16/06/09
Da virtude da humildade
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15/06/09
Metamorfoses XXXV
Per Nørgård – Terrains Vagues
deixaram a memória na terra vazia
e construíram diques para evitar inundações
olhavam a madeira a flutuar
e contavam as palavras que disparavam
contra a fúria dos elementos
os desenhos imprecisos atraíam as tempestades
e não havia poder que sustivesse
o desígnio da terra ou a impaciência dos oceanos
os raros símbolos que traziam
dormiam emudecidos entre os ventos frios
e um medo ancestral que borbulhava
naqueles estômagos cansados
tantas vezes contemplei esse medo
o ventre silencioso a dobrar-se sobre si
e uma sombra engastada na garganta a crescer
como um hieróglifo na paisagem despovoada
tantas vezes disparei palavras sem sentido
ouvindo o mar romper pela arriba
e levar os corpos que o sol ali deixara
para os depositar sabe deus onde
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No reino das novelas
14/06/09
Metamorfoses XXXIV
Gyorgy Ligeti – Atmospheres
um súbito terror no desvão da noite
os mitos rasgados e atirados por terra
a longa espera a olhar os céus
a chuva não cai mais
e a terra é um deserto de cactos cansados
areia negra
a sombra de algum corvo
se eu me sentar e abrir as mãos
de nada servirá o gesto
a ferida sangrará
e não haverá lenço para estancar o sangue
deixo vir a intermitência das imagens
inundar-me de escoriações
lacerar-me como nos dias em que havia história
e todos dobravam o joelho
na capela onde os deuses se vendiam
mas mataram o anjo numa esquina de rua
aboliram-lhe a presença no crepúsculo
arrancaram-lhe a carteira onde guardava
o dia claro e a noite transfigurada
roubaram os mitos roubaram a história
fui desapossado da herança
o campo que me resta
não tem luz nem sombra nem treva
as areias inertes o coração débil
e a fonte seca onde bebia água pela tarde
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Há dias assim
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Ted Hughes - O poema é um ser vivo
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A democracia iraniana
Nas primeiras horas após as eleições presidenciais no Irão, quando apenas se conhecia a elevada afluência às urnas, não faltaram, aqui e ali, comentários comparativos entre a exemplar "democracia" iraniana e a degradante democracia europeia, onde os eleitores têm o desplante de não irem votar. É evidente que essas almas caridosas estão sempre desejosas de encontrar contra-exemplos que mostrem a insanidade da democracia representativa, e qualquer pseudo-eleição com aparência democrática lhes enche a alma e lhes incha o peito, de onde expelem o seu ressentimento com a democracia ocidental.
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13/06/09
Metamorfoses XXXIII
John Cage – In Landscape (Piano solo performed by Stephen Drury )
deram-te uma paisagem de ruídos
e um campo semeado de túmulos
onde dormem os mortos
– ninguém agora os quer –
pesam tanto
e apontam com dedos descarnados
a flacidez das faces
que assombram a vida
tivessem boca – os mortos –
e um sopro de ar nos pulmões
cuspiriam na luz que ilumina
quem da paisagem se apoderou
e os silenciou em túmulos
onde só chegam ruídos
segredados por campos vazios
deles roubaram flores e ervas e pedras
e deixaram um rio de águas azedas
aí os peixes apodrecem cantando
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Regular mercados e outros disparates
A propósito do dinheiro pago, ou a pagar, pelo Real Madrid por Cristiano Ronaldo, começa-se a falar em regular o mercado. Eu que nem sou liberal, não consigo compreender como se poderá regular o mercado das transferências de jogadores de futebol. Os protagonistas da bola não quiseram uma indústria? Agora têm o retorno. A única coisa que interessa questionar é se o Real Madrid paga atempadamente todos os seus compromissos, tanto os que tem relativamente a fornecedores como os fiscais. Se o clube madrileno cumpre as suas obrigações de forma lícita, então não há nada a dizer ou a fazer. A única coisa que deve ser regulada é a acção dos Estados sobre os clubes que não cumprem as leis que regem a respectiva indústria. Também não deve ser permitida a existência de excepções para essa indústria, nomeadamente a nível fiscal.
