21/06/08

Quando chumbar é uma vergonha

Se o leitor quer compreender por que razão o ensino português é o que é e se ainda quer perceber as razões de fundo que opõem professores ao Ministério da Educação, então poderia começar por ler e meditar profundamente o artigo de hoje, nas páginas centrais do Diário de Notícias:
Mas para não ficar a pensar que isto se passa apenas com ucranianos, acrescento que tenho uma aluna de um outro país de leste, uma das minhas melhores alunas, que me diz exactamente o mesmo. Fica horrorizada com a irresponsabilidade da maior parte dos colegas.

20/06/08

Colisão de galáxias

Um rasto de luz,
uma câmara de gás…
Algumas estrelas espreitam.

E nas trevas infinitas
há galáxias esquecidas
tão doentes; mal se deitam.

Jorge Carreira Maia, Poemas dispersos.

Carmen McRae 1988 Montreal

Cuidar da mercearia

A cimeira de líderes (seja lá isso o que for) da União Europeia faz o favor de não aborrecer, por agora, a Irlanda por ser um país democrático (Lusa). O tratamento dos desvarios democráticos dos ilhéus fica para depois, apesar do feitor cá do sítio achar que não há alternativa ao milagroso Tratado de Lisboa, feito pelo qual há-de subir ao reino dos céus e adquirir a glória dos altares, com direito a resplendor e tudo. Agora, porém, há que tratar da mercearia, que a escalada de preços, nomeadamente do petróleo, está a minar os alicerces dos quintais e sem quintais não há Tratado.

Em defesa dos exames

Tanto no exame de Língua Portuguesa do 9.º ano, realizado na quarta-feira, como no de Matemática também do 9.º ano, realizado hoje, as associações profissionais de ambos os sectores vieram sublinhar a diminuição do grau de dificuldade das provas relativamente a anos transactos (Sol). Chegámos a um momento inaceitável da nossa vida pública. Os exames e as provas de aferição nacionais não podem servir de arma de arremesso político. A degradação do estado da educação, provocada pela actual equipa ministerial, é tal que começa a justificar-se a intervenção do primeiro-ministro ou, caso este não sinta inclinação para tal, do Presidente da República. A não acontecer, corre-se o risco de até os exames nacionais deixarem de ter qualquer valor social reconhecido. As notas dos alunos não podem ser motivo de gargalhada geral como aconteceu com os resultados das provas de aferição. Chega.

Os dias comuns

O primeiro post foi a 21 de Maio deste ano, portanto os dias comuns vão fazer um mês. Mas o que é os dias comuns? Leia-se a epígrafe: fotografia com música e poemas dentro. A coisa começa a esclarecer-se. Talvez a palavra-chave seja fotografia. O blogue de Carlos Rema vem mostrando fotografia do autor de enorme qualidade. Depois, combina-a com música que indicia toda uma geração: jazz e música francesa. Por fim, há também, uma vez por outra, poesia e pequenas reflexões. Mas o essencial é mesmo a fotografia quase sempre a preto e branco, quase sempre a fotografar o não presente, o não visível, o não fotografável. Fotografia metafísica, portanto. Não sei se o autor é crente, mas se há uma coisa de que falam aquelas fotografias é de Deus, ou do seu afastamento, ou do efeito da sua ausência sobre o homem. Não sei se pode dizer que um blogue de um torrejano seja um blogue torrejano, mas será essa discussão útil? Clique aqui para ir até lá.

Jornal Torrejano, 20 de Junho de 2008

Tem nova cara a edição on-line do Jornal Torrejano, tem novas funcionalidades e está mais moderno (sem ofensa, claro). Está mais bonito e mais profissional. Por exemplo, as últimas notícias estão a funcionar, o que é um excelente sinal. Chega de elogios. Embora eu não seja da casa, não passo de um mero colaborador que o JT faz o favor de publicar uns textos que vou mandando, ainda podem julgar que estou a fazer um elogio a coisa minha, não é.

Na edição impressa (mas on-line), nota de relevo para o novo comandante dos bombeiros torrejanos e para a entrevista com Arnaldo Santos, o comandante que sai. Nos destaques da edição, uma referência sentida para a morte de José Henrique Farinha, meu antigo colega de estudos, pai de uma aluna minha e pessoa boa, merecedora de grande estima e consideração.

