10/02/09

Perfilados de medo

O General Ramalho diz que existe um clima de medo crónico de criticar para não ser prejudicado e de arriscar. Por que razão será? Porque a nossa sociedade é constituída por gente muito dependente. A sociedade portuguesa é uma teia de gente frágil, onde alguns menos frágeis ditam o rumo que lhes interessa. Os portugueses não foram educados num espírito de independência e de amor pela liberdade. Veja-se o caso mais paradigmático de todos. O Partido Socialista nasceu como um grande partido da liberdade e de homens livres, de gente independente que afrontou o anterior regime e fez frente à possibilidade de uma nova ditadura vinda do outro lado do espectro político. Mas o que é hoje o Partido Socialista? Onde está aquele espírito dos heróis fundadores? Foi deglutido pelos profissionais da política, por gente que nunca afrontou nada de perigoso, por gente que pensa apenas nas suas carreiras. O Partido Socialista tornou-se num partido perigoso. As pessoas têm medo dele e ele dá-lhes razão e gosta de que as pessoas tenham medo. Quem se mete com o PS leva. Esta frase de um antigo dirigente mostra o espírito da coisa. Se o Partido Socialista se tornou uma agência de dominação, como não hão-de os portugueses, na sua miséria ancestral, não ter medo. Em Portugal, sabe-se muito bem quanto o poder é poderoso, como ele liquida a vida das pessoas, como os seus braços são como Deus, estão em toda a parte e cuidam de nós. Os portugueses foram treinados, e continuam a sê-lo todos os dias, para o medo e para a cobardia. E se levantam a cabeça, aprendem muito rapidamente que os olhos não se devem levantar do chão. O General, um homem corajoso, às vezes confunde-se. Perfilados de medo...

09/02/09

A vida amorosa

A SIC decidiu prendar o país com uma mini-série sobre a vida íntima de Oliveira Salazar. Independentemente da qualidade e da verosimilhança, o que ocorre perguntar é a intencionalidade da coisa. É provável que não se pretendesse mais nada do que explorar, para consumo popular e voyeurista, a equivocidade da vida sentimental do ditador. Mas estes projectos não são inócuos. Como é dito no Portugal dos Pequeninos, para estudar o Estado Novo e Salazar não é preciso a vida íntima de Salazar para nada. Mas o problema não é tão simples. Salazar sempre foi discreto em relação à sua vida amorosa e deixou transparecer uma espécie de castidade que legitimava a sua pertença à imaginária galeria dos heróis e santos varões que tinham feito de Portugal um imenso império. A gestão da sua intimidade não pode ser desligada nem da ideologia nem da forma como fazia política. Contudo, esta mini-séria da SIC não é a desmontagem de um mito, mas o sintoma de que os tempos mudaram. Se homens como Salazar e Cunhal eram mais ou menos secretos na sua vida amorosa, se os outros eram relativamente discretos, isso acontecia não apenas por uma questão de carácter, mas porque o tempo lhes exigia isso, porque a política era suficiente para concentrar o interesse público. O que se passa hoje em dia é uma alteração do interesse público. Este retraiu-se para a esfera da intimidade e as pessoas, treinadas pelos reality shows e por uma televisão sôfrega de episódios picarescos, apenas se interessam em espreitar para a suposta vida íntima das grandes personagens. O que este episódio televisivo mostra não é Salazar, mas a destruição do espaço público na nossa sociedade e o desinteresse geral que a política gera no mercado das emoções populares. A intencionalidade desta realização não é desmontar ou reabilitar a personagem do Professor Salazar, mas cimentar o novo espírito do tempo, o espírito niilista que toca em tudo e a tudo dissolve no acto de espreitar.

Façamos de conta

Muito bem, Mário Crespo. Façamos de conta, então. Façamos de conta que Portugal é um país. Façamos de conta que Portugal possui uma elite política. Façamos de conta que não nos faltam estadistas. Façamos de conta...

Filhos de políticos para a escola pública


Um amigo meu contou-me que, segundo lhe disseram, há no Brasil um movimento cívico ligado a professores do ensino secundário que exige que os políticos ponham os seus filhos na escola pública. Não sei até que ponto isto é verdade. Sei, no entanto, e apesar de considerar, como aliás esse meu amigo, a exigência demagógica, que é uma exigência justa. Em Portugal, todos os políticos do Partido Socialista, e já agora dos outros partidos também, deveriam tirar os seus filhos de instituições privadas e colocá-los na escola pública, que eles formataram e levaram ao lugar onde ela se encontra. Assim, os jovens nascidos dos nossos responsáveis políticos poderiam gozar dos benefícios das políticas educativas que os seus progenitores aprovaram para a plebe democrática. Fundamentalmente, deveriam ir para a escola pública político-descendentes que frequentam os colégios das grandes cidades. Querem apostar que muita coisa mudava imediatamente na escola pública?

07/02/09

Mais tarde

Edward Hopper - Morning Sun (1952)
Mais tarde,
o silêncio da luz veio
soletrar uma trégua
nas frívolas águas de Janeiro.

Que palavra terás para dizer?

Casas de tijolo,
as lágrimas sufocadas,
os lençóis intactos,
onde a noite descansou.

Que palavras terás para dizer?

As romãs estão maduras,
não há quem as colha.

Olho-te,
nesse abandono
com que o sol te ilumina,
e espero a tarde que vem
para atear a sombra
e roubar-te a seiva
que me há-de caber.

Pablo Neruda & Paco Ibáñez: Puedo escribirte los versos...

Pablo Neruda, "Puedo escribirte los versos más tristes esta noche"; Paco Ibáñez & Cuarteto Cedrón;Barbra Streisand, "The Prince of Tides" (1991)

Causas da esquerda

«O secretário-geral do PS, José Sócrates, classificou hoje em Coimbra a regionalização e o casamento entre homossexuais como bandeiras que identificam o Partido Socialista com a esquerda progressista e a esquerda do povo.» Por muito que medite, ainda não consegui compreender por que razão o "casamento" entre homossexuais é uma questão de esquerda ou de direita. Mas se o Partido Socialista e o seu magnífico chefe acham, quem sou eu para recordar que a orientação sexual ou os negócios afectivos não têm cor política. Dir-me-ão: a permissão do casamento é uma bandeira de esquerda, como salienta Sócrates. Mas a esquerda não viu durante muito tempo o casamento como algo que fazia parte das estruturas jurídicas reaccionárias e opressoras? Não será a extensão do casamento aos pares homossexuais a extensão da opressão àqueles que são livres? Quanto à regionalização o problema é idêntico. Por que razão o retalhar do país em feudos será uma questão de esquerda? Será que Sócrates se está a preparar para acolher no seu partido o dr. Luís Filipe Menezes e o autarca-poeta Mendes Bota?