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Traição metereológica
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O afastamento das galáxias
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Homens célebres
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12/06/09
Metamorfoses XXXII
Luciano Berio - Sequenza X (1984) [Flávio Gabriel - trompete Januibe Tejera - piano]
não vale a pena percutir os dedos na mesa
ninguém ouve a voz dos deuses
o comércio de tudo se apossou
e os meus semelhantes caminham
vendendo e comprando a alma
que alguém por descuido lhe emprestou
por isso dispenso-te da alegria
bastam-te os cuidados do negócio
e não fales em sentimentos ou melancolias
isso são flores de outros jardins
aqueles que traficaste para que ali
crescessem as horas mais sombrias
se ao menos os vendedores de esperanças
se calassem nesta hora tardia
se ao menos fechassem as tabernas
onde vendem álcool adulterado
se ao menos calassem as palavras
e me deixassem a sombra que resta
se ao menos me deixassem só
no silêncio da noite que chega
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Hieróglifos, símbolos e metáforas
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Reaccionário tecnológico
Sou um reaccionário tecnológico. Não pelo facto de o aparelho de televisão que possuo ser já de outra era, mas pelo simples motivo de apenas possuir quatro canais de televisão. Ainda não aderi, pelo menos na actual encarnação, ao cabo ou ao satélite. Resta-me a escolha entre os canais de sinal aberto, que, para dizer a verdade, mais valiam que também fossem em sinal fechado.
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Jornal Torrejano, 12 de Junho de 2009
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11/06/09
Metamorfoses XXXI
Luigi Nono – ... sofferte onde serene ... (Markus Hinterhäuser - piano)
o vento do norte as ruas geladas o acaso
assim enumeravas as virtudes da vida
à espera que o carrasco ocioso chegasse
e trouxesse na mochila da morte
a pouca esperança que restava
se tivesse uma esponja
embebia-a em vinagre e matava-te a sede
ou desenhava um círculo na poeira do chão
para que o teu rosto ali se reflectisse
quando chegassem as nuvens de inverno
bebo pela tua memória futura
enquanto oiço os eléctricos chiar
nesta terra de onde expulsámos os anjos
para podermos arrotar à vontade
sem perturbar os mensageiros de deus
este é o símbolo da nossa glória
arrotar numa floresta de betão
erguer um machado afiado
e marchar pelas ruas grávidos de ódio
cantando canções de amor e perdão
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A natureza da coisa
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Marcadores: Futebol
O corpo de Deus e o corpo humano
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10/06/09
Metamorfoses XXX
o que esperam aqueles que esperam
uma passagem a porta aberta
um raio de luz num canto da rua
estão assim tão perfilados
e no rosto há a ânsia de quem aguarda
a hora que não há-de vir
perderam o ritmo do andar
e na boca as palavras dissolveram-se
sílabas perdidas as vogais esfarrapadas
e duas consoantes esquecidas
brilham no fundo da avenida
à espera que o sinal abra
já não ouvem o ruído dos motores
nem vêem o que por ali passa
esperam especados pelas ruas
no desespero das rosas ao anoitecer
como se vivessem da crua certeza
a noite nunca leva ao amanhecer
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Um dia triste
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08/06/09
Metamorfoses XXIX
não havia barqueiros nem barcos
apenas as dores se banhavam ali
onde eu julgara haver
um jardim exausto de glicínias
estavam os meus olhos
sob o império do equívoco
e nada na paisagem distinguiam
confundiam as águas
com uma planície de algas
e pessoas com flores no jardim
olhos sonâmbulos
nem a cor querem ouvir
andam perdidos e errantes
velhos cavaleiros andantes
que não sabem se hão-de chorar
ou sorrir
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Rabih Abou Khalil Project
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A estranha ferida narcísica
Ontem, apesar dos bons resultados eleitorais, o PCP sofreu uma humilhação histórica. Um bando sem princípios, o Bloco de Esquerda, formado a partir dos antigos grupelhos esquerdistas, antiga, e não sei se actual, linguagem do PCP, teve a ousadia de ter mais votos que a CDU e de eleger mais um deputado. Tirando os tempos em que eu era militante político, e isso já foi há mais de 30 anos, nunca compreendi qual é o fascínio que o PCP tem pela extrema-esquerda ou, melhor, ex-extrema-esquerda.
