13/07/08

Da inconstância e da força

Porque, além das coisas já ditas, a natureza dos povos é inconstante e é fácil persuadi-los de uma coisa, mas é difícil mantê-los firmes nessa persuasão: e por isso convém estar ordenado de modo que, quando eles já não crêem, se possa fazê-los crer pela força. Moisés, Ciro, Teseu e Rómulo não teriam podido fazer-lhes observar por muito tempo as suas instituições se tivessem estado desarmados, como aconteceu no nosso tempo a frei Jerónimo Savonorola, o qual se arruinou com as suas ordens novas, mal a multidão começou a não acreditar nele, e ele não tinha maneira de manter firmes os que tinham acreditado nem de fazer acreditar os descrentes. [Nicolau Maquiavel (2008). O Príncipe. Tradução de Diogo Pires Aurélio. Temas e Debates/Círculo de Leitores]

12/07/08

Exodus - XIX

Lívidas figuras na escuridão se desenham,
lívidas figuras de tudo se acercam, como regato
de outro regato, ou os dias aos dias, neles
escrevo sobre a brancura exausta da areia...
Vêm ondas e as palavras soçobram na água,
as sílabas a desfazer-se, sobejam letras órfãs
e lágrimas correm e tumultuam a face,
ganem na floresta, se para o tormento da luz
os segredos, lívidas figuras, expulsam.

Assim como vos levei sobre os pássaros da tarde,
e vos trouxe a mim, descerei no dorso
de um animal e em seu caminhar derrubarei
flores, jardins de pedras, palavras de ócio,
poemas, espelhos despolidos, rasgados em
cada verso que a outro segue. Não cantam,
não indicam e quando falam, ainda a nuvem
fica por dizer, mesmo se iluminada, mesmo se crua.
Um gesto, o esgar da garganta, o débil sopro
da voz e não mais do que do pó pérola o poema é.

Jorge Carreira Maia (2007). Exodus.

Cavaco e a Matemática

Ontem, sexta-feira, segundo a TSF, Cavaco Silva mostrou-se satisfeito com os resultados dos exames de Matemática, afirmando mesmo que a subida das médias é uma boa notícia. Como nada no mundo da política acontece por acaso, estas declarações de Cavaco Silva apenas podem significar uma coisa: um estender de mão a uma ministra que se tornou o símbolo da decadência do ensino em Portugal, num momento em que o país se ri à gargalhada com os resultados dos exames e provas aferidas de Matemática. Não é a primeira vez que o Presidente da República estende a mão a Maria de Lurdes Rodrigues. Este gesto tem uma arqueologia e tem também um significado muito sério para o futuro.

Do ponto de vista arqueológico, percebe-se a simpatia e a solidariedade de Cavaco para Maria de Lurdes Rodrigues. Ele sabe muito bem que o que ela está a pôr no terreno é a continuação da Reforma Roberto Carneiro, o seu ministro da Educação. Tudo o que de perigoso, para os alunos portugueses, estava contido naquela reforma está agora a ser posto no terreno com os resultados que os portugueses começam a perceber: prémio para a preguiça, incentivo para o desinteresse e a irresponsabilidade dos alunos e castigo para aqueles que querem trabalhar e esforçar-se, sejam alunos, sejam professores.

Mas Cavaco terá de perceber que se tornou, mais uma vez, co-responsável daquilo que vem aí. O que o Presidente da República disse ontem ao país é que não vale a pena o esforço, que o caminho que Portugal deve seguir é fingir que não existem dificuldades nem obstáculos. Cavaco caucionou, invocando inclusive o seu exemplo, aquilo que nem muitos dos mais acérrimos defensores da Ministra da Educação caucionaram: o ilusionismo que transforma Portugal de um país com uma difícil relação com a Matemática num país de matemáticos.

O apoio dado à Ministra da Educação por Cavaco Silva é também, e mais uma vez, uma afronta aos professores portugueses, fundamentalmente àqueles que acreditam que só há um caminho para o sucesso escolar: o trabalho duro, a disciplina e o rigor. É pena que Cavaco não queira para os alunos portugueses aquilo que o ajudou a triunfar na vida.

O apoio ao Zimbabué

O veto imposto, no Conselho de Segurança da Nações Unidas, pela China e Rússia a sanções ao Zimbabué mostra, pelo menos, duas coisas. A primeira diz respeito à visão da democracia que essas potências possuem. Toda a tragédia que afecta o povo do Zimbabué é-lhes completamente indiferente, bem como a verdade das eleições que culminaram com a «vitória» de Mugabe. Mostra também, mais uma vez, que China e Rússia possuem as suas próprias agendas políticas e que aspiram a exercer um papel na cena internacional que as aproxime, cada vez mais, dos EUA. Será apenas um primeiro passo até se erguerem como grandes senhores da política global. Apesar de esperado, este veto é mais um sintoma da fragilidade do Ocidente e do valor da democracia na arena mundial. O Zimbabué é apenas o pretexto.

No país da lenga-lenga

O Provedor de Justiça é uma espécie de curador dos interesses dos cidadãos. Nascimento Rodrigues têm-no sido com probidade. Está na hora de abandonar o cargo e em entrevista ao Expresso falou da sua experiência. Disse que tendo “deparado com quatro Governos – Guterres, Durão Barroso, Santana Lopes e Sócrates – este último ganha aos pontos na ‘lenga-lenga’. É preciso paciência.” Esta confissão é um bom retrato da relação do actual PS e do seu governo com os cidadãos. Percebeu-se há muito que esta gente sente um desprezo infinito pelo cidadão comum. Os direitos cívicos e o respeito moral pelas pessoas não passam, para as actuais elites governativas, de lenga-lenga para a qual não têm qualquer paciência.

Vasco Pulido Valente - "O Estado da Nação".

O"Estado da Nação"? Basta olhar para a Assembleia, quieta e calada, para se perceber o "Estado da Nação". Em nenhum parlamento da "Europa" subsiste um partido como o Partido Comunista Português, que não deixou ainda a "guerra fria" e vê Portugal como o via em 1960. Com uma certa razão. O PCP não é, por assim dizer, o artifício de um fanatismo inexplicável e ridículo: é o produto arcaico de uma economia arcaica e de um Estado autoritário e monstruoso. Num país moderno não existiria; na eterna "modernização" de Portugal prospera. Exactamente como o Bloco, que vem do mundo dúbio da heterodoxia marxista e se alimenta da pobreza letrada e de uma velha história, que só neste ermo, esquecido e miserável, continua. O PC e o Bloco são, segundo as sondagens, 20 por cento do eleitorado.

Fora isto, que já chega, há o "debate" entre os presuntivos representantes da democracia "burguesa". De facto, não há debate - de qualquer espécie. A oposição fala do atraso e da insuficiência do país, que naturalmente quase não varia, e atribui ao Governo a culpa dessa interminável desgraça. O Governo devolve a culpa à oposição, que já foi governo, e gaba os méritos das duas ou três coisas, que no meio da balbúrdia conseguiu fazer. Nunca, em tempo algum, se sai daqui. Assistir a uma sessão é assistir a todas. Nem as personagens mudam; e a realidade, essa, não penetra em S. Bento. Para os participantes neste ritual, a substância de uma questão ou de um argumento não contam. "Ganhar" é a afirmação de uma simples superioridade teatral ou da "esperteza" bronca e bruta, que "apanha" o próximo e que o indígena tanto estima.

Em 1975, a Assembleia ainda sabia gramática e usava com alguma eficiência a língua portuguesa. Hoje papagueia sem vergonha os lugares-comuns da propaganda partidária ou perora num calão administrativo e "técnico", que se destina habilidosamente a esconder a verdade ou o vácuo. A tradição oratória, até a salazarista, desapareceu. Não há memória de um discurso organizado e claro, que tenha tido sobre a opinião pública um efeito profundo e duradouro. A Assembleia é um clube privado que, de quando em quando, a televisão mostra a um país mais do que indiferente.O "debate" sobre o "Estado da Nação" da última quinta-feira exibiu involuntariamente o país como ele é: a indigência intelectual, a mesquinhez de propósito, a irresponsabilidade política. Daquela gente não se pode esperar nada.
[Público de 12 de Julho de 2008]

11/07/08

Exodus - XVIII

Já não há quem se multiplique, feneceu a aritmética
e os cálculos foram à sombra abandonados.
Um esquecimento tão esquecido cresceu obsessivo
e obsessivo se ergueu, pegou em suas mãos vazias
e com elas desenhou um milhafre ferido.
As pústulas eram tão perfeitas no arco pelo peito
desenhado, se o pássaro respirava, a própria
perfeição o impelia, enquanto o caminho
decrescia e a dor era um mar a lavrar
sob a pele tumefacta, dos pulmões o movimento escondia.

