10/06/09

Um dia triste


O 10 de Junho é um dia triste, civicamente triste. Não é como o "4th of July" dos americanos ou o "14 Juillet" dos franceses. Os dias de festa cívica são sempre tristes em Portugal. Mesmo o 25 de Abril caminha para lá. Dentro de alguns anos, quando murchar a descida da Avenida da Liberdade e mais uma ou outra manifestação do género, o 25 de Abril não será mais do que uma cerimónia onde o poder se comemora a si mesmo. Em parte, já é assim.

Vejamos os nosso feriados cívicos, para além do 25 de Abril. O 1.º de Dezembro, o 5 de Outubro, o 10 de Junho, todos eles pertencem à casta política, estão longe de estar enraizados no coração do povo. Este é o retrato efectivo da relação cívica que existe em Portugal. Os portugueses não sentem nenhum impulso especial para comemorar o laço de cidadania que os une. Por que razão?

Talvez sejamos um povo demasiado antigo e com uma longa história, estamos de tal modo habituados à nossa portugalidade que nem vale a pena comemorá-la. Ela é um dado inquestionável. Esta é uma explicação pertinente. Mas isso também seria válido para os franceses. Eles encontraram, porém, no 14 Juillet um dia de festa da nação francesa, um dia que é o da liberdade mas também um dia de afirmação da cidadania francesa.

Há talvez outra explicação, uma explicação menos cordata. Apesar de cerca de 9 séculos de história, Portugal não deixa de ser sentido pelos portugueses, ainda que de forma inconsciente e subterrânea, como qualquer coisa artificial. A criação de Portugal não tem a sua génese num povo português que lutou para ter um Estado e ser um reino independente. Portugal nasceu do desejo de uma elite política que queria um reino, um Estado e um povo para dirigir. O povo português foi uma criação do Estado português e não o contrário. Esta tese explica bem por que motivo as nossas festas cívicas não são populares, mas uma forma da elite política se comemorar e reconhecer a si mesma. Por isso, o povo fica de fora. Por isso, todas as nossas festas cívicas são tristes. Por isso, 0 10 de Junho é um dia triste, civicamente falando, um dia em que o Presidente da República condecora alguns cidadãos "ilustres" e fala para os partidos políticos, fingindo que fala para o povo. Mas não fala. Ninguém quer saber. Ninguém se emociona com Camões, com a Pátria com as comunidades portuguesas, com os cidadão "ilustres" ou com o Presidente da República.

08/06/09

Metamorfoses XXIX


Abelló i Prat - Río Ganges, India (1992)
no murmúrio das águas do rio
não havia barqueiros nem barcos
apenas as dores se banhavam ali
onde eu julgara haver
um jardim exausto de glicínias

estavam os meus olhos
sob o império do equívoco
e nada na paisagem distinguiam
confundiam as águas
com uma planície de algas
e pessoas com flores no jardim

olhos sonâmbulos
nem a cor querem ouvir
andam perdidos e errantes
velhos cavaleiros andantes
que não sabem se hão-de chorar
ou sorrir

Rabih Abou Khalil Project

A estranha ferida narcísica

Ontem, apesar dos bons resultados eleitorais, o PCP sofreu uma humilhação histórica. Um bando sem princípios, o Bloco de Esquerda, formado a partir dos antigos grupelhos esquerdistas, antiga, e não sei se actual, linguagem do PCP, teve a ousadia de ter mais votos que a CDU e de eleger mais um deputado. Tirando os tempos em que eu era militante político, e isso já foi há mais de 30 anos, nunca compreendi qual é o fascínio que o PCP tem pela extrema-esquerda ou, melhor, ex-extrema-esquerda.

É esse fascínio que conduziu à actual ferida narcísica. E, no entanto, nada é mais injustificado do que a preocupação do PCP com o BE. Contrariamente ao que muito gente pensa, PCP e BE não disputam o mesmo eleitorado, não se dirigem ao mesmo "povo". Na verdade, não se atrapalham um ao outro. Neste caso, o BE tem sido mais inteligente que o PCP. Os antigos partidos que constituem o BE, a UDP/PCP(R) e o PSR/LCI, viviam na ilusão de penetrar no eleitorado do PCP, de lhe roubar os operários e os camponeses e conduzir o povo à revolução socialista.

Essa ilusão morreu, porém, quando nasceu o BE. O BE nasce da percepção que isso era impossível e se aquele grupo de gente queria ter algum papel político, então teria de fazer pela vida noutro lado, procurar outros mercados eleitorais. Foi isso que aconteceu. O BE não passa de um partido social-democrata com linguagem mais ou menos radicalizada, um PS de esquerda. O BE penetra no eleitorado do PS e até do PSD e do CDS, mas nunca no do PCP. É uma questão de classe. Muito, mas muito dificilmente, aqueles votos do BE iriam, caso o Bloco não existisse, para o PCP. Este BE nada tem a ver com os velhos dissidentes do PCP que, em 1964, formaram o CMLP e deram origem à extrema-esquerda portuguesa. Esses nunca passariam dos 2 ou 3 por cento. Mas o fascínio não é coisa que se explique, nem esta estranha ferida narcísica.

O vencedor oculto

Ontem as eleições tiveram um vencedor oculto e silencioso. Ninguém se lembrou dele. Mas ele sabe que foi dado um passo importante para a realização dos seus desígnios: um Presidente, uma maioria. Uma esperança renasce em Belém, a esperança de poder vir a influir nos destinos do país por interposta pessoa. O PS de Sócrates tem feito mal em menosprezar Cavaco. Ele anda nisto há muito tempo e sabe muito bem o que quer.

O que mudou ontem?

Mudou alguma coisa no panorama político com as eleições de ontem? Mudou e mudou substancialmente. Até ontem a única coisa que estava em discussão era a dimensão da vitória de Sócrates nas próximas legislativas. O PSD não passava de um ninho de víboras e Manuela Ferreira Leite pouco mais era do que uma pobre avó deslocada do seu cenário natural, o gineceu familiar. Mas os resultados de ontem transformaram a percepção que se tem da realidade. A partir destas eleições, Manuela Ferreira Leite vai ser olhada como alguém que sabe fazer escolhas, que tem personalidade forte e é capaz de fazer frente aos barões e baronetes do seu próprio partido.

Sócrates é um excelente orador, sabe relacionar-se com os media, move-se à vontade no terreno da propaganda. Tudo coisas em que Manuela Ferreira Leite é um desastre. Mas esta profunda desvantagem pode vir a ser uma vantagem. Se Ferreira Leite não quiser ser aquilo que não é, se continuar a mostrar-se humilde, se souber fazer ver que, apesar de não ter dotes oratórios e ser pouco propensa à propaganda, tem substância, que sabe o que quer, sabe para onde levar o país, então a sua aparente desvantagem para Sócrates pode revelar-se uma verdadeira vantagem. Sócrates é teimoso, mas Ferreira Leite é determinada. Sócrates fala bem, mas Ferreira Leite fala a "verdade". Sócrates começa a sofrer de um verdadeiro défice de credibilidade. Ferreira Leite, se for inteligente, poderá fazer ver ao eleitorado que a credibilidade não depende dos dotes oratórios ou da relação com a televisão. Foi isto que mudou ontem ou que começou a mudar ontem. A senhora é mais dura de roer do que parecia. Isso não significa que o PSD vá ganhar, significa apenas que não está condenado a perder. E isso é muito.