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O vencedor oculto
Ontem as eleições tiveram um vencedor oculto e silencioso. Ninguém se lembrou dele. Mas ele sabe que foi dado um passo importante para a realização dos seus desígnios: um Presidente, uma maioria. Uma esperança renasce em Belém, a esperança de poder vir a influir nos destinos do país por interposta pessoa. O PS de Sócrates tem feito mal em menosprezar Cavaco. Ele anda nisto há muito tempo e sabe muito bem o que quer.
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O que mudou ontem?
Mudou alguma coisa no panorama político com as eleições de ontem? Mudou e mudou substancialmente. Até ontem a única coisa que estava em discussão era a dimensão da vitória de Sócrates nas próximas legislativas. O PSD não passava de um ninho de víboras e Manuela Ferreira Leite pouco mais era do que uma pobre avó deslocada do seu cenário natural, o gineceu familiar. Mas os resultados de ontem transformaram a percepção que se tem da realidade. A partir destas eleições, Manuela Ferreira Leite vai ser olhada como alguém que sabe fazer escolhas, que tem personalidade forte e é capaz de fazer frente aos barões e baronetes do seu próprio partido.
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07/06/09
Metamorfoses XXVIII
eis a terra da consolação
sem presságios nem augúrios
apenas o silêncio da tarde
e as aves paradas no tempo
a gritar na rua da invernia
sobraram dois traços negros
na cinza da estrada
vestígios de quem escava
na memória a cidade
de onde partiu um dia
sem lágrimas nos olhos
nem dor a cruzar o peito
ouviu o troar do comboio
naquele sítio onde
só o silêncio se ouvia
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Jessye Norman as Ariadne: "Ein Schönes war"
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A vencedora da noite
Manuela Ferreira Leite é a grande vencedora da noite eleitoral de hoje (um à parte para o José Trincão Marques: eu não votei no partido da senhora, não consigo, é visceral, embora eu simpatize pessoalmente com ela). A direita, pela mão dos resultados do PSD e do CDS, conquistou estatuto para se apresentar como capaz de ser alternativa de governo nas próximas legislativas. A soma de ambos os partidos roça os 40%. As pessoas começam a cansar-se da arrogância do PS e do seu governo, começam a cansar-se da forma como o governo trata as pessoas, da forma utilitarista como as vê. A direita não tem as próximas eleições ganhas, longe disso. Mas também não tem a derrota assegurada, como parecia ser a certeza nas hostes socialistas. Uma coisa é certa, no PSD os barões descontentes vão calar-se e os aparelhos locais vão empenhar-se como o não fizeram até aqui. Começa a cheirar-lhes a poder e isso é um estímulo inigualável em política. Por outro lado, muitos dos votos que Sócrates perdeu para a esquerda são irrecuperáveis. A temperatura política subiu substancialmente com as eleições de hoje.
