17/09/08

Cansado, retirou-se o Verão para outro hemisfério

John Everett Millais - Autumn Leaves (1855-1856)

Cansado, retirou-se o Verão para outro hemisfério
e o Outono veio com caruma e folhas de vidro
e árvores despidas ao vento frio da morte.
O céu e a terra fundiram-se e a linha do horizonte
anuncia a fronteira que separa dias, horas,
a loucura a crescer extasiada e voraz na boca
sequiosa; aí nasce uma rosa de luz, desmesurada e nua.
Em cada rosto preso nessa rosa há um enigma,
a pequena sombra, o risco de lava, a memória azul
onde se perderam todos os nomes suspensos,
pela tarde crua, sobre a pira de folhas secas,
o tempo as trouxe ao imolar-se no silêncio da jornada.

Do daltonismo na história

Mas que sabemos nós do rumo da história, que segundo uma lei que a lógica não compreende, que se move e muda de direcção no seu movimento, muitas vezes num momento decisivo, por causa de minudências imponderáveis, por uma mera corrente de ar quase imperceptível, uma folha que cai no chão, uma troca de olhares no meio de um grande ajuntamento! Mesmo em retrospectiva, não podemos saber como era realmente antes e como surgiu este ou aquele acontecimento mundial. O mais rigoroso estudo do passado não chega mais perto dessa verdade que a imaginação não atinge do que, por exemplo, a disparatada afirmação que uma vez ouvi a um tal Alfonse Huyghens, diletante que vivia na capital da Bélgica e há décadas se dedicava a investigar Napoleão, segundo o qual todas as convulsões causadas nos países e reinos da Europa pelo imperador dos Franceses se deviam somente ao seu daltonismo que o impedia de distinguir o vermelho do verde. Quanto mais sangue corresse no campo de batalha, disse-me o investigador belga, mais verdes lhe pareciam os campos. [Sebald, Campo Santo, pp. 19]
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Não falta por cá Huyghens. De daltónicos também temos o stock bem provido.

Economia da testosterona

Uma equipa de investigação da Universidade de Aberdeen, no Reino Unido, chegou à conclusão que o tipo de pessoa que achamos sexualmente atraente varia em conformidade com os níveis de testosterona (aqui), de cada momento. Depois de muito meditar, achei que o estudo tinha elevado potencial económico. Talvez possa mesmo vir a ser um ponto de viragem na malfadada crise económica. Poder-se-á prever o surgimento, a breve prazo, de um kit com um aferidor salivar de testosterona e as respectivas pílulas hormonais, para casos de baixa produtividade. Vale mais uma pessoa acautelar-se, não vá sentir-se atraída por alguém que, noutro pico de produção glandular, se arrependa. Não faltarão clientes.

E por cá?

Parece que não é só nos EUA que há bancos em muito má situação. Também no Reino Unido começam a aparecer. Quanto tempo falta para se descobrir o mesmo por cá?

16/09/08

Tudo apela à cegueira, o sol nas águas

William Holman Hunt - Fairlight Downs, Sunlight on the Sea


Tudo apela à cegueira, o sol nas águas
reflectido, o fogo na linha do horizonte,
o excesso de realidade a abrir-se para mim.
Antigamente sonhava com casas de colmo
e barcos a velejar ao longe, levados
pelo vento suave que de tuas mãos se desprendia.

Mas isso foi antes de ter entardecido…
Os rebanhos foram vendidos,
a erva secou e um incêndio esmaltou a negro
o lugar onde se erguiam as frágeis cabanas,
nelas abrigávamo-nos das intempéries
e eu oferecia-te flores silvestres
e em tuas mãos havia frutos
e um rumor de luz humedecia-te os lábios.

Agora, se chega a primavera, apenas oiço
os pássaros a anunciar o cansado coração
e se olho o mar, não é o azul do céu que vejo,
mas a sombra das hienas que se estende
pela planície que da tarde vai até ao amanhecer.

W. G. Sebald - Campo Santo


Nos dias que passaram em Paris, os dois amigos [Max Brod e Franz Kafka], um tanto abatidos, visitaram diversos lugares e tentaram a sua sorte ao amor num bordel «racionalmente mobilado» com «campainha eléctrica», onde tudo era feito com tal despacho que os clientes se viam de novo na rua quase sem darem por isso. «Ali», escreve Kafka, «é difícil ver as raparigas bem de perto […] Na realidade, só tenho na memória a que estava sentada mesmo na minha frente. Tinha frinchas entre os dentes, esticava-se toda para cima e, segurando o vestido amarfanhado sobre as vergonhas, fechava com força tanto os olhos grandes como a boca grande. O cabelo louro estava sujo. Era magra. Medo de me esquecer de tirar o chapéu. É preciso agarrar bem a aba com a mão». Até o bordel tem que ser comme il faut. «Solitário, longo, sem sentido, o caminho para casa», conclui a nota.

O juiz Vital

Vital Moreira, na sua cruzada pelo governo de Sócrates, escreve, no Público de hoje, sobre educação e a maravilhosa reforma que nela está a ocorrer. A cegueira sectária, o desconhecimento da realidade, a incapacidade de pensar sobre o que diz, a impotência para perceber o que realmente se passa explicam os delírios a que um dos pais do actual regime se entrega no artigo. No comentário que Paulo Guinote faz no seu Umbigo à prosa vitaliana, compara-o, na cegueira ideológica, a Graça Moura dos tempos do Prof. Cavaco primeiro-ministro. Há uma coisa, porém, que Graça Moura tem vantagem: é um bom poeta e um excelente tradutor de poesia, e isso perdoa muita coisa. Não se conhece veia artística no professor de Coimbra, apenas o azedume da ideologia a ferver no caldeirão do direito constitucional, e uma propensão geral para se enganar nos juízos políticos idêntica à persistência com que teima em fazê-los.

Vícios privados


Dantes gostava de ir às livraras e às discotecas ver o que havia e comprar alguma coisa que me interessasse e não excedesse por aí além o orçamento previsto. Era um prazer público. Mas dois acontecimentos concomitantes vieram diminuir esse gosto. Por um lado, o desenvolvimento do comércio electrónico, nomeadamente, o surgimento dessa verdadeira instituição de utilidade para o público que dá pelo nome de Amazon. Por outro, a falência da memória pessoal. Muitas vezes estou numa livraria ou numa discoteca e pergunto-me se já terei comprado aquele livro ou CD. Sinto-me perdido também por outro motivo. Quero ver se há livros novos de um autor e quando chego à livraria não consigo recordar-me qual é o nome dele, apesar de saber as obras que li dele. É um momento de angústia, não saber onde procurar o que quero. Assim tenho vindo a substituir a compra pública pela privada.

