16/06/09

Sócrates, os professores e a vítima sacrificial

Bode Expiatório - William Holman Hunt, 1854

Como poderemos nós compreender a profunda animosidade dos professores portugueses relativamente ao governo de Sócrates? Que princípios animaram a governação socialista que mereceram a mais profunda contestação por parte de uma classe profissional. Talvez a Filosofia nos ensine algo sobre isso. Vejamos o que diz Paul Ricoeur, ao referir-se à crítica de Rawls ao utilitarismo:

"O utilitarismo é certamente uma doutrina teleológica, na medida em que define a justiça pela maximização do bem para o maior número. Quanto a este bem, aplicado às instituições, ele é apenas a extrapolação de um princípio de escolha construído ao nível do indivíduo, segundo o qual um prazer simples, uma satisfação imediata deveriam ser sacrificados em benefício de um prazer ou de uma satisfação maiores, ainda que afastados (no tempo). A primeira ideia que vem ao espírito é que há um fosso entre a concepção teleológica do utilitarismo e a concepção deontológica em geral: ao extrapolar do indivíduo para o todo social, como o faz o utilitarismo, a noção de sacrifício toma um aspecto medonho - não é um prazer privado que é sacrificado, mas toda uma camada social; o utilitarismo, como um discípulo francês de René Girard, Jean-Pierre Dupuy, sustenta, implica tacitamente um princípio sacrificial que equivale a legitimar a estratégia do bode expiatório." [Paul Ricoeur (1991). "John Rawls: de l'autonomie morale à la fiction du contrat social", in Lectures 1. Paris: Seuil, pp. 201-202]

Perante um problema real, o défice das contas públicas, o governo decidiu um caminho estratégico utilitarista. Os professores foram escolhidos como vítimas sacrificiais, em nome do bem-estar do maior número. Havia dois caminhos a trilhar relativamente aos salários e carreiras profissionais dos servidores do Estado. Um caminho de carácter deontológico, onde os sacrifícios seriam distribuídos com equidade por todos os que exercem funções no Estado, ou o caminho escolhido pelo governo. A proletarização do professorado português, decidida pelo actual governo, é escandalosa e originou e origina ainda profundos sentimentos de injustiça entre os professores. O contrato que o Estado tinha assinado, e com o qual tinha chamado muita gente à profissão, foi rasgado em nome de uma moral utilitarista: uma parte é sacrificada em nome do bem-estar do maior número. Mas a democracia não implicará este tipo de sacrifício? Não será politicamente legítimo sacrificar o menor número em nome dos interesses do maior número?

Do ponto de vista político, o princípio sacrificial está ausente da democracia. Esta existe para que não haja vítimas sacrificiais em política. A vitória de um partido não implica o sacrifício dos partidos perdedores. A democracia não legitima nenhuma opção de criação de vítimas sacrificiais ou de bodes expiatórios. Mas moralmente não será aceitável a posição do governo? Não será eticamente bom que o menor número seja sacrificado em nome do bem da maioria? Vejamos novamente o que diz Paul Ricoeur:

"A resposta kantiana seria que o menos favorecido numa divisão desigual de vantagens não deveria ser sacrificado, porque é uma pessoa, o que é uma maneira de dizer que, numa linha do princípio sacrificial, a vítima potencial da distribuição seria tratada como um meio (como uma coisa) e não como um fim (como uma pessoa)." [Idem, pp. 202]

O que o governo fez, e fê-lo de várias formas, foi tratar os professores portugueses como meras coisas e não como pessoas. Não foi apenas no facto de os ter escolhido como bodes expiatórios a sacrificar no altar do défice público. Foi também, por exemplo, no concurso de professores titulares, que mais do que um verdadeiro concurso foi um jogo de azar, irracional como todos os jogos de azar. Quando se tratam os seres humanos como pessoas, não se podem seleccionar os melhores através do acaso. Isso pode acontecer, se se considerar que os professores são meras coisas e não pessoas. Foi isso que o governo pensou e realizou: uma coisa não tem direito a ser tratada racionalmente. Outro exemplo deste tratamento como mera coisa foi a reacção do governo às manifestações de professores. Foi como se não tivessem acontecido. Não estiveram lá pessoas que mereceriam ser ouvidas na sua contestação, mas meras coisas, seres irracionais que não vale a pena escutar.

O que está, muitas vezes de forma bem inconsciente, por trás da revolta dos professores é o protesto pelo facto de um governo os ter tratado como meras coisas, bodes expiatórios, que deveriam suportar todo o tipo de sacrifícios, para o bem da maioria e para a tranquilidade dos governantes. Nunca uma política foi tão ignóbil como a deste governo relativamente aos professores. Repare-se bem que não é o facto dos professores terem de fazer sacrifícios para que haja equilíbrio das contas públicas. Eu acho que todos os que servem a comunidade nas instituições públicas o deveriam fazer, pois a comunidade não suporta o encargo que tem com aqueles que a servem. Isso é uma coisa, outra é ser vítima sacrificial, mera coisa. Foi esta a escolha de Sócrates coma conivência de Maria de Lurdes Rodrigues. É isto que torna este governo odioso aos olhos dos professores.

Eu compreendo que um partido da direita possa reger-se pelo princípio da vítima sacrificial. Posso compreender que os partidos revolucionários sejam partidos que necessitam de vítimas sacrificiais. O incompreensível é que um partido de esquerda moderada busque fundamento, na sua acção governativa, no princípio da sacrificialidade. O que mostra uma coisa bem interessante no actual PS. Ele é dirigido por dois tipos de nostálgicos. Por um lado, há os nostálgicos de direita, liberais travestidos de socialistas; por outro, há os nostálgicos da revolução. De partido da liberdade e da equidade, o PS transformou-se nesta amálgama obscura e insidiosa, onde a consideração pela pessoa e o culto da liberdade desapareceram.

Da virtude da humildade

(Imagem do Jumento)


Ao engenheiro Sócrates chegou uma inspiração religiosa. Talvez tenha tido a sua estrada de Damasco. Parece que, a partir de agora, vai pautar a sua conduta política pela virtude cristã da humildade. Pessoalmente, prezo bastante a sua conversão à moral do crucificado. Mas o caminho da humildade está cheio de armadilhas. Uma pessoa humilde se se dedica à política não vem para os jornais dizer que quer uma maioria absoluta. Isso não é humildade é soberba, orgulho terrível e perdedor de almas. Nós, portugueses, devemos ajudar o nosso primeiro-ministro no seu novo caminho de redenção. Contribuamos para a salvação da sua alma. Como? Com uma votação humilhante nas próximas legislativas. Como muito bem sabem os santos da Igreja, humildade sem humilhação é vaidade. E alguém quer um Sócrates vaidoso a arder nas profundas do inferno?

15/06/09

Metamorfoses XXXV

Per Nørgård – Terrains Vagues

deixaram a memória na terra vazia
e construíram diques para evitar inundações

olhavam a madeira a flutuar
e contavam as palavras que disparavam
contra a fúria dos elementos

os desenhos imprecisos atraíam as tempestades
e não havia poder que sustivesse
o desígnio da terra ou a impaciência dos oceanos

os raros símbolos que traziam
dormiam emudecidos entre os ventos frios
e um medo ancestral que borbulhava
naqueles estômagos cansados

tantas vezes contemplei esse medo
o ventre silencioso a dobrar-se sobre si
e uma sombra engastada na garganta a crescer
como um hieróglifo na paisagem despovoada

tantas vezes disparei palavras sem sentido
ouvindo o mar romper pela arriba
e levar os corpos que o sol ali deixara
para os depositar sabe deus onde

No reino das novelas

Vivemos num país enovelado. Perante uma realidade escassa sobram as novelas. Por exemplo, a da supervisão do Banco de Portugal no caso BPN. Toda agente já percebeu que ninguém quer saber do caso BPN, mas a oposição compreendeu que Vítor Constâncio pode ser um elo fraco dentro da esfera do poder, portanto clama por sangue. Em novelas especializou-se o Benfica. Dantes tinha equipas de futebol, hoje em dia tem autores de scripts. Mas os enredos são sempre de fraca qualidade. Agora até mete Jesus e tudo. O kitsch ameça. A imaginação também é pouca. De novela são também as iniciativas como as de Belgais, de Maria João Pires. O projecto de Belgais, de ensino artístico, vai acabar bem à portuguesa, com arresto dos bens. Outra novela é o caso do TGV. Anda, não anda. O enredo está demasiado enredado e talvez fosse bom esperar mais uns meses para ver o desenlace. Ao menos que se seja fiel à característica de novela e se alargue os episódios até depois das eleições. Novelas que emocionam a opinião pública e asseguram largas audiências são as que incidem sobre crianças. Gasta a história da menina russa, agora temos direito à triste história do Martim e da sua jovem mãe. Esta tem todos os ingredientes, se o público não for a banhos, para uma larga audiência. Nestas coisas, a justiça está sempre metida, vá lá saber-se por que razão.

