17/02/08
15/02/08
António Ramos Rosa - VII
Cavalo, cavalo da terra, saltas sobre
toda a pobreza chã ou obstáculo.
O vigor da palavra é evidência acesa
é saber-te do chão até à crina.
Quem te arranca a força da raiz
em que vale te cavam ou te calam,
de perfil ou de fronte és cavalo sempre,
cavalo de sempre.
O teu nome é uma parede que nos fala
sobre o teu silêncio. E é um nome
que não se excede e horizontal se lê,
a prumo.
António Ramos Rosa, Ciclo do Cavalo, 1975
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Philip Glass - Koyaanisqatsi
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American nightmare
Tornou-se um modo de vida. Entra-se num liceu ou numa universidade, mata-se umas quantas pessoas, no fim dá-se um tiro em si mesmo, como aconteceu há pouco. Uma vez ou duas e todos consideram esses casos como excepções. Quando lhe perdemos a conta e os acontecimentos deixam de nos espantar, então é porque se tornaram normais. Que a pulsão homicida/suicida que habita os jovens americanos não seja motivo de medidas políticas drásticas, mostra o carácter patológico da própria sociedade americana. O american dream está a tornar-se num nightmare.
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Jornal Torrejano, 15 de Fevereiro de 2008
Nova edição on-line do Jornal Torrejano. Hoje a primeira página refere o apoio jurídico e financeiro do Município a quem apostar no centro histórico de Torres Novas. Sublinhe-se, ainda, a contestação da Câmara à penalização imposta pelo governo por excesso de endividamento (afinal em que ficamos?). Referência ainda para o empate no derby concelhio, entre o Desportivo de Torres Novas e o Atlético Riachense.Na opinião, José Ricardo Costa escreve Valhelhas [recorda-me sempre o Valhalla, o mágico castelo de Odin] Europe’s West Coast, Santana-Maia Leonardo, Sim, Senhor Primeiro-Ministro, Jorge Salgado Simões, Fora de Jogo, José Gil Serôdio, Bem-vindos, Carlos Nuno, A Saber a Chocolate, José Trincão Marques, A massificação da advocacia, Carlos Henriques, A Festa da Taça e este blogger, As divagações do arcebispo.
Cumprido o ritual, para a semana, se o eterno retorno do mesmo estiver de acordo, haverá mais notícias do Jornal Torrejano. Bom fim-de-semana.
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14/02/08
António Ramos Rosa - VI Numa Fronte Ausente
Terra e noite,
as mãos escavam.
Insistem e desfazem-se
numa fronte ausente.
Na cabeça subsistem
algumas palavras inúteis.
A mão devagar traça
- vai traçar -
uma rede de sinais de que dependo.
A luz descobre o corpo.
Algumas palavras a mais desaparecem.
Neste instante
a pedra é nua.
António Ramos Rosa, A Pedra Nua, 1972
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Manuel António Pina - Cem anos depois
"Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não discriminando já o bem do mal, sem palavra, sem vergonha, sem carácter (...). Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo (
). Dois partidos (...) sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes (...), análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se amalgamando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no Parlamento, de não caberem todos de uma vez na mesma sala de jantar (...)". Isto foi escrito há 100 anos por Guerra Junqueiro, estrebuchava a Monarquia (que, a pretexto do regicídio, alguns patuscos de "blaser" e emblema da Causa Monárquica na lapela nos têm recentemente tentado vender como um eldorado perdido) nos últimos estertores. Porque o chapéu assenta singularmente no clima social e político finissecular que de novo vivemos, "Pátria" deve ser hoje o livro mais citado na blogosfera portuguesa, onde, expulsa dos media tradicionais, se exila grande parte da massa crítica que, entre nós, ainda mexe. É um sinal, o sintoma de uma doença. Até generais já andam por aí a assumir-se publicamente como "reservas morais" da nação. Quando a "reserva moral" já está na tropa, há boas razões de sobressalto cívico. [Manuel António Pina, Jornal de Notícias, 14/02/2008]
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Jessye Norman - Dido's lament [Henry Purcell]
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O Dr. Soares e "Portugal Europe’s West Coast"
