23/05/09

A simples mercadoria

Karl Marx

A mais baixa e a única categoria necessária de salários é aquela que provê à subsistência do trabalhador durante o trabalho e a um suplemento adequado para criar a família a fim de que a raça dos trabalhadores não se extinga. Segundo Smith, o salário normal é o mais baixo que for compatível com a simples humanidade, isto é, com uma existência bestial.

A procura de homens regula necessariamente a produção de homens como de qualquer outra mercadoria. Se a oferta excede por muito a procura, então parte dos trabalhadores cai na penúria ou na fome. Assim, a existência do trabalhador encontra-se reduzida às mesmas condições que a existência de qualquer outra mercadoria. O trabalhador tornou-se urna mercadoria e terá muita sorte se puder encontrar um comprador. E a procura, de que depende a vida do trabalhador, é determinada pelo capricho dos ricos e dos capitalistas.
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Este texto retirado dos Manuscritos Económico-Filosóficos, de Marx, revela o fundamento ético que estruturou todo o pensamento posterior do autor. Há aqui toda uma influência subterrânea da moral idealista de Kant que convém tornar clara. O que Marx compreende muito bem é que o ser humano, na figura de trabalhador, fica reduzido à categoria de mercadoria. Como se sabe, as mercadorias são coisas que se compram e se vendem, são coisas que se trocam. Uma mercadoria não tem um valor absoluto em si mesma, ela é apenas um meio para atingir outros fins. Ora Marx percebe então que a humanidade do trabalhador, em regime capitalista, significa apenas que ele não passa de uma mera coisa, um simples meio para que outros atinjam os seus fins.

Mas o que tem isto a ver com a moral kantiana? Em primeiro lugar, porque Kant considera os seres racionais como pessoas e as pessoas, por serem dotadas de razão, são fins em si mesmas e não meras coisas. Em segundo lugar, devido à fórmula do imperativo categórico que manda respeitar a humanidade tanto na minha pessoa como na pessoa de qualquer outro sempre e simultaneamente como um fim em si mesma e nunca apenas como um simples meio.

Quem deslegitimou moralmente a situação do trabalhador no mundo liberal não foi Marx, mas a moral kantiana. A lógica do mundo capitalista assenta, como depois Marx bem viu, na transformação do trabalhador em mera coisa, numa mera mercadoria. Para quem se tenha esquecido disto, basta observar o que se tem passado nas relações laborais durante estes últimos 20 anos.

Pode dizer-se que, no remédio marxista para o problema, foi pior a emenda do que o soneto. É verdade, mas isso não permite extrair a conclusão de que o problema não existe. O comunismo foi uma péssima solução para um problema real. Discute-se muito as relações laborais, a eficiência da economia, a liberdade de contratação. O problema moral, porém, continua: será legítimo tratar seres humanos como meras coisas, isto é, como simples mercadoria? Um dos problemas que a esquerda política, aquela que não se converteu à ideologia do homem como mera coisa ou mercadoria, é a necessidade de ultrapassar a sombra sob a qual ainda vive: um desejo claro ou recalcado da utopia, ou distopia, comunista. Há um problema moral no estatuto dos homens enquanto trabalhadores. Isto merece pensamento e merece novas formas de acção e representação políticas. Uma sociedade que vive dependente desse estatuto, o qual reduz a humanidade de parte substancial dos homens à situação de mercadoria, é uma sociedade imoral.

Afinal não era só a esquerda...


Afinal não era só a esquerda que ameaçava matar pessoas, durante o período quente da revolução do 25 de Abril. Quando, por vezes, se ouvem certos sectores políticos mais extremados, ou às vezes mesmo alguns sectores moderados, à direita, pensa-se que só a esquerda fez ameaças, como o célebre dito do chefe do COPCON que proclamava a necessidade de pôr a reacção (quantas pessoas com menos de 40 anos saberão o que significa esta palavra?) no Campo Pequeno. Segundo o Expresso de hoje, o MDLP (Movimento Democrático de Libertação de Portugal, organização de extrema-direita) condenou à morte o tenente-coronel Melo Antunes, o moderado ideólogo da transição à democracia em Portugal. Aquilo que se pergunta de imediato é se Melo Antunes teve a honra de ser condenado à morte pelo MDLP, quantos mais portugueses esse movimento não deve ter condenado à mesma pena capital? O que vale é que não somos muito dispostos para a acção, e a transição à democracia, apesar do folclore de 74 e de 75 e um certo ajuste de contas com o passado, lá decorreu mais ou menos bem e, apesar de alguns assassinatos políticos, sem rios de sangue.

22/05/09

Metamorfoses XVI

Angél Orcajo - La complicidad del arte (1992)

tudo se desvanece nesta hora de cinza
a mão que estendias e as grandes palavras
– um dia deram-mas como se fossem um deus
ou colírio contra a indigestão talvez o mau-olhado –
e também a esperança de um crepúsculo
ou de uma manhã pintada de glória
num daqueles mausoléus onde dormem os pardais

foi assim que eu pensei a cadência das estrofes
enquanto meditava no calor e cuspia para o chão
esperando que o polícia me prendesse
e se tornasse pública a minha irrisão
eu rei de todas as sarjetas e buda da estrumeira
declaro a minha santidade nos cantos de cada prédio
ou na espiral de vento que me arrasta o cérebro

já nem postos de gasolina há pela cidade
onde comprar combustível para incendiar roma
ou aquecer-me nas noites invernosas a vir
fosse eu o anjo da história e ter-me-ia suicidado
para que os homens cantassem o sossego das horas
mas deus riu-se do desejo e aliviou-me da cruz
para que morra ao rebolar-me inerte pelas lixeiras

Kenny Garrett in Paris with Miles Davis

Que saudades...


Ao tempo que não falava deste símbolo do regime. Que saudades... Também é verdade que a senhora ministra da Educação tem andado calada. Mas agora, não sei por que razão, a senhora decidiu oferecer-nos alguns dos seus pensamentos.

Por exemplo, vem dizer-nos que a avaliação de professores é uma reforma ganha. Eu estou de acordo com a senhora ministra. O ME soube recuar naquilo que era para ele acessório (a qualidade do ensino e o aproveitamento real dos alunos) e manter o essencial (avaliar os professores pelo trivial: a relação com a escola, a relação com a comunidade, etc.). A senhora ministra tem razão. Este tipo de avaliação está em vigor e será este modelo que irá permanecer no futuro, com mais ou menos negociações com os sindicatos, com mais ou menos alterações. O essencial pretendido pelo ME está alcançado. A escola será mais trivial e o ensino será pior. A avaliação de professores encarregar-se-á de que isso aconteça. Em termos futebolísticos, poderemos dizer: ME 1 - Ensino em Portugal 0.

A senhora ministra também veio dizer que, apesar dos muitos percalços, a distribuição a esmo dos Magalhães foi uma boa medida. Mais uma vez, não esclareceu para quem? Para o ensino em Portugal? Para a cultura cívica e a formação de homens livres? Para a propaganda do Partido Socialista? Como já estamos a descobrir, a distribuição de Magalhães vai ter um efeito idêntico a certos fundos europeus que foram distribuídos pela formação profissional. Essa excelente medida também teve resultados brilhantemente a tender para o zero absoluto. Resultado final: ME (e da propaganda) 2 - Ensino em Portugal 0.

