10/06/09
08/06/09
Metamorfoses XXIX
não havia barqueiros nem barcos
apenas as dores se banhavam ali
onde eu julgara haver
um jardim exausto de glicínias
estavam os meus olhos
sob o império do equívoco
e nada na paisagem distinguiam
confundiam as águas
com uma planície de algas
e pessoas com flores no jardim
olhos sonâmbulos
nem a cor querem ouvir
andam perdidos e errantes
velhos cavaleiros andantes
que não sabem se hão-de chorar
ou sorrir
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Rabih Abou Khalil Project
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A estranha ferida narcísica
Ontem, apesar dos bons resultados eleitorais, o PCP sofreu uma humilhação histórica. Um bando sem princípios, o Bloco de Esquerda, formado a partir dos antigos grupelhos esquerdistas, antiga, e não sei se actual, linguagem do PCP, teve a ousadia de ter mais votos que a CDU e de eleger mais um deputado. Tirando os tempos em que eu era militante político, e isso já foi há mais de 30 anos, nunca compreendi qual é o fascínio que o PCP tem pela extrema-esquerda ou, melhor, ex-extrema-esquerda.
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O vencedor oculto
Ontem as eleições tiveram um vencedor oculto e silencioso. Ninguém se lembrou dele. Mas ele sabe que foi dado um passo importante para a realização dos seus desígnios: um Presidente, uma maioria. Uma esperança renasce em Belém, a esperança de poder vir a influir nos destinos do país por interposta pessoa. O PS de Sócrates tem feito mal em menosprezar Cavaco. Ele anda nisto há muito tempo e sabe muito bem o que quer.
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O que mudou ontem?
Mudou alguma coisa no panorama político com as eleições de ontem? Mudou e mudou substancialmente. Até ontem a única coisa que estava em discussão era a dimensão da vitória de Sócrates nas próximas legislativas. O PSD não passava de um ninho de víboras e Manuela Ferreira Leite pouco mais era do que uma pobre avó deslocada do seu cenário natural, o gineceu familiar. Mas os resultados de ontem transformaram a percepção que se tem da realidade. A partir destas eleições, Manuela Ferreira Leite vai ser olhada como alguém que sabe fazer escolhas, que tem personalidade forte e é capaz de fazer frente aos barões e baronetes do seu próprio partido.
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07/06/09
Metamorfoses XXVIII
eis a terra da consolação
sem presságios nem augúrios
apenas o silêncio da tarde
e as aves paradas no tempo
a gritar na rua da invernia
sobraram dois traços negros
na cinza da estrada
vestígios de quem escava
na memória a cidade
de onde partiu um dia
sem lágrimas nos olhos
nem dor a cruzar o peito
ouviu o troar do comboio
naquele sítio onde
só o silêncio se ouvia
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Jessye Norman as Ariadne: "Ein Schönes war"
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A vencedora da noite
Manuela Ferreira Leite é a grande vencedora da noite eleitoral de hoje (um à parte para o José Trincão Marques: eu não votei no partido da senhora, não consigo, é visceral, embora eu simpatize pessoalmente com ela). A direita, pela mão dos resultados do PSD e do CDS, conquistou estatuto para se apresentar como capaz de ser alternativa de governo nas próximas legislativas. A soma de ambos os partidos roça os 40%. As pessoas começam a cansar-se da arrogância do PS e do seu governo, começam a cansar-se da forma como o governo trata as pessoas, da forma utilitarista como as vê. A direita não tem as próximas eleições ganhas, longe disso. Mas também não tem a derrota assegurada, como parecia ser a certeza nas hostes socialistas. Uma coisa é certa, no PSD os barões descontentes vão calar-se e os aparelhos locais vão empenhar-se como o não fizeram até aqui. Começa a cheirar-lhes a poder e isso é um estímulo inigualável em política. Por outro lado, muitos dos votos que Sócrates perdeu para a esquerda são irrecuperáveis. A temperatura política subiu substancialmente com as eleições de hoje.