O Dr. Mário Soares criticou hoje (ver aqui) a campanha internacional de promoção turística de Portugal baseada no célebre cartaz «Portugal Europe’s West Coast». Refere os cartazes inúteis, estamos todos de acordo, e de gosto duvidoso, aqui discordo acentuadamente do Dr. Soares. Este gosto, daquele senhor doutor que é ministro da economia, não é duvidoso. Pelo contrário, não deixa dúvidas a ninguém e pertence à mesma esfera de gosto das célebres casas do senhor engenheiro civil, que Deus, em desespero de causa e para nos castigar de alguma infidelidade, nos deu por governante. O Dr. Soares pertence a outro mundo, conhecia os pintores, descia as escadas e ia ver a galeria do Manuel de Brito, comprava livros, logo ali ao lado, falava com escritores, etc. Mas a gente, que tomou conta daquele que foi o seu partido, não tem gosto duvidoso. Tem mau gosto, é gente, com uma excepção ou outra e apesar dos títulos académicos, pirosa, possidónia, arrivista. É tudo gente da West Coast; com um empurrãozinho chegam num instante à East Coast dos States, onde fantasiam ser senadores ou congressistas. Que Deus os leve, para lá, claro. O problema é que já só há gente dessa...
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Marcadores: Escrito na areia, Política
Desafio aos leitores - resolução do enigma
O enigma colocado, há dias, aqui, mereceu apenas uma resposta, da leitora Maria Correia, que resolveu uma parte das questões colocadas. De facto, os objectos, os belíssimos objectos, são fotografias. Também é verdade que estabelecem uma clara conexão com a pintura impressionista. São fotografias dos irmãos Lumière, das primeiras fotografias que eles produziram a cores a partir de uma sua invenção. Em 1904, descobriram um método para fixar a cor das fotografias. Era uma placa de vidro polvilhada com fécula de batata, a que chamaram Autochrome. Estas fotografias fizeram parte de uma exposição, em Lyon, França, denominada LA VIE EN COULEURS - Centenaire de l’Autochrome Lumière - 1904 – 2004. Para além do claro diálogo com o impressionismo pictórico, todas as fotografias a que tive acesso, graças a pessoa amiga, são, como as publicadas, de uma comovente beleza. De uma beleza não apenas estética, mas também social, como se quisessem justificar para a eternidade o epíteto de Belle Époque. São, como diz o organizador da exposição, os último testemunhos de um tempo definitivamente morto. Em breve a primeira guerra mundial vinha anunciar o princípio da decadência da Europa, decadência que, apesar das aparências, apenas se acentuou com o tempo.
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Escola a tempo inteiro
Depois dos alunos do primeiro ciclo, os do segundo ciclo vão passar a ter escola a tempo inteiro. Eles passam na escola, actualmente, apenas 39 horas semanais. Vão passar 55 horas. Os pais concordam, claro, e os sindicatos, com algumas reticências, também. Eu, pessoalmente, acho a medida do governo pouco ambiciosa. As crianças deveriam ser internadas nas escolas depois dos três anos, e teriam 3 horas ao fim-de-semana para ver os pais biológicos e uma semana por altura do Verão, para os mesmos fins deletérios. O resto do tempo deveria ser passado em aulas divertidas, cheias de computadores e em actividades de enriquecimento curricular. Mas a falta de ambição não se restringe ao horário reduzido do projecto. O âmbito é pouco ambicioso, passe a cacofonia. Se eu estivesse no lugar da ministra da educação, teria como objectivo, nesta legislatura, implementar (assim mesmo) a experiência até ao final do secundário. No início da próxima legislatura, o programa da escola a tempo inteiro deveria ser alargado ao ministério do professor Gago. Precisamos de uma universidade a tempo inteiro, com imensas camaratas, aulas de recuperação, educação cívica, estudo acompanhado e outras nobres actividades de enriquecimento curricular. Só assim se responsabiliza os pais biológicos pela educação dos seus geniais rebentos. Para completar o processo, dever-se-á também criar o programa de professor a tempo inteiro. O futuro professor deverá acompanhar as crianças desde os 3 anos até ao fim dos estudos, 24 horas por dia. O professor deverá fazer, perante o estado representado pelo ministério da educação, prova de virgindade e pronunciar os sacramentais votos de obediência à divina presciência do ministério da educação, de pobreza, aceitando trabalhar apenas pelas magras refeições que lhe permitam acompanhar as crianças, e castidade para evitar contribuir para o desmando que é a multiplicação da espécie e, porque sendo professor, não tem direito a qualquer tipo de prazer, por mais orgânico que seja. A masturbação está interdita.
