21/02/08

Delacroix - Cristo en la cruz

Siglos XIX y XX. Neoclasicismo/Romanticismo, 1845. Óleo sobre madera. 37 x 25 cm. Museum Boijmans van Beuningen. Rotterdam. Holanda.

20/02/08

António Ramos Rosa - XI

Contra algo, inconsistente, interrogado
respiração de infância, insecto imperceptível
aranha de água brilhante aranha.

Contra algo - o quê? Contra isso
pelo desejo obscuro da terra obscura
pela respiração das imagens e dos lagos.

Pelos dados do não-dado contra
e contra que embranquece a página
contra a virgindade da árvore contra o seio.

António Ramos Rosa, O Incêndio dos Aspectos, 1980

France Gall - Poupée de cire

Sejamos condescendentes, a vida também tem destas fraquezas.

France Gall - Poupee de cire
Colocado por scopitones

Educação, três anos de governo

Sobre a escola portuguesa caiu um monstro. Esse monstro devora tudo o que se liga ao saber e àquilo que é inerente à apreensão do saber. A escola portuguesa transformou-se numa espécie de empresa, com uma organização burocrática que tenta imitar a eficiência do mundo económico. O grande problema é que o ensino e a educação estão mais próximos da religião (a sagração do saber e dos valores ideais, não os reais, da comunidade) e da arte (o acto de ensinar é análogo ao que faz o poeta com a língua ou o pintor com a cor e a luz, e pouco ou nada tem a ver com as operações técnicas do mundo empresarial).

Mas doloroso é ver alguns professores a cooperarem na destruição daquilo que faz a dignidade da sua função. Agem como se uma cegueira tomasse conta deles e os atirasse contra os colegas, tentando destruir o senso comum que a profissão foi construindo ao longo de séculos. Contrariamente ao que pensam os «inovadores», os parâmetros da acção do professor estão definidos ontologicamente desde os tempos da Grécia Clássica. O conflito que atravessa a educação portuguesa centra-se nos professores que permanecem fiéis à longa tradição de ensino ocidental e aqueles que, combinando uma estranha retórica revolucionária, liberal e burocrática, pretendem destruir o bom senso que a tradição legou.

Apesar da maioria dos professores, ainda que de forma intuitiva, se identificarem com essa longa tradição, as escolas começam a ser dominadas, devido à pressão política, por uma casta de professores burocratizados, cheios de «pedagogês» e de «gestionês», mas pouco atentos à essência simples da sua profissão. Neste momento, depois de três anos de governação, pode-se fazer um balanço sobre a escola portuguesa. Ela estava doente, agora encontra-se absolutamente moribunda. A seiva sã que ainda a animava foi sugada e no seu lugar corre a mais torpe e hedionda burocracia. Não por acaso começam a crescer as escolas privadas. Dentro de pouco tempo, a escola pública estará dizimada e, ao lado dela, haverá escolas privadas que devorarão os alunos com recursos e com apetência pela aprendizagem.

O trágico, porém, é que a escola pública tenha morrido à mão do Partido Socialista e de alguns professores. Aqueles que mais a deveriam ter defendido são os que, sem apelo, a estão a assassinar. Se quisermos falar das escolas públicas deveremos usar as seguintes palavras: Requiem aeternam dona eis, Domine.

Taller de Frans Francken - Captura de Jesús en el huerto de Getsemaní

Siglos XVI y XVII. Barroco, Escuela flamenca. 1542. Óleo sobre cobre. 55 x 72 cm. Abadía de Montserrat.

19/02/08

António Ramos Rosa - X A Partitura do Impossível

Quem grita surdamente
não pertence
à partitura do tempo.
Quem grita em altos gritos
não pertence
à sinfonia das nuvens.
Qual é o músico
que trabalha com
a imensidade do negro
e a agonia sem esperança?

António Ramos Rosa, Estrias, 1990

A pura impotência

Vi há pouco, nos telejornais, os efeitos das chuvas de ontem. Aquilo que impressiona é a fragilidade em que vive a maior parte dos portugueses. Ouve-se as pessoas, e o que ressoa é a mais pura impotência. A miséria não é apenas a falta de bens materiais, é também a vontade fraca, a ausência de horizontes, a inexistência de qualquer esperança. A vida abate-se sobre os portugueses como sobre uma espécie em vias de extinção; fria, dura, inexorável.