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A elevada abstenção
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Avaliações e sociologias nacionais
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Desespero eleitoral (2)
Está consumado. Já cumpri o meu dever cívico. Doeu muito? Ó se doeu! Depois de uma noite de vigília, noite onde me entreguei à mais profunda meditação transcendental, noite de calvário onde orei e calculei, onde me ajoelhei para que o Senhor abrisse uma excepção sobre a sua recusa em meter-se em política (ele, pouco misericordioso, vinha sempre com aquela história: dai a Deus o que é de Deus e a César o que é de César. Por fim, disse-me: não Me aborreças, vai votar e cala-te), onde fiz cálculo de probabilidades e tracei mapas de geometria política, depois de tudo isso, veio a manhã e, quase ao meio-dia, lá fui depositar na urna o meu singelo voto. Enfim, votei num bando de idiotas e já estou à espera de ver o chefe do bando a pavonear-se com o resultado eleitoral, como se nós, portugueses, votássemos a favor de alguém. Esse tipo que fique a saber: eu ao votar no seu bando não votei nele, mas votei contra os outros bandos. Sempre achei a proposta de um amigo meu muito decente. Todos nós deveríamos ter direito a um voto, mas este podia ser negativo ou positivo. O eleitor teria de escolher entre dizer que estes, sim senhor, merecem o voto, ou mostrar que nenhum merece o voto, mas aquele merece mesmo um voto negativo. No fim, subtraíam-se os votos negativos dos positivos e o partido que somasse mais votos positivos ganhava. Caso nenhum partido obtivesse votos positivos, dissolviam-se os partidos todos e pedia-se aos cidadãos que fizessem novos , como aconteceu a seguir ao 25 de Abril. Era uma limpeza. Pelo menos a vida política seria efervescente e os portugueses poderiam das largas à sua imaginação.
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06/06/09
Metamorfoses XXVII
fica-se sempre tão indeciso
ao olharmos esta porta
nunca sabemos se é a saída
por onde os vivos deixam a vida
ou entrada por onde chega a morte
não tem letreiro que indique a função
limita-se a estar ali no silêncio dos dias
imprecisa imperiosa inclemente
tão obscura na luz que dela vem
nunca sabemos se o seu abrir e fechar
tem hora aprazada
nem conhecemos a justiça
do calendário que a rege
ouvimos que abriu e fechou
e parecem-nos errantes
as decisões do invisível porteiro
às vezes perguntamos a que pátria
conduz a dissimulada passagem
mas logo um raio sombrio
se escuta ali onde os sinos dobram
para anunciar sabe-se lá que partida
sabe-se lá que negra chegada
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Dido's Lament by Jessye Norman
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Desespero eleitoral
Eis o meu problema, participar nestas eleições e votar. Não é que eu não queira e até tenho aproveitado o dia de hoje, o dia de reflexão que o legislador tão sabiamente me ofereceu, para reflectir no assunto e escolher. Já estou em reflexão há mais de 22 horas e nem uma luzinha se acendeu no meu pobre e devastado cérebro. Naquele partido que eu votava, por um hábito que data dos finais de 70 ou inícios de 80, jurei a pés juntos que nunca mais, mas ó nunca mais, lhe dava o meu voto. Quem não se sente não é filho de boa gente e eu sou filho de gente boa. Portanto, nesses, o caso está arrumado. Não tenho paciência para as amostras de partido. Exercitei essa modalidade ainda nos anos 70, mas depressa me cansei, por inútil. Tenho um problema com os partidos da direita. Eu sou conservador. Sempre votei à esquerda, logo como conservador que sou não posso votar à direita. Mas apesar de ser de esquerda, abomino revoluções e aqueles que sonham com revoluções, logo é-me impossível votar em certa esquerda que sonha com revoluções. As revoluções são uma coisa desagradável. Quando tinha 17 ou 18 anos, achava graça às revoluções, mas isso era devido às hormonas ainda não estarem completamente estabilizadas. Hoje não acho graça às revoluções e muito menos aos homens que sonham com elas, nem que seja em segredo. As revoluções têm muito sangue, morre gente e estraga-se muita coisa que nunca mais se conserta. Um aborrecimento. Além de mais, eu sou conservador e não um revolucionador. Pensei em voltar-me para Deus, pedir-lhe que me iluminasse. O Espírito Santo, ainda eu não tinha pensado o pedido todo a fazer, soprou-me logo que Deus, seja em que pessoa for, não se mete em política nem em futebol. Quem me poderá ajudar nesta solidão de eleitor que quer votar e não sabe em quem.