07/06/09

Metamorfoses XXVIII

Léon Kossoff - Red Brick School Building, Willesden, Spring (1981)

eis a terra da consolação
sem presságios nem augúrios
apenas o silêncio da tarde
e as aves paradas no tempo
a gritar na rua da invernia

sobraram dois traços negros
na cinza da estrada
vestígios de quem escava
na memória a cidade
de onde partiu um dia

sem lágrimas nos olhos
nem dor a cruzar o peito
ouviu o troar do comboio
naquele sítio onde
só o silêncio se ouvia

Jessye Norman as Ariadne: "Ein Schönes war"

A vencedora da noite

Manuela Ferreira Leite é a grande vencedora da noite eleitoral de hoje (um à parte para o José Trincão Marques: eu não votei no partido da senhora, não consigo, é visceral, embora eu simpatize pessoalmente com ela). A direita, pela mão dos resultados do PSD e do CDS, conquistou estatuto para se apresentar como capaz de ser alternativa de governo nas próximas legislativas. A soma de ambos os partidos roça os 40%. As pessoas começam a cansar-se da arrogância do PS e do seu governo, começam a cansar-se da forma como o governo trata as pessoas, da forma utilitarista como as vê. A direita não tem as próximas eleições ganhas, longe disso. Mas também não tem a derrota assegurada, como parecia ser a certeza nas hostes socialistas. Uma coisa é certa, no PSD os barões descontentes vão calar-se e os aparelhos locais vão empenhar-se como o não fizeram até aqui. Começa a cheirar-lhes a poder e isso é um estímulo inigualável em política. Por outro lado, muitos dos votos que Sócrates perdeu para a esquerda são irrecuperáveis. A temperatura política subiu substancialmente com as eleições de hoje.

A elevada abstenção

Parece confirmar-se as previsões de uma elevada abstenção nas eleições europeias. Não vale a pena especular sobre a relação entre a campanha eleitoral e a ida às urnas dos eleitores. Uma boa campanha eleitoral talvez não acrescentasse mais votantes à eleição. Não é apenas o facto de a Europa ser qualquer coisa distante e de as funções do Parlamento europeu serem pouco menos do que esotéricas. Mas julgo que os portugueses não votam por um motivo bem mais sensato: não vale a pena. Eleger 22 deputados não vai mudar nada daquilo que é essencial. Nada está em jogo, esse é o sentimento geral. Aliás, a maioria dos deputados que vão ser eleitos pensa a mesma coisa, portanto mais vale ir a banhos ou passear.

Avaliações e sociologias nacionais

Por causa deste post do Zé Ricardo, lembrei-me de uma coisa bem interessante. A revolta dos professores portugueses contra o modelo chileno de avaliação importado pelo governo, o longo conflito com o ministério da Educação, as manifestações que mobilizaram grande parte da classe, por vezes a rondar a unanimidade, tudo isso ainda não encontrou uma palavra séria que se ouvisse dos sociólogos, desses arautos dos movimentos sociais, desses estudiosos das mudanças e das resistências no social. Se há coisa que deve valer a pena estudar, ao nível da sociedade portuguesa, é a resistência que os professores portugueses têm oposto à barbárie educacional trazida pelo governo. Parece, porém, que os nossos sociólogos só se interessam por estas coisas quando se passam no estrangeiro. Ou então não querem olhar para o trabalho político da sua colega. Em Portugal até a ciência se faz segundo os conhecimentos. Ou será que estão todos comprometidos, mesmo que seja apenas pelo silêncio, em promover a mudança social por decreto-lei e ameaça disciplinar? Uma classe inteira na rua parece fenómeno sem importância aos nossos estudiosos do social.

Desespero eleitoral (2)

Está consumado. Já cumpri o meu dever cívico. Doeu muito? Ó se doeu! Depois de uma noite de vigília, noite onde me entreguei à mais profunda meditação transcendental, noite de calvário onde orei e calculei, onde me ajoelhei para que o Senhor abrisse uma excepção sobre a sua recusa em meter-se em política (ele, pouco misericordioso, vinha sempre com aquela história: dai a Deus o que é de Deus e a César o que é de César. Por fim, disse-me: não Me aborreças, vai votar e cala-te), onde fiz cálculo de probabilidades e tracei mapas de geometria política, depois de tudo isso, veio a manhã e, quase ao meio-dia, lá fui depositar na urna o meu singelo voto. Enfim, votei num bando de idiotas e já estou à espera de ver o chefe do bando a pavonear-se com o resultado eleitoral, como se nós, portugueses, votássemos a favor de alguém. Esse tipo que fique a saber: eu ao votar no seu bando não votei nele, mas votei contra os outros bandos. Sempre achei a proposta de um amigo meu muito decente. Todos nós deveríamos ter direito a um voto, mas este podia ser negativo ou positivo. O eleitor teria de escolher entre dizer que estes, sim senhor, merecem o voto, ou mostrar que nenhum merece o voto, mas aquele merece mesmo um voto negativo. No fim, subtraíam-se os votos negativos dos positivos e o partido que somasse mais votos positivos ganhava. Caso nenhum partido obtivesse votos positivos, dissolviam-se os partidos todos e pedia-se aos cidadãos que fizessem novos , como aconteceu a seguir ao 25 de Abril. Era uma limpeza. Pelo menos a vida política seria efervescente e os portugueses poderiam das largas à sua imaginação.

06/06/09

Metamorfoses XXVII

Virginia Lasheras - Puerta de la muerte (1987)

fica-se sempre tão indeciso
ao olharmos esta porta
nunca sabemos se é a saída
por onde os vivos deixam a vida
ou entrada por onde chega a morte

não tem letreiro que indique a função
limita-se a estar ali no silêncio dos dias
imprecisa imperiosa inclemente
tão obscura na luz que dela vem

nunca sabemos se o seu abrir e fechar
tem hora aprazada
nem conhecemos a justiça
do calendário que a rege
ouvimos que abriu e fechou
e parecem-nos errantes
as decisões do invisível porteiro

às vezes perguntamos a que pátria
conduz a dissimulada passagem
mas logo um raio sombrio
se escuta ali onde os sinos dobram
para anunciar sabe-se lá que partida
sabe-se lá que negra chegada

