21/10/07

Luz da Normandia - XXVI

19/10/07

A Origem da Luz - Cinco

Como posso voltar a esta casa e não ver o fogo?
Sou eu as cinzas, este olhar tão completo.
Todas as ciências me interditaram o puro ver,
montanhas a erguer-se em meus olhos doridos,
cansados, esquecidos na noite dos inúteis ofícios.

Casa branca e fugaz
onde puras e ferozes mãos ecoam,
jogam o destino que em mim se joga. Esqueci-me
das silenciosas perguntas, das faúlhas a ranger
nesta terra azul, na pedra fatigada presa ao céu.

Os mortos jamais me enlouquecerão pela ausência.
Na primavera, brancos cabelos traziam o pólen e o sol
e na água dos tanques nascia uma imagem. Imaginando
era o meu corpo que crescia e a imagem
um espelho de onde fujo para a noite a sangrar.

Jorge Carreira Maia, A Origem da Luz (1981)

Um tratado discreto

Quando olho para a imprensa europeia sinto um certo arrepio. Por que motivo é tão discreta relativamente ao que foi assinado em Lisboa? Será que o que se passa em Lisboa não diz respeito à Europa? Mas uma reacção tão discreta não será o sintoma de que algo está ser escondido, ou toda a gente julgará que se está perante mais uma burocracia irrelevante que nada tem a ver com a nossa vida? Ou será que já só se olha para a Europa como um cadáver adiado?

PINA BAUSCH - LE SACRE DU PRINTEMPS - STRAVINSKI


PINA BAUSCH - LE SACRE
Colocado por birdy66

Jornal Torrejano, 19 de Outubro de 2007

Voltou o Jornal Torrejano, como acontece todas as 6.ªs feiras. Na primeira página, a história do canil intermunicipal quase cheio no dia da inauguração. Destaque ainda para a divisão de opiniões (é o pluralismo) sobre a Feira dos Frutos Secos.
Na opinião, o sempre benvindo cartoon de Hélder Dias, Arqueologia do silêncio, por José Ricardo Costa, A falta de hábitos de trabalho, por Santana-Maia Leonardo, Flexi...deslizando, por Miguel Sentieiro, Desenvolvimento rural, por José Trincão Marques, Sucessão, por Carlos Henriques e A formação do animal, por este blogger de triste figura.
Prontos, como se diz, a coisa está feita e há que ir à vidinha, que é como quem diz... Aqui não se usa lugares comuns, frases feitas e clichés.

A luz da madrugada

O Sol ainda não chegou, mas a luz da madrugada anuncia-o vitorioso. As potências da noite retornam à sua morada eterna. Bom dia.

Luz da Normandia - XXV

18/10/07

A Origem da Luz - Quatro

Tão alegre o tempo em que voltavas com teus mostruários,
pequenos faróis vermelhos, ébrios de tanto caminhar.
Sonolentas bicicletas iam e vinham, cerziam a aldeia de lés-a-lés,
como se um deus pequeno e infrutífero descesse
e poisasse na calma placidez dos dias.

Aqui, destas janelas, avistei o insuspeitado mundo
e nada era puro ou mácula alguma habitava
o regaço das mulheres. As coisas eram o enorme
incêndio de serem apenas coisas, pedaços terríveis
na sujeição ao tempo, feroz tribunal sem lei.

Eras a presença tutelar, o meu respeito,
caminho de argila e calcário a abrir-se ao mundo.
Trazias-me as cores e um dever ser, o crime jamais
alguém o pagará. Pedra a pedra o universo construiu-se e
sobre mim desabou. No centro, um deus pequeno e infrutífero nascia...

Jorge Carreira Maia, A Origem da Luz (1981)

Sócrates e as preposições

O extraordinário Sócrates enche a boca com a necessidade de apostar no conhecimento. É por isso que o financiamento do ensino superior, desde que ele pastoreia o povo, já desceu 14%. Julgo que o forte de sua excelência não será a sintaxe e a semântica do português: ele diz economia do conhecimento quando quer dizer economia no conhecimento. É um problema com as preposições. Quando aparecem contraídas baralham um bocado… Acontece muito com os meus alunos. Farto-me de corrigir preposições.

O tratado de Lisboa e o que interessa à Europa

O que é que conta a cimeira de Lisboa? Pode contar muito, mas a verdade é que a imprensa internacional tem mais coisas interessantes para destacar do que aquilo que se joga na capital portuguesa. Acabei de dar uma pequena volta por jornais on-line europeus e descobri que a cimeira praticamente não existe. Para os espanhóis (El Pais, El Mundo, La Vanguardia), para os franceses (Le Figaro, Le Monde, Liberátion), para os italianos (La Stampa, Il Messagero) o acontecimento é a separação entre Nicolas Sarkozy e a mulher, Cécilia. Na Alemanha (Die Welt, Frankfurter Allgemeine, Berliner Morgenpost), juntamente com o italiano Corriere de la Sera, o que conta são as palavras de Putin e para os ingleses (Times, Telegraph e Guardian) o importante é mesmo o retorno de Benazir Bhutto ao Paquistão. Não quer dizer que aqui e ali não existam referências ao que se está a passar, mas são pequenas referências perdidas na página. Talvez logo a coisa mude, fundamentalmente se os polacos ou os ingleses disserem não.