14/06/09

Metamorfoses XXXIV

Gyorgy Ligeti – Atmospheres

um súbito terror no desvão da noite
os mitos rasgados e atirados por terra
a longa espera a olhar os céus

a chuva não cai mais
e a terra é um deserto de cactos cansados
areia negra
a sombra de algum corvo

se eu me sentar e abrir as mãos
de nada servirá o gesto
a ferida sangrará
e não haverá lenço para estancar o sangue

deixo vir a intermitência das imagens
inundar-me de escoriações
lacerar-me como nos dias em que havia história
e todos dobravam o joelho
na capela onde os deuses se vendiam

mas mataram o anjo numa esquina de rua
aboliram-lhe a presença no crepúsculo
arrancaram-lhe a carteira onde guardava
o dia claro e a noite transfigurada

roubaram os mitos roubaram a história
fui desapossado da herança

o campo que me resta
não tem luz nem sombra nem treva
as areias inertes o coração débil
e a fonte seca onde bebia água pela tarde

Há dias assim

Há dias assim. Dias tristes e indefinidos, nem quentes nem frios, apenas assim. Hoje o meu pai faria 82 anos, mas há uns anos que deixou de fazer anos. Não há em mim revolta contra essa decisão da natureza nem dor exacerbada. Apetecia-me, apenas, ir lá a casa e falar um pouco com ele, trocar umas palavras sobre o estado do mundo, sobre a política, o que pensaria ele do engenheiro Sócrates? Ah sim, falaríamos por certo do nosso Benfica e eu, por causa dele, até saberia mais do clube, do qual já quase nada sei. Eram assim conversas tranquilas, conversas de homens, que me ligavam ao fundo dos tempos. Agora resta-me o futuro. E nada há mais insidioso do que restar-nos apenas o futuro.

Ted Hughes - O poema é um ser vivo

Ted Hughes


"Será melhor chamar-lhe (ao poema), então, reunião de várias componentes vivas, movidas por um espírito único. As componentes vivas são as palavras, as imagens, os ritmos. O espírito é a vida que as habita quando tudo converge para a mesma finalidade. E impossível dizer o que acontece primeiro, se são as diferentes partes a surgir ou se é o espírito que as comanda. Mas se qualquer uma delas estiver morta... se, no acto de ler, algumas das palavras, das imagens, dos ritmos, não contiverem vida em si... então o novo ser fica mutilado e o espírito doente. É por isso que, enquanto poeta, cada um deve certificar-se de que todas as componentes sobre as quais se pode exercer controlo, as palavras, as imagens, os ritmos, existem como coisas vivas." [Ted Hughes, O Fazer da Poesia]
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Hughes olha para o poema a partir da metáfora biológica. O poema é um ser vivo, um ser orgânico dotado de unidade e de um logos (espírito) interno que lhe dá vida. As palavras, as imagens, os ritmos são as partes desse todo, partes que entretêm entre si uma unidade sistemática. O poema deve ser vivo e cada uma das suas partes deve estar viva.

Mas esta definição de poema, por mais atraente que ela seja, por maior pregnância que possua, por mais acordo que gere entre leitores e críticos de poesia, deixa-me perplexo sobre dois pontos de vista.

Em primeiro lugar, pela ocultação da morte. É um facto que, ao olharmos um ser vivo na plenitude da sua vida, não vemos a morte que nele se insinua, que está presente e que avança sorrateira. Não deverá, considerando a metáfora biológica, o poema conter já em si a sua morte? Não deverá a morte - não a morte abstracta, mas a morte real e sensível do poema - insinuar-se nas palavras, nas imagens e nos ritmos? E uma estranha investigação poética se abre assim ao poeta: onde e como a morte do poema se insinua nesse ser vivo que ele é? Nas partes, num ritmo falhado, numa palavra abstracta, numa imagem que não dá a ver? Ou no todo, na incapacidade de dar organicidade às partes que o compõem? A definição do poema por uma metáfora biológica arrasta ainda consigo uma concepção de arte como produção do belo, belo que é harmonia, a harmonia que é unidade orgânica. Esta concepção está assente na ocultação da morte, como fonte do não-vivo, do não-harmónico, do não-belo.

A segunda perplexidade nasce, de certa maneira, da primeira. A visão do poema como ser vivo, unidade orgânica, não será apenas uma visão possível e meramente particular do que é um poema? Uma visão historicamente determinada pela dimensão apolínea da poesia homérica, dimensão que se constituiu como ideal regulador da poiesis? Não poderá haver poemas inorgânicos? Não poderá haver poemas onde a tensão entre o orgânico e o inorgânico seja o essencial? Imagino muitas vezes que a poesia do nosso tempo só pode ser uma poesia inorgânica, talvez uma poesia de tensão entre o inorgânico e o orgânico. Outras vezes, julgo que o poema deve ser supra-orgânico, estar para além da vida e da morte, retirado da dimensão da sensorialidade para que seja puro espírito, mas não logicismo abstracto e vazio. É por tudo isto que acho limitada a visão de Hughes sobre o poema e o trabalho poético. Este não pode apenas produzir seres vivos, pequenos ou grandes animais. O trabalho poético deve produzir todo o tipo de seres. Com isto não quero dizer que ele "fale" sobre seres inorgânicos, sobre seres vivos, sobre seres que estão para além da vida, mas que o trabalho poético faça ser todos esses seres, que os constitua na linguagem, que os crie. Aqui, ao chegarmos à criação, é melhor fazer silêncio, não venha Teologia interpor-se.

A democracia iraniana

Nas primeiras horas após as eleições presidenciais no Irão, quando apenas se conhecia a elevada afluência às urnas, não faltaram, aqui e ali, comentários comparativos entre a exemplar "democracia" iraniana e a degradante democracia europeia, onde os eleitores têm o desplante de não irem votar. É evidente que essas almas caridosas estão sempre desejosas de encontrar contra-exemplos que mostrem a insanidade da democracia representativa, e qualquer pseudo-eleição com aparência democrática lhes enche a alma e lhes incha o peito, de onde expelem o seu ressentimento com a democracia ocidental.

Na sua caridade, esqueceram, como é hábito, certos pormenores. Por exemplo, o principal líder político do país não é eleito por sufrágio universal. O cargo, de carácter vitalício, tem o extraordinário nome de Guia Supremo e resulta de uma eleição por uma não menos extraordinária Assembleia de Peritos. O Presidente da República é eleito por sufrágio universal, mas pura e simplesmente pode ser demitido se a sua governação não coincidir com a interpretação que o Guia Supremo faz da constituição.

Percebo que muita gente gostasse de ser governada por um Guia Supremo, alguém que decidisse, em última instância, o modo como deveríamos viver. Esta arquitectura política da República Islâmica aproxima-se bastante das arquitecturas políticas dos regimes fascista, nacional-socialista e comunista. Em todos eles, de uma forma ou de outra, há sempre um Guia Supremo, alguém que pensa por nós e nos dispensa não apenas do acto de pensar, mas também de dirigir a própria vida e de participar na vida comunitária, a não ser segundo os moldes pensados pelo pensamento do Guia Supremo.