Dido's Lament by Jessye Norman

Desespero eleitoral

Eis o meu problema, participar nestas eleições e votar. Não é que eu não queira e até tenho aproveitado o dia de hoje, o dia de reflexão que o legislador tão sabiamente me ofereceu, para reflectir no assunto e escolher. Já estou em reflexão há mais de 22 horas e nem uma luzinha se acendeu no meu pobre e devastado cérebro. Naquele partido que eu votava, por um hábito que data dos finais de 70 ou inícios de 80, jurei a pés juntos que nunca mais, mas ó nunca mais, lhe dava o meu voto. Quem não se sente não é filho de boa gente e eu sou filho de gente boa. Portanto, nesses, o caso está arrumado. Não tenho paciência para as amostras de partido. Exercitei essa modalidade ainda nos anos 70, mas depressa me cansei, por inútil. Tenho um problema com os partidos da direita. Eu sou conservador. Sempre votei à esquerda, logo como conservador que sou não posso votar à direita. Mas apesar de ser de esquerda, abomino revoluções e aqueles que sonham com revoluções, logo é-me impossível votar em certa esquerda que sonha com revoluções. As revoluções são uma coisa desagradável. Quando tinha 17 ou 18 anos, achava graça às revoluções, mas isso era devido às hormonas ainda não estarem completamente estabilizadas. Hoje não acho graça às revoluções e muito menos aos homens que sonham com elas, nem que seja em segredo. As revoluções têm muito sangue, morre gente e estraga-se muita coisa que nunca mais se conserta. Um aborrecimento. Além de mais, eu sou conservador e não um revolucionador. Pensei em voltar-me para Deus, pedir-lhe que me iluminasse. O Espírito Santo, ainda eu não tinha pensado o pedido todo a fazer, soprou-me logo que Deus, seja em que pessoa for, não se mete em política nem em futebol. Quem me poderá ajudar nesta solidão de eleitor que quer votar e não sabe em quem.

Albânia 1 - Portugal 2

Portugal acabou de derrotar folgadamente uma das grandes potências do futebol europeu.

Um rosto da tragédia

Esta senhora, Ana Maria Bettencourt, é a nova Presidente do Conselho Nacional de Educação. Ontem, o Público entrevistou-a e parece que ficou tão agradado com o discurso da senhora que até, na secção de sobe e desce da última página, lhe deu uma setinha em direcção ao alto. Mas a senhora disse alguma coisa importante? Não, disse as banalidades do costume: os professores têm de trabalhar mais (eu acabei ontem o ano lectivo absolutamente exausto), o ensino não deve ser centrado nos programas mas nos alunos, não vale a pena reprovar os alunos, a importância do trabalho em equipa, os exames não respondem às necessidades dos alunos (a senhora diz que isso está provado, como se fosse possível provar tal coisa). Toda a cartilha do eduquês que, desde há décadas, penetrou no ensino ocidental e o tem destruído sistematicamente.

Mas parece que o que a senhora gosta mesmo é de mudanças de paradigma. Em linguagem epistemológica, diríamos que ela não gosta do Popper, que lhe prefere o Kuhn, caso contrário como poderia ela dizer que "está mais que provado que não é com exames que se responde aos problemas dos alunos". Meditemos, então, neste pedaço do mais refinado e deletério eduquês: "Não é o ensino centrado no programa, mas no aluno, porque o programa é pouco útil se os alunos não aprenderem. Essa mudança de paradigma é muito importante: pôr os alunos a trabalhar sozinhos, a corrigir os seus trabalhos, enquanto os professores ajudam os que têm mais dificuldades."

1. Para que serve então um programa? Um programa não determina aquilo que o aluno deve aprender? Se o ensino não for centrado num programa é uma pura anarquia. O professor que tenha 25 alunos numa sala de aula tem 25 centros. Mas esses centros são centros de quê? Isto é uma aberração ideológica sem sentido. O programa é aquilo que a comunidade determinou que o aluno deverá aprender. Tanto o ensino como a aprendizagem só podem estar centrados no programa. O professor deve empenhar-se em que o aluno adquira os conhecimentos que o programa determina. Todo o resto é uma miragem absolutamente ilusória. A forma como ele trabalha deve ser determinada por ele, professor. Depois o seu trabalho deve ser avaliado. Mas esta senhora quer impor a sua ideiazinha para educação e obrigar todos os professores a trabalhar em conformidade com a sua ideiazinha para a educação. Porque, como todos já notámos, a senhora tem uma ideiazinha para a educação da pátria.

2. Mas o que significa o paradigma novo da senhora Presidente do CNE? Novo é uma expressão, pois nós, professores, andamos a ser matraqueados com esta linguagem paranóica há décadas. Significa que o professor organiza umas actividades para os alunos mais espertinhos e fica a tomar conta daqueles que não sabem ou não querem saber. A ideia subjacente é retirar os melhores alunos do contacto com os professores, deixá-los entregues a si próprios, a auto-corrigirem-se, etc., enquanto o professor anda de carteira em carteira tentando recuperar os outros. Esta deve ser uma forma de caminharmos para o socialismo. Retiramos os professores aos que querem aprender, aos que se esforçam, aos que têm aptidões, para os entreter com aqueles alunos que não querem trabalhar. Talvez assim consigamos anular as diferenças genéticas e as de personalidade e construamos um inferno de igualdade. É verdade que há alunos com dificuldades de aprendizagem. Esses merecem apoio do professor da turma e de outros que se especializem na recuperação desses casos. Mas o principal problema das escolas não são os alunos com dificuldades de aprendizagem, mas os alunos que não querem aprender, que não querem trabalhar, que não querem esforçar-se. Eu até posso perceber que no ensino básico algumas das intervenções defendidas por Ana Bettencourt façam algum sentido, desde que os melhores alunos e os alunos que trabalham tenham direito ao professor, que possam aprender com ele e não com umas fichinhas de actividades miseráveis. Mas que sentido fará isso no ensino secundário? Vou dar uma aula sobre a ética kantiana pondo os alunos a fazer fichinhas, e arrasto-me de carteira em carteira para ajudar os que não querem fazer nada, enquanto os alunos que querem trabalhar protestam porque querem que eu dê uma aula normal para eles aprenderem? Estes inovadores paradigmáticos não saberão que a aprendizagem passa pela relação entre mestre e discípulo, pela relação do que fala com aquele que ouve, pela relação do adulto, que deve mostrar que sabe, com a criança ou adolescente que precisa de um modelo. O professor da ideiazinha educacional da senhora Presidente do CNE não passa de um burocrata que gere fichas de trabalho, mas que não tem nenhum saber a transmitir. Eis o admirável mundo novo dos paradigmas educativos da nova Presidente do CNE. Se o leitor tem filhos em idade escolar, vive numa grande cidade e tem dinheiro, já sabe o que tem de fazer. Ponha-os num bom colégio particular, de ensino bem tradicional. Se por acaso não o puder fazer, aguente-se. O ensino de qualidade não é para todos. Os "pensadores" e os "decisores" (palavra horrível) da educação acham que a escola pública deve ser aquilo que a admirável Bettencourt diz. Foi isto que pôs o ensino onde está. E a senhora escusava de vir com a história da sua visita a uma escola finlandesa. Não estamos na Finlândia, nem somos finlandeses. Se a senhora gosta tanto da Finlândia que vá para lá pregar o seu eduquês. Ana Bettencourt é um rosto da tragédia que se abateu sobre o ensino em Portugal. Tem sido uma incansável divulgadora do niilismo educativo, sempre escorada nas melhores intenções, e agora teve a recompensa. Chegou a Presidente do CNE. Melhor do que isso só o cargo de ministra, mas esse está bem entregue. Lurdes Rodrigues tem-se mostrado muito eficiente na aplicação da ideologia de Ana Bettencourt.