Por exemplo, no outro dia fiz anos e decidi, depois de consultar as estantes, oferecer-me, nesse mesmo dia, um presente. A Amazon francesa estava a vender a 4 euros CD’s de jazz, fora o IVA e o transporte. Comprei 20, entre eles oito de Miles Davis. Quando chegaram, por acaso, fui comparar os preços dos CD’s de Davis, adicionando IVA e transporte, com os praticados por cá pela FNAC. Descobri que os tinha comprado a metade do preço. Eu sei que isto mata os espaços nacionais e locais, mata também a ida aos lugares públicos, o encontro com os outros e transforma o mundo numa virtualidade. É tudo verdade, mas também é verdade que a vinda do correio se tornou muito mais emocionante. Abrir a caixa do correio e encontrar lá o CD ou o livro comprado há dias é uma espécie de rememoração dos tempos em que os apaixonados trocavam cartas de amor em vez de sms’s. Não há nada como os vícios privados.

15/09/08

Chamei-te para ensombrares

Henri Fantin-Latour -The Queen of the Night

Chamei-te para ensombrares
os meus sonhos mais longínquos
e para esquecer os devaneios da luz,
mergulhado num mar de carvão
ou agrilhoado naquela inútil melancolia
de sombras pelas paredes desenhadas.

Como todas as rainhas, dormes
sobre o desejo de cada súbdito
e esqueces o frágil coração a arder.
Por isso, nenhum anjo te acordará
nem um deus cantará para ti
uma alegre canção de embalar.

Se a noite me empurra porta fora,
resta-me espreitar pela janela.
Oiço-te respirar no silêncio das nuvens
e conto cada rosa que colhi
para traçar o teu nome
com o sangue impreciso desta mão.

Para os viciados em educação

Pronto! Não me apetece falar de escolas, de educação e de outras coisas insensatas. Mas para quem estiver viciado deixo dois links para satisfação da conduta aditiva: Ponteiros Parados e Portugal dos Pequeninos.

A coisa está má...

Neste admirável mundo novo, se escaparmos à crise económica que aí vem, há ainda a esperança de que a humanidade não resista à pandemia da gripe das aves. Se também esta falhar, que não se desanime, pois há os furações, o degelo, enfim, o efeito estufa e o aquecimento global. Mesmo assim se a peste humana teimar em permanecer neste malquisto planeta, há sempre a solução da guerra nuclear.

Um caso patético

Há qualquer coisa de patético em Luís Filipe Menezes, o presidente de câmara que se acha um Ferrari da política. Agora atira-se a Marcelo Rebelo de Sousa, como ontem se atirou a Manuela Ferreira Leite e anteontem a Luís Marques Mendes. Menezes é, segundo a sua visão política, um génio incompreendido. É por isso que, perante o pathos que Menezes provoca, nunca se sabe bem se se deve chorar ou rir. Tornou-se um caso patológico dentro da infecção geral que é o PSD.

O planeta Economia

A economia é um estranho planeta onde os pobres mortais como nós, seres humanos, não deveríamos entrar. Veja-se a série de títulos de hoje, no Público on-line, sobre a economia mundial: 1. Lehman Brothers, um dos maiores bancos dos EUA, declara falência, 2. Bolsa de Nova Iorque afunda penalizada pelo Lehman e Merrill Lynch, 3. BCE injecta 30 mil milhões de euros para acalmar mercados financeiros, 4. FMI não está surpreendido com a falência do Lehman Brothers e espera mais consequências, 5. Bolsa de Lisboa acompanha resto da Europa em forte queda, 6. Bush acredita na capacidade do mercado para enfrentar "ajustamentos", 7. Teixeira dos Santos surpreendido com duração da instabilidade nos mercados financeiros, 8. Joseph Stiglitz prevê crise com menor impacto do que a Grande Depressão de 1929. Como se vê, estamos a caminho do paraíso, independentemente das capacidades proféticas, provadas ou a provar, de Bush, Teixeira dos Santos e Stiglitz. Este deixa-nos completamente tranquilos: profetiza que a crise será menor do que a de 1929, aquela que levou ao nazismo e à guerra mundia. Esta se provocar apenas outra guerra mundial já não terá tanto impacto como a anterior, digo eu. Por exemplo, uma guerra mundial sem nazismo é muito melhor do que uma guerra mundial com nazis. Mas isto são palavras de uma alienígena no planeta Economia.

14/09/08

O mundo das coisas domésticas

William Chase – Alice in Studio in Shinnecock Long Island

O mundo das coisas domésticas,
onde poisas os olhos, é tão brando
e imaculado como o assombro
que vem do outro lado do espelho.
Nele tudo se reflecte, os lírios
debruçados sobre o mar,
a luz da lua ao entardecer,
o itinerário dos pobres a pedir,
o uivo quebrado do cão ao meio-dia.

Só os teus dedos são um cálculo
onde conto todos os átomos deste mundo,
para depois os separar um a um
e reconstruir, no ócio dos domingos,
outros mundos, como se tudo
fosse apenas um jogo de lego,
recebido num natal de há muitos anos.

Cansado de te olhar, deixo-te
suspensa no tempo e roubo a tua imagem
do espelho para fugir com ela
para aquele lugar de lego fabricado,
onde não haverá sonhos nem pesadelos
nem um rio por onde chegues
naquele barco onde caronte é o barqueiro.

Ainda sobre filosofia e literatura

Ainda sobre Filosofia e Literatura. É muito curioso que Kant comece o Capítulo III da Analítica dos Princípios - denominado "Do princípio da distinção de todos os objectos em geral em fenómenos e númenos", capítulo que tem um lugar central no pensamento do autor - com uma homenagem não a um filósofo, mas ao pai da literatura ocidental, a Homero. Todo o texto do post anterior ecoa as aventures de Ulisses para retornar à pátria. Que o resumo que um autor como Kant faz do seu próprio pensamento seja feito por referência à arte poética e não à filosofia ou à ciência mostra bem a natureza do núcleo central da filosofia. Por baixo da carapaça lógico-argumentativa encontra-se a dimensão da metáfora e da poesia. Nem Kant conseguiu fugir.

