25/06/08
Meditação sobre a Europa
Voltemos ao artigo de Adriano Moreira publicado ontem no DN e do qual se reproduziram aqui os excertos mais significativos. O artigo vale a pena ser lido, porque nele está presente uma análise que se funda num olhar arguto e sábio do fenómeno político. Assim, destaquemos os seguintes pontos:1. Na nova situação mundial, a agressão económica tornou-se um instrumento estratégico da maior importância e perigosidade.
2. A Europa, nesta nova situação, está particularmente vulnerável. Esta vulnerabilidade é dada por um conjunto de carências: matérias-primas, energia, mão-de-obra e de confiança.
3. A globalização está a implicar uma alteração do peso dos protagonistas: as antigas colónias têm agora a iniciativa, enquanto as antigas metrópoles europeias sofrem as consequências da sua intervenção.
4. A crise foi gerada por um sistema económico global. Este foi instalado com “oferecida abonação científica” e “pouca governança” (sic).
5. Essa mesma crise está a gerar grandes protestos, pois “a pobreza crescente, o desemprego, e a fome, incitam ao exercício de direitos naturais pouco condescendentes”.
É preciso meditar até ao fim as palavras de Adriano Moreira. Em primeiro lugar, ele mostra que o problema da economia global não é um problema de mercado, mas um problema político. Certas potências estão a utilizar a “agressão económica” como instrumento estratégico. O Ocidente, com pouca clarividência ou através de um claro acto de traição dos governos aos seus povos, descurou não apenas o interesse dos seus, como abriu o flanco para que os inimigos utilizassem a economia como arma numa política que visa a destruição desse mesmo Ocidente. É preciso perceber que o par conceptual fundamental do pensamento político é o par amigo/inimigo. Quando o Ocidente abriu as portas, os seus inimigos fizeram o que lhes competia: assestaram os golpes mais rudes que conseguiram. E, se olharmos lucidamente para a realidade, continuarão a fazê-lo se o medo não lhes tolher a audácia.
A fragilização do Ocidente, nomeadamente da Europa, prende-se com factores estruturais (matérias-primas, energia, mão-de-obra). Estes factores já eram fundamentais no século XIX, como o lembra Adriano Moreira, e foram eles que desencadearam os processos de colonização. Agora, porém, a Europa está tolhida. Qualquer movimento expansionista seria uma catástrofe, para além da ausência, no actual contexto, de qualquer legitimidade para tal exercício. A Europa pode ser ainda a maior potência comercial do mundo, mas que futuro terá quem não possui matérias-primas, energia e mão-de-obra? Mais, que futuro terá um espaço político nessa situação, que ainda por cima pode estar rodeado de inimigos?
Mas aos problemas externos, adicionam-se os internos. Adriano Moreira refere os protestos que há por toda a Europa e diz mais: centram-se em direitos naturais pouco condescendentes. Há, no texto de Moreira, uma ambiguidade sibilina. Parecendo tratar da necessidade da confiança e do reforço da preocupação política por parte dos governos, o que ele pré-anuncia é o direito dos povos à revolta. E essa revolta é uma revolta legítima pois prende-se ao exercício de “direitos naturais” fundamentais. Há, no texto, uma subtileza muito interessante. Enquanto, os teóricos e os próprios agentes políticos tendem a dividir os direitos, sublinhando o antagonismo entre os direitos civis (vida, liberdade, propriedade e integridade da pessoa), oriundos do direito natural de Locke, dos direitos sociais (os provenientes do Estado-Providência), Adriano Moreira faz um curto-circuito e mostra como os direitos sociais, embora ele não os refira a não ser indirectamente, se inscrevem nos direitos civis fundamentais. Quem conhece a teoria lockeana sabe perfeitamente da legitimidade da revolta perante o poder que não respeita os direitos civis (cf. Carta sobre a Tolerância).
A partir do texto citado, podemos compreender a situação da Europa decorrente do processo de globalização iniciado e incentivado por Margareth Tatcher e Ronald Reagan. A Europa tornou-se politicamente muito frágil, abrindo o flanco aos seus inimigos externos e criando condições para grandes rupturas sociais internas. Restam-me duas dúvidas:
1. Será que para enfrentar estes trabalhos de Hércules bastam lideranças fortes? Não será já demasiado tarde?
2. Será possível que as elites políticas europeias percebam a situação enquanto não abandonarem o conceito de «economia-política»? Mas será possível que elas abandonem o conceito fundamental que estruturou o pensamento liberal e o pensamento marxista, dominantes no Ocidente?