Jornal Torrejano, 05 de Junho de 2009

Com um dia de atraso, aqui fica o link para a edição semanal do Jornal Torrejano.

04/06/09

Um e-mail

Quando se fala do regime, de que se estará a falar? Isto é um belo retrato e uma explicação sobre a natureza e o modo de agir do regime. Nem é preciso olhar para os comportamentos fora da lei. Bastam aqueles que estão dentro da lei, para percebermos aquilo que é Portugal. Será o Portugal de hoje mais perverso que o de ontem? Claro que não. O e-mail de Abdul Vakil para Oliveira Costa sobre o critério de recrutamento de figuras socialistas é uma funda lição não apenas de política em Portugal, mas também de sociologia e de antropologia. Aquelas poucas linhas merecem muitas teses de doutoramento. E nelas não transparece nenhuma conduta menos lícita, mas mostram como Portugal não pode fazer outra coisa senão afundar-se nas mãos de um pequeno grupo. Não é novidade, mas vê-lo assim tão explícito até dá gosto.

03/06/09

Metamorfoses XXVI

Bill Jacklin - Queensway Looking East, Hong Kong I (1994)

em certas cidades sem nome
há um friso de flores escuras
a bordejar rios adormecidos
onde vogam incautos viajantes

escondem o rosto nas mãos
a luz clara os atormenta
são enfermos sem infância
roubada na esquina da rua

cidades de traços inquietos
espelhos quebrados na noite
os barcos partiram cedo
para o cais mais distante

não choram os que perderam
uns o barco outros o rosto
apenas tapam os olhos
para ocultar o frio desgosto

cidades de fogo assassino
tracejam em cada recanto
uma promessa ávida de dor
num pranto tinto de morte

Astenia


Há muita coisa que me desagrada no mundo da educação, mas aquela que me deixa mais profundamente desiludido é a natureza asténica da generalidade dos alunos, mesmo de muitas e muitos que têm boas notas. Há neles um cansaço tão grande, uma falta de vigor tão marcada, uma ausência de carácter já tão saliente, que me deixa sem qualquer esperança relativamente a este país. Escolhem sempre o mais fácil, o que dá menos trabalho, o que não tem obstáculos, o que não faz pensar, o que dispensa empenho. Querem ter boas notas, mas tentar superar-se, encontrar prazer em saltar obstáculos, apreciar a própria vitória sobre uma dificuldade, disso fogem quase todos, mesmo muitos dos melhores, repito. Portugal está a formar gerações e gerações de gente que sofre de astenia crónica, gente que já está definitivamente cansada aos 17 anos. Portugal, através das suas famílias e das suas escolas, através das ideias lunáticas do Ministério da Educação, está a formar gerações e gerações de pessoas sem carácter, sem fibra, sem capacidade de lutar por alguma coisa. Este é o principal problema da educação em Portugal. Não é os programas, as escolas, os professores, os manuais, as avaliações, etc., etc., etc. É a falta de carácter que se dissemina e se propaga entre os mais novos e que nos transforma num país de impotentes.

Jessye Norman - Oedipus Rex - "Nonn' Erubescite, Reges"

02/06/09

António Barreto e a crise

Concordo com muito do que António Barreto escreveu aqui. Julgo que ele tem razão quando diz que a crise acabou. Algumas coisas que fui lendo, aqui e ali, deram-me essa intuição, a sensação de que o espírito da coisa estava a mudar. Mas é só uma intuição, não mais. Não sei, porém, se ele tem razão ao dizer que nada ficará como estava. Talvez. Gostava de partilhar desse ponto de vista, mas não sei. Há qualquer coisa de surpreendente nesta capacidade da economia de mercado se regenerar. A ameaça parecia, e parece ainda, terrível, mas a coordenação global conseguiu evitar a catástrofe social.

Há, todavia, muitas perguntas que ficam no ar. A economia de mercado parece ter-se salvo, mas como ficará a distribuição do rendimento? O futuro trará uma maior distribuição da riqueza ou acelerar-se-á a proletarização das classes médias ocidentais? A Europa, e mesmo os EUA, irão ter futuro político num mundo onde a balança do poder económico cai para o Oriente? Como se irá relacionar a comunidade global com a crise ecológica do planeta, num sistema onde a economia de mercado, fundada na avidez do consumidor, sai reforçada? Como evoluirá a leitura de Marx, ele que tinha sido redescoberto, após nova vitória do capitalismo? Como evoluirão os sistemas políticos, nomeadamente a União Europeia?

São muitas questões sobre um futuro que, visto daqui e de agora, parece em aberto.

01/06/09

Metamorfoses XXV

Clara Gangutia - Pavía (1991)

a tortuosa luz que amamenta
com seio de víbora
a traição da sombra
veio visitar-me
sob um véu de névoa

galopou na planície da noite
quebou o muro das montanhas
e perante o fogo
que na vida me coube
vibrou um golpe fatal

ávidos os dentes
cravaram-se no corpo
iluminaram as células
e rasgaram a pele para
que a luz chegasse

iluminado gritei
até os pulmões secarem
e se respiro ainda
é fogo o que se solta
da alma em combustão

Wesendonck Lieder Nr. 5, Träume. Jessye Norman. Richard Wagner

Erros meus

O Zé Ricardo mandou-me um e-mail e depois um comentário, que agradeço, por causa de um erro imperdoável. Troquei um percebesse por um percebe-se, no post anterior. Coisa feia. Uma distracção na correcção do texto. Mas eu tenho uma palavra onde a minha propensão para o erro é quase infalível, a palavra "creche". A minha intencionalidade é sempre para escrever cresce. É muito curiosa a origem psicológica do erro. A creche é um infantário, um sítio onde as crianças crescem. A palavra portuguesa, porém, deriva de crèche, vocábulo francês que significa infantário; um galicismo, portanto. Quando oiço ou profiro o vocábulo associo-o sempre ao estar a crescer. Não é que não haja um longínqua razão para isso. O vocábulo francês crèche, antes de significar infantário, significou manjedoura, o que não deixa de estar ligado ao crescimento. No caso de creche o erro é incrementado pela aproximação fonética de creche e de cresce. Errar na ortografia é coisa corrente, mesmo em quem escreve muito e está atento à escrita. Aliás, escrevo sempre com o dicionário aberto (tenho um no computador) e consulto-o sistematicamente. Faço isso há dezenas de anos. Por que razão? Porque a escrever dou erros, surgem-me dúvidas, tenho necessidade de esclarecer o étimo da palavra, etc. Um dicionário é um bom amigo. Prefiro-o ao prontuário ortográfico. Os erros piores são, porém, as distracções que, muitas vezes, resistem a várias revisões. Há um outro fenómeno psicológico associado. Uma das minhas experiências de envelhecimento está ligada a uma certa perturbação da ortografia. Palavras cuja grafia nunca me levantara dúvidas surgem-me agora de forma mais nebulosa e exigem que eu as confirme no dicionário. Esta imprecisão ortográfica é, no entanto, contrabalançada por um maior domínio da densidade semântica da língua. Envelhecer tem os seus aspectos positivos. Valha-nos isso. Enfim, peço desculpa a quem deu pela troca do pretérito imperfeito do conjuntivo pelo presente do indicativo conjugado na forma reflexa. Será que é assim que ainda se diz?

