18/03/09
16/03/09
A vaidade de parecer civilizado
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15/03/09
Moisés David Ferreira - Reencontro XXV
(o copo tornando ampla
cada sílaba, unindo
um sopro fundo
ao estremecimento das mãos.
fronteira, fractura, frémito:
a língua avolumada
num iridescente vórtice –
e, entre a chuva e a manhã,
uma
ponte aberta em resplendor.)
-----------------------------------------------
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Heimat-Trilogy (Heimat / Heimat II / Heimat 3)
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Vasco Pulido Valente - O Estado paga e o povo pasma
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14/03/09
Moisés David Ferreira - Reencontro XXIV
e a infância corre-te, indesvendada,
imóvel,
no enigma dos dias diluídos,
chegada do mar, segurando-o
num búzio, num
fio de sal, num peixe pressentido. conta-te
o seu rol de adivinhações,
todos os cais, todos os raptos,
todas as impossíveis rotas –
e assim te concebe olhando-a,
e longamente te prepara
para o nascimento.
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Ute Lemper - Alabama Song
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Marcadores: Música
Manifestações argumentativas
Todos sabemos que uma parte do discurso político é puramente ociosa. Os políticos dizem coisas para preencher o espaço reservado à discursividade. Por norma, dizem idiotices políticas, coisas sem sentido. Veja-se o que disse o ilustre engenheiro, que a vontade de Deus (se a voz do povo é a voz de Deus, então a vontade do povo é a vontade de Deus) nos deu por timoneiro, nesta hora de barco à deriva (sinal seguro de que a divindade está apostada em que nos afoguemos), sobre a manifestação de ontem levada a efeito pela CGTP. Por exemplo, "Lamento que nessas manifestações não existam argumentos, mas apenas acusações e insultos. Lamento que organizações sindicais se limitem ao insulto e ao insulto pessoal, chamando-me mentiroso."
Para além da sua estratégia de autovitimização, estratégia muito a propósito que se vem a desenhar desde a nova eclosão do caso Freeport, devido aos manifestantes lhe chamarem mentiroso, o que eu acho notável é a propensão intelectual que o nosso engenheiro parece ter. Lamenta, sua Ex.ª, que na manifestação não haja argumentos. Portanto, José Sócrates deveria esperar que uma manifestação popular fosse uma espécie de emanação daquelas aulas universitárias que ele deve ter frequentado para se licenciar. Aulas onde alunos e professores se entregavam a longas cadeias de raciocínios, vigiados na sua validade lógica e verosimilhança retórica.
Eu já estou a imaginar aquela manifestação da CGTP não a gritar slogans (coisa que ocorre em todas as manifestações que há por esse vasto mundo), mas a desfiar argumentos, contra-argumentos, objecções e refutações. Carvalho da Silva não discursaria, mas avaliaria as melhores teses e respectiva argumentação, não do ponto de vista político e social, mas lógico-retórico. Eis o que faz entregar a direcção de um país a um engenheiro.
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Marcadores: Política
13/03/09
Moisés David Ferreira - Reencontro XXIII
o desamparo é a mãe da intensidade.
também o fogo, parco
em seu começo, frugívoro,
se dilata logo, acudindo a quem
pacientemente lhe confia os olhos.
na insónia desligada da vigília, o rasgão
a dar para a íntima
dança ígnea.
– despetalar o sono até que ver
seja o trânsito entre o livro e o relâmpago,
e as mãos caibam
tanto no fôlego
que se lancem pela água como
uma aliança:
grandes
sinais.
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VeljoTormis - Raua needmine
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Marcadores: Música
Antônio Delfim Netto - O fracasso da economia acadêmica
Para quem quiser perceber mais um pouco da crise financeira internacional, aqui fica um excelente artigo de Antônio Delfim Netto, antigo ministro brasileiro da Fazenda, e publicado na revista Valor:
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Marcadores: Economia
Jornal Torrejano, 13 de Março de 2009
Disponível está a edição digital do Jornal Torrejano. Destaque para a "confluência" de posições entre o sindicalismo ea Igreja Católica relativa à segurança social: a necessidade de abrir novos caminhos. Referência para o atletismo na zona: meeting em Alcanena e corta-mato em Riachos. No Nersant, um especialista analisou o novo código do trabalho.