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13/02/08
António Ramos Rosa - V Onde é aqui
Onde é que,
o centro,
onde se respira,
a cama limpa
ao corpo inteiro e nu.
Onde é a fome e o braço toca
o esplendor.
Respira o ventre,
a vela incha
ao sol e ao mar sem fim.
Onde é aqui,
a fome nua,
a árvore exacata
no centro
da alegria,
a luz e o olhar
aberto ao mar.
Onde é onde
a mão sabe
a carícia da anca
e a língua fabrica
o seu sabor a sol.
Onde o fogo acende
o pulso do poema.
António Ramos Rosa, Nos seus olhos de silêncio, 1970
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Erik Satie - Gymnopedia No 1
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Os professores para as autarquias, já!
Mais uma excelente notícia na educação. A entrega da gestão e contratação de professores às autarquias. Agora sim, os concursos vão ser justos e não vai haver nepotismo, nem escolhas preferenciais dos amigos do clube político que dominar a Câmara. Era indecente o que ocorria no concurso de professores: era claro, transparente e não havia lugar a cunhas, tudo ordenado pela média profissional e tempo de serviço. Não se está mesmo a ver que há critérios muito mais relevantes do que esses. Como é que tal malevolência se poderia manter?
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Marcadores: Educação, Escrito na areia, Política
12/02/08
António Ramos Rosa - IV Horizonte Imediato
Todos os dias me apoio em qualquer coisa
ando, como, esqueço
alguma coisa aprendo
e desaprendo
alguma coisa limpa nua grave
surge
ao lado passa
eu não sou este desejo
que às vezes arde
alto sobre o chão
António Ramos Rosa, Estou Vivo e Escrevo Sol, 1966
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O fim da política e o governo mundial
Subjacentes aos nossos preconceitos actuais contra a política encontram-se a esperança e o medo: o medo de que a humanidade possa destruir-se a si própria através da política e dos meios de força hoje ao seu dispor, e, em ligação com este medo, a esperança de que a humanidade caia em si e varra do mundo, não a espécie humana, mas a política. Poderia fazê-lo através de um governo mundial que transforme o Estado num aparelho administrativo, resolva burocraticamente os conflitos políticos e substitua os exércitos por forças de polícia. Se definirmos a politica no seu sentido habitual, como uma relação entre os governantes e os governados, esta esperança é evidentemente pura utopia. Se adoptássemos semelhante perspectiva, acabaríamos não na abolição da política, mas num despotismo de proporções maciças no qual o abismo separando os governantes dos governados seria tão gigantesco que qualquer espécie de revolta deixaria de ser possível, para já não falarmos de qualquer forma de controle dos governantes pelos governados. [Hannah Arendt (2007), A Promessa da Política, Lisboa: Relógio d’Água, pp. 86]--------
Este texto data de 1951, mas continua a manter plenamente a sua actualidade. Mais do que isso, ele desmonta um dos perigos que, sem nos apercebermos, começa a instalar-se no Ocidente. O desígnio político de uma parte substancial do Islão é o do estabelecimento de um califado universal, a ideia de um governo mundial regido pela ‘sharia’, a lei corânica, a qual aboliria o direito positivo das nações e submeteria todos os povos e todos os indivíduos à «lei divina». É fácil perceber que essa lei divina seria aplicada não por Deus mas pelos homens. Também é fácil perceber que essa situação configuraria aquilo que Hannah Arendt diz do governo mundial: um despotismo ilimitado e uma impossibilidade absoluta dos governados exercerem qualquer controlo sobre os governantes.
Salvador Dali - Cristo en "El Apocalipsis de San Juan"
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