06/02/09

Enrico Rava Quintet

Influente e popular

Há coisas feias que compensam. O nosso querido líder europeu abandonou o velho barco que se afundava, Portugal, e entregou-se à glória do mando de um barco novo e moderno, a União Europeia. Agora, o antigo candidato a grande timoneiro da classe operária, é um dos líderes mais populares e influentes do mundo. Terá algum mérito. Mas a sombra da fuga para a Europa e o despudor da entrega de Portugal a Santana Lopes são coisas que a influência e a popularidade cosmopolita jamais farão esquecer. Isso não significa, porém, que, esgotado o tempo de Cavaco Silva, Barroso não regresse para uma candidatura à Presidência da República. Portugal não esquece, mas... Como habitualmente, não perdoará a sua fuga nem desperdoará. É bem possível que o eleja para o mais alto cargo da nação. Por desfastio.

Jornal Torrejano, 06 de Fevereiro de 2009


Na opinião, inicie-se o périplo pelo cartoon, de Hélder Dias. Depois, prossiga-se a viagem com Carlos Henriques e Mantorras regressou ao golo (isto sim, é falar de coisas importantes), Francisco Almeida e Desindividualização, João Carlos Lopes e Viva a região, José Ricardo Costa e O Racismo e, para terminar, Santana-Maia Leonardo e (Con)vencer com mentira.

Desta maneira, este pobre blogger acaba a notícia das notícias. Bom fim-de-semana.

05/02/09

Sem destino vão os passageiros

Edward Hopper - Chair Car (1965)

Sem destino vão os passageiros
neste carro de opaca luz.
Caminham para o lugar sem volta,
distraídos pela chama da vida,
como se vida ainda houvesse,
quando o carro vai sem pressa,
nos dias que noite não têm.
Suspiram pela próxima paragem,
mas se a porta então se abre,
apenas entra novo passageiro,
e logo se senta a pensar
no longo fulgor da morte
que ilumina a rápida treva da vida.

Keith Jarrett - La Scala

Consenso nacional?

O presidente da Agência Portuguesa para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP), Basílio Horta, não sabe o que mais se há-de fazer perante a grave crise internacional. Tem a vantagem da sinceridade. Mas perde-se em coisas vagas como "solidariedade nacional" e "consenso nacional". Não por acaso ele utiliza a metáfora do abalo de terra. Mas esta metafórica tem um duplo defeito. Em primeiro lugar, ao contrário do abalo de terra, a crise internacional não é obra da natureza, mas da forma como nós seres humanos, uns mais do que outros, lidámos com o universo das nossas necessidades, que a economia tem por função responder. Nos vários lugares do mercado e da sua regulação, houve gente que se portou mal, muito mal mesmo. Agiram segundo o seu livre-arbítrio e devem ser responsabilizados por isso. A crise é uma catástrofe, mas não uma catástrofe natural. Nestes casos, a utilização de tropos torna-se perigosa. Por outro lado, a identificação da crise com uma terramoto gera também ilusões sobre as soluções. A solidariedade deve ser um valor constante e não apenas nas situações críticas. Usá-la como retórica paliativa não traz mal ao mundo. O problema surge quando se fala em "consenso nacional". Mas o problema não tem sido mesmo esse? Não tem havido consenso nacional e internacional a mais? Não foi esse consenso que permitiu que se chegasse onde se chegou? O que nós precisamos é de romper esse consenso e encontrar vias alternativas novas. Alternativas no plano económico e no plano político. E quando falo no plano político não me estou a referir a alternativas dentro do espectro partidário. Estou-me a referir a novas formas de conceber a política e, já agora, a economia. Consenso nacional? Poupem-nos.

Da cegueira

A Justiça de Marília Chartune

Há qualquer coisa que não funciona na justiça portuguesa. Não faço ideia do que se trata. Não são apenas processos que prescrevem devido à lentidão, não é apenas a suspeição de que ela serve para fins mais ou menos ocultos, não é sequer o seu formalismo absurdo. A independência dos tribunais parece que é percebida como se as magistraturas fossem constituídos por seres não humanos. A entrada naquelas instituições deve exigir uma feroz independência perante o bem senso ou o senso comum da comunidade. Se não fosse isso, como se explica a falta de cuidado que se noticia aqui. Não contesto a bondade da decisão tomada, mas o triste espectáculo que a sua execução provoca. Seria boa ideia que os tribunais, pelo menos nestes casos que envolvem relações de afecto, tivessem em consideração as pessoas envolvidas, que não são criminosas, e, para além do sentimento moral, considerassem a natureza estética do espectáculo deprimente que sempre conseguem fomentar. Isto nao significa, porém, que as suas decisões não sejam doutas e juridicamente bondosas. Mas a forma da sua aplicação deve ter em consideração aqueles a quem elas se dirigem, os quais são a única razão de ser de juízes e magistrados. A justiça deve ser cega, mas a ausência de visão não implica perda global da sensibilidade. Nem que seja para nos poupar aos tristes espectáculos que logo se arvoram nestes casos.

A coisa faz o seu caminho

Fait-Divers? Talvez. Mas a verdade é que se está a preparar o ambiente para retalhar o país em 5 feudos. Sócrates embala os militantes de província com este engodo. Também o ex-líder do PSD, Luís Filipe Menezes, se diz disposto a ser soldado no combate pela causa. Por esse país fora não falta gente a ansiar pela regionalização. Quem? Para além de alguns idealistas da causa, aquele pessoal que controla os aparelhos dos grandes partidos na província. A regionalização serve fundamentalmente para multiplicar os proto-césares e proto-jardins que pululam nas distritais partidárias e distribuir mais uns quantos assentos à mesa do orçamento de Estado. Também é verdade que o tema da regionalização, na boca de Sócrates e na moção ao congresso socialista, tem por finalidade dividir o PSD. É o partido mais fracturado pela questão. Ao lado dos regionalistas que vão do Porto ao Algarve, há gente que treme só de ouvir a palavra. Sócrates, com a colaboração de Menezes, tenta assim matar dois coelhos com uma única cajadada. Satisfazer o pessoal da sua congregação e dividir o maior partido da oposição.

04/02/09

Gosto das árvores desta paisagem

Edward Hopper - Rooms by the Sea (1951)

Gosto das árvores desta paisagem
e da gente que habita a floresta,
como se habitasse o silêncio da água
ou a nuvem que do mar foge.

Era assim que falávamos naqueles dias
onde as fronteiras eram traços imprecisos,
apenas riscos de sombra,
ali mesmo, no sítio a que chamavas
o meu império intermitente.