O que essas almas caridosas, que já viam na eleição iraniana um novo vento de leste, arquétipo do qual deveríamos participar, não conseguem explicar é a onda de tumultos que tão democrática eleição produziu, bem como o facto de, no famigerado Ocidente, as eleições não produzirem tumultos, nem queixas de fraude eleitoral, nem prisões dos vencidos ou pseudo-vencidos. A não ser que os admiradores dos Guias Supremos achem que, havendo quem supremamente nos guie, os resultados eleitorais se devam acomodar à visão eleitoral do supremo Guia.

13/06/09

Metamorfoses XXXIII

John Cage – In Landscape (Piano solo performed by Stephen Drury )

deram-te uma paisagem de ruídos
e um campo semeado de túmulos
onde dormem os mortos

– ninguém agora os quer –

pesam tanto
e apontam com dedos descarnados
a flacidez das faces
que assombram a vida

tivessem boca – os mortos –
e um sopro de ar nos pulmões
cuspiriam na luz que ilumina
quem da paisagem se apoderou
e os silenciou em túmulos
onde só chegam ruídos
segredados por campos vazios

deles roubaram flores e ervas e pedras
e deixaram um rio de águas azedas

aí os peixes apodrecem cantando

Regular mercados e outros disparates

A propósito do dinheiro pago, ou a pagar, pelo Real Madrid por Cristiano Ronaldo, começa-se a falar em regular o mercado. Eu que nem sou liberal, não consigo compreender como se poderá regular o mercado das transferências de jogadores de futebol. Os protagonistas da bola não quiseram uma indústria? Agora têm o retorno. A única coisa que interessa questionar é se o Real Madrid paga atempadamente todos os seus compromissos, tanto os que tem relativamente a fornecedores como os fiscais. Se o clube madrileno cumpre as suas obrigações de forma lícita, então não há nada a dizer ou a fazer. A única coisa que deve ser regulada é a acção dos Estados sobre os clubes que não cumprem as leis que regem a respectiva indústria. Também não deve ser permitida a existência de excepções para essa indústria, nomeadamente a nível fiscal.

O facto de o Real Madrid estar disposto a pagar muito pelos jogadores que quer na sua equipa não representa nenhum abuso de posição dominante, nem está provado que isso implique uma hegemonia tal que anule a concorrência entre as diversas equipas europeias de futebol, como aliás o Real Madrid bem sabe, assim como o seu actual presidente. O que não se deve permitir é que, caso o Real Madrid vá à falência, o Estado espanhol interfira para evitar o acontecimento. O futebol acompanhou a evolução das sociedades modernas, nada há a fazer. Não mais se retornará àquilo que acontecia nos anos sessenta do século passado, que representava já uma enorme ruptura com o que se passava nos anos vinte ou trinta desse mesmo século. Cristiano Ronaldo é a transferência mais cara no futebol mundial, por enquanto. Não há suporte lógico para sonhar impor um tecto às transferências de jogadores de futebol. O mercado ditará as suas leis. No momento em que esse tecto for imposto, o dinheiro correrá por fora, numa espécie de mercado negro, que o futebol português tão bem conhece. Numa sociedade de mercado, o futebol só pode ser um produto mercantil e os jogadores uma mercadoria, cujo valor é ditado pelas regras da oferta e da procura. Só isso.

Traição metereológica

Na expectativa de mais um dia quente em Torres Novas, decido vir para junto do mar. Resultado: estou fechado em casa. Lá fora, sob um céu fortemente nublado, corre um vento frio e a temperatura deve ter descido bem abaixo dos 20 graus.

O afastamento das galáxias


Acho que já escrevi aqui, mas não tenho a certeza. Não sei se sou contra ou a favor do novo acordo ortográfico. É uma das coisas que me deixa relativamente indiferente, embora não goste de ler ação em vez de acção e outras coisas do género. Mas os meus devaneios estético-linguísticos não possuem substância suficiente para me ajudar a definir uma opção por um dos lados da barricada.

Tudo isto vem a propósito de um artigo de Cristóvão Tezza, aliás excelente, que encontrei graças ao De Rerum Natura. O autor propõe que, tendo em conta a difícil penetração dos autores portugueses no Brasil e dos brasileiros em Portugal, as obras literárias passassem a ser traduzidas para a variante local do português. É uma ideia particularmente interessante. Mas deixemo-la de lado.

Eu que não tenho uma opinião definida sobre se deve ou não haver um acordo ortográfico, tenho já uma opinião definida sobre o que ele de certa maneira representa. Eu não sei praticamente nada de astronomia e de astrofísica, mas sei que após o Big-Bang e a formação das galáxias, estas não fazem outra coisa senão afastarem-se umas das outras. É aquilo que se passa com as línguas. O acordo ortográfico é uma tentativa desesperada para evitar que as duas galáxias fundamentais da língua portuguesa se continuem a afastar.

Esse afastamento, porém, é inevitável. Uma língua reflecte e condensa as experiências existenciais de um povo. Se essas experiências são tão diferentes, é natural que a língua, que outrora foi comum, se afaste, se torne estranha. A experiência de que fala Cristóvão Tezza é partilhada por mim. Tezza, referindo-se a um livro de David Lodge excelentemente traduzido em português de Portugal, escreve: "Quanto à linguagem, em nenhum momento o leitor se sente em casa, e isso é mortal na prosa literária, que tem na vida cotidiana da língua a sua matéria-prima de origem. Não é só vocabulário, o que seria um problema simples – é sintaxe mesmo, os pronomes todos e seus modos de usar, campos semânticos sutilmente distintos, regências particulares que vão como que armando um novo modo de ver o mundo, tudo que metaforicamente define uma língua."

É esse estar fora de casa que eu sinto quando leio o português do Brasil, mesmo quando estou perante grandes cultores da língua portuguesa. Há sempre a ilusão de que não será difícil ler um livro na variante brasileira do português, pois tudo aquilo é familiar, mas nunca me sinto dentro do meu horizonte de experiência. Aquele português fala-me de uma experiência que não é radicalmente a minha e captura essa experiência numa sintaxe e numa semântica que nunca deixam de me deixar perplexo. Muitas vezes prefiro ler uma tradução espanhola, francesa ou inglesa de um livro, por exemplo, alemão, do que a tradução feita, ainda que muito bem feita, no Brasil.

O meu problema com o acordo ortográfico reside neste ponto mesmo. Será possível evitar que as galáxias se afastem? Duvido que, por mais acordos ortográficos que sejam assinados, no futuro, já relativamente próximo, não existam efectivamente duas línguas bem diferenciadas, o português e o brasileiro. Será isso um bem ou um mal? Não faço ideia, mas também não me ocorre perguntar se o afastamento das galáxias é um bem ou um mal. Acontece e mais nada.

Homens célebres

Para começar o dia, ir até ao Portugal dos Pequeninos e ler este texto de Fernando Pessoa dedicado aos dias de hoje, que já eram o seus dias.

12/06/09

Metamorfoses XXXII

Luciano Berio - Sequenza X (1984) [Flávio Gabriel - trompete Januibe Tejera - piano]

não vale a pena percutir os dedos na mesa
ninguém ouve a voz dos deuses
o comércio de tudo se apossou
e os meus semelhantes caminham
vendendo e comprando a alma
que alguém por descuido lhe emprestou

por isso dispenso-te da alegria
bastam-te os cuidados do negócio
e não fales em sentimentos ou melancolias
isso são flores de outros jardins
aqueles que traficaste para que ali
crescessem as horas mais sombrias

se ao menos os vendedores de esperanças
se calassem nesta hora tardia

se ao menos fechassem as tabernas
onde vendem álcool adulterado

se ao menos calassem as palavras
e me deixassem a sombra que resta

se ao menos me deixassem só
no silêncio da noite que chega


Hieróglifos, símbolos e metáforas



Eis uma coisa da qual só posso discordar. A linguagem simbólica exprime o pensamento sobre o divino. Do divino não têm os homens conhecimento, não há ciência empírica dele, mas podem pensá-lo. Para o pensar precisam de o simbolizar e simbolizar as "experiências" que dele têm. Como Kant ensina, não há conhecimento de Deus ou da imortalidade da alma, apenas pensamento. Mas Kant também ensina que o mesmo se passa com a liberdade. A liberdade não é um dado empírico, não é cognoscível, dela não há ciência possível. Mas isso não significa que, quando usamos a linguagem para simbolizar essa liberdade, estejamos a disfarçar o que quer que seja. Os homens têm agido no pressuposto da liberdade, na crença na liberdade, bem como no pressuposto da existência de Deus e da imortalidade da alma. Uma coisa é idêntica à outra.