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A elevada abstenção
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Avaliações e sociologias nacionais
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Desespero eleitoral (2)
Está consumado. Já cumpri o meu dever cívico. Doeu muito? Ó se doeu! Depois de uma noite de vigília, noite onde me entreguei à mais profunda meditação transcendental, noite de calvário onde orei e calculei, onde me ajoelhei para que o Senhor abrisse uma excepção sobre a sua recusa em meter-se em política (ele, pouco misericordioso, vinha sempre com aquela história: dai a Deus o que é de Deus e a César o que é de César. Por fim, disse-me: não Me aborreças, vai votar e cala-te), onde fiz cálculo de probabilidades e tracei mapas de geometria política, depois de tudo isso, veio a manhã e, quase ao meio-dia, lá fui depositar na urna o meu singelo voto. Enfim, votei num bando de idiotas e já estou à espera de ver o chefe do bando a pavonear-se com o resultado eleitoral, como se nós, portugueses, votássemos a favor de alguém. Esse tipo que fique a saber: eu ao votar no seu bando não votei nele, mas votei contra os outros bandos. Sempre achei a proposta de um amigo meu muito decente. Todos nós deveríamos ter direito a um voto, mas este podia ser negativo ou positivo. O eleitor teria de escolher entre dizer que estes, sim senhor, merecem o voto, ou mostrar que nenhum merece o voto, mas aquele merece mesmo um voto negativo. No fim, subtraíam-se os votos negativos dos positivos e o partido que somasse mais votos positivos ganhava. Caso nenhum partido obtivesse votos positivos, dissolviam-se os partidos todos e pedia-se aos cidadãos que fizessem novos , como aconteceu a seguir ao 25 de Abril. Era uma limpeza. Pelo menos a vida política seria efervescente e os portugueses poderiam das largas à sua imaginação.
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06/06/09
Metamorfoses XXVII
fica-se sempre tão indeciso
ao olharmos esta porta
nunca sabemos se é a saída
por onde os vivos deixam a vida
ou entrada por onde chega a morte
não tem letreiro que indique a função
limita-se a estar ali no silêncio dos dias
imprecisa imperiosa inclemente
tão obscura na luz que dela vem
nunca sabemos se o seu abrir e fechar
tem hora aprazada
nem conhecemos a justiça
do calendário que a rege
ouvimos que abriu e fechou
e parecem-nos errantes
as decisões do invisível porteiro
às vezes perguntamos a que pátria
conduz a dissimulada passagem
mas logo um raio sombrio
se escuta ali onde os sinos dobram
para anunciar sabe-se lá que partida
sabe-se lá que negra chegada
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Dido's Lament by Jessye Norman
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Desespero eleitoral
Eis o meu problema, participar nestas eleições e votar. Não é que eu não queira e até tenho aproveitado o dia de hoje, o dia de reflexão que o legislador tão sabiamente me ofereceu, para reflectir no assunto e escolher. Já estou em reflexão há mais de 22 horas e nem uma luzinha se acendeu no meu pobre e devastado cérebro. Naquele partido que eu votava, por um hábito que data dos finais de 70 ou inícios de 80, jurei a pés juntos que nunca mais, mas ó nunca mais, lhe dava o meu voto. Quem não se sente não é filho de boa gente e eu sou filho de gente boa. Portanto, nesses, o caso está arrumado. Não tenho paciência para as amostras de partido. Exercitei essa modalidade ainda nos anos 70, mas depressa me cansei, por inútil. Tenho um problema com os partidos da direita. Eu sou conservador. Sempre votei à esquerda, logo como conservador que sou não posso votar à direita. Mas apesar de ser de esquerda, abomino revoluções e aqueles que sonham com revoluções, logo é-me impossível votar em certa esquerda que sonha com revoluções. As revoluções são uma coisa desagradável. Quando tinha 17 ou 18 anos, achava graça às revoluções, mas isso era devido às hormonas ainda não estarem completamente estabilizadas. Hoje não acho graça às revoluções e muito menos aos homens que sonham com elas, nem que seja em segredo. As revoluções têm muito sangue, morre gente e estraga-se muita coisa que nunca mais se conserta. Um aborrecimento. Além de mais, eu sou conservador e não um revolucionador. Pensei em voltar-me para Deus, pedir-lhe que me iluminasse. O Espírito Santo, ainda eu não tinha pensado o pedido todo a fazer, soprou-me logo que Deus, seja em que pessoa for, não se mete em política nem em futebol. Quem me poderá ajudar nesta solidão de eleitor que quer votar e não sabe em quem.