Na opinião, os escribas aparecem ordenados pela ordem alfabética. Assim, Carlos Henriques escreve Selecção descrente?, Carlos Nuno, O Barril, este blogger, A Irlanda e a democracia na Europa, Jorge Salgado Simões, Não-Nope-Nada-Rien-Kaput, José Ricardo Costa, The Winehouse, Marco Liberato, A Cruzada, Santana-Maia Leonardo, Este país não é para velhos.

Com os votos de um contínuo aprimoramento do nosso jornal, despeço-me com amizade até ao próximo programa, quero dizer à próxima edição. Bom fim-de-semana.

19/06/08

Lilases tardios

Lilases tardios
infestam as ruas.
Tristeza na noite,
efémera e cálida,
sombreia o Outono
sem nome que levas
ao mar assombrado,
roído de areia.

Se cantas ainda
aquela suave
e doce cantiga,
é porque os lilases
não entardeceram
naquela rua triste
perdida no mar
sombrio do Outono.

Deixaste um rio
de lava manchado
na aldeia tão fria.
Então caminhaste
cabelos ao vento
e fogo no olhar.
Assim amanhece
o triste lilás.

Jorge Carreira Maia, Pentassílabos, 2008

Ute Lemper - All that jazz

Ganharam, pronto, podem calar-se? Homenagem aos alemães com a Ute Lemper e all that jazz também para vocês. Tenho dito.

O céu está negro

Portugal 2 Alemanha 3. Acabou-se. Foi digno e um grade trabalho de Scolari e, também, dos jogadores. Os alemães marcaram mais e quanto a isso não há nada a dizer. No fim estavam nas cordas, mas o que conta são os golos. Agora estamos todos mais tranquilos para descobrir quem vais ser o vencedor. Palpite: Itália.

Tudo negro, cada vez mais negro

Portugal 1 Alemanha 3. Sem palavras.

A coisa está cinzenta escura

Portugal 1 Alemanha 2. A coisa melhorou. Ainda há esperança, até o Nuno Gomes se lembrou que era avançado-centro. A coisa até já podia estar empatada.

A coisa está preta

Portugal 0 - Alemanha 2. A coisa está escura como breu, os tipos são uns panzers dos diabos. Vamos lá ver se a há força para a reviravolta.

Corrupção e ostracismo

Quando leio certas coisas lembro-me dessa instituição ateniense a que não faltava grande sabedoria: o ostracismo. Dirão que não é muito democrático condenar o pessoal ao exílio. De acordo, mas quando se lêem coisas (Público) como as que diz essa sumidade que chefia a bancada parlamentar socialista, Albano Martins, a saudade daqueles tempos gloriosos torna-se violenta. O PS quer um Conselho de Prevenção da Corrupção para, diz a excelência, “detectar e prevenir” os riscos (sic) da corrupção. Parece que a polícia e a justiça têm mais que fazer, é preciso um conselho preventor. Para quê tal conselho? “Identificar as áreas mais vulneráveis à penetração do fenómeno”. Aliás, ninguém faz ideia de quais são, só mesmo o conselho é que nos salva. E a que mais pérolas temos direito? Esta é extraordinária: a proposta prevê “meios logísticos e aproveita as sinergias da administração pública, desde logo os inspectores-gerais da administração pública”. Quem utilizasse a palavra sinergia deveria ser condenado a um duplo ostracismo. Esta proposta socialista é o que se chama, por cá, andar a encanar a perna à rã. Temos mesmo de aturar isto? Vá lá, tragam as conchas de ostras e o pessoal vota.

Exames, aferições e credibilidade

A política governamental na área da educação conduziu a um beco com uma única saída, a saída da equipa ministerial. A razão é simples: não há qualquer confiança social nos resultados das provas de aferição e dos exames nacionais. A questão está de tal maneira politizada que muita gente vê nas provas e nos resultados puros actos políticos e não o trabalho normal e independente da instituição educativa.

Pode vir o director do GAVE, Carlos Pinto Ferreira, acusar os críticos de nada saberem de avaliação (Público). Isto não é mais do que uma amostra do desespero que percorre as hostes, devido ao pouco crédito que possuem neste momento. Quem trabalha em educação sabe muito bem que não há reviravoltas de um ano para o outro. Sabe ainda outra coisa: o principal motivo das frágeis aprendizagens dos alunos encontra-se numa cultura que ostentam e que é inimiga do trabalho, do estudo e do esforço. Sabe também que essa cultura não mudou. Por que motivo mudaram os resultados?