Queima os livros, a parca juventude os deu,
acende com eles uma fogueira e aqueça ela,
no Inverno, o frio pensar. Deixa arder,
em feroz combustão, conceitos, a tudo recolhem,
juízos, uma ordem vesperal trazem,
raciocínios, aí encorpa a cega loucura.
Vem falar não a tigres, mas a homens sentados
nas espessas esplanadas da cidade.
Desenha-lhes um carro cego e, com inquieto dedo,
mostra-lhes o caminho onde gritem de pavor,
tocados pela mansidão debruada pelo cântico
dos limoeiros. Ó exaustas sentenças, cansadas
equações, leves chagas cobertas pelo pó das gramáticas:
cantem a raiva rosada pela álgebra, rasto
eterno no fogo das colinas, verdes de tanto Outono.

Jorge Carreira Maia (2007). Exodus.

Pablo Casals plays BACH - Suite no 1 for Cello - part 1

Quinta da Fonte, um aviso

Os desacatos ocorridos ontem e hoje (Sol) no Bairro da Quinta da Fonte, em Loures, dão que pensar sobre a saúde do Estado de direito em Portugal. Por duas vezes, a lei e o monopólio pelo Estado da força legítima foram violados de forma drástica criando um território em estado de excepção, onde a lei foi suspensa independentemente da vontade do soberano. O que se passou, para lá da qualidade da intervenção policial, não é um mero caso de polícia. Foi a essência do próprio Estado que foi posta em causa. Aquilo que merece meditação, para além do conflito partidário, é o caldo de cultura que permitiu estes acontecimentos. Um aviso para os mais distraídos.

S. Martinho do Porto, 1919

Esta fotografia foi publicada no excelente blogue O Jansenista. O título dado pelo dono do blogue é Visões da Arcádia: São Martinho do Porto, 1919. Quem conheceu a antiga praia ainda pelos fins dos anos 60 exalta-se cada vez que passa por lá e vê aquilo em que a transformaram. Esta fotografia, porém, cria uma nostalgia daquilo que nunca se conheceu. A presença humana está ali, mas a paisagem construída pelo homem ainda não tinha começado a colonizar o espaço. Era uma promessa de um mundo que poderia ser melhor. Não o foi. Hoje alguns sabem que o caminho para o melhor é a imutabilidade, o não tocar no que está, o deixar ser. Mas isso é um segredo. Segredo não porque não seja dito, mas porque raramente é escutado. É o que se chama falta de atenção. Na essência da desatenção reside o descuido e o desleixo, em última análise, o amor pelo lixo.

Matemática – a mudança de estratégia

Saíram os resultados dos exames de Matemática do 9.º ano. Verificou-se uma queda de classificações negativas de quase 40%. Depois dos milagres nas provas aferidas e nos exames do secundário, o nono ano também foi consolado com o seu milagrezinho, um tudo nada mais modesto, mas mesmo assim um belo milagre. Depois de a anterior estratégia ter feito o país rir à gargalhada, os milagreiros mudaram de tom. Consideram uma recuperação de 40% um mau resultado e choram pelo facto de haver cerca de 50% de classificações negativas (Público). Por certo, naquelas cabeças, já fervilha o milagre do ano que vem, esse sim um ano jubilar a valer.

Jornal Torrejano, 11 de Julho de 2008

On-line está já a edição n.º 627, da segunda série, do Jornal Torrejano. Na primeira página, Incêndio em prédio abandonado relança questão de segurança no centro histórico. Destaque também para Câmara abriu concurso para remodelação da Praça 5 de Outubro. Refira-se, ainda, a publicação por Miguel Sentieiro do livro ”comichões” crónicas, onde agrupa cerca de 70 crónicas publicadas no Jornal Torrejano.

Na opinião. Inicie-se o périplo pelo cartoon de Hélder Dias. Depois, e por ordem alfabética, Carlos Henriques escreve Trapalhada jurídica, este blogger, A tenaz, Jorge Salgado Simões, ExpoCidade, José Mota Pereira, O Boquilobo golf: outra vez?, José Ricardo Costa, A Ministra do Petróleo, José Trincão Marques, Ambiente e intermunicipalidade, Miguel Sentieiro, Se até o chimpazé percebe, Santana-Maia Leonardo, O Colégio La Salle, Vítor Lúcio Freire, O meu menino é d’oiro.

Tem muito para ler e meditar durante estes dias. Então, bom fim-de-semana.

10/07/08

Exodus - XVII

Apagaram-se os lilases quando à porta bateram
e a noite se cerrou, ocultando regatos, areias, pedras
brancas e lisas, os primeiros passos, então os deste.
Pelos corredores, os animais degolados passavam
enlouquecidos e nas ruas projécteis de aço
a incendiar silêncios no coração. Os tumultos feriam
o peito, o medo o assediava, e por isso tomaram
uma pedra e a puseram debaixo dele e logo da boca
um canto vagaroso cresceu, inundou de archotes
os pátios, ateou bandeiras pelas portas que bateram,
empurradas pelas giestas, do silêncio
se desprendiam. Na mecânica celeste,
nas órbitas, os planetas as desenhavam, tudo se tornara
movediço, rota incerta, aterrada fúria nos
campos onde o caos silente se estende.

Os dedos despediram-se das mãos e partiram
tocando searas, fendendo musgos, abrindo
sulcos de sangue e saliva no veludo invernoso,
a vida cobre. Passam carros nocturnos,
expelem relâmpagos e deixam troar os motores
acordando a noite, fazendo gritar das crianças
a garganta inquieta, a voz as empalidece.
Um zumbido misturava-se no ar da cidade,
era Fevereiro, e as chuvas ainda não
haviam descido sobre os telhados de zinco.
O betão arfava ressequido e as janelas estremeciam,
se mãos cintilantes não lhes davam por alimento
água; pura, incolor, sem mácula de sabor ou som.

Preso ao mastro, um animal olhava a fúria
e despedia-se da vida cantando as regras,
a tarde lhas dera. Das mãos, os dedos
tinha perdido e das flores esquecera
os lilases, como se tivessem secado
e ressequidos entrassem na noite,
hermeticamente fechados, lembrando
os animais degolados, na boca
dos que cantavam corriam, a gritar inocência,
um manto de vergonha lhes cabia.
Um estampido soou. Escondidos,
abriam-se ao som pela alvorada do silêncio.

Jorge Carreira Maia (2007). Exodus.

Geri Allen Trio - Dark Prince

Estado da Nação – o esmoler-mor

Sócrates é o verdadeiro protótipo do esmoler. Onde quer que vá não deixa de anunciar a sua medidazinha, que lhe cai da boca como, nos contos de fada, caíam moedas de oiro das mãos de soberanos bons e belos. Hoje, no debate do estado da Nação, o esmoler-mor do reino lá veio com a sua saqueta de moedas de oiro para atirar uns euros sobre a populaça deslumbrada e embevecida com a bondade do príncipe. O passe escolar e o triplicar do número de alunos beneficiários da acção social escolar tem um efeito muito comovente e dá a Sócrates uma tez mais à esquerda. Mas, no fundo, esta medida é bem reaccionária. A razão é que trata as pessoas como indigentes a quem se atiram umas migalhas do orçamento de Estado sem qualquer contrapartida. Se estas medidas fossem acompanhadas de um compromisso das famílias e dos alunos com o desempenho escolar destes eu só poderia aplaudir. Mas como vivemos no reino da fantasia, a esmola é uma esmola e não gera qualquer dever. Ela reside apenas na bondade do esmoler. Se querem resultados escolares, os professores que tratem de passar os alunos, se não a bruxa má…

Matemática – o reconhecimento internacional

Um português foi eleito para secretário-geral da maior associação mundial do ensino da Matemática (aqui). É o que se chama o rápido reconhecimento do nosso novo estatuto internacional na disciplina. Na perspectiva de daqui a uns anos, tendo em conta os verdadeiros alfobres de matemáticos que são as nossas escolas, o mundo ser sacudido por um conjunto de terramotos matemáticos cujo epicentro será Portugal continental, os membros da Comissão Internacional de Instrução Matemática decidiram eleger Jaime Carvalho e Silva, o distinto e premiado professor da Universidade de Coimbra. Mas, como todos nós, portugueses, sabemos, esta distinção é antes de mais um tributo à pátria que inventou o Plano da Matemática, descobriu o método rápido e seguro para transitar da indigência matemática para a excelência e escolheu para seus governantes pessoas tão preclaras como Lurdes Rodrigues Jorge Pedreira e, acima de todos, Valter Lemos. São eles os verdadeiros merecedores de parabéns.