Um texto de Kant para o Zé Ricardo

Por causa de uma certa conversa sobre filosofia e literatura, aqui vai um texto de Kant retirado desse compêndio de insipidez literária que é, diz-se, a Crítica da Razão Pura. Ora vejamos:

«Percorremos até agora o país do entendimento puro, mas também medindo-o e fixando a cada coisa o seu lugar próprio. Mas este país é uma ilha, a que a própria natureza impõe leis imutáveis. É a terra da verdade (um nome aliciante), rodeada de um largo e proceloso oceano, verdadeiro domínio da aparência, onde muitos bancos de neblina, e muitos gelos a ponto de derreterem, dão a ilusão de novas terras e constantemente ludibriam, com falazes esperanças, o navegante que sonha com descobertas, enredando-o em aventuras, de que nunca consegue desistir nem jamais levar a cabo. Antes, porém, de nos aventurarmos a esse mar para o explorar em todas as latitudes e averiguar se há algo a esperar dele, será conveniente dar um prévio relance de olhos ao mapa da terra que vamos abandonar, para indagarmos, em primeiro lugar, se acaso não poderíamos contentar-nos, ou não teríamos, forçosamente, que o fazer, com o que ela contém, se em nenhuma parte houvesse terra firme onde assentar arraiais; e, em segundo lugar, perguntarmos a que título possuímos esse país e se podemos considerar-nos ao abrigo de quaisquer pretensões hostis.» (Kant, CRP, trad. portuguesa de Manuela Pinto dos Santos e Alexandre Fradique Morujão. Gulbenkian, pp. 257)

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O que é extraordinário neste texto é o recurso de Kant a uma belíssima metafórica para resumir todo o seu pensamento sobre a metafísica enquanto ciência. Se alguma vez voltasse a ensinar Kant, começaria por este texto. Quando, nas aulas de Filosofia Contemporânea, o professor, Manuel do Carmo Ferreira, o atirou para a nossa frente ficámos todos de boca aberta. Alguns de nós já o tínhamos lido, mas de facto não o tínhamos "lido". São estas "pequenas" coisas que se devem aos grandes professores.

13/09/08

Caminho na multidão de folhas mortas

John Atkinson Grimshaw – October Gold

Caminho na multidão de folhas mortas
e penso em todos os outubros
que haverá no silêncio do paraíso.
O sol será frio e apenas me aquecerá
uma aguardente de uvas maceradas
pela inconstância de tuas mãos.

Pergunto-te, na liberdade que há
em todos os paraísos, pelas cores
que tingem os céus e pelos cheiros
que se desprendem das destilarias.
Mas nada respondes,
fechado no silêncio a que deste
o nome de eternidade.

Um pouco mais tarde, levanto-me
e guiado pela flutuação do astro
sigo caminho, entre paredes de tijolo,
pisando o mosto que cada dia
deixa na senda por onde
não mais retornarei para colher,
sob a luz filtrada do entardecer,
rosas e bagas silvestres.

Andrew Chubb plays Hans Otte - 'The Book of Sounds' - Part 5

O que será que os junta?

Há qualquer coisa que junta Aníbal Cavaco Silva e Maria de Lurdes Rodrigues. Se não tivesse vivido a reforma cavaquista da educação, não teria percebido. Mas quem a viveu, percebe muito bem que há coisas que unem ambas as políticas: a irrelevância do ensino, a transformação da escola pública num interminável jardim de infância. Mas esta estima mútua é também, e talvez fundamentalmente, cultural, como se ambos pertencessem ao mesmo mundo e tivessem um inimigo comum e oculto: o mundo dos intelectuais e da cultura, mundo esse que deve ser expulso rapidamente e em força da escola pública.

12/09/08

Na pureza geométrica onde a razão desdenha

John Atkinson Grimshaw – In the Pleasaunce (1875)

Na pureza geométrica onde a razão desdenha
dos enigmas do sentimento senta-se
uma sombra tão leve como esta folha de papiro.
Ali escondo, em cerrada cifra, todos os segredos
do rio que escorre dos cântaros do teu coração.

Que fazer se o sol te ilumina o rosto
e toda a alma nele se reflecte? Se ocultavas
a perturbação que de ti se apossara
a luz abriu o cofre e o tesouro de cinza e sangue
entrega-se ao vento da tarde que pela vida o deixará.

Jornal Torrejano, 12 de Setembro de 2002

Cá está ela, a nova edição on-line do Jornal Torrejano. Para primeira página temos o magno problema da transferência de competências das escolas: câmaras querem salvaguardar orçamento e uma entrevista com o Presidente do Atlético Alcanenense.

Na opinião, como sempre, comece-se com o cartoon de Hélder Dias. Depois, Carlos Henriques escreve Voltaram as selecções, Francisco Almeida, Corações escondidos, este blogger, Meditações reaccionárias, José Ricardo Costa, O pequeno-almoço, Miguel Sentieiro, Noves fora e Santana-Maia Leonardo, A minha proposta para o 2.º e 3.º ciclo do ensino básico.

E assim ficou, por aqui, a notícia das notícias. Bom fim-de-semana.

Envelhecer

Quando um governo institui um cheque para premiar o melhor aluno de cada escola, e eu não consigo compreender a bondade educativa da iniciativa, então é porque já estou completamente fora da realidade e os valores sob os quais fui educado perderam todo o sentido. Talvez envelhecer não seja outra coisa do que esta incompreensão estrutural para os novos valores que outros velhos como eu querem impor ao mundo.

Os trabalhos do Papa Ratzinger


Bento XVI é dos poucos homens públicos europeus que vale a pena escutar. Há nele, apesar do ar seráfico com que compõe a sua personagem papal, uma urgência e quase um desespero. Por vezes, penso que essa urgência e esse desespero têm menos a ver com a religião católica e mais com a percepção de que sem o cristianismo a Europa deixará de ser o que é. Na visita a França, hoje iniciada, o problema da diminuição de católicos (80% nos anos 90 do século passado, cerca de 50% hoje em dia) terá, por certo, um enfoque religioso, mas o problema civilizacional não deixará de estar subjacente ao discurso de Ratzinger. O papa sabe perfeitamente que não há vazios religiosos. O ateísmo, o agnosticismo e a indiferença religiosa são apenas o compasso de espera onde outros valores religiosos crescerão e abafarão o cristianismo. Mas sem este, o que alimentará os valores que nasceram dele, como a liberdade?

Adenda: para ler o discurso de Bento XVI hoje no Palácio do Eliseu e perceber a sua preocupação civilizacional, clicar aqui.