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Manuel António Pina - Salve-se quem puder
Como já acontecera no 6.º e 9.º anos, também os exames de Matemática do 12.º geraram, segundo jornais e TV, insolúvel controvérsia entre os estudantes, incapazes de se entender sobre se a prova foi "muito fácil", "muito acessível", "muito básica", "muito elementar" ou apenas "superfácil".O "óscar" vai para um atormentado aluno de Portimão que, ouvido pelo CM, declarou que a coisa chegou a ser "difícil por ser tão fácil". Outros, que terão imprudentemente passado o ano a estudar, estavam desolados: afinal, mais valia terem gozado umas boas noitadas em discotecas e no "Rock in Rio", pois - queixaram-se ao "Público" - foi "demasiado fácil".
Idênticas dúvidas afligiam os especialistas: para a Sociedade Portuguesa de Matemática, "grande número de questões (era) de resposta imediata e elementar", ao passo que para a APM, pelo contrário, eram "bastante acessíveis".
A ministra tinha prometido resultados e eles aí estão. Antes de abandonar o barco, e na iminência de naufrágio do "Titanic" das políticas educativas, o capitão manda lançar os botes à água gritando: "As estatísticas primeiro!". [Manuel António Pina, Jornal de Notícias de 25/06/2008]
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Retratos da Pátria – IV. A crise da Universidade
O défice cognitivo tem uma justificação simples: a miséria. A Universidade de Aveiro, uma das mais pujantes no país, está sem dinheiro para pagar as despesas de funcionamento. Segundo o Público, a Universidade está a utilizar dinheiro destinado à investigação para pagar os subsídios de férias de funcionários e professores. Eis o resultado do choque tecnológico que nos haveria de fazer entrar, a grande velocidade, na sociedade do conhecimento. Há uma coisa que ainda me consegue espantar: por que razão os políticos não têm medo de ser ridículos. Mentirosos, eu compreendo que sejam, mas ridículos?
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Retratos da Pátria – III. Falta de compreensão da denúncia da corrupção
Afinal é um problema cognitivo. Segundo a magistrada Maria José Morgado, "há dificuldade da sociedade portuguesa em compreender a denúncia" da corrupção e que os tribunais "deixam os denunciantes entregues a si próprios" (Público). Sempre me pareceu que Portugal vivia um défice cognitivo. A sociedade não compreende a denúncia da corrupção e os tribunais parece que também não. No domínio da incompreensão, vivemos numa sociedade igualitária: ninguém compreende que se denuncie a corrupção. Valha-nos ao menos isto.
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Retratos da Pátria – II. A saga do urbanismo
Paulo Morais, antigo vereador da Câmara Municipal do Porto, veio denunciar que os “terrenos valem em função do seu proprietário”. E eu a pensar que o mercado é que decidia do valor das coisas (Público). Sim, eu sei que Paulo Morais se refere às compras efectuadas por órgãos de poder, como as autarquias. Mas não é o poder autárquico o melhor que a Revolução de Abril produziu? Diz o senhor que os tribunais administrativos “têm estado um pouco adormecidos” nas questões de corrupção urbanística. Um pouco? Meu Deus, não andará também Paulo Morais com sono? Por fim, considerou que a Inspecção-Geral da Administração Local “é uma entidade inexistente” e ainda se mostrou “desiludido” com a Justiça, pois as investigações às suas denúncias têm avançado muito mais lentamente do que seria desejável. Mas a pergunta que importa fazer é: seria desejável para quem?
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Retratos da Pátria – I. O mundo do trabalho
Sempre que um governo precisa, para tranquilizar a má consciência de alguns, de um acordo dos representantes dos trabalhadores, lá está a sempre disponível UGT (Público). Por seu turno, a CGTP contínua fiel a si e abandona a mesa das negociações. Enfim, uma fotografia da falsidade em que assenta o mundo do trabalho em Portugal. Antes das negociações, já todos sabiam o resultado, até parece o futebol pátrio.
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24/06/08
Exodus - II
Em terra alheia sou peregrino e caminho ébrio
pelo asfalto, as torrentes de ar incendeiam-me o rosto,
as faces lívidas com que entro nesta cidade,
e deixam aberto em mim o martelar furioso
das pedras ígneas do silêncio. Não sei o preço
da viagem, nem tenho nos bolsos moedas,
ouro, prata. Algumas pedras da estrada,
se as penso, tomo na mão e
o peso verga-me o olhar para o alcatrão.
