das desigualdades sociais.
Por que motivo fala agora o FMI? Medo. De quê? Do retorno de políticas proteccionistas. O caso não é para menos. Veja-se o exemplo de Portugal. No quadro actual, sejamos honestos, qual a saída que se vislumbra para o país? Nenhuma, no processo de globalização, tal como tem decorrido, o país é consistentemente inviável.
E o que recomenda o FMI? Ó desespero dos ultra-liberais, recomenda, segundo o “Público” “apostar na educação e fortalecer o sistema de segurança social”. Isto é, aumentar a intervenção estatal na sociedade como factor equilibrante. Então não tínhamos de destruir o Estado-previdência? Não havia que privatizar tudo? O Estado não deveria reduzir-se ao mínimo, isto é, às leis para defesa da propriedade? Agora terá de gastar dinheiro com a protecção dos mais frágeis, aqueles que só merecem perecer?
Esta remediação proposta pelo FMI foi a política europeia durante dezenas de anos, foi ela que fez o sucesso da Europa. Foi a ela que, desde há uns anos, começaram a destruir, quando se quis acabar com o «pacto social-democrata» que vigorou na União, construído pelo socialismo democrático, à esquerda, e pela democracia cristã, à direita.
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Música em tempo de Páscoa III
Também existem inúmeras gravações da obra de Pergolesi. A que se propõe é uma edição da etiqueta Harmonia Mundi, datada de 1983, com vozes masculinas: Sebastien Hennig (soprano) e René Jacobs (contra-tenor). René Jacons dirige o “Concerto Vocale”. O «booklet” apresenta o texto latino e traduções para francês, inglês e alemão.
É uma obra com cerca de 71 minutos e gravada numa única faixa. Nesta obra, as várias personagens do drama crístico “dialogam” entre si, com o evangelista e o coro.Part é um compositor conotado com a corrente minimalista, mas, no seu caso, de forte teor religioso. Quase uma combinação entre a experiência musical do minimalismo e a experiência mística.
A “Passio” é uma obra de 1982 concebida para solistas, ensemble vocal, coro e ensemble instrumental. A gravação apresentada é da ECM, data de 1988. No “booklet” apresenta o texto latino da “Passio” e a tradução inglesa.
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A "coisa" vem de longe
Isto de estar a ler uma biografia do rei D. Carlos, da autoria do historiador Rui Ramos, permite descobrir algumas idiossincrasias nacionais. Num dos anexos, há uma cronologia relacionada coma vida do rei. Nessa cronologia refere-se que a 25 de Abril de 1864 “o governo recusa a dispensa de exames aos estudantes de Coimbra para comemorar o nascimento de D. Carlos”. Note-se que príncipe tinha nascido a 28 de Setembro de 1863.Em primeiro lugar, há que referir que os estudantes de Coimbra, naqueles dias, eram de emoções fortes e prolongadas. Ainda não se teriam, no final do ano lectivo, recuperado da forte emoção que tomara conta deles com o nascimento do herdeiro do trono. Como poderiam eles fazer exames, depois de tantos e tantos meses da mais profunda alegria…
Em segundo lugar, se o governo recusou a dispensa aos exames é porque alguém a reivindicou. Seria um hábito nacional? Ou seria já uma propedêutica às novas teorias educacionais que o século XX viria a consagrar na destruição dos sistemas de ensino? Não sou historiador, não sei…
Esta recusa do governo gerou uma revolta estudantil em Coimbra, onde, parece, tiveram papel preponderante Antero de Quental e Eça de Queiroz. A revolta ficou conhecida como a “rolinada”, por os estudantes terem queimado um boneco de palha alusivo ao chefe do governo, o Duque de Loulé, Nuno Rolim de Moura Barreto. Não é de agora que se queimam efígies de políticos.
Como é óbvio, a «rolinada» não tinha qualquer razão de ser, mas uma coisa útil parece ter trazido: aproximou Antero Quental e Eça de Queiroz.
Conclusão da história. O Duque de Loulé não parecia muito disposto a facilitar a vida estudantil e abolir os exames, mesmo passageiramente. Mas o ideal dos estudantes de Coimbra acabou, de certa forma, por vencer. Os resultados são os que todos conhecemos.
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05/04/07
XI - Orchestra
A relva pisada pelos cães crescia anónima
nos dias já um pouco maiores. O Inverno
deixava entrever como uma promessa a Primavera e
havia bandeiras dispersas casas, um rumor surdo
suado os passos se escutavam se eram passos
mais pareciam vozes alumiadas, penduradas nos raios
que da lua o vento desprendia. Tudo neste mundo
e no outro também se repete. Um círculo tão perfeito,
a superfície inundada de erva, os lados um pouco rombos
um círculo tão perfeito, exclamara para logo de seguida
como o tempo tinha acabado calar-se.
Precisamos de falar, tudo é uma ameaça:
Os sons, as mãos esventradas, os carros a passar,
os prédios como gruas a crescer, o ar das cidades,
a luz amarela, ainda não há centros comerciais, talvez
na América, lá há tudo isso, mas também é uma ameaça,
bem como os cães a ladrar durante o dia, as
crianças com insónia, mais do que tudo os sons, os sons. Só te quero
ouvir disse a rapariga ao telefone e ao telefone se calou,
olhos espetados no vidro da cabine, não as cabines
ainda não são de vidro um dia, de ar ou de éter. Talvez!
Precisamos de falar, preciso de te ouvir…
Admirara-se da perfeição de tudo, admirara-se da própria
perfeição. Depois, deixou-se levar pelo caminho e da casa
pois era de casa que se afastava afastou-se. Leu repetidamente
A primeira obrigação é acreditar que a nossa condição,
quanto à sua origem e à sua essência, é uma condição
desesperada que necessita de uma redenção. Repetiu mil
vezes a palavra redenção e toda a redenção se tornara
pela subtil mecânica uma impossível redenção. Disse
Erlösung e não acreditou no que disse enquanto da casa se afastava
pois era dela que vinha como se precisasse de falar e
por isso pisava a pisada relva que os cães abandonaram e
anónima crescia nos dias já um pouco maiores ainda no Inverno.
[Jorge Carreira Maia, 12 Poemas sob Il Canto Sospeso, de Luigi Nono]
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