06/09/11

Celibatários e comunismo


(Herbert Spencer)

Excepção feita de uma ou outra associação de celibatários, a história das tentativas comunistas apenas regista dissolução e ruínas. (Herbert Spencer (1891), Da Liberdade à Escravidão)

Excesso de licenciados


Neste artigo, o catalão Josep Maria Ruiz Simon, professor de Filosofia Medieval na Universidade de Girona, faz uma breve história da lamentação relativa ao excesso de licenciados. Teria começado em França, no século XVII. Richelieu e Colbert estavam bastante preocupados com o assunto e com as suas consequências sociais. O problema emerge quando o número de lugares socialmente disponíveis não é suficiente para os que fizeram formação superior e as ambições que acalentam. Historiadores como Lawrence Stone e Roger Chartier estabeleceram a conexão entre esse excesso e a radicalização política que conduziu à Gloriosa Revolução, em Inglaterra, e à Revolução Francesa. Que significado político poderá vir a ter, por exemplo e para não falar dos milhares de licenciados que nunca exerceram profissão compatível com a sua formação, o despedimento em massa de professores? As tranquilas águas em que Portugal parece viver são o pior dos sintomas. As grandes tempestades marítimas são sempre antecedidas pela mais densa calmaria.

NATALIA JUSKIEWICZ - "COM QUE VOZ"


Talvez por a minha adesão ao fado ser tardia, não sou purista e acho este tipo de experiências interessantes. Descobri esta violinista fadista no ionline, e, embora o fado não precise para ser universal da abstracção da voz, a verdade é que o violino tem um poder de expressão que supera qualquer barreira linguística. Por outro lado, a tensão entre violino e a viola e a guitarra portuguesa não deixa de ser um jogo, dantes dir-se-ia uma dialéctica, feliz.

05/09/11

Thomas Mann, Os Buddenbrook (2)


O romance permite, muitas vezes, associar o prazer estético da obra com uma certa aprendizagem sobre a dimensão social da vida humana. Não que o romance vise apreender e explicar o social, mas, ao tomá-lo como matéria romanesca, permite que o leitor compreenda certas realidades de uma forma mais viva que aquela que lhe é dada pelo estudo de um documento académico. Os Buddenbrook permite intuir a natureza da tradição burguesa da Europa central e do norte, de cariz protestante. O ethos burguês, uma coisa tão estranha à tradição peninsular, está ali desocultado na sua plenitude. O cálculo entre prudência e risco, a importância da empresa no seio da cidade, a piedade protestante são a matéria sobre a qual se constrói a intriga nuclear da acção romanesca. Para um europeu do Sul, tudo aquilo não deixa de ter um ar estranho e, fundamentalmente, ajuda-o a perceber a profunda reticência com que a Alemanha da senhora Merkel olha para nós. Mas, o mais curioso, aquilo que hoje se ouve acerca dos europeus meridionais, era a voz corrente nos alemães do norte acerca dos bávaros, seus irmãos do sul da Alemanha, como Thomas Mann não deixa de retratar em Os Buddenbrook. É como se houvesse, impregnado na mente da espécie humana, uma espécie de racismo geográfico, onde o Sul surge sempre como inferior ao Norte.

04/09/11

Caixeiros-viajantes


Não sei o que será mais decadente e degradante, se Sócrates a vender Magalhães a Hugo Chávez, se isto? Pode ser que tenhamos de vender a TAP, a EDP, as Águas, pode ser. Mas será que os senhores da Lufhtansa, caso se interessem pela TAP, não saberão para onde ela voa? Os primeiro-ministros de Portugal transformaram-se em caixeiros-viajantes?

Fim da laicidade do Estado?


Esta foto de Miguel Manso, para o Público, surpreende o momento em que Pedro Passos Coelho decretou o fim da laicidade do Estado português. A contemplação, em que o primeiro-ministro caiu para revelar, ao povo crente, o princípio do fim da crise para o início de 2012, é prova de que a fé já substituiu a razão na direcção do Estado. E o fervor é tanto que Passos Coelho nem ouve a senhora Lagarde, directora do FMI, menos dada à mística, que se atreveu a anunciar a iminência de uma recessão da economia mundial. Recessão que, como se sabe, não nos afectará se, de mãos postas, orarmos à deusa Krisis. Se não resultar, a culpa é de Miguel Relvas, que em vez de pôr as mãos e rezar está a jogar no telemóvel.