Pretender, como a senhora ministra, que isso se deve aos planos (esta tentação sovietizante do plano é interessante) da matemática e da leitura é acreditar em milagres. Só um milagre poderia inverter, não ao nível de uma escola, mas do país os resultados de um ano para o outro. A única coisa que resta e que é explicação verosímil centra-se nas provas, no seu grau de dificuldade, nos critérios de correcção e na distribuição da pontuação pelos itens. Quem sabe um pouco de avaliação, de construção de provas, de análise estatística de resultados e de ponderação das cotações, percebe que é possível dar um jeito nos resultados. Mesmo que nada de errado se tenha passado, a desconfiança social instalou-se. Refira-se, ainda, um outro problema ligado a este: o da possibilidade de comparar resultados com anos anteriores. É preciso provar que as provas eram equivalentes, o que está muito longe de estar provado. Em última análise, quando se fazem comparações entre resultados para evidenciar êxito de políticas, nem sequer sabemos do que se está a falar.

Se houvesse algum interesse em assegurar a credibilidade das provas, dever-se-ia tê-las submetido a análise e auditoria independente. Agora, porém, é tarde e todas as análises que sejam feitas, por mais honestas que sejam, serão compreendidas como fazendo parte do jogo político que a equipa ministerial organizou. Este défice de credibilidade, e não interessa se ele corresponde à realidade ou a uma ficção, exigiria para o bem do país e do sistema educativo a demissão não apenas da equipa ministerial, mas também do director do GAVE, independentemente da bondade do seu trabalho. A excessiva politização da educação, promovida pelo governo como estratégia eleitoral, é nefasta para os alunos e para o futuro do país.

18/06/08

Canta ardente fada

Canta ardente fada,
faz de tudo o que há
um céu de azeviche,
talvez uma flor
de roseira seca
a olhar vazia
para tão negro
vazio qu’em mim há.

Jorge Carreira Maia, Pentassílabos, 2008

Bloco central

“Marcelo Rebelo de Sousa não descarta acordo entre o PSD e o PS depois das eleições” (Público). Marcelo sabe o que está a dizer. Sabe que essa poderá vir a ser a única solução para assegurar a continuidade das políticas que estão a ser seguidas na Europa. O empobrecimento da população precisa de continuar sem grandes sobressaltos políticos e é isso que, em caso de necessidade, levará à formação de um bloco central, como já aconteceu e está, neste momento a acontecer, na Alemanha. A isto há que juntar uma possível revisão constitucional, que seja útil para os fins que ambos os partidos, ou as forças que eles representam, perseguem.

Horace Silver Quintet-Nutville-1969

Não sei o motivo, mas comecei a embirrar com o tamanho desmesurado dos vídeos. Assim, o Horace Silver vai em tamanho menor. O som também já teve melhores dias, mas ainda assim vale a pena.

Horace Silver Quintet-Nutville-1969
Colocado por redhotjazz

Pedro Nunes, o novo herói da criançada em Portugal

Depois de saber dos espantosos resultados nas provas de aferição de Matemática (4.º e 6.º anos), fiz um inquérito aos meus amigos que têm filhos na idade de realizar aquelas provas. Fiquei estupefacto. A miudagem só fala no Pedro Nunes, todos querem ser como o Pedro Nunes. Os filhos de gente mais à esquerda até falam em ser Bento de Jesus Caraça. Há miúdos, talvez esquizofrénicos, que querem ser os dois ao mesmo tempo. Um amigo meu até já me pediu os livros do Hilbert e do Russel para emprestar ao miúdo que está a acabar o 4.º ano. Os pais estão aflitos com tanto interesse pela matemática demonstrado pela pequenada. Há alguns que já pensam consultar psicólogos como o dr. Eduardo de Sá ou psiquiatras como o dr. Daniel Sampaio para saber se isto é normal. Meu Deus, como o plano da matemática mudou toda uma cultura atávica. Não posso abrir mais a boca de espanto.

Um país de matemáticos

Dantes éramos um país de poetas, agora somos um país de matemáticos. Ao fim de dois anos, a ministra da Educação conseguiu transformar um país que mal sabia contar pelos dedos, numa pátria de alta eficiência matemática, pelo menos a avaliar pelos resultados das provas de aferição do 4.º e 6.º anos de escolaridade. Os resultados positivos estão acima dos 90%. É evidente que existem sempre umas almas mais desconfiadas que acham que as provas são demasiado fáceis e também há outras almas suspeitosas que pensam que os resultados se podem manipular com facilidade. Mas deixemos de lado essa gente que gosta pouco das aparências e banhemo-nos na nossa nova vocação matemática. Afinal, estávamos esquecidos, mas descendemos todos do Pedro Nunes.