Jornal Torrejano, 22 de Maio de 2009


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21/05/09

Metamorfoses XV

Irma Morassi - Invierno en Venecia (1987)

não me lembrava que em veneza havia
um inverno branco a cantar sobre o regaço
de quem perdido entre carros adormecidos
caminha deserdado para o anoitecer

nessa terra não há frutos maduros
nem uma praia marejada por canaviais
o último construtor de herbários
retirou-se exausto para longe do mar

que deuses do prazer invocaremos agora
se as portas dos bares estão fechadas
e nos hotéis restam apenas alguns hóspedes
presos à caligrafia de um sonho derradeiro

sonâmbulo rastejo entre semáforos
e entrego a pele febril ao nevão do dia
não espero nem lua nem sol
nem que respondas à minha pergunta

pudesse ser uma âncora sobre a terra
ou um vómito azedo ao crepúsculo
pudesse ter uma gota de sangue nas veias
ou um punho decepado pela noite

Bodhisattva in metro

Morte e falecimento


Confirmei, mais uma vez e a propósito de João Bénard da Costa, que em Portugal ninguém morre. No nosso país, falece-se bastante, mas nunca se morre verdadeiramente. Confesso, como se estivesse num confessionário, que cometo um pecado social grave, quem sabe se mortal, pois nunca utilizo as palavras falecer, falecimento, etc. Tenho uma dificuldade intrínseca com elas. Para mim o meu pai não faleceu. Morreu de morte pura e dura. Custa? Custa, mas é assim.

Interrogo-me sobre tanto falecimento e nenhuma morte. E descubro, também aí, mais uma vez aquele característico traço de ser português: enganar a realidade. Quando as pessoas dizem faleceu ou falecimento fazem-no para tornar menos irremediável o irremediável da morte. É como se dissessem: bem faleceu, coitado, mas ainda bem, não está morto, apenas falecido. É aqui que descubro o meu pecado mortal social. As pessoas fazem isto por uma questão de educação. Eu, nem por educação, consigo utilizar o faleceu.

Se eu digo morreu ou morte, digo a realidade do acontecimento. É definitivo, nas palavras morte e morrer nada mais se pensa do que no fim da vida. Mas não será isso que acontece também no falecer? Não! Falecer provém do verbo latino fallescere, que significa faltar. Faltar é já uma boa metáfora para o morrer. Afinal fulano não morreu, apenas faltou ao encontro. Mas no verbo latino fallescere pensa-se ainda outra coisa. Pensa-se o enganar, o induzir em erro, etc. Daí o termo latino fallacia (engano, ardil, etc). Os portugueses, ao substituir o verbo morrer pelo falecer, não estã apenas a dizer que o morto, i. é, o falecido, as enganou, mas que elas próprias estão a ver se enganam a morte, lhe diminuem o seu carácter definitivo, aligeiram as consequências, como se fosse possível instaurar um pacto com a rainha das trevas, para que tivesse, também ela, brandos costumes e os seus éditos fossem como as nossas leis: são para cumprir, mas logo se vê. Não consta, porém, que o coração da velha megera, por mais falecer, falecido e falecimento que os portugueses usem, tenha tido qualquer estremecimento de piedade.

Paisagem e despovoamento


Temos todos uma miríade de conhecidos. Desses, há alguns com quem falamos, trocamos opiniões, de quem, eventualmente, nos tornamos amigos para a vida ou para parte dela. Há outros conhecidos, porém, com quem nunca falámos, mas que fomos lendo, fomos sabendo deles através do que escrevem, do que pintam, do que compõem, ou por outro motivo qualquer. Conhecidos conhecidos e conhecidos desconhecidos fazem parte da nossa paisagem, compõem um médium que nos liga ao território. Dessa paisagem fazia parte João Bénard da Costa, a sua ligação ao cinema, as suas crónicas no Público. Agora já não faz. Ou talvez comece a fazer parte de outra paisagem, a da memória que se inscreve sobre o esquecimento.

Este tipo de acontecimentos, faz-me recordar o sub-título desse estranho romance de Carlos de Oliveira denominado Finisterra. O sub-título é o não menos estranho paisagem e povoamento, como se um romance fosse uma narrativa geográfica ou mesmo geofísica. Mas a experiência que, a partir de certa altura da vida, vamos tendo não é a de povoamento. Pelo contrário, a nossa paisagem despovoa-se, os conhecidos, incluindo aqueles com quem nunca falámos, abandonam-na e temos muita dificuldade de introduzir novos conhecidos na paisagem. Com o passar dos anos a paisagem vai-se tornando cada vez mais desértica até que, um dia, cansados de areia a deixamos também. [Aqui, uma pequena nota biográfica sobre João Bénard da Costa]

20/05/09

Metamorfoses XIV

Rita Rutkowski - Interior-exterior (1982)

foi assim que encerrei o ciclo das cores
deitado no chão e comendo a poeira
ou bebendo a água estagnada nas ruas

inventei um universo de vidro
e em todas as chagas fiz jorrar o álcool
para poder gritar enquanto olhava
a cidade carbonizada pelo esquecimento

nada sei do plástico destas cadeiras
nem da estrutura atómica da melancolia
caminho de mão estendida
mas o olhar nunca foca um horizonte

acumulei tanta sabedoria
para agora vir proclamar o esquecimento
entre pequenos incêndios que alastram
e uma precária paixão tardia

Chet Baker - Almost blue

A Igreja e o sexo

Agora é na Irlanda. A Igreja Católica está a braços com mais um escândalo sexual. Não seria altura da Igreja rever a sua moral sexual? É muito interessante discorrer contra o uso do preservativo, proscrever as relações sexuais antes do casamento, glorificar a virgindade e mais umas quantas regras do género sobre o sexo. Mas, depois, os armários da Igreja estão cheios de esqueletos. Os abusos que agora são relatados e todos os outros que se foram conhecendo e talvez muitos outros que nunca conheceremos não serão motivo suficiente para pôr em causa a moral sexual propagandeada pela Igreja? Entre a perversidade destes abusos e defesa perversa da abstinência sexual não haverá nenhuma ligação?

19/05/09

Metamorfoses XIII

Sofía Madrigal - Gruas (1998)

as gruas perdidas pela cidade
ó ruínas de um tempo que anoiteceu

houve um dia que os homens amaram
o ferro e o aço
e sonharam vulcões
onde construíram a eternidade
ao som de uma fanfarra de metal

mas o patíbulo chegou
e os corpos balançam agora
nus e hirtos
em gruas esquecidas
a entupir o trânsito
à hora de ponta matinal

não se fale mais em extinção
nem se pronuncie a palavra
que esquecemos

que os corpos baloicem
ao vento
e como cristo
os mortos aos mortos deixai

Flagstad and Melchior - Tristan and Isolde "Love Duet" (parte)

Remédio para a crise de vocações


Aqui está um remédio para a crise de vocações na Igreja Católica. Se as séries tipo CSI desencadeiam a procura, por parte dos jovens, de cursos de criminologia, também se poderá pensar que umas séries televisivas onde os sacerdotes fossem uma espécie de heróis na luta contra o mal poderia ajudar a repovoar os seminários. E, tendo em conta a idade da maioria dos padres e a falta que há deles, saída profissional, mesmo num período de crise religiosa, não faltaria. E não proteste o leitor pela analogia estabelecida entre as duas vocações, pois são insondáveis os caminhos do Senhor. Por outro lado, nem seria uma coisa particularmente inédita. Já Chesterton criou uma espécie de Sherlock Holmes de sotaina, o famoso padre Brown.

