24/07/08

O caminho do nuclear - II

Agora são as confederações patronais que pretendem avaliar a produção de energia nuclear (JN). Em nome da competitividade económica. Com pequenos passos, a campanha pelo nuclear vai crescendo. Um dia destes, haverá consenso nacional. O pior vai ser quando determinarem o lugar das centrais.

Caminhos que levam a nenhures - I

Mata do Bussaco

Liberalismo à portuguesa

Segundo um estudo da DECO (Público), os medicamentos não sujeitos a receita médica já aumentaram 5,2% desde 2005, altura em que passaram também a ser vendidos fora das farmácias. Houve mesmo um medicamento que subiu 45%. Contrariamente ao que prometeu o governo, a liberalização da venda destes medicamentos não trouxe uma baixa de preços. Pelo contrário. Há uma coisa que parece clara: Portugal é um excelente lugar para perceber que as teorias liberais estão longe de ter valor universal. Não é por acaso que o povo português desconfia sempre que se fala de liberalização. Ele sabe que essa liberalização vai ser paga por ele. A hipotética eficiência do mercado raramente favorece o consumidor.

23/07/08

Lamentations III for Holy Saturday by Tomás Luis de Victoria

Quase um génio

Isto de olhar para a televisão, mesmo fora de casa, pode causar traumatismos diversos. Num dos canais generalistas há um concurso onde adultos tentam ganhar uns dinheiros mostrando que sabem pelo menos tanto como crianças de 10 anos, julgo. Traumatizante é ver um jovem estudante de Direito não saber qual a origem da numeração que mais utilizamos no dia-a-dia. Apesar desta ignorância cultural, este jovem, tendo em consideração a nova bitola das avaliações de matemática introduzida pelos exames deste ano, deve ser considerado quase um génio, pois “achou” que a origem não seria romana.

Esmeralda e a justiça enquanto novela

A metamorfose dos casos judiciais em novela não é apenas um truque de órgãos de comunicação social necessitados de assunto para preencher espaço editorial, nem uma simples emanação da necessidade de satisfazer os instintos voyeuristas de massas indigentes e alienadas. É um sintoma da profunda dificuldade da justiça encontrar um caminho claro para cumprir o seu papel de garante da paz pública. O caso Esmeralda, como outros casos, é um exemplo refinado de uma intriga romanesca, com as suas peripécias inesperadas e volte-faces dramáticos. Tudo se passa como se os detentores do poder judicial fossem incapazes de dizer o direito. Esta incapacidade de proferir o direito radica em duas coisas distintas. Por um lado na incapacidade de determinar o que se passou, como no caso Maddie. Por outro, na extraordinária, embora silenciosa, confissão de não se saber o que é o justo, como parece ser o que acontece no caso Esmeralda. Talvez toda a crise da justiça portuguesa tenha a sua raiz nesta ignorância do que é o justo, mesmo se para muitos juízes o justo não seja mais do que a lei positiva. Seja como for, a incerteza do que aconteceu ou a inquietação sobre o sentido da justiça são os pilares que permitem que qualquer caso se transforme numa narrativa romanesca. Onde há crise, há intriga e uma necessidade de partilhar essa intriga em forma de novela.

Bruxelas e a corrupção

Bruxelas suspendeu ajuda à Bulgária e faz aviso à Roménia. Motivo: falta de resultados no combate à corrupção e, no caso da Roménia, pouco empenho dos partidos políticos na erradicação do fenómeno ao mais alto nível (Público). Há quem veja nesta acção fiscalizadora da UE a prova da inexistência do fenómeno em Portugal. Seria, todavia, ilusório pensar que pelo facto de Bruxelas não ter penalizado Portugal, tudo tem corrido por cá pelo melhor. Todos desconfiamos que não. Mas para além do problema da corrupção, o resultado da aplicação dos fundos provenientes da União Europeia faz suspeitar que muitos deles deveriam ter seguido outro caminho e ter sido utilizados de outra forma. Podemos gostar muito das rotundas e outras obras de iniciativa múltipla. A verdade, porém, é que não tardará muito que só a Bulgária e a Roménia estarão atrás de nós. Vá lá saber-se a razão.

22/07/08

Voo lento de abelha

Voo lento de abelha
na terra tudo incendeia.

Ave, onda e centelha.