O estado da Nação

Discute-se a esta hora, no parlamento, o estado da Nação. Surge como uma espécie de catarse do ano político que ao purificar os sentimentos produz boa consciência na classe política e permite uma entrada tranquila no ocioso período de férias. Do ponto de vista formal, o exercício é interessante e parece consumar um dos desideratos da democracia: a prestação de contas do governo perante os representantes do povo. O problema, porém, é que os representantes do povo não são homens livres que respondam apenas perante a sua consciência e os eleitores. É gente que depende das organizações que lhe permite a eleição, o que torna todo o debate numa teatralização e num ritual de consolidação das fidelidades. O único interesse é, confessemo-lo, determinar a virtude histriónica dos actores. O estado da Nação é, infelizmente, apenas o nome da peça que hoje se representa no palco de S. Bento.

09/07/08

Exodus - XVI

Não havia túmulos nos brancos cemitérios,
às águas escoavam vindas do extremo norte.
Se era uma época de flores, todos partiam
pelo seu pé, viajantes tão frios no olhar,
dúbias figuras iluminadas pelas trevas,
as que cobrem de vestígios os campos,
da terra levam ao mar.

Na devastação da tristeza, abria-se uma arena de folhas
onde os que caminham foram e colheram rosas amarelas,
da volúpia vinham, e sob o impulso do vento
inundaram o curso dos jardins sobre a esfera terrestre.
Nas terras geladas, cobriam-se os dias
com um manto de cinza e no céu o chumbo
derretia-se pelo fogo glacial, a tua pena o desenhava.
Nessa inconstância, as mulheres
deixavam as madeixas cobrir a fronte, sombrear
os olhos, infestar os prados do coração.
Um negrume vinha então do fundo do corpo
e todos se calavam, enquanto os pés tocavam
o chão e num gesto premeditado faziam avançar,
como se libertação fosse, cada um
para a rosácea rumorejante, a fonte do destino, diziam.

Quando suspenderam a mão, no meio caminho
que do corpo à raiz conduz, um clarão
riscou como um machado a linha pura
do horizonte. As aves juntaram-se em bandos,
colónias nos fios da terra erguidos, olharam
os céus e de bico cerrado voaram para o vazio,
à sua frente um deus o estendera.
Já ninguém sabia ler o voo dos pássaros
e na escuridão da sabedoria viram-nos partir.
Se havia silêncio, o choro das crianças
o quebrou e dessa tarde resta na poeira
uma recordação de frutos maduros,
abandonados na orla de espuma,
o mar na praia a esboça.

Jorge Carreira Maia (2007). Exodus.

Krzysztof Penderecki - Threnos für die Opfer von Hiroshima

Obama – o princípio de realidade

O candidato democrata à Casa Branca veio agora ameaçar o Irão com um endurecimento da posição americana. Nas entrelinhas há uma ameaça pouco velada. Obama já não fala para a esquerda dos democratas, mas para o centro político onde se vai decidir as eleições americanas. Chegou o tempo da conduta responsável de candidato a dirigir a hiper-potência. Pode ser negro ou quase, ter nome arabizante, fazer lembrar uma mistura de Kennedy com Luther King, mas não deixa de ser americano e de necessitar dos votos dos americanos. É o princípio de realidade.

A propensão de Freiras do Amaral

Simpatizo com Diogo Freitas do Amaral desde há muito tempo. É uma pessoa inteligente, cordata, culta e civilizada. É evidente, porém, que não votei nele aquando da célebre eleição presidencial disputada contra Mário Soares. Mas isso pouco importa. O que interessa é notar que o Professor tem uma certa queda para situações obscuras. Depois de ter sido presidente do CDS era inútil aquele retorno à direcção de um partido que já pouco tinha para fazer na sociedade portuguesa. Não melhor opção foi, para ele, aquela história de ser ministro dos Negócios Estrangeiros do actual governo. Saiu a tempo. Mas o pior é imiscuir-se agora nas trapalhadas do futebol. Aqui a sua imagem, já bastante abalada na direita política, corre um perigo quase universal de implodir. Parece ser uma propensão na natureza de Freitas. Gente de bem só se deve meter na bola com a polícia atrás e mesmo assim…

De Rerum Natura - Biocombustíveis e aumento de preços

Num post de Palmira Silva, o De Rerum Natura aborda o problema da ligação da produção de biocombustíveis ao aumento de preços dos bens alimentares. Há referência a um artigo do Guardian onde é citado um relatório do Banco Mundial. Por fim, são fornecidos 6 links para posts onde o De Rerum Natura trata do assunto. Um dossiê à mão sobre um assunto fundamental.

Vagas e outras comunicações sociais

O Público anuncia subida de vagas no ensino superior público. Mais 1505 em relação ao ano passado. Até aqui tudo bem. Medicina tem mais 151 vagas, há este ano 1614. Se houvesse 10 000 seriam preenchidas. Além de sermos um país de poetas, e agora de matemáticos, também gostávamos de ser um país de médicos. Aquela coisa de andar de bata branca e de estetoscópio enrolado ao pescoço deve ter alguma carga erótica. Bom, mas continuemos. O aumento da oferta dá-se sobre tudo nas áreas das Ciências e Tecnologias – o que é natural – e, pasme-se, das Ciências Sociais. É evidente que ainda não há licenciados suficientes no desemprego, o país precisa de mais. Não compreendo por que razão não aumentaram também as vagas em Línguas e Literaturas ou em Filosofia. O aumento incide também nos politécnicos e nos horários pós-laborais. Até aqui tudo bastante racional. Mas notável mesmo é que o politécnico de Viseu teve um aumento de 32 vagas (passou de 40 para 72) no seu curso de Comunicação Social. O que o país mais precisa, de facto, é de comunicadores sociais formados em Viseu.

08/07/08

Exodus - XV

Caminhavam sem estandarte, olhos sujeitos
ao poente, ao sol que se esconde além
da terra. Respiravam o vapor dos campos,
o óleo derramado pelo chão, o alcatrão o cobre.
Se cantavam, ninguém os escutava, a voz
assombrava-se e a boca não se abria.

Mudos, marchavam na noite e irrompiam
na alvorada, exaustos, a desenhar mapas,
a traçar constelações, a descobrir entre dedos
lagos de sombra e praias de cascalho.
Ao nome, se um dia lho deram, tinham esquecido,
e só por sinais e gestos de si sabiam.

Gelados, acampavam pelas planícies
e olhavam os céus, criando uma geometria
frágil, sem círculos nem rectas, apenas
alguns pontos e em sua órbita a fugaz
luz, mortal e extraviada, de um cometa.

Jorge Carreira Maia (2007). Exodus.