Fábrica de ideias


Ler no Portugal dos Pequeninos um excelente exemplo da irrelevância que vai na cabeça dos nossos legisladores. Mas, caro leitor, não se ria. Por detrás daquelas palavras aparentemente sem senso esconde-se um pesadelo burocrático e uma visão directa do inferno. Há duas coisas que seria bom que toda gente percebesse. Primeira, os inovadores não fazem barulho com a inovação, limitam-se a fazer o seu trabalho o melhor possível. Segunda, quando vemos legislar sobre inovação podemos estar certos que os legisladores seriam incapazes de inovar o que quer que seja.

A inovação tornou-se, em Portugal, uma doença da linguagem. Inovadores e criadores não se produzem segundo decreto-lei, nem se regulam. Aliás, inovar e criar implicam mesmo desregulação, pensar contra, infringir o que está dado. Mas a imaginação de certos sectores da nossa sociedade é tão estapafúrdia que acha dever regular o irregulável. Só fala em fábrica de ideias quem nunca teve uma única ideia na cabeça, ou então alguém como aquele estudante universitário que vai discutir um trabalho com o professor, e ouve deste que o trabalho apresenta ideias boas e originais. O único problema é que as ideias boas não são originais e as originais são péssimas.

31/05/09

Metamorfoses XXIV

Josep Navarro Vives - París (1991)

vacilam as casas sob o império do medo
e em cada desvão há uma noite
que pinta o destino de luz
ou abre uma rosa em segredo

não tenho promessas a cumprir
nem espero o consolo da esperança
se o terror pela rua vier
que traga o cutelo afiado
e quando o fruto cair
com um baque surdo pelo chão
deixem-me vivos os olhos
para que possam ver
a dor que me doer então

dormem perdidos os perdidos
cansados de esperar o que vem
não sabem que é em segredo
que a morte chega
para partir com alguém

Mozart: Don Giovanni- Mi Tradi Contest- Waltraud Meier

Ir para casa

Em entrevista ao Correio da Manhã, Vasco Pulido Valente diz: "Se estivesse no lugar de Sócrates, ia para casa." É evidente que VPV não está, e que José Sócrates não é VPV. Mas ir para casa nem era coisa inédita na família socialista. António Guterres foi para casa porque o país estava a cair num pântano. Mas Guterres tem a desculpa de nunca ter obtido uma maioria absoluta. Sócrates teve o mérito de a alcançar, mas com ela apenas conseguiu que país mergulhasse definitivamente no pântano que Guterres queria evitar. Com Sócrates o problema não é cair no pântano, mas o facto de Portugal se ter tornado um imenso pantanal.

O mistério Daniel Sampaio

Daniel Sampaio dá ao seu artigo de hoje, no Público, o título O mistério da sala de aula. Faz um bom retrato, mostra mesmo aquilo que é necessário, mas quando passa a concretizar as suas propostas dá-nos, mais uma vez, uma perspectiva que o aproxima do mais radical eduquês. Para mim, é um mistério que Daniel Sampaio não perceba que aquilo que defende é uma das causas fundamentais do mal que se propõe combater. Nem sempre o descentramento de quem está de fora é o melhor caminho para perceber a realidade.

Por exemplo, Daniel Sampaio diz: "Nesta perspectiva, há muito que defendo que a "ordem" na sala de aula, o "portar-se bem" de que falam os professores, resultam muito mais se forem elaborados pelo conjunto e aceites pelo grupo, do que impostos por um regulamento não participado e elaborado em gabinetes." Isto é muito bonito, mas em geral não funciona. É preciso uma ordem e uma autoridade prévias, que se façam reconhecer por todos, antes que se possa estabelecer acordos tácitos entre professores e alunos. A autoridade não nasce do contrato. Pelo contrário, o contrato nasce da autoridade e é sancionado por esta. Eu sei que sou suspeito, pois não sou propriamente um crente nas doutrinas contratualistas que a modernidade ficcionalizou para justificar a existência da autoridade política. Então, quando essas doutrinas são aplicadas à escola, numa relação entre adultos e não adultos, o desastre é a única coisa que poderemos esperar.

30/05/09

Metamorfoses XXIII

Felix de la Concha - Parada en la 1 Street - STOP Ahead (1996)

naqueles passeios que orlam as ruas
imagino gente que passa apressada
sem pensar na ignorância do futuro
que as espreita do fundo da estrada

vão breves nesse seu não saber
e cantam a esperança dos sonhos
como se um sonho fosse mais
do que um devaneio a esquecer

melhor que entrassem num bar
e ficassem o dia inteiro a beber
e cansados da vida ou do álcool
esperassem a noite para morrer

Gustav Mahler, Waltraud Meier - Ich bin der Welt abhanden gekommen

Uma sombra negra


Como sempre tornei público não sou cavaquista, nunca votei em Cavaco Silva e já disse coisas politicamente pouco agradáveis sobre ele. Sinto, porém, um enorme nojo pela campanha, uma campanha feita de forma insidiosa, que parece estar a fazer-se contra a sua honradez, aproveitando o caso BPN. Se politicamente não partilho dos pontos de vista do Presidente, se inclusive não o acho com uma visão do mundo suficientemente alargada para a função que desempenha, nunca me passou pela cabeça pôr em causa a dignidade e a honradez da primera figura do Estado. Cavaco Silva representa uma coisa muita desagradável para certos sectores políticos: é um homem honrado e com um currículo limpo, sem rabos de palha que o misturem na ganga que hoje parece ter tomado conta desses sectores . No fundo, há uma mensagem que está a ser passada subliminarmente: é tudo a mesma coisa, nem o Presidente é diferente, portanto, como todos são pecadores... Isso não é verdade. Mas quem ganha com esta tentativa de denegrir a imagem de Cavaco Silva? Portugal está a tornar-se um sítio muito perigoso, demasiado perigoso, um sítio onde a democracia corre riscos muito grandes, apesar de, em aparência, funcionar. O medo instala-se em muitos sectores da população e parece que há agentes políticos que não olham a meios para alcançarem fins. Um maquiavelismo saloio, aprendido nas universidades ou em alguma "jota" partidária, está a corroer a vida democrática. Uma sombra negra começa a cobrir Portugal.

Uma entrevista a não perder


No Público on-line, está uma interessante entrevista com o filósofo José Gil. Uma reflexão sobre o homem-avaliado. Apesar da entrevista não estar editada (parece que a jornalista publicou a transcrição das palavras que gravou, sem trabalhar o texto), merece ser lida. Há uma boa reflexão sobre o homem-avaliado, onde Gil mostra como a avaliação tem por finalidade matar a criatividade. Há também uma boa análise sobre a educação. Por fim, há uma curiosa reflexão sobe o chico-espertismo e como certas atitudes psíquicas dos chefes podem transformar-se em comportamentos socialmente patológicos. A entrevista de um universitário desiludido do socratismo.