18/05/09

Metamorfoses XII

Francisca Muñoz y Manuel Herrera - Frankfurt (1982 - 1997)

não haverá colheitas este ano
as sementes lançadas à terra coalharam
e no lugar da vida cresceu uma cidade de cristal
aí os vagabundos encontram pela noite
camas de pedra onde dormem se chove

mas já não estamos em tempo de nostalgia
aqueles que aqui vivem apenas a cidade sabem
e o luar que vêem nunca os recorda
aquela lua amarela contra as trevas do céu
ou o rumor do vento na sombra das árvores

há uma vasta arquitectura grafitada em papel
um risco de saliva lembra a infância
onde a noite vinha sempre enfeitada de néon
e um barulho surdo era tudo o que havia
para oferecer à futura melancolia do passado

uma lâmpada ilumina assim o meu fracasso
e traz-me todo para esta cidade sem paisagem
os olhos encovados contam prédios desertos
e abandonado entre carros apodrecidos
faço o mapa vazio de cada lugar que perdi

Immanuel Kant Song

A magna questão de dizer obrigado


Li em diversos sítios a indignação de muitos professores por terem de dizer aos alunos, ao recolher as provas de aferição, "obrigado pela vossa colaboração". É nestas indignações sem sentido que a energia se esgota. Mas por que razão ou razões aquilo está no manual do aplicador das provas de aferição?

Em primeiro lugar, porque esses são os procedimentos internacionais adoptados neste tipo de prova. Por norma, é escolhida uma amostra de alunos e estes são voluntários. Ninguém pode ser obrigado, num país democrático, a participar num estudo. Mas não são estas provas obrigatórias? Aparentemente sim, mas o que acontece ao aluno que faltar? A resposta torna de imediato evidente que a realização das provas é obrigatória, mas...

Em segundo lugar, e em tendo em conta o que se disse antes, os alunos estão de facto a colaborar com o sistema e a sua avaliação, não estão a ser submetidos a nenhum dever para obter certificação escolar. O obrigado pela colaboração pode ser justificado por isso mesmo.

Em terceiro lugar, porque esse obrigado faz parte das regras de cortesia que deverão imperar nas relações em meio académico. Eu uso-o muitas vezes com os meus alunos, até como modelo do que deve ser o comportamento deles.

Não é útil para a causa do ensino em Portugal que os professores contestem este tipo de coisas. Por norma, essa contestação radica no desconhecimento do que está em causa. Útil seria concentrarem-se naquilo que é substantivo. Por exemplo, por que não avaliar efectivamente os alunos? Por que razão não se transformam estas provas em exames nacionais com incidência no percurso escolar dos alunos? Por que razão só a Língua Portuguesa e a Matemática são sujeitas a estas avaliações externas? Mesmo dentro do âmbito da realização da avaliação aferida, os professores deveriam questionar a avaliação aplicada a todo o universo, pois sabe-se que uma avaliação por amostra, além de ser infinitamente mais barata, fornece ao sistema os mesmos resultados gerais. Há questões tão essenciais que perder a face porque se tem de cumprir um norma de boa educação não me parece lá muito interessante.

17/05/09

Metamorfoses XI

Lisa Milroy - Finsbury Square (1995)

na esquadria da folha ou no rectângulo ao centro
na imagem que se tem da periferia
ou no sonho que se ergue pela noite
– diante de um espelho manchado pelo fumo –
descubro o meu cansaço de homem moderno
cheio de razões de papel e de quadrículas
onde inscrevo as rodas de carvão
que alumiam as mãos ensanguentadas

sou o mais moderno dos modernos
aquele que caiu para além de toda a modernidade
e sigo a velejar teorias ou a sulcar um mar de névoa
para descobrir o destino e nele nada encontrar
nem um deus nem um homem nem um pássaro
apenas casas de pedra de onde roubaram
o colmo que cobria como se fora um telhado
as pequenas histórias sem heróis nem vilões

que faziam do mundo a paisagem vazia
farta de progressos cansada de revoluções
apenas um amontoado de canas junto à estrada
dobradas pelo ar deslocado dos carros em fúria
enquanto nós sonâmbulos cantávamos
de esquina em esquina um cântico cruel
e abraçávamos fiéis as poucas putas
que deus como um sinal nos enviava

Benedictine monks of Ampleforth Abbey - Night Prayer

Provas de aferição


Vai pela blogosfera um grande banzé por causa daquilo que os professores devem dizer nas provas de aferição do 4.º e 6.º ano de escolaridades. Há instruções absolutamente padronizadas, que os professores devem seguir rigorosamente à letra, sem sequer as interpretar. Como é público e notório, eu não tenho qualquer tipo de simpatia pela equipa dirigente do Ministério de Educação, mas convém perceber o que se está a passar com o assunto em causa.

Em primeiro lugar, as provas de aferição não são exames, mas um estudo à escala nacional do desempenho do sistema educativo e das escolas que o compõem. Os professores também não são vigilantes de exames. São aplicadores de um instrumento de medida (os testes de Língua Portuguesa e de Matemática). Esta é a realidade teórica da coisa.

Em segundo lugar, não foi esta equipa ministerial nem o Ministério da Educação português que inventou este tipo de procedimentos padronizados e estereotipados. Eles são a regra dos estudos internacionais sobre os sistemas educativos. Existem, por exemplo, no PISA e nos Estudos Internacionais de Matemática e Ciência (lembro-me, até porque fiz parte das equipas de controlo da aplicação desse estudo, de Portugal ter participado no TIMSS - Third International Mathematics and Science Study). Estes procedimentos não têm natureza pedagógica mas "científica". Visam uma uniformização da aplicação dos testes, para evitar que condutas subjectivas dos aplicadores possam introduzir um enviesamento nos resultados. Neste caso, não há qualquer falta de consideração pelos professores, como vi escrito por aí. É uma medida epistemológica, digamos assim.

O principal problema é mesmo a existência destas provas. O sistema não precisa destes estudos (aliás, uma amostra relativamente pequena seria o suficiente para o sistema se avaliar), mas de um nível de exigência mais elevado. Esse só viria com a reintrodução de exames, nas várias disciplinas, nos finais de ciclo. Ora isso é o que nenhum político quer. Exames com consequências para o percurso escolar dos alunos implicam reprovações e a permanência de muitos alunos mais tempo dentro do sistema. Implicariam também a selecção dos percursos de formação. Ninguém está interessado nisso. Todos gostamos de fingir que as coisas vão o melhor possível. As provas de aferição são uma espécie de fait-divers para os alunos e, mais tarde ou mais cedo, servirão para avaliar os professores, dentro da lógica invertida que o actual ministério inventou.

O vate político

Acabou-se o suspense sobre o destino do vate político de Águeda. Deu em nada como era de esperar, pois Alegre não tinha nada para dar. Ser uma espécie de consciência ética de esquerda dentro do Partido Socialista é ser rigorosamente nada.

Eu continuo a acreditar que há uma diferença entre a esquerda e a direita, mas essa diferença precisa de ser pensada à luz dos acontecimentos das últimas décadas. Ora, como é público e notório, Manuel Alegre não pensa rigorosamente nada sobre o assunto e não tem nada a dizer sobre o mesmo. E, no entanto, há coisas a dizer e a fazer que o Partido Socialista, devido à sua deriva jacobina, nunca será capaz de o dizer e ainda menos de o fazer. Essas coisas também não serão ditas nem feitas pelo PCP e pelo BE, cujos imaginários são anti-liberais, anti-capitalistas e revolucionários. Manuel Alegre teria aí a sua janela de oportunidade, que agora fechou definitivamente para gáudio de Sócrates e do aparelho jacobino socialista.