3 Pianos Sonho dos Outros Bernardo Sassetti

Condorcet, o pai da escola republicana

É a Condorcet que se deve a teoria mais completa e a mais moderna da escola republicana. Dois textos organizam o desenvolvimento dessa teoria. As cinco memórias sobre a instrução pública, publicadas em 1971, e o Relatório sobre a instrução pública, publicado em 1792. (…) Pela primeira vez, a ideia filosófica da instituição escolar é pensada na sua complexidade e em relação com a soberania popular: proteger os saberes contra os poderes, considerar a excelência como a forma mais alta de igualdade, ver em cada criança um sujeito racional de direito, impedir a submissão da instrução pública às vontades particulares e à utilidade imediata, tais são algumas das teses mais importantes propostas por Condorcet. [Charles Coutel et Catherine Kintzler]

A solução para o problema da SEDES

A SEDES, na sua imensa sabedoria, descobriu que o governo já só governa para as eleições. As belíssimas reformas que encetou com tanto vigor estão a perder o viço e esmorece o nobre espírito reformista, choraminga a reflexiva congregação. Como é que gente tão douta não sabe o elementar? Um político antes de ser reformista é político. Como tal o seu ethos é o da conquista e manutenção do poder (vão lá ler o Maquiavel na nova tradução do Diogo Pires Aurélio). Queria a SEDES que o governo governasse para perder as eleições? Só há uma solução para o problema que atormenta esta etérea gente: impossibilitar que qualquer governante exerça mais do que um mandato governativo. E mesmo assim ainda era preciso fazer mais não sei quantas restrições.

Desidério Murcho - Ministério da Propaganda


Uma boa perspectiva sobre o Ministério da Educação. Uma incompreensão sistemática da conexão entre ensino e soberania e da inevitável relação entre política e educação, entre Estado e escolas. O texto não separa Estado e governo. Seja como for, vale a pena ler, meditar e discutir (Público de 8 de Julho de 2008).

07/07/08

Exodus - XIV

Rebentaram os diques, depois os taludes,
a barragem cedeu ao relâmpago da água
e os barcos, de substância tão porosa,
afundaram-se, colmeias presas pelos
cabelos ao vento. Dali todos se foram,
porque tornando as águas, cobriram aos carros
e por habitação lhes deram o fundo do mar.
Os peixes resignaram-se aos novos companheiros,
depois, comovidos, entregaram-se a um luto
dorido por aqueles que na água a vida deixaram.

Tudo então transbordou: árvores, ervas,
frutas vindimadas, alguns animais colhidos
na voragem, perfeita voragem, dos dias.
Se um deus tivesse vindo e em suas mãos
trouxesse um ramo de oliveira,
as tardes seriam pela inocência juncadas e na
branca sombra desenhar-se-ia, imóvel,
a estátua que arde no lugar onde as estrelas
desaguam. Como um trevo soprado pela
ganga da primavera, vieram, ao crepúsculo,
víboras em murmúrios de leite e mel,
falcões bêbados de ar e altura, mais tarde,
animais rumorosos, o bosque
na frescura os ocultava. Ali se olharam e, sob
a candeia que a tudo alumia, partiram,
sem que palavra alguma viesse em suas bocas
traçar, para mais tarde, o símbolo da manhã.

Jorge Carreira Maia (2007). Exodus.

Maria João: Frederic Chopin - Nocturne No.1

O caso Portas

O CDS é uma congregação curiosa. O seu presidente representa sempre um papel de homem inteligente e activo. Por exemplo, a última proposta, a do vale-medicamento para ajudar os pensionistas, por certo que colherá a condescendência dos destinatários e o sorriso de escárnio do governo. Portas julgou que com a ideia os outros pensariam que ele se estava a esforçar para captar uma franja de idosos para as suas políticas. A verdade, porém, é que ninguém acredita naquilo que o chefe do PP diz. Faça o que fizer, diga o que disser, ninguém o leva a sério. Há, no entanto, uma coisa em que lhe presto homenagem: Portas também não se leva a sério. Tudo o que faz ou diz é puro teatro em que o actor sabe que está a representar. Como outros políticos, Portas não faz a mínima ideia de como deveria governar o país. Diverte-se com pequenos fogachos. A plateia, o CDS-PP, aplaude enquanto sorri da maroteira e Portas não se desmancha na representação.

Brandos costumes

A vitória das teorias educacionais em voga nos últimos anos é completa e total. A prova está num conjunto de estudos de uma equipa de psicólogas da Universidade do Minho sobre a violência nas relações amorosas nos jovens entre 15 e 25 anos (DN). Segundo o estudo, essa violência é idêntica à existente entre adultos e atinge 25% dos jovens. No entanto, isto só poderá espantar psicólogas distraídas. A violência é constitutiva dos seres humanos. Só o processo de educação poderia tentar diminuir a pulsão para a violência. No entanto, educações permissivas, como uma certa psicologia tem vendido, tendem a produzir pessoas que reagem violentamente à frustração. No caso da frustração sexual ou amorosa, o problema é intensificado pela questão da identidade que é abalada pela recusa, pelo abandono, pela infidelidade, até pelo mero desacordo opinativo. Identidades mal construídos e educações permissivas são o caminho para que a violência natural existente nos humanos dê azo à sua criatividade: uns estalos, talvez uns pontapés, mesmo uma sova. A brandura dos costumes dá nisto.

06/07/08

Exodus - XIII

Ao primeiro dia fareis cessar o fermento em vossas casas.
Não haverá pelas mãos o pão, apenas a rosa do Outono
chegará cansada e nesse cansaço se recolherá,
cantando preces aos deuses do jardim, das fontes
e dos estouvados rios do silêncio. Cessarão os afluentes,
e dos cursos de água matinais ninguém dirá o montante
e o jusante. As canas que desenhavam margens, corta-ventos,
sombra nas tardes, sempre admiráveis, são manchas de betão,
um lastro de cimento onde cães, na pressa que sempre
os empurra, alçam a perna, farejam e abandonam à
punição do vento. Às vezes vinham mulheres, os vestidos
cobertos por remendos de púrpura, os lábios gretados
pela ardósia com que os dias sempre as fustigavam.
Olhavam com o seu olhar perfeito e desmemoriavam-se
lentamente, os cabelos férvidos sob a luz solar.

Ao pegarem no ramo de hissopo e aspergirem
as calçadas de sangue, abriram-se as portas, e das casas
incendiadas saiu extravagante a noite. Os homens
entregaram-se à desordenada facúndia e a sua voz,
febril na imóvel flor dos sentidos, perdeu limpidez
e adormeceu na penumbra maculada da tarde. Calaram-se
as árvores, adormeceram as ervas e nas ruas, ruas
ainda eram, amontoavam-se os restos, os dias os tinham
depositado no desvão da vida. Por essa transparência,
cresciam montanhas de sal, praias de águas estagnadas,
e nas hastes brancas dos animais emergiam desenhos
de negro matiz, riscando traições na quietude do olhar.
Rodeado de insectos, um limoeiro floria; semeava
vestígios de pólen na terra húmida de sangue,
tingida pela sombra sôfrega e estéril de ninguém.

Jorge Carreira Maia (2007). Exodus.

Propagandistas e educadores

Enquanto o propagandista deve granjear, previamente, a audiência do seu público, o educador foi encarregado por uma comunidade de tornar-se o porta-voz dos valores reconhecidos por ela, e como tal, usufrui um prestígio devido às suas funções.

(…)

Com efeito, já não é a sua causa nem o seu ponto de vista que o orador defende, mas o de todo o auditório; ele é, por assim dizer, o educador deste, e se necessita de usufruir um prestígio prévio é para poder servir, amparado na autoridade pessoal, aos valores defendidos. [Chaim Perelman & Lucie Olbrechts-Tyteca, Tratado da argumentação – A nova retórica]

As fotografias que estão a abalar a educação


Não havia uma coisa chamada "gravitas" política? Ah, mas isso era para os romanos. O dilema que se coloca é se isto foi uma proeza do fotógrafo ou se teve a anuência da fotografada. Por mim, atribuo o mérito ao fotógrafo, mas há quem tenha opinião contrária [Fotografias de Tiago Miranda no Expresso].

Os nossos aliados

A fiabilidade política dos governos dos países islâmicos é, relativamente aos interesses ocidentais, praticamente nula. Abdul Qadeer Khan, o pai da bomba atómica paquistanesa, assumiu que tinha sido o único responsável pela distribuição de tecnologia nuclear a países tão confiáveis como a Coreia do Norte, o Irão e a Líbia. Agora Khan vem dizer que “o Exército tinha completo conhecimento. Musharraf tinha de ter dado o seu aval para o equipamento seguir caminho” (Público). Como se sabe, Musharraf parecia ser a dada altura, no Paquistão, o homem de confiança dos americanos. Confiança?