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Albânia 1 - Portugal 2
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Um rosto da tragédia
Esta senhora, Ana Maria Bettencourt, é a nova Presidente do Conselho Nacional de Educação. Ontem, o Público entrevistou-a e parece que ficou tão agradado com o discurso da senhora que até, na secção de sobe e desce da última página, lhe deu uma setinha em direcção ao alto. Mas a senhora disse alguma coisa importante? Não, disse as banalidades do costume: os professores têm de trabalhar mais (eu acabei ontem o ano lectivo absolutamente exausto), o ensino não deve ser centrado nos programas mas nos alunos, não vale a pena reprovar os alunos, a importância do trabalho em equipa, os exames não respondem às necessidades dos alunos (a senhora diz que isso está provado, como se fosse possível provar tal coisa). Toda a cartilha do eduquês que, desde há décadas, penetrou no ensino ocidental e o tem destruído sistematicamente.
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Jornal Torrejano, 05 de Junho de 2009
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04/06/09
Um e-mail
Quando se fala do regime, de que se estará a falar? Isto é um belo retrato e uma explicação sobre a natureza e o modo de agir do regime. Nem é preciso olhar para os comportamentos fora da lei. Bastam aqueles que estão dentro da lei, para percebermos aquilo que é Portugal. Será o Portugal de hoje mais perverso que o de ontem? Claro que não. O e-mail de Abdul Vakil para Oliveira Costa sobre o critério de recrutamento de figuras socialistas é uma funda lição não apenas de política em Portugal, mas também de sociologia e de antropologia. Aquelas poucas linhas merecem muitas teses de doutoramento. E nelas não transparece nenhuma conduta menos lícita, mas mostram como Portugal não pode fazer outra coisa senão afundar-se nas mãos de um pequeno grupo. Não é novidade, mas vê-lo assim tão explícito até dá gosto.
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03/06/09
Metamorfoses XXVI
em certas cidades sem nome
há um friso de flores escuras
a bordejar rios adormecidos
onde vogam incautos viajantes
escondem o rosto nas mãos
a luz clara os atormenta
são enfermos sem infância
roubada na esquina da rua
cidades de traços inquietos
espelhos quebrados na noite
os barcos partiram cedo
para o cais mais distante
não choram os que perderam
uns o barco outros o rosto
apenas tapam os olhos
para ocultar o frio desgosto
cidades de fogo assassino
tracejam em cada recanto
uma promessa ávida de dor
num pranto tinto de morte
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Astenia

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Jessye Norman - Oedipus Rex - "Nonn' Erubescite, Reges"
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02/06/09
António Barreto e a crise
Concordo com muito do que António Barreto escreveu aqui. Julgo que ele tem razão quando diz que a crise acabou. Algumas coisas que fui lendo, aqui e ali, deram-me essa intuição, a sensação de que o espírito da coisa estava a mudar. Mas é só uma intuição, não mais. Não sei, porém, se ele tem razão ao dizer que nada ficará como estava. Talvez. Gostava de partilhar desse ponto de vista, mas não sei. Há qualquer coisa de surpreendente nesta capacidade da economia de mercado se regenerar. A ameaça parecia, e parece ainda, terrível, mas a coordenação global conseguiu evitar a catástrofe social.