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Marcadores: Jornal Torrejano
Liberdade e obediência
Para compreender o verdadeiro valor da obediência espiritual, devemos distinguir cuidadosamente a vontade própria e a liberdade real. Esta distinção tem um grande importância, porque somos chamados a ser livres na obediência e não a sacrificar toda a liberdade para responder, como máquinas, à autoridade.
A obediência a Deus é a forma mais alta da liberdade. A sujeição à tirania do automatismo, que este venha dos caprichos da vontade própria ou das ordens cegas do despotismo, das convenções, da rotina ou da inércia, faz-nos perder toda a liberdade.
Uma das ilusões mais comuns consiste consiste em crer que ao opor os meus caprichos às ordens da autoridade, eu manifesto a minha liberdade, eu ajo «espontaneamente». Ora esta maneira de agor não tem a ver com a espontaneidade verdadeira e não conduz de modo nenhum à verdadeira liberdade, mas antes à insubordinação. [Thomas Merton (1963). Semences de Contemplation. Paris: Ed. du Seuil, pp. 148]
-------------------------
Esta citação de Thomas Merton, monge trapista, permite perceber por que motivo, no conflito entre professores e Ministério da Educação, a Igreja Católica portuguesa esteve genericamente do lado dos professores. A Igreja tem uma longa experiência sobre a relação entre a autoridade, a liberdade e a obediência, e sabe perfeitamente, pelo menos nos seus círculos mais esclarecidos, que a autoridade e a obediência, mesmo fora dos mosteiros contemplativos, são o fundamento mais sólido da liberdade, e, por isso mesmo, da educação das novas gerações. É deste cristianismo que a Europa precisa. Precisa que ele penetre novamente no tecido social. Isto não significa, porém, que aquilo que é necessário acontecer aconteça, de facto. Mas, caso não aconteça, a evolução da Europa será problemática. Como é que a liberdade poderá subsistir numa cultura que cortou a relação com uma das suas fontes mais originárias?
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Leituras
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Marcadores: Admirável Mundo Novo, Ciência
12/03/09
Moisés David Ferreira - Reencontro XXII
repito: o vento
é um galope travejado de crisálidas,
uma súplica submersa
à máscara surda que
sob o ténue acorde trazes
que te vê o medo.
repito: espera-te
o derradeiro assombro em cada sopro,
uma volátil erupção, vértebras, a
passada oblíqua, o inacessível rito
de tocar coisas
onde incessantemente principiem: fonte
(outra vez o imo
do circum-naufrágio).
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Doris Monteiro - Samba De Verão
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Marcadores: Música
Má sorte ser cronista
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Marcadores: Política
Afinal, não haverá pré-socráticos
Foi apresentado o governo de Sócrates e, como era de esperar, rapidamente se percebeu que não houve nenhuma maioria de esquerda nas últimas eleições. O PS ganhou ao centro e formou um governo de centro-esquerda. Quem estava à espera de um hipotético carnaval baseado na demagogia folclórica e na irresponsabilidade reivindicativa sofreu uma desilusão. O novo primeiro-ministro teve, após a vitória eleitoral, duas novas vitórias: deu credibilidade à formação do seu governo e formou-o com uma forte imagem de coesão e reformismo.
Dos ministros escolhidos, ressalta uma mensagem de responsabilidade e de interesse em enfrentar as dificuldades do país. Boas notícias são Campos e Cunha nas Finanças e Manuel Pinho na Economia. Dois homens que vêm de fora do PS com uma imagem de grande rigor. O retorno de Mariano Gago à Ciência e Tecnologia e de Correia de Campos à Saúde são também excelentes notícias. Freitas do Amaral carimba a matriz centrista do governo. Na Educação, há, pelo menos, uma boa notícia: nem Ana Benavente, nem Santos Silva vão tutelar a pasta. Esperemos que a nova ministra seja insensível à demagogia e irresponsabilidade daqueles que estão empenhados em prosseguir o caminho de destruição do sistema educativo português.