Cavaco e Sócrates

Estava escrito nas estrelas. Qualquer astrólogo amador o poderia ter profetizado há muito. A cooperação estratégica da Cavaco com Sócrates era apenas uma pequena manobra táctica até Cavaco ter alguém de confiança à frente do PSD. Com Ferreira Leite instalada, Cavaco vai fazer a Sócrates aquilo que Mário Soares lhe fez a ele. O Público diz que obras públicas deterioram relações entre Cavaco Silva e José Sócrates. Sim, o motivo não é mau, mas se não fossem as obras públicas, poderia ser outra razão qualquer. Lentamente, quase sem abrir a boca, o Presidente vai triturar Sócrates. Veremos como vai reagir a máquina de propaganda do PS.

05/07/08

Exodus - XII

Havia restos de caçadas pelo chão, animais
em despojos assim frios, o sangue a aflorar a pele
contaminada pelo nada, o futuro o trouxera.
Os olhos escondiam-se nas órbitas e pouco
naquelas naturezas mortas lembrava o gesto
febril com que do destino fugiam para a ele
se entregarem. Eram dias de júbilo, na cerca
se viviam. As árvores tapavam de sombra as terras
e o calor, se aquecia, recuava movido
pela inquietação das fatigadas folhas ao vento.

As mulheres, em passos de veludo, levitavam
e as saias, pois saias as vestiam, subiam-lhes à cabeça,
as pernas brancas tão desarmadas, e as mãos acorriam
como se socorressem marinheiros dizimados
por ondas e naufrágios. Não abandoneis a casa,
disseste, pois estrangeiros fostes na terra e agora
o que vos cabe é a espera da noite, o tempo atroz,
as flores precárias que desenharão na pedra sinais
de luz, uma rosa desfolhada, as nuvens que à lua
agasalham, o pano ao pão em cesta de vime esconde.

Foi um tempo de triunfo, a amarga morte
só aos animais coubera e de todos os que na viagem
tomaram lugar, a nenhum a parca foi pelos
deuses, sempre solícitos, arremessada. Quando a tarde
descaiu em direcção às trevas, as vozes entoaram
salmos e cânticos heróicos. Os Imortais
dias de glória haviam tecido, banhados pela espuma
que da folhagem verde das árvores caía.
Carne na carne se fundia e das mulheres
suspiros da boca se desprendiam. Um desbaratado
exército, pela aurora, à vertigem da manhã
se entregou, as armaduras desfeitas, as armas pelo chão
e no sítio das cabeças a vivaz luz da solidão.

Jorge Carreira Maia (2007). Exodus.

Acabem com o futebol

Por uma questão de decência, o futebol deveria ser banido deste país. Não, não, nada tem a ver com o pessoal que vai para o campo dar uns pontapés na bola, nem quem vai ao estádio para berrar contra os árbitros, os adversários, os inimigos, os da equipa, os amigos e até contra si. Por aqui não vem mal ao mundo. Mas o futebol em Portugal é todo ele jogado nos gabinetes e através dos truques dos múltiplos dirigentes (por exemplo, ver aqui). O futebol consegue ser pior que o mundo da política, e este é já bastante mau. Por uma vez na vida, haja decência neste país. Já chegam os exames de matemática.

Biocombustíveis

Parece que estamos encerrados num labirinto e que não há fio de Ariane que nos valha. Assolados pelos problemas do efeito de estufa e da necessidade de diminuir a dependência do petróleo, não têm faltado ideias e modas. Uma das modas mais levadas a sério foi a do biodiesel. Era o caminho para um novo mundo verde e sem petróleo, pensava-se e apregoava-se. Mas como todas as utopias, também esta está a mostrar a sua face distópica. Segundo um estudo do Banco Mundial «os biocombustíveis são responsáveis por 75 por cento do aumento dos preços». Diminui-se a dependência do petróleo, mas morre-se de fome. Mas os efeitos negativos não ficam por aqui: «Produção de combustíveis alternativos provoca um aumento dos gases com efeito de estufa» e ainda: «Desflorestação e alteração do uso dos solos são fontes importantes de emissões de dióxido de carbono». Lá estamos nós de novo na mãodos senhores do petróleo. É compreensível que gostemos de brincar aos feiticeiros. O problema é que a natureza continua apostada em virar o feitiço contra o feiticeiro.

Exames de Matemática II

"Surpresa: os alunos já são bons a Matemática"

É este o grande título de primeira página do "Público" de hoje. Seria bom se fosse verdadeiro. Infelizmente, não é. O título é irónico, porque os números por cima do título não mentem. É verdadeiramente impossível que, em escassos três anos (de 2005 a 2008), a média dos alunos internos no final do secundário tenha passado de medíocre (8,1 valores) para bom (14 valores) porque os sistemas educativos não mudam assim facil e rapidamente. São precisas mudanças bem feitas, que não tem havido, e muitos anos de esforço conjunto e coordenado, que também não tem havido, para haver uma subida, que nunca poderia ser de seis valores (cerca de 75 por cento!)

Não se pode comparar o incomparável e os exames deste ano não podem ser comparados com os exames de anos anteriores. Eles foram manipulados para dar esta subida anómala, que é, portanto, puramente virtual: é a ilusão de uma subida. O ilusionismo está pois instalado ao mais alto nível do Estado, à semelhança do que acontece nos estados totalitários. A verdade sobre a educação está a ser oculta num estado democrático. Espero que a democracia resista.
(Carlos Fiolhais, De Rerum Natura)

04/07/08

Exodus - XI

Lançando vos lançarei daqui, do lugar o mais desordenado,
das praças maculadas pela impiedade das ervas,
das amplas ruas tão fechadas ao trânsito cego com
que um deus compõe, ao dedilhar as contas,
a cidade. Um tumulto de flores ainda trazem pela
cercadura dos braços, mas já a luz se entrega, ainda
pela manhã, a uma agonia de velas arvoradas, como
se tudo não passasse de um mar de algas e rochas,
batido pelo vento que espalha, sob a copa das árvores,
florestas de incêndios, bosques de luz, fogos tão
húmidos que logo trazes e te cobres nesse guarda-chuva
com marcas de silicone e um anúncio de máquinas
fotográficas. Aí se escondem as sobras que sobram
da memória, imóvel e já devorada pelo punhal do dia.

Lançando vos lançarei uma praga de palavras, a contaminação
das páginas do rio, o funesto desejo de a tudo perceber.
Circulam na imóvel eternidade filas de carros e nas lojas
há mulheres desfiadas a escorrer pela seda, outras
leves como o pesado veludo, que cobre a porta onde,
era um sábado de neve azul, alguém por ti chamou.
Não penses que te deslocas pela cambraia das horas e assim
da morte te escondes, como se fosses um universal vazio,
o conceito amplo que a tudo, em seu seio, recolhe.
O lápis, aquele de assimétrico bico quebrado, é o último
reduto. De lá partem mísseis contra os inimigos
escondidos na larga calçada da praia, sem barcos
nem pássaros nem peixes; apenas filas árduas de carros
em combustão se entregam à maresia do combate.

Lançando vos lançarei naturezas mortas, pintadas
pelo sangue que corre das mães inanimadas
por tantas palavras saídas de sua boca, naqueles dias
em que os cães saíam para a rua e latiam tardes fora,
a chamar, em desespero, os seus deuses, estátuas disformes,
corpos avaros, luz alguma os teria, na sombra da roseira, tocado.
As janelas fechavam-se e na oclusão da casa habitavam
os moradores. Humedeciam os lábios e cruzavam as mãos
antes da noite cair. Os joelhos flectiam quando os músculos
ao peso do aroma da terra cediam e um grito desenhava-se
na madeira lavrada por mãos solitárias, azuis
e suavemente ritmadas, balançando até pelo silêncio
se suspenderem e na ondulada respiração adormecerem,
para nunca mais irromperem pela manhã.

Lançando vos lançarei pelas faces as pétalas apodrecidas
no hálito dos pomares de ozono, estâncias primaveris
que cobrem o tecto do tecto da cidade. Engavinhados, os viajantes
pedalam, na surpresa da tarde, bicicletas de granito
untadas pelo óleo de girassol. Fulguram no fim
da estrada, se os olham dentro dos olhos; amadurecem,
se os esquecem e logo se inclinam para a terra
como pétalas puras, ao febril êxtase da queda se dão.
Mais tarde, quando o ano for um imenso verão de incêndios
haverá uma súbita ordem de fuga. Na debandada da
noite, os que viajam esperam inquietos no ocre
das estações de serviço e se lhes oferecem um quarto
de hotel, recusam com as mãos vazias e os lábios
roxos pelo sono, a noite o esconde na agonia do regaço.