Chávez manda EUA para o c...

É o que se chama uma mensagem clara e distinta. Parece que a América Latina se está a tornar um pesadelo para os EUA. Não bastava o Afeganistão e o Iraque, agora até os humores sul-americanos se estão a tornar demasiado agrestes. Como reagirá o eleitorado americano? Confiará em Obama para apaziguar os vizinhos do sul ou continuará a escolher a política musculada dos republicanos? Uma coisa, porém, é verdade: os Chávez da América Latina estão muito longe de morrerem de amores pelo americanos. E quem pensa que o fim de Fidel é o fim de Cuba castrista talvez se engane.

11/09/08

Como pude amar as pontes

Carl Larsson - Brigde and Pig

Como pude amar as pontes
e nelas sonhar cada margem
onde um mundo de gladíolos
me haveria de esperar?

Passam os vivos sob a campânula
dos céus e olham para além da imagem...
Um animal já pela morte tomado
refocila no pó como se a eternidade
estivesse toda ali
e quem passa não soubesse
da vida mais do que o segredo
que a espera ao dobrar-se
na cavalgada para a morte.

Como pude sonhar uma ponte
que ao levar-me de margem a margem
apenas do amor me dá as flores
que me esperam mal termine a viagem?

The Beatles - Love Me Do

Parece que é dia de aniversário...

Salvador Allende


Morreu há 35 anos, vítima do golpe militar de Augusto Pinochet. Há na sua história uma grandeza trágica. Pela primeira vez, no Chile da Unidade Popular, houve uma tentativa de construção do socialismo por via democrática e livre, mas socialismo e liberdade casaram mal. Os poderosos interesses privados ameaçados liquidaram o projecto e o Chile confirmou a visão leninista do marxismo: só o terror – aquilo a que a literatura marxista chama a ditadura do proletariado – poderá assegurar a manutenção do regime socialista. É provável que a visão social de Allende e a sua perspectiva económica estivessem desfocadas da realidade. Creio também que a mitologia marxista que o guiava era pouco sensível à natureza do homem e das suas paixões. O egoísmo intrínseco da espécie, egoísmo que se consubstancia na propriedade privada, não é apenas um produto social, como pensava Marx. Apesar de todos estes equívocos, Allende merece respeito e admiração por não ter suprimido a democracia e por ter tentado fazer a quadratura do círculo. Pagou com a vida.

Catástrofes naturais do dia 11 de Setembro

Nova Iorque, 2001

Santiago do Chile, 1973

Ser professor - II

Vejo muitos colegas meus a ajoujar, a calar-se, a esperar sentados para ver se a onda não bate neles. Mas que cidadãos formarão professores que têm medo, que calam qualquer discórdia, que aceitam qualquer prepotência, que entram em qualquer idiotice proposta por quem manda? Um professor que se demite do espírito crítico ainda merecerá esse nome?

Ser professor

Ser professor, hoje em dia, não é uma profissão nem a realização de uma vocação, mas apenas um acto de penitência.

10/09/08

Portugal - Dinamarca

No fim do encontro, Queirós dizia que Portugal tinha o jogo na mão. O problema é que a Dinamarca o teve no pé. É por estas e outras que me falece a fé nos dotes de Carlos Queirós. Continuo a desejar estar muito enganado, mas hoje...

Arthur Verocai - Presente Grego

Arthur Verocai é um músico brasileiro e o que se ouve neste vídeo pertence ao seu primeiro álbum, de 1972. Verocai esteve 30 anos sem gravar, voltando a editar um novo álbum apenas em 2002.

A persistência da estupidez

Um estúpido digno de nota só estará descansado quando todos se tornarem estúpidos. A estupidez é uma virtude que visa a universalidade. Na sua caminhada para a dominação universal, não se pode dizer que tenha havido retrocessos.

A virtude da estupidez

A estupidez tem duas virtudes: desconhece-se enquanto tal e propaga-se a grande velocidade. Não há coisa estúpida que os estúpidos não desejem ardentemente imitar. A estupidez é uma virtude mimética e no acto de mimar põem os estúpidos todo o fervor que lhes ateia a alma, sem quebranto.

09/09/08

O cristianismo

Pergunto-me por que motivo e apesar de tudo não posso deixar de ser cristão. Encontro nas últimas palavras de Mircea Eliade, em O Mito do Eterno Retorno, a resposta: «Neste aspecto, o cristianismo revela-se incontestavelmente a religião do homem “desiludido”: e isto na medida em que o homem moderno está irremediavelmente integrado na história e no progresso e em que a história e o progresso constituem uma queda que implica, em ambos os casos, o abandono definitivo do paraíso dos arquétipos e da repetição.”

Vivo na história e tenho consciência disso e vejo o progresso empurrar-me sei lá para onde. Isso que me iludiu durante um instante na juventude causa-me, agora, um enorme desprezo. Não há ninguém mais desprezível do que os homens vitoriosos do progresso. Erguem aos céus, em sinal de triunfo, as mãos fechadas, mas dentro delas não têm nada. Cada palavra que proferem, cada acção que praticam, cada gesto que executam, apenas indicam uma coisa: nada. Ser um homem histórico comprometido com o progresso é o ideal de qualquer autarca de província. Em nome dos ideais de cada autarca que habita nos homens de progresso cresce, à nossa volta, um vazio cada vez mais ruidoso e sombrio, que a tudo coloniza e a tudo destrói. É por esta desilusão que encontro o cristianismo, mas mesmo aí já só avisto homens de progresso e autarcas cheios de futuro. Trocaram o crucificado pelo homem da regisconta.

O socratismo

Que dizer de um governo que chega ao fim da legislatura e só pode apresentar resultados positivos numa área, a educação, onde todos os protagonistas afiançam a pés juntos que os dados não possuem qualquer valor de verdade? Sócrates até poderá tornar a ganhar com maioria absoluta, mas os portugueses vivem pior e as instituições continuam doentes, talvez mais do que estavam. A política em Portugal esgotou-se. Ninguém espera já nada. Os fracos enfraquecerão e os fortes tornar-se-ão mais raivosos. É isto o socratismo, um vazio absoluto num mar de propaganda.

Delírios da propaganda

Chumbos atingiram o valor mais baixo da última década, titula a TSF. E ainda só a procissão vai no adro, acrescento eu. Quem, sendo penalizado na sua avaliação profissional, vai chumbar um aluno? A ministra, na sua contínua campanha eleitoral, diz que os resultados se devem a mais tempo de trabalho com alunos na escola. Mas se a senhora ministra acha que foi essa a causa, então desligue a avaliação de professores dos resultados dos alunos e recoloque o nível de exigência dos exames no patamar de há uns anos atrás. Depois, conversaremos sobre causas de sucesso.