Apesar de tudo isto, não deixo de simpatizar, enquanto pessoa e representante de um certo ethos cavalheiresco, com Manuel Alegre. O seu principal problema reside, porém, no facto de ele se portar na política como um vate e na poesia como um político. O que não é bom nem para o político nem para o poeta.

16/05/09

O futuro da pátria


Não, não estamos perante uma montagem onde José Sócrates olha para o seu holograma enquanto jovem. Aquele rapaz existe mesmo, julgo que se chama Duarte Cordeiro, é o chefe da JS e um dos mentores da introdução dos preservativos nas escolas secundárias (ver o post mais abaixo). É assim, nesta amena cavaqueira - salvo seja -, que a pátria recruta e forma os seus ditosos líderes. E ainda dizem que não há clonagem humana.

O lupanar da Juventude Preservativa

Anda indignada a Juventude Socialista com o conservadorismo de muitos deputados, incluindo uma percentagem considerável de socialistas. Num assomo de consciência, os senhores deputados acham que distribuir preservativos na escola é excessivo. Eu só posso estar de acordo com esta rapaziada que pulula na jota do PS. Se o seu governo destruiu a escola enquanto local de saber, se transformou os professores, como diz o Zé Ricardo (o seu a seu dono), em meros auxiliares de acção educativa, se entregaram a direcção das escolas à voragem das caciques municipais, e até os regedores de aldeia querem mandar no ensino, podemos dar um passo em frente.

Criatividade é coisa que não falta nas juventudes partidárias. Portanto, não será difícil à JS discernir o sentido para onde tudo se encaminha. O passo a seguir será, já que é na escola que os jovens se encontram - argumento extraordinário aduzido para justificar a distribuição aí de preservativos -, exigir a construção de quartos, com serviço de apoio, para que os jovens não tenham que sair da escola para utilizar os preservativos distribuídos. Como, segundo a lógica da política educativa socialista, escola não é um lugar onde se ensina mas onde se desenvolvem competências, as salas de aulas deverão ser transformadas em quartos. Deverá haver quartos de casal e quartos mais amplos, para o caso dos jovens lhes apetecer uma orgia. Assim, se desenvolvem competências socialmente úteis e os jovens aprenderão a aprender. Os professores sempre podem assegurar o serviço de quartos, organizar uma biblioteca de livros pornográficos, eróticos, peço desculpa, e assegurar a compra de filmes adequados ao lupanar em que esta gente transformou a escola.

Sim, não é por se distribuir preservativos que a escola se transformará num lupanar. É por a escola ter sido transformada, pela pedagogice niilista ancorada no Estado e renovada pelos governos, num lupanar, que agora há que distribuir preservativos. Gloriosa Juventude Preservativa.

15/05/09

Metamorfoses X

Angel Baltasar - El Rascacielos (1992-1993)

chegaram os dias difíceis
as estrelas andam por aí
perdidas ao deus dará
cansadas de iluminar a terra
ou de nortear quem ao mar vá

enternecidos os delinquentes
começaram por empilhar pedras
e logo nasceu um rio de serpentes
a vaga sensação de leveza
que ao céu roubava fronteira

vidro aço as asas de um anjo
o coração fremente
naquele itinerário sem fim
e de repente a manhã vem
e despede-se de mim

lá em baixo rente ao chão
há bancos vazios
e os pássaros sem asas
sobem cantando para o céu
roucos pesados frios

Marin Marais - Chaconne in G-major (second book)

Não me fodam!


É assim que se perde a pouca reputação que se tem. Pois é, caro leitor, também eu aprendi a dizer palavrões. Bem, não foi assim lá muito cedo. Sou um pouco retardatário em tudo. Fruto da educação católica que recebi, vinda da minha mãe e com a cumplicidade ateística do meu pai, até aos palavrões cheguei tarde e a más horas. Mas acho que os aprendi todos.

Não me fodam!, por outro lado, não é bem uma expressão vulgar ou ordinária, e aquele palavrão nem soa a palavrão. É um programa de vida, uma máxima existencial dos portugueses. Quando se perdeu todas as esperanças, quando já nem se desespera, os portugueses nem querem foder, mas apenas evitar serem fodidos. Aqui resume-se toda a metafísica nacional, incluindo nela o livro do professor Gil, Portugal - O Medo de Existir, as trovas do Bandarra, o sapateiro de Trancoso, e a demanda do V Império.

O país da não inscrição, que Gil tematiza, é o país do Não me fodam! Um povo que tem esta expressão por lema, como pode ele inscrever seja o que for. Tomara ele que não inscrevam nada nele. Há uns anos atrás, depois da revolução dos cravos e da entrada para a União Europeia, os portugueses imaginaram-se zezés camarinhas que iam comer a estrangeirada toda. Desde os marcos alemães e os francos franceses até às libras inglesas, nada lhes haveria de escapar. Mesmo as pobres liras italianas haveriam de marchar. Doce ilusão. Uns quantos galos, mais espivatadotes, conluiarem-se e o regabofe foi só para alguns convidados. Acabado o deboche, a galarada sem a matéria-prima internacional voltou-se para os do costume, isto é, para os portugueses em geral. É a isso que agora chamam crise. Aos do costume resta-lhes o seu velho programa de vida: Eh pá, não me fodam! Mas estão enganados.

Luís Campos e Cunha - Bela Vista, sem dúvida

São também responsáveis os muitos responsáveis da educação deste país. A primeira vez que se preocuparam verdadeiramente com o ensino pré-escolar foi com o governo Guterres. Sem pré-primária os filhos de imigrantes, portugueses de pleno direito, não conseguem ter sucesso escolar e a marginalidade é imediata. Os pais estão muitas vezes ausentes, porque são bons trabalhadores, mas não falam um português correcto e o insucesso escolar dos filhos é fatal e inevitável.

Por outro lado, a educação passou a ser neutra em valores. Não deu quadros morais de referência que permitissem distinguir o essencial do acessório. Na televisão uma senhora queixava-se da falta de apoios sociais. Mas já tinha um apartamento dado pela Câmara, a casa estava descuidada e desarrumada (de quem era a culpa?), e tinha duas grandes motas estacionadas na sala! Prioridades de quem tem os valores de pernas para o ar.

Também não é claro que a abordagem no ensino fosse a correcta: estes delinquentes certamente começaram por roubar uma insignificância qualquer a um colega e não foram punidos de forma equivalente. Falou-se com eles ou fechou-se os olhos para não os traumatizar e, com isso, deu-se a ideia de que a malvadez compensa. Roubar passou a ser permitido aos 7 anos e dez anos mais tarde temos as quadrilhas que temos.

A justiça, cada vez mais injusta, deixou de actuar em tempo e afastou o castigo do crime. Ou seja, não desincentivou actos ilegais e confirmou a (falta de) educação que receberam.