Jorge Carreira Maia (2007). Exodus.

Exames de Matemática


Alunos portugueses agradecem a Nossa Senhora o Plano Nacional de Matemática e os resultados nos exames nacionais.

O D. Juan das Beiras

Confesso que Salazar é uma personagem que cada vez me fascina mais. Àquela minha imagem arcaica de um homem velho e trôpego, com uma voz irritantemente insuportável, tenho vindo a opor a do grande sedutor, uma espécie de D. Juan da política que deslumbra as adolescentes, as casadas e as viúvas e enfurece os concorrentes. Tudo isto vem a propósito da criação de um pseudo-museu na terra onde o ditador nasceu. Uma esotérica organização, União dos Resistentes Antifascistas Portugueses, acha que o projectado museu deve ser condenado pela Assembleia da República e vai daí recolheu assinaturas e conseguiu que o debate fosse feito.

O que me interessa, porém, é a reacção dos partidos políticos. Poderíamos dizer que os nossos deputados se comportaram como o cão de Pavlov. Ouviram o nome de Salazar e começaram a espumar e a salivar. Os de esquerda espumaram de ódio; os de direita salivaram de prazer. Os argumentos, aliás geniais, sobre tão importante assunto (Público) são apenas o revestimento da espuma e da saliva. Como se esperava, os de esquerda foram ferozmente de esquerda – o PS agradeceu para dar um ar de esquerda antifascista, e os de direita não conseguiram disfarçar as tremuras no coração e os delíquios que o homem ainda lhes provoca.

Quem meditar no assunto fica perplexo. A esquerda deveria ser favorável ao projecto: por que razão haveria de ter medo do fantasma de Santa Comba? Não está ele morto e enterrado? Que interesse terá uma casa com meia dúzia de objectos pessoais, talvez umas ceroulas e a camisa de dormir, para ser frequentada pelos fiéis? O regime democrático está assim tão débil que não possa permitir uma «sala de chuto» para saudosistas dos bons velhos tempos em que havia, segundo eles, quem mandasse? Mas não, a esquerda lá teve que reagir como toda a gente esperava: espumou pela boca e argumentou contra a iniciativa de um presidente de câmara falho de ideias.

Já a direita tinha todas as razões e mais uma para ser contra o projecto. Por que motivo, perguntará o leitor. Devido ao seu passado. A direita precisa de se mostrar liberal e democrática, coisas que a sombra de Santa Comba sempre abjurou. Em vez de salivar de alegria e argumentar sobre a putativa justeza do projecto, deveria raciocinar friamente e mandar o autarca do PSD ter juízo. Não mexer nos mortos e evitar abrir os armários de família, por causa dos esqueletos. Mas a inteligência também não abunda por estes lados e lá começou a direita a salivar, o coração a bater descompassado e os tornozelos a tremer.

Como se vê, o homem tinha qualquer coisa que não deixa este país em paz e impede os doutos políticos que nos representam de usar a cabeça. No fundo, não há deputadozinho, de esquerda ou de direita, que não traga o seu salazarzinho de estimação no coração, uns com amor, outros com ódio, mas ninguém está livre do D. Juan das Beiras.

Jornal Torrejano, 04 de Julho de 2008

Nova edição do Jornal Torrejano on-line. Primeira página, Torres Novas mais um vez fora da corrida aos novos centros educativos. Complete-se com Festas do Almonda arrancam hoje e ainda Assembleia Municipal chumbou criação de gabinete de apoios às freguesias. Tudo da política da paróquia, incluindo as Festas.

Na opinião paroquial, comecemos então com o cartoon de Hélder Dias. Depois, passemos à escrita: Carlos Henriques escreve Espanha campeã da Europa , Carlos Nuno, O Rio de Janeiro continua lindo..., este blogger (em fase adiantada de falta de assunto), A salvação pela música, Jorge Salgado Simões, Uma região em questão, José Ricardo Costa, Spooks, Marco Liberato, A dama de ferro, Santana-Maia Leonardo, Benfica e Porto os rostos do sistema.

Então, por agora ficamos por aqui. Não se esqueça, o JT está em actualização permanente. Bom fim-de-semana.

Os exames de Português

Recomecemos as hostilidades. Sim, hostilidades, pois de há três anos para cá o Ministério da Educação desencadeou uma guerra total contra a sensatez, a qualidade de ensino e o futuro das novas gerações. Enquanto a actual equipa não for posta fora do Ministério da Educação, o país corre um perigo absoluto de não ter futuro. Fica o link para o artigo de Filoménica Mónica, no segundo caderno do Público:

03/07/08

Exodus - X

O endurecido coração entrega-se às trevas da manhã
e no rasto sombrio ergue a vara de salgueiro.
Encostado ao bordão de cinza deixa-se flutuar,
como se máquina de aço inoxidável fora.
Árvores cobrem-se de folhas e, num prenúncio
do tempo a vir, juncam de sombra o chão.
Ali os cães gatinham entre leves ganidos em busca
da floresta, da casa que um dia por decidida
morada terão. O Sol, cintilante astro de ruídos
e tumultos, contrai-se e torna-se a cada dia
mais pequeno, perdido o fulgor de forasteiro,
nestas casas por hóspede não se quer.

Severas imagens assim se projectam diante
do olhar, os jardins suspensos por cordas de sisal,
ranúnculos, anémonas, jacintos-de-água e uma
violeta de ferro vinda das terras, negras praias, da monção.
Se pudesse contar-te um conto de fadas, príncipes,
leves princesas, compreenderias a férrea violeta,
nestes jardins à gravidade tão avessos. Acode-me
uma palavra de névoa, mas logo a esqueço
e se me inclino para dizer o teu nome,
suave delíquio atormenta a fronte, dobra-a
em direcção à sombra e recolhe no segredo
as palavras, todas as que tinha para dizer.

Em silêncio olho as falenas. Anunciam os odores
que os pés paralisam e os prendem às janelas
onde o tempo se vê passar, entristecido
de a si se ter perdido no rio que não desagua.
Atravessado bem no centro por tão triste caminhante,
o coração, endurecido coração, envolve-se
na crosta, o sangue ao secar sobre ele a faz cair,
até os olhos se calarem.

Jorge Carreira Maia (2007). Exodus.

Isto é tudo uma grande mentira

Medina Carreira em grande forma. Vale a pena ouvir:

http://sic.aeiou.pt/online/scripts/2007/videopopup2008.aspx?videoId={1D4B7A66-F406-41EC-A76B-F85F44E18D3C}

Schopenhauer - Da influência da música

Mas a música, que vai para além das Ideias (platónicas), é completamente independente do mundo fenomenal; ignora-o em absoluto, e poderia, de qualquer maneira, continuar a existir, mesmo que o universo não existisse; não se pode dizer o mesmo das outras artes. A música, com efeito, é uma objectidade [uma existência em si independente dos sujeitos], uma cópia imediata de toda a vontade que é o mundo, como o são as próprias Ideias (…). Ela não é, como as outras artes, uma reprodução das Ideias, mas uma reprodução da Vontade ao mesmo nível das Ideias. É por isso que a influência da música é mais poderosa e mais penetrante que a das outras artes; estas apenas exprimem a sombra, enquanto a música fala do ser. [Arthur Schopenhauer, Le monde comme volonté et comme représentation]

Urgência em aprender filosofia?

Graças ao Zé Ricardo Costa cheguei a este artigo do Guardian on-line: Schools of thought: teach children philosophy, experts urge. Quais os argumentos dos drs. Michael Hand e Carrie Winstanley para defender a presença da filosofia no currículo escolar desde bem cedo? Enumeremo-los:

1. Pensadores críticos são pessoas que raciocinam bem e que julgam e agem com base no seu raciocínio.
2. Para se tornarem pensadores críticos, as crianças devem aprender o que constitui um bom raciocínio e por que motivo é importante – e isto são assuntos filosóficos.
3. Melhor do que qualquer outro assunto, a filosofia ensina as crianças como avaliar razões, defender posições, definir termos, avaliar fontes de informação e julgar o valor de argumentos e de evidências.
4. A filosofia também permite às crianças mais novas comprometer-se em discussões e argumentações mesmo antes de saber muito.
5. A filosofia tem um papel importante no ensino de problemas controversos, como o aborto, da análise conceptual na escola primária e na educação moral e religiosa.
6. A filosofia é importante também na educação para a inteligência filosófica dos temas da literatura infantil, na busca de sentido por parte dos adolescentes e na busca da sabedoria (entendida como forma de se saber comportar na vida).