Sentado de pernas caídas para o mar,
escutava as tuas palavras truncadas
e deixava que o cheiro a naftalina saísse
da escuridão dos armários para se afogar
no rumor das águas batidas pela voz
de um deus esquivo e cansado.

É tudo tão fotográfico, disseste: o bando de gaivotas,
as ondas eriçadas, as árvores vindas da floresta,
a tua presença na rasura dos meus dedos.
Se soubesse nadar, deixava-me cair no oceano
para esperar a noite, haveria de vir, e nela cantar
o último poema que há no baldio do teu coração.

Festival RTP 1971 - Paulo de Carvalho - Flor Sem Tempo

Isto não era mau. Pelo menos era bastante melhor do que aquilo que os outros países apresentavam no Eurofestival da canção. A verdade, porém, é que este tipo de canção não era adequado à leveza do concurso da Eurovisão. Mas fora desses certames não havia mercado ou espaço para este tipo de canção popular sobreviver. A prova está no facto de toda esta geração de cantores e a seguinte ter praticamente desaparecido de cena, quero dizer da televisão. E nem deixaram sucessores. Resta a música pimba. O curioso é que esta música já existia na altura, mas não tinha lugar nos meios de comunicação social. O chamado nacional-cançonetismo, note-se, nada tinha a ver com aquilo que hoje chamamos música pimba. Era kitsch, mas não pimba. É como se a democracia viesse permitir a manifestação do fundo da alma lusa. E esse fundo é o que é.

O olhar de Hegel


O Zé Ricardo fez uma pequena patifaria ao velho Hegel. Diz ele: «O olhar de Hegel revela profundidade, solenidade, é o olhar de quem julgaria tudo saber.» Mas antes tinha mostrado que ele nada sabia daquilo que aconteceu após a sua morte. Nada sabe de Van Gogh, Proust, Stravinsky, Joyce, ao que poderia acrescentar que ele nada sabe de teoria da relatividade, nem de mecânica quântica, nem de biologia molecular ou de ciências da educação, essa área tão fundamental para a destruição do saber, nem...

Em primeiro lugar, gostaria de chamar a atenção de que a teoria proposta não é refutável. Nós não podemos fazer nenhuma experiência, por exemplo submeter o velho Hegel a um teste de conhecimentos gerais, para demonstrar que ele nada sabe do que é actual. Há várias coisas que nós não podemos decidir. Uma delas é se há vida depois da morte. Outra é se, mesmo havendo vida depois da morte, a "alma" sobrevivente continua a acompanhar as coisas cá debaixo. É uma crença tão injustificada a fé na imortalidade da alma, como a crença contrária. Portanto, dizer que o velho Hegel ignora tudo o que se passou depois dele é um vaticínio que eu considero arriscado. Como provar isso?

Mas há ainda outra coisa. A grande sabedoria de Hegel não reside tanto no facto de ele saber quase tudo o que havia para saber na sua época. Isso não passaria de polimatia, de vasta e insensata erudição. O olhar de Hegel não é o olhar de quem é uma enciclopédia, mas o olhar de quem tudo pensou e elevou ao conceito. E aí surge para mim um problema. Apesar de hoje possuirmos quase mais duzentos anos de informação, é muito possível que a generalidade das pessoas, nelas incluindo os filósofos actuais, saibam muito menos que o velho Hegel. Têm mais informação, mas pensaram-na menos e menos globalmente. Aquele olhar não é o de uma vaca que, no pasto, se empanturra de erva, mas o de uma águia que do alto do conceito vê o que está antes e o que está depois. Daquele olhar, o espírito absoluto contempla a sua própria manifestação na história dos homens. Um segredo: aquele olhar é olhar de Deus no momento mesmo em que vai começar o juízo final. Portanto, o Zé Ricardo, apesar do ateísmo fundamental, que se cuide. Hegel está de olho nele.

03/02/09

Sarah Chang: Mendelssohn Violin Concerto Mvt.1 Part1

O encontro


Segundo o Sol, o senhor Procurador-Geral da República não diz se o caso Freeport foi abordado no encontro com Cavaco Silva. Claro que não pode dizer, o homem é Procurador e não pode dizer mentiras. Na verdade, o encontro tinha apenas uma finalidade: jogar uma partida de Xadrez. Consta que o jogo decorreu sobre a égide de uma defesa siciliana. As brancas abriram com P4R, o que foi respondido com o tradicional P4BD, lance agressivo, mas arriscado. O resultado, como em tudo o que diz respeito à justiça em Portugal, foi um empate.

Não peças o que não queres

Por isso mesmo vou mais longe, e acedo ao que pedes, até porque quero que se cumpra o ditado: “Não te ponhas a pedir o que não pretendes obter!” É que sucede muitas vezes nós pedirmos com empenho coisas que recusaríamos se alguém no-las oferecesse. Por ligeireza? Por excesso de gentileza? Seja qual for a razão, apliquemos-lhe um castigo: acedamos largamente ao pedido. Muitas coisas nós desejamos parecer querer quando de facto as não queremos. Numa leitura pública, um autor levou uma vez uma obra histórica enorme, escrita em letra miudinha, num volume densíssimo, e, depois de ler a maior parte, disse: “Se querem, fico por aqui.” Ora os auditores, embora o seu único desejo fosse que o homem se calasse imediatamente, gritaram em coro: “Continua a leitura, continua!” Muitas vezes, também, queremos uma coisa mas escolhemos outra, e nem sequer aos deuses confessamos a verdade; o que vale é que os deuses ou não nos atendem ou têm pena de nós! Quanto a mim, vou proceder sem qualquer compaixão: vou mandar-te uma carta gigantesca! Se te custar muito lê-la, não terás mais do que dizer: “Bonito serviço que eu arranjei!”, e põe o teu nome entre o daqueles homens que se desfizeram em galanteios para casar com uma megera, ou se fartaram de suar para conseguir riquezas e nelas só encontraram angustias, ou usaram todos os truques e esforços para obter cargos públicos em que se sentem destroçados, em suma, inclui-te na lista dos artífices dos próprios dissabores! [Séneca, Cartas a Lucílio, 95]

Felix Mendelssohn : The Hebrides (Fingal's Cave) - Overture

Felix Mendelssohn

Faz hoje duzentos anos que nasceu o compositor alemão Felix Mendelssohn-Bartholdy, neto do filósofo Moses Mendelssohn. Portanto, hoje é dia de S. Mendelssohn.

02/02/09

Se um anjo tivesse o teu nome

Edward Hopper - Barn and Silo, Vermont (1927)

Se um anjo tivesse o teu nome,
e no celeiro guardasse a colheita,
que palavras terias para me dizer,
agora que nada sabes do vento?