08/09/08

Bola Sete - Tour De Force (Dizzy Gillespie)

Bola Sete, uma descoberta recente (minha) dentro da inesgotável música brasileira.

O mundo já não é o que era (II)

O mundo está fora dos eixos, ó se está! Não bastava já os espanhóis terem uma ministra da Defesa que, apesar de ostensivamente grávida, passava a revista às tropas em parada com a desenvoltura de um velho cabo de guerra, como agora é a ministra da Justiça francesa, ainda por cima de origem magrebina, que vai ser mãe, e logo mãe solteira (Público). Ó mundo de antanho, como eras plácido e tranquilo... As senhoras tratavam dos seus doces assuntos e os homens dedicavam-se aos negócios públicos. Assim, não havia ministras grávidas e se o sémen de um ministro por acaso maculava, fora do sagrado matrimónio, o pudor de alguma senhora e a engavidava, ninguém falava de pai solteiro. Quanto muito murmurava-se que havia por ali um bastardinho.

O mundo já não é o que era

Sócrates, o imortal que os deuses nos deram para primeiro-ministro, conseguiu pôr a direita, no discurso de ontem de Ferreira Leite, a acusar o PS, antigo campeão da liberdade, de atentar de forma acintosa contra a liberdade e de instaurar na sociedade um sentimento generalizado de medo de falar. Não contente com isso, permitiu a Jerónimo de Sousa, no encerramento da Festa do Avante, evitar os clichés habituais sobre a criminalidade e acusar o governo de moleza perante a criminalidade violenta. O mundo está fora dos eixos.

07/09/08

Pergunta provocatória

Segundo informa o Público, quando estão contados 90% dos votos, o MPLA, de Eduardo dos Santos, lidera a votação com 81,82%. Parece que, apesar dos habituais protestos da UNITA, as eleições foram livres e justas. Façamos agora uma viagem no tempo. Se no dia 24 de Abril de 1974 tivessem ocorrido umas eleições em Portugal, efectivamente livres e justas, qual seria a percentagem obtida pelo Prof. Marcelo Caetano e a sua ANP?

Aquele país não é para aristocratas


Sempre me pareceu precipitado o pré-anúncio, por essa Europa fora, da futura vitória de Obama nas presidencias americanas, bem como a denominada obamania. As sondagens parecem inverter-se e começam a sorrir a McCain. As razões disso são muito menos a cor da pele ou a putativa pouca preparação do Obama para a política externa, como pretendem os republicanos. A razão é aquela que Vasco Pulido Valente assinalou ontem no Público: Obama é um aristocrata, um espírito superior que frequentou as melhors universidades do país. Isso, na política americana, está longe de ser sempre uma virtude. As pessoas esquecem a realidade americana.

A América, aquela que a esquerda europeia abomina, foi feita pelos proletários e candidatos a proletários que, não tendo o que comer na velha Europa, para lá emigraram e realizaram o seu sonho (o sonho do proletário é enriquecer) ou ficaram esmagados pela transformação do sonho em pesadelo (veja-se toda a mitologia em torno dos loosers). A América é a vitória cabal do quarto estado e o American Dream e a democracia americana são a realização pura e dura da ditadura do proletariado. O gosto americano, que para nós é símbolo de pirosice, é a expressão cultural do quarto estado. Faz parte também dessa cultura o fundamentalismo evangélico ou o gosto pela violência. O quarto estado é composto por gente dura, para quem, mesmo se ricos há duas ou três gerações, a vida dos seus tetra-avós não foi um passeio na Terra.

Não há nada que o espírito do quarto estado, quando ascende à condição burguesa, mais abomine do que um espírito aristocrático. Obama pode perder e pode perder pelas piores razões: por ser demasiado educado e possuir uma preparação superior. Aquele país não é para aristocratas.

Tanto silêncio para isto?

A Dr.ª Ferreira Leite lá falou na universidade de Verão dos jovens laranjas. Se foi só para isto que andou calada, será melhor contratar outros spin-doctors para a aconselhar. Com os actuais não vai a lado nenhum. Sim, é verdade, o governo parece uma empresa de montagem de espectáculos virtuais. Também é verdade que a insegurança é um problema e que há uma zona cinzenta, quase negra, ao nível das liberdades, nomeadamente da liberdade de expressão. Mas nada disto separa o PSD do PS, nem é a denúncia disso que significa uma política diferente. Se o essencial do discurso de Ferreira Leite é o que diz a notícia do Público, confirma-se que o PSD nada tem a oferecer de diferente do PS e que o silêncio da senhora se devia ao simples facto de não ter coisa substancial para dizer. Gabemos-lhe, então, a honestidade. Vale mais o silêncio do que berrar muito e só dizer disparates.

06/09/08

Bob Dylan - Like A Rolling Stone 1966

Vasco Pulido Valente - Democracia e mediocridade

No ataque a Obama, a Convenção do Partido Republicano, que não podia recorrer ao racismo puro e duro (embora indirectamente o fizesse), preferiu concentrar o seu ódio ao homem no que nele, a seguir à cor, acha mais detestável: a educação. Isto pode parecer estranho num partido dedicado à independência, liberdade e criatividade do indivíduo de que falou sempre com grande entusiasmo. Mas não é. O que os republicanos detestam em Obama é uma educação aristocrática e privilegiada (Direito Constitucional em Harvard e, a seguir, em Nova Iorque, na Universidade de Columbia) e o respeito que ela ainda inspira. Em compensação, a candidata à vice--presidência, Sarah Palin, é muito estimada por ter tirado um vago curso de Jornalismo e um mestrado sem valor numa universidade desconhecida.


Como diria Luís Filipe Menezes, se por lá andasse, Obama é um "elitista" do Leste; Sarah uma perfeita representante das "bases". Obama não merece confiança, porque pensa bem e fala bem, e porque, percebendo a complexidade do mundo, não o vê com a intolerância e o primitivismo do americano "normal". A uma pessoa assim, quase um "europeu", com certeza que falta a convicção e a coragem para impor a supremacia da América e para "sentir" a difícil vida dos "pequenos". Sarah Palin, com duas noções desconexas na cabeça e a brutalidade dos simples, pertence, real e simbolicamente, à mítica "pequena cidade" do interior que o cinismo urbano não conseguiu contaminar; à "pequena cidade" ordeira e beata, em que vizinhos se ajudam e o "espírito comunitário" não enfraqueceu.