03/09/11

Thomas Mann, Os Buddenbrook



Estou a reler a primeira obra de Thomas Mann. Tinha-a lido há quase trinta anos (meu Deus, trinta anos...), na tradução de Herbert Caro, para os Livros do Brasil. Agora comprei a nova tradução, de Gilda Lopes Encarnação, para a Dom Quixote. Comecei a ler e já ultrapassei metade da obra. Duas notas. Não me lembrava praticamente de nada, tirando o pano de fundo da intriga, a ambiência de uma família burguesa, numa cidade alemã do século XIX. Foi como se a memória, ao fim deste tempo, tivesse reduzido a riqueza das peripécias e personagens a uma mera abstracção que, para sua comodidade, pode arquivar num pequeníssimo espaço. O deprimente é que isso não se passa apenas com a literatura. Todas as nossas experiências, exaltantes que tenham sido, jazem agora como meras abstracções num canto obscuro do cérebro. Mas essa é a natureza das coisas, nem vale a pena protestar.
Mas esta releitura tem-me feito pensar sobre o que é a grande literatura. Tinha tentado reler alguns romances de Hermann Hesse, de que gostara bastante. Foi um experiência decepcionante. Deixei-os todos de lado, ao fim de algumas páginas. O mesmo me aconteceu com um dos romances do Sartre que mais me marcou, A Idade da Razão. Quase no começo, constatei que já não tinha paciência. O tempo desses livros tinha passado definitivamente. Com Os Buddenbrook, pelo contrário, ainda existe avidez na leitura, embora seja uma avidez mais sensata e ponderada, mais observadora da técnica e da arte. O que são grandes livros? Aqueles que podemos reler.

Regresso de o averomundo


Passaram dezoito meses desde a suspensão do averomundo. Retorna agora. Virá certamente mais calmo, com menos posts, mas sem grandes diferenças. Quem pode deixar de ser o que é?

03/03/10


27/02/10

Stephan Micus - Midnight Sea

O fechamento em si


As ideias modernas acerca da psicologia da vida privada são confusas. Muita gente , hoje em dia, pretende que a sua vida privada nasce por geração espontânea, independentemente das condições sociais e da influência ambiental. Desse modo, a psique é tratada como se tivesse uma vida interior por si mesma. A vida psíquica é vista como tão preciosa e delicada que definhará se exposta às duras realidades do mundo social. Só florescerá na extensão da sua protecção e isolamento. O self (o “eu” ou o “si”) de cada um tornou-se a sua principal preocupação. Conhecer-se a si mesmo é agora um fim, em vez de um meio através do qual alguém conhece o mundo. E é precisamente porque estamos tão auto-absorvidos que é extremamente difícil chegarmos a um princípio privado, que explique claramente a nós mesmos ou aos outros o que são as nossas personalidades. A razão é que, quanto mais privada for a psique, menos é estimulada, e mais difícil é para nós sentir ou expressar sentimentos. [Richard Sennett (1974). The Fall of Public Man. London: Penguin, pp. 4, trd. nossa]

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A brilhante análise de Sennett da erosão da vida pública nas sociedades ocidentais foi publicada em 1974. Mas o tempo não lhe retirou nem brilho nem pertinência. Em 1974, certamente, a análise não faria muito sentido se lida a partir de Portugal ou de Espanha. Países atrasados no concerto das nações do primeiro mundo, ainda sem democracia, ou em fase de parto, a vivência das sociedades modernas era algo afastado e nebuloso.

Mas a partir da consolidação da democracia e da entrada na normalidade, Portugal começou, apesar de tudo, a parecer-se com os países mais desenvolvidos. Fundamentalmente foi herdando todos os seus problemas. Aquilo que é descrito neste excerto, essa cultura do autismo, uma cultura narcísica de auto-absorção, vi-a nascer e desenvolver-se. Vi-a, fundamentalmente, a partir da escola. Vi como as famílias, levadas pelo espírito do tempo e a propaganda funesta de uma certa casta de psicólogos e psiquiatras, começaram a proteger os seus filhos de forma absurda, evitando ao máximo o choque com a dura realidade social.

Mas o que de mais tenebroso pude assistir foi à intervenção do próprio Estado, através do sistema educativo, na propagação do narcisismo, do autismo, da absorção das crianças e dos jovens em si mesmos. O que é notável neste processo de destruição da vida pública não é o zelo das famílias e o apostolado de certos psicólogos e psiquiatras. O notável é o próprio Estado, que deveria estar preocupado com esta tendência de auto-absorção dos cidadãos, ter sido a principal alavanca do ensimesmamento a que se assiste. A destruição da vida pública nasce pela iniciativa dos responsáveis políticos, como se uma pulsão de morte os habitasse. Não vou perder tempo com exemplos, pois são tantos que o leitor sempre encontrará vários para ilustrar estas afirmações.