Estou cansado de tanta figuração.
Nada guardo nos silos da história,
e esqueci um a um os nomes que te dei,
quando em mim ainda havia a tua luz.

Entro por ali e fico na penumbra,
a pensar nas coisas que se pensam
quando chega a hora de partir:
um joelho inflamado, a voz rouca,
um livro esquecido na memória.

Há coisas que são assim, sem concerto:
o velho barco preso ao cais,
os dias de chuva em que não nos cruzámos,
aquelas rosas de cinza esquecidas,
o grito que sufoquei ao partir.

Se um anjo ainda tivesse o teu nome,
nada no celeiro guardaria.
Ficava apenas no ar a lepra, a gangrena,
a lâmina fina da minha pele ulcerada.

Carl Philipp Emanuel Bach: Concerto in D Minor, Part 1

Voluntários...

Confesso que já ando farto do conflito na educação. Mas este governo tem uma capacidade notável de exercitar o seu ódio e a sua vontade de achincalhamento dos professores. Agora é a ideia do voluntariado dos professores reformados. A ideia até poderia ser interessante, se não tivessem existido estes últimos quatro anos, onde a política deste governo precipitou para a reforma muitos dos melhores e mais experientes professores que estavam nas escolas públicas. Agora, perante a pobreza do quadro que construíram, querem que os que foram postos porta fora, muitos com enormes perdas materiais, venham trazer a sua experiência à escola, voluntariamente. De borla, querem eles dizer. Esta gente consegue ser mesmo odiosa.

01/02/09

Não há praça maior do que esta

Edward Hopper - Carolina Morning (1955)
Não há praça maior do que esta,
o campo aberto batido pelo vento,
um céu azul à espera dos pássaros,
e o teu corpo oferecido a quem passa
como se fosse a única coisa que resta.

Tão longe olham os olhos teus,
e se buscas horizontes presos na retina,
é por já não saberes contar
as parcas ruas ou estreitas avenidas,
onde vou quando te digo adeus.

Luchino Visconti - O Intruso (L'Innocente)

Caso Freeport - o primeiro derrotado

No caso Freeport há já um primeiro grande derrotado, com uma derrota desmedida e sem apelo. O sistema de justiça em Portugal sai muito mal tratado deste caso, seja qual for a solução a que se chegue. Para o cidadão comum, não se percebe por que razão as investigações começadas em 2004 nunca tiveram uma conclusão. Também não se percebe que grande parte dos materiais que estão em segredo de justiça sejam sistematicamente publicados na comunicação social. Mas o problema sobre o segredo de justiça ainda é mais grave. Nunca os cidadãos percebem muito bem para que serve. Às vezes, parece que a sua finalidade é a defesa do processo de investigação e do bom nome dos suspeitos, noutras, desconfia-se que ele tem uma função de ocultar aquilo que deveria vir à luz. Noutros casos ainda, o segredo de justiça parecer servir para ser violado e criar situações públicas que "encostem à parede" certos suspeitos. O caso Freeport é um exemplo acabado de um sistema de justiça que não inspira confiança a ninguém, um caso onde aquilo que deveria ser célere é lento e o que deveria ser lento se tornou célere, um caso onde aquilo que deveria ser público parece oculto e secreto e aquilo que deveria ser secreto está na praça pública. O caso Freeport é, também, em todas as suas vertentes, um sintoma da degradação das instituições jurídico-políticas da terceira república, é o símbolo da doença que corrói o país. Esta doença é uma crise muito mais grave do que aquela que abala o tecido financeiro e económico, mesmo se muitos acham que é um fait-divers. Não é.

31/01/09

Era o tempo em que falava de esquecimento

Edward Hopper - Stairway (1919)

Era o tempo em que falava de esquecimento.
Em cada palavra havia uma luz
a desenhar clareiras na floresta
ou um mar de fogo na palha
com que ateava secreto o tormento.

Não retomarei o canto que iluminou as cerejas,
nem direi a cor que cobre a verdade.
Caminho vendo corpos trespassados
e silencio o dia magoado no horizonte,
onde esqueci as palavras que desejas.

Desço as escadas e faço da porta fronteira.
Olho a linha de água despedaçada,
onde a fé se dilui entre enredos.
Cerro os olhos em busca da inocência,
mas não há cintilação que te queira.

Iva Bittova & Nederlands Blazers Ensemble *Divna slecinka*

Manifestações em Inglaterra

As manifestações espontâneas que ocorreram na civilizada e democrática Inglaterra contra a contratação de trabalhadores estrangeiros, portugueses e italianos, não são apenas o sintoma de uma crise que, todos os dias, destrói dezenas milhares de empregos, ou da súbita simpatia que o operariado britânico passou a ter pelo British National Party. Elas são um sintoma de que se está a atingir o limite da abertura de fronteiras e da desagregação dos estados nacionais. Mostram, também, a contradição política essencial que percorre a Europa dividida entre uma soberania nacional, de fundas raízes populares, e uma vontade cosmopolítica das elites governativas. Quando a legitimação da soberania passou a assentar no povo, entendia-se implicitamente que o soberano exercia o poder para, em primeiro lugar, defender os interesses da comunidade política a que servia. A experiência dos último decénios, porém, mostra que os interesses económicos dos grandes grupos impuseram, aos dirigentes políticos, uma abertura tal das fronteiras, que aqueles dirigentes passam a ser percepcionados cada vez menos como defensores dos interesses da comunidade que devem servir. Estas manifestações inglesas, claramente xenófobas, deveriam ser lidas com muita atenção. Deveriam também conduzir a uma reflexão sobre a importância do Estado-Nação, e dos limites da abertura de fronteiras. É preciso recordar que esta abertura de fronteiras, esta livre circulação da mão-de-obra, não se inscreveu na realização de qualquer princípio moral de fraternidade universal, mas no mero interesse das empresas em fazer baixar a mão-de-obra dos países mais desenvolvidos e com maior equidade social. Ela visou claramente o empobrecimento das classes populares desses países. A crise só veio mostrar o que estava latente.

30/01/09

A razão, agora uma pura geometria

Edward Hopper - New York Office (1962)

A razão, agora uma pura geometria,
um fardo de betão onde te escondes
a dardejar palavras sobre papel,
a fugir da sombra com que vestes a agonia.

Nesse mundo de flores exactas,
onde as horas passam peregrinas,
deixas mortas as esperanças
que ainda ontem julgavas intactas.

Nem Outono nem Primavera
haverá nas paredes despidas de lilases.
Um traço de luz, um vulto de poeira,
uma canção de cinza, o que te espera.