Paul Gaugin - The Yellow Christ

1889. Oil on canvas. Albright-Knox Art Gallery, Buffalo, NY, USA.

Lionel Hampton and his Orchestra


Lionel Hampton and his Orchestra
Colocado por soulpatrol

O dilema cubano

A resignação de Fidel Castro abriu um novo cenário em Cuba. À partida os cubanos têm duas opções. Ou continuam como até aqui e permanecerão pobre e isolados, ou abrem-se aos ventos que vêm da América. Mas assim que a abertura se der, haverá cubanos que enriquecerão, mas a bela ilha retornará ao “esplendor” do tempo do ditador Fulgencio Batista. Talvez uma ditadura não seja substituída por outra, mas os casinos voltarão em força. Será para dinamizar a economia, justificar-se-á. Má sorte a dos cubanos: ou sem liberdade ou sem dignidade.

A condenação do PSD e da Somague

O PSD e a Somague foram condenados pelo Tribunal Constitucional num caso de financiamento partidário ilegal (ver aqui). É evidente que a ligação dos partidos políticos e dos interesses económicos não existe, é ilusão dos cidadãos que não percebem a essência da política nem a ética republicana. Resta saber se o episódio é o começo de uma coisa séria ou se foi um pequeno lapso que escancarou, uma vez sem exemplo, as portas à justiça.

18/02/08

António Ramos Rosa - IX Ponto - Traço

Um ponto negro - um traço
na planície branca
e uma pergunta no silêncio
resolve-se na luz
de uma outra folha inatingível
nudez de evidência ou
de um equilíbrio súbito suspenso
de um contorno novo
uma prosa branca
o desvio de um sulco
ou haste
perpendicular à lentidão do curso
o nome que ascende e principia o fluxo
que não cessa aqui

António Ramos Rosa, A Nuvem sobre a Página, 1978

Salvador Dali - Crucifixión


Siglo XX. Vanguardias Históricas/Surrealismo, 1954. Óleo sobre lienzo. 194.5 x 124 cm. Propiedad particular.

A entrevista de Sócrates

Sócrates fala na SIC. Assisti até ao fim do tema da educação. Quando se falou de economia, Sócrates foi cordato e descreveu um extraordinário mundo que eu não conheço. Quando passou para a educação deixou de ser tão cordato. Não deixou que lhe pusessem questões e descreveu uma realidade extraordinária. O meu problema é que vivo nesse mundo e nada do que Sócrates diz faz sentido. Pode mostrar muitos dados, mas os dados todos nós sabemos como se produzem. A degradação do ensino e a degradação das aprendizagens são galopantes, o facilistismo e a indisciplina atingem níveis inimagináveis há pouco tempo atrás, o desinteresse dos alunos cresce todos os dias e a avaliação dos professores, escolhida pelo governo, vai apenas promover, devido ao método adoptado, o que há de pior na escola portuguesa. Por que razão os professores mais empenhados, mais conscienciosos, com melhores resultados, abominam a avaliação proposta? Se naquilo que eu conheço, por dentro e por fora, nada existe que espelhe o discurso de Sócrates, não serei também obrigado a pensar o mesmo das outras áreas? Não viverá Sócrates numa ilusão, num país que apenas existe na sua cabeça?

Inundações e miséria

Bastou umas chuvadas mais severas e toda a nossa miséria veio ao de cima. Nem a tragédia da morte nos foi poupada. Não sou dos que acreditam que tudo pode estar sob controlo humano, não pode. Mas há uma atitude geral de desprezo do bem público que nos envergonha. Mais vergonhoso, porém, é o triste pingue-pongue das responsabilidades. Acabei de ver o ministro do ambiente e alguns autarcas a dar um infame espectáculo: a responsabilidade é sempre dos outros. Isto tem um nome: miséria de espírito. Tem sido assim desde há trinta anos, em todas as áreas da governação. Mal sopra uma rajada de vento e toda a indigência se torna clara.

Considerações sobre a nossa república

Montesquieu considera a existência de apenas três formas de governo. A monarquia, a república e a tirania. Cada uma destas formas de governo possui o seu princípio de acção estrutural e dominante. Na monarquia a acção visa a honra, na república visa-se a virtude e na tirania é o medo o princípio de acção. Se na tirania não existe um orgulho específico que presida à acção, já o mesmo não se passa nas outras duas formas de governo. Na monarquia, a honra brota do desejo de distinção; na república, a virtude significa não ser objecto de privilégios públicos especiais.