Esta pequena viagem é bastante esclarecedora do actual estado de espírito europeu. Para além dos políticos, parece que mais ninguém se interessa pelo tratado reformador e no entanto… Aqui entre nós, que ninguém nos ouve, também acho a notícia da Cécilia muito mais interessante…

As primeiras folhas outonais

Veio a manhã límpida e solene. E com ela abrem-se ao Sol as flores e as árvores deixam cair as primeiras folhas outonais. Bom dia.

Luz da Normandia - XXIV

17/10/07

A Origem da Luz - Três

Olhar a macieira, imóvel espectro no centro
da terra, era de todos o único sonho.
Parados no soalho da casa, olhavam especados…
Ó como tomar da memória a coloração dos sons,
o timbre metálico dos odores, a caducidade dos gestos.

Dos vidros restava o estilhaçado papel de guerra,
essa recordação profunda do teu corpo.
Ó como os deuses desciam envoltos em seus halos
e em lentos e breves haustos abençoavam
pedras e heras, suspensas em ocultas mãos as amavam.

Galáxia ou um império de frutos a nascer,
os dedos aprenderam a luz da noite. A maçã,
em secreto pudor, reinava nas brancas paredes dos quartos,
onde disformes silhuetas jogavam os primeiros dados.
Lentamente, um pequeno raio fulgia e afogava os astros.

Jorge Carreira Maia, A Origem da Luz (1981)

Notas sobre a guerra colonial, a propósito do programa de Joaquim Furtado

Ontem começou a ser transmitida uma série sobre a guerra colonial, da autoria de Joaquim Furtado. O excelente episódio apresentado foi dedicado ao eclodir da guerra no norte de Angola, em 1961, fundamentalmente aos acontecimentos de 15 de Março. Houve duas coisas que me impressionaram vivamente. A primeira foi a bárbara acção da UPA (União dos Povos de Angola, que viria a dar origem à FNLA) de Holden Roberto. A guerra começou com ataques violentíssimos contra civis, brancos e negros, que estavam completamente desprotegidos e foram apanhados de surpresa. Eu já conhecia essa violência, mas nunca, que me lembre, tinha visto imagens. Estas são, ainda hoje, absolutamente horríveis. Ora, à luz do direito internacional hodierno, aqueles ataques dirigidos contra brancos e negros bailundos só poderiam configurar aquilo a que nos habituámos a chamar limpeza étnica. Não foram os militares ou as forças da ordem que foram atacados, foram populações muito pouco protegidas, fundamentalmente mulheres e crianças. Por muitas razões que os angolanos tivessem contra o regime colonial, o que aconteceu no 15 de Março foi uma página negra na história de libertação de Angola.

A segunda coisa a impressionar-me foi a natureza do nosso colonialismo. Era um colonialismo ingénuo e absolutamente amador, fundado na crença profunda da verdade da propaganda de Salazar. Aqueles colonos brancos acreditavam piamente que os angolanos queriam ser portugueses e que eram portugueses. Apesar de todos os problemas na fronteira de Angola com o Congo belga, apesar do conflito na colónia belga, ninguém, entre os colonos portugueses, acreditava numa revolta dos angolanos. Não havia praticamente exército de “ocupação” colonial, as populações europeias e as africanas próximas das europeias estavam completamente desprotegidas. Há, por tudo isto, uma coisa que parece certa: a autenticidade das convicções de Salazar. Salazar e uma parte dos portugueses, bem como dos angolanos, acreditavam na possibilidade de uma nação multi-territorial. Não havia cinismo, havia apenas uma incompreensão profunda do desenvolvimento da história mundial, um desconhecimento absoluto da realidade colonial e um amadorismo político-militar indescritível. Todos estes factores convergiram numa tragédia, muitas vezes silenciosa e muitas vezes silenciada, que tocou aos portugueses e aos povos que connosco estivem em guerra.

Nota: quem não viu o 1.º episódio, pode vê-lo no próximo Sábado, às 23, na RTP N.