Manifestação de professores

Hoje uma nova manifestação de professores. Estão na rua dezenas de milhares de professores. Mas, nesta altura do campeonato, tudo isso pode ter pouco relevo. A esperança de algum bom senso no sector só chegará se, nas próximas eleições, o Partido Socialista perder a maioria absoluta. Caso contrário, caso os portugueses ofereçam a Sócrates uma nova maioria absoluta, os professores bem podem desesperar. O inferno burocrático cairá inexoravelmente em cima deles até que a profissão esteja completa e totalmente irreconhecível. Parece faltar pouco, mas é melhor que os professores comecem a perceber o que os espera com nova vitória socialista. Não vai ser nada de suave, podem crer.

29/05/09

Beethoven - Fidelio - Waltraud Meier

Talvez esteja a ficar velho

Teens: Oral Sex and Casual Prostitution No Biggie (abc NEWS). Eu não sou propriamente moralista, mas não se terá já ultrapassado um limiar que não se deveria ter franqueado? Ou então sou eu que estou a envelhecer demasiado depressa e já não acompanho o ritmo de modernização das nossas sociedades ocidentais. Há qualquer coisa, e não é a economia, que não está a funcionar. Mas isso sou eu a achar.

Sondagens caminham para a normalidade

Com a aproximação das eleições europeias, as sondagens começam a tornar-se mais fiáveis e a acordar-se com o expectável. Nesta última sondagem, o PS chega aos 35,5%, o PSD aos 32,5%. Uma distância normal para o actual quadro político. Normal é também o PCP reaparecer como terceira força política (9,2%), mesmo à frente do BE (8,8%). Nunca me pareceu que o Bloco tivesse élan suficiente para ultrapassar o PCP. O eleitorado comunista é muito mais fixo do que o volátil eleitorado do BE. Também sempre me custou a crer no anunciado desaparecimento do CDS-PP. Os actuais 6,5% são muito mais realistas do que anteriores sondagens que apontavam para a casa dos 2%. Enfim, caminhamos para a insuportável normalidade.

A roubalheira

Vou ser sincero: nunca simpatizei com o dr. Vital Moreira. Não é da agora. O facto de ele ser um dos poucos apoiantes da ministra da Educação e um dos defensores do conceito totalitário de escola a tempo inteiro também não contribuiu para que eu mudasse de opinião. Mas apesar do enviesamento que a minha subjectividade pode impor ao que penso, julgo que qualquer um reconhece que o professor de Coimbra não tem jeito para a política. Tem uma voz desagradável e diz muitas vezes coisas que estão de acordo com o timbre da sua voz. O dr. Vital Moreira é um catedrático respeitadíssimo, tem uma carreira académica exemplar, por que razão terá ele necessidade de descer a este tipo de confrontos? Aquela história da roubalheira no BPN e a deselegância da referência, mesmo que indirecta, ao PSD são coisas desagradáveis. A palavra roubalheira faz lembrar a análise política do Zé Manel, aquele taxista adepto do glorioso SLB. A referência ao PSD faz-nos logo pensar se o PS não terá telhados de vidro. Nestas coisas, cautelas e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém.

Jornal Torrejano, 29 de Maio de 2009


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28/05/09

Metamorfoses XXII

Jane Millares Sall - Paisajes urbanos (1987)

estão podres as maçãs
e a poeira acumulou-se na biblioteca
um cristo cansado olha-me da desolação da cruz
e todo o seu silêncio embaraçado
parece a longa confissão de quem perdeu a luz

os adolescentes adolescem lá fora
e carregam nas hormonas a dor que deus lhes deu
gritam correm berram silvam
pois o corpo pesa-lhes na leveza do vazio
a que dantes chamavam alma e agora cio

vou deixar as sombras flutuar
e contar as mãos não vá ter perdido alguma
agarro uma velha camisa esburacada
onde esboço para deus o itinerário
e descubro uma ponte há muito cortada

Richard Wagner - Tristan und Isolde (Liebestod) - Waltraud Meier

A perturbação do meretíssimo

O juiz do caso da "menina russa" diz-se perturbado com a situação. Muito bem, mostra que é um ser humano e que possui as mesmas emoções que todos nós. Mas para além de ser humano, o meretíssimo é juiz e juiz conselheiro, julgo. Por muitas emoções que as consequências da sua sentença agora lhe produzam, a Justiça em Portugal ficaria melhor servida se ele se tivesse pura e simplesmente remetido ao silêncio. Dos juízes não esperamos emoções, mas sentenças justas. É para isso que são pagos. As emoções devem ser deixadas para as telenovelas e os carnavais televisivos, ou então para os treinadores de futebol.
Adenda: O José Trincão Marques, do Terra Nossa, chamou-me a atenção, e com toda a razão, para o facto de estarmos na presença de um juiz-desembargador e não de um juiz-conselheiro.

O esquecimento da Europa


Os presidentes da CIP e da AIP acusam candidatos de não discutir a Europa na presente campanha. Não se pense, porém, que esta opinião vem apenas dos sectores empresariais. Da esquerda, a voz insuspeita de Manuel Alegre diz o mesmo. Na verdade, nós nunca nos sentimos lá muito europeus. O devaneio colonial flectiu o nosso olhar e inclinou-nos para o mar. Quando o tempo colonial terminou, a Europa foi a solução de continuidade para a nossa vida política. Passado o entusiasmo inicial e os milhões que permitiram "modernizar" o país e enriquecer alguns sectores mais ousados, ou com menos escrúpulos, o incómodo com a Europa lá voltou. Os candidatos não discutem coisas que acham ociosas e a Europa talvez surja aos olhos de muitos portugueses como assunto ocioso. Os candidatos preocupam-se antes em discutir a mercearia nacional, cuidando que isso lhes traga mais votos e de votos é que eles vivem.

Afinal também perdeu a opinião pública

Em 2006, a ministra da Educação atribuiu o elevado insucesso escolar e a pouca qualificação dos alunos ao trabalho dos professores e ao funcionamento das escolas. Foi o ponto alto da escalada do ME contra os seus próprios professores. Pouco tempo depois, Maria de Lurdes Rodrigues, sem qualquer resquício de vergonha ou sinal de arrependimento, proclama que "admito que perdi os professores mas ganhei a opinião pública". Só esta afirmação seria suficiente, numa democracia minimamente exigente, para demitir a senhora. O curioso, porém, é que além de perder radicalmente os professores, a senhora enganou-se sobre a opinião pública. Segundo uma sondagem da Visão desta semana, os principais responsáveis pelo que vai mal na educação são os governantes e o Ministério da Educação, logo seguidos pelos alunos que, segundo a opinião pública, não querem estudar. Os professores, segundo a mesma sondagem, são os menos responsáveis pelo caos em que a educação caiu em Portugal.