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01/06/09
Metamorfoses XXV
a tortuosa luz que amamenta
com seio de víbora
a traição da sombra
veio visitar-me
sob um véu de névoa
galopou na planície da noite
quebou o muro das montanhas
e perante o fogo
que na vida me coube
vibrou um golpe fatal
ávidos os dentes
cravaram-se no corpo
iluminaram as células
e rasgaram a pele para
que a luz chegasse
iluminado gritei
até os pulmões secarem
e se respiro ainda
é fogo o que se solta
da alma em combustão
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Wesendonck Lieder Nr. 5, Träume. Jessye Norman. Richard Wagner
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Erros meus
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Fábrica de ideias
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31/05/09
Metamorfoses XXIV
vacilam as casas sob o império do medo
e em cada desvão há uma noite
que pinta o destino de luz
ou abre uma rosa em segredo
não tenho promessas a cumprir
nem espero o consolo da esperança
se o terror pela rua vier
que traga o cutelo afiado
e quando o fruto cair
com um baque surdo pelo chão
deixem-me vivos os olhos
para que possam ver
a dor que me doer então
dormem perdidos os perdidos
cansados de esperar o que vem
não sabem que é em segredo
que a morte chega
para partir com alguém
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Mozart: Don Giovanni- Mi Tradi Contest- Waltraud Meier
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Ir para casa
Em entrevista ao Correio da Manhã, Vasco Pulido Valente diz: "Se estivesse no lugar de Sócrates, ia para casa." É evidente que VPV não está, e que José Sócrates não é VPV. Mas ir para casa nem era coisa inédita na família socialista. António Guterres foi para casa porque o país estava a cair num pântano. Mas Guterres tem a desculpa de nunca ter obtido uma maioria absoluta. Sócrates teve o mérito de a alcançar, mas com ela apenas conseguiu que país mergulhasse definitivamente no pântano que Guterres queria evitar. Com Sócrates o problema não é cair no pântano, mas o facto de Portugal se ter tornado um imenso pantanal.
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O mistério Daniel Sampaio
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30/05/09
Metamorfoses XXIII
naqueles passeios que orlam as ruas
imagino gente que passa apressada
sem pensar na ignorância do futuro
que as espreita do fundo da estrada
vão breves nesse seu não saber
e cantam a esperança dos sonhos
como se um sonho fosse mais
do que um devaneio a esquecer
melhor que entrassem num bar
e ficassem o dia inteiro a beber
e cansados da vida ou do álcool
esperassem a noite para morrer
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Marcadores: Poesia, Poesia - em mim
Gustav Mahler, Waltraud Meier - Ich bin der Welt abhanden gekommen
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Uma sombra negra
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Marcadores: Política
Uma entrevista a não perder
Manifestação de professores
Hoje uma nova manifestação de professores. Estão na rua dezenas de milhares de professores. Mas, nesta altura do campeonato, tudo isso pode ter pouco relevo. A esperança de algum bom senso no sector só chegará se, nas próximas eleições, o Partido Socialista perder a maioria absoluta. Caso contrário, caso os portugueses ofereçam a Sócrates uma nova maioria absoluta, os professores bem podem desesperar. O inferno burocrático cairá inexoravelmente em cima deles até que a profissão esteja completa e totalmente irreconhecível. Parece faltar pouco, mas é melhor que os professores comecem a perceber o que os espera com nova vitória socialista. Não vai ser nada de suave, podem crer.
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29/05/09
Beethoven - Fidelio - Waltraud Meier
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Marcadores: Música
Talvez esteja a ficar velho
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Marcadores: Sociedade
Sondagens caminham para a normalidade
Com a aproximação das eleições europeias, as sondagens começam a tornar-se mais fiáveis e a acordar-se com o expectável. Nesta última sondagem, o PS chega aos 35,5%, o PSD aos 32,5%. Uma distância normal para o actual quadro político. Normal é também o PCP reaparecer como terceira força política (9,2%), mesmo à frente do BE (8,8%). Nunca me pareceu que o Bloco tivesse élan suficiente para ultrapassar o PCP. O eleitorado comunista é muito mais fixo do que o volátil eleitorado do BE. Também sempre me custou a crer no anunciado desaparecimento do CDS-PP. Os actuais 6,5% são muito mais realistas do que anteriores sondagens que apontavam para a casa dos 2%. Enfim, caminhamos para a insuportável normalidade.
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Marcadores: Política
A roubalheira
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Marcadores: Política
Jornal Torrejano, 29 de Maio de 2009

Já está on-line a edição semanal do Jornal Torrejano. Clicar aqui para ir até lá.