A vergonha do Presidente da República

Parece que o senhor Presidente da República se envergonha com os números da pobreza em Portugal. Ainda bem, estamos todos mais reconfortados, ainda por cima o senhor Presidente nunca governou o país, nem teve quaisquer responsabilidades nas orientações económicas que a pátria trilha. Pena é que não tenha também corado…

Menezes, porque não…

Fui jantar à Golegã para ver se o Bife à Central ainda mantinha a sua aura. Acabado de jantar, sem ter bebido nada que se visse, dou por mim a pensar nessa extraordinária dupla composta por Luís Filipe Menezes / Pedro Santana Lopes. O que se passa comigo, será que o jantar me caiu mal? Pensei. Passados instantes tudo se iluminou, eu estava perante o edifício para onde, para gáudio do povo, Santana Lopes tinha deslocalizado a Secretaria de Estado da Agricultura. Eis o que nos espera, se Menezes chegar a primeiro-ministro e tudo, neste país, é possível. Se Santana foi, se Santana quer vir a ser sabe-se lá o quê, se Sócrates é, porque não o Menezes…

De caverna em caverna

Os dias declinam, mas a luz ainda é uma mancha que cobre a cidade, ateia incêndios nos telhados, faz resplandecer o verd’oiro das árvores. As gentes começam a regressar a casa, abandonam a fadiga que o dia sempre traz, escondem-se nas cavernas onde só as sombras reinam. De caverna em caverna, eis o destino que nos coube e a luz, se nos ilumina, logo fenece e se entrega aos deuses telúricos da noite. No horizonte, há manchas de sangue a pontuar as poucas nuvens que avisto. Caminho pela cidade, na esperança do silêncio, mas os gritos invadem a tarde como se, no crepúsculo que já se adivinha, carpissem o dia, à morte que será a sua ele se entrega.

Gato Fedorento - Forum Filosofia

Graças ao Zé Ricardo cheguei a este notável exercício de filosofia.

My Funny Valentine By Nico

Para hoje uma diva underground, numa interpretação de um dos mais conhecidos temas de jazz, My Funny Valentine. Há qualquer coisa nesta "leitura" que me faz lembrar a de Chet Baker. Será o underground?

A aurora veio

A aurora veio límpida e serena; e assim acolhe os mortais para o destino que for o deles. Bom dia.

Luz da Normandia - XXIII

16/10/07

A Origem da Luz - Dois

Falar de Maio, o mês onde o sol se conjurou
com as primeiras, as definitivas lições.
Na casa havia um hálito quente, o calor
a inundar as pálidas flores do jardim,
um retrato abandonado às chuvas de Dezembro.

Qual a matéria dos actos? Em desespero,
cavalgam os astros, voam como sóis ao luar,
cantam a cordata sapiência das horas,
as pequenas traições, a corola branca dos gestos.
Cantam, no fundo da terra, o murmúrio do mar.

Exíguos raios de luz erguiam brancas paredes
e a casa debatia-se entre a placidez dos elementos
e a fúria de pequenas mãos, absortas e criminosas.
Aspidistras tombavam nos corredores e fugindo
de meus pés formava-se uma rua de cal e ambrósia.

Jorge Carreira Maia, A Origem da Luz

No Gattopardo, Pedro Mexia e a constituição

A única matéria que se afigura discutível é a dimensão institucional. Ou seja, é possível que haja quem queira alterar a natureza do regime. Sejamos claros: há quem pretenda o presidencialismo. Se é esse o caso, mais vale assumir tal proposta com clareza. E cá estaremos para lembrar os defeitos do presidencialismo, os desvios cesaristas, os conflitos com o governo, e o mais que os manuais registam.Se é isso, conversaremos em devido tempo. Se não é isso, é pólvora seca. [Pedro Mexia, Não precisamos de uma nova Constituição ]

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A proposta sem sentido de Luís Filipe Menezes, sobre a necessidade de uma nova constituição, recebeu uma excelente resposta de Pedro Mexia, no blogue Gattopardo. Ler o post todo aqui. E Pedro Mexia não é propriamente um intelectual de esquerda cheio de memórias afectuosas pelos tempos em que a Constituição foi feita, se é que ele tinha, nesses dias, idade para ter memórias políticas.

Adriano Correia de Oliveira



Quando, por volta de 1973, comecei a frequentar o Cine Clube de Torres Novas com o fito de jogar xadrez (joguei intérminas partidas com o Luís Paulo Costa, mas não só) acabei por descobrir a política e a música portuguesa de resistência à ditadura. Havia por lá um gravador e duas cassetes, julgo que eram apenas duas, dessa música que ouvi, e os que frequentavam o Cine Clube, muitas e muitas vezes. Zeca Afonso, Sérgio Godinho, José Mário Branco, Luís Cília, José Jorge Letria e Adriano Correia de Oliveira. Esta música, muito curiosamente, abriu-me para outras músicas, abriu-me para o jazz e para a música erudita. Como? Por ela própria já ser outra música, pelo facto de em muitas canções, nem todas, haver uma belíssima poesia e uma sonoridade a que não estava habituado. Essa música também me ajudou a fazer-me cidadão, mesmo que há muito a minha compreensão da música e da cidadania tenha abandonado a visão ingénua que, na altura, era a minha. Hoje que faz 25 anos que morreu Adrianao Correia de Oliveira coloco um vídeo proveniente do YouTube com uma das suas canções, talvez aquela de que mais gostei.