Por muito estranho que possa parecer ao iluminismo niilista do Ministério da Educação, há uma profunda sintonia entre a experiência dos professores e a voz do povo. Os principais responsáveis pelo desastre educativo são os governantes, com as suas ideias delirantes, os seus preconceitos pseudo-científicos, o seu desconhecimento da realidade escolar, da realidade portuguesa e da humanidade em geral. A escola portuguesa é o fruto de abstracções produzidas por gente abstracta que vive nas nuvens. Eu até posso admitir que esta gente faz o que faz com boa-fé. Mas se quisessem agir de má-fé, visando destruir o sistema e prejudicar os alunos, não agiriam de outra maneira. A opinião pública, apesar das campanha de intoxicação do aparelho socialista, percebe bem o que se está a passar.

27/05/09

Metamorfoses XXI

Bill Jacklin - Pacific Place Looking West, Hong Kong (1994)

há em mim uma recordação de lepra nas cidades
as pústulas que cobrem o asfalto e saltam para casa
o barulho da sineta que me bate no peito
e anuncia ao mundo o perigo de contágio

nesses dias eu somava sobre o mapa impérios
e desenhava a estratégia dos exércitos
em grandes folhas brancas onde poisavam moscas –
logo morriam sob o ímpeto desta mão

não havia êxtases nem relâmpagos pelos céus
apenas o desconsolo da vida que corre
a doença que toma conta de cada casa
e escava os alicerces até que tudo na noite grite

assim crescia a lepra nos ombros da cidade
onde me sentava pelo chão à tua espera
ignorando de onde vinhas pois a rosa-dos-ventos
secara quando a noite morreu na madrugada

Michel Camilo y Tomatito - Bésame Mucho (1999)

A irracionalidade da razão

Vi há pouco, na SIC, um programa sobre o estado da justiça em Portugal. Talvez porque esteja demasiado sensível ao assunto, mas o que mais me sensibilizou foi a intervenção de um juiz que lamentava não poder proferir sentenças como o fazem os seus colegas anglo-saxónicos. Uma sentença que lá ocupa duas páginas, cá precisa de centenas. Portugal vive uma paranóia burocrática. Conheço-a muito bem a partir da profissão de professor. A escola portuguesa é irmã gémea dos tribunais portugueses: papéis, papéis, papéis. Isto tem um divertido efeito perverso. Burocracia designa, segundo Max Weber, a organização racional do Estado. Mas em Portugal a burocracia é sinónimo da irracionalidade que se apossou das instituições e da própria sociedade. Decididamente, nós portugueses não temos jeito para a racionalidade. Quando nos pomos a organizar racionalmente seja o que for, o que cresce é a irracionalidade, a paranóia e o devaneio burocráticos. Ao menos, poderíamos ser irracionais sem papéis. Estes, porém, são necessários para nos podermos convencer, erradamente, que somos racionais. Não somos.

A menina russa

A mais recente telenovela jurídica, a da menina russa, teve um importante desenvolvimento político. Os ditos pais afectivos preparavam-se para um episódio em solo russo, a convite de uma televisão russa, as televisões adoram telenovelas. A embaixada russa, certamente por não gostar de telenovelas, não deu o visto de entrada ao pobre casal português. Dir-se-á que é uma atitude pouco democrática das autoridades russas, ainda por cima essa coisa de nacionalismo já não se usa. Mas talvez valha a pena meditar se a atitude russa não representará o futuro das relações internacionais, sem as ilusões bonançosas ocidentais.

26/05/09

Metamorfoses XX

Ken Howard - Morning light, Yemen (1997)

range a mesa onde escrevo
e tudo treme na impetuosa noite
este sonho persegue-me há tantos anos
que dele fiz a minha morada
sem paredes brancas nem trepadeiras nas janelas
casa citadina coberta de fuligem
e do ronco obsceno dos carros na madrugada

o coração bate ao som dos cães vadios
e se em mim ainda ladram recordações
é porque deixei de tomar os medicamentos
o esquecimento foi decrescendo
até a memória se tornar um mar bravio –
inunda as areias escava as arribas
apita-me no sonho como uma sirene portuária

pudesse empacotá-la na dialéctica de hegel
ou converter-me à filosofia analítica
talvez os testículos me doessem menos
e a minha mão deixasse de sangrar
nas tardes onde me sento à janela
para ver passar o rio do esquecimento
na memória que não posso matar

Knabenchor Hannover - Schütz - Opus ultimum

Bode expiatório

O dr. Oliveira e Costa foi ao parlamento falar. Aquilo que ele disse mostra, pelo menos, uma coisa: onde chegou a democracia portuguesa sob a regência do bloco central. Azar o dele, Oliveira e Costa, que está preso. Parece, no entanto, um bode expiatório, uma espécie de cristo que está a ser sacrificado para salvar, talvez mesmo redimir, outros (quantos outros?) que o deveriam acompanhar. A vida é dura.

O período do Terror

Nada melhor para elevar o nível das campanhas eleitorais do que a existência de candidatos cultos. Parece que o professor Vital Moreira, candidato do PS ao parlamento europeu, embevecido com a Ministra da Educação e fiel ao seu passado revolucionário, entoa loas à revolução que vai pela educação. Sei, por exemplo, que o professor de Coimbra adora o conceito de escola a tempo inteiro, conceito absolutamente totalitário e de acordo com os ideais que ele partilhou na sua juventude, e aos quais parece não ter renegado por completo. Mas culto mesmo e dotado de espírito é o candidato Rangel, do PSD. Se Vital acha que estamos a viver uma revolução na educação, então a fase que atravessamos é a do Terror. Engana-se, porém, numa coisa: o Terror não dura apenas há ano e meio. Dura já há quatro longos anos e, curiosamente, começou a ser meticulosamente preparado pela burocracia ministerial no tempo do ministro Roberto Carneiro, quando nos governava o PSD e o professor Cavaco. Cultos, sim, mas de memória curta.

25/05/09

Metamorfoses XIX

John Yardley - Mopeds in the colonnade (sd)

cansei-me de ser culto
e de todos os livros que já li
melhor fora que tivesse gasto a vida
pela areia da praia
ou de cabelo ao vento
personagem de anúncio
de um produto primaveril

melhor fora que não soubesse ler
e ficasse tarde fora a remoer o almoço
ou então perdido num café de aldeia
ouvisse os loucos da minha infância
e com eles aprendesse de cor
a sabedoria da sua loucura

quero lá saber de ideias e de imperativos
rio-me se oiço falar de teorias
acendo o farol para os barcos não naufragarem
e vestido entro no mar
para os peixes não me reconhecerem

sento-me e ponho os pés sobre a mesa
e se vejo um livro que se ateia
logo estremeço
pois já me oiço ressonar

Assanhado - Jacob do Bandolim

Roubo de provas judiciais

Não, não caro leitor, este blogue não se tornou um lugar de reflexão sobre assuntos judiciais. Mas haverá cidadão comum que não ande preocupado com o estado da instituição? Para além da fragilidade que o aparelho de justiça, devido à acção de alguns dos seus agentes, tem dado mostras, agora até a fragilidade física o atingiu: provas judiciais roubadas de um edifício do Ministério da Justiça. Se nem as provas judiciais estão guardadas convenientemente, o que se poderá pensar do resto. A continuar assim, não restará, dentro em breve, pedra sobre pedra no edifício judicial português.