Mas há mais responsáveis: ministros da defesa. Há uns anos, sem se medirem as consequências, acabou-se com o serviço militar obrigatório (SMO). Primeiro, esta medida foi vista como uma medida de esquerda e foi uma grande conquista das "jotas" dos partidos; no entanto, o SMO foi, historicamente, uma conquista da esquerda para evitar as guardas pretorianas. Quem não conhece a história faz destas coisas. Segundo, o SMO obrigava os recrutas a viverem um ano com regras estritas, com responsabilização e com punições imediatas correspondentes para os prevaricadores. Terceiro, as Forças Armadas eram a melhor escola de formação profissional. Ninguém saía sem um ofício e aprendia a viver com regras. O SMO poderia ser dispendioso mas uma análise social custo-benefício deveria amplamente justificar esses custos.

Sem ensino pré-primário, uma escola sem moral, uma ideologia de facilitismo e de irresponsabilidade, bairros sociais que são guetos, integração social e moral impossível e uma sociedade avessa a impor valores, conduziram a esta situação socialmente explosiva. E para percebermos o que se passa, nem falei da Crise. Neste caso não há crise, há uma catástrofe social cozinhada em lume brando nos últimos 30 anos da nossa política.

A polícia pode resolver este caso mas nunca ela poderá resolver o problema. Resolver o problema passaria por reconhecer os erros que os políticos que têm estado no poder não reconhecem. Seria exigir o impossível. O Bairro da Bela Vista é, de facto, uma bela vista sobre a nossa sociedade.
[Luís Campos e Cunha, Público de 15 de Maio de 2009]

Jornal Torrejano, 15 de Maio de 2009


On-line está já a edição semanal do Jornal Torrejano, a n.º 671 da II série.

Ares de virgem e pudor de carmim

Quando leio isto ou oiço os membros do governo, lembro-me sempre da frase de Joseph de Maistre: Quando escutamos estes pretensos republicanos a falar de liberdade e de virtude, cremos estar a ver uma cortesã murcha, dando-se ares de virgem com um pudor de carmim.

14/05/09

Metamorfoses IX

Luc Tuymans - Die Zeit 1-4 (1988)

apenas um halo breve e impreciso
o risco de sombra inquieto
a melancolia de um domingo à tarde
o mundo gira agora em torno de que eixo
perguntaste como se os meus olhos
não fossem rasos e negros de carvão

o ruído que nasce naquele silêncio
traz a unção de uma voz ensanguentada
é tudo tão abstracto – suspira –
cortaram as árvores e deixaram secar
os miosótis entre o cheiro a borracha
e a pedra lacerada pelo frio que vem

perderam assim todo o pudor
e cavalgam pelas ruas vazias de onde
os últimos homens foram expulsos
entre braços decepados – tão inertes –
e enxames de varejeiras viscosas
que zunem no espelho do anoitecer

não vale a pena encher de ar os pulmões
e cantar aqueles hinos que então havia
as paredes estão cansadas de tanta cal
e o risco que te fazia esvoaçar os cabelos
há muito que esfriou naquela casa
onde a luz rufava despertando a noite

Frank Sinatra - My Way

João Aguiar - Os perdigogos

(clicar na imagem para ler)

O ZR enviou-me isto, e eu não resisti a republicar aqui. Foi mais forte, mas os perdigogos têm tanto poder e fazem tão mal, que nunca é demais mostrar a insanidade que alimenta a educação em Portugal.

Por que é a esquerda, em matéria de educação, tão estúpida?



Pergunto-me, muitas vezes, por que terá a esquerda de ser tão estúpida. Eu já tinha lido sobre o assunto no Ponteiros Parados, agora vejo as reacções à imposição, por parte de uma escola, de um código de vestuário, no Diário de Notícias. Que os alunos protestem, é coisa compreensível. Faz bem à saúde, e torna-os mais activos e despertos para o mundo, desde que obedeçam. Que a deputada do Bloco de Esquerda, Ana Drago (que até fez um bom trabalho sobre os professores e o conflito na educação) venha dizer que a imposição de um dress code (será que me estou a tornar um João Carlos Espada?) é um "inusitado atentado à liberdade individual, cujo cariz autoritário merece o mais profundo repúdio" é a prova da incompreensão profunda do que é a liberdade, do que é a escola e do que é a sociedade.

De facto, é preciso que as escolas definam não só normas de comportamento, mas que não tenham pejo em definir um código de vestuário. Ninguém questiona que os jogadores de futebol tenham um código de vestuário em campo. Não basta ir com a camisola da mesma cor. Vão todos vestidos segundo um código estrito. Mesmo fora do campo, por exemplo nas deslocações das equipas, os jogadores de futebol dos grandes clubes seguem um rigoroso código de vestuário. O mesmo se passa em muitos locais de trabalho e em muitas instituições. Por que razão não poderá a escola pública (a privada fá-lo há muito) regular a forma como alunos, professores e funcionários se apresentam? A escola não impede ninguém de se vestir como quiser no espaço público, mas a escola não é um espaço público completamente aberto. É (ou deveria ser) um espaço onde se formam cidadãos através da transmissão de conhecimentos e de regras de comportamento adequadas à aquisição desses conhecimentos. Regras essas que são essenciais para o futuro comportamento em sociedade. Algum tipo de vestuário que os alunos levam para dentro da escola é mesmo uma forma de contestar o papel da escola e o papel do saber. A escola não pode tolerar isso, e tem-no tolerado demais em Portugal, graças ao tipo de ideias que a dr.ª Drago defende e que pululam na cabeça de muita gente de esquerda.

Mas uma escola mais regulada não é inimiga dos alunos das estratos sociais mais desfavorecidos. Pelo contrário, a regulação que a escola exerce, ou deveria exercer, fornece um conjunto de ferramentas comportamentais que ajudam esses alunos a terem êxito, ferramentas essas que muitas vezes a família não pode ou não é capaz de dar. A liberdade da dr.ª Drago é a "liberdade" aparente das classes médias. A criança pode apresentar-se como lhe apetecer, até como sinal de distinção dos outros, pois em casa tem alguém que lhe fornece, quando chegar a hora, as regras e os códigos necessários para se comportar de forma a alcançar sucesso.

Esta retórica pseudo-liberal de esquerda tem sido, também ela, responsável pela decadência do ensino em Portugal. Tem sido responsável pela manutenção de centenas de milhares de cidadãos na situação de indigência e de pobreza em que estão ou em que construíram a sua vida, sem que a escola, devido à anomia reinante, lhes tenha dado o essencial para saírem da situação onde se encontravam à partida. Sim, estas tontices de pseudo-esquerda têm contribuído para o mal e a pobreza de muita gente. A "liberdade" da dr.ª Drago é inimiga dos alunos mais desfavorecidos, daqueles que precisam de regras, mesmo no vestuário, para poderem sair da situação onde se encontram. Não basta, mas ajuda.

O princípio de realidade


Presidente [Obama] bloqueou divulgação de imagens de prisioneiros iraquianos e afegãos para proteger soldados, diz o Diário de Notícias. Está a chegar a realidade ao mandato de Barack Obama. Por muito simpática que fosse, fundamentalmente para os inimigos dos EUA, a divulgação de fotos comprometedoras dos exercícios de tortura levados a efeito pelos americanos, isso configuraria uma real traição aos homens que estão no terreno a combater e a morrer. Obama deveria saber isso, não deveria precisar de que os generais lho lembrassem. O Presidente americano parece um homem bem preparado, mas há nele uma certa leveza, para não dizer leviandade, que me faz lembrar certos políticos europeus que vivem da imponderabilidade da aparição e espalhafato públicos. Depois de um Bush neuronalmente paralítico, o que o mundo menos precisava na Casa Branca era de um émulo, mesmo pintado e muito melhorado, do grande dirigente que nos conduz, nesta peregrinatio ad loca infecta. Esperemos que o princípio de realidade impeça o pior.