Rui Pereira e a falta de vergonha do PS

O Partido Socialista perdeu completamente a vergonha. Chamado ao Parlamento para explicar a visita da polícia a uma delegação de um sindicato de professores, o ministro Rui Pereira achou por bem escudar-se na ausência de ilícito no comportamento dos agentes e em explicações técnicas, para referir que foi «normal» a visita ao referido sindicato. Que esta visita tenha sido feita na véspera de uma manifestação que iria afrontar a política, perante o primeiro-ministro, do seu governo, que este ande incomodado com os protestos, que este governo tenha um passado de perseguição e humilhação dos professores, que haja um conflito aberto entre o governo e os professores, nada disso tem, para a excelsa personagem que Rui Pereira incarna, qualquer significado político. A visitinha não tem leitura política? Como foi possível que o partido da liberdade se tenha transformado no partido que justifica recados aos sindicatos dados pela polícia? Que gente é esta que tomou conta do PS? Que gente é esta que acha normal que a polícia visite um sindicato e lhe faça recomendações? Não há ninguém que se indigne dentro da congregação? Ou o direito à indignação de Mário Soares é só para usar com o PSD?

Nádya, Música e Outras Artes

Para hoje propõe-se um blogue brasileiro dedicado à música, especificamente ao piano, Nádya, música e outras artes. O blogue pertence a uma pianista e compositora, que também ensinou piano e História da Música, e que se apresenta apenas como Nadya (Duarte de Carvalho). O que tem este jovem blogue (nascido em Setembro) de especial? Utiliza vídeos do YouTube, seleccionando de forma pertinente o que dá a escutar, além disso, desde Outubro, introduz certas composições através de pequenos textos didácticos.

O que é que encontramos lá? Muita música para piano, Ravel, Scarlatti, Bach, Brahms e Debussy, só para falar da postagem de Outubro. E ao piano? Pierre-Laurent Aimard, Irena Koblar, a belíssima (isto é um aparte) Hélène Grimaud, Gherard Oppitz, Daniel Barenboim, Alexis Weissenberg, entre outros. A vantagem deste blogue é que serve de filtro didáctico sobre o mar imenso que é o YouTube. Para amantes de música. Espera-se uma longa vida.

As primeiras notas

As primeiras notas do dia, uma luz tímida tenta romper por entre uma cortina de nuvens e na terra ainda arde a iluminação da noite. Bom dia.

Luz da Normandia - XXII

15/10/07

A Origem da Luz - Um

Sol incendiando-me célula a célula, nasci.
Grande era o silêncio, mãe, o espaço aberto e côncavo,
aí desconhecia todas as metáforas.
Da serra vinham ventos, ateavam barulhos
nas árvores, esmeraldas em teus olhos.

Vítreos raios de sol venciam as laranjeiras,
acendiam velas nas paredes, archotes nos dedos.
Palavra a palavra cresceu o universo, o primeiro
enigma das estrelas, canções ainda puras
ao desprender-se fugiam para o tremor dos espaços.

Água, elemento frio e matinal, brotava
do poço e na terra floresciam ervas e pássaros.
Os meus cabelos eram cordas, pedaços de arame,
pequenos raios; ao erguer-se, incendiavam a lua,
o sol, as breves constelações de sílica e alabastro.

Jorge Carreira Maia, A Origem da Luz (1981)

De Manuel Rodrigues a A Origem da Luz

Durante duas semanas, graças à boa vontade do autor, fomos acompanhados pela poesia de Manuel Rodrigues. Durante cinco dias ficamos com o ciclo "A Origem da Luz", de 1981, da autoria deste blogger.

Um PSD polaco

Por que razão será que quando vejo o PSD, o maior partido da oposição, entregue a Luís Filipe Menezes e a Pedro Santana Lopes me lembro logo da Polónia? O que terão estes homens de polaco?

O céu depois da trovoada

















José Matias Alves - Do empobrecimento das práticas docentes

O título da crónica de hoje enuncia um programa de pesquisa: as práticas educativas prevalecentes nas nossas escolas estão mais ricas ou mais pobres por efeito das medidas de política que têm vindo a ser tomadas? Isto é, as interacções pedagógicas são mais fecundas, o diálogo com as famílias mais frutífero, os resultados educativos (na sua tripla dimensão da instrução, da socialização e da estimulação…) melhoraram em termos gerais? Numa palavra, as promessas educativas estão a ser mais bem realizadas? Ou, pelo contrário, menos bem?

Em rigor, ninguém pode responder as estas difíceis (mas necessárias) questões. Da parte do poder instituído, é óbvia a resposta: tudo está a melhorar. Da parte das oposições, óbvio o registo negativo. Já se sabe que a realidade não é a preto e branco. Que se não pode universalizar a resposta. Que há situações e situações. Que. Que. Certo. Mas deve poder ser possível definir com rigor a tendência, os prós e os contras, os ganhos e as perdas. Mas isso, só através da produção de conhecimento…

Para início do estudo, poder-se-iam colocar duas hipóteses antagónicas: as práticas docentes estão mais pobres; as práticas docentes estão mais ricas. E o resultado diria para que lado iria a verdade.