Que poderemos nós, porém, pensar da nossa república? Se olharmos não para a forma institucional do nosso regime político, mas para a prática efectiva descobrimos, no momento histórico em que vivemos, uma dupla perversão do ideal republicano. Por um lado, o que muitos republicanos procuram é a honra inerente à visão monárquica do mundo, fundada num proveito económico proveniente do privilégio. Mas esta perversão da virtude republicana é apenas uma face da moeda. A outra é o medo crescente que se espalha, como um câncer, na sociedade.

A República Portuguesa vê o seu princípio de acção a ser dilacerado. Não por acaso, o aniversário do assassinato de D. Carlos trouxe à luz uma certa nostalgia monárquica. A essência desta nostalgia não se encontra nos pobres monárquicos de serviço à causa. Ela encontra-se naqueles que vivendo dentro do regime republicano o sugam e pretendem ver glorificada a sua novel posição. Mas enquanto se permite, através de uma justiça inoperante, a gestação dos aspirantes à honra monárquica, por outro lado, o sentimento de aspiração à igualdade, virtude primeira da república, é desfeito pela a acção política dos grandes partidos republicanos. Aqui, como descobrimos ao olharmos para a sociedade portuguesa, é o medo que começa a funcionar. Ora o medo não é mais nem menos do que o princípio de acção nas tiranias.

Quando o princípio de acção de uma forma de governo deixa de ser dominante, então ela está perto do seu fim. Há uma estranha ironia em tudo isto estar a passar-se quando se aproxima o centenário da proclamação da República Portuguesa. Não menos irónico é pensar que o Estado Novo foi uma estranha combinação de monarquia e de tirania sob a forma de uma república. Nessa república, o presidente era como se não existisse, aquele que efectivamente governava era monárquico e o que estava no verdadeiro lugar era apenas e só o medo.

A Ver o Mundo - um ano de existência

Um ano de A Ver o Mundo. Não vai haver festas, nem alterações substanciais. As que deveriam ocorrer já ocorreram. Durante muito tempo, o dia do blogue começou com uma fotografia e uma pequena frase de índole metereológica, digamos assim. Mas a azáfama dos dias e a tensão estapafúrdia em que se tornou a profissão que exerço impedem a continuação desses pequenos gestos diários. Não se perde grande coisa. As fotografias poderão voltar, mas sem regularidade. A metereologia, bastante má hoje, será remetida para os respectivos boletins.

De resto as coisas continuarão mais ou menos como até aqui, com a excepção da imagem que acompanha o cabeçalho do blogue. "O Trovador", de G. Chirico, foi substituído pelo "O Vaticinador", do mesmo artista. Talvez não estejamos em tempos de trova nem a forma de enfrentar o mundo seja a de um D. Quixote, em posição de combate, tomando por lança as pequenas palavras que cabem num poema. Sentemo-nos e olhemos o voo dos pássaros ou escutemos o oráculo de Delfos. Um contemplativo, acusar-me-ão. Mas que outra coisa pode ser alguém que, na sua longínqua juventude, decidiu estudar filosofia? Há muito para vaticinar no mundo precário que é o nosso. Mas haverá mundos que não sejam precários? Contemplar na precariedade as fissuras que anunciam as ruínas, eis o continuado desígnio deste blogue.

17/02/08

António Ramos Rosa - VIII

Não encontrarás aqui a fluência
de algum ventre polido ou verso límpido
porque estas palavras conhecem paredes
que não ouviram a angústia e a vertigem

mas têm o sal das lágrimas obscuras
para sempre ignoradas para sempre futuras
nem ouvirás o som das aves frias
mas sentirás o arrepio de sombras sobre as pedras

ouvirás talvez um suor de silêncio

António Ramos Rosa, Boca Incompleta, 1977

Uri Caine - Rhodes Solo (2007)

A independência do Kosovo

A independência do Kosovo é um molho de brócolos indescritível. A Sérvia não reconhece a desanexação de um território que reivindica como pátria originária. Os EUA parecem apoiar os kosovares, a Rússia exige que a ONU e a NATO actuem para pôr fim a este «atentado» contra a soberania sérvia, a Europa hesita, as nuvens tornam-se cada dia mais negras e a borrasca prepara-se naquele sítio que, se a situação não for tratada com luvas de pelica, se tornará num novo Médio Oriente, só que agora na Europa. Quantos nacionalismos, no nosso velho continente, estão à espera de um sinal encorajador?