Olivier Messiaen - Eclairs sur l'au dela... (Part Five)

Modernidades, famílias e o Prof. Cavaco

O Professor Cavaco Silva é um homem probo, dedicado ao bem público, sensato e, entre as gentes da política, alguém que ainda possui crédito perante o país. Mas esta coisa de transformar um mero tesoureiro em monarca é coisa que não funciona. Na sua fronda contra a nova lei do divórcio, o Presidente diz: "Não é um sinal de modernidade a dissolução progressiva dos laços familiares". Isto é uma prova que um economista, professor universitário em Economia, não tem de perceber o que quer que seja da realidade social provocada pelo desenvolvimento económico. Alguém deveria explicar ao Professor Cavaco que não é a lei do divórcio que dissolve progressivamente os laços familiares. O que dissolve os laços familiares é o fim das sociedades tradicionais, a crescente autonomia dos indivíduos e, acima de tudo, o desenvolvimento económico moderno. A proletarização, que recomeçou, a precariedade laboral e a mobilidade exigida pela eficiência da empresa económica capitalista, bem como a necessidade dos membros da família trabalharem em espaços muito diferentes contribuem decisivamente para a "dissolução progressiva dos laços familiares". O que Cavaco Silva não consegue compreender é que aquilo que ele defende para a economia provoca necessariamente aquilo que ele não gosta ao nível da família. A lei do divórcio é apenas um produto superestrutural fundado na infra-estrutura da vida económica, para falarmos à maneira de Marx. E se este falhou rotundamente nos prognósticos sobre o futuro da história e a bondade do comunismo, não deixou de ser genial na análise do capitalismo. Umas leituras do Marx mais filosófico dariam, então, ao senhor Presidente alguns belos motivos de meditação e evitariam que dissesse, em público, aquelas coisas que ficam mal a um universitário, ainda por cima Presidente da República, dizer. De facto, a dissolução dos laços familiares é um sinal claro da modernidade tardia. A lei do divórcio, um subproduto da modernização económica.

Promiscuidades

A leitura disto no Público on-line vem acentuar o clima de desconforto com que se olha para a vida política e institucional portuguesa. Uma coisa ressalta já com excessiva evidência: há muita promiscuidade entre o poder político e as instituições de justiça. O poder político tem demasiadas possibilidades de nomear e desnomear, interferir e orientar o curso da justiça. Se eu não quero uma república de juízes, também não quero que a Justiça possa ser controlada pelos executivos. O parlamento faria bem em seguir a sugestão do juiz Santos Cabral, chamá-lo e ouvi-lo. Se há alguém que merece respeito e cuja palavra seja credível é o juiz Santos Cabral, cuja demissão de director nacional da Polícia Judiciária nunca foi bem explicada.

Jornal Torrejano, 30 de Janeiro de 2009

Vamos lá ver, então, o que traz o Jornal Torrejano na edição de hoje. Para começar uma notícia da terra onde nasci: Meia Via outra vez sem médico de família, José Gil promete luta sem tréguas. Referência ainda para Destacamento da GNR faz balanço positivo da sua acção.

Na opinião, comece-se com o cartoon de Hélder Dias. Depois, na opinião escrita, Carlos Henriques escreve FC Porto líder na primeira volta, Carlos Nuno, A porrada, Inês Vidal, Políticas à parte, José Ricardo Costa, CDS we can! e Vítor Lúcio Freire, Barack Hussein Obama.

Bom fim-de-semana e, se os deuses estiverem pelos ajustes, até à próxima edição do Jornal Torrejano.

A carta rogatória

Como já se percebeu há muito, não nutro qualquer simpatia política por José Sócrates. Considero mesmo que Portugal e o próprio Partido Socialista, embora este seja uma instituição profundamente doente, teriam muito a ganhar, se se livrassem da personagem. Mas há uma coisa que não compreendo: como é que a carta rogatória das autoridades policiais inglesas para as portuguesas surge hoje publicada no Diário de Notícias. O segredo de justiça em Portugal é a coisa menos secreta que se possa imaginar. Toda esta triste história do Freeport, telenovela ao gosto indígena, mostra bem a natureza da sociedade portuguesa e da fragilidade das instituições democráticas. Não estivéssemos na União Europeia, e um golpe militar - como há tempos disse o dr. Mário Soares - já teria posto cobro, ou estaria em preparação para o fazer, ao regime democrático, em nome da moralidade e dos bons costumes. Estas telenovelas têm, assim, um fundo trágico. Representam a manifestação de uma ameaça latente sobre o destino comum. Toda a gente percebe que certos comportamentos não trazem saúde às instituições, mas ninguém parece importar-se. É como se políticos, gente da justiça e jornalistas pensassem que se alguém tem de se afundar, então que vá todo o barco ao fundo. A minha convicção é que se as tropas, num acesso de desvario, saíssem à rua e tomassem conta da casa, não faltaria quem viesse para a rua aplaudir. Foi assim a 28 de Maio de 1926, foi assim a 25 de Abril de 1974, por que razão não seria assim agora?

29/01/09

Ninguém escreve na noite

Edward Hopper - The Night Window, 1928

Ninguém escreve na noite
o rumor dos passos que te anunciam.
Por vezes vens leve e silenciosa
como se foras uma sépala negra
onde me recolho ao amanhecer.

Se o vento empurra ainda a cortina
não é para a luz dali sair,
mas para que as trevas cheguem
e cubram de cansaço o coração
antes que a morte o venha adormecer.

Canto Ostinato on two pianos, Sandra & Jeroen van Veen

Douglas Sirk - The Tarnished Angels (1957)

As erínias

José Sócrates é, do ponto de vista estritamente político, uma das figuras mais detestáveis da democracia portuguesa. Nunca um governo e um governante foram tão arrogantes, nunca uma equipa governamental foi tão fria no esmagamento dos supostos "inimigos", nunca ninguém tratou com tão grande desprezo político órgãos de soberania de posição diferente da sua. A política do actual governo é uma montagem contínua de efeitos de propaganda, onde os governantes, com Sócrates à cabeça, parecem uma trupe de actores a dizer os respectivos papéis. Gostava só de lembrar a frieza e o cinismo político com que Sócrates, no caso do famigerado estatuto dos Açores, tratou o Presidente da República. Esta frieza maquiavélica, baseada no mero cálculo de oportunidades, tem dado alguns frutos ao nível das sondagens. O problema, porém, é que a manutenção sistemática da atitude exigiria dos seus executantes uma natureza divina, imune à falibilidade da condição humana. Nos tempos de Maquiavel, essa natureza "divina" era dada, aos governantes, pelo poder discricionário, onde a violência se prolongava até à prática sistemática do assassínio. Em democracia, a frieza maquiavélica é restrita e submetida ao império da lei humana. Quando ela é a principal arma de uma política, os deuses não tardam a lembrar aos mortais que governam outros mortais a sua verdadeira condição. Tenho esperança, para a sanidade mental de todos nós, que as suspeições que caem sobre o primeiro-ministro sejam falsas. Mas ao observador do fenómeno político, o calvário a que Sócrates tem sido sujeito parece ter uma dimensão metafísica, um ataque violento das erínias. Um rancor interminável parece ter caído sobre o primeiro-ministro, castigando-o, porventura injustamente aos olhos dos mortais e da justiça humana. Já tenho lido, a propósito do caso Freeport, que à mulher de César não basta ser, é preciso parecer. Mas aqui há ainda um equívoco. A um governante não basta ser e parecer ao mesmo tempo. É precisa que ele não desencadeie contra ele, pela arrogância do seu comportamento, o zumbido das erínias. E quando as fúrias são desencadeadas, sejam os motivos apresentados injustos, elas nunca são benevolentes. Os políticos bem precisariam, no lugar de fazerem o "curso" nos truques das juventudes partidárias, esses seminários de tiranetes impotentes, de estudar metafísica e fazer um curso completo de cultura clássica aplicada, fossem eles não perceber. São coisas que não ocorrem a um engenheiro.