Às vezes, tão poucas, oiço vozes ao longe
e sonho com prados de água seca e fogos frios
de Outono, se transpira de cansaço.
Tão gélido o fogo, o que me trazem para escutar,
cor de cobre, metálico nas labaredas,
na terra entram e se ocultam: fogos de Outono,
a crisálida os habita e longe dos olhares
buscam moradia. Pela calada da noite
o seco véu… do Inverno ele virá.
Do turbilhão dos músculos soltam-se passos infalíveis,
o bater dos pés pelo chão, levam-me terra fora.
Que dizer? Ao vê-los, riem crianças.
A voz cala-se. Se o corpo caminha, ela, rouca, suspende-se,
e só os olhos se agitam no repouso da paisagem,
nova sempre vem, e entra por eles e filtra-se
no cérebro do que caminha, passos errantes,
a gerar riso de moscardo, cinzento,
sem pétalas, gretado como as águas amargas dos que
tiveram memória e dela foram despojados.
Desconheço as faces, o horizonte mas devolve, e não posso
comprar pão e vinho. Há muito deixei de ter mesa
onde os pousar e se regressar agora à casa branca,
um dia disseram-me esta é a tua casa,
as paredes não me reconhecerão e naquela mesa, se mesa
ainda tiver, não haverá para a sombra lugar,
nem guardanapo, nem prato de barro esperará
a ânsia da fome, haveria de a ter.
Resta-me caminhar, passar, as portas fechadas,
cadeados quebrados, janelas corridas.
Às vezes, tomam-me as sombras da tarde e a elas
entrego o nada que me resta, deuses mo deram.
Perdida a ausência que me movia,
ergue-se uma canção pura:
Delata-me à negra noite, aos terrores da infância.
O coração descompassado esvai-se num grito,
e logo o silêncio o arrebata e à planície da mudez o devolve.
Ergo-me sobre as pernas e, preso a meus passos,
retomo a viagem, olhos no horizonte,
um saco de ervas e dois relâmpagos por bagagem.
Jorge Carreira Maia (2007). Exodus.
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Luigi Nono - Prometeo, Tragedia dell'ascolto - Hölderlin
A versão de Luigi Nono da tragédia de Prometeu. Pouco recomendável para quem odeia a vanguarda. Com Lux Aeterna de Gyorgy Ligeti, esta é uma das peças da vanguarda europeia de que mais gosto, ou não fora a existência de um mito grego como pano de fundo. Aliás, seria interessante fazer um périplo de leitura entre João Evagelista (Evangelho, Apocalipse) e o Prometeu Agrilhoado de Ésquilo, com as obras de Ligeti e de Nono como pano de fundo.
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Das influências intelectuais
As revistas Foreign Policy (EUA) e Prospect (Reino Unido) elaboraram uma lista dos 100 intelectuais mais influentes no mundo. Para tal organizaram uma votação, na qual participaram meio milhão de pessoas (Público). O método vale o que vale e presta-se às mais diversas constatações e contestações. Mas os resultados não deixam de ser interessantes. Nos primeiros 10 lugares, encontram-se apenas intelectuais de orientação muçulmana. Estes dados permitem várias leituras concomitantes. Em primeiro lugar, o mundo islâmico começa a interessar-se decisivamente por este tipo de coisas; em segundo, a comunidade muçulmana mundial, apesar das suas diferenças, é, hoje em dia, um claro actor histórico consciente da sua identidade e do seu papel no mundo; em terceiro, parece que o Ocidente que foi grande devido aos seus intelectuais se desinteressou deles (o primeiro ocidental é Noam Chomsky).É como se estivéssemos a assistir a um render da guarda: o Ocidente desistiu de pensar ao desinteressar-se pelo trabalho e as ideias dos seus intelectuais, enquanto o Islão começa a olhar para eles com esperança de uma afirmação que o retire da medievalidade. Os nomes que o Público refere não pertencem a radicais e fundamentalistas, mas a gente que contribui para um Islão civilizado e respeitador dos direitos do homem. Nem sempre as notícias são más.
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O véu de Maya
Os portugueses são os mais pessimistas da União Europeia, segundo o Eurobarómetro (Público). Parece que o mirífico país do plano tecnológico não resistiu ao choque. Como não sou vidente, não sei qual o futuro reservado pelos deuses a Sócrates e companhia. Mas, nestes anos de democracia, nunca houve um governo tão arrogante. Sócrates pensou que governava o país a partir de uma central de propaganda e que a propaganda chegava para disfarçar os problemas reais para os quais ele não estava preparado. Agora descobre que o véu de Maya que pretendeu estender sobre o país se rompe por tudo o que é sítio e deixa ver o tenebroso da realidade primordial. Os portugueses, como bons bacantes, cultuam o pessimismo, isto é, apercebem-se da realidade que é a sua. Depois de um Apolo tecnológico, refugiam-se em Diónisos.