Evolução na descontinuidade...

Quarenta anos de reforma educativa chegaram aqui. Em França, como em Portugal. Este cartoon explica à evidência o que ninguém quer ver: o que significa introduzir os pais na escola. Contrariamente ao que prometia Marcelo Caetano, durante a sua primavera política, por sinal em 1969, na educação não houve evolução na continuidade. A descontinuidade foi tão radical que tudo na escola se inverteu. Em Portugal, o desastre começou mesmo com Marcelo Caetano.

24/05/09

Metamorfoses XVIII

Virginia Lasheras - Entrada al laberinto (1987)

sob o jugo das paredes caminha o herói
traceja linhas e chama-lhes esperança
mas tudo no corpo o trai
as vísceras revolteiam enfadadas
pois o cheiro a decomposição
vem fazê-lo mergulhar num mar de asco
como se a terra não fosse mais
do que aquele labirinto sulfuroso
a metáfora moribunda do inferno

os músculos desagregam-se com lentidão
mas cada passo é mais incerto
e a coragem que enchia o peito
joga-a agora o vento pelo chão

não se lembra das terras sombrias
nem da enseada onde a mãe o gerou
caminha quase parado
e desespera dentro da couraça de ferro
não há deus que por ele venha
nem porta que para a luz se abra

tão imenso caminha o herói
e não sabe ainda o desenlace fatal
a cada volta do labirinto enegrece o destino
e quando a besta horrível cai
é a sua pele que vê rasgada
e o grito animal que pelo mundo ecoa
é apenas o seu próprio ponto final

Fisher-Dieskau/ Richter - Schubert Lieder - 1: Am Fenster

Humanização do trabalho


Bento XVI defendeu hoje, em Cassino, Itália, a humanização do trabalho. Humanizar o trabalho não sei se será uma boa ideia. Sob o conceito de humano pode esconder-se tanta coisa que até o Arbeit macht frei (o trabalho liberta), que os nazis colocavam à entrada dos campos de concentração, lá cabe. Talvez recuar a Kant e pensar em tratar os trabalhadores como pessoas, isto é, sujeitos racionais para com os quais as entidades empregadoras têm o dever de os tratar enquanto tais, isto é, enquanto fins em si mesmos e não meras mercadorias ou simples coisas. Mas não basta a moralidade. É necessário que a lei, isto é, o direito positivo, se acorde com estes princípios morais. A dignidade do trabalhador não é apenas um problema moral, é também um problema jurídico-político.

Na nossa sociedade tem-se assistido, nas últimas décadas, a um esforço de promoção de direitos (das crianças, das mulheres, dos homossexuais e até dos animais, como se estes pudessem reivindicar direitos), ao mesmo tempo que os direitos concretos de quem trabalha (homens, mulheres, homossexuais, heterossexuais) têm sofrido várias revisões tendentes a eliminá-los.

Bento XVI é uma figura bem curiosa e rica. É o homem que, enquanto prefeito para a Congregação da Doutrina da Fé, mandou calar os teólogos da libertação (promotores de uma espécie de marxização do cristianismo na América Latina), dialogou, enquanto intelectual, com Jürgen Habermas, filósofo da escola de Frankfurt, onde a presença de Marx é indiscutível. Talvez ele seja o Papa indicado para abrir a doutrina social da Igreja aos contributos de correntes filosóficas ateias ou agnósticas, como o kantismo, o marxismo e as suas revisões contemporâneas, mas que pensaram e pensam a situação concreta do homem no mundo. Poderia assim a Igreja contribuir para a necessária revisão da forma como a condição do trabalhador é politicamente vista nas sociedades contemporâneas e fazer parte daqueles que querem obviar à tendência existente para eliminar os direitos dos trabalhadores.

Contas da bola

Se as dívidas dos clubes de futebol são assim em Espanha, imagine-se como serão, com a devida proporção, em Portugal. E se a falta de controlo da Liga Espanhola é aquela que é referida, como será no nosso país? Às vezes, acho que o mundo dos negócios e o mundo da bola não fazem lá um casamento muito razoável.

Não basta ser


Definitivamente, a Justiça não tem caminho. A degradação que atingiu a educação é enorme, mas aquela que inundou a Justiça não lhe fica atrás, pelo contrário. A propósito do julgamento do processo Apito Dourado, a opinião pública é brindada com mais umas achas para a fogueira da falta de credibilidade da instituição. Desde as suspeitas do procurador até à linguagem que usa (ver Jornal de Notícias), tudo indicia um doença crónica e prolongada. Há uma coisa que os senhores procuradores e os senhores juízes não conseguem já evitar: ninguém acredita que a Justiça seja independente dos interesses políticos e dos interesses futebolísticos. Pode ser mentira, mas à mulher de César não basta ser honrada, é preciso parecer.

23/05/09

Metamorfoses XVII

François Legrand - La puerta (sd)

desta porta avista-se um traço de rancor
as janelas abertas sobre a paliçada do medo
os vidros partidos pela inclemência da música
e a calvície que tomou conta das casas

não vale a pena olhar para os astros
e saber se a conjugação dos planetas era favorável
o barco foi aparelhado e já voga mar dentro
sem marujos de papel ou capitão que o dirija

mandei derreter a bússola para poder cantar
os últimos mapas entreguei-os num bar
em troca de vinho e da ternura de uma puta
que me aquecesse por instantes o coração

por isso já nada quero saber da história
mesmo quando a cerveja me tolda a cabeça
queimo extático cada um destes livros
para ver a carícia do fogo no papel a arder

depois em descuido sopro para o chão a cinza
e espero que me insultem ao virar da esquina
sempre queimei três mil anos de labor humano
ao menos podia usar o papel para limpar o cu

Carlos Paredes - Coimbra e o Mondego

Belenenses ao fundo

O Belenenses é o meu segundo clube, depois do Benfica. Agora caiu, mais uma vez, na Liga de Honra, se é que uma liga secundária se pode chamar de honra. É pena, o Belenenses faz parte da história do futebol português e a liga principal sem ele fica mais pobre. Mas o Belenenses é um exemplo de como um clube grande (eu sou do tempo em que o Belenenses era considerado um dos quatro grandes) se pode tornar pequeno, até no número de simpatizantes. Espero que volte depressa. O Benfica deveria meditar nisto.

Os advogados e o Zeitgeist



Por que será que ao lermos isto, mais isto, mais isto e ainda isto ficamos com a nítida sensação, mais uma vez, de que Justiça, em Portugal, não passa de uma mixordice inqualificável? Na luta que atravessa e parte a Ordem dos Advogados, por mais explicações marxianas que se possam adiantar, ficamos com a sensação de que todos têm razão. Em quê? No mal que cada protagonista diz dos outros. Já nem os advogados são como antigamente... Parece que também eles entraram num reality show. Pelo menos, têm a vantagem de se terem adaptado ao Zeitgeist.