Estes argumentos, que mostram bem a necessidade de uma entrada mais larga da filosofia no currículo escolar, são claramente argumentos que, em Portugal, têm conduzido a uma restrição da importância da filosofia no ensino secundário. O que a filosofia faz é tornar os jovens em pensadores críticos. Mas será que a nossa sociedade e os nossos dirigentes políticos têm qualquer interesse na produção em larga escala de gente que pense criticamente? Se olharmos para as medidas do actual ministério da Educação, o que vemos é o sentido contrário: quanto mais acrítico, ignorante e incapaz de raciocinar por si, melhor será o aluno. Talvez os ingleses estejam interessados em desenvolver o espírito crítico do seu povo. Em Portugal, porém, o espírito de rebanho, a fidelidade canina, o abanar a cauda e o pôr o rabinho a jeito são os skills mais apreciados, desde a classe política até aos empresários, passando pela nova nomenklatura que, por iniciativa do ministério da Educação, está a tomar conta das escolas e a assegurar que não se ultrapasse nunca o nível da indigência. Para dizer a verdade, a escola pública está a ser vítimas de uma OPA hostil por parte dos cultores da indigência, gente que odeia a filosofia e ainda mais o espírito crítico. A filosofia faria todo o sentido se Portugal fosse um país a sério e de gente séria e que se quisesse erguer acima da mediocridade em que vive. Nas actuais circunstâncias, as competências a ensinar serão sempre aquelas que terão mais aceitação social: a sabujice, o lambe-botismo, o ataque traiçoeiro, a manhosice rasteira e o fundamental, não o esqueçamos, abanar a cauda e salivar com as palavras do dono. A presença da filosofia no currículo do ensino secundário em Portugal é um espinho cravado na garganta da classe política. Ainda não foi completamente eliminada por medo da reacção de certos sectores influentes, como a Igreja e alguma comunicação social. A filosofia sempre foi um empreendimento de homens livres. Mas em Portugal aprecia-se particularmente os escravos. O escravo não precisa de saber pensar, desde que obedeça e se ponha a jeito.

02/07/08

Exodus - IX

Os cálamos da noite deslizam entre mãos
e os farrapos do tempo são soprados, se o verde
pinta a negrura das colinas. As vozes,
as vozes calaram-se no zumbido das trevas
e as mães, de cansada memória, repetem
histórias de viúvas caídas na desgraça do dia,
do horizonte eram mera sombra oculta,
e nos céus vicejam como máquinas
abertas ao silêncio; fátuo silêncio as alimenta.

Um som sibilado tocou a parturiente
um instante antes da criança chegar:
o esgar da face desvaneceu-se e o horror,
pois horror era, tomou do mundo a rédea.
Cruzava-se gente, ia e vinha, os olhos
rolavam em direcção à terra; nela as pragas
tinham crescido, como se um deus ainda
dos homens o destino, friável destino, soubesse.

Sobre a inconstância do coração nada se desenha:
um rumor de espinhos une à vida a sombra
disforme. Aí o que caminha tem o seu corpo
e com ele cria um espelho de urtigas
e ervas azedas, um vidro tão fosco como
as colinas para além das quais o Sol se põe.
No rosto da cidade, há carros embuçados,
calam-se quando tudo se desvanece
na seca tarde pelos cálamos da noite bebida.

Jorge Carreira Maia (2007). Exodus.

Annette Peacock - Survival

Quantas vezes terei ouvido este álbum? Perdi a conta. Ainda tenho por cá o vinil.

Entrevista a Manuel Gusmão

Os professores têm de gostar do que estão a fazer, para poderem passar esse gosto. As tentativas que se têm feito para domesticar os textos e aproximá-los dos alunos recorrem a recontextualizações que resultam em absurdos completos. Há um manual em que o poema da Sophia sobre a Camões e a tença é usado para os meninos aprenderem a escrever um requerimento a pedir uma bolsa.
----------------------
Este excerto faz parte de uma extensa entrevista do poeta Manuel Gusmão ao Público. Fala muito de poesia, mas também de política (Gusmão explica por que motivo se mantém fiel ao marxismo e ao PCP), de ensino da literatura, da crise do ensino das humanidades na universidade e do acordo ortográfico. A ler aqui.

Fethullah Gülen

Os ocidentais interrogam-se: quem é Fethullah Gülen? No dia 23 de Junho, as revistas Foreign Policy (americana) e Prospect (britânica) anunciaram a sua eleição como o mais influente intelectual do mundo. Foi votado de forma esmagadora num inquérito online, entre 100 personalidades previamente escolhidas. Na ficha de apresentação, Gülen era definido como um dos rostos do islão moderado, mas acusado pelos detractores de ameaçar a ordem secular turca.

É um homem poderoso. Não se limita a ser um líder religioso que quer conciliar o islão com a democracia e a modernidade ocidental, refazer a imagem do nacionalismo turco e ancorá-lo na Europa, opondo-se frontalmente ao fundamentalismo e ao islamismo político. Dirige um movimento cuja coluna vertebral são centenas de escolas e universidades - na Turquia, mas também da África à Rússia, da Europa à China, com uma particular implantação nos países turcófonos da Ásia Central. Tem a sua própria base financeira e uma extensa rede mediática, jornais, televisões, revistas, em que colaboram muitos seculares liberais. O seu movimento foi comparado à Opus Dei.

Não prega numa mesquita, difunde directamente o seu ensino num site na Internet. É um dos inspiradores da viragem secular e europeísta dos pós-islamistas do Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP), de Recep Tayyip Erdogan.
[Ler todo o artigo “O sufi que passou a ser o intelectual mais influente do mundo” de Jorge Almeida Fernandes, no Público]

Emil Cioran - O destino da nossa espécie

Desde que Schopenhauer teve a aberrante inspiração de introduzir a sexualidade na metafísica, e Freud a de sublimar a indecência por uma pseudo-ciência das nossas perturbações, admite-se que qualquer um nos entretenha com a «significação» das suas explorações, da sua timidez e dos seus êxitos. Todas as confidências começam por aí; todas as conversas chegam aí. Em breve as nossas relações com os outros reduzir-se-ão ao registo dos seus orgasmos efectivos ou inventados… É o destino da nossa espécie, devastada pela introspecção e pela anemia, de se reproduzir por palavras, de expor as suas noites e de engrandecer as suas fraquezas ou os seus triunfos. [Emil Cioran, Syllogismes de l'amertume]

Referendos insulares

Eis uma excelente ideia. Alberto João Jardim andava falho de imaginação? Não, estava a guardar-se para esta: “Vamos aprovar no parlamento da Madeira uma proposta de revisão constitucional para que no seio da Pátria portuguesa se clarifiquem as competências do Estado e da região autónoma”. Como a imaginação tinha estado contida para ganhar um novo élan, agora manifestou-se na plenitude: um referendo ao povo madeirense sobre a tal proposta a aprovar no parlamento madeirense (Público). Como qualquer revisão constitucional só pode ser feita na Assembleia da República e com 2/3 dos votos dos deputados, Jardim ou anda a brincar com os madeirenses ou está a preparar uma guerrilha institucional sem fim. Seja como for, se alguém quiser acabar com o país e quase nove séculos de história, o melhor que terá a fazer é regionalizar o continente. Cinco “condados”, cada qual com o seu Alberto João, reduzirão tudo a cinzas em três tempos. É por estas e por outras que aparecem de vez em quando os Pombais.

Adenda: Afinal a imaginação teria andado depressa de mais e aquela do referendo insular até para Jardim era excessiva. Não, não é referendo, Jardim terá descoberto que não há referendos sobre matéria constitucional. Agora a imaginação deu-lhe para tornar as próximas eleições legislativas, no círculo da Madeira, num plebiscito [interessante conceito no nosso ordenamento jurídico] à sua revisão da constituição (aqui).