Arrisco a hipótese paradoxal do empobrecimento - para além da óbvia intensificação e complexificação - (e desafio os meus futuros mestrandos a fazerem desta hipótese o ponto de partida de uma investigação empírica - para a confirmarem ou negarem….). E arrisco-a baseado no seguinte: os docentes estão hoje muito mais tempo nas escolas; têm hoje, muitos deles, mais tempo lectivo; esta maior permanência é factor de desperdício porque não têm espaços, nem condições de trabalho individual e colectivo nas nossas escolas; estando mais ocupados e desperdiçando o (escasso) tempo terão depois menos tempo para o trabalho individual. Menos tempo para a preparação de aulas, menos tempo para avaliar formativamente os trabalhos dos seus alunos, menos tempo para ler, para investigar, menos tempo até para corrigir em casa os trabalhos produzidos nas turmas.

A confirmar-se esta hipótese (que pessoal e profissionalmente não desejo) será uma desgraça. Que nos obrigará a pensar nas políticas. E a ir para além das aparências. E é esta viagem que poderá fazer diariamente no
Terrear. [José Matias Alves, Do empobrecimento das práticas docentes, Correio da Educação, n.º 309, de 15 de Outubro de 2007]

As dívidas ao BCP e a cultura que as suporta

A história das dívidas perdoadas no BCP é paradigmática e desmente, mais uma vez, o mito da maior eficiência das instituições privadas relativamente às públicas. O que parece passar-se no maior banco privado português é o sintoma de uma cultura ancestral que está muito para além, ou para aquém, da clivagem entre o público e o privado. Essa cultura é aquela que favorece as relações de proximidade e funda-se numa economia do dom, anterior às regras abstractas que a moeda veio trazer. Esta história é um caso de antropologia cultural.

Ténues nuvens irisadas

Chegou a semana com os seus trabalhos, o Sol caminha no horizonte, mas agora velado por ténues nuvens irisadas de sangue. Lá em baixo, o mundo abandona a preguiça dos domingos. Bom dia.

Luz da Normandia - XXI




14/10/07

Manuel Rodrigues - Dobra - "morrem os pais dentro de mim"

morrem os pais dentro de mim
depois avós por aí acima
se afasta a vida do princípio
no fim dos tempos herdei do extinto
este sangue ocasional oxigenado
pelo ar que lhes respiro
e agora sopro

há um deus que te puxa
num funeral de alguém
meu vai


Manuel Rodrigues, Dobra

África do Sul 37 - Argentina 13 (Râguebi)

Já acabou. A segunda-parte foi um bocado quezilenta e talvez menos interessante que a primeira, mas mesmo assim um excelente espectáculo. O último ensaio dos sul-africanos foi excepcional. Para o fim, quase que havia direito a boxe. Isto não é só no futebol que acontece. Os nervos estão à flor da pele. O que me parece é que os árbitros, no râguebi, têm uma função mais moderadora do que no futebol.

Argentina - África do Sul (Râguebi)

Um jogo vibrante. Os argentinos são mais irrequietos e aparentam mais forças, mas os sul-africanos têm uma enorme inteligência do jogo. Quem diria que num jogo de força à inbteligência é fundamental? Continuo a torcer um bocadinho pelos argentinos, mas os sul-africanos são mesmo muito bons. Vamos lá ver o que dá a segunda parte. O resultado (24 - 6) ao intervalo é excessivo.

O PSD, o papel de Menezes e a caixa de Pandora da regionalização

Qual o papel de Luís Filipe Menezes no país? Esta é a questão fundamental. Quem leu as referências que ele fez, no discurso de encerramento do congresso, às autonomias regionais e à regionalização do continente, percebeu o seu papel. Para além da retórica de circunstância, como a que refere o Público [Menezes acusou ainda o Governo de "odiar" o poder regional, bem como de "detestar" o poder local, razão porque os socialistas nunca apostaram na descentralização. "O PS detesta os autarcas, o poder local e odeia mesmo o poder regional", acusou.], uma retórica inútil e viciosa, pois toda a gente percebe que os grandes partidos não odeiam nem o poder regional, nem a regionalização, nem o poder local, pois a sua base reside aí mesmo e a regionalização é fundamental para distribuir uma parcela de poder ao baronato de província, para além desta retórica vazia, dizíamos, o que está em jogo é o processo de regionalização. O papel de Menezes é, entre gritos contra o governo, encontrar uma plataforma de entendimento com Sócrates e as baronias do PS que permita regionalizar o país.