Jorge Carreira Maia, Poemas Dispersos.

Nigel Kennedy - Bach - BWV 1060

I - Allegro

II - Largo

III - Allegro

Perante o espelho

R. Magritte - The Art of Living


Estou sentado, num quarto de hotel, diante de um espelho. Escrevo enquanto me olho. Os cabelos que ainda restam estão já bastante brancos, a barba também. Não é um exercício de narcisismo. Como seria possível? Nem, tão pouco, de nostalgia, embora ainda há tão pouco fosse incapaz de pensar-me assim. O efeito do espelho perturba-me. Nunca escrevi diante de espelhos e aquilo que vejo são os despojos da vida. Iludimo-nos, quando somos novos, pensando que o corpo é um princípio de afirmação, mas agora o espelho revela a verdade, o corpo é o que fica daquilo que foi consumido. Da vida apenas se tem direito a ver o que resta. Oiço o concerto em C minor, BWV 1060, de Bach, num estranho arranjo, e é isso que me permite escrever perante a imagem que o maldito objecto insiste em devolver-me. Fecho os olhos e a música continua, arrasta-me. Sigo-a e esqueço-me, perdido na exactidão matemática que se desprende do que oiço. De facto, é verdade que Deus muito deve a Bach.

A virtude da discrição

Alípio Ribeiro, antigo director da Polícia Judiciária, em escrito de opinião considerou que o caso Maddie não deveria ter sido arquivado já. Não é que o senhor esteja inibido nos seus direitos cívicos, mas para pessoas que ocuparam certos cargos, como é o seu caso, deveria existir um dever de silêncio. A sua opinião em nada contribui para melhorar a justiça, como, aliás, parece pouco ter contribuído a sua acção para a resolução do caso. A discrição é uma virtude pouco apreciada, hoje em dia, em qualquer esfera dos assuntos públicos.

21/07/08

Monteverdi - L'Orfeo - Savall

Caso Maddie, uma tristeza

Para além da dor que todos partilhamos pelo destino – um destino invisível – de uma criança, o caso Maddie acrescenta uma outra dor a todos os portugueses. Se preciso fosse uma prova, este caso mostrou à saciedade a nossa natureza provinciana e que, entre o Ultimato britânico de 1890 e este caso, nada mudou no contexto das relações internacionais. Os ingleses, talvez com razão, tratam-nos como se fôssemos menores e não merecêssemos a consideração devida a gente autónoma. O caso foi arquivado, o que não se pode arquivar é a triste forma como tudo foi conduzido desde a primeira hora e a sensação de medo e de subserviência que todos pressentimos ter existido por cá. Uma tristeza.

Um país de empresários

Antes de aparecer o génio da política Pedro Passos Coelho, o PSD tinha na cartola um outro génio. Dava pelo nome singelo de António Borges. Figura fantasmagórica que pairava no ar como uma ameaça. Parece que a sua natureza genial se tem vindo a desfazer, mas ele está mais presente do que nunca. Agora é vice-presidente da congregação laranja. Hoje teve direito a artigo de opinião no Público. Do alto da sua antiga genialidade diz-nos coisas extraordinárias como esta: «Portugal é um país de empresários.» Com medo de que os indígenas não compreendessem acrescentou: «Não precisamos de ir ao período das Descobertas para nos apercebermos do espírito de iniciativa e do gosto pelo risco que muitos portugueses evidenciam, desde que as condições sejam favoráveis ao empreendedorismo.»

Mas que exemplos o ex-génio encontra para sustentar tão extraordinária tese? «Na década de 60, Portugal foi um dos países de crescimento económico mais rápido do mundo.» E acrescenta o segundo caso: «Entre 85 e 95, a economia não só cresceu muito depressa, mas também se transformou profundamente, com o aparecimento de muitas novas empresas e o fim de muitas outras.» Olhemos para a realidade da nossa propalada vocação empresarial. Década de 60, Borges fala na EFTA, mas esquece a lei do condicionamento industrial (vigorou até 69), a ausência de direitos sindicais e o controlo dos conflitos sociais através da polícia política e da censura. No segundo caso, todos percebem o gosto empresarial: foi nos tempos áureos dos fundos da CEE.