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28/05/09
Metamorfoses XXII
estão podres as maçãs
e a poeira acumulou-se na biblioteca
um cristo cansado olha-me da desolação da cruz
e todo o seu silêncio embaraçado
parece a longa confissão de quem perdeu a luz
os adolescentes adolescem lá fora
e carregam nas hormonas a dor que deus lhes deu
gritam correm berram silvam
pois o corpo pesa-lhes na leveza do vazio
a que dantes chamavam alma e agora cio
vou deixar as sombras flutuar
e contar as mãos não vá ter perdido alguma
agarro uma velha camisa esburacada
onde esboço para deus o itinerário
e descubro uma ponte há muito cortada
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Marcadores: Poesia, Poesia - em mim
Richard Wagner - Tristan und Isolde (Liebestod) - Waltraud Meier
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Marcadores: Música
A perturbação do meretíssimo
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Marcadores: Justiça
O esquecimento da Europa
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Afinal também perdeu a opinião pública
Em 2006, a ministra da Educação atribuiu o elevado insucesso escolar e a pouca qualificação dos alunos ao trabalho dos professores e ao funcionamento das escolas. Foi o ponto alto da escalada do ME contra os seus próprios professores. Pouco tempo depois, Maria de Lurdes Rodrigues, sem qualquer resquício de vergonha ou sinal de arrependimento, proclama que "admito que perdi os professores mas ganhei a opinião pública". Só esta afirmação seria suficiente, numa democracia minimamente exigente, para demitir a senhora. O curioso, porém, é que além de perder radicalmente os professores, a senhora enganou-se sobre a opinião pública. Segundo uma sondagem da Visão desta semana, os principais responsáveis pelo que vai mal na educação são os governantes e o Ministério da Educação, logo seguidos pelos alunos que, segundo a opinião pública, não querem estudar. Os professores, segundo a mesma sondagem, são os menos responsáveis pelo caos em que a educação caiu em Portugal.
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27/05/09
Metamorfoses XXI
há em mim uma recordação de lepra nas cidades
as pústulas que cobrem o asfalto e saltam para casa
o barulho da sineta que me bate no peito
e anuncia ao mundo o perigo de contágio
nesses dias eu somava sobre o mapa impérios
e desenhava a estratégia dos exércitos
em grandes folhas brancas onde poisavam moscas –
logo morriam sob o ímpeto desta mão
não havia êxtases nem relâmpagos pelos céus
apenas o desconsolo da vida que corre
a doença que toma conta de cada casa
e escava os alicerces até que tudo na noite grite
assim crescia a lepra nos ombros da cidade
onde me sentava pelo chão à tua espera
ignorando de onde vinhas pois a rosa-dos-ventos
secara quando a noite morreu na madrugada
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Michel Camilo y Tomatito - Bésame Mucho (1999)
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A irracionalidade da razão
Vi há pouco, na SIC, um programa sobre o estado da justiça em Portugal. Talvez porque esteja demasiado sensível ao assunto, mas o que mais me sensibilizou foi a intervenção de um juiz que lamentava não poder proferir sentenças como o fazem os seus colegas anglo-saxónicos. Uma sentença que lá ocupa duas páginas, cá precisa de centenas. Portugal vive uma paranóia burocrática. Conheço-a muito bem a partir da profissão de professor. A escola portuguesa é irmã gémea dos tribunais portugueses: papéis, papéis, papéis. Isto tem um divertido efeito perverso. Burocracia designa, segundo Max Weber, a organização racional do Estado. Mas em Portugal a burocracia é sinónimo da irracionalidade que se apossou das instituições e da própria sociedade. Decididamente, nós portugueses não temos jeito para a racionalidade. Quando nos pomos a organizar racionalmente seja o que for, o que cresce é a irracionalidade, a paranóia e o devaneio burocráticos. Ao menos, poderíamos ser irracionais sem papéis. Estes, porém, são necessários para nos podermos convencer, erradamente, que somos racionais. Não somos.
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A menina russa
A mais recente telenovela jurídica, a da menina russa, teve um importante desenvolvimento político. Os ditos pais afectivos preparavam-se para um episódio em solo russo, a convite de uma televisão russa, as televisões adoram telenovelas. A embaixada russa, certamente por não gostar de telenovelas, não deu o visto de entrada ao pobre casal português. Dir-se-á que é uma atitude pouco democrática das autoridades russas, ainda por cima essa coisa de nacionalismo já não se usa. Mas talvez valha a pena meditar se a atitude russa não representará o futuro das relações internacionais, sem as ilusões bonançosas ocidentais.