Transparências

Transparência é uma coisa que não cai lá muito bem aos negócios públicos em Portugal. Talvez seja o senso comum indígena, o segredo é a alma do negócio, talvez a velha tradição católica, onde tudo se resolve no segredo dos confessionários. Isto entranha-se mas não se estranha e, quando é necessário que as instituições públicas e os concursos sejam transparentes, nós fazemos que sim, que sim senhor, mas o edifício, mesmo quando não é absolutamente opaco, é a dar para o translúcido: a luz passa, vêem-se silhuetas, mas de facto não se percebe nada do que se passa lá dentro. Consta que a Comissão Europeia está a chegar a estas mesmas conclusões: há problemas de transparência por cá. Por isso, decidiram levar o Estado português a tribunal por falta de transparência na selecção de fornecedores de telecomunicações. Segundo o Público, o «executivo comunitário instaurou processo contra Portugal no Tribunal de Justiça das Comunidades Europeia, “por não terem sido designadas as empresas responsáveis pelo fornecimento dos serviços básicos de telecomunicações através de um procedimento de selecção aberto que não exclua a priori qualquer empresa – como exigem as regras comunitárias das telecomunicações".» São mesmo estranhos os tipos de Bruxelas. Querem procedimentos abertos e não exclusões a priori. Se eles vivessem em Portugal, descobririam que a nossa sociedade vive de procedimentos fechados e que mais de metade da população, falando por defeito, está excluída a priori. Talvez o Tribunal de Justiça da Comunidade Europeia venha civilizar, um pouco, os chefes indígenas.

Banalidades inúteis

As pessoas que ocupam cargos públicos deveriam resistir aos jornalistas e a si mesmas. Deveriam estar caladas. Ontem, foi o Procurador-Geral da República, Pinto Monteiro a mostrar que se dá mal com as palavras e os conceitos: O caso Freeport que está sob investigação «está na moda, mas é um caso como tantos outros», afirmou ontem o procurador-geral da República, Pinto Monteiro, ao ser confrontado com questões dos jornalistas sobre o processo. Uma questão de moda? Parece que nenhum nome de pessoa importante no regime aparece associado a ele. Aquilo que a imprensa vem deitando cá para fora estabelece uma relação, porventura muito injusta, entre o caso Freeport e o nome do actual primeiro-ministro de Portugal. Por isso mesmo, e contrariamente ao que diz o senhor Procurador-Geral, o caso não é mais um como tantos outros. Era bom que um Procurador-Geral evitasse este tipo de banalidades inúteis. O principal defeito dos portugueses não será, propriamente, a estupidez.

28/01/09

Nada sei da margem

Edward Hopper - The Wine Shop

Nada sei da margem
que sombreia o rosto,
nem em que impura fonte
hei-de beber o vinho
que escorre desse mosto.

Apenas canto
e oiço a tua voz fatal
no dia que desliza
e pela noite semeia
a luz de um vendaval.

E se nada tiver remédio,
o céu será deserto.
Mas, sobre a água, a ponte:
talvez do longe
ela faça o mais perto.

Mísia - Os velhos amantes

O sublime terrível

É uma expressão habitual, sobretudo na linguagem religiosa, atribuir a um homem que está a morrer a expressão de que vai do tempo para a eternidade.

Esta expressão nada de facto diria se por eternidade se entendesse aqui um tempo que se estende até ao infinito; porque assim o homem nunca sairia do tempo, mas passaria sempre de um para outro. Por conseguinte, deve por ela entender-se um fim de todo o tempo, com a ininterrupta duração do homem. Mas tal duração (olhada a sua existência como grandeza) deve, no entanto, considerar-se como uma grandeza totalmente incomparável com o tempo, da qual, sem dúvida, não podemos fazer nenhum conceito (a não ser simplesmente negativo). – Esta ideia tem em si algo de atroz, porque conduz, por assim dizer, à beira de um abismo do qual, para quem nele se despenha, nenhum retorno é possível [«No severo lugar, que nada atrás deixa volver, o segura a eternidade com fortes braços», Haller]; e, contudo, este pensamento tem também algo de atraente, pois não se pode deixar de para aí dirigir sempre o olhar aterrorizado [Não conseguem os corações saciar-se de ver, Virgílio]. É o sublime terrível, em parte pela sua obscuridade, em que a imaginação costuma agir com maior poder do que na claridade da luz.
[Kant, O fim de todas as coisas (1794)]

Previsões e revisões

Quarenta milhões de pessoas podem perder o emprego este ano, segundo a OIT. Segundo a previsão efectuada, no quadro mais grave da crise actual. Mas nós devemos estar preparados não para o pior, mas para a contínua revisão das previsões. Portanto, nada espantará que daqui a uns meses o quadro negro se situe lá para os 50 ou 60 milhões.

A telenovela bancária


São pastas sem documentos, planos inviáveis, bancos que ninguém conhece, pressões para revelações. Enfim, uma autêntica telenovela. Mas o que não se compreende muito bem é a súbita conversão à regulação do mercado e, muito menos, por que motivo deverá haver um plano para salvar bancos. Estranho liberalismo este. Por exemplo, não seria uma acção de decoro deixar falir o BPP e o BPN?

27/01/09

Philip Glass - Metamorphosis 1

Isto é o que estava a ouvir, no leitor de CD, há pouco, enquanto prosseguia uma jornada de trabalho iniciada por volta das 8:30 e ainda não concluída. E acho que não vou conseguir fazer tudo o que quero. A bela e regalada vida de um professor. Amanhã será o mesmo. Foi mesmo para dizer qualquer coisa aqui.