Não está já em causa que os responsáveis políticos defendam o bem comum. O mínimo que se lhes exigiria seria que fomentassem o comum, a vida pública, a necessidade dos indivíduos compreenderam a dura realidade do mundo social, com as suas regras e rituais. Ora quando uma civilização se entorpece no fechamento de cada membro em si mesmo, que leitura se poderá fazer? Quando é a própria elite política que promove esta oclusão narcísica dos indivíduos, o mínimo que se poderá dizer é que chegou o fim de um mundo.

Um destino singular


Esta excelente fotografia, de João Henriques, do Público, tira a sua excelência daquilo que ela diz de Sócrates. O fundo negro parece prenunciar o horizonte para onde se dirige. É um facto que ele está de costas semi-voltadas para esse horizonte, mas não é menos verdade que ele o envolve. O segundo traço da fotografia é a singularidade de Sócrates. Esta singularidade, que ele desesperadamente cultivou, no entanto, não significa grandeza. Em primeiro lugar, essa singularidade significa solidão. Sócrates está só, inclusive no seu próprio partido, acossado por uma matilha que lhe ladra às canelas. Ele está a aprender dolorosamente que não se deve tratar os outros como cães, pois acabam sempre por morder. Em segundo lugar, essa singularidade é captada na fotografia pela expressão do primeiro-ministro. Há ali um azedume com o destino. Ele que envolto num ego hiperbólico ansiava um lugar glorioso na História, vê-se agora pura e simplesmente como o primeiro primeiro-ministo obrigado a depor perante a Assembleia da República, lugar aliás onde, tantas vezes, tratou de forma inqualificável a oposição, que agora o obriga a depor. Um destino singular.

A canonização de uma insubmissa


A canonização desta mulher, Mary MacKillop, levanta dois problemas. O primeiro diz respeito à relação de pessoas excepcionais com a hierarquia da Igreja Católica, hierarquia essa composta por gente normal, a maior parte das vezes com uma visão do mundo, da vida, da moral e da religião puramente convencional. Certos religiosos de ordens contemplativas ou de ordens activas, como é o caso de Mary MacKillop, têm um comportamento que ultrapassa em muito a capacidade de compreensão daqueles que possuem o poder na Igreja, numa Igreja que foi criada para a excepção da santidade, mas que, como em todas as coisas humanas, prefere a rotina da convencionalidade. Daí nasce a incompreensão e desta à perseguição vai um passo. Mary MacKillop chegou a ser excomungada. Não deverá ser o primeiro caso em que um excomungado é reconhecido depois como santo.

O segundo ponto é o da necessidade dos milagres para declarar alguém digno da glória dos altares. Mas a santidade, isto é, a excepcionalidade da experiência religiosa de uma pessoa, não se deveria medir pela capacidade taumatúrgica, mas pela vida que viveu, pelos milagres que operou não contra as leis da natureza, mas aqueles que resultaram de uma acção verdadeiramente livre que conseguiu, em certo momento, flectir o curso habitual do mundo e abrir caminhos que os outros puderam trilhar. A santidade é uma luta contra a inelutabilidade do destino, uma afirmação da liberdade contra o peso da necessidade.

26/02/10

Ketil Bjornstad - Prelude 13

O espírito de união nacional


Chegou a altura de fazer a pergunta da qual se foge como o diabo da cruz: os últimos acontecimentos na Madeira têm ou não um carácter político? Aquilo que aconteceu foi apenas devido a uma inesperada violência da natureza ou esta encontrou aliados na forma como o homem organizou e dispôs a sua vida no território?

Agora, em torno do desastre da Madeira, todos brincam à União Nacional. Jardim, em primeiro lugar, mas também o governo e o Presidente. Em tudo isto, porém, há uma falsificação deliberada da realidade. O que se passou na Madeira é um assunto eminentemente político e como tal é um assunto conflitual. Por exemplo, o Expresso chama atenção para um programa da RTP2 que avisava, há mais de dois anos, para aquilo que poderia vir a acontecer (e que infelizmente aconteceu mesmo). Mas já antes disso, cientistas da Universidade de Aveiro (UA) alertavam para o perigo e mostravam as causas (muitas deles devido à intervenção humana) que poderiam conduzir a uma desgraça. Segundo o jornal, parece que esses cientistas foram apelidados pelos governantes madeirenses de "cientistas loucos".