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Albânia 1 - Portugal 2
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Um rosto da tragédia
Esta senhora, Ana Maria Bettencourt, é a nova Presidente do Conselho Nacional de Educação. Ontem, o Público entrevistou-a e parece que ficou tão agradado com o discurso da senhora que até, na secção de sobe e desce da última página, lhe deu uma setinha em direcção ao alto. Mas a senhora disse alguma coisa importante? Não, disse as banalidades do costume: os professores têm de trabalhar mais (eu acabei ontem o ano lectivo absolutamente exausto), o ensino não deve ser centrado nos programas mas nos alunos, não vale a pena reprovar os alunos, a importância do trabalho em equipa, os exames não respondem às necessidades dos alunos (a senhora diz que isso está provado, como se fosse possível provar tal coisa). Toda a cartilha do eduquês que, desde há décadas, penetrou no ensino ocidental e o tem destruído sistematicamente.
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Jornal Torrejano, 05 de Junho de 2009
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04/06/09
Um e-mail
Quando se fala do regime, de que se estará a falar? Isto é um belo retrato e uma explicação sobre a natureza e o modo de agir do regime. Nem é preciso olhar para os comportamentos fora da lei. Bastam aqueles que estão dentro da lei, para percebermos aquilo que é Portugal. Será o Portugal de hoje mais perverso que o de ontem? Claro que não. O e-mail de Abdul Vakil para Oliveira Costa sobre o critério de recrutamento de figuras socialistas é uma funda lição não apenas de política em Portugal, mas também de sociologia e de antropologia. Aquelas poucas linhas merecem muitas teses de doutoramento. E nelas não transparece nenhuma conduta menos lícita, mas mostram como Portugal não pode fazer outra coisa senão afundar-se nas mãos de um pequeno grupo. Não é novidade, mas vê-lo assim tão explícito até dá gosto.
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03/06/09
Metamorfoses XXVI
em certas cidades sem nome
há um friso de flores escuras
a bordejar rios adormecidos
onde vogam incautos viajantes
escondem o rosto nas mãos
a luz clara os atormenta
são enfermos sem infância
roubada na esquina da rua
cidades de traços inquietos
espelhos quebrados na noite
os barcos partiram cedo
para o cais mais distante
não choram os que perderam
uns o barco outros o rosto
apenas tapam os olhos
para ocultar o frio desgosto
cidades de fogo assassino
tracejam em cada recanto
uma promessa ávida de dor
num pranto tinto de morte
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Astenia

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Jessye Norman - Oedipus Rex - "Nonn' Erubescite, Reges"
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02/06/09
António Barreto e a crise
Concordo com muito do que António Barreto escreveu aqui. Julgo que ele tem razão quando diz que a crise acabou. Algumas coisas que fui lendo, aqui e ali, deram-me essa intuição, a sensação de que o espírito da coisa estava a mudar. Mas é só uma intuição, não mais. Não sei, porém, se ele tem razão ao dizer que nada ficará como estava. Talvez. Gostava de partilhar desse ponto de vista, mas não sei. Há qualquer coisa de surpreendente nesta capacidade da economia de mercado se regenerar. A ameaça parecia, e parece ainda, terrível, mas a coordenação global conseguiu evitar a catástrofe social.
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01/06/09
Metamorfoses XXV
a tortuosa luz que amamenta
com seio de víbora
a traição da sombra
veio visitar-me
sob um véu de névoa
galopou na planície da noite
quebou o muro das montanhas
e perante o fogo
que na vida me coube
vibrou um golpe fatal
ávidos os dentes
cravaram-se no corpo
iluminaram as células
e rasgaram a pele para
que a luz chegasse
iluminado gritei
até os pulmões secarem
e se respiro ainda
é fogo o que se solta
da alma em combustão
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Wesendonck Lieder Nr. 5, Träume. Jessye Norman. Richard Wagner
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Erros meus
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Fábrica de ideias
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