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Mugabe o ruído e o silêncio
O caso Mugabe é um dos mais tristes na muito triste história política africana. O ruído da desistência de Morgan Tsvangirai é ensurdecedor. Por cá, o silêncio de certas vozes amigas dos povos não deixa de fazer o seu pequeno barulho. Devem achar que o estatuto de anticolonislista de Mugabe permite tudo.
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Adriano Moreira - A fragilidade europeia
De facto o globalismo económico destacou a agressão económica como um instrumento estratégico da maior importância e perigosidade. Neste caso, a Europa está numa situação de vulnerabilidade aguda, como subitamente se tornou evidente com a crise dos combustíveis.A expansão colonial do século XIX foi justificada pelas democracias europeias da frente atlântica, nos respectivos parlamentos, pela necessidade de dominar as fontes de matérias-primas e garantir mercados de produtos acabados. Destruído esse império, a realidade, demonstrada pelas manifestações que desfilam pelas capitais europeias, é que a Europa é um espaço com debilidades, carente de matérias-primas, carente de energia, carente de mão-de-obra, e começa a dar sinais de carência de confiança.
A globalização implica sistemas abertos que sofrem as intervenções cuja origem a lei da reflexividade situa nas antigas dependências coloniais, e os sinais de que a capacidade europeia de reformular e reanimar o sistema está em dificuldades são eloquentes. A falta actual de lideranças poderosas e confiáveis também não ajuda a inverter a tendência
(…)
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Mário Soares - O regresso da política
Falta à União cidadania europeia. Os europeus, de todos os países membros, têm poucos meios para influenciar as decisões dos dirigentes e mesmo para as compreender. Estão a leste do que se congemina em Bruxelas. Ora é isso que leva ao desconhecimento do que está em jogo - de cada vez que são consultados - e à indiferença.Alheiam-se dos problemas. O que não quer dizer que estejam dispostos a consentir que os seus Estados abandonem a construção europeia ou saiam da Comunidade. Porque a União é um grande e original projecto político que trouxe à Europa cinquenta anos de paz, de bem-estar às sociedades europeias - mesmo às mais desiguais - e de prestígio no mundo inteiro.
É verdade que desde há alguns anos a burocracia de Bruxelas e a influência hegemónica americana parecem ter subvertido os grandes ideais europeus. A Europa tornou-se muito conservadora. As duas maiores famílias políticas europeias - que praticamente fizeram a Europa - foram: a socialista ou social-democrata e a democracia cristã. Ambas perderam força. Hoje, em 27 Estados europeus, haverá apenas 3 ou 4 governos que ousam afirmar-se socialistas ou trabalhistas; e as democracias cristãs, tirando a alemã, evoluíram no sentido dos partidos populares, populistas e ultraconservadores, o que faz toda a diferença.
As crises múltiplas - e as terríveis dificuldades que trazem consigo -, para encontrarem qualquer solução e não desaguarem no caos ou em revoltas sangrentas, vão obrigar ao regresso em força da política e dos grandes ideais humanistas. Requer-se imaginação estratégica, persistência e coragem, muita coragem. Para transformar o que hoje nos parece impossível numa promissora realidade, amanhã. [Mário Soares, Diário de Notícias de 24/07/08]
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23/06/08
Exodus - I
Não há quem saia pela manhã a olhar
as dispersas sementeiras, os campos invadiram.
A mão crispou-se, agora novelo de linho
esquecido sob a luz da clarabóia.
Não há seta que indique o lugar onde o desejo
se quer e irrompe no crepúsculo matinal,
entre corações desfeitos, a gotejar ervas,
e mãos presas à viagem, assim começada,
para um deserto de páginas em branco,
sem luz que ilumine, cor que incendeie,
sílabas, por filhos palavras dêem.
Não é cântico de júbilo o que na garganta
se forma, nem palavra tingida pela acidez
dos dias. O arco-íris esbateu-se, as nuvens
ficaram mais opacas, quase sólidas,
numa atmosfera de cactos, ruas vazias,
faces atónitas levemente estropiadas. Se
cicatrizes ainda têm, nelas nasceu uma erva rasa,
amarela, queimada pelo cálcio, a tudo devora.