Sem querer, António Borges mostra bem o contrário daquilo que pretenderia afirmar. Será que as “condições favoráveis ao empreendedorismo” que ele defende passam pelo condicionamento industrial, a polícia política, o fim dos direitos sindicais, o retorno da censura e o dinheiro fácil, tudo isto sob a mão mais ou menos pesada do Estado? Quando um ex-génio da política e economista liberal de renome internacional – segundo diziam – diz coisas destas, o melhor é ir pregar para outra freguesia. Um país de empresários? Só se for de jogadores da bola e de raparigas do alterne.

Notícias da China

Da China sabe-se muito pouco. O regime de partido único e o controlo da informação não deixa perceber as clivagens que atravessam a sociedade chinesa. Mas as duas explosões que aconteceram hoje em autocarros deixam entrever uma realidade não muito celestial (Público). Difícil será ver, nestas explosões e na morte de gente inocente, a mão dos amantes da liberdade e da democracia. A China é, muito provavelmente, uma panela de pressão cujo conteúdo estará em ebulição. Se a tampa for subitamente retirada não se sabe muito bem qual será a dimensão dos estragos que inevitavelmente acontecerão.

20/07/08

Um retrato do país em 3 primeiras páginas

Na primeira página do Público noticiava-se “trabalho infantil para empresa que produz roupa para a Zara”. Por seu turno, o Diário de Notícias chamava para manchete “classe média já pede comida por e-mail para as misericórdias”. A miséria une ambas as manchetes. Na sexta-feira passada, Vasco Pulido Valente escrevia: «Numa sociedade miserável, o que se redistribui é sempre a miséria». Esta é a essência da sociedade que conseguimos construir com os dinheiros vindos da Europa. Uma sociedade miserável, que reproduz miséria e que distribui miséria. Talvez na primeira página do Jornal de Notícias se encontre uma pista ou um sinal do problema: «Inspecção arrasa gestão hospitalar».

19/07/08

Nostalgias

As FARC colombianas fizeram mais dez reféns. Há forças políticas, em Potugal, que não condenam as FARC para não reforçar o presidente Uribe. O problema, porém, é que ter por companhia gente que vive do narco-tráfico e do sequestro de pessoas não é lá muito aconselhável, principalmente se se quer viver numa democracia e com as regras desta. Há nostalgias muito desagradáveis.

O futuro presidente de Marco de Canaveses

Está armada a confusão em Marco de Canaveses. Avelino Ferreira Torres, malograda a sua exportação para Amarante, decidiu recandidatar-se ao Marco. Iria como independente se o CDS-PP não o apoiasse. A comissão política local (seja lá isso o que for) do agrupamento decidiu logo apoiá-lo. Mas agora o gabinete autárquico do partido veio dizer que não, não senhor, que Avelino não será candidato por tão nobre agremiação. Independentemente das guerras que venham a acontecer dentro do partido de Paulo Portas, eu aposto que o engenheiro Avelino vai ser o próximo presidente de Marco de Canaveses.

Valentim, Vieira e o silêncio

Nas declarações prestadas por Valentim Loureiro após a leitura da sentença no tribunal de Gondomar, há uma coisa em que ele tem absoluta razão. Confrontado com a exigência, feita por Luís Filipe Vieira, da sua demissão da Assembleia Geral da Liga, Valentim disse o essencial: “Aconselho-o a estar calado. Se estou na AG é porque ele propôs e me apoiou.” É verdade. E também é verdade que Vieira deveria fazer um voto de silêncio. Por muitas razões que possa ter, os tiros que dispara parecem todos de pólvora seca. Há coisas em que mais vale estar calado do que dar oportunidade aos adversários para ridicularizarem o nome do Benfica.

As opiniões de Passos Coelho

O novo génio da política nacional, Pedro Passos Coelho, acha, segundo o Público, que o PSD “precisa de apresentar um projecto alternativo e um discurso de esperança e não pode querer ganhar com o descontentamento face ao PS.” Se o problema for o de criar um projecto alternativo, a coisa não é assim tão difícil. Uma equipa de sábios organiza a papelada num fim-de-semana. Também ter um discurso de esperança não será complicado. O que a novel estrela da política nacional parece esquecer é que qualquer receita que exista será sempre idêntica à actual ou ainda, para a maioria dos portugueses, mais tenebrosa. Alternativas, esperanças, tudo palavras bonitas e pensamentos geniais. O problema é a realidade. Talvez essa conte para pouco.