Como já escrevi aqui, em abstracto sou a favor da existências de regiões, mas quando olho para os grandes partidos, para as suas máquinas partidárias, para o apetite devorador que as consome, para a experiência autárquica, para a experiência das autonomias regionais, fico preocupado com o destino do nosso Estado-Nação. Quem tem um interesse mínimo pela política sabe muito bem que há interesses poderosíssimos que pretendem dissolver o Estado-Nação. Por cima, uma União Europeia cada vez mais de pendor fortemente federalizante, cada vez mais submissa a ínvios poderes não eleitos, cada vez menos democrática, por baixo as regiões que exigem mais e mais poderes de facto e pretendem diminuir ao máximo o poder central. Isso não se passa apenas em Espanha. O problema coloca-se noutros países europeus e poderá alastrar como fogo em palha seca. Pressinto uma ameaça sobre o Estado-Nação, uma tentativa de diminuir o seu poder regulador, de o entregar aos poderes fácticos que existem espalhados pelo território. A regionalização portuguesa, num outro contexto histórico internacional e com outra classe política, seria desejável. Nas actuais circunstâncias, devemos pensar muito bem o que poderá acontecer ao país e se o papel de Luís Filipe Menezes não será o de abrir a caixa de Pandora.

Ex-Ivan Nunes e a esculhambada que por aí vai

Num post do blogue Ex-Ivan Nunes, encontrei um belíssimo termo, esculhambadas. Escusa a leitor de se pôr a rir, o termo existe mesmo e descreve na perfeição o conteúdo semântico que é o seu. Se não é uma onomatopeia, pelo menos do ponto de vista linguístico – aí a onomatopeia remete para a formação de uma palavra em que a sua sonoridade imita o som da coisa significada –, é-o do ponto de vista da retórica. Segundo esta, a onomatopeia é um tropo (figura de estilo) que procura sugerir uma imagem auditiva de uma realidade através do uso mimético do som. É aqui que entra a esculhambada ou o esculhambado. Mas o que significa esculhambado?, recalcitra incrédulo o leitor. Significa desleixado, desmazelado. O blogger aplica-o à palavra institucional, quando ouviu dizer que Luís Filipe Menezes e Pedro Santana Lopes fizeram um acordo institucional. De facto, o uso do termo remete para o maior esculhambo (este derivei-a do verbo esculhambar) possível. Se eu quisesse, mas não quero, pois estou na digestão de um belo almoço, caracterizar a vida política portuguesa o que é que diria? A vida portuguesa é um esculhambo, nem mais. É um esculhambo do caraças, e toda a gente percebe a que grau de desmazelo se chegou com tão elevados protagonistas. Belíssima onomatopeia.

Sobre os preservativos no De Rerum Natura

E se o preservativo tivesse sido inventado por um padre católico? E se a Igreja tivesse uma atitude mais compreensiva das “fraquezas” humanas e fosse mais permissiva nos métodos de regulação da natalidade? Impossível, dirá o leitor. Talvez, mas se não o é, já o foi. Ver tudo no De Rerum Natura, neste post e mais neste, da autoria de Palmira Silva. Grande coisa é a história. Com ilustrações e tudo.

Mundial de Râguebi, uma oportunidade perdida

A não transmissão do Mundial de Râguebi em sinal aberto foi uma espantosa oportunidade perdida para divulgar e consolidar a modalidade entre os portugueses. Poder-se-ia ter feito uma ampla campanha de divulgação das regras do jogo, poder-se-ia ter sublinhado os efeitos estéticos que ele contém, poder-se-ia ter ajudado a perceber a espectacularidade que encerra. Havia até a favor dessa divulgação a presença inédita, que acabou por ser briosa, da nossa selecção, gente amadora mas com garra e prazer de jogar e de cantar o hino. Não houve sensibilidade política, nem comercial, nem desportiva para isso. O que poderia ter sido uma grande festa partilhada por muitos portugueses, nomeadamente pertencentes às gerações mais novas, não passou de uma pequena festinha privada, semiclandestina, com muito pouco impacto social. É lamentável.

Quem ganhou com isso? Tirando a estupidez nacional, não vejo mais ninguém. O râguebi perdeu, a política de atracção de jovens para o desporto perdeu, a Sport TV também não ganhou. Se tivesse cedido ou contratado com os canais de sinal aberto a transmissão do mundial poderia ter ganho algum dinheiro e ganhava para o futuro mais adeptos para as suas transmissões de râguebi. Não estou a atribuir a responsabilidade de tudo isto à Sport TV. Não faço ideia por que motivo a transmissão em sinal aberto do mundial não ocorreu. A Sport TV era a legítima detentora dos direitos de transmissão, mas há acontecimentos que merecem, pelo interesse público, uma maior flexibilidade de todas as partes, se é que houve partes interessadas. Uma oportunidade perdida e um desperdício.

Um véu de seda

O sol vai alto e um véu de seda branca, leve e luminoso, cobre a cidade, toca-lhe, acende-lhe um rubor nas faces, ergue-a para o olhar. Bom dia.