Os comentadores de serviço explicam que o voto depende de uma identificação entre o candidato e o eleitor. O candidato precisa por isso de um "tecido conjuntivo", que o ligue ao eleitor. Infelizmente, o "tecido conjuntivo" é, por um lado, um tecido de ignorância e de incultura, e, por outro, de "verdades bíblicas", de nacionalismo acrítico e de ressentimento por uma pobreza inescapável. Quando foi eleita governadora, Palin vendeu o avião do estado do Alasca, despediu o cozinheiro da residência oficial e despediu também o motorista, para guiar ela, humildemente no seu carro, para o trabalho. A essa não falta o "tecido conjuntivo" que falta a Obama. Só que o populismo, com democracia ou sem ela, e na América como em Portugal, acaba inevitavelmente por desprezar a inteligência e por exaltar e preferir a mediocridade. O que talvez promova a igualdade, mas não promete nada de bom. [Público, 6 de Setembro de 2008]

Gostava de estar enganado

Não tenho uma especial fé nas capacidades de Carlos Queirós como orientador de selecções seniores ou de grandes clubes. Quando foi escolhido para substituir Scolari, pensei que Portugal tinha feito uma má troca. Não é por antipatia pessoal, mas apenas por preconceito. Desconfio sempre das capacidades dos grandes treinadores das camadas jovens para assumir a liderança de equipas mais competitivas. A passagem de Queirós pelos Sporting e pelo Real Madrid não me desmentiu. No Manchester United, foi sempre adjunto. Hoje Portugal ganhou 4 – 0 a Malta. Fez o que devia e não complicou. Gostava muito de estar completamente enganado.

Lá se vai o cluster aeronáutico

Talvez em memória de Gago Coutinho e Sacadura Cabral, o governo português quer construir um cluster aeronáutico. Mas parece que a coisa está a correr mal. Os franceses da Geci International decidiram relocalizar o projecto de construção do pequeno avião Skylander. Cansaram-se da indecisão do governo em dar ou não apoio finaceiro ao projecto, enquanto o governo francês se cansou de liberalismos e decidiu interferir no assunto. De Évora o projecto voa para a Lorena, lá ficando a construção do cluster adiada e menos 3000 mil potenciais empregos. Como se vê, o liberalismo é mesmo coisa de anglo-saxónicos. Nas terras de língua latina, o que conta mesmo é o poder político.

05/09/08

Moto Perpetuo performed by Rafael Mendez

Obras malignas do tinhoso

Até parece que o “A Ver o Mundo” está por conta do Zé Ricardo, não está. Mas no sua crónica de hoje, no Jornal Torrejano, O Countryside, e quase a terminar, escreve: «Os portugueses falam muito na beleza do Minho. Do Minho? O Minho é horrível. Infestado de casas horríveis, anexos com chapas de zinco, sucatas lado a lado com couves galegas. A paisagem rural portuguesa foi invadida pelos horríveis eucaliptos, mato, baldios, e os nativos, aos fins-de-semana, entretêm-se a invadir os centros comerciais mais próximos

Este é o sentimento de desolação que se tem sempre que a paisagem natural é invadida pelos portugueses. Portugal tem uma bela paisagem, mas raros são os momentos em que não se aviste um barracão, umas chapas de zinco, casas por pintar, telhados multicoloridos e essa verdadeira instituição nacional que é o azulejo de casa-de-banho a atapetar as paredes exteriores das vivendas. Como diz o Zé, o Minho é horrível. De verde tem o vinho, mas a paisagem está cada vez mais catastrófica. Talvez com a excepção do Alentejo e de um ou outro sítio abandonado pelo progresso autárquico, tudo se tem tornado infamemente horrível.

Mas a poluição não é apenas visual, também é sonora. A Igreja Católica deveria ser processada por permitir que as suas igrejas, nomeadamente no Minho, mas não só, tenham substituído o velho sino de bronze por um artefacto mecânico, obra de um diabo de péssimo gosto estético. Depois, essa obra do tinhoso não se limita a dar as horas, e os tradicionais e bucólicos toque das trindades e das avé-marias. Agora, nem sei bem o nome, é uma reprodução de um cântico de Fátima, que está longe de engrandecer a virtude da Virgem, e que atanaza, à maneiro do maligno, os ouvidos do pobre viajante. Por cá não há countryside que resista à criatividade indígena.

Ponteiros Parados

Até que enfim! Todos os sintomas apontavam para este desfecho. Mais tarde ou mais cedo, tinha de acontecer. Aconteceu agora, o Zé Ricardo (José Ricardo Costa. Esse mesmo, o do Jornal Torrejano) tem um blogue. Dá pelo nome de Ponteiros Parados, com a seguinte epígrafe: não há nada mais livre do que um relógio parado.

Quer isto dizer que faz parte, o proprietário da instituição, de um clube de conservadores, onde me incluo, que acha que o tempo não traz nada de bom. Está de acordo com a sabedoria tradicional e pré-moderna sobre o tempo como coisa a abominar. Enfim, todos, naquele clube, leram o romeno autor do Tratado de História das Religiões [aqui tive uma daquelas brancas que começam a ser habituais e fruto do efeito do maldoso tempo sobre os neurónios e lá tive de me levantar e ir à estante para “descobrir” o nome de Mircea Eliade].

Bem, deixemo-nos de floreados. O que se encontra por lá? Fotografia (própria, penso, e de outros), comentários, pequenas reflexões com o humor conhecido das crónicas do JT. Está ainda no começo, pois os ponteiros apenas pararam a 2 de Setembro, suspenderam o tempo e abriram o caminho da eternidade. Agora, já sabe: todos os dias, há que ir a esse lugar onde o tempo não passa, e que dá pelo nome de Ponteiros Parados.