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26/05/09
Metamorfoses XX
range a mesa onde escrevo
e tudo treme na impetuosa noite
este sonho persegue-me há tantos anos
que dele fiz a minha morada
sem paredes brancas nem trepadeiras nas janelas
casa citadina coberta de fuligem
e do ronco obsceno dos carros na madrugada
o coração bate ao som dos cães vadios
e se em mim ainda ladram recordações
é porque deixei de tomar os medicamentos
o esquecimento foi decrescendo
até a memória se tornar um mar bravio –
inunda as areias escava as arribas
apita-me no sonho como uma sirene portuária
pudesse empacotá-la na dialéctica de hegel
ou converter-me à filosofia analítica
talvez os testículos me doessem menos
e a minha mão deixasse de sangrar
nas tardes onde me sento à janela
para ver passar o rio do esquecimento
na memória que não posso matar
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Knabenchor Hannover - Schütz - Opus ultimum
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Bode expiatório
O dr. Oliveira e Costa foi ao parlamento falar. Aquilo que ele disse mostra, pelo menos, uma coisa: onde chegou a democracia portuguesa sob a regência do bloco central. Azar o dele, Oliveira e Costa, que está preso. Parece, no entanto, um bode expiatório, uma espécie de cristo que está a ser sacrificado para salvar, talvez mesmo redimir, outros (quantos outros?) que o deveriam acompanhar. A vida é dura.
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O período do Terror
Nada melhor para elevar o nível das campanhas eleitorais do que a existência de candidatos cultos. Parece que o professor Vital Moreira, candidato do PS ao parlamento europeu, embevecido com a Ministra da Educação e fiel ao seu passado revolucionário, entoa loas à revolução que vai pela educação. Sei, por exemplo, que o professor de Coimbra adora o conceito de escola a tempo inteiro, conceito absolutamente totalitário e de acordo com os ideais que ele partilhou na sua juventude, e aos quais parece não ter renegado por completo. Mas culto mesmo e dotado de espírito é o candidato Rangel, do PSD. Se Vital acha que estamos a viver uma revolução na educação, então a fase que atravessamos é a do Terror. Engana-se, porém, numa coisa: o Terror não dura apenas há ano e meio. Dura já há quatro longos anos e, curiosamente, começou a ser meticulosamente preparado pela burocracia ministerial no tempo do ministro Roberto Carneiro, quando nos governava o PSD e o professor Cavaco. Cultos, sim, mas de memória curta.
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25/05/09
Metamorfoses XIX
cansei-me de ser culto
e de todos os livros que já li
melhor fora que tivesse gasto a vida
pela areia da praia
ou de cabelo ao vento
personagem de anúncio
de um produto primaveril
melhor fora que não soubesse ler
e ficasse tarde fora a remoer o almoço
ou então perdido num café de aldeia
ouvisse os loucos da minha infância
e com eles aprendesse de cor
a sabedoria da sua loucura
quero lá saber de ideias e de imperativos
rio-me se oiço falar de teorias
acendo o farol para os barcos não naufragarem
e vestido entro no mar
para os peixes não me reconhecerem
sento-me e ponho os pés sobre a mesa
e se vejo um livro que se ateia
logo estremeço
pois já me oiço ressonar
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Marcadores: Poesia, Poesia - em mim
Assanhado - Jacob do Bandolim
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Roubo de provas judiciais
Não, não caro leitor, este blogue não se tornou um lugar de reflexão sobre assuntos judiciais. Mas haverá cidadão comum que não ande preocupado com o estado da instituição? Para além da fragilidade que o aparelho de justiça, devido à acção de alguns dos seus agentes, tem dado mostras, agora até a fragilidade física o atingiu: provas judiciais roubadas de um edifício do Ministério da Justiça. Se nem as provas judiciais estão guardadas convenientemente, o que se poderá pensar do resto. A continuar assim, não restará, dentro em breve, pedra sobre pedra no edifício judicial português.
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Jorge Carreira Maia
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Marcadores: Justiça
Evolução na descontinuidade...