Mas há uma coisa em que o Zé Ricardo tem razão: a vacuidade da linguagem. Mas essa vacuidade não deriva de ela ser utilizada para referir "experiências" não empíricas da humanidade, como aquelas que as religiões tratam, ou aquelas que pressupõem que somos livres. A vacuidade da linguagem nasce da sua impotência para dizer a realidade e da degradação contínua que toma conta dela, tornando-a menos própria para dizer o que quer que seja, cativa que fica da banalidade que a usura quotidiana impõe.

É no símbolo religioso e na metáfora poética que a linguagem tem maior pregnância. Ela é obscura, mas essa obscuridade não se confunde com a equivocidade lexical que o uso quotidiano impõe. A obscuridade da linguagem está enraizada na própria obscuridade da existência e da relação do homem com aquilo que o envolve. Quando o símbolo e a metáfora se degradam em catacreses ou metáforas mortas é o momento em que a linguagem já não serve para pensar e está radicalmente banalizada, correspondendo a uma experiência banal do quotidiano.

É aqui que se coloca uma coisa que cada vez me interessa mais. A riqueza do conceito filosófico não está na sua claridade, por muito que tenha sido esse o programa da modernidade encetado por Descarte. A riqueza do conceito filsófico radica na sua origem simbólico-tropológica. Não é o traço claro e distinto que dá que pensar, mas o fundo obscuro, essa contaminação da linguagem filosófica pela sua origem mito-poética que fornece a matéria para o pensar. Pensar é caminhar para dentro das metáforas e dos símbolos, é escavar nessa "ausência de pensamentos".

Mas essa ausência de pensamentos não significa que não haja nada para pensar, pelo contrário. A ausência de pensamentos surge como uma injunção a pensar. Por exemplo, pensar a liberdade. Eu sei que nunca poderei ter uma ciência da liberdade, mas isso não me exime do dever de a pensar. E o termo liberdade, apesar do seu uso banalizado, não deixa de ser símbolo e metáfora, não deixa de ser obscuro e é essa obscuridade que nos dá que pensar. O mesmo se passa com a linguagem simbólica das religiões, apesar do seu uso profundamente degradado e positivado. Nesses símbolos esconde-se uma experiência e um interesse obscuros da humanidade que nos dão que pensar. Só aí há que pensar. O espírito de veneração e mistério dos crentes é apenas o sintoma desse interesse obscuro que habita o homem desde que é homem.

O resto é conhecimento e mero raciocinar, e esses pertencem à ciência. O grande problema da teologia não é o mistério, nem o símbolo, nem a metáfora. O problema da teologia é a razão entendida como entendimento e faculdade puramente lógica fundada na não-contradição. O problema da teologia é a tentação de fazer ciência daquilo que não há ciência, a tentação de não pensar.

Reaccionário tecnológico

Sou um reaccionário tecnológico. Não pelo facto de o aparelho de televisão que possuo ser já de outra era, mas pelo simples motivo de apenas possuir quatro canais de televisão. Ainda não aderi, pelo menos na actual encarnação, ao cabo ou ao satélite. Resta-me a escolha entre os canais de sinal aberto, que, para dizer a verdade, mais valiam que também fossem em sinal fechado.

Raramente vejo TV, mas cada vez que me sento e faço um zapping miserável pelos quatro canais, só me dá vontade de fechar o aparelho e nunca mais o abrir. O canal dois, talvez por falta de sorte a minha, sempre que passo por lá há-de estar um leão a comer uma gazela, um jacaré a tomar a refeição, um leopardo com a boca suja de sangue. Não é que eu tenha alguma coisa contra. Se eles têm fome, terão de comer, mas cansa ver tantos programas de gastronomia. Deve haver por lá outras coisas, mas nunca as apanho.

Os outros três canais generalistas parecem-me um poço de boçalidades. Tenho a difusa impressão de que, de manhã à noite, cada canal só transmite um programa. Acho que nas programações lhe dão títulos diversos, e é possível que pessoas diferentes, ou aparentemente diferentes, apresentem o programa em diversas horas do dia, mas não juro. Por exemplo, não consigo diferenciar uma telenovela de um programa da manhã para a terceira idade, ou de um jogo de futebol, de um concurso ou mesmo de um telejornal. Tenho feito até algumas experiências curiosas. Tento surpreender as televisões em diversas horas do dia, para provar a mim mesmo que não tenho razão. Mas não consigo. Seja a que horas for estão sempre a dar o mesmo programa.

O curioso desta coisa do zapping é que, no outro dia, até pensei que o comando estava sem pilha ou tinha entregue a alma ao criador. Eu carregava nos botões dos canais e era sempre a mesma coisa que aparecia. As caras não eram exactamente iguais, mas os programas sim. Descobri então que os três canais generalistas em Portugal transmitem todos a mesma coisa durante as 24 horas de cada dia, se é que um dia televisivo tem 24 horas.

Por isso estou cada vez mais um reaccionário tecnológico. Cada vez que me falam em aderir ao cabo ou ao satélite, eu só penso o que seria ter dezenas de canais à disposição para ver só um programa durante todos os dias da vida. E não adiro. Compro um livro ou filme com o dinheiro da televisão e entrego-me a minha reaccionarice tecnológica, mostrando bem que não pertenço à elite moderna do engenheiro Sócrates, Deo gratia.

Jornal Torrejano, 12 de Junho de 2009

Disponível on-line está a edição semanal do Jornal Torrejano. Clique aqui para ir até lá.

11/06/09

Metamorfoses XXXI

Luigi Nono – ... sofferte onde serene ... (Markus Hinterhäuser - piano)

o vento do norte as ruas geladas o acaso
assim enumeravas as virtudes da vida
à espera que o carrasco ocioso chegasse
e trouxesse na mochila da morte
a pouca esperança que restava

se tivesse uma esponja
embebia-a em vinagre e matava-te a sede
ou desenhava um círculo na poeira do chão
para que o teu rosto ali se reflectisse
quando chegassem as nuvens de inverno

bebo pela tua memória futura
enquanto oiço os eléctricos chiar
nesta terra de onde expulsámos os anjos
para podermos arrotar à vontade
sem perturbar os mensageiros de deus

este é o símbolo da nossa glória
arrotar numa floresta de betão
erguer um machado afiado
e marchar pelas ruas grávidos de ódio
cantando canções de amor e perdão

A natureza da coisa


Cristiano Ronaldo foi transferido para o Real Madrid por uma verba na ordem dos 93 milhões de euros, a transferência mais cara de sempre. Aliás, o Real Madrid é o clube que pagou as quatro transferências mais caras na história do futebol mundial. Entre essas quatro, estão as de dois portugueses, Cristiano Ronaldo e Figo (transferido do Barcelona para o Real Madrid por 61,7 milhões de euros). O que mostra a natureza da coisa é que desse dinheiro todo não veio um centavo para Portugal. Os clubes estrangeiros compram os jogadores portugueses ao preço da uva mijona para depois os transferir, passado uns anos, a preços inimagináveis para o futebol da paróquia. Nós, que nos ufanamos de sermos muito espertos para o negócio, temos um belo espelho da nossa esperteza negocial. Se foi assim no comércio das especiarias, se foi assim no do vinho do Porto, por que haveria de ser diferente no futebol.
Adenda: vejo agora que o Sporting vai receber a extraordinária verba de 2,5 milhões de euros (quinhentos mil contos) pela formação inicial de Cristiano Ronaldo. O que não anula uma linha do que se escreveu em cima.