Jornal Torrejano, 5 de Setembro de 2002

Como é hábito, já está on-line a edição semanal do Jornal Torrejano, isto apesar do mau tempo que se faz sentir por estas paragens. O tema de abertura, talvez para sossegar os furores da 5 de Outubro, diz-nos que as escolas do concelho estão prontas para mais um ano. A primeira página ainda nos informa, embora o pessoal o dispensasse, que o Desportivo foi eliminado da Taça de Portugal pelo Lousada. Saliência também, e merecida, para uma local sobre a minha terra: o alcatrão está a voltar às ruas de Meia Via. Espero apenas que o meu primo, o Presidente de Junta, ande mais tranquilo, que a idade e a herança genética não dão para irritações.
Na opinião e como é hábito, comece-se pelo cartoon de Hélder Dias, siga-se, alfabeticamente, os textos de Carlos Henriques, Clássico: Porto perdeu dois pontos (ainda bem, digo eu), este humilde blogger, O som do silêncio, José Ricardo Costa, O Countryside e Miguel Sentieiro, Campismo em quadrupedia.
Dito isto, encerramos por aqui o post, desejando um bom fim-de-semana, mesmo com aguaceiros e vento forte.

04/09/08

João Villaret - Recado a Lisboa

Há dias assim... Dias em que a nostalgia toma conta do corpo e descobrimos que o sebastianismo é a nossa essência, não é ideologia, mas natureza. Depois do post anterior sobre a Buchholz, encontrei este vídeo com a voz do Villaret a falar de uma Lisboa eterna.

Portugal dos Pequeninos: Sobre a Buchholz

No Portugal dos Pequeninos, João Gonçalves diz tudo o que se pode dizer perante o destino da Buchholz. No final do post, afirma: «Fomos nós, os leitores, que as "traímos" [às livrarias] quando as trocámos pela "facilidade" dos "grandes espaços". Talvez tudo isto seja inevitável como morrer que é isso, afinal, que um livro nos "ensina".» Será, porventura, verdade, mas o que me faz pensar é a razão que nos leva a trair aquilo que uma vez amámos. Talvez seja o tempo, esse coiote esfaimado, que nos empurra, a nós que somos mortais, para essa traição. Mas não foi o próprio Deus que abandonou o Filho à sua sorte na cruz?

Laurindo Almeida with The Modern Jazz Quartet

Uma insuportável insónia permitiu a descoberta deste extraordinário guitarrista brasileiro. Confirmou também a infinita ignorância onde navego.

03/09/08

Como morre um Estado?

Serão os Estados como as estrelas ou os seres vivos? Terão eles uma vida orgânica marcada pelo nascimento, maturação e morte? Por norma, assinalamos o nascimento dos estados, mas referimos pouco a sua morte, a não ser que ela seja espectacular, como aconteceu com alguns estados do antigo bloco socialista. Mais raro ainda é dar atenção aos sintomas que prenunciam uma agonia, ainda que prolongada, de um estado. Por exemplo, esta notícia do Público: “Mais mil gasolineiras aderem a programa do Governo que recruta empresas privadas de segurança”.

Haverá gente que não dará pelo problema, haverá quem se regozije com mais uma conquista da iniciativa privada, mas esta notícia mostra um novo sintoma de um Estado em agonia, talvez uma agonia doce e prazenteira, mas uma agonia efectiva. O que define um Estado enquanto Estado é o monopólio da violência legítima, inclusive, ou fundamentalmente, o seu uso na garantia da segurança dos cidadãos e dos seus bens. Quando um Estado entrega uma parte da segurança aos privados está a alienar uma parte daquilo que faz a sua essência. Por muito que agrade às gasolineiras e a quem nelas trabalhe ou abasteça o carro, a verdade é que estamos perante uma confissão terrível do poder político: somos incapazes de cumprir aquilo para que deveríamos estar destinados. Que outro nome, a não ser morte, se poderá dar ao acto de uma instituição que desiste das funções que lhe cabem por natureza? Os estados ocidentais, nomeadamente o português, encontram-se em processo de suicídio.

Santana Castilho - Conhece Andreas Schleicher?

Admito que boa parte dos leitores responda negativamente à pergunta em epígrafe. É alemão, físico de formação com estudos complementares em Matemática e Estatística e responsável pelo PISA (programa bem conhecido entre nós, onde a OCDE compara, periodicamente, a proficiência dos sistemas de ensino de mais de meia centena de países). A revista Veja, de 6 de Agosto, na sua habitual entrevista de fundo (três páginas), ouviu Schleicher sobre as fragilidades da Educação no Brasil. Algumas das suas afirmações são importantes para reflectirmos sobre o que por cá se passa.

1. A jornalista Mónica Weinberg perguntou: "Porque é que a China e outros países em desenvolvimento estão à frente do Brasil?" Schleicher respondeu: "Antes de tudo... são países que decidiram colocar a educação em primeiro lugar. Isso se traduz em medidas... Uma das mais eficazes diz respeito à criação de incentivos para tornar a carreira de professor atraente..."

É! As paixões e as prioridades não se afirmam com discursos e propaganda, mas com medidas. Este Governo passará à posteridade por ter sido o que mais diminuiu os professores e mais desvalorizou a seu estatuto profissional e social. A carreira docente é hoje um coio de burocracia. Os melhores debandam. O contingente no desemprego representa, em número, quase um terço dos activos. Os salários e a autonomia intelectual e profissional dos professores está congelada há anos, à ordem dos anões que mandam. Atraente esta profissão?

2. Pergunta: "A Coreia do Sul investe sete por cento do PIB na educação e o Brasil cinco por cento. É preciso aumentar o orçamento brasileiro?" Resposta: "Não necessariamente... As pesquisas chamam a atenção... para um aspecto menos visível e mais relevante do problema. As verbas disponíveis são muito mal gastas..."Vem a propósito esta referência. Aí temos o Governo, ainda o orçamento para 2009 não é publicamente conhecido, a gerir criteriosamente as fugas de informação e a propalar que vai aumentar as dotações da educação. Esperemos, para ver o que repõe do que cortou. Facto até agora é que, em 2008, nos ficámos por 3,5 por cento do PIB, um belo retrocesso jogado em cima de opções políticas desastrosas e produtivas de enganos (farsa das novas oportunidades, muito ensino profissional de papel e lápis, formação de professores para o desemprego, promoção escandalosa de resultados administrativos, etc., etc.).

3. A dado passo da entrevista, Schleicher fala da "obsessão" em proporcionar os melhores ambientes possíveis à aprendizagem, por parte dos países com melhores resultados. E ilustrou: "Durante uma viagem à Coreia do Sul, presenciei uma cena emblemática da preocupação das pessoas com o que se passa na sala de aula. Enquanto os estudantes faziam a prova para o ingresso na universidade, as principais avenidas de Seul ficaram fechadas para o tráfego. Quando perguntei ao funcionário do Ministério da Educação a razão daquilo, ele respondeu com naturalidade: estudo exige silêncio. Os motoristas que esperem."