Aquilo que, todavia, espera o novo governo parece ser mais um trabalho para Hércules do que para Sócrates. Equilibrar as Finanças, endireitar a Segurança Social, reformar a Saúde, a Administração Pública e a Justiça, desenvolver e modernizar a Economia, pôr ordem na Educação. Em todas estas áreas movem-se poderosos interesses e existem fortes obstáculos. Muitas das medidas a tomar terão custos sociais e serão contestadas, no Parlamento, por todas as oposições e na rua pelo PCP e pelo BE. O caminho de Sócrates, como o do Céu, é estreito, mesmo muito estreito. Pede-se-lhe que faça aquilo que nenhum primeiro-ministro, antes dele, fez: cortar nos privilégios instalados, fomentar o reformismo inovador, equilibrar e dar coesão à comunidade nacional. Que seja ao mesmo tempo liberal na economia e social-democrata na concepção da comunidade política.
Ora, se fugir das reformas, como o fizeram Cavaco e Guterres, perderá as próximas eleições sem honra nem glória e deixará o país num pântano ainda maior do que o actual. Se tiver coragem, se enfrentar com decisão os problemas, muito provavelmente perderá na mesma as próximas eleições, mas perderá com honra e deixará um país com futuro aberto à sua frente. E poderá acontecer que os eleitores percebam o que fez.
A Sócrates pede-se-lhe uma inteligência de Aristóteles e uma força de Hércules. Se as tiver, então um dia, quando se estudar a vida política da III República, falar-se-á em Sócrates e em pré-socráticos. Caso contrário, o socratismo não terá sido mais do que um sofístico equívoco.
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Marcadores: Comentário, Política
Da origem do celibato dos padres
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Marcadores: Filosofia
11/03/09
Moisés David Ferreira - Reencontro XXI
os livros inclinam a sua espessura
para o interior dos órgãos.
(quando qualquer coisa é mínima,
rompe a idade
como uma pedra rara,
a sua álgida pulsação arremessada
ao desespero.)
os livros – nunca abertos, afinal – assestam
essa fluidez aos ombros –
e um discreto silêncio,
como o de um arroio à beira
de uma grande solitude,
unge de atenção o tacto.
(um livro, afinal, é uma atenção
que impuramente se conduz
ao lugar de um começo.)
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Sigur Ros- The Nothing Song
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Marcadores: Música
A reconquista das Espanhas
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Manuel António Pina - Ainda a "educação"
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Marcadores: Comentário, Educação, Ler os outros
Sociedade e violência
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10/03/09
Moisés David Ferreira - Reencontro XX
o frio começa a rodar sobre a aridez.
e as mãos refluem, recusam
uma existência ponderada.
resta-te, sobre um sal encapelado
e fúnebre, um caminho de ecos,
um crepúsculo eléctrico,
cada vez menos palavras franqueando
o prolongado delírio,
cada vez mais desconexas sílabas,
cada vez mais vogais
permitindo à voz desmantelar-se
num aceno, chegar
à encruzilhada que a noite ainda vela.
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Susana Baca - De Los Amores
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Marcadores: Música
Lá volta a questão dos níveis
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Marcadores: Ambiente
José Trincão Marques - Terra Nossa
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Os comunistas e a educação
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09/03/09
Moisés David Ferreira - Reencontro XIX
o poema empurra-te para uma fímbria
de litorais. se a mesa se dobra, acercas
uma viagem, e a vertigem debruça-se
como um selo sobre o júbilo.
exiguamente colado à escuridão,
escreves – e a trémula vida dos nomes
socorre-te do estertor das fábulas.
demorada em sua leveza,
cada fonte é também
um ramo de cicatrizes
que floresce para um sangue anterior
ao tempo, sob
a vigilância da fauna
que desune o esqueleto.
