30/07/08

Um ódio popular aos professores

Num comentário (às 18h12 de hoje) a uma notícia do Público, um leitor insurgia-se contra o facto de os professores terem acesso a um computador por 150 € e uma ligação móvel à internet com um desconto de 5 € mensais. É muito curiosa a relação que os portugueses têm com os professores. Qualquer quadro de uma empresa tem um computador topo de gama e um conjunto de regalias de acordo com o seu estatuto na organização. Mas um professor, para a generalidade dos portugueses, é um caso especial, pois tem o dever de pagar os instrumentos de trabalho. Isto não é apenas ignorância, mas um ódio visceral a uma profissão, ódio esse que denota o desprezo que os portugueses têm pelo saber e por quem o distribui.

A China e a liberdade

A China tem o condão de agradar a gregos e a troianos. Os comunistas sentem-se confortados por um partido irmão ter o controlo do Estado de uma grande potência. Os liberais sentem-se reconfortados com um paraíso para exploração de mão-de-obra barata. Correntes tão antagónicas parecem mancomunadas no silêncio sobre o carácter totalitário do regime político chinês. Segundo noticia o Público, um professor chinês foi enviado para campo de trabalho por divulgar fotos de escolas que desabaram com o sismo de 12 de Maio, no qual morreram 70 mil pessoas. Os interesses, ideológicos ou económicos, valem mais do que essa coisa abstracta que é a liberdade.

Manuel António Pina - Quem vier atrás...

Porque a clareza se tornou, em tempos em que as palavras caíram nas mãos dos usurários, a mais rara das matérias-primas, vale a pena ler a entrevista que o presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática deu ao "Jornal de Negócios" sobre a situação de desastre do ensino em Portugal.

Maria de Lurdes Rodrigues realizou, de facto, o milagre grouchiano de partir do nada e conseguir chegar à mais extrema miséria. Diz Nuno Crato, a propósito da política dos exames fáceis de Matemática, que "daqui a dez anos somos capazes de olhar para o que se passou nos exames este ano e pensar que foi das coisas mais negativas que aconteceram na educação nas últimas décadas". Daqui a dez anos, os jovens formados na pedagogia da não exigência terão descoberto que, ao contrário do ME, "la vie ne fait pas de cadeaux" e deveriam poder pedir responsabilidades a alguém. Mas daqui a dez anos a ministra terá regressado às profundezas do ISCTE e os seus secretários de Estado ao anonimato, e não é provável que saiam da obscuridade para assumir qualquer responsabilidade. Como sempre, quem vier atrás que feche a porta. [Jornal de Notícias]

29/07/08

Ocidente & Oriente

O ESPÍRITO DO OCIDENTE - I

O pensamento que calcula faz cálculos. Faz cálculos com possibilidades continuamente novas, sempre com maiores perspectivas e simultaneamente mais económicas. O pensamento que calcula corre de oportunidade em oportunidade. O pensamento que calcula nunca pára, nunca chega a meditar. O pensamento que calcula não é um pensamento que medita, não é um pensamento que reflecte sobre o sentido que reina sobre tudo o que existe. (M. Heidegger)

O ESPÍRITO DO ORIENTE - I

O ser humano é uma criatura pensante, mas as suas grandes obras realizam-se quando ele não pensa nem calcula. Após longos anos de treino na arte do esquecimento-de-si, o objectivo é o de recuperar o «estádio de infância». Uma vez atingido, a pessoa pensa, embora não pensando. Pensa como a chuva que cai do céu; pensa como as vagas que se levantam no mar; pensa como as estrelas que iluminam o céu nocturno; como a folhagem verde que rebenta sob a doçura da aragem primaveril. Na verdade, ele próprio é a chuva, as estrelas, o verde. (D. T. Suzuki)

O ESPÍRITO DO OCIDENTE – II

Por outro lado, qualquer pessoa pode seguir caminhos de reflexão à sua maneira e dentro dos seus limites. Porquê? Porque o Homem é o ser que pensa, ou seja, que medita. Não precisamos portanto, de modo algum, de nos elevarmos às «regiões superiores» quando reflectimos. Basta demorarmo-nos junto do que está perto e meditarmos sobre o que está próximo: aquilo que diz respeito a cada um de nós, aqui e agora; neste pedaço de terra natal; agora, na presente hora universal. (M. Heidegger)