Não é âncora o que ofereço, nem lenço
para lágrimas, se lágrimas ainda te ardem
sobre a pele rugosa, a face, dizes que te disseram.
Espelhos não fabrico, nem do vidro
sei o segredo, nem das mãos o aconchego.
Canto na escuridão para não morrer,
para me ouvir e adivinhar o que ainda sou
e nesta ilusão caminho estrada fora,
os pés no chão, e na cabeça, ainda a tenho,
o ar da noite preso numa caravela.
Ao arder, ponho máscara de cera e se invoco
o deus, oiço a voz de quem de casa não sai
a olhar as dispersas sementeiras;
no fulgor do passado, os campos invadiam.
Jorge Carreira Maia (2007). Exodus.
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Exodus, um novo ciclo
O exercício que tem o nome de Exodus parte destas constatações. Parte da situação de ruína e tenta elevar-se ao poético, sem talvez abandonar o chão prosaico de onde parte. O poético, se o houver, não é dado pelas estratégias habituais ligados ao ritmo, à métrica, à rima, à convenção técnica, mas a esta e àquela palavra que se libertam da sua natureza prosaica e ao jogo semântico que institui um universo em cada poema, digamos assim.
Exodus não descreve, todavia, universos existentes, nem é inspirado no livro bíblico com o mesmo nome, apesar de apresentar tantos poemas como capítulos existentes nesse livro, quarenta. Há também em quase todos os poemas uma pequena citação dissimulada de cada um dos capítulos, mas essas citações nem podem sequer ser consideradas pontes intertextuais. São jogos de adivinhação presos em universos que se chocam com aquele que habitamos. Mas tudo isto não passa de suposições de quem tenta libertar do magma da prosa uma palavra ou um mundo.
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José Afonso - Redondo Vocábulo
É evidente que este José Afonso é melhor do que outros mais vampirescos. Embora cada coisa tenha o seu lugar, o génio de José Afonso é muito mais nítido quando é menos político. Opiniões, dirão. Opiniões, confirmo.
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Um país em colapso
Os sindicatos da polícia preparam uma vaga de contestação à política governamental. Depois de professores, camionistas, militares, funcionários públicos, trabalhadores por contra de outrem, chega agora a vez das forças militarizadas. Para lá das razões que cabem a cada sector profissional, o que fica à mostra é um país em colapso, um país estruturado numa sociedade sentida como largamente injusta. Trinta anos de democracia foram insuficientes para tapar as profundas fissuras que atravessam, há séculos, a sociedade portuguesa. O mais problemático, porém, é que se criou um sentimento de que as “fendas” sociais estão a alastrar de uma forma irremediável, e que a democracia não é solução mas parte do problema. Isto é particularmente perigoso.
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Congresso do PSD
Estando fora no fim-de-semana, o acompanhamento do congresso do PSD foi muito débil. Agora que o sínodo terminou, parece que ficou confirmado, tendo em consideração o número de apoios granjeados (e este argumento é o único), que Pedro Passos Coelho é mesmo um génio da política. Manuela Ferreira Leite não passará assim de uma diaconisa que, como na Igreja primitiva, tem mais uma função assistencial e caritativa do que de direcção apostólica. A fabricação de génios políticos no PSD é tão rápida como aquela que acontece, por obra do Ministério da Educação, na Matemática.
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Por uma vez, de acordo com Daniel Sampaio
Estava tudo a caminhar tão bem. Procurador-Geral da República e Ministra da Educação até pareciam de acordo: a violência escolar tinha diminuído. Também que indisciplina não era violência, etc., etc. Mas o psiquiatra oficial do regime, o Professor Daniel Sampaio, veio pôr fim ao idílio: afinal, a indisciplina é uma forma de violência. Segundo o Público, Sampaio terá dito: «Há uma diferença entre indisciplina e violência mas quando se diz que indisciplina nada tem a ver com violência não estamos no bom caminho.»É claro que Sampaio tem razão. A indisciplina atinge o direito dos outros alunos a aprender e a ter um ambiente normal na escola. Atinge também o direito dos professores a ensinar. A indisciplina é uma forma de violência difusa. Por norma, não ultrapassa a fronteira e não descamba em violência física, mas os direitos dos outros são de facto coarctados e isso é uma clara forma de violência. Esse tipo de violência pode ter consequências nefastas não apenas no aproveitamento imediato das vítimas, mas também no seu futuro escolar. Por uma vez, estou de acordo com Daniel Sampaio.
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