13/05/09

Metamorfoses VIII

Alfredo García Revuelta - Ciudad (1985)

assim te dei o paraíso – esta terra de sal
onde as sombras são pequenas mãos gravadas
na estrutura flexível do porão – viajantes
para que terra vos leva a pressa
para um enorme armazém
onde almas empilhadas se contam
entre destroços de navios e restos de chapa incendiada

não vos vim falar de horizontes
nem tenho no coração a piedade que me ensinaram
comprei na vastidão do deserto uma espada
e suspendo-a por cima da cabeça
ali fica fazendo sombra sobre o terror
que agora vos enche de compaixão

cuspirei na mão que me estendem
e farei um mapa dos naufrágios
os barcos partiram para lugar incerto
mas os deuses sabiam o destino perpétuo
e acenderam um farol de tristeza
na rota escura onde a morte te espera

Gavin Bryars - After The Requiem - Part I

As teorias conspiratórias da gripe suína



O mundo sempre foi propício a teorias da conspiração. Estas são o sal da história. Sem uma conspiração por detrás dos acontecimentos, a história dos homens não passaria de uma narrativa insossa. Nisto revela-se a propensão metafísica da humanidade. Os factos históricos são puros acidentes, os quais têm a sua origem na essência verdadeira, a conspiração. Com a epidemia da gripe suína veio para a esfera pública a discussão de uma nova conspiração. Segundo os adeptos da teoria, o vírus teria sido fabricado em laboratório. Dividem-se, porém, os teorizadores em dois grupos. Num dos lados, estão os adeptos do acidente; no outro, encontram-se aqueles que defendem o fabrico propositado do vírus para infectar intencionalmente as populações e assim se venderem vacinas.

A pregnância destas teorias reside na verosimilhança dos seus supostos. Em primeiro lugar, é verosímil que pessoas ajam maldosamente com vista ao lucro. Faz parte da natureza humana. Em segundo lugar, o conhecimento científico e técnico está suficientemente desenvolvido para produzir este tipo de vírus. Em terceiro lugar, está instalada uma forte desconfiança entre as populações e os vários tipos de elites. Nestas incluem-se as elites económicas e científicas. Este terreno é fértil para todo o tipo de delírios da razão. Mas o problema central é este: e se o delírio não é delírio? Do ponto de vista jurídico, cabe aos teóricos da conspiração provar que ela existe ou existiu. Mas do ponto de vista da percepção social o problema é diferente: cabe àqueles que não conspiraram provar que de facto não o fizeram. Esta contradição parece insanável.

Se de facto a epidemia alastrar com com elevado número de mortes, a teoria da conspiração ganhará terreno e poderá mesmo ser alavanca de grande agitação social. Por isso, há, do ponto de vista político, todo o interesse em mostrar que o vírus que atormenta a humanidade apareceu naturalmente e sem intervenção demiúrgica humana. Com a intervenção da OMS, o problema deixou de ser apenas científico e tornou-se eminentemente político. Era bom que não se esquecesse isso.

12/05/09

Metamorfoses VII

Emilio Tadini – Città italiana (1989)

são funâmbulos
e tomaram conta da casa
ocuparam as cadeiras
puseram os pés sobre as mesas
e agora palitam os dentes
ao fogo da lareira

nem peço que o trapézio se parta
ou que fechem o circo
e libertem os animais
apenas os músculos perdem vigor
e o ranço segue-me pela tarde

se entro numa praça
ou se me perco pelas avenidas
encontro sempre
uma tormenta de aplausos
não
não são rosas nem cravos
nem uma tempestade de buganvílias
é apenas o mau cheiro
que vem com a neblina matinal

Stephan Micus - Mikhail's Dream

Pressões, pressões, para que vos quero...

Não compreendo esta notícia da Público. Pressões na justiça? Pressões sobre magistrados no caso do Freeport. Meu Deus, alguém acredita nisso? Todos conhecemos pressões. Por exemplo, um centro de altas pressões, em linguagem meteorológica. Isso faz sentido. Pressão do defesa sobre o atacante adversário. Isso também faz sentido no mundo do futebol, com a excepção do Benfica que não pressiona ninguém, para os adversários não se chatearem. Há ainda a pressão arterial. A minha é alta, quer dizer, eu sou altamente pressionado pela pressão. Mas exceptuando estas pressões e as do estresse dos nossos amigos brasileiros, não há mais pressão nenhuma sobre a terra e muito menos em Portugal. Não venham, então, com histórias para enganar as audiências.

11/05/09

Metamorfoses VI

Emilio Tadini – Città italiana (1988)

não falo de cidades italianas
nem das planícies ou dos vales
deixo a mão entregue à ascese
e no rigor assim construído
desenho paisagens de servidão
de onde expulsei toda a alegria

sou da noite o demiurgo
e sonho com casas de esquinas afiadas
onde as sombras se escondem
quando no fumo do passado
se ouve o meio-dia na torre da igreja

rasguei todas as fotografias
apenas subsistem os gritos
que o futuro há-de trazer
e nas mãos vazias
com que cumulo os homens
há restos de enxofre
e a faca de lâmina romba
onde a vida se reconcilia
pela manhã que não chegará

Brecker Brothers Live In Barcelona - Some Skunk Funk

O declínio do Benfica


Esta notícia, ainda mais do que os tristes resultados do futebol, mostra a profundidade do declínio do meu velho clube. Durante muito tempo, mesmo com resultados maus, o Benfica liderava no campo das assistências aos jogos. Mesmo que perdesse, era o clube com maior audiência, digamos assim. Num mundo marcado pela importância do mercado, a quebra nesta área mostra que a presença do clube no mercado dos afectos começa a decair. O que num clube de raiz popular pode vir a ser mortal. O Benfica não tem a sua raiz numa região, como o FC do Porto, nem numa suposta elite burguesa, como se Portugal tivesse uma elite burguesa, como o Sporting. A raiz do Benfica é eminentemente popular e é no coração do povo que o clube encontrou, ao longo da sua história, a razão de ser e a força anímica que o conduziu.

Mas o declínio do Benfica, começado há longos anos, nasce de um conjunto de equívocos que se têm vindo a acentuar. Em primeiro lugar, o clube mostrou-se incapaz de se adaptar ao novo mundo que o 25 de Abril trouxe consigo. O fim do campo de recrutamento de jogadores nas antigas colónias causou um enorme embaraço. Embaraço esse que ainda hoje não está resolvido. O Porto e o Sporting há muito que recrutavam os seus melhores jogadores no estrangeiro. Mas o problema fundamental reside no tipo de liderança que o clube tem escolhido. Muitas vezes é confrontado com a escolha entre um chefe carismático (veja-se o actual presidente ou Vale e Azevedo) ou um burocrata organizador e planeador (veja-se Luís Tadeu, um candidato que nunca ganhou). Mas nunca encontrou um líder a altura das circunstâncias em que o clube tem de actuar. As diferentes lideranças tiveram sempre uma dificuldade extrema em lidar com a realidade do panorama futebolístico nacional emergente nos anos 80.