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Stephan Micus - Mikhail's Dream
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A virtude da honestidade
António Barreto escreveu, ontem, no Póblico o seguinte: «À honestidade aconteceu algo de parecido. A ponto de se considerar que uma pessoa honesta "é parva" e "não sabe da poda". Abundam os lugares-comuns que revelam que a honestidade não é um valor com muita saída. Quem defende a honestidade é considerado "ingénuo". De alguém que perde tempo a escrever sobre a necessidade da honestidade na vida pública se dirá simplesmente que perde tempo com "sermões". De um honesto se garante que nunca será rico nem irá muito longe na política. Um comerciante que não "mete a unha" é palerma. Um corretor de bolsa que não usa informação privilegiada e não manipula os concorrentes é um mau profissional. Um político que, antes das eleições, não esconde as dificuldades, para só as revelar depois de ganhar, é um "tonto" e deveria mudar de profissão. Um empresário que nada oculta aos trabalhadores é um "samaritano" sem killer instinct. Um estudante que copia ou plagia só merece condenação se for descoberto. Aliás, se for "apanhado", a complacência é de rigor.»
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Triste tristeza, por que és tão triste...
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Marcadores: Política
O exemplo grego
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08/03/09
Moisés David Ferreira - Reencontro XVIII
(trabalhar no decalque de uma labareda,
a manhã um violino trespassando
as marés de simulacros.
e a garganta, presa a uma cascata,
de repente a já não poder mais:
arrancando ao som um acordo visceral, impetuoso –
e braços, pernas, cabelos todos
de regresso a um principiar de mundo,
vogais sem leme, sob o inexorável
recuo da boca, achando
o arquipélago final –
tantas vezes afundado no
sujo lacre da lucidez.)
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Charles Aznavour - Que c'est triste Venise
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Em busca do suicídio
Mário Nogueira emergiu, na crise que assola a educação, como a figura central da representação dos professores. Infelizmente! Esta ameaça de greve às avaliações mostra que a inteligência é coisa que não abunda lá para o lado dos sindicatos. Esta gente não terá percebido que na tentativa anterior de greve às avaliações, o governo trucidou os professores e abriu caminho para o conjunto de malfeitorias que se propôs fazer? Eu sei que há professores que defendem esse tipo de radicalização do conflito. Mas essa posição coloca os professores em maus lençóis. Em primeiro lugar, transforma o professor num mero assalariado, idêntico a qualquer outro que pode fazer greve em quaisquer circunstâncias. Isso significa que o professor não é um elemento central na constituição da comunidade e que não tem deveres especiais. Os professores que defendem isso, uma greve às avaliações, concordam tacitamente com a política governamental de proletarização da classe docente. Em segundo lugar, uma greve às avaliações, do ponto de vista táctico, é uma vitória para o governo. Mais uma vez terá oportunidade para isolar os professores, depois destes terem recuperado a simpatia da opinião pública.
Os sindicatos já erraram demasiado. Mesmo a recusa de negociar sem que o governo retirasse o actual modelo de avaliação foi um erro estratégico. Os sindicatos deveriam ter aceite o modelo e negociar a sua melhoria, a sua desburocratização e a eliminação de itens de avaliação absolutamente ridículos, como aqueles que dizem respeito à relação do professor com a escola ou com a comunidade. Mas este tipo de idiotices devem agradar tanto aos nossos sindicalistas como aos nossos decisores políticos. Não deixa de ser traumática para a classe docente estar entregue a pessoas como Lurdes Rodrigues, Valter Lemos, Jorge Pedreira, Mário Nogueira e a restante horda de sindicalistas.
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07/03/09
Moisés David Ferreira - Reencontro XVII
observa como o espanto
se desprende do jejum.
basta-te a tarde, o seu afago
a suspensas melodias,
o ainda sono de estenderes a nudez
pela profusão da infância.
talvez por isso o vinho se agarre tanto
ao nomadismo, e a noite se renda
a quem solta o lume por largos descampados,
cauterizando as constelações, a sabedoria
de quem primeiro soube beber
de um só hausto o firmamento.