O corpo de Deus e o corpo humano


Ontem foi feriado, hoje é, para os católicos, dia santo de guarda. Como tudo ou quase tudo no cristianismo, o dia de hoje é um dia estranho. O dia do corpo de Deus. Por norma, nas religiões monoteístas, onde o cristianismo se inclui, Deus é puro espírito, logo é uma contradição falar no corpo de Deus. A ideia do Corpo de Deus refere-se à presença substancial do corpo e do sangue de Cristo na hóstia consagrada. Deixemos, porém, de lado os mistérios cristãos, a substância mítica que funda a religião, e olhemos para outro lado, para a questão do corpo.

O cristianismo vive de uma ambiguidade que se tornou estrutural relativamente ao corpo. Por um lado, o corpo com as suas inclinações é visto como negativo, como carne oposta ao espírito, carne votada à corrupção, ao desaparecimento, à sedução e à perdição. Toda esta vertente cristã parece um decalque das doutrinas platónicas e neo-platónicas, provenientes da Grécia clássica. Mas há um outro lado do cristianismo, aquele que faz com Deus tome corpo e carne de homem, aquele que diviniza esse mesmo corpo, que recupera o corpo e a carne viva dos homens da miséria a que a filosofia platónica e outras tradições religiosas os tinham condenado. De certa forma, o cristianismo é a religião do corpo e da sua celebração. Se Deus encarnou, tomou corpo, então o corpo é uma coisa boa e não pura negatividade.

A história do cristianismo talvez não seja mais do que o conflito que o atravessa, conflito entre o platonismo, que foi sendo absorvido nos primeiros séculos da era cristã e que se sedimentou com Agostinho de Hipona, e as teorias da encarnação de Deus num corpo humano e as da promessa da ressurreição da carne. Se há uma coisa que está em causa no cristianismo é a valorização do corpo humano, e por extensão a valorização da corporalidade e, em última instância, do mundo, esse corpo dos corpos.

10/06/09

Metamorfoses XXX

Lisa Milroy - Seven Views of Marunouchi (1998)

o que esperam aqueles que esperam
uma passagem a porta aberta
um raio de luz num canto da rua
estão assim tão perfilados
e no rosto há a ânsia de quem aguarda
a hora que não há-de vir

perderam o ritmo do andar
e na boca as palavras dissolveram-se
sílabas perdidas as vogais esfarrapadas
e duas consoantes esquecidas
brilham no fundo da avenida
à espera que o sinal abra

já não ouvem o ruído dos motores
nem vêem o que por ali passa
esperam especados pelas ruas
no desespero das rosas ao anoitecer
como se vivessem da crua certeza
a noite nunca leva ao amanhecer

Bob Mintzer Big Band #1

Um dia triste


O 10 de Junho é um dia triste, civicamente triste. Não é como o "4th of July" dos americanos ou o "14 Juillet" dos franceses. Os dias de festa cívica são sempre tristes em Portugal. Mesmo o 25 de Abril caminha para lá. Dentro de alguns anos, quando murchar a descida da Avenida da Liberdade e mais uma ou outra manifestação do género, o 25 de Abril não será mais do que uma cerimónia onde o poder se comemora a si mesmo. Em parte, já é assim.

Vejamos os nosso feriados cívicos, para além do 25 de Abril. O 1.º de Dezembro, o 5 de Outubro, o 10 de Junho, todos eles pertencem à casta política, estão longe de estar enraizados no coração do povo. Este é o retrato efectivo da relação cívica que existe em Portugal. Os portugueses não sentem nenhum impulso especial para comemorar o laço de cidadania que os une. Por que razão?

Talvez sejamos um povo demasiado antigo e com uma longa história, estamos de tal modo habituados à nossa portugalidade que nem vale a pena comemorá-la. Ela é um dado inquestionável. Esta é uma explicação pertinente. Mas isso também seria válido para os franceses. Eles encontraram, porém, no 14 Juillet um dia de festa da nação francesa, um dia que é o da liberdade mas também um dia de afirmação da cidadania francesa.

Há talvez outra explicação, uma explicação menos cordata. Apesar de cerca de 9 séculos de história, Portugal não deixa de ser sentido pelos portugueses, ainda que de forma inconsciente e subterrânea, como qualquer coisa artificial. A criação de Portugal não tem a sua génese num povo português que lutou para ter um Estado e ser um reino independente. Portugal nasceu do desejo de uma elite política que queria um reino, um Estado e um povo para dirigir. O povo português foi uma criação do Estado português e não o contrário. Esta tese explica bem por que motivo as nossas festas cívicas não são populares, mas uma forma da elite política se comemorar e reconhecer a si mesma. Por isso, o povo fica de fora. Por isso, todas as nossas festas cívicas são tristes. Por isso, 0 10 de Junho é um dia triste, civicamente falando, um dia em que o Presidente da República condecora alguns cidadãos "ilustres" e fala para os partidos políticos, fingindo que fala para o povo. Mas não fala. Ninguém quer saber. Ninguém se emociona com Camões, com a Pátria com as comunidades portuguesas, com os cidadão "ilustres" ou com o Presidente da República.

08/06/09

Metamorfoses XXIX


Abelló i Prat - Río Ganges, India (1992)
no murmúrio das águas do rio
não havia barqueiros nem barcos
apenas as dores se banhavam ali
onde eu julgara haver
um jardim exausto de glicínias

estavam os meus olhos
sob o império do equívoco
e nada na paisagem distinguiam
confundiam as águas
com uma planície de algas
e pessoas com flores no jardim

olhos sonâmbulos
nem a cor querem ouvir
andam perdidos e errantes
velhos cavaleiros andantes
que não sabem se hão-de chorar
ou sorrir

Rabih Abou Khalil Project

A estranha ferida narcísica

Ontem, apesar dos bons resultados eleitorais, o PCP sofreu uma humilhação histórica. Um bando sem princípios, o Bloco de Esquerda, formado a partir dos antigos grupelhos esquerdistas, antiga, e não sei se actual, linguagem do PCP, teve a ousadia de ter mais votos que a CDU e de eleger mais um deputado. Tirando os tempos em que eu era militante político, e isso já foi há mais de 30 anos, nunca compreendi qual é o fascínio que o PCP tem pela extrema-esquerda ou, melhor, ex-extrema-esquerda.

É esse fascínio que conduziu à actual ferida narcísica. E, no entanto, nada é mais injustificado do que a preocupação do PCP com o BE. Contrariamente ao que muito gente pensa, PCP e BE não disputam o mesmo eleitorado, não se dirigem ao mesmo "povo". Na verdade, não se atrapalham um ao outro. Neste caso, o BE tem sido mais inteligente que o PCP. Os antigos partidos que constituem o BE, a UDP/PCP(R) e o PSR/LCI, viviam na ilusão de penetrar no eleitorado do PCP, de lhe roubar os operários e os camponeses e conduzir o povo à revolução socialista.

Essa ilusão morreu, porém, quando nasceu o BE. O BE nasce da percepção que isso era impossível e se aquele grupo de gente queria ter algum papel político, então teria de fazer pela vida noutro lado, procurar outros mercados eleitorais. Foi isso que aconteceu. O BE não passa de um partido social-democrata com linguagem mais ou menos radicalizada, um PS de esquerda. O BE penetra no eleitorado do PS e até do PSD e do CDS, mas nunca no do PCP. É uma questão de classe. Muito, mas muito dificilmente, aqueles votos do BE iriam, caso o Bloco não existisse, para o PCP. Este BE nada tem a ver com os velhos dissidentes do PCP que, em 1964, formaram o CMLP e deram origem à extrema-esquerda portuguesa. Esses nunca passariam dos 2 ou 3 por cento. Mas o fascínio não é coisa que se explique, nem esta estranha ferida narcísica.

O vencedor oculto

Ontem as eleições tiveram um vencedor oculto e silencioso. Ninguém se lembrou dele. Mas ele sabe que foi dado um passo importante para a realização dos seus desígnios: um Presidente, uma maioria. Uma esperança renasce em Belém, a esperança de poder vir a influir nos destinos do país por interposta pessoa. O PS de Sócrates tem feito mal em menosprezar Cavaco. Ele anda nisto há muito tempo e sabe muito bem o que quer.

O que mudou ontem?