26/01/09

Não sei se a verdade é uma rosa

Edward Hopper - Sun in empty room

Não sei se a verdade é uma rosa
ou uma manhã de sol em casa vazia.
Às vezes julgo ser um vulcão,
outras uma voz sombria.

Se ilumina a parede,
mostra-me de onde partiste:
ali já não estão os teus cabelos,
nem as pálidas mãos
com que do meu desejo te despedias.

Estremeço, se olho pela janela,
e desconheço se és a luz da rua
ou apenas a sombra
onde se esconde o desejo da rosa,
em tuas mãos havia.

Giacomo Meyerbeer - Les Huguenots - "O beau pays" (Joan Sutherland)

Douglas Sirk - Write on the Wind - Dorothy Malone (1956)

Krisis e proairesis



Este é um pequeno retrato, um instantâneo, da situação a nível internacional. Há algumas coisas que merecem meditação:

O que se está a passar revela uma coisa que tendencialmente nós esquecemos: existir, viver, estar no mundo é uma coisa problemática e a vida, por mais que criemos direitos para a proteger, está constantemente à beira da crise. Se os direitos, neles incluídos os direitos socais, fazem sentido dentro do jogo da linguagem social, já não fazem qualquer sentido dentro do jogo da linguagem da natureza. Na natureza, sobreviveremos se nos conseguirmos adaptar. O problema é que esquecemos muitas vezes que as sociedades humanas são construções fundadas na natureza e que, por mais eficiência que se consiga na vida social, a natureza, com os seus humores variáveis, acaba sempre por irromper, mostrando a fragilidade da nossa existência. Seria bom, assim, compreender que as situações críticas não são uma especificidade dos sistemas capitalistas, mas do mero facto do homem vir ao mundo. O Iluminismo, tanto o de cariz liberal como o de feição marxiana, espalhou a ilusão de ser possível construir sociedades imunes às crises. Não podemos, pelo simples facto da nossa constituição ontológica o não permitir: a crise é inerente à natureza do homem e de tudo o que ele constrói.

Isso não significa, porém, que uma conduta descuidada e desregulada seja a resposta ao existir crítico do homem. As sociedades humanas não são uma espécie de duplicação de uma natureza anterior ao estado social, mas formas dos homens regularem as suas relações com a natureza, com os outros homens e, com o mundo sobrenatural (seja este real ou puramente imaginário). Se a crise se inscreve na estrutura ontológica do homem, a verdade é que o jogo cooperativo que é a sociedade visa diminuir ao máximo os perigos que, para o homem, representa uma natureza deixada sem vigilância. Quando se imagina o mercado, um produto social, como sendo regulado por leis "naturais", está-se a esquecer a essência social e reguladora de todas as instâncias sociais, entre elas o mercado. Uma das consequências pode ser, então, a seguinte: o mercado, em vez de produzir um papel regulador na distribuição dos bens que são necessários aos membros da espécie, pode arrastar muitos desses membros para situações críticas, porventura inultrapassáveis (veja-se: Continuam a faltar alimentos para 963 milhões de pessoas em todo o mundo).

Inerente à essência do homem é, ao mesmo tempo, a assunção da importância do risco e da regulação. No pensamento grego, à krisis responde a proairesis, isto é, a escolha deliberada. É na dimensão da deliberação que se encontra a resposta para a prevenção e solução das situações críticas. Deliberar implicar o uso da razão na ponderação, na busca do equilíbrio e da justa medida. Quando a razão se afasta da justa medida e se torna um mero instrumento de cálculo da eficiência, os actos tornam-se desrazoáveis e a capacidade dos homens fazerem frente às situações críticas, inerentes à existência, torna-se cada vez mais frágil. A crise financeira e o triste espectáculo a que se assiste deve-se, em última análise, a decisões de carácter filosófico que desvalorizam, tanto nas decisões individuais como nas institucionais, o papel da razão enquanto faculdade de deliberar em conformidade com o equilíbrio e a justa medida. O que mostra uma característica nem sempre muito clara da própria razão: a sua vulnerabilidade.

Perdi a fé

Desisto! Muito eu gostava de ter fé. Não estou a falar daquela fé que move montanhas, mas numa outra mais prosaica: a fé nos vaticínios económicos. Agora é o Presidente do Bundesbank (logo do Bundesbank), Alex Weber, que nos diz que a crise financeira internacional é muito mais ampla do que se esperava. Um pobre mortal, educado no temor e na reverência pela ciência económica, sente-se, a cada dia que passa, mais desgostoso e desorientado. Que ciência estaria mais apta, depois da morte de Deus, para dar sentido à vida e prever os fluxos favoráveis do nosso dinheiro, para atrair os bons espíritos da riqueza e afastar os demónios da perda e da desgraça? A Economia, gritará o leitor. Essa deveria ser a ciência exacta que nos guiaria na vida e na selva do mercado. Mas o que se passa é que, se prestarmos atenção, a Economia não é uma ciência, mas uma arte do vaticínio, tão eficaz e profunda como a astrologia, a leitura das mãos, ou a interpretação do voo dos pássaros. Tem, porém, algumas vantagens: contrariamente às outras artes suas irmãs, a Economia pode ir sempre refazendo as suas previsões, ora revendo em baixo isto, ora revendo em alta aquilo. É mais ou menos como se no totobola fosse permitido que alterássemos as apostas até ao fim dos jogos. Mas a vantagem maior é que, apesar desta desilusão constante que os economistas produzem, eles obtêm um efeito extraordinário. Quanto mais se enganam, quanto mais desconhecem e quanto mais revisões fazem, maior é o prestígio de que gozam na esfera pública. É como se, utilizando ainda uma metáfora futebolística, aqueles avançados que falham todos os remates e não marcam um golo que se veja, fossem considerados os melhores e mais bem pagos. Por mim, impediria a Economia de ser ensinada no sistema universitário. Permitia apenas um instituto de artes da adivinhação, onde se ensinaria economia, ao lado da astrologia e da leitura de búzios.

25/01/09

Alban Berg Quartet - Beethoven String Quartet Op. 18 No.1 1st mvt

Limites

Onde reside o principal problema de Barack Obama? No mesmo sítio onde reside o principal problema de todos os recém-eleitos. A sua agenda é marcada por aquele que é substituído no cargo. Diz-se que Obama está a cortar com os principais vícios da administração Bush. É provável, mas isso apenas signifca que a agenda de Obama, como no caso de Guantánamo, está dependente da agenda de Bush. Quando toda a gente reclama um caminho novo, os recém-eleitos apenas podem caminhar, mesmo que em sentido inverso, pela estrada desenhada pelo inquilino anterior. Eis um dos limites da acção política: cada novo príncipe, digamos assim, vai encontrar um mundo velho e problemas antigos. Não há redenção possível nem um mundo novo, quanto muito algumas alterações no estilo e, por vezes, uma ou outra inversão de sentido. O que pode ser suficiente, diga-se de passagem.

