11/10/07

Maria Filomena Mónica, "Cavaco Silva e a Educação"

Se bem se lembram, foi ele [Cavaco Silva] o homem que mais duradouramente ocupou o poder desde o 25 de Abril. Nunca alguém mandou tanto e durante tanto tempo. Se ideias tinha sobre a reforma da escola, teve dez anos para as executar. Ora, o que assistimos ao longo da década de 1985 a 1995 foi à permanência dos dislates pedagógicos veiculados pela esquerda e, mais tarde, interiorizados por uma direita analfabeta. Durante os X, XI e XII governos constitucionais, a que Cavaco Silva presidiu, ocuparam a pasta da Educação João de Deus Pinheiro, Roberto Carneiro, Manuela Ferreira Leite, Diamantino Durão e Couto dos Santos. Até por ter sido o que mais tempo se manteve no posto, vale a pena relembrar o papel de Roberto Carneiro. Curiosamente, sob o seu consultado, a estratégia seguida pelo Bloco Central não se alterou. Foram adoptados os mesmos valores, agravados até por o ocupante da pasta se querer distanciar da direita. Os gabinetes de estudo mantiveram-se e os programas tornaram-se ainda mais palavrosos. Sinceramente, não sei o que deu a este país para que os engenheiros tenham uma especial apetência pelo Ministério da Educação. Licenciado em Engenharia Química, Carneiro cedo trocou os laboratórios pelos gabinetes educativos, o que acabaria por lhe conferir o título honorário de Doutor em Ciências da Educação. (...).

Ao dar rédea solta ao seu ministro da Educação, Cavaco Silva assumiu responsabilidades na forma como o sistema educativo evoluiu. O pensamento de Roberto Carneiro é difícil de ser contestado, até porque, em geral, aparece envolto numa retórica de onde é difícil extrair qualquer conteúdo. Mas vale a pena tentar. Dou uma amostra, retirada de uma recente conferência proferida na Universidade Católica: "Falar de pessoas, de pessoas concretas e não abstractas, e não apenas de currículos teóricos ou de políticas globais, impõe uma pergunta capital: onde estão as pessoas na educação? Onde estão os seus dramas? E as suas tragédias? (...) E, ao falar de pessoas, únicas e irrepetíveis, vem-nos à mente aquelas que não são apenas portadoras de inteligência cognitiva, mas aquelas - todas - que são dotadas de múltiplas inteligências e múltiplos talentos, os quais têm sido sistematicamente coarctados, reprimidos e minimizados no nosso sistema educativo". Continua: "A inteligência comunicacional, as inteligências do coração - a inteligência afectiva e a inteligência emocional -, a inteligência estética, a inteligência moral ou a capacidade de discernimento reclamam novos equilíbrios na educação e diferentes gestões do que é verdadeiramente importante numa escola". Depois, surge a vénia ao relativismo cultural: "A Educação tem obrigatoriamente de aceitar o diverso, como uma riqueza essencial do seu múnus, ou então está a fazer tudo menos libertar, emancipar de servidões, cortar com preconceitos". Uma das consequências desta tese consiste "na aceitação pura e simples de que o conhecimento - melhor, o saber -, ao invés das convicções acumuladas durante mais de duzentos anos de positivismo racionalista, não reveste carácter predominantemente objectivo". Por fim, argumentava: "Neste entendimento, a posição de cada um - a base étnica, o génder, o escalão etário, a origem rural ou urbana, a história de vida - é essencial para o processo de construção do seu próprio conhecimento, para a cognição, a percepção e a transmissão do conhecimento assim cerzido", de onde derivaria que o conhecimento não cabe num livro nem pode ser transmitido por um docente, cuja função não consistiria em "administrar conhecimento objectivo", devendo tão-só limitar-se a contribuir para que os "saberes", escondidos nas almas das criancinhas, tivessem condições para desabrochar.Foi esta retórica romântica que, ao minimizar o valor do conhecimento, o legado da civilização ocidental e o papel do professor, conduziu ao caos pedagógico em que vivemos. Não se trata de atirar todas as culpas de uma trajectória infeliz para cima das costas do Presidente da República, mas de relembrar que, nos tempos modernos, houve duas, e só duas, reformas educativas: a de Veiga Simão, sobre a qual, noutro momento e local, me pronunciei, e a de Cavaco Silva-Deus Pinheiro-Roberto Carneiro. [Maria Filomena Mónica, Cavaco Silva e a Educação, Público de 11 de Outubro de 2007]

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Só uma nota final. É todo este lixo ideológico trazido por Roberto Carneiro que está a ser imposto nas escolas por Maria de Lurdes Rodrigues e Valter Lemos. Entre os dois ministros há uma perfeita continuidade e aquilo que Roberto Carneiro tentou impor de forma doce e suave está, agora, a ser imposto pela força. Como toda a gente que se interessa pelo ensino perceberá, o desastre ainda vai ser maior. Vão às escolas e falem com professores e observem não a propaganda governamental, mas a realidade escolar.

King Crimson - Epitaph ( Live )

A mãe do presidente da comissão

“Fui ministro dos Negócios Estrangeiros e primeiro-ministro [antes de se pôr a milhas] no meu país e muito frequentemente temos de nos sentar em reuniões internacionais na companhia de pessoas com as quais a minha mãe não gostaria de me ver”, disse o Presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, a propósito da presença de Mugabe na cimeira UE – África. Leio e não acredito. Quem disse a este senhor que a ironia barata era a melhor saída para os trabalhos em que está metido? O que vêm para aqui fazer as opiniões da pobre senhora que deu à luz tão infeliz personagem? Um pouco de decoro até a Durão Barroso não ficaria mal.

A sintaxe das coisas

A manhã venceu as trevas, mas o sol ainda não chegou para desferir sobre o mundo a sua cólera. Tudo subsiste iluminado, mas a sintaxe das coisas ainda é com fragilidade que se descobre ao olhar. Bom dia.

Luz da Normandia - XVII


10/10/07

Manuel Rodrigues - Inkolores - 14

eu vi deus e não .
é voz nem é som
. não tem cor
ou luz profundo
é o odor das sombras
molhadas e chama
ao ventre d)e
quando terra se abre
e me deixa entrar
por ti adentro
. eu olho
e vou


Manuel Rodrigues, Inkolores

Uma fissura na grande muralha da China

No post anterior dizia-se que “sob o frágil tabuado da razão está um poço sem fundo”. É nesse poço sem fundo que muitas vezes se acaba por soçobrar. Foi de lá que veio o jovem americano que, há pouco, num liceu de Cleveland desatou a disparar sobre professores e alunos. Foi para lá que ele voltou. Estes acontecimentos americanos, esta repetição de jovens aos tiros mais ou menos indiscriminados, é o sintoma de que o tabuado está a abrir fissuras por tudo o que é sítio. Se fosse psiquiatra, afiançaria estar-se perante uma epidemia. Mas será uma doença o que acomete os jovens americanos ou trata-se apenas do ruir da grande muralha da China?