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Rytis Mazulis : Clavier of Pure Reason
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PCP - 88 anos
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EPHEMERA - biblioteca e arquivo de José Pacheco Pereira
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06/03/09
Moisés David Ferreira - Reencontro XVI
quando as lâmpadas se ferem, o frio
faz surpreendentes ditados
à sinuosa quietação dos lábios.
quando se respira
contra uma janela alta, mãos
mergulhadas no espanto,
a vida toda é isto, ali:
um vidro pulmonar, a paisagem
de tal modo unida ao fôlego
que ambos se indistinguem num mesmo correr
de aparições.
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Arnett Cobb & Eddie "Lockjaw" Davis - Go Power
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O direito de enterrar e honrar os mortos
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Jornal Torrejano, 06 de Março de 2009
Disponível na internet encontra-se a edição desta semana do Jornal Torrejano. Destaque para a decisão da Assembleia Municipal de Torres Novas: anulou a concessão de serviços de águas a privados. Referência também para a decisão da Câmara começar por pagar as dívidas com juros mais elevados.
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Haja esperança (II)
As sondagens parecem não correr de feição para o partido do governo. É já qualquer coisa. Isto não significa que Sócrates não possa a vir a obter uma maioria absoluta. Mas talvez os portugueses estejam a despertar de um sonho, e comecem a perceber que afinal era um pesadelo. Não é que o nível político das oposições seja sequer recomendável. Não é pior nem melhor do que o do governo, é igualmente medíocre. Mas uma situação confusa, talvez seja um princípio de saída. Alguma coisa terá de acontecer, alguma coisa será melhor do que o estado a que se chegou. Haja esperança.
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Haja esperança (I)
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Marcadores: Sociedade
05/03/09
Moisés David Ferreira - Reencontro XV
o que eu digo é: abre os ossos
com a leveza de um outono a tombar.
as palavras são globos subterrâneos,
vazios ao meio – têm de chegar à boca
como um extenso ritual a desfazer-se.
até à derradeira deserção.
o que eu digo: escreve
como se caçasses uma visão,
ou um fantástico animal
se conduzisse, incisivo, para o teu ventre,
e lhe tomasses o instinto como
se a morte fosse o destino desse amplexo.
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Gotan Project - Milonga de amor
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Democracia na era da suspeita
Historicamente, a democracia manifestou-se sempre tanto como uma promessa, tanto como um problema. Promessa de um regime harmonizado com as necessidades da sociedade, sendo esta última fundada sobre a realização de um duplo imperativo de igualdade e de autonomia. Problema de uma realidade, muitas vezes, bastante longe de satisfazer estes nobres ideais. O projecto democrático nunca deixou de ficar incompleto lá mesmo onde ele era proclamado, quer tenha sido grosseiramente pervertido, subtilmente contraído ou mecanicamente contrariado. No sentido mais forte do termo, nunca conhecemos regimes plenamente «democráticos». As democracias realmente existentes permaneceram inacabadas ou mesmo confiscadas, em proproções, segundo os casos, muito variáveis. Daí que os desencatamentos andem a par com as esperanças que fizeram nascer as rupturas com os mundos da dependência e do despotismo [Pierre Rosanvallon (2006). La contre-démocracie. La politique à l'âge de la défiance. Paris: Ed. du Seuil].
-----------------------------------------
Não se encontrará a nossa democracia perto do quadro descrito por Rosanvallon? Não se estará ela a tornar numa «democracia» confiscada. É certo que as instituições vão funcionando, mas vive-se um momento em que a tensão entre a esperança na democracia e a descrença (o autor fala em défiance - desconfiança, suspeita) nela parece estar a pender para o lado da suspeita. Muita gente começa a suspeitar da capacidade da democracia realizar as suas promessas.
O interesse do texto de Rosanvallon reside em chamar a atenção sobre o óbvio: a democracia realiza-se num cumprimento de um duplo imperativo, o da igualdade e o da autonomia, isto é, da liberdade. Durante os últimos decénios a querela entre igualdade e liberdade tem animado as discussões sobre filosofia política, tendo a consideração da igualdade sofrido um abalo, até como desforra dos tempos em que o igualitarismo marxista tomou conta de uma parte do mundo e arrastou uma parte substancial do Ocidente a inventar o Estado-Providência, uma forma democrática de assegurar uma certa igualdade entre os membros de uma sociedade.
O que interessa, neste momento em que as desigualdades entre os homens se acentuam, é chamar a atenção para uma outra perspectiva. A querela entre liberdade e igualdade sublinhou apenas os aspectos aparentemente incompatíveis entre ambas. Mas o que ficou recalcado foi o facto de liberdade e igualdade se requererem mutuamente. O perigo das desigualdades sociais acentuadas não é apenas do aumento do fosso entre ricos e pobres, mas o de abrir o caminho para uma efectiva eliminação da autonomia de larga massa de indivíduos e a consequente supressão da liberdade.
A democracia é promessa e problema. Promessa de uma sociedade mais justa, problema de encontrar a justa medida onde igualdade e liberdade se maximizem mutuamente. A suspeita que nasce sobre a democracia funda-se nessa clivagem entre igualdade e liberdade, clivagem que faz parecer que a liberdade apenas serve para que os mais fortes oprimam os mais fracos. Se não quisermos ver a liberdade suprimida, então será melhor que cuidemos e reinventemos novas formas de realizar os imperativos da democracia.
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A feroz concorrência
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04/03/09
Moisés David Ferreira - Reencontro XIV
a cabeça a despegar-se
da gasta dilação com que se prende ao corpo. com a faca
de nenhum gume: o poema. o sopro das próprias
fundações da carne –
que atira a cabeça para longe,
com a bússola da noite
a servir de antecâmara.
retira-se a cabeça: cirurgicamente,
como a chegada das estações. porque: quando chega
uma estação, a cabeça esvazia-se,
deixa-se inaugurar.
faz-se espaço. flui.
e o sangue a cavalo nessa nudez é o óbolo
para a mais vincada migração:
permanecer.
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Patti Smith - Smells Like Teen Spirit
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Marcadores: Música
A crise contínua
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03/03/09
Moisés David Ferreira - Reencontro XIII
subo ainda para o coração de treva
onde as portas se intersectam
(lâmpadas trazendo
à idade mínima do espanto
o peso nebular de um labirinto).
tudo conduz
à friável câmara
da voz, musical lume
cerrando nas paredes líquidas
as suas línguas de sombra, as suas danças sentadas
no degrau de uma cifra. acende-se
um cálice de orvalho nas volutas do sangue,
a palavra recolhe-se ao seu lugar mais tenso,
abre-se o tempo sazonado e vertical
à chegada dos rostos.
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[Exit Music] - Brad Mehldau Trio
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Desígnio Inteligente
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Sócrates está conseguir
Imagem do Raiva Escondida
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02/03/09
Moisés David Ferreira - Reencontro XII
dedos abalados, um justo esquecimento a entrar
na flutuação das miragens. (cada passo,
desligado de mim, aplaude.)
como um correr de sinos sobre a pele,
a rebelde inflorescência, um rasgo de seiva
destravando a sonolência com que as mãos percorrem
o esboroado tecido do mundo.
onde as inteligências, em golfadas de discórdia
e impudor, se afundam na cegueira,
eu faço aparecer um vento
sem rasto para ouvidos (presos
à usada predação de um fim).
e é nesse vento discreto, talvez fundamental,
que se passeia o riso das coisas,
como um vestido de núpcias agarrado ao fogo
que cresce no âmago da primeira chuva.
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Apocalypse Now..Ride Of The Valkyries (Richard Wagner)
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Arte e guerra
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Guiné-Bissau e o som da música da História
Bandeira da Guiné-Bissau
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01/03/09
Moisés David Ferreira - Reencontro XI
o crepúsculo faz ascender aos ombros
a matriz radicular da claridade.
e os braços levitam, submergindo
no inacabado friso de mortos que
coroa o anoitecer.
do alto, a paisagem
soletra
uma cintura muda de cânticos,
cerrado, vertiginoso húmus.
adensando as cordas da respiração,
a concisa margem do silêncio,
e as ruas cobertas de uma neve
de que jamais serão o cálice.
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Marcadores: Poesia, Poesia - em outros
Maria Callas - Otello: Ave Maria
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Marcadores: Música
Então, não havia de querer?
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