04/04/08

Robots humanóides e futebol

O Instituto Superior Técnico vai organizar, segundo o De Rerum Natura, o ciclo de conferências “Das Sociedades Humanas às Sociedades Artificiais”. No texto pode ler-se o seguinte: “Em 1997, Garry Kasparov, considerado por muitos dos seus pares como o maior xadrezista de todos os tempos, foi vencido por uma máquina programada: o Deep Blue.” Esfusiantes de entusiasmo, os cientistas ligados à robótica propõem-se o seguinte: “Para alguns dos cientistas que inspiraram originalmente esta iniciativa internacional de investigação e educação em Inteligência Artificial e Robótica [Lisboa o RoboCup 2004 – a edição anual do Campeonato Mundial de Futebol Robótico], o objectivo é que até cerca de 2050 uma equipa de robots humanóides vença num jogo de futebol a equipa humana campeã do mundo da modalidade.” Tudo bem.

Mas em toda esta história há uma moral muito interessante e de não menor poder de edificação: a ciência legitimou-se socialmente porque tornava o homem mais poderoso e dominador. A natureza ficava agora derrotada pelo ardil e engenho humano. A vontade de domínio guiou, durante séculos, a vontade de saber. Mas que pulsão habita agora a ciência que se propõe derrotar o próprio homem? Que direcção existencial indica a seta que preside a este tipo de investigação? O que leva uma espécie a procurar aquilo que a há-de derrotar? Se o êxito for tão grande como o que se passou no domínio e submissão da natureza, então o que espera a espécie humana parece ser um daqueles destinos distópicos de que fala a ficção científica. Será que teremos de voltar às lições, sobre Eros e Tanatos, do doutor Freud?

1 comentário:

  1. Caro JCM:
    A sua anotação contém questões interessantes. E há mais, nessa linha.
    Apenas gostava de esclarecer uma coisa: os cientistas e filósofos que estudam as questões do artificial (inteligência artificial, vida artificial, "animats", etc.) não têm todos a mesma perspectiva sobre o que se faz nesses campos, nem sobre o que se deve fazer, e muito menos sobre o significado do que se anda a fazer.
    Alguns acham que já se compreende o essencial, outros acham que ainda não se compreende praticamente nada.
    Uns acham que o que é típico do humano é ser "calculador" e isso pode ser reproduzido facilmente em máquinas, outros acham que o artificial não atinge o "significado" e por isso não chegará longe.
    Uns acham que a investigação sobre o artificial é perigosa, outros acham que ela é necessária para compreender o que já hoje se faz e as consequências que daí podem advir.
    E, afinal, o que se pensa sobre o artificial tem, as mais das vezes, muito a ver com o que se pensa sobre o humano.
    Assim sendo, o que eu sugiro é que não nos devemos convencer facilmente de que já sabemos o que é o "artificial" hoje em dia.
    Para começar, quase como "pré-interrogação", sugiro as seguintes postas de um antigo blogue meu, inactivo há muito:
    O xadez dos computadores
    Breve história da máquina de Turing
    Robots futebolistas em Lisboa

    E no meu blogue actual, por exemplo:
    Vida Artificial, o que é isso? 1/4
    Vida Artificial, o que é isso? 2/4
    Vida Artificial, o que é isso? 3/4
    Vida Artificial, o que é isso? 4/4

    Uma introdução a ELIZA

    ELIZA, o psicoterapeuta automático

    Uma consulta de ELIZA

    ELIZA, o psicoterapeuta automático

    O que os computadores podem mas não devem fazer

    Onde ELIZA leva à questão ética

    Ou ainda, para ver uma amostra das possibilidades de ligação entre natural e artificial, o seguinte apontamento:

    Controlo mental

    Ou para um exemplo dos robots que existem nesta selva de "artificial":
    Certos robots que por aí andam

    Depois desta viagem, mesmo assim muito ligeira, por alguns dos terrenos das "ciências do artificial", um diálogo será mais informado e mais produtivo.

    Saudações.

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