Mais tarde

Edward Hopper - Autovía con cuatro carriles
Mais tarde,
quando o Verão chegar,
grávido de metáforas fúteis,
deixem-me os olhos a pairar
sobre a estrada vazia,
cansados de cores e palavras inúteis.

Mais tarde,
passado já o Outono,
se Inverno ainda tiver,
deixem-me a alma ao abandono;
tão frágil e tão fria,
nem um deus a há-de querer.

Mais tarde,
depois do tempo acabar
e negro for o paul,
deixem-me a voz a murmurar
à luz velada da invernia
ou nas planícies viradas ao sul.

Douglas Sirk - Imitation of Life (1959)

Continua a minha viagem pelo universo melodramático de Douglas Sirk.

Escrever na terra

(Imagem retirada do blogue Arestas)

No episódio biblíco da mulher adúltera (Jo 8, 1-11), aqui citado ontem, há, para além da não condenação da mulher, uma outra coisa que me deixa perplexo e que merece meditação. Quando os Escribas e os Fariseus trouxeram a mulher apanhada em flagrante delito, disseram a Cristo que a lei mosaica mandava apedrejar tais mulheres e, de seguida, perguntaram-lhe: Tu pois o que dizes? A resposta de Cristo foi inclinar-se e escrever na terra. Só perante a insistência é que, endireitando-se, lhes dá uma resposta oral: o que estiver sem pecado, que seja o primeiro a atirar uma pedra. Depois, inclinou-se e voltou a escrever na terra. O que causa perplexidade é este escrever na terra. Como interpretar tal acto?


Esta escrita de Cristo só se pode compreender na relação com as personagens dos Escribas e dos Fariseus. Os primeiros eram doutores da lei mosaica, os segundos, defensores de uma aplicação estrita dessa mesma lei. Uma primeira leitura da escrita de Cristo é aquela que é mais corrente: a lei mosaica deveria ser substituída por uma nova lei, a que estivesse fundada no perdão. Há uma confrontação clara entre duas leis, dois discursos e duas regras morais para a acção. Mas aquilo que é problemático, na minha óptica, é o facto do discurso ser agora impresso na terra, no pó e não na pedra (símbolo de eternidade). Isto abre uma outra perspectiva de confronto, porventura mais interessante: à lei eterna dada por Deus a Moisés contrapõem-se, agora e por iniciativa de Cristo, o filho de Deus, uma lei temporal, evanescente, mutável e adaptável às situações. A intemporalidade e eternidade das coisas terrenas desaparece, como desaparecem as palavras que escrevemos no pó da terra. A lei, inclusive a lei moral (Cristo não parece ser um kantiano), torna-se, pelo acto de Cristo, puramente histórica, algo que se escreve, mas que o tempo apaga. As leis que regem os homens não são eternas, mas resultam das circunstâncias históricas e do grau de consciência dominante em cada época (quem estiver livre de pecado, que atire a primeira pedra). Por este acto, Cristo rouba a humanidade à ciclicidade mítica, reflexo da imutabilidade e perenidade do divino, e fá-la entrar na linearidade histórica. É disto que nós, ocidentais, somos herdeiros: Cristo trouxe-nos a história e as suas metamorfoses.

A conquista da Europa



O bispo de Alepo, na Síria, disse hoje, em Fátima, algumas coisas interessantes: "no Islão há tendências fundamentalistas que fazem tudo, directa ou indirectamente, para fazer os cristãos partir" do Médio Oriente. Mas a situação não fica por aqui: "há um discurso nos 'media' muçulmanos, nas mesquitas, nas escolas" de que o Islão está no "início da conquista da Europa". "Na Europa, o secularismo e a exclusão de cristãos inquieta-nos e reforça os muçulmanos", sublinhou o prelado, lembrando o que os muçulmanos dizem: "Já não há fé, nem família, nem moralidade na Europa. Pacificamente, vamos pregar-lhes o Alcorão e vamos todos convertê-los ao Islão".

Contrariamente ao que se pode pensar, e há muito boa gente a pensá-lo, o ateísmo e o agnosticismo generalizado não são vacinas contra o fanatismo religioso. Pelo contrário. A evacuação do espaço público europeu da presença do cristianismo é uma janela de oportunidade para a penetração do Islão. O ateísmo ou o agnosticismo são exercícios intelectuais complexos e inerentes a minorias restritas, mas a fé e a crença no além são inerentes aos grandes grupos sociais. A diminuição do cristianismo na Europa é um perigo real e efectivo. O sentido que ele dava à vida das pessoas desapareceu, mas essa ânsia de um sentido transcendente não desapareceu. Perante o desespero, as grandes massas acabarão por se entregar nos braços de quem tiver um programa claro e um rumo firme em direcção à transcendência. Não por acaso, as conversões de ocidentais ao Islão estão a crescer, mesmo depois dos actos terroristas dos fundamentalistas. O Islão tem um programa de limpeza moral e isso acaba por agradar às pessoas, mesmo àquelas de quem se poderia dizer que possuem uma moral duvidosa. Talvez ainda não se tenha percebido bem o fascínio que reside na ideia de retorno do filho pródigo. Saliente-se ainda uma coisa para os mais distraídos: as alterações nas configurações ideológicas são muito mais rápidas do que eram há apenas umas dezenas de anos atrás. Neste mundo volátil vai acabar por imperar a força que fomenta e sustenta convicções. É desagradável? Sim, é bastante desagradável...

Militares e professores

O Sol on-line noticia que a Marinha tem mais almirantes que navios. Parece uma notícia factual. O que é interessante, porém, é a reacção dos comentadores, a vox populi e, como todos sabemos, vox populi, vox Dei. Um comentário é elucidativo: «Este é juntamente com os professores o maior cancro da nossa sociedade e não é só os almirantes é a tropa toda. Depois temos que comprar barquinhos e aviões para os parasitas brincarem com o nosso dinheiro.» A coisa é bastante simples: fechem-se as escolas, os quartéis, talvez os hospitais, os tribunais, não esqueçamos de fechar o parlamento, as esquadras de polícia e, já agora, os hospitais e centros de saúde. Dispensem-se todos esses parasitas, gente ignara que julga dever receber um ordenado pelo serviço que presta. Uma coisa é discutir a eficiência do serviço público, outra coisa é a cultura de ressentimento que existe na sociedade portuguesa contra o próprio Estado. Mas este ressentimento, que esconde uma espécie de ódio, é apenas a outra face do desejo de depender do Estado. É um caso psicanalítico.