O ESPÍRITO DO ORIENTE – II

Um dos aspectos mais significativos na prática do tiro com arco – e em qualquer outra arte praticada no Japão e provavelmente noutros países do Extremo Oriente – é o facto de não ter quaisquer propósitos utilitários, nem se destinar à pura fruição estética. Na verdade, representa um exercício da consciência, com o objectivo de a pôr em contacto com a realidade última. Assim, não se pratica o tiro com arco no mero intuito de acertar no alvo, nem se maneja a espada com o fim de vencer o adversário; o bailarino não dança apenas para executar um movimento rítmico: acima de tudo pretende-se harmonizar o consciente com o inconsciente. (D. T. Suzuki)

As cidades morrem como as gatas


Tive uma gata siamesa durante dezasseis anos. Um dia deitou-se, mais uma vez, no cesto da roupa suja e acomodou-se de maneira a que a cabeça ficasse mais baixa que o resto do corpo. Começou a morrer. Não sei se foi a morte que veio ou a vida que a abandonou. Sei apenas que não morreu toda e inteira imediatamente. Havia partes do corpo que tinham morrido, enquanto outras ainda estavam vivas. Foi uma agonia que durou horas, até que a morte ficou completa e a cabeça deixou de ter sinais de vida.

Já há muito que não andava pela parte antiga da cidade (Torres Novas). Hoje, porém, fui comprar uns livros à Gil Pais e uns cd’s ao Balta, e deixei-me andar por aquilo que foi o centro vivo da vila onde cresci. Ao olhar para os negócios em trespasse, para as casas – umas caídas, outras abandonadas, outras cheias de solidão –, ao ver o ar cansado das pessoas, ao pressentir o desânimo que tomou conta de ruas e paredes, lembrei-me da morte da minha gata. Como ela, também o centro de uma cidade morre aos poucos. Não sei se é a morte que vem ou a vida que parte, mas sente-se um véu fúnebre que vai caindo aqui e ali, até que já nada do antigo esplendor – por pobre e provinciano que fosse – reste. As cidades são seres vivos e morrem como eles. A minha cidade está a morrer como morreu a minha gata: pedaço a pedaço, lentamente, numa agonia silenciosa. Olho-a como olhei a gata moribunda: impotente.

28/07/08

O programa e-escola – uma armadilha

Uma das bandeiras educativas do actual governo é a da disseminação da banda larga pelo mundo escolar. Alunos, professores e formandos das novas oportunidades têm acesso a um computador portátil por 150 euros, ficando a pagar cerca de dezassete euros mensais, durante três anos, por um serviço de banda larga também portátil. É aqui que reside a armadilha. O tráfego disponível é, por esse preço, de apenas 1 Gb. Um aluno que consulte uns blogues e aceda diariamente a umas quantas páginas da internet, em poucos dias atingirá o limite. Na prática, o aluno tem disponíveis cerca de 34 Mb diários para navegação. Se frequentar o YouTube ou fizer downloads de músicas ou filmes, então os pais bem podem abrir a carteira. Eis que aquilo que parece ser uma boa coisa para os alunos se pode transformar numa fonte de conflitos familiares e não passar de uma pura ilusão. Quem vai efectivamente ganhar com a e-escola, para além da propaganda governamental, serão as operadoras. Um bom negócio durante três anos.

O dia em que a Europa se suicidou

Infantaria alemã a caminho da frente (1914)

Faz hoje 94 anos que o império austro-húngaro declarou guerra à Sérvia. Foi o início da I Guerra Mundial e o começo do irrevogável declínio da Europa. Oito milhões de vidas foram consumidas num conflito onde o desenvolvimento estratégico estava completamente desfasado da potencialidade técnica do armamento disponível. A guerra de 1914-18 levou consigo uma geração promissora e gerou no seu ventre os vários totalitarismos que assaltaram a Europa nos decénios seguintes. De facto, aquilo que começou a 28 de Julho de 1914 só terminou 75 anos depois com a queda do muro de Berlim a 9 de Novembro de 1989. Pelo meio veio a depressão de 29, a ascensão do fascismo e do nazismo, a consolidação da deriva totalitária inscrita na genética do marxismo-leninismo, a II Guerra Mundial, a Guerra Fria, os processos de descolonização, mas também a segunda e terceiras vagas de democratização e a União Europeia. É impossível pensar o que seria o mundo e a Europa se a I Grande Guerra tivesse sido evitada, mas uma coisa parece certa: a dia 28 de Julho de 1914 pode ser considerado como a data em que a Europa se suicidou.