Quarenta anos de reforma educativa chegaram aqui. Em França, como em Portugal. Este cartoon explica à evidência o que ninguém quer ver: o que significa introduzir os pais na escola. Contrariamente ao que prometia Marcelo Caetano, durante a sua primavera política, por sinal em 1969, na educação não houve evolução na continuidade. A descontinuidade foi tão radical que tudo na escola se inverteu. Em Portugal, o desastre começou mesmo com Marcelo Caetano.
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Jorge Carreira Maia
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24/05/09
Metamorfoses XVIII
sob o jugo das paredes caminha o herói
traceja linhas e chama-lhes esperança
mas tudo no corpo o trai
as vísceras revolteiam enfadadas
pois o cheiro a decomposição
vem fazê-lo mergulhar num mar de asco
como se a terra não fosse mais
do que aquele labirinto sulfuroso
a metáfora moribunda do inferno
os músculos desagregam-se com lentidão
mas cada passo é mais incerto
e a coragem que enchia o peito
joga-a agora o vento pelo chão
não se lembra das terras sombrias
nem da enseada onde a mãe o gerou
caminha quase parado
e desespera dentro da couraça de ferro
não há deus que por ele venha
nem porta que para a luz se abra
tão imenso caminha o herói
e não sabe ainda o desenlace fatal
a cada volta do labirinto enegrece o destino
e quando a besta horrível cai
é a sua pele que vê rasgada
e o grito animal que pelo mundo ecoa
é apenas o seu próprio ponto final
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Jorge Carreira Maia
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Fisher-Dieskau/ Richter - Schubert Lieder - 1: Am Fenster
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Humanização do trabalho
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Jorge Carreira Maia
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Contas da bola
Se as dívidas dos clubes de futebol são assim em Espanha, imagine-se como serão, com a devida proporção, em Portugal. E se a falta de controlo da Liga Espanhola é aquela que é referida, como será no nosso país? Às vezes, acho que o mundo dos negócios e o mundo da bola não fazem lá um casamento muito razoável.
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Jorge Carreira Maia
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Não basta ser
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Marcadores: Justiça
23/05/09
Metamorfoses XVII
desta porta avista-se um traço de rancor
as janelas abertas sobre a paliçada do medo
os vidros partidos pela inclemência da música
e a calvície que tomou conta das casas
não vale a pena olhar para os astros
e saber se a conjugação dos planetas era favorável
o barco foi aparelhado e já voga mar dentro
sem marujos de papel ou capitão que o dirija
mandei derreter a bússola para poder cantar
os últimos mapas entreguei-os num bar
em troca de vinho e da ternura de uma puta
que me aquecesse por instantes o coração
por isso já nada quero saber da história
mesmo quando a cerveja me tolda a cabeça
queimo extático cada um destes livros
para ver a carícia do fogo no papel a arder
depois em descuido sopro para o chão a cinza
e espero que me insultem ao virar da esquina
sempre queimei três mil anos de labor humano
ao menos podia usar o papel para limpar o cu
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Jorge Carreira Maia
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Marcadores: Poesia, Poesia - em mim
Carlos Paredes - Coimbra e o Mondego
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Jorge Carreira Maia
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Marcadores: Música
Belenenses ao fundo
O Belenenses é o meu segundo clube, depois do Benfica. Agora caiu, mais uma vez, na Liga de Honra, se é que uma liga secundária se pode chamar de honra. É pena, o Belenenses faz parte da história do futebol português e a liga principal sem ele fica mais pobre. Mas o Belenenses é um exemplo de como um clube grande (eu sou do tempo em que o Belenenses era considerado um dos quatro grandes) se pode tornar pequeno, até no número de simpatizantes. Espero que volte depressa. O Benfica deveria meditar nisto.
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Jorge Carreira Maia
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Os advogados e o Zeitgeist
Por que será que ao lermos isto, mais isto, mais isto e ainda isto ficamos com a nítida sensação, mais uma vez, de que Justiça, em Portugal, não passa de uma mixordice inqualificável? Na luta que atravessa e parte a Ordem dos Advogados, por mais explicações marxianas que se possam adiantar, ficamos com a sensação de que todos têm razão. Em quê? No mal que cada protagonista diz dos outros. Já nem os advogados são como antigamente... Parece que também eles entraram num reality show. Pelo menos, têm a vantagem de se terem adaptado ao Zeitgeist.
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Jorge Carreira Maia
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