01/07/08

Exodus - VIII

Feriu o pó e levantou as suas tremendas asas,
erguendo-se. Não era pássaro, nem máquina
que pelo engenho voasse, mas simples anjo,
daqueles que desfilam em procissões de aldeia,
vestidos de branco, o rosto coberto de suor e os pés
exaustos de a tanta erva pisarem. Subiu. Pela terra
alteavam-se vozes na vagarosa sombra da macieira.

Nos outros dias, colava-se à parede e aí ficava,
imagem era, tão estático, no rosto
um medo se lhe desenhava, tomava
conta das faces, invadia lábios,
caía em borbotões pelo queixo,
levemente recolhido, inclinado sobre o peito.
Nas asas azuis tinha então escamas por penas;
era um anjo aquático,
habitava os poentes na fina dobra da praia.

Quando não havia procissão e assim se cobria de asas
escamadas de azul, envergava uma túnica de cíclames
e cruzava as delicadas mãos sobre o peito. Nesses dias,
não voava, nem procurava do mar as águas.
Olhava, olhava, olhava para o indefinido ponto
onde a geometria das horas nascia e traçava mapas
em sua mente, trabalho de geógrafo perdido
em funestas dunas já desfolhadas pelos desertos de areia.

À noite nunca o mensageiro dormiu. Por vezes, despia-se.
Horroriza-o o vazio lugar do sexo e cobria
com as mãos o rosto para que espelho algum devolvesse
a cegueira da sua vergonha. Cansado, deitava-se
em cama de pedra e sonhava com searas de trigo a
secar sobre as águas marinhas, peixes de pão secos
pela inclemência de um sol, a primavera o esventrava.

Um dia, veio de entre as algas um pássaro e olhou-o,
depois inclinou tão ao de leve a cabeça e voou para norte.
Um silêncio de carvão soltou-se do fundo da alma e o anjo,
agora um querubim, pela primeira vez, sentiu lágrimas.
Adormeceu sobre as pedras e quando acordou doíam-lhe
as costas; as asas, um simples papel de seda, desprenderam-se.
Quando despiu a túnica, a nenhum corpo a luz iluminou.

Jorge Carreira Maia (2007). Exodus.

Kronos Quartet - Bela Bartok: quator a cordes


kronos quartet, Bela bartok
Colocado por franz_peter

O menino de ouro

Só o título é a todos os títulos sinal do pior. “Sócrates – O Menino de Ouro do PS” dá logo vontade de vomitar. Não bastava aquele piscar de olhos aos psd’s com a colagem a Sá Carneiro (na versão de Agustina Bessa Luís), como ainda foi servido um Dias Loureiro emocionado e obrigado para com a biografia daquele que Deus, por falta de piedade, nos deu por primeiro-ministro (aqui). Também Vitorino esteve lá, na apresentação da obra-prima do jornalismo, a perorar e a fazer a comparaçãozinha manhosa com o Blair e a parlapatice da comunicação. Vale tudo para este bando de nulidades que se acham a acme da pátria. É por causa destas tontices, que fazem salivar os candidatos a presidentes de câmara e de junta de freguesia, que Portugal é a merda, assim mesmo, que é. Já ninguém tem pudor.

A via Mugabe

Este vídeo aqui e a recepção que o mundo africano tem dado a Robert Mugabe mostram bem que os valores da democracia não são propriamente universais. Um pensador como John Rawls, ao escrever a sua Teoria da Justiça, supôs essa universalidade da valoração democrática da vida política. Anos mais tarde, veio a reconhecer que o seu contratualismo só seria pensável em sociedades que tivessem um mínimo de condições sociais que permitissem a tolerância e a convivência democrática. Aquilo que cabe perguntar, porém, é se a Europa não estará a criar condições internas para que a via Mugabe se torne, também por cá, uma saída possível?

Andei a fazer um MAPA

Não me apetece fazer nada. Não me apetece ler nem escrever. Dispenso ir apanhar sol para a rua. Ando há quase 24 horas com uma maquineta a tiracolo e uma braçadeira à volta do braço esquerdo, ligadas por um tubo de borracha. De vez em quando a braçadeira – apetece-me dizer a puta da braçadeira – começa a inchar e aperta-me o braço, é para medir a pressão arterial, disse-me a técnica cardiopneumologista. Era a isto que Heidegger chamava a questão da técnica. O médico cardiologista, outro técnico, mandou-me fazer um MAPA. Ainda pensei que ele estava enganado, que pensasse que eu era geógrafo, mas não. Um MAPA não é um mapa, um MAPA é uma monitorização (acabei de vomitar com a palavra) ambulatória da pressão arterial. Assim, vi-me agarrado à maquineta e toca de dormir com ela e com a braçadeira a apertar o braço e o braço a ver-se em palpos de aranha com tanta apertadela. Se pensa que a coisa fica por aqui está enganado. A técnica tornou-se humana e um MAPA a sério requer um diário. Sou obrigado a registar o que vai acontecendo.

O diário é uma grelha (até parece uma emanação do Ministério da Educação) que tem as seguintes entradas: Horas; O que sentiu; O que estava a fazer. Como pode perceber a coisa é mesmo da pesada: puro voyeurismo. Devo registar tudo? – perguntei. Não, respondeu a técnica, apenas o mais importante. Estão as instruções nas costas. Fiquei esclarecido. Por exemplo, se me levantar para ir ao WC – assim mesmo – durante o sono (não me levantei, partilho isto com todos) toca a registar a hora. Fiquei sem perceber se deveria nesse caso registar o que sentiria. Será que poderia informar os técnicos que teria sentido alívio? Bem, não pense que a coisa fica por aqui. Não fica. Se tiver o azar de fazer um MAPA e der uma queca (ter relações sexuais, como explicam as instruções para o doente – e eu a pensar que eles estavam só a ver se eu era doente, mas afinal já o sou) terá não só de o registar na coluna “o que estava a fazer”, como de escrever a hora e o que sentiu, se é que sentiu alguma coisa. Por mim, decidi-me pela castidade. Se durante a noite algum desejo inconsciente me alterou o estado de flacidez sexual não o sei e por isso não o registei para alívio da minha consciência. Sou um conservador. Fiquei-me pelas refeições e pelos medicamentos, mais umas trivialidades. Se queriam saber alguma coisa da minha vida sexual, enganei-os. Vão fazer MAPAS para o raio que os parta. Daqui a uma hora, vou tirar a maquineta e entregar à rapariguinha que é técnica o meu diário. Ao lê-lo, vai ter pena de mim. Que triste vida eu levo.

O caso da fruta

A forma como a esfera pública está a receber o arquivamento do processo contra Pinto da Costa, referente ao jogo Estrela da Amadora – F. C. do Porto, revela a situação perigosa em que vive a justiça em Portugal. O problema não se centra nem no despacho de arquivamento do juiz do Porto nem no recurso que o Ministério Público entende ir apresentar. A questão está na leitura que a opinião publicada, e também a opinião pública, fazem dos acontecimentos. Ninguém vê na acção dos diversos actores no processo a independência requerida. Dito de outra maneira: ninguém acredita na justiça a não ser naquela que serve os seus interesses privados ou as suas paixões clubistas. Que o mundo dos tribunais tenha deixado criar esta imagem revela muito bem o grau de degradação a que se chegou. O caso da fruta é, no entanto, apenas mais um que queima em lume mais ou menos brando a instituição que deveria, pela sua independência inequívoca, ser o garante da paz pública.

A Polónia e o Tratado de Lisboa

Depois do parlamento polaco ter aprovado o Tratado de Lisboa, o Presidente da Polónia recusa-se a assiná-lo. Razões: “Por agora, a questão do tratado está sem substância” devido à vitória do «não» no referendo irlandês. O curioso em todo este processo reside no facto de se querer, a nível das elites políticas europeias e da burocracia de Bruxelas, um tratado tão substancial que acabou por se tornar insubstancial. Como se vai percebendo, a resistência ao Tratado, por essa Europa fora, é muito maior do que aquilo que se quer deixar transparecer. Se têm dado oportunidade aos povos para se pronunciarem, então o descalabro seria total. Sarkozy, Barroso e Sócrates bem podem coçar a cabeça.