Mudou alguma coisa no panorama político com as eleições de ontem? Mudou e mudou substancialmente. Até ontem a única coisa que estava em discussão era a dimensão da vitória de Sócrates nas próximas legislativas. O PSD não passava de um ninho de víboras e Manuela Ferreira Leite pouco mais era do que uma pobre avó deslocada do seu cenário natural, o gineceu familiar. Mas os resultados de ontem transformaram a percepção que se tem da realidade. A partir destas eleições, Manuela Ferreira Leite vai ser olhada como alguém que sabe fazer escolhas, que tem personalidade forte e é capaz de fazer frente aos barões e baronetes do seu próprio partido.

Sócrates é um excelente orador, sabe relacionar-se com os media, move-se à vontade no terreno da propaganda. Tudo coisas em que Manuela Ferreira Leite é um desastre. Mas esta profunda desvantagem pode vir a ser uma vantagem. Se Ferreira Leite não quiser ser aquilo que não é, se continuar a mostrar-se humilde, se souber fazer ver que, apesar de não ter dotes oratórios e ser pouco propensa à propaganda, tem substância, que sabe o que quer, sabe para onde levar o país, então a sua aparente desvantagem para Sócrates pode revelar-se uma verdadeira vantagem. Sócrates é teimoso, mas Ferreira Leite é determinada. Sócrates fala bem, mas Ferreira Leite fala a "verdade". Sócrates começa a sofrer de um verdadeiro défice de credibilidade. Ferreira Leite, se for inteligente, poderá fazer ver ao eleitorado que a credibilidade não depende dos dotes oratórios ou da relação com a televisão. Foi isto que mudou ontem ou que começou a mudar ontem. A senhora é mais dura de roer do que parecia. Isso não significa que o PSD vá ganhar, significa apenas que não está condenado a perder. E isso é muito.

07/06/09

Metamorfoses XXVIII

Léon Kossoff - Red Brick School Building, Willesden, Spring (1981)

eis a terra da consolação
sem presságios nem augúrios
apenas o silêncio da tarde
e as aves paradas no tempo
a gritar na rua da invernia

sobraram dois traços negros
na cinza da estrada
vestígios de quem escava
na memória a cidade
de onde partiu um dia

sem lágrimas nos olhos
nem dor a cruzar o peito
ouviu o troar do comboio
naquele sítio onde
só o silêncio se ouvia

Jessye Norman as Ariadne: "Ein Schönes war"

A vencedora da noite

Manuela Ferreira Leite é a grande vencedora da noite eleitoral de hoje (um à parte para o José Trincão Marques: eu não votei no partido da senhora, não consigo, é visceral, embora eu simpatize pessoalmente com ela). A direita, pela mão dos resultados do PSD e do CDS, conquistou estatuto para se apresentar como capaz de ser alternativa de governo nas próximas legislativas. A soma de ambos os partidos roça os 40%. As pessoas começam a cansar-se da arrogância do PS e do seu governo, começam a cansar-se da forma como o governo trata as pessoas, da forma utilitarista como as vê. A direita não tem as próximas eleições ganhas, longe disso. Mas também não tem a derrota assegurada, como parecia ser a certeza nas hostes socialistas. Uma coisa é certa, no PSD os barões descontentes vão calar-se e os aparelhos locais vão empenhar-se como o não fizeram até aqui. Começa a cheirar-lhes a poder e isso é um estímulo inigualável em política. Por outro lado, muitos dos votos que Sócrates perdeu para a esquerda são irrecuperáveis. A temperatura política subiu substancialmente com as eleições de hoje.

A elevada abstenção

Parece confirmar-se as previsões de uma elevada abstenção nas eleições europeias. Não vale a pena especular sobre a relação entre a campanha eleitoral e a ida às urnas dos eleitores. Uma boa campanha eleitoral talvez não acrescentasse mais votantes à eleição. Não é apenas o facto de a Europa ser qualquer coisa distante e de as funções do Parlamento europeu serem pouco menos do que esotéricas. Mas julgo que os portugueses não votam por um motivo bem mais sensato: não vale a pena. Eleger 22 deputados não vai mudar nada daquilo que é essencial. Nada está em jogo, esse é o sentimento geral. Aliás, a maioria dos deputados que vão ser eleitos pensa a mesma coisa, portanto mais vale ir a banhos ou passear.

Avaliações e sociologias nacionais

Por causa deste post do Zé Ricardo, lembrei-me de uma coisa bem interessante. A revolta dos professores portugueses contra o modelo chileno de avaliação importado pelo governo, o longo conflito com o ministério da Educação, as manifestações que mobilizaram grande parte da classe, por vezes a rondar a unanimidade, tudo isso ainda não encontrou uma palavra séria que se ouvisse dos sociólogos, desses arautos dos movimentos sociais, desses estudiosos das mudanças e das resistências no social. Se há coisa que deve valer a pena estudar, ao nível da sociedade portuguesa, é a resistência que os professores portugueses têm oposto à barbárie educacional trazida pelo governo. Parece, porém, que os nossos sociólogos só se interessam por estas coisas quando se passam no estrangeiro. Ou então não querem olhar para o trabalho político da sua colega. Em Portugal até a ciência se faz segundo os conhecimentos. Ou será que estão todos comprometidos, mesmo que seja apenas pelo silêncio, em promover a mudança social por decreto-lei e ameaça disciplinar? Uma classe inteira na rua parece fenómeno sem importância aos nossos estudiosos do social.

Desespero eleitoral (2)

Está consumado. Já cumpri o meu dever cívico. Doeu muito? Ó se doeu! Depois de uma noite de vigília, noite onde me entreguei à mais profunda meditação transcendental, noite de calvário onde orei e calculei, onde me ajoelhei para que o Senhor abrisse uma excepção sobre a sua recusa em meter-se em política (ele, pouco misericordioso, vinha sempre com aquela história: dai a Deus o que é de Deus e a César o que é de César. Por fim, disse-me: não Me aborreças, vai votar e cala-te), onde fiz cálculo de probabilidades e tracei mapas de geometria política, depois de tudo isso, veio a manhã e, quase ao meio-dia, lá fui depositar na urna o meu singelo voto. Enfim, votei num bando de idiotas e já estou à espera de ver o chefe do bando a pavonear-se com o resultado eleitoral, como se nós, portugueses, votássemos a favor de alguém. Esse tipo que fique a saber: eu ao votar no seu bando não votei nele, mas votei contra os outros bandos. Sempre achei a proposta de um amigo meu muito decente. Todos nós deveríamos ter direito a um voto, mas este podia ser negativo ou positivo. O eleitor teria de escolher entre dizer que estes, sim senhor, merecem o voto, ou mostrar que nenhum merece o voto, mas aquele merece mesmo um voto negativo. No fim, subtraíam-se os votos negativos dos positivos e o partido que somasse mais votos positivos ganhava. Caso nenhum partido obtivesse votos positivos, dissolviam-se os partidos todos e pedia-se aos cidadãos que fizessem novos , como aconteceu a seguir ao 25 de Abril. Era uma limpeza. Pelo menos a vida política seria efervescente e os portugueses poderiam das largas à sua imaginação.