27/07/08

Caminhos que levam a nenhures- IV

Mata do Bussaco

Sharia

É provável que ainda esteja na memória das pessoas, pelo menos das mais interessadas, a extraordinária ideia do arcebispo de Cantuária, Rowan Williams, de incorporar na lei inglesa a Sharia muçulmana. Talvez Rowan ache interessante os 30 enforcamentos levados hoje a efeito no Irão, em cumprimento da Sharia (Sol). Mas o que lhe falta explicar é como vai conciliar uma Igreja que pretende ordenar homossexuais e a Sharia que os condena à morte e os executa.

O comércio governativo

O estimável ministro da economia terá dito que o Governo é uma “direcção comercial de luxo”. Para além da fanfarronice expressa no termo “luxo”, esta afirmação é o sintoma claro da falta de princípios e da inanidade política de Sócrates e da sua gente. Desde muito cedo que a tradição política ocidental soube separar a esfera pública e a esfera privada. O mundo do comércio, com as suas direcções comerciais e as suas transacções fazem parte dessa esfera privada. A esfera da política tem uma dimensão universal e o governante, se o é efectivamente, cria condições políticas abstractas para que os privados possam perseguir os seus interesses sob o império da lei, mas não confunde a acção política com o mercadejar próprio dos particulares. Na verdade, quando não se sabe qual é a função real da esfera política, qualquer coisa serve para arremedo, mesmo que esse qualquer coisa esteja, de facto, fora dessa esfera e, se toma preponderância, seja um poderoso dissolvente do carácter universal e abstracto da política.

26/07/08

E assim continuamos

E assim continuamos
como se as rosas não murchassem
nem a pele dos dedos
se tornasse serapilheira
a que o pó cobrisse.
Apenas na janela uma aranha
tece o lugar onde
a vida deposita o incêndio
com que te olho pela manhã.

Se uma mão te deixo entre os cabelos
e a minha voz se alteia ao ver-te
é porque o mundo ainda se abre
sobre as planícies de musgo
ou um Verão de fetos desaba
no horizonte do olhar.

Continuamos a caminhar de mãos dadas
e cabelos soltos ao vento
como se essa fosse uma recordação
da longínqua juventude
que o destino nos roubou entre pétalas feridas
e frutos cariados a tombar da nespereira.

Se os anos sobre ti passam
eu não os conto
nem canto as horas que se esquecem
ou o silêncio que anuncia
a chegada de outra Primavera.
Pego em teus dedos
e guardo-os no cofre obscuro do coração:
às vezes, são sombra,
outras, água vinda do mar,
mas são sempre os teus dedos
que um dia contei
ao ritmo de uma canção.

Jorge Carreira Maia. Breve História do Coração.

Madredeus-Coisas Pequenas

Caminhos que levam a nenhures - III

Mata do Bussaco

Da social-democracia em Portugal

A política portuguesa vive um equívoco profundo desde a sua instauração em 1974. Esse equívoco está ligado ao ideário da social-democracia. Ainda hoje, na sua crónica no Público, Vasco Pulido Valente dizia que Manuela Ferreira Leite representa a facção social-democrata do PSD. Para sermos precisos, convinha sublinhar que, na verdade, nunca existiu social-democracia em Portugal. O Partido Socialista é aquele que maior legitimidade possui na reivindicação de ligação ao ideário social-democrata, pelas suas ligações aos partidos social-democratas europeus e à Internacional Socialista. Mas mesmo ele não se inscreve, pela sua origem fundacional, nessa corrente ideológica.