Luz da Normandia - XX


13/10/07

Manuel Rodrigues - Dobra - "os azores eu nunca vi"

os azores eu nunca vi
talvez vá em… 2020
mas sei que há
duas coisas : as boas
para tirar picos do cu
e as que são boas
para dos cus tirar o pico
com sorte há outras
fundamentais
é ter cautela e lotaria
depois há mais…


Manuel Rodrigues, Dobra

A voz de Ferreira Leite

Manuel Ferreira Leite traçou, no congresso do PSD, os limites do que poderá ser ou não um programa populista. Pedir a baixa de impostos, pedir um referendo à constituição europeia e arvorar a bandeira da regionalização, tudo medidas pelas quais Luís Filipe Menezes sente inclinação, fariam parte desse programa populista, e a ex-ministra de da economia desaconselha-as vivamente. Note-se que Manuel Ferreira Leite representa mais do que a sua pessoa, ela é a voz de Cavaco Silva e de certas elites social-democratas, no congresso. Veremos o que vai acontecer para perceber a futura relação de Menezes não só com essas elites mas também com o palácio de Belém.

Inglaterra 14 - França 9 (râguebi)

Ganharam os ingleses, infelizmente. Eu bem disse que havia ali uns franceses monárquicos, nem cantavam a Marselhesa. Mais seriamente, os ingleses ganharam bem, na parte final estiveram mais forte, e foram os únicos que marcaram um ensaio, que lhes deu a diferença. Como vi o jogo num canal francês, pude apreciar o fanatismo dos locutores. Os nossos do futebol são uma rapaziada cordata e racional ao pé daqueles franceses, não se calavam de gritar, allez, allez. O pior é que eles não "allez" a lado nenhum, a não ser para casa ver a final descansados. Amanhã, há mais, África do Sul - Argentina. Estarei um bocadinho, mas só um bocadinho, pela Argentina, são mais fracos.

Inglaterra - França (râguebi)

A coisa compôs-se, os franceses ganham por 6-5. Vamos lá ver se aguentam na segunda parte. Pena é que ainda não tenha havido ensaios espectaculares. O da Inglaterra resultou de um azar dos franceses. Cante-se, então, a Marselhesa.

“God Save the Queen” contra a “Marselhesa”

“God Save the Queen” contra a “Marselhesa”. Confirmei, agora mesmo, a minha opção republicana. Seja como for, os ingleses cantaram o seu hino com mais raça. Nos franceses, haveria alguns monárquicos infiltrados. Torço pelos franceses, mas os ingleses já estão a ganhar. É o mundial de râguebi. Continuemos a ver…

Crónicas Normandas IV - A razão no cemitério

O que me surpreendeu, sem que isso devesse acontecer, ao entrar nos cemitérios militares alemão e americano, na Normandia, foi o excesso de racionalidade da sua concepção. Não sabia o que deveria esperar, tinha algumas imagens do cemitério americano construídas com base no ouvir dizer, mas nada me preparara para o espectáculo de racionalidade que, em ambos, se espraiou perante o olhar. É possível que todos os cemitérios, pelos menos os modernos, obedeçam a princípios de ocupação racional do solo. Mas não é essa racionalidade arquitectónica a que me refiro. Falo de uma estranha racionalidade geométrica, um zelo decorativo, ao mesmo tempo simples e aberto e tranquilo e grandioso, do espaço onde repousam os militares mortos em combate.

Naqueles cemitérios, a morte é mais asséptica do que nos civis, pensei mal entrei no cemitério alemão, confirmei a sensação no americano. Há uma clara encenação de qualquer coisa. Todos aqueles espaços, belos espaços, constituem o cenário de uma mistificação. Há ali uma razão que oculta a realidade, que a esconde dos olhos ímpios dos visitantes, que oferece uma imagem suave e leve da carnificina real que levou para ali os despojos humanos que lá repousam.

No reverso do cenário, debaixo de cruzes e lápides, velados pela relva verde tão bem cuidada, estão corpos fragmentados, ossos de onde os músculos voaram pela força das bombas, restos de gente a quem a morte chegou na precipitação do combate. Quem está ali não morreu de morte natural, nem a doença, prolongada ou súbita, assinalou para o trânsito final. A ceifeira chegou atarefada, cansada de tanta colheita, e apanhou os corpos como pôde. Na guerra, não há tempo para preparar a morte, para escolher os eleitos, para lhes dar um último sinal. É obscura a razão que opera nos campos de batalha, uma razão fincada no acaso, em jogos aleatórios, na sem razão do que acontece. Rios de sangue, vísceras a céu aberto, crânios estilhaçados, corpos dilacerados, gritos sem fim, o roncar dos carros de combate, as metralhadoras que crepitam, a explosão de bombas e granadas. Ali antegoza-se o inferno.

Quando olhamos estes campos relvados, as campas perfiladas sob um céu de cinza, já não vemos nada do que levou aqueles homens a escolherem-nos para morada eterna. Repousam tranquilos, como se amanhã pudessem sair das suas campas e correr por ali fora, conversar com outros mortos, aspirar o ar marítimo tão próximo. A razão geométrica que comanda estes espaços é uma mentira piedosa, uma mentira que visa apaziguar não a revolta dos que morreram, mas a consciência dos que vivem. Que tranquilos são estes espaços, dizemos, e pegamos nos nossos corpos, ainda inteiros, e seguimos viagem. Ali nada aconteceu. A razão não passa de uma grande actriz.