06/06/09

Metamorfoses XXVII

Virginia Lasheras - Puerta de la muerte (1987)

fica-se sempre tão indeciso
ao olharmos esta porta
nunca sabemos se é a saída
por onde os vivos deixam a vida
ou entrada por onde chega a morte

não tem letreiro que indique a função
limita-se a estar ali no silêncio dos dias
imprecisa imperiosa inclemente
tão obscura na luz que dela vem

nunca sabemos se o seu abrir e fechar
tem hora aprazada
nem conhecemos a justiça
do calendário que a rege
ouvimos que abriu e fechou
e parecem-nos errantes
as decisões do invisível porteiro

às vezes perguntamos a que pátria
conduz a dissimulada passagem
mas logo um raio sombrio
se escuta ali onde os sinos dobram
para anunciar sabe-se lá que partida
sabe-se lá que negra chegada

Dido's Lament by Jessye Norman

Desespero eleitoral

Eis o meu problema, participar nestas eleições e votar. Não é que eu não queira e até tenho aproveitado o dia de hoje, o dia de reflexão que o legislador tão sabiamente me ofereceu, para reflectir no assunto e escolher. Já estou em reflexão há mais de 22 horas e nem uma luzinha se acendeu no meu pobre e devastado cérebro. Naquele partido que eu votava, por um hábito que data dos finais de 70 ou inícios de 80, jurei a pés juntos que nunca mais, mas ó nunca mais, lhe dava o meu voto. Quem não se sente não é filho de boa gente e eu sou filho de gente boa. Portanto, nesses, o caso está arrumado. Não tenho paciência para as amostras de partido. Exercitei essa modalidade ainda nos anos 70, mas depressa me cansei, por inútil. Tenho um problema com os partidos da direita. Eu sou conservador. Sempre votei à esquerda, logo como conservador que sou não posso votar à direita. Mas apesar de ser de esquerda, abomino revoluções e aqueles que sonham com revoluções, logo é-me impossível votar em certa esquerda que sonha com revoluções. As revoluções são uma coisa desagradável. Quando tinha 17 ou 18 anos, achava graça às revoluções, mas isso era devido às hormonas ainda não estarem completamente estabilizadas. Hoje não acho graça às revoluções e muito menos aos homens que sonham com elas, nem que seja em segredo. As revoluções têm muito sangue, morre gente e estraga-se muita coisa que nunca mais se conserta. Um aborrecimento. Além de mais, eu sou conservador e não um revolucionador. Pensei em voltar-me para Deus, pedir-lhe que me iluminasse. O Espírito Santo, ainda eu não tinha pensado o pedido todo a fazer, soprou-me logo que Deus, seja em que pessoa for, não se mete em política nem em futebol. Quem me poderá ajudar nesta solidão de eleitor que quer votar e não sabe em quem.

Albânia 1 - Portugal 2

Portugal acabou de derrotar folgadamente uma das grandes potências do futebol europeu.

Um rosto da tragédia

Esta senhora, Ana Maria Bettencourt, é a nova Presidente do Conselho Nacional de Educação. Ontem, o Público entrevistou-a e parece que ficou tão agradado com o discurso da senhora que até, na secção de sobe e desce da última página, lhe deu uma setinha em direcção ao alto. Mas a senhora disse alguma coisa importante? Não, disse as banalidades do costume: os professores têm de trabalhar mais (eu acabei ontem o ano lectivo absolutamente exausto), o ensino não deve ser centrado nos programas mas nos alunos, não vale a pena reprovar os alunos, a importância do trabalho em equipa, os exames não respondem às necessidades dos alunos (a senhora diz que isso está provado, como se fosse possível provar tal coisa). Toda a cartilha do eduquês que, desde há décadas, penetrou no ensino ocidental e o tem destruído sistematicamente.

Mas parece que o que a senhora gosta mesmo é de mudanças de paradigma. Em linguagem epistemológica, diríamos que ela não gosta do Popper, que lhe prefere o Kuhn, caso contrário como poderia ela dizer que "está mais que provado que não é com exames que se responde aos problemas dos alunos". Meditemos, então, neste pedaço do mais refinado e deletério eduquês: "Não é o ensino centrado no programa, mas no aluno, porque o programa é pouco útil se os alunos não aprenderem. Essa mudança de paradigma é muito importante: pôr os alunos a trabalhar sozinhos, a corrigir os seus trabalhos, enquanto os professores ajudam os que têm mais dificuldades."

1. Para que serve então um programa? Um programa não determina aquilo que o aluno deve aprender? Se o ensino não for centrado num programa é uma pura anarquia. O professor que tenha 25 alunos numa sala de aula tem 25 centros. Mas esses centros são centros de quê? Isto é uma aberração ideológica sem sentido. O programa é aquilo que a comunidade determinou que o aluno deverá aprender. Tanto o ensino como a aprendizagem só podem estar centrados no programa. O professor deve empenhar-se em que o aluno adquira os conhecimentos que o programa determina. Todo o resto é uma miragem absolutamente ilusória. A forma como ele trabalha deve ser determinada por ele, professor. Depois o seu trabalho deve ser avaliado. Mas esta senhora quer impor a sua ideiazinha para educação e obrigar todos os professores a trabalhar em conformidade com a sua ideiazinha para a educação. Porque, como todos já notámos, a senhora tem uma ideiazinha para a educação da pátria.

2. Mas o que significa o paradigma novo da senhora Presidente do CNE? Novo é uma expressão, pois nós, professores, andamos a ser matraqueados com esta linguagem paranóica há décadas. Significa que o professor organiza umas actividades para os alunos mais espertinhos e fica a tomar conta daqueles que não sabem ou não querem saber. A ideia subjacente é retirar os melhores alunos do contacto com os professores, deixá-los entregues a si próprios, a auto-corrigirem-se, etc., enquanto o professor anda de carteira em carteira tentando recuperar os outros. Esta deve ser uma forma de caminharmos para o socialismo. Retiramos os professores aos que querem aprender, aos que se esforçam, aos que têm aptidões, para os entreter com aqueles alunos que não querem trabalhar. Talvez assim consigamos anular as diferenças genéticas e as de personalidade e construamos um inferno de igualdade. É verdade que há alunos com dificuldades de aprendizagem. Esses merecem apoio do professor da turma e de outros que se especializem na recuperação desses casos. Mas o principal problema das escolas não são os alunos com dificuldades de aprendizagem, mas os alunos que não querem aprender, que não querem trabalhar, que não querem esforçar-se. Eu até posso perceber que no ensino básico algumas das intervenções defendidas por Ana Bettencourt façam algum sentido, desde que os melhores alunos e os alunos que trabalham tenham direito ao professor, que possam aprender com ele e não com umas fichinhas de actividades miseráveis. Mas que sentido fará isso no ensino secundário? Vou dar uma aula sobre a ética kantiana pondo os alunos a fazer fichinhas, e arrasto-me de carteira em carteira para ajudar os que não querem fazer nada, enquanto os alunos que querem trabalhar protestam porque querem que eu dê uma aula normal para eles aprenderem? Estes inovadores paradigmáticos não saberão que a aprendizagem passa pela relação entre mestre e discípulo, pela relação do que fala com aquele que ouve, pela relação do adulto, que deve mostrar que sabe, com a criança ou adolescente que precisa de um modelo. O professor da ideiazinha educacional da senhora Presidente do CNE não passa de um burocrata que gere fichas de trabalho, mas que não tem nenhum saber a transmitir. Eis o admirável mundo novo dos paradigmas educativos da nova Presidente do CNE. Se o leitor tem filhos em idade escolar, vive numa grande cidade e tem dinheiro, já sabe o que tem de fazer. Ponha-os num bom colégio particular, de ensino bem tradicional. Se por acaso não o puder fazer, aguente-se. O ensino de qualidade não é para todos. Os "pensadores" e os "decisores" (palavra horrível) da educação acham que a escola pública deve ser aquilo que a admirável Bettencourt diz. Foi isto que pôs o ensino onde está. E a senhora escusava de vir com a história da sua visita a uma escola finlandesa. Não estamos na Finlândia, nem somos finlandeses. Se a senhora gosta tanto da Finlândia que vá para lá pregar o seu eduquês. Ana Bettencourt é um rosto da tragédia que se abateu sobre o ensino em Portugal. Tem sido uma incansável divulgadora do niilismo educativo, sempre escorada nas melhores intenções, e agora teve a recompensa. Chegou a Presidente do CNE. Melhor do que isso só o cargo de ministra, mas esse está bem entregue. Lurdes Rodrigues tem-se mostrado muito eficiente na aplicação da ideologia de Ana Bettencourt.

Jornal Torrejano, 05 de Junho de 2009

Com um dia de atraso, aqui fica o link para a edição semanal do Jornal Torrejano.