Tal como cá! Caixotes de lixo enfiados na cabeça de professores, agressões continuadas e balbúrdia generalizada, que um ridículo estatuto disciplinar permite, em nome dos doces afectos da esquerda moderna e das garantias que as criancinhas malcriadas e os pais desinteressados lhe merecem.

4. De entre outras que o espaço não pode contemplar, deixo uma última citação à reflexão dos patriarcas do "eduquês": "Os professores ainda conduzem as suas aulas guiados muito mais pelas próprias ideologias do que por conhecimento científico. Na prática, eles escolhem seguir linhas pedagógicas motivados por nada além de crenças pessoais e deixam de enxergar aquilo que as pesquisas apontam como verdadeiramente eficaz. Fico perplexo com o facto de a neurociência, área que já permite observar o cérebro diante de diferentes desafios intelectuais, ser tão ignorada pelos educadores".
[Público, 3 de Setembro de 2008]

02/09/08

Chico Buarque e Nara Leão - A banda [ao vivo]

Uma pequena lição sobre a história do sentimento.

Uma questão de carácter

Há quase sempre, por parte de José Sócrates e perante pessoas em situação difícil, uma palavra ríspida, como se sentisse necessidade de humilhar ainda mais a quem já a vida humilha suficientemente. Perante as dezenas de milhares de professores que não obtiveram colocação, Sócrates não se eximiu a dizer: "Muitos gostariam que o Estado contratasse mesmo que não precisasse deles, mas não é essa a nossa visão. O tempo da facilidade acabou. (Público)"

Talvez aquelas pessoas não procurem facilidades e um lugar para não fazer nada. Se o fizessem, talvez fosse melhor inscreverem-se num dos grandes partidos em vez de pensar em dar aulas. Mas por muita razão que possa ter, e aqui tem alguma, um primeiro-ministro tem o dever de abordar a situação de outra forma e com outras palavras. Muitos dos não colocados foram vítimas da ilusão que políticos e universitários semearam país fora, uns para garantir votos, outros para assegurar o lugar na Universidade. Agora, quando já é tarde para evitar as ilusões, é de mau tom atiçar os cães do populismo a gente já fragilizada pela vida. Mas Sócrates não muda.

01/09/08

Dorival Caymmi - "O que é que a bahiana tem"

Com algum atraso, uma recordação de Dorival Caymmi.

Conversa de chacha

Segundo o Público, a União Europeia vai adoptar uma postura mais «vigilante» nas suas relações coma Rússia. A isto chama-se conversa de chacha. Que vigilância poderá a UE fazer sem exército, sem vontade política e bastante dependente do petróleo e do gás russos? Para mais, há países europeus que abriram caminho para a posição russa sobre a Ossétia do Sul e a Abcásia, ao reconhecerem a independência unilateral do Kosovo. Acabou o tempo em que a Rússia andava distraída a lamber as feridas da morte do comunismo.

Adolfo Bioy Casares - O herói das mulheres


Nessa noite Laura estava mais bonita que nunca. Mudou de penteado, pôs um vestido que o seu marido não conhecia, um colar e uma pulseirinha de corais. Quanto aos homens, arrebatou-os a eloquência. Talvez na ânsia de se vangloriarem diante de Laura de uma impecável imparcialidade, ou meramente na ânsia de serem generosos, chegaram a uma situação estranha: depois de um bocado a alegar, cada um tinha-se passado para a posição do outro, de modo que o conservador fundava as suas esperanças na transformação da sociedade e o radical, no escrupuloso respeito pela tradição. Vistos de agora, estes dois inspirados conversadores de uma noite perdida no passado e na imensidão do nosso campo parecem-me figuras românticas. Já se disse, figuras de outro tempo.

31/08/08

O que é a metafísica?

[Fotografia de Claudia Daut/Reuters no Público -
sobre os efeitos do furacão Gustavo em Cuba ]
O que é a metafísica? É a resposta que o Homem dá ao sentimento que se desprende desta fotografia.

Vasco Pulido Valente - Só nos resta esperar...

O Presidente da República promulgou a Lei de Segurança Interna, que, como já se sabe, cria um "secretário--geral de segurança", nomeado pelo primeiro-ministro e perante ele directamente responsável. Em princípio, o secretário-geral de segurança, com a categoria de secretário de Estado, tem uma autoridade eminente sobre a PJ, a GNR e a PSP e acesso à informação que, por acaso ou desígnio, elas recolherem. Este sistema, em si próprio confuso e manifestamente perigoso, põe o primeiro-ministro na posição ambígua de um superpolícia, que ninguém vigia e a que ninguém pede contas. Mesmo assim, o prof. Cavaco não viu nisto qualquer perigo para a liberdade dos portugueses. Nem - é bom dizer - o dr. Mário Soares, para quem, hoje em dia, Sócrates nunca erra.Pior do que isso: depois do cartão "1 em 4" (ou "1 em 5", não sei ao certo), uma ingerência inadmissível na privacidade do cidadão, que foi um fiasco prático, mas não deixa de ser um abuso político, o Governo resolveu agora introduzir, obrigatoriamente, um chip em cada automóvel. Não se conhece ainda em pormenor a capacidade do chip e o que se pretende dele. O chip tanto pode servir para um fim inócuo, identificar um carro in situ, por exemplo, como para seguir esse carro por Portugal inteiro, coisa que permitiria ao secretário-geral da segurança e, por consequência, ao primeiro-ministro, averiguar em profundidade e pormenor a nossa suspeitíssima vida. Cavaco acha o assunto "melindroso". E a Comissão Nacional de Protecção de Dados, num gesto de uma futilidade, pede que o "alcance" do chip não passe de um "alcance local". Estará a pensar em Vizela ou na Grande Lisboa e no Grande Porto?

A vontade de controlar o cidadão não é original, nem uma invenção autoritária do Governo Sócrates. A Inglaterra é o país do mundo com mais câmaras de vigilância por habitante. E é público o assalto aos direitos do indivíduo na América (e também em Inglaterra) depois do 11 de Setembro. A existência de meios leva inevitavelmente o Estado (esteja nas mãos de quem estiver) a pretender regular e dirigir a sociedade. A "pessoa humana", de que a ortodoxia ocidental não pára de falar, é crescentemente definida, limitada e fiscalizada em nome de benefícios a que não aspira e de valores que não subscreveu. Só nos resta esperar que o desleixo indígena atenue, ou demore, o inferno que se prepara.