Stephen Hough plays Rameau in New York

Uma enorme bola de fogo

O Sol é já uma enorme bola de fogo, uma esfera violenta e inquietante que transforma o céu num mar de luz rosada, sulcado por pássaros negros. Há pequenas nuvens brancas, são a espuma das águas que batem nas areias destas praias. Bom dia.

Luz da Normandia - XIX

12/10/07

Manuel Rodrigues - Roseira VI

deixámos então de querer sem ser
e, então, nem sequer crer
… rodopiam
pequenos motores
a repor de novo os bosques
a limpidez posta nos rios
todo o corpo que se agita
entre as ilhas e cada foz
se lhe transmite
desde que fala voltou a ter
mais calor que o carinho
a presença do autor
. nos entregue
às mãos dos mortos


Manuel Rodrigues, Roseira

A polícia, os sindicatos e a anormalidade democrática

Segundo a IGAI, os polícias que se lembraram de visitar o sindicato de professores, na Covilhã, não cometeram nenhuma ilegalidade, tendo-se até portado muito bem. O problema, porém, é o que lá foram fazer? Que motivos os terão lá levado? Não se percebe. Um país em que seja normal a visita da polícia a um sindicato, na véspera de uma acção legal desse sindicato contra os representantes do poder político, só pode ser um país em que a anormalidade se tornou na norma. Eis o grande contributo de Sócrates para a qualidade da nossa democracia.

No 1.º ciclo, uma política educativa alucinada

Um exemplo da política educativa. A escola a tempo inteiro, no 1.º ciclo, está a deixar crianças e professores à beira de um ataque de nervos. Como é possível que crianças tão pequenas estejam, por esse país fora, tantas horas em sala de aula? Em vários dias por semana chegam a ter 7 horas de presença na escola. Os pais estão calados, pois não têm de se preocupar com quem hão-de deixar os filhos, os políticos adoram estas coisas, mas quem vai responder pela saturação e rejeição cognitiva que esta política totalitária provoca? Na Finlândia, as crianças do 1.º ciclo têm 14 horas semanais de aulas. No outro dia, a embaixadora finlandesa dizia, na Antena 2, que isso era assim para que as crianças possam estar com a família e façam outras coisas fora da escola. As crianças finlandesas são as que obtêm os melhores resultados escolares, a nível mundial. As nossas têm maus resultados e, com estas medidas de gente politicamente alucinada, só podem vir a saber cada vez menos.

Jornal Torrejano, 11 de Outubro de 2007

Voltou o Jornal Torrejano, como todos esperavam. Aproveitando o 5 de Outubro, por aqui é data de aniversário dos Bombeiros Municipais, o JT abre a 1.ª página com uma das colectividades mais queridas do concelho e o trabalho denominado "Novo" quartel continua a marcar comemorações dos bombeiros torrejanos. Ainda, na primeira página, referência para o PS preocupado com a dívida municipal, se ele está quem somos nós para dizer o contrário? Bom, ainda referência para a continuação da Feira dos Frutos Secos, até domingo.

Na opinião, comece-se, como é hábito, pelo cartoon de Hélder Dias, é barato e dá milhões. Depois, ainda segundo o que é a rotina, passe-se para a crónica de José Ricardo Costa, O Elmo de Mambrino, continue-se com Santana-Maia Leonardo e A Esmeralda e O(s) Lobo(s) Mau(s), não nos esqueçamos de Carlos Nuno e Da dignidade e de Carlos Henriques e Chicotada à vista?, para acabar na crónica deste blogger, O fracasso da política educativa europeia.

Sendo assim e não havendo nada mais a tratar, encerra-se este post, pelo menos até à próxima sexta-feira, se tudo correr pelo previsto.

Os segredos da noite

A iluminação da noite ainda se faz notar, mas a aurora já aí vem vestida de tons rosa e laranja, um pouco de cinza e um azul ainda indeciso. Os segredos da noite vão morrer neste instante. Bom dia.

Luz da Normandia - XVIII


11/10/07

Manuel Rodrigues - Roseira I

das flores mais primitivas
as roseiras
são umas silvas
trepadoras
(porque cheira a sua cor
contra a cal
dos muros de outrem
todo o tempo já caído
de um passar
que não passou.

e se atrevem poderosas

Manuel Rodrigues, Roseira

Os pastorinhos de Fátima, a ciência e o politeísmo

Interessante conflito entre a ciência e a fé. Por um lado, a fé popular pede a canonização dos pequenos pastores de Fátima, por outro, os médicos do Vaticano alegam a falta de provas científicas do milagre que lhes é atribuído. Como é que a ciência poderá alguma vez certificar um milagre? Este mistério é mais difícil de penetrar que o mistério da Trindade. Mas mais interessante do que esta polémica é a constatação de que a Igreja Católica tem muita dificuldade em lidar com as reminiscências populares do politeísmo. Os deuses pagãos morreram há muitos séculos, mas retornam continuamente sob outras vestes, as dos santos, reencarnações beatas das potências depostas.