04/06/09

Um e-mail

Quando se fala do regime, de que se estará a falar? Isto é um belo retrato e uma explicação sobre a natureza e o modo de agir do regime. Nem é preciso olhar para os comportamentos fora da lei. Bastam aqueles que estão dentro da lei, para percebermos aquilo que é Portugal. Será o Portugal de hoje mais perverso que o de ontem? Claro que não. O e-mail de Abdul Vakil para Oliveira Costa sobre o critério de recrutamento de figuras socialistas é uma funda lição não apenas de política em Portugal, mas também de sociologia e de antropologia. Aquelas poucas linhas merecem muitas teses de doutoramento. E nelas não transparece nenhuma conduta menos lícita, mas mostram como Portugal não pode fazer outra coisa senão afundar-se nas mãos de um pequeno grupo. Não é novidade, mas vê-lo assim tão explícito até dá gosto.

03/06/09

Metamorfoses XXVI

Bill Jacklin - Queensway Looking East, Hong Kong I (1994)

em certas cidades sem nome
há um friso de flores escuras
a bordejar rios adormecidos
onde vogam incautos viajantes

escondem o rosto nas mãos
a luz clara os atormenta
são enfermos sem infância
roubada na esquina da rua

cidades de traços inquietos
espelhos quebrados na noite
os barcos partiram cedo
para o cais mais distante

não choram os que perderam
uns o barco outros o rosto
apenas tapam os olhos
para ocultar o frio desgosto

cidades de fogo assassino
tracejam em cada recanto
uma promessa ávida de dor
num pranto tinto de morte

Astenia


Há muita coisa que me desagrada no mundo da educação, mas aquela que me deixa mais profundamente desiludido é a natureza asténica da generalidade dos alunos, mesmo de muitas e muitos que têm boas notas. Há neles um cansaço tão grande, uma falta de vigor tão marcada, uma ausência de carácter já tão saliente, que me deixa sem qualquer esperança relativamente a este país. Escolhem sempre o mais fácil, o que dá menos trabalho, o que não tem obstáculos, o que não faz pensar, o que dispensa empenho. Querem ter boas notas, mas tentar superar-se, encontrar prazer em saltar obstáculos, apreciar a própria vitória sobre uma dificuldade, disso fogem quase todos, mesmo muitos dos melhores, repito. Portugal está a formar gerações e gerações de gente que sofre de astenia crónica, gente que já está definitivamente cansada aos 17 anos. Portugal, através das suas famílias e das suas escolas, através das ideias lunáticas do Ministério da Educação, está a formar gerações e gerações de pessoas sem carácter, sem fibra, sem capacidade de lutar por alguma coisa. Este é o principal problema da educação em Portugal. Não é os programas, as escolas, os professores, os manuais, as avaliações, etc., etc., etc. É a falta de carácter que se dissemina e se propaga entre os mais novos e que nos transforma num país de impotentes.

Jessye Norman - Oedipus Rex - "Nonn' Erubescite, Reges"

02/06/09

António Barreto e a crise

Concordo com muito do que António Barreto escreveu aqui. Julgo que ele tem razão quando diz que a crise acabou. Algumas coisas que fui lendo, aqui e ali, deram-me essa intuição, a sensação de que o espírito da coisa estava a mudar. Mas é só uma intuição, não mais. Não sei, porém, se ele tem razão ao dizer que nada ficará como estava. Talvez. Gostava de partilhar desse ponto de vista, mas não sei. Há qualquer coisa de surpreendente nesta capacidade da economia de mercado se regenerar. A ameaça parecia, e parece ainda, terrível, mas a coordenação global conseguiu evitar a catástrofe social.

Há, todavia, muitas perguntas que ficam no ar. A economia de mercado parece ter-se salvo, mas como ficará a distribuição do rendimento? O futuro trará uma maior distribuição da riqueza ou acelerar-se-á a proletarização das classes médias ocidentais? A Europa, e mesmo os EUA, irão ter futuro político num mundo onde a balança do poder económico cai para o Oriente? Como se irá relacionar a comunidade global com a crise ecológica do planeta, num sistema onde a economia de mercado, fundada na avidez do consumidor, sai reforçada? Como evoluirá a leitura de Marx, ele que tinha sido redescoberto, após nova vitória do capitalismo? Como evoluirão os sistemas políticos, nomeadamente a União Europeia?

São muitas questões sobre um futuro que, visto daqui e de agora, parece em aberto.

01/06/09

Metamorfoses XXV

Clara Gangutia - Pavía (1991)

a tortuosa luz que amamenta
com seio de víbora
a traição da sombra
veio visitar-me
sob um véu de névoa

galopou na planície da noite
quebou o muro das montanhas
e perante o fogo
que na vida me coube
vibrou um golpe fatal

ávidos os dentes
cravaram-se no corpo
iluminaram as células
e rasgaram a pele para
que a luz chegasse

iluminado gritei
até os pulmões secarem
e se respiro ainda
é fogo o que se solta
da alma em combustão

Wesendonck Lieder Nr. 5, Träume. Jessye Norman. Richard Wagner

Erros meus

O Zé Ricardo mandou-me um e-mail e depois um comentário, que agradeço, por causa de um erro imperdoável. Troquei um percebesse por um percebe-se, no post anterior. Coisa feia. Uma distracção na correcção do texto. Mas eu tenho uma palavra onde a minha propensão para o erro é quase infalível, a palavra "creche". A minha intencionalidade é sempre para escrever cresce. É muito curiosa a origem psicológica do erro. A creche é um infantário, um sítio onde as crianças crescem. A palavra portuguesa, porém, deriva de crèche, vocábulo francês que significa infantário; um galicismo, portanto. Quando oiço ou profiro o vocábulo associo-o sempre ao estar a crescer. Não é que não haja um longínqua razão para isso. O vocábulo francês crèche, antes de significar infantário, significou manjedoura, o que não deixa de estar ligado ao crescimento. No caso de creche o erro é incrementado pela aproximação fonética de creche e de cresce. Errar na ortografia é coisa corrente, mesmo em quem escreve muito e está atento à escrita. Aliás, escrevo sempre com o dicionário aberto (tenho um no computador) e consulto-o sistematicamente. Faço isso há dezenas de anos. Por que razão? Porque a escrever dou erros, surgem-me dúvidas, tenho necessidade de esclarecer o étimo da palavra, etc. Um dicionário é um bom amigo. Prefiro-o ao prontuário ortográfico. Os erros piores são, porém, as distracções que, muitas vezes, resistem a várias revisões. Há um outro fenómeno psicológico associado. Uma das minhas experiências de envelhecimento está ligada a uma certa perturbação da ortografia. Palavras cuja grafia nunca me levantara dúvidas surgem-me agora de forma mais nebulosa e exigem que eu as confirme no dicionário. Esta imprecisão ortográfica é, no entanto, contrabalançada por um maior domínio da densidade semântica da língua. Envelhecer tem os seus aspectos positivos. Valha-nos isso. Enfim, peço desculpa a quem deu pela troca do pretérito imperfeito do conjuntivo pelo presente do indicativo conjugado na forma reflexa. Será que é assim que ainda se diz?

Fábrica de ideias


Ler no Portugal dos Pequeninos um excelente exemplo da irrelevância que vai na cabeça dos nossos legisladores. Mas, caro leitor, não se ria. Por detrás daquelas palavras aparentemente sem senso esconde-se um pesadelo burocrático e uma visão directa do inferno. Há duas coisas que seria bom que toda gente percebesse. Primeira, os inovadores não fazem barulho com a inovação, limitam-se a fazer o seu trabalho o melhor possível. Segunda, quando vemos legislar sobre inovação podemos estar certos que os legisladores seriam incapazes de inovar o que quer que seja.

A inovação tornou-se, em Portugal, uma doença da linguagem. Inovadores e criadores não se produzem segundo decreto-lei, nem se regulam. Aliás, inovar e criar implicam mesmo desregulação, pensar contra, infringir o que está dado. Mas a imaginação de certos sectores da nossa sociedade é tão estapafúrdia que acha dever regular o irregulável. Só fala em fábrica de ideias quem nunca teve uma única ideia na cabeça, ou então alguém como aquele estudante universitário que vai discutir um trabalho com o professor, e ouve deste que o trabalho apresenta ideias boas e originais. O único problema é que as ideias boas não são originais e as originais são péssimas.