Os partidos social-democratas são de origem operária e estão ligados à II Internacional. Num primeiro período da sua existência eram partidos de carácter revolucionário que se transformaram, mais tarde, em partidos reformistas, mas mantiveram durante muitos e muitos decénios uma estreita ligação ao mundo operário e aos sindicatos. Veja-se, por exemplo, o Partido Social-Democrata alemão, o Partido Trabalhista inglês ou o Partido Socialista Operário Espanhol. O Partido Socialista português deriva não de uma tradição operária, mas de uma tradição republicana e burguesa de carácter intelectual e liberal que cresceu na oposição ao salazarismo. A verdadeira matriz ideológica do PS é o republicanismo e o antifascismo.

Falar de social-democracia no PSD é então um equívoco inominável. Se a tradição operária é inexistente no PS, então no PSD só por caricatura se poderá falar de tal coisa. Na desorientação que tomou conta da direita portuguesa em 1974, não houve coragem para encontrar matrizes claramente identificadoras das posições ideológicas dos eleitores de direita. Ferreira Leite ou Cavaco Silva estão muito mais próximos das tradições social-cristãs ou democrata-cristãs do que da genuína social-democracia.

No fundo, é este persistente equívoco na matriz ideológica dos dois maiores partidos portugueses que leva a situações como a actual, onde, de facto, não existe uma diferença essencial nas políticas a levar a efeito, nem sequer uma diferença fundamental na origem social dos quadros desses partidos. O problema da identidade de políticas entre PS e PSD não reside apenas nas imposições de Bruxelas e da União Europeia. Ela tem a ver com a sua identidade originária, apesar de ao PSD faltar a costela antifascista presente no PS.

Como não tem qualquer tradição em Portugal, a social-democracia é um saco onde cabe tudo e nada. Dizer que alguém, no mundo da nossa política, é social-democrata é dizer que ele pode defender tudo e o seu contrário. Só isso.

25/07/08

Karajan - Live In Tokyo '81 - Brahms Symphony 1, Ⅳ - Part 1

Jornal Torrejano, 25 de Julho de 2008

Isto de estar de férias abre caminho para o esquecimento do habitual. E foi assim que quase me esqueci da edição do Jornal Torrejano on-line. Então, vejamos o que nos traz a primeira página: PSD acusa executivo socialista de má gestão dos dinheiros públicos. Referência também para a Festa da Bênção do Gado termina com cortejo e Procissão do Senhor Jesus dos Lavradores.

Na opinião, comece-se com o cartoon de Hélder Dias. Depois, Carlos Henriques escreve A montanha pariu um rato!, este blogger, O melhor é ir de férias, Miguel Sentieiro, Ditadura do flash, Santana-Maia Leonardo, A caminho do Farwest.

Então até para a semana e vá passando pelo JT para ver as últimas. Bom fim-de-semana e boas férias para quem as tiver.

Caminhos que levam a nenhures - II

Mata do Bussaco

O parecer de Freitas do Amaral

Diogo Freitas do Amaral já emitiu o seu parecer e “considera válidas a suspensão de dois anos a Pinto da Costa e a despromoção do Boavista” (Sol). O ex-presidente do CDS vai descobrir as múltiplas artimanhas que vão surgir para desfazer a sua credibilidade de jurista. Há poderes fácticos que são, neste país, intocáveis. Freitas deveria sabê-lo. Por isso, há qualquer coisa de arrojado na aceitação da encomenda do presidente da FPF. Veremos qual o seguimento de mais uma novela jurídica, agora no futebol.

24/07/08

Abrem-se sulcos pela tarde

Abrem-se sulcos pela tarde
e dentro deles árvores
como dedos voltados para os céus.

As vozes que oiço
são pela aurora trazidas.
Têm nome, um rosto frágil
e uma lâmpada de azeite as ilumina.
Na cidade, tudo se torna assim tão precário:
os carros que passam, o vento
sussurrado a tolher de flores
a música de um piano,
cansado anoitece.

Nos sulcos da tarde
ardem ciprestes, velas de cera,
gestos surpresos, cavados,
ruas desertas entre as muralhas.

A chuva virá.

Jorge Carreira Maia. Poemas dispersos.

Diego Ortiz - Ad Vesperas (Napoli, 1565)