O Benfica estava condicionado a ter de ganhar ao Sporting, mas quando a alternativa passou a ser o FC do Porto, o clube não teve massa crítica suficiente para avaliar o fenómeno que representa, ainda hoje, Pinto da Costa e a forma como ele adequou o seu clube à nova realidade política e ao mundo novo do futebol internacional. Daí a perplexidade, depois a desorientação e, por fim, os equívocos relacionados com a denúncia do sistema. Exista ou não um sistema condicionador dos resultados em campo (e os tribunais até hoje não provaram a sua existência), um clube não pode viver dessa denúncia. Um clube precisa de pensar como se há-de tornar mais forte, como explorar os pontos fracos dos seus adversários, um clube precisa de se afirmar por si mesmo e não através da denúncia negativa dos competidores. Fundamentalmente, um clube precisa de uma linha de continuidade alicerçada na cultura de base que lhe deu origem. A continuidade e a fidelidade à matriz originária são elementos fundamentais para o êxito. Sem eles tudo se torna mais difícil.

O Benfica tornou-se, desde os anos 80, um barco à deriva, numa espécie de laboratório onde pequenas e grandes vaidades ensaiam as virtudes dos seus egos. Fundamentalmente, o Benfica tornou-se um clube ressentido e de pessoas ressentidas. Se o meu velho clube não olhar com verdade para si e para a sua história, incluindo a dos desastres das últimas décadas, o futuro será cada vez mais sombrio e o ressentimento será cada vez maior. Talvez fosse boa ideia começar a olhar para os erros que têm vindo a ser feitos e deixar de falar em sistema e outras trivialidades. Se existir um tal sistema, fala-se dele quando houver certezas e sem deixar o clube resvalar para o ridículo. Mas fundamentalmente, perceba-se a cultura original do clube e a forma como ela se terá de adaptar aos novos tempos em que não há colónias, nem Eusébios, nem fronteiras, mas em que não deixámos de ser portugueses e em que o Benfica não deixou de ser um clube popular. O Benfica precisa de muito trabalho de casa e menos espectáculo exterior. Precisa de alterar profundamente a sua actual cultura organizacional. Caso contrário, tornar-se-á um Belenenses vestido de vermelho. Se o meu velho Benfica for expulso, por descuido e culpa própria, do coração do povo, então estará morto. E a morte é coisa que não tem remédio.

10/05/09

Metamorfoses V

Emilio Tadini – Città italiana (1995)


como são silenciosas as cidades futuristas
todas elas feitas de passado
e a memória que trazem
– no estirador do arquitecto –
é a de um futuro aberto
a terra arcaica onde se sonha
a cicatriz na clareira do rosto

como são silenciosas as cidades futuristas
todas elas papel e carvão
um rasto de carbono
dois traços de sílica
e um rio de acrílico
a nascer em colinas de betão

no silencioso silêncio do futuro
tenho um espelho onde me revejo
a carne aberta o peito dilacerado
e no lugar do coração
um relógio atrasado

Wim Mertens - The Fosse

Bloco central



A criatura que Deus, com a minha cumplicidade e para castigo dos nossos pecados, nos deu como grande timoneiro da pátria veio aqui, a Torres Novas, dizer que a questão do bloco central é uma ilusão. A pobre Dr.ª Manuela Ferreira Leite também já desmentiu essa hipótese.

Mas expliquem-me lá, por favor, como os interesses que se agregam em torno da governação se vão defender, caso não haja uma maioria absoluta (esta pode ser PS apenas, pode ser PSD+CDS, ou PS+CDS)? Aliás já ouvi, no outro dia, o senhor Van Zeller, da CIP, dizer que nada de maiorias absolutas, que o governo não a merece pelo comportamento que tem tido. Ora, considerando que os interesses daqueles que se movem em torno do poder são grandes, como se poderá dar estabilidade à defesa desses interesses? Certamente não será fazendo depender o governo do Bloco de Esquerda ou do Partido Comunista. Portanto, o bloco central, seja ele formal ou informal, é uma inevitabilidade, caso não haja maioria absoluta. Aliás aquilo que divide o pessoal do PS e o do PSD é nada, por muito que isso aborreça a Dr.ª Ferreira Leite. O resto são exercícios de trapezistas para eleitores incautos.

09/05/09

Metamorfoses IV

Virginia Lasheras - Camino y Gloria (1989)

esses eram os tempos onde pairava
suspensa sobre a multidão
a cornucópia da abundância

saíamos pelas ruas e bebíamos vinho novo
não havia na pedra a feroz geometria
nem se pronunciava a palavra futuro
ou de deus se sabia a perpétua perdição

tudo era uma noite incendiada

se íamos de bar em bar
líamos versos ao acaso
e tu dançavas – pés exaustos
saia itinerante –
e eu cantava o rumor que da lua havia
sobre a paisagem de pedra
ali mesmo
na fronteira – dizias –
onde se esmagava cada um
daqueles tão pobres dias

Ella Fitzgerald : One note Samba (scat singing) 1969

O país do medo


Manuela Ferreira Leite disse, no almoço comemorativo dos 35 anos do PSD, que hoje se vive de novo um clima de medo em Portugal. Medo de perder o emprego, medo de perder o negócio. Será pena que os portugueses julguem que esta denúncia de inscreve apenas no quadro da luta partidária. Não inscreve. O que a líder do PSD diz começa a ser o retrato de um país sufocado e subjugado pelo poder. Se olharmos para as escolas, por exemplo, descobrimos que, assim que o novo modelo de gestão estiver em vigor, não haverá professor que faça uma crítica ao director escolhido, à gestão da escola, aos modelos pedagógicos em vigor, à qualidade científica do que se faz. As escolas, mas estas são apenas um exemplo do que se passa nos resto das instituições, vão ser o lugar de um corpo docente domesticado, medroso, de joelho dobrado pelos novos poderes instituídos. Mais, em breve, todos esses poderes estarão controlados pelas câmaras municipais. A liberdade de ensino está moribunda em Portugal. O Partido Socialista não teve o mínimo pejo de fazer isto na educação. Nem um estremecimento perpassou naquelas consciências. Quando o corpo docente deixa de ser constituído por homens e mulheres livres, como poderão os professores formar, modelar com o seu exemplo, os futuros homens e mulheres livres? E se as novas gerações não são formados no exemplo da liberdade, que país e sociedade livre e responsável se espera para o futuro? Mas as escolas são apenas um exemplo, repito. É provável até que a Dr.ª Manuela Ferreira Leite nem perceba a profundidade do mal que se está a instalar no país.

08/05/09

Metamorfoses III

Clara Gangutia - Bilbao (2000)

soubera eu a verdade
e talvez me sentasse naquela mesa
a olhar as auto-estradas
tão vazias vão elas no seu caminhar

se alguém me falasse
– uma mulher outrora ardente –
eu ficaria ali
e extasiado riria
como se tivesse febre
ou uma palavra me partisse um dente

sou de todas as cidades que não habito
apenas estrangeiro me sinto
naquela que me coube
e ando de coração rasgado
por todas as casas onde não vivi

glória nas alturas digo então
se olho da terra abstracta
e vejo como cavaleiros esvoaçantes
os prédio de vidro e betão
que de tão leves e frios
se erguem ambulantes do chão

soubera eu a verdade
e não haveria mesa onde me sentasse
apenas uma estrada
e por ela iria
para não mais caminhar

Jan Garbarek & The Hilliard Ensemble - Parce Mihi Domine

A lei e a instituição



"A tirania é um regime onde há muitas leis e poucas instituições, a democracia é um regime onde há muitas instituições e muito poucas leis (Gilles Deleuze)." O equacionamento entre lei e instituição, proposto por Deleuze, é muito interessante para compreender a ligação de um povo aos regimes políticos. Se olharmos para o caso português, apesar de mais de 30 anos de vida democrática, encontramos uma tendência clara. Por um lado, não apenas sentimos as nossas instituições como frágeis, como percebemos que a nossa vida é pouco enquadrada institucionalmente, isto é, possuímos poucas instituições. Por outro, a tentação dos governos é produzir legislação sem parar, tentando regular aquilo que não se consegue instituir. Posso dar um exemplo que conheço bem, mas é apenas um exemplo entre muitos outros. As escolas públicas portuguesas são instituições frágeis, pouco autónomas, profundamente dependentes do poder central (amanhã serão dependentes dos regedores instalados nos municípios), mas a legislação sobre a escola é praticamente infinita. A ideia é mesmo essa: regular através do poder coercitivo da lei em vez de instituir, o que exigiria liberdade e responsabilidade daqueles que participassem na vida da instituição. Mas a escola é apenas um exemplo, que eu conheço bem, da vida social portuguesa.

O que a meditação de Deleuze nos diz deixa-nos perplexos. Onde nasce essa perplexidade? No olhar que deitamos ao nosso regime político. Por que razão? Pelo facto de ele ser, formalmente, uma democracia, mas na sua essência corresponder aos traços da tirania. Existe liberdade de expressão (embora aqui e ali ameaçada por diversos poderes, não apenas o político), existem eleições livres, não há polícia política nem censura. Formalmente, somos um país bem democrático. Mas a fraqueza das nossas instituições, a pobreza daquilo a que agora se chama sociedade civil (quando o termo surge em John Locke tinha uma conotação oposta à actual: sociedade civil era a sociedade política oposta às sociedades religiosas) por oposição ao peso regulador do Estado na vida das pessoas, aliada à necessidade das elites políticas tentarem, através da lei, criar e e regular um país que só existe nas suas cabeças, transformam a nossa democracia formal numa tirania adocicada, paternalista e imbecilizadora da comunidade.

A equação de Deleuze permite-nos assim perceber uma outra equação que nos diz respeito, a equação entre a capacidade instituidora de um povo e a vontade legisladora das elites políticas. O que cabe perguntar é se a pouca capacidade instituidora dos portugueses se deve à forte vontade legisladora dos políticos, ou se esta é o mero resultado da fragilidade do poder instituidor do povo. Quando se fala em crise do regime, fala-se de outra coisa. Fala-se, por exemplo, da menoridade das elites, da corrupção, etc. Mas o cerne da crise do regime político português é bem mais fundo e prende-se à equação entre capacidade instituidora (produtora de instituições) do povo e vontade legisladora das elites. É aqui que está o problema. O que nos permite perceber que a crise do regime é muito mais do que uma crise política. É uma crise de um povo enquanto povo, da difícil relação deste com os seus poderes e capacidades próprios, bem como com a lei e a vontade legisladora e reguladora das elites políticas. O problema não reside apenas nestas, embora também lá se encontre. Mas concentrar a atenção nos problemas conjunturais ou na culpabilidade única da classe política é tapar o sol com uma peneira.

Há um problema anterior, um problema que se manifestou já no apoio que D. Miguel teve na sua luta contra o liberalismo do seu irmão, D. Pedro, no regicídio, na instituição de uma república puramente jacobina e partidocrática, no 28 de Maio e no consequente triunfo do salazarismo. Esta longa tradição, à direita e à esquerda, não morreu no 25 de Abril de 74. Pelo contrário, metamorfoseou-se de diversas maneiras e assenhoreou-se completamente do poder político. É este problema que merece ser pensado, pois ele gangrena a vida nacional e as possibilidades de uma verdadeira vida democrática.

Jornal Torrejano, 08 de Maio de 2009


On-line está a edição semana do Jornal Torrejano. Clique aqui para ir até lá.

07/05/09

Metamorfoses II

Bill Jacklin - Before the Hurricane Regent Street (1988)

bate grossa a chuva no metal
e o ranger do acrílico
faz sob o império do vento
uma sinfonia de cristal

gloriosa vida citadina
de pássaros estrangulados pela calçada
deixem-me ir nesses autocarros
a ouvir o estrondear dos motores
entre os gritos dos passageiros
que caem mortos de terror

respiro molhado pela chuva
um ar quente de combustão
e vejo raparigas inquietas
antecipando já o seu ser
de mulheres tristes em roupão

espero que venha a tempestade
e limpe rua a rua a cidade
fumo um cigarro
e caminho sob a chuva grossa
como se não tivesse pele
ou me fosse interdita a vaidade

Chico Buarque - Joana Francesa

Sobre posters, cartazes e Ideias


Por causa do post anterior onde se dava conta do blogue Rato's Movie Posters, fui levado à reflexão sobre essa estranha relação entre o cinema e os posters ou cartazes em que ele se faz anunciar. Estes podem tornar-se uma paixão. Que poder terão eles para desencadear esse tipo de paixão e para que a indústria cinematográfica não os dispense na publicitação dos seus produtos?

Como também se disse no post anterior, há uma estranha perversidade nesta relação entre o cinema e os cartazes onde ele se anuncia (isto é, se noticia na esfera pública) e apresenta (isto é, onde ele se torna presente). O cinema parece-nos mais próximo da vida, pois imita o movimento que habita esta. A imagem combinada com o movimento, a imagem que se move, é mimésis da existência dos homens, da sua acção. O cinema, enquanto forma de expressão artística, parece ultrapassar as limitações de artes anteriores como o romance e a pintura. Mostra-nos as imagens que o romance apenas descreve, dá-nos o movimento que a pintura, em aparência, suspende. Por que precisará ele então, para se anunciar e tornar presente, da fixidez do poster/cartaz?

Hipótese: a verdade de um filme encontra-se toda no cartaz que o anuncia e o torna presente. O cartaz não é um resumo do filme. O filme é que é a explicação, no tempo, de um cartaz. O cartaz, na sua fixidez, é uma imitação da eternidade; o filme, não passa de mimésis da temporalidade. Do ponto de vista do processo de produção, o filme é anterior ao cartaz que o resume; mas, do ponto de vista ontológico, o cartaz é anterior ao filme.

Estas reflexões inusitadas levam-nos a tocar a teoria platónica das Ideias. Estas são eternas e imutáveis, e constituem o modelo que dá realidade às coisas sensíveis, ao mundo dos seres onde nos encontramos. Também o cartaz é a a Ideia ou Paradigma que dá o ser ao próprio filme. Aqui encontramos um caminho de disputa com a estética platónica. Os produtos artísticas não são, como pensava Platão, cópias das cópias (objectos sensíveis) da realidade. Não são fantasmas de fantasmas, são verdadeiras Ideias, paradigmas segundo os quais a vida no mundo sensível decorre. O poster cinematográfico é a Ideia que dá ser a um filme, que por sua vez é Ideia que dá ser à vida quotidiana dos homens. Na eterna imutabilidade de um poster cinematográfico, concentra-se toda a possibilidade da existência. A Ideia platónica não é outra coisa do que a sublimação da obra de arte num mundo imaginário. A diferença pode encontrar-se no facto de a Ideia excluir de si todo o movimento, as obras de arte, na sua fixidez, contêm em si, de forma potencial, o movimento que a vida dará corpo.