A ser verdade esta história, é claro que há responsabilidade política nos acontecimentos da Madeira. O facto de discutir essa responsabilidade e de conflituar em torno dela não é prejudicial à solidariedade com o povo madeirense. Seria até, contrariamente ao que gostamos de pensar, prova de maturidade cívica e democrática. Mais, seria uma forma de tomada de consciência daquilo que poderá ocorrer em muitos outros lugares devido às mesmas causas apontadas, pelos especialista da UA, para a Madeira. Pensar que a discussão não é feita por reverência aos mortos e respeito aos desalojados é ingenuidade pura. Ela não é feita por medo de Jardim. É desse medo que nasce, neste caso, o nefasto espírito de união nacional.

Um espectáculo extraordinário

Esta suspeição sobre a Procuradoria-Geral e as afirmações de José António Saraiva no parlamento são mais um sintoma de profunda degradação que atingiu a Justiça em Portugal. À nossa frente desenrola-se o mais extraordinário dos espectáculos, pior que um tornado ou um tsunami, um espectáculo que ameaça não deixar pedra sobre pedra. Mas o mais preocupante deste espectáculo é que ele deixa os espectadores impávidos e serenos, como se a desagregação das instituições (seja pela perversão efectiva da sua acção, seja pela calúnia de alguém demente) não afectasse minimamente a maldita vidinha que nos cabe viver.

Quando no final do século passado, o filósofo francês Paul Ricoeur definiu o fundamental da vida ética fê-lo numa frase lapidar: uma vida boa com e para os outros em instituições justas. Isto significa que faz parte de uma vida boa a nossa existência dentro de instituições, e para que a vida não seja um mero estar vivo mas uma vida segundo o bem é necessário que as instituições sejam justas. O que é preocupante no caso da Justiça portuguesa já nem sequer é a questão de saber se ela é uma instituição justa. Ninguém dá um tostão pelo carácter justo da nossa Justiça. O que os cidadãos começam a perguntar é se ainda existe uma instituição de Justiça em Portugal.

Jornal Torrejano, 26 de Fevereiro de 2010


On-line está a edição semanal do Jornal Torrejano.

25/02/10

Andreas Scholl - Flow my tears (John Dowland)

Previsibilidades e revoluções


Afinal aquela velha história de Kant, provavelmente um mito urbano da Konigsberg do século XVIII, que contava que as donas de casa acertavam o relógio pela passagem do filósofo, pois ele fazia sempre o mesmo passeio à mesma hora, não é assim tão extraordinária. Pelo contrário. Um estudo na revista Science prova que 93% das movimentações humanas no espaço são previsíveis. Sejam pessoas que fazem centenas de quilómetros diários, sejam aquelas que apenas percorrem algumas centenas de metros, todas têm em comum o facto dos seus percursos serem previsíveis.

Este estudo, que pretende ter pertinência para a gestão dos fluxos do tráfego nas cidades, deixa perceber uma coisa bem interessante que não é comentada no jornal nem, provavelmente, foi tematizada pelos cientistas. Os seres humanos são por essência conservadores. Uma parte muito substancial das suas deslocações no espaço obedece a padrões normalizados (a nível pessoal, entenda-se). As rotinas tornam-se hábitos, e estes, como ensinou há muito Aristóteles, são uma segunda natureza. A repetição, a rotina, o hábito são a casa onde os seres humanos se aconchegam para poder viver. A previsibilidade mostra uma certa eficiência na gestão da relação com o mundo. Diminui a angústia do próprio e a desconfiança dos outros. Foi devido à previsibilidade, e concomitantemente à natureza conservadora dos hábitos, que a espécie humana pôde resistir e permanecer no mundo. Foi ela que fundou a política, a economia, a cultura.

A espontaneidade, a imprevisibilidade, a capacidade de inovação, etc. sempre foram vistas como excepção, e como tal repelidas ou santificadas. Por santificação da excepção quero dizer que o excepcional era reconhecido como tal, atribuía-se-lhe mérito, premiava-se, mitificava-se, mas ninguém pensava que a vida normal pudesse ser composta por estados e por actos excepcionais. Por exemplo, ninguém acha que não ter o dom de Cristiano Ronaldo para jogar futebol seja um problema. Ele é uma excepção, mas a vida deve decorrer segundo um princípio da não excepção.