Um fundo sem fundo

Ter um pensamento profundo é não ter pensamento algum. Agarramo-nos à sensatez da razão, mas isso é apenas a máscara do nosso desespero, a recusa da vertigem, a negação do saber que reside no fundo de cada um, bem junto aos intestinos: sob o frágil tabuado da razão está um poço sem fundo. É nesse poço que, nos pesadelos nocturnos, sentimos que estamos a cair, a cair por toda a eternidade. Como nos sonhos, também acordados nos certificamos que esse fundo sem fundo é apenas a sombra de um sonho. Não é.

Devoções heideggarianas

Heidegger foi um charlatão filosófico, que apenas vendia artigos roubados, tudo o que vem de Heidegger é em segunda mão, ele era e é o protótipo do pensador de imitação, a quem faltava tudo, mas realmente mesmo tudo, para pensar por si próprio. O método de Heidegger consistia em fazer de grandes pensamentos alheios, com a maior falta de escrúpulos, pequenos pensamentos próprios, assim é que é realmente. Heidegger reduziu tudo o que é grande de maneira a torná-lo germanicamente possível, compreende, germanicamente possível, disse Reger. Heidegger é o pequeno-burguês da filosofia alemã, que pôs à filosofia alemã o seu barrete de dormir «kitschig», o barrete preto e «kitschig» que Heidegger usava sempre, em todas as ocasiões. Heidegger é o filósofo de chinelos e barrete de dormir dos alemães, nada mais. [Thomas Bernhard, Antigos Mestres - comédia. Tradução de José Palma Caetano. Assírio & Alvim, pp. 94/95]

Um mar de luz

A manhã é agora um mar de luz. Os candeeiros que pontuavam a noite apagaram-se e tudo retorna à transparência que o dia como uma ameaça velada traz consigo. Bom dia.

Luz da Normandia - XVI

09/10/07

Manuel Rodrigues - Inkolores - Um Fado

meu país é mai estrangeiro
por cenários verde recatos
vários ribeiros e como em
campos têm papoilas, até
pessanha vemos nos sapos
hemos profetas sapateiros
crecemos presa do destino

tal as heras entre veredas
à praia vão mãis de noite
orar aos céus e à maresia
se aos areais vêm vieiras
nós fazemos de nevoeiros
como da treva sebastiões
o pai nosso é marinheiro.

por cordas trepam paredes
tens cegonha plos telhados
meretrizes são tão severas
a pão e rosas progredimos
há marceneiro de espinhos
somos pessoa multiplicado

amália d’luz canta camões

Manuel Rodrigues, Inkolores

España, España...

Um atentado em Bilbau não é, em princípio, uma grande novidade. Marca, porém, a decisão dos sectores bascos mais radicais de continuarem, através da violência, a busca da independência. Depois da falência da política de Zapatero para o País Basco, depois da prisão, às ordem do super-juiz Baltazar Garzón, de grande parte da direcção do Batasuna, o problema basco continua irresolúvel, uma espécie de doença crónica que atormenta Espanha.

O problema, porém, não se resume ao reacender da violência etarra. Há a contestação da figura do Rei por parte de certos sectores da extrema-direita, não lhe perdoam a visão democrática. Também a extrema-esquerda e certos sectores da esquerda começam a exprimir um anelo republicano e a desrespeitar a imagem de Juan Carlos e da família real. Por fim, o nacionalismo catalão, sem a violência do basco, mostra-se, cada dia que passa, mais pujante. Imagine-se o que irá pela cabeça do clero castelhano, das chefias militares centrais, para não falar dos saudosos do franquismo.

Lentamente, parece que qualquer coisa se está a deslassar, a perder consistência. Aqui e ali surgem já os primeiros buracos. Será que a União Europeia e força da economia serão suficientes para assegurar a existência de uma Espanha pacificada? As economias também se degradam e a União Europeia que futuro terá? Para nós, portugueses, nada haveria de pior do que uma Espanha entregue ao tumulto.

Escrito a Lápis, um blogue de João Barrento

Visite-se, então, este blogue Escrito a Lápis. Ainda por cima tem como subtítulo “as aparas dos dias”. E o que se apara por lá? Múltiplos textos quase sempre ligados à cultura de língua alemã. O autor do blogue é o Professor João Barrento e tudo o que é Escrito a Lápis merece, para além da nossa gratidão, a nossa atenção. Se o leitor passear por lá, assim como quem vai apenas dar uma volta, encontra logo Rilke, o prefácio que João Barrento escreveu para as traduções de Vasco Graça Moura das Elegias de Duíno e de Os Sonetos a Orfeu. Leia-se e olhe-se as belas imagens que entrecortam o texto, entre elas as do Castelo de Duíno. Depois, ao descair no monitor como quem cai dos píncaros do mundo, vai-se encontrando nomes como Holderlin, Musil, Krauss, num não mais findar de referências à grande cultural europeia de língua alemã. Quando, ainda há meses, eu não sabia bem o que era um blogue, o Zé Ricardo enviou-me uma pequena lista. Nela encontrava-se o Escrito a Lápis.

Rodrigues dos Santos e os recados

Parece que José Rodrigues dos Santos vai ser alvo de um processo disciplinar com vista ao despedimento (ver Arrastão). Terá dito que haveria intromissão do poder político na RTP. Ora, Rodrigues dos Santos, mas alguém acredita nisso? Com franqueza. Aliás, todos sabemos que, quando um governo é eleito e toma conta da comunicação social pública, a primeira coisa que faz é dizer para darem espaço à oposição e nada de propaganda governamental. Mas alguém imagina que o poder queira passar recados? O piscar de olho do fim do telejornal subiu-lhe à cabeça, neste país ninguém manda recados a ninguém…

A visitinha da polícia ao sindicato

A visita de agentes da polícia ao sindicato de professores da zona centro é o espelho da situação do país. O governo escusa de vir fazer de inocente. Mesmo que nenhum governante tenha ordenado a visitinha dos expeditos agentes, a verdade é que o incómodo do senhor primeiro-ministro com os protestos, o clima de zelo que a nomenclatura socialista tem dado provas, a necessidade do governo, sentida por todos, de que a propaganda não corra mal, criaram o clima propício para estes inusitados acontecimentos. Estranho destino do partido da liberdade. Como é que um capital ganho há tantos anos pelo PS se desbaratou em pouco mais de dois anos? Quem não se rirá quando um socialista disser que pertence ao partido da liberdade?

Peregrinação

Uma luz coada pela novidade da manhã. Ao longe, sobre a cortina da serra, o céu está tracejado a vermelho e ocre. Na terra, os carros iniciaram já a sua peregrinação. Onde irão tão pressurosos peregrinos? Bom dia.

Luz da Normandia - XV


08/10/07

Manuel Rodrigues - Tinta sob Papel - "então vi aluar te"

então vi aluar te
na petição do rio
precariamente segurar
-me a ti que resvalas
e eu pressionando
navegava flutuante
mas por engano atirar
-te com as mãos
só de vagamente
o que o coração
nu podia dar te


Manuel Rodrigues, Tinta sob Papel

Educação europeia: um flop global

A União Europeia constata que os progressos realizados em matéria educativa, entre 2000 e 2007, ficaram muito aquém das expectativas e que os progressos realizados pelos 27 são muito limitados nas 5 áreas definidas, com excepção do aumento dos licenciados nas áreas da matemática, ciência e tecnologia (ler aqui).

Os outros indicadores de referência são: 1. reduzir em pelo menos 20% a percentagem de alunos de 15 anos com competências de leitura pobres (para 15,5 por cento); 2. reduzir a taxa de abandono escolar para 10 por cento; 3. conseguir que 85 por cento dos jovens (dos 20 aos 24 anos) completem o ensino secundário; 4. conseguir que a taxa de participação da população adulta na aprendizagem ao longo da vida atinja os 12,5 por cento.

Portugal está abaixo da média europeia em todos os indicadores, embora tenha um bom desempenho no indicador “aumento de licenciados nas áreas da matemática, ciência e tecnologia”.

Mas o que estes números mostram, mais uma vez, é a completa inadequação das políticas educativas às finalidades que os próprios políticos colocam. A ideologia dominante na área da educação, aquela que vigora em Portugal, mas também por toda a Europa, tem um efeito deletério não apenas nas escolas, mas também nas comunidades. Os resultados falam por si.

A estratégia tem sido, como em Portugal acontece, burocratizar o sistema de ensino e a profissão docente, ao mesmo tempo que se reduz as exigências escolares dos alunos. Os resultados falam por si. Chegou a altura de pôr em causa o tipo de políticas seguidas e abandoná-las de uma vez por todas.

O que temo, porém, é que, perante o flop, a estratégia seja intensificar ainda mais o caminho que se tem seguido.

Ensinar filosofia

Quando se ensina filosofia a jovens de 15 anos, a tentação é explorar o pathos que se abate sobre aquelas pobres crianças, num momento onde o corpo e a cabeça mal acabaram de sair da turbulência tenebrosa da puberdade. Mas essa exploração do sentimento confuso não passa de uma manobra kitsch. Onde se manifesta esse kitsch? Na sentimentalidade do “todos os homens são filósofos” ou na do “em filosofia cada um tem a sua opinião”. Tudo isto é dito como se da boca saísse um suspiro e da alma um anelo do céu. Mas a filosofia não é a rude disciplina do conceito?

Esperança de vida?

A população mundial com mais de 75 aumentará 44% até 2030 (ver aqui). Eis uma boa notícia. No entanto, se olharmos para o caso português, a notícia boa passa a ser uma notícia toldada pelas possibilidades efectivas de sobrevivência. Em 2030, haverá 3,4 milhões de pensionistas, mais de 1/3 da população. Haverá também 4,8 milhões de pessoas activas, o que comparado com 1990 é muito pouco (4,1 milhões de pessoas activas para 2,2 milhões de pensionistas). Mas o mais preocupante é o escasso número de crianças e jovens que constituirão a nossa população. Se estimarmos, para essa altura, uma população de 10 milhões de habitantes (acredito que a estimativa peca por excesso), então resta apenas uma população «infanto-juvenil» de 1,8 milhões, pouco mais de metade da população «reformada». Admirável mundo novo em que a capacidade científica consegue, ao mesmo tempo, aumentar a esperança de vida e contribuir para que não haja nascimentos que sustentem essa esperança de vida.

Falácias educacionais – 2. O ensino centrado no aluno

Uma das pedras de toque dos reformistas da educação é o chamado ensino centrado no aluno. Como em todas as perspectivas que suportam o discurso mole, mas de efeitos duros, que está a desestruturar os sistemas educativos, também esta ideia é pouco pensada e possui, no seu cerne, contradições insanáveis. O que significará centrar o ensino no aluno? Em primeiro lugar, significaria que numa turma haveria tantos centros quantos os alunos presentes, o que, por si só, tornaria, mesmo numa pequena turma, o trabalho do professor numa impossibilidade prática. Que esta evidência não ocorra a quem, no Ministério da Educação, impõe este tipo de ideias não é de estranhar. Essa gente não sabe ou esqueceu o que é uma sala de aula.

Em segundo lugar, é perverter a natureza das coisas. Há um currículo que deverá ser adquirido pelos alunos e, por isso, transmitido pelos professores. Centrar o ensino nos alunos significa pluralizar de tal maneira o currículo que ele deixa de ter qualquer função. É curioso que, mais uma vez, quem impõe este tipo de coisas não pense nas consequências e chegue ao seguinte paradoxo: por um lado, há um currículo nacional obrigatório, que os professores deverão transmitir, mas, por outro, há a pedagogia centrada no aluno que conduz inevitavelmente à subalternização desse currículo. Os professores são sempre culpados, façam o que fizerem, deverão ser penalizados: se centram as aulas no currículo não as centram nos alunos; se as centram nos alunos, não cumprem o currículo. Notável universo kafkiano.

Por fim, e o mais grave, um ensino centrado no aluno tem como único e lógico corolário não fazer o aluno elevar-se acima do patamar em que está. Ensinar significa colocar obstáculos, obstáculos ultrapassáveis, por certo, e ajudar os alunos a ultrapassar esses obstáculos. Aprender é saltar obstáculos, elevar-se acima do nível em que se encontra. Se, por exemplo, a linguagem de um professor estiver ao nível da do aluno, para que este possa «compreendê-lo», que desafio terá o aluno para se elevar acima do estado de ignorância em que se encontra?

O ensino centrado no aluno não passa de uma falácia educacional. Será uma falácia ingénua? Desconfio que não. Julgo que tem uma dupla finalidade: colocar o professor numa situação tal que ele, faça o que fizer, é sempre culpado de qualquer coisa; evitar, por outro lado, que os alunos da escola pública, pois é a eles que esta indigência de pensamento se quer impor, aprendam e se tornem melhores. Há toda uma estratégia de ignorância, mascarada por uma linguagem doce, mas que tem por fim proteger quem estuda nas escolas privadas, onde tudo isto é risível.

Sol outonal

Começa a semana de trabalho. Um sol outonal ilumina a manhã, cai sobre as cabeças, pressagia os calores do meio-dia. Cresce a agitação, como se a azáfama do dia não levasse a um novo dia com a sua azáfama. Bom dia.

Luz da Normandia - XIV


07/10/07

Manuel Rodrigues - Cai-te lenta a mansidão

sonhei-te rendada branco
antiga mas não morta
deitada a mão estendida
e um livro
que não me recorda

essa renda era uma ilha

tinham-te escondida
não me diziam mas eu sabia
que estavas viva
a respirar pulsar na minha

… ilhas de renda

morno o ar não era brisa
criança ainda dormias
nascida sem me esquecer

— alguém não te deixa partir

estarei na pele de cão
guardarei por ti serei

a cidade das tuas filhas

Manuel Rodrigues, Março e seguintes

Crónicas Normandas III - No cemitério americano

Li algures que todas as campas deste cemitério estão voltadas para a América. Como se um dia fosse possível estes homens abandonarem o reino dos mortos, caminhar sobre as águas tenebrosas do Atlântico, chegar à terra prometida, onde abraçariam pais e filhos, as mulheres, as jovens namoradas que por lá deixaram. Nesta simbologia patriótica há um trágico desígnio. Voltados para ocidente, para as terras americanas, não é para a luz que eles olham, mas para o crepúsculo do poente. É nesse continente longínquo que, para quem vive na Europa, está o lugar onde a luz do dia vai morrer. Ironia funesta, o sítio de luz e redenção afinal não é mais do que um espaço de trevas e morte. Os mortos para a morte estão voltados.

São pomares de cruzes brancas, aqui e ali salpicados por estrelas de David, pomares cujo fruto foi colhido e não mais retornará. Percorrem-se as áleas, pisa-se a relva, olham-se os nomes no mármore frio de amargura, tocam-se as flores que por lá foram deixadas. A brisa marítima fustiga as faces. Há gente, muita gente, por todo o cemitério, estamos no lugar dos vencedores, mas aqueles que estão debaixo da terra, esses há muito que perderam, por mais que digamos a heroicidade dos seus gestos, a dádiva da vida para nos livrar do horror, eles perderam, transviaram-se do caminho da vida, encontraram a fria glória e o aconchego na terra húmida de um país estrangeiro. Penélope não os acolherá.

Há famílias que procuram, ainda hoje, a campa dos seus, recolhem-se perante a voraz pedra da morte, rezam uma oração, deixam flores, enquanto o vento continua a soprar gélido e cortante. Às vezes, chuvisca; outras, porém, o Sol rompe e ilumina por instantes as gotas de água que crescem nas folhas verdes da relva. Ainda há gente que chora, mas há muitos que apenas excursionam por ali, gente inoportuna, gente a coleccionar locais, paisagens, igrejas, cemitérios, recordações turísticas de quem perdeu a alma ou a vendeu num saldo de fim de estação. Aqueles mortos não são os seus, mesmo se a liberdade que ora usufruem foi comprada com a vida dos que dormem sob o peso da pedra.

Aqui e ali surgem velhos soldados fardados, trazem no peito o peso das condecorações tidas e, na memória, o horror da metralha incandescente, o sorriso de não saberem como não são eles a quem se visita, o esgar perplexo de terem escapado daqueles campos e de retornarem, como Ulisses, à pátria e aos níveos braços de Penélope, que no tear teceu os dias, os longos dias, que haveriam de trazer o bem amado daquela Tróia ignota. Agora, antes que a luz da vida se apague, vêm visitar o campo sagrado da morte; é um campo de glória para os que morreram e uma bênção para os vivos, vivos que caminham entre as sombras dos que, no fundo da terra, chamam por eles.

Paulo Moura - O aviso de Farag

Farag Foda foi um muçulmano lúcido e corajoso. Desculpem, mas ele chamava-se mesmo assim. Alguns autores ainda optaram por uma versão um pouco diferente, em inglês, do apelido - Fawda. Ou Fouda em português. Mas logo apareceram os puristas a criticar: a forma ortográfica correcta deste nome árabe nas línguas de origem latina e germânica é Foda.

Não obstante, Farag era professor e um intelectual sério. Envolveu-se em causas humanitárias e escreveu vários livros e artigos de opinião na imprensa do Egipto, onde nasceu, em 1946. O seu tema preferido foi o fundamentalismo islâmico e o seu género literário preferido a sátira. Nos dois, Foda fez História.

A sua tese principal, pelo menos a mais conhecida, era a que de que os integristas, terroristas, teóricos salafistas e outros radicais do islão tinham um problema em comum: a frustração sexual. Seria por não terem acesso aos ternos prazeres da carne que se entregavam à paixão da carnificina, dizia Foda. E acrescentava (neste caso referindo-se a Abd al-Hamid Kishk, um dos mais populares pregadores radicais egípcios): "Ele diz à sua audiência que os muçulmanos que entrarem no paraíso usufruirão de eternas erecções e da companhia de jovens rapazinhos envoltos em laçarotes e enfeites."

É verdade que Farag citou a prédica do velho xeque cego Kishk, para a seguir contar como a mesma deu origem a um debate entre os teóricos. Nem todos concordaram com Kishk. Um deles, da Universidade estatal al-Azhar, contra-argumentou que, no paraíso, as erecções não seriam eternas, mas sim temporárias, ainda que prolongadas. Outro contestou a possibilidade da pederastia no paraíso. Mas houve quem lembrasse que, embora a homossexualide fosse desaconselhada, a pedofilia não era proibida, citando uma passagem do livro do Ayatollah Khomeini, do Irão: "Um homem pode ter prazer sexual com uma criança, até mesmo com um bebé. Pode sodomizá-la, mas não penetrá-la. Se dessa forma danificar a menina, ficará responsável pela sua subsistência, por toda a vida. Esta rapariga, no entanto, não contará como uma das suas quatro mulheres permanentes. E o homem não terá direito a desposar uma irmã dela."

A propósito, outro estudioso fundamentalista recordou esta passagem do mesmo livro de Khomeini: "Um homem pode ter sexo com animais como ovelhas, vacas, camelos, etc. No entanto, deve matar o animal depois do orgasmo. Não deve vender a carne ao povo da sua própria aldeia. Já vendê-la ao povo da aldeia mais próxima não é proibido."A respeito desta fecunda polémica, Foda comentou: "É isto que preocupa os muçulmanos no final do século XX? O mundo à nossa volta anda ocupado com a conquista do Espaço, a engenharia genética e as possibilidades dos computadores, enquanto os doutores do islão se preocupam com o sexo no paraíso."

Em Junho de 1992, Farag Foda foi assassinado por dois fundamentalistas islâmicos do grupo Al Gama"a al Islamiya. O advogado de um deles explicou numa entrevista, quando interrogado sobre a sua ideia de Direitos Humanos: "Farag Foda tinha o direito humano de criticar o Governo ou de o criticar a si. Mas não tinha o direito de criticar Deus. Somo escravos de Deus e Ele tem o direito de nos condenar à morte, se o insultamos. Contra Deus, não há direitos humanos."
[Paulo Moura, Público, 7 de Outubro]
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A realidade do mundo muçulmano é uma grande Farag, só se interessam pelos assuntos como os do sr. Foda. Este artigo ilustra muito bem por que razão Vasco Pulido Valente diz que o Islão é uma civilização fracassada.

A cinza dos domingos

A manhã vai alta. O domingo é um dia inominável, propício à preguiça. O céu cobriu-se de nuvens e cinza; aqui e ali, há traços de azul de onde a luz espreita. Bom dia!

Luz da Normandia - XIII


06/10/07

Manuel Rodrigues - Tinta sob Papel, Tejo (creio eu)

viro costas à paisagem
em disfarce passageiro

ruído das patas ondulado de zinco
deformadas dos telheiros

e não vou já apressado
não espero ninguém me aguarda

nos cabelos apenas sinto
o bater das asas traz
ainda o cheiro
desse rio
mais distante

agora
não passo
vejo de frente o terreiro

estou só a perguntar
porque é uma dúvida que tenho tido

vindo ainda de trás
que trago

(e os cadáveres
que foram contigo)


Manuel Rodrigues, Tinta sob Papel

Virtudes Teologais - I Fé

Em que posso crer?

Que tudo pode ser dito.
A realidade a tudo suporta;
a ninguém e a nada se dá.

Virtudes Teologais - II Caridade

O que devo fazer?

Evitar atormentar os outros com as minhas dádivas.

Virtudes Teologais - III Esperança

O que me é permitido esperar?

Da comunidade, dos outros, nada.
De ti, nada.
De mim, ainda menos.

Pergolesi - Stabat Mater

Tempos de névoa

Está um tempo propício para o regresso de D. Sebastião. Hoje, como ontem, o dia nasceu sob denso nevoeiro. Os carros, ao fundo, são apenas pequenos traços de luz a chocar com a parede flexível da névoa, sons que se aproximam e logo se vão. Não sejamos pessimistas. O Sol romperá para nos trazer a verdade destas horas. Bom dia.

Luz da Normandia - XII

05/10/07

Manuel Rodrigues - Tinta sob Papel, "o voo dos pássaros dá-me a"

o voo dos pássaros dá-me a
sensação
essa sensação de pobreza
adiada
e eu que nem reparei
naquele galho que tinha
um ninho

[dão-se a conhecer as árvores pelos pássaros]
como as falésias do mar

— herdei o invento da gaiola
e isso é a actualidade


o meu pai sabia de pássaros apanháva-os em pequenino

Manuel Rodrigues, Tinta sob Papel

O PSD e o ódio à inteligência

Pelo PSD vai uma grande confusão. Parece que Duarte Lima quer processar Rebelo de Sousa e há gente com vontade de expulsar Pacheco Pereira do partido. Não é por acaso que se diz que o PSD é o partido mais português de Portugal. O ódio à inteligência, ao saber e à intelectualidade sempre foi uma das nossas características essenciais.

Ainda o discurso do Presidente

O discurso de Cavaco Silva sobre a educação está repleto de banalidades, como, num post anterior, se assinalou. Algumas dessas banalidades são perigosas, como a de abrir a escola à comunidade. Sobre o prestigiar os professores, Cavaco Silva seria muito mais coerente se tivesse chumbado a série de diplomas, provenientes do Sr. Sócrates e da Sr. Dr. Maria de Lurdes, que os tornaram, aos professores, miseráveis e lhes roubaram o sentido da profissão, transformando-os num bando atordoado de burocratas. Mas há uma coisa que quero sublinhar e ser justo para com Cavaco. É aquilo que ele disse sobre os pais e que a televisão do Estado não me mostrou, pelo menos no Jornal da hora de almoço. Nessas palavras há coisas que subscrevo, que merecem realce, mas há outras que se prestam a interpretações dúbias, e a gente deste governo é perita em explorar a ambiguidade.


Essa é uma consciência que, antes de mais, tem de existir nos pais, o que pode exigir uma intervenção personalizada no sentido da adequada valorização da educação dos filhos. Preocupamo-nos em cuidar dos nossos filhos no plano material, mas é frequente julgarmos que a educação, o bem mais importante e decisivo para o seu futuro, é tarefa que compete sobretudo a outros. Muitos continuam a encarar as escolas como «fábricas de ensino», para as quais enviam os filhos e aí depositam por inteiro o trabalho de os formar para o futuro. A primeira grande interpelação deve ser feita aos pais: de que modo participam na educação dos vossos filhos? Não basta adquirir livros e manuais, assistir de quando em quando a reuniões de pais ou transportar diariamente os filhos à escola. Há toda uma cultura de autoexigência que deve ser estimulada nos pais, levando-os a envolver-se de forma mais activa e participante na qualidade do ensino, na funcionalidade e na conservação das instalações escolares, no apoio ao difícil trabalho dos professores [Cavaco Silva, 5 de Outubro].

Comentário: Os pais não devem envolver-se na qualidade do ensino. Os pais devem exigir um ensino de qualidade e envolver-se na exigência de estudo por parte dos filhos. Também não devem envolver-se na «funcionalidade e na conservação das instalações escolares». Devem exigir que os políticos façam o seu trabalho nesse âmbito. Os pais devem ser pais exigentes com os seus filhos, intervindo em casa e no seu comportamento social. Devem ser cidadãos exigentes. Mas que cada um faça o seu trabalho: os professores, nas escolas, que ensinem; os políticos, nos órgãos de decisão, que criem as condições de trabalho nas escolas; os pais em casa que eduquem. Misturar, na escola, professores, pais, políticos, associações culturais, empresários e o mais que ocorrer ao delírio de cada um, só pode aumentar o ruído e a confusão. Não nos confundamos.

Aliviar-se


Estou voltado para o sarcasmo. Não é inventivo nem resolve seja o que for, mas alivia a bílis. Não há nada como uma pessoa aliviar-se.

A libertação dos monárquicos

Hoje é um dia de alegria para os monárquicos. Está admirado com a afirmação? Se a Monarquia não tivesse caído à mão de meia dúzia de republicanos, o país seria a mesma coisa que é hoje, uma estrebaria onde as cavalgaduras se passeiam com impunidade, e a culpa seria todinha dos Braganças. Sendo assim, o fim da Monarquia foi a libertação dos monárquicos. Os republicanos que se aguentem com a choldra do D. Carlos.

Os discursos presidenciais

Sempre que um Presidente da República discursa no 5 de Outubro ou no 25 de Abril, o Primeiro-Ministro, qualquer que seja, se tiver sido eleito por uma maioria de outra cor política, apressa-se a vir a terreiro dizer que está de acordo e que o discurso presidencial reforça a posição do governo. Mas quem é que esta trupe infeliz julga que engana? A verdade é que os chefes de governo estão convencidos da imbecilidade geral dos portugueses. Se calhar é por lhes termos dado a possibilidade de governarem. Lá terão as suas razões.

Cavaco, a Educação e Sócrates

Como não tinha assunto para o 5 de Outubro, Cavaco Silva veio falar de educação. Sublinhou a necessidade de «inovação social» e da mobilização dos parceiros sociais, bem como do prestigiar dos professores. Só lugares comuns, banalidades e ideias feitas que contribuíram para a degradação do sistema educativo. Mas pior do que a retórica vazia do Presidente é o cinismo de Sócrates. Está de acordo com Cavaco. De acordo em quê? Com o palavreado oco e vazio, palavreado destrutivo do sistema educativo, ou com a necessidade de prestigiar os professores. Se for com o palavreado o oco e vazio, compreende-se. Se for, porém, com a necessidade de prestígio dos docentes, porque é que o seu governo persegue e humilha os professores, torna a profissão um calvário burocrático, e fez dos docentes pouco mais do que proletários de terceira ordem? Não há paciência para esta gente. Cavaco e Sócrates são dois dos grandes responsáveis pelo estado de coisas na educação. Por uma questão de respeito por quem trabalha e estuda nas escolas públicas deste miserável país dirigido por gente ignara, deveriam ter vergonha e calar-se. Mas a ignorância não se enxerga.

Luz da Normandia - XI

04/10/07

Manuel Rodrigues - Tinta sob Papel - lauto de dor - excerto

minha amiga antecipadas
levaste contigo as palavras e o rosto
e o sorriso e toda a dor que suportaste
só enorme e poderosa


*

em mim serás
a recusa desse passado
do foi e do que era
a violência do presente
que a vida a ti aflora
e dela és em demasia
final exame de perfeição
que bates e passas
por nós
as asas


*


tudo que só nós sabemos
agora sempre
a todos os momentos
contigo fico
o eu te chora



és tu a obra
que o autor esmerou
por atingir a vida
no coração


Manuel Rodrigues, Tinta sob Papel

Nota: onde se encontra o asterisco, deveria encontrar-se um quadrado negro, que não foi possível conservar.

Onde está o mal?

Ao ver esta fotografia, na edição que o Expresso dedicou aos grandes fotógrafos, qualquer coisa em mim tremeu. É uma fotografia de 1945, tirada na Alemanha. O Expresso dá-lhe o título, não sei se provirá do autor, o fotógrafo Cartier-Bresson, “Colaboracionista identificada”. E depois pespega-lhe a seguinte legenda: “No campo de concentração, já libertado, de Dassau, o fotógrafo capta o momento em que uma mulher reconhece a sua delatora, que está a ser interrogada, e avança para a agredir perante o olhar de outros ex-prisioneiros”.

A minha perplexidade centrou-se numa pergunta que de imediato me acudiu ao espírito: onde está o mal? Num primeiro momento, tudo é simples. A delatora, aquela que estava do lado dos algozes nazis, representa o mal. Toda uma narrativa didáctica se poderia tirar dali: a delação não compensa, chegou o momento da vítima fazer justiça perante os olhos, por vezes irónicos, das outras vítimas.

O problema é que eu não sei quem é ali a vítima. Por vezes, chegam-me imagens do Portugal de 74, parecidas com estas. Arrepio-me com a simplicidade com que na altura eu olhava para os acontecimentos. Onde estavam as vítimas? Não quero com isto dizer que os sicários nazis e os delatores não fossem culpados, sumamente culpados, não quero dizer que, em Portugal, o regime ditatorial e os seus homens não fossem culpados. Mas na altura em que perdem, tornam-se tão indefesos como o eram aqueles a quem eles perseguiram.

Esta fotografia não me fala da prisão de uma abjecta colaboracionista, nem do exercício de uma qualquer justiça, metafísica ou popular. Fala-me do horror de estar em minoria, do horror que é perder. Fala-me do horror da humanidade, daquela que está do lado moral e historicamente mau, mas também daquela que por vezes está do lado bom. A fotografia fala do horror da vingança, fala da tristeza e da pequenez que habita a nossa humanidade, fala da vergonha que deveríamos todos sem excepção ter, e que não temos. Olho a fotografia e pergunto, onde está o mal. O mal está em todo o lado e cuida de nós.

O Tempo das Cerejas - fotografia

Por falar em fotografia e em grandes fotógrafos, refira-se os posts de fotografias de grandes fotógrafos que Vítor Dias tem vindo a fazer no seu blogue, o tempo das cerejas.

Esta foi a última lá postada. É uma fotografia de 1970, da autoria de Irene Fay e com o título Neve em Nova Iorque.

Mas há por lá muitas mais, é só explorar o blogue e encontrará, no meio da intervenção política do autor, múltiplas evidências de um excelente gosto estético.

Expresso - Grandes Fotógrafos

O semanário Expresso está a publicar uma série de livros de fotografia com o título Grandes Fotógrafos. Saíram já os primeiros 3 volumes. Embora o número de fotografias por volume seja escasso, a compra é completamente recomendável. Fotografias belíssimas de grandes fotógrafos. O último volume publicado, com o título O Século das Mulheres, é extraordinário. Fotografias de Cartier-Bresson, Steve McCurry, Dorothea Lange, Margaret Bourke-White e Lee Miller.

Jornal Torrejano, 04 de Outubro de 2007

Graças ao 5 de Outubro, que nos trouxe a República, nos livrou dos Braganças e concedeu-nos mais um feriado (um bem nunca vem só), o Jornal Torrejano, desta semana, já se encontra nas bancas, em casa dos assinantes e on-line.

Na primeira página, a referência para as palavras do vereador do PSD, Nuno Santos: “Os socialistas não podem continuar a destruir o concelho que é de todos”. Ainda aí sublinhe-se a nota sobre o abandono da Assembleia Municipal, por Manuel Piranga, e o exemplo dado pela Mitsubishi de Tramagal, na implementação [palavra catita] do programa RVVC/Novas Oportunidades.

Na opinião, Hélder Dias vem com o seu cartoon, José Ricardo Costa escreve, em contradição com este blogger, Mito do Eterno Retorno, José Trincão Marques, A Várzea dos Mesiões, Santana-Maia Leonardo, Scolari é cá dos nossos!, Vítor Lúcio Freire, Seringas nas prisões, já!, Carlos Henriques, Excesso de ruído e o blogger deste triste blogue, O equívoco.

Assim cumpriu o JT, esta semana, a sua missão. Se Portugal continuar uma República, mesmo que mude para Monarquia, absoluta ou constitucional, é muito provável que para semana haja mais Jornal Torrejano. Aguardemos com ânsia…

Luz da Normandia - X


03/10/07

Manuel Rodrigues - Artelharia - Incomplice X

lá vai
à ida onda que lava
indo dançar contido abraços
até onde à vista alcança
vai a passo a mansa vida
— por isso se não te casa
cá está — nada mais
é porque a mar te nado
um sal de ilhas ou a voar
me lanço à vinda
— também vou mal
numa só asa — melhor
ainda que nem se afasta
mas não me cansa
ficar contigo ao que

lá vem

Manuel Rodrigues, Artelharia

Fairport Convention - Who knows where the time goes


Uma pequena viagem aos anos 60, com o grupo folk Fairport Convention.

A expulsão do poeta

Os chamados Antigos Mestres serviram sempre só o Estado ou a Igreja, o que vem a dar no mesmo, diz Reger com frequência, um im­perador ou um papa, um duque ou um arcebispo. Assim como o chamado homem livre é uma utopia, o chamado artista livre foi também sempre uma utopia, um dislate, diz Reger muitas vezes. Os artistas, os chamados grandes artistas, diz Reger, penso eu, são, além disso, as pessoas com menos escrúpulos, são ainda muito menos escrupulosos que os políticos. Os ar­tistas são os mais hipócritas, ainda muito mais hipócritas que os políticos, isto é, os artistas da arte são ainda muito mais hipócritas que os artistas do Estado, oiço eu agora Reger dizer de novo. Esta arte vira-se sempre para o Todo-poderoso e para os poderosos e afasta-se do mundo, diz Reger muitas vezes, é esta a sua infâmia. É mesquinha esta arte, mais nada, oiço eu agora Reger dizer ontem, enquanto hoje o observo da Sala Sebastiano. Porque é que realmente os pintores pintam, quando existe a natureza? perguntou ontem Reger uma vez mais a si próprio. Até a obra de arte mais extraordinária constitui ape­nas um esforço mesquinho, inteiramente absurdo e inútil, para imitar e mesmo macaquear a natureza, disse ele. O que é o rosto pintado por Rembrandt da sua mãe em comparação com o rosto real da minha mãe? perguntou ele de novo. O que são as margens do Danúbio, por onde eu posso andar enquanto as posso ver, em comparação com as pintadas? disse ele. Não há nada mais asqueroso para mim, disse ele ontem, que o poder pintado. Pintura do poder, mais nada, disse ele. Fixar, dizem as pessoas, documentar, mas o certo é que, como nós sabemos, tudo isso é mentido, falso, só a falsidade e a mentira é que são fixadas e documentadas, a posteridade só tem falsi­dade e mentira penduradas nas paredes, só falsidade e mentira se encontram nos livros que os chamados grandes escritores nos legaram, só falsidade e mentira nos quadros que estão pendurados aqui nestas paredes. [Thomas Bernhard, Antigos Mestres - comédia. Tradução de José Palma Caetano, Assírio & Alvim]

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Li esta passagem de Bernhard logo a seguir a ter lido o comentário do Zé Ricardo ao post sobre o blogue de Rodrigo Constantino. O Zé refere a expulsão, por Platão, do poeta, isto é, do artista em geral, da cidade. Há uma tensão curiosa entre o texto platónico e o de Bernhard. Em ambos existe a denúncia da mentira da arte, da falsificação da realidade. Mas Bernhard talvez nos permita perceber melhor Platão. Por que razão se deverá expulsar o artista da cidade? Porque ele reforça o poder, a dominação fundada na falsificação, através da ficcionalização. Em última análise, o artista, como encenador do poder, robustece a tirania. O artista emerge então como inimigo da liberdade.

Por aqui talvez possamos pensar mais fecundamente a questão da liberdade a partir de Platão. Talvez Platão, ao contrário do que pensa Popper, se preocupe, em tudo o que pensa, apenas e só com a questão da liberdade, com a euleutéria, o estado do homem livre. Acredito mesmo que, para pensar a liberdade, Platão seja muito mais fundamental do que Popper e os liberais. Mas sou suspeito, Platão é, para mim, o maior dos sóis que habitam a galáxia dos filósofos e dos artistas.

Por outro lado, há mais uma coisa que aproxima Bernhard e Platão: são ambos grandes romancistas, quero dizer: produtores de ficções, poetas, em última análise. Nietzsche tem razão, o diálogo platónico é a antecâmara de Cervantes. A expulsão, suprema ironia, vira-se contra eles, Bernhard e Platão. Há, no espírito sisudo dos grandes filósofos, uma forte e quase sempre não notada ironia. Platão que se expulsa a si mesmo da cidade, fingindo que o filósofo não é poeta, que não compõe ficções, coisa que ele fez durante toda a vida; Hegel, por exemplo, fazendo crer que Deus, o Absoluto falava pela sua boca, isto é, pela sua Lógica. O que coloca a questão: como ler estes refinados ficcionistas, estes supremos ironizadores?

É verdade que prefiro viver sob Guterres ou Cavaco do que sob Salazar, mas isso não me permite estabelecer uma analogia dizendo que a “Sociedade Aberta” de Popper me instrui melhor sobre a liberdade e a defende melhor do que a República platónica. Estou convencido do contrário.

Luz da Normandia - IX


02/10/07

Manuel Rodrigues - Os quatro koan's ocidentais IV

de mim tem ela ciúme
… eu rebento de soja!


Manuel Rodrigues, Os quatro koan's ocidentais

As susceptibilidades do caso Maddie

A investigação policial sobre o desaparecimento da pequena Maddie está cheia de susceptibilidades. Há quem fale pouco, há quem fale em excesso. O que me deveria intrigar, mas não intriga, é a convicção do tratamento diferenciado que os McCann têm. Se fossem portugueses seriam assim tratados? Deve ser uma questão de susceptibilidades.

O erro

O que, não obstante, tão intensamente me oprime é que uma pessoa com uma tal capacidade de apreensão como era a minha mulher, com todo o enorme saber que eu lhe transmiti, tenha morrido e tenha, portanto, levado consigo na morte esse enorme saber, isso é que é incrível, essa incrível enormidade é ainda mais incrível que o facto de ela ter morrido, disse ele. Nós enche­mos uma pessoa assim com tudo o que tiramos de nós e essa pessoa abandona-nos, é-nos roubada pela morte, para sempre, disse ele, e a isso acresce a sua forma abrupta, o facto de não termos previsto a morte dessa pessoa, nem um só momento previ a morte da minha mulher, olhava-a como se ela tivesse uma vida eterna, nunca pensei na sua morte, disse ele, como se ela vivesse realmente com o meu saber pelo infinito fora como in­finito, segundo as suas palavras. De facto uma morte precipita­da, disse de. Tomamos uma pessoa dessas para a eternidade e aí é que está o erro. Se eu tivesse sabido que a morte ma leva­ria, teria procedido de forma completamente diferente, mas não sabia que ela iria morrer antes de mim e agi de uma ma­neira inteiramente absurda, como se ela existisse infinitamente pelo infinito fora, quando ela não tinha sido feita para o infini­to, mas sim para o finito, como todos nós. Só quando amamos uma pessoa com um amor tão irreprimível como aquele com que eu amei a minha mulher, acreditamos de facto que ela viva eternamente e pelo infinito fora. [Thomas Bernhard, Antigos Mestres - comédia. Tradução de José Palma Caetano, Assírio & Alvim]
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É sempre espantado e deslumbrado, perdoe-se-me o excesso vocabular, que leio Thomas Bernhard.

Rodrigo Constantino

Para hoje, um blogue brasileiro. Tem o nome do seu proprietário, Rodrigo Constantino. É uma blogue de intervenção política e de divulgação da perspectiva liberal. Como se nota por muitas das minhas intervenções, não partilho por completo da visão liberal da sociedade. Mas vale a pena ler o que Rodrigo Constantino vai escrevendo, a divulgação de autores liberais e conservadores, a explicação interventiva das posições do liberalismo. Há coisas que me deixam arrepiado, como por exemplo no post de ontem dedicado a Karl Popper, onde se diz sem uma tremura na consciência “O livro [A Sociedade Aberta e os seus Inimigos, de Popper] faz um ataque contundente a Platão, assim como uma análise mortal de Hegel e Marx.” Não é presunção a mais por parte de Popper e dos liberais o ataque mortal a Platão e a Hegel? Mesmo a Marx? Quando já ninguém se lembrar de Popper, ainda se lerá Platão e Hegel, talvez Marx. Mas esta é a cartilha liberal. Seja como for, vale a pena passar por e ler. Aprende-se sempre, aliás como com os autores liberais e o seu devaneio sobre a racionalidade geral dos seres humanos.

Luz da Normandia - VIII


01/10/07

Manuel Rodrigues - Os quatro koan's ocidentais I

As asas e a cauda denunciam-te
nem podes já cuspir mais fogo
não é estranha a profissão — aprendiz!?

Sentar-me então no chão
para contar as sementes
foi uma lição


Manuel Rodrigues, Os quatro koan's ocidentais

De "A Raiz de Maio" a Manuel Rodrigues

Acabou, ontem, o ciclode poemas A Raiz de Maio. A partir de hoje e durante duas semanas iremos fazer uma viagem pela poesia de Manuel Rodrigues.

Professores titulares e aulas

Falo com professores titulares de múltiplas escolas. Andam todos assoberbados com trabalho. Reuniões sobre reuniões, projectos e planos que não mais acabam. Chegam extenuados a casa, dizem. Nem tempo têm para preparar as aulas, lastimam-se. Mas não foi para isso, para que a qualidade do trabalho docente descesse, que se criaram os professores titulares e o inferno burocrático que eles sustentam?

Regionalização e nó no estômago

O leitor António Almeida Felizes (pode ler-se com proveito o seu blogue sobre regionalização) teve a gentileza de me chamar a atenção para o facto de as regiões administrativas não serem idênticas, em poderes, às regiões autónomas. Bem sei, as regiões administrativas são uma espécie de autarquia mais abrangente. Mas é por isso mesmo, por me lembrar do Portugal que resultou de tanta iniciativa autárquica, que começo a sentir um nó no estômago. Imaginemos, por exemplo, cinco super-autarcas cheios de iniciativa...

A liberalização dos correios

Prepara-se, na União Europeia, a liberalização dos correios (ver Le Monde). A Europa do Norte, a favor; a do Sul tem reticências. É o fim de mais uma das marcas do Estado nacional. É um facto que nada de essencial se passa na distribuição do correio para que seja imperativo que essa distribuição seja feita por uma empresa estatal. O problema, porém, é que, em países mais pequenos, a distribuição vai ficar nas mãos de grandes empresas estrangeiras. Lentamente, os mecanismos que articulavam e suportavam os Estados estão a ser entregues ao mercado e às suas leis. No futuro, e este é sempre imprevisível, poder-se-á descobrir que esses serviços pura e simplesmente não existem.

Pedro Mexia - Senhor Fantasma

Há dias falei, a propósito da blogosfera, no poeta Pedro Mexia. Disse que não conhecia o seu trabalho poético, mas que estava convencido de andar a perder alguma coisa. Prometi que, na primeira oportunidade, compraria os seus livros. Apenas encontrei um, o último, Senhor Fantasma. Confirmei a intuição. Procurarei os outros livros. Dois exemplos da sua poesia:

NO MEIO DO CAMINHO
[decalque de Carlos Drummond de Andrade]

No meio do caminho havia uma pedra,
uma pedra no caminho, havia um coração
de pedra, um nome na pedra, pedro
sobre esta pedra, pedra por dentro.

No meio do caminho sempre essa memória
de pedra, a pedra a meio do caminho,
essa pedra no meio e quase fim do caminho.

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Ou então este belo poema:

Primeiro apaguei o frio,
depois a fogueira,
em seguida a lenha,
só não pude riscar da terra
o lugar onde estava sentado.

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O livro foi editado em 2007, pela Oceanos.

Filomena Mónica: Não, sr. secretário de Estado

O que sobressai deste arrazoado é a convicção de que os professores deveriam ser meros autómatos destinados a aplicar regras. Com responsáveis destes à frente do Ministério da Educação, não admira que, em Portugal, a taxa de insucesso escolar seja a mais elevada da Europa. Valter Lemos reúne o pior de três mundos: o universo dos pedagogos que, provindo das chamadas "ciências exactas", não têm uma ideia do que sejam as humanidades, o mundo totalitário criado pelas Ciências da Educação e a nomenklatura tecnocrática que rodeia o primeiro-ministro. [Filomena Mónica, Público de 30 de Setembro de 2007]
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Toda a desgraça da educação em Portugal se encontra resumida nas últimas linhas do artigo. Valter Lemos é o representante, no governo, de um espírito que corroeu o pouco que havia de bom na escola portuguesa. O artigo merece leitura completa.

Luz da Normandia - VII