A derrota dos projectos revolucionários em política funda-se sempre no conflito entre a natureza humana, previsível e rotineira, e o estado de excepção que uma Revolução política implica. Por exemplo, a derrota do comunismo não se deve tanto à excelência do mundo capitalista ocidental, mas ao carácter inumano do próprio comunismo. Aqui inumano não se refere apenas ao exercício continuado da violência, sempre necessária para assegurar o percurso político da excepção, mas ao facto de que a revolução tem um carácter que choca com a necessidade dos seres humanos se instalarem no previsível, na rotina, no hábito. Quando há revoluções políticas, seja qual for a sua cor, os homens são expulsos, pelos acontecimentos, da sua própria casa. É assim que se sentem.

Já que se falou no comunismo, poder-se-á salientar que o pensamento revolucionário mais consequente se encontra no conceito de Revolução permanente, criado por Léon Trotsky, um dos chefes da Revolução bolchevique de 1917, na Rússia. Uma revolução, enquanto tal, só o é se permanentemente estiver a revolucionar o mundo, a modificar as instituições, a alterar métodos e modelos de acção, a refazer os caminhos que o homem possui para viver em sociedade.

Esta ideia de revolução permanente, porém, não é apenas central no comunismo. Ela é a essência das sociedades capitalistas. O capitalismo, fundado na natureza agónica do mercado, exige uma revolução permanente na sociedade e no modo de vida dos indivíduos, bem como na forma como estes trabalham. O capitalismo, bem como as ideologias totalitárias modernas (fascismo, comunismo, nazismo, anarquismo), assenta na contínua destruição dos hábitos, das rotinas, daquilo que há de previsível no ser humano. Mas a inumanidade do modo de vida capitalista é mais fina e assenta numa contradição.

Por um lado e segundo a retórica em vigor, os indivíduos enquanto produtores e consumidores devem ser espontâneos, abrirem-se para o inédito, para a inovação, fazer formação ao longo da vida, etc. Devem ser revolucionários, numa palavra. O mundo do trabalho e o mundo do consumo, parte substancial da vida humana, estão submetidos a uma revolução permanente. Por outro lado, porém, as mesmas pessoas, enquanto cidadãos, devem ser absolutamente previsíveis, rotineiras, fundadas em hábitos sociais que possam ser facilmente controlados.

Aquilo que diz respeito ao privado, à casa do homem (o trabalho, a satisfação das necessidades, a própria família), deve estar em mutação contínua (novas formas de trabalhar, novos objectos para consumir, novas formas, sempre moles, de família), enquanto a vida pública deve ser perfeitamente conformista e estereotipada. A inumanidade das sociedades capitalistas assenta neste antagonismo esquizofrénico entre o público e o privado. Mas ainda não é tudo. Esta esquizofrenia social está assente na expulsão do homem da sua casa, ao nível da vida privada (vida familiar, de trabalho e de consumo em permanente revolução), e a única casa que agora encontra é a da exposição no espaço público (é isto que se chama sociedade do espectáculo) onde, de forma conformada, se atém a rotinas e hábitos que permitem aos poderes dormir tranquilos. Tudo está sob vigilância. Que os indivíduos, numa parte do seu dia, tenham de ser revolucionários e inovadores e, na outra parte, gente cordata e absolutamente previsível explica o crescimento exponencial das patologias ligadas ao comportamento. Um inesgotável filão para psicanalistas, psicólogos, psiquiatras e outros técnicos do género.

24/02/10

Reforma aos 67 anos


Esta notícia do Correio da Manhã só pode surpreender a quem anda distraído. É evidente que a idade da reforma terá de subir. Muito provavelmente, o limite não irá ficar nos 67 anos, como se está agora a estudar. Uma situação económica débil, uma política de aposentação na função pública completamente irresponsável (como pode alguém imaginar como sensato que se ganhe mais quando se deixa de trabalhar do que quando se está no activo?), um aumento da esperança de vida, e, fundamentalmente, a inversão da pirâmide etária e a concomitante inexistência da renovação das gerações, tudo isto, e ainda mais a demagogia, a inépcia política e a cobardia de muitos governos, só podem conduzir a coisas como estas.

Não vale a pena sequer protestar contra o actual governo. Qualquer outro teria de fazer o mesmo, inclusive governos daqueles que nunca têm responsabilidade de governação e que se instalam facilmente na crítica acéfala deste tipo de medidas. Casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão.