23/02/10

Salvação



É bem lamentável que esta bela metáfora cristã, «a salvação», seja tão usada e por consequência tão desprezada. Tornou-se um insípido sinónimo de «piedade» e perdeu a sua significação profunda. A «salvação» ultrapassa, aliás, as simples conveniências morais. É um termo que implica um profundo respeito pela realidade metafísica do homem, reflecte o interesse que Deus lhe dá, o amor e o cuidado que Ele tem com o ser íntimo do homem, Seu filho, com tudo o que nele há de divino. Não é apenas a natureza humana que é «salva» pela misericórdia divina, mas sobretudo a pessoa humana. O objecto de salvação é único, insubstituível, incomunicável: é o si mesmo. E este verdadeiro eu interior deve ser retirado, como uma pérola, do fundo do mar, e salvo da confusão, da vacuidade, da imersão no que é vulgar, heteróclito, banal, sórdido, efémero. [Thomas Merton (1963). Semences de contemplation. Paris: Seuil, pp. 36/7]

22/02/10

Hiromi's Sonicbloom - Deep into the Night

A questão é entrar


- Escute, homem! Você quer entar na Politica? Quer. Então, pelos Historicos ou pelos Regeneradores, pouco importa. Ambos são constitucionaes, ambos são christãos... A questão é entrar, é furar. Ora você, agora, inesperadamente, encontra uma porta aberta. O que o póde embaraçar? As suas inimisades particulares com o Cavalleiro? Tolices! [Eça de Queirós, A Ilustre Casa de Ramires; ortografia segundo a regra da época.]

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Não estamos no século XXI. Eça retrata o constitucionalismo monárquico do século XIX. O problema reside no simples facto de não haver qualquer diferença entre o oportunismo político da altura e o actual. Para além de uma vaga reverência ao constitucionalismo e aos valores cristãos, uma espécie de senso comum da época ou, para usar uma expressão em voga hoje em dia, o politicamente correcto de então, qualquer convicção é dispensável às elites políticas portuguesas em períodos de constitucionalismo normal.

Nas sociedades pós-modernas em que vivemos a indiferenciação programática dos partidos políticos deve-se à erosão de alternativas. Pode haver diferentes formas de gerir a coisa pública, mas todas elas coincidem no essencial. A indiferenciação político-partidária portuguesa, porém, não se inscreve apenas nesta perspectiva de ausência de alternativa das sociedades tardo-capitalistas. Ela é uma tradição profunda de ausência de valores políticos sólidos, de convicções sobre o bem comum, de falta de carácter dos protagonistas. De certa forma, Portugal foi pós-moderno mesmo antes de chegar a ser moderno, se é que alguma vez o foi efectivamente. Para as elites nacionais a questão é só uma, a questão é entrar, furar. A monarquia constitucional é um repositório dessas "virtudes" pátrias.

21/02/10

The Astounding Eyes of Rita


Se dissesse que tinha comprado este CD devido ao título, mentiria. A música de Anouar Brahem é uma das que gosto há bastante tempo. A verdade, porém, é que aquela capa e aquele título, mesmo que não conhecesse o músico e o seu percurso, levar-me-iam a ouvir o disco, movido talvez pelo adjectivo astounding, por aquilo que se pensa nele, e pela conexão estabelecida entre o cenário da capa e esse adjectivo.

Olho para a fotografia e vejo a melancolia íntima de uma mulher. Ela olha para fora de si mas é um olhar que fica preso ao interior do compartimento onde se encontra. O mundo da vida, o mundo público onde se desenrola a existência prática, sofreu uma epochê, isto é, foi posto entre parêntesis, foi suspenso. Aquela mulher, só com muita relutância lhe chamaria Rita, está fechada no segredo do seu espírito e é de lá que ela olha.

Como do olhar desta mulher se chega aos olhos astounding de Rita? O que pensamos nós no adjectivo astounding? Pensamos múltiplas coisas. Por exemplo, o estar aturdida, o estar abismada, o estar aterrada, o estar espantada, mas ainda a natureza fantástica, no sentido de excepcional, desse olhar. Os olhos fantásticos de Rita revelam o seu estado de excepção, mas este provém do aturdimento, do terror, do abismo, de tudo isso que provoca espanto.

É aqui que se cruzam os olhos de Rita e aquela mulher que povoa o cenário que encapa o CD. Os olhos fantásticos de Rita são-no, de forma adjectiva, porque o seu olhar provém do espírito, e este é abismo e fonte de aturdimento e de terror. Mais poderoso que o mundo exterior, o espírito é causa de espanto. Os olhos de Rita são astounding, mas o espírito que os move é, verdadeiramente e simultaneamente, substantivo e verbo, é efectivamente astound, se o verbo, to astound, pudesse ser substantivado. A melancolia que vemos no olhar da mulher da foto é o indício da distância que vai do adjectivo ao verbo/substantivo, que vai do olhar ao espírito. A melancolia é sempre o sintoma de uma cisão, de uma separação. Entre os fantásticos olhos de Rita e o abismo que é o espírito há uma distância irreparável.

Será que a música, o universal sem conceito, no dizer de Nietzsche, dirá melhor tudo isto que a palavra fundada em conceitos universais? O melhor será mesmo ouvir.


20/02/10

Justyna Steczkowska & Tomasz Stańko - Egzekutor

A presença da realidade assusta-nos

Esta imagem grandiosa de D. João II, apesar dos espinhos de que sempre se revestiu a sua evocação para alguns, remonta ao século XVI e às crónicas de Rui de Pina e de Garcia de Resende, tal como, aliás, a ideia de um tempo dourado, insistentemente retomada pela posteridade próxima e distante. No entanto, a ponderação crítica do que hoje se conhece sobre o tema obriga, naturalmente, a matizar a imagem corrente dos anos de ouro do reino de Portugal. Em boa medida, como antes se sublinhou, o pioneirismo da expansão portuguesa para territórios remotos explica-se pela pobreza relativa do reino e pela distância face aos centros de poder da Europa da época. O pequeno território ibérico, que nunca chegou a ser verdadeiramente uma grande potência, teve sobretudo margem de manobra no fim do século XV e no princípio do século XVI, isto é, nos anos anteriores à estabilização de potências europeias de uma outra escala, como foram as grandes monarquias dos Valois, em França, e dos Habsburgo, senhores de territórios por toda a Europa. [Nuno Gonçalo Monteiro, (2009). "Idade Moderna (Séculos XV-XVIII)", in Rui Ramos, Bernardo Vasconcelos e Sousa e Nuno Gonçalo Monteiro, História de Portugal. Lisboa: A Esfera dos Livros, pp. 199-200]

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Em primeiro lugar, refira-se o confronto entre o processo de mitificação do reinado de D. João II, (1455-1495) iniciado já pelos cronistas Rui de Pina (1440-1522) e Garcia de Resende (1470-1536), e a história crítica, a qual se sente obrigada "a matizar a imagem corrente dos anos de ouro do reino de Portugal." Esta imagem dilatada da nossa realidade, uma espécie de idade de ouro à qual se reporta continuamente o sentimento de decadência nacional, é um produto onírico. A sua construção não provém da análise racional dos factos mas de processos fundados na imaginação criadora que recria e engrandece a realidade que sempre foi mais ou menos diminuta ("O pequeno território ibérico, que nunca chegou a ser verdadeiramente uma grande potência").

Para além da importância efectiva de D. João II e da «viragem significativa» que representou o seu reinado, importa realçar como a reflexão sobre um momento decisivo da história nacional é, desde logo, uma des-realização do real e a produção de um sonho, sonho esse que acaba por ser o padrão contra o qual as gerações seguintes vão ser obrigadas a confrontar-se e a medir-se. A uma imagem hiperbólica do reinado de D. João II, a que se aliavam e continuaram a aliar outras imagens hiperbólicas de reinados anteriores, imagens referentes a um passado irrecuperável e não testemunhável, contrapunha-se e contrapõe-se a realidade efectiva, com a sua pequenez, a miséria geral, as elites prepotentes, egoístas e mais ou menos incultas, o estado de dependência e de impotência da maioria da população. A clivagem entre a imaginação sonâmbula do passado e o peso de cada um dos presentes, que se foram vivendo no devir da história, conduziu a uma patologia da vontade.

O ideal que se persegue em Portugal é de tal maneira elevado que a vontade, impotente para o realizar, se sente fragilizada. Nessa fragilidade, ela apenas encontra forças para subsistir, subsistência essa tão bem caracterizada na expressão popular "a gente desenrasca-se". Ninguém sabe, porém, que o ideal é o produto do delírio da razão. As próprias elites, mesmo se aparentemente cultas, acabam por ser o veículo fundamental desse delírio. Veja-se, por exemplo, as ilusões que perpassam na cabeça das elites políticas, das centrais às municipais, e que se consubstanciam em obras faraónicas e desenquadradas das reais necessidades do país e dos concelhos. No fundo, a vaidade dos indivíduos encontra um sólido álibi numa mitologia nacional construída desde há muito. Para além destas elites, que realizam os seus delírios com o dinheiro vindo dos impostos pagos pelos outros e, no caso actual, da União Europeia, a sociedade vive esmagada pelo sonho e incapaz de recentrar a sua vontade em formas de vida realizáveis e à medida das possibilidades de cada momento.

Os portugueses são vítimas de um excesso de imaginação, de uma imaginação presa ao passado. Como essa imaginação não é confrontada com o princípio da razão, ela é incapaz de olhar o presente e fazer dele a matéria da vida. A presença da realidade só pode, então, assustar-nos.

Equívocos e soarismos


O artigo de Vasco Pulido Valente, no Público de hoje, diz o essencial sobre o equívoco da candidatura de Fernando Nobre à Presidência da República. Vale a pena ler. Sublinho apenas um aspecto. Mesmo contra sua vontade, a candidatura de Fernando Nobre pode servir a um certo soarismo, eu diria ao soarismo tout-court, para fazer eleger novamente Cavaco à Presidência. Contrariamente ao que se pensa, Cavaco Silva chegou à Presidência por decisão de Mário Soares. A candidatura deste às últimas eleições nunca serviu para outra coisa senão para fazer eleger Cavaco e evitar que Manuel Alegre tivesse alguma hipótese de chegar a Belém. Ou alguém imagina que um homem tão experiente como Mário Soares tivesse alguma ilusão sobre as suas possibilidades de vitória? Foi Soares quem colocou Cavaco em Belém. E não vejo razão alguma para que o mesmo Mário Soares, no silêncio da sua consciência e na silenciosa análise que faz da situação política, não queira que Cavaco lá continue. O resto, isto é, aquilo que se diz que cada um (Soares e Cavaco) diz do outro - o pior possível - não passa, mesmo que seja verdade, de mexericos. Soares sempre se achou dono do regime e assim se comporta velando por ele. E Cavaco é muito mais seguro para o regime que Alegre. Por isso, Soares fará tudo para que Alegre não seja o candidato oficial do PS. Veremos se terá espaço de manobra para não ter de apoiar, da boca para fora, a candidatura do seu velho camarada de partido.

19/02/10

Valentin Silvestrov: silent songs

Vontade de vomitar


Estas declarações de Tiger Woods (aqui ou aqui) sobre as suas infidelidades ou o arrependimento delas enojam-me. Já aquando do processo de Clinton senti o mesmo asco pelo arrependimento público. Se eles se arrependem ou não é um problema deles e das respectivas mulheres. É moralmente inaceitável a sua exposição pública. Não vou falar dos interesses que podem convidar a tanto arrependimento. Mas uma coisa é certa. Uma sociedade que pressiona os indivívuos para este triste espectáculo, por muito que se diga liberal, está longe de ser uma sociedade livre. É uma sociedade que não reconhece a raiz da liberdade.

O pior vem pela patologização do comportamento de Woods. Ele tem estado a receber tratamento. Tratamento? Mas se está a receber tratamento é porque está doente. Se o seu comportamento resulta de uma doença então ele não foi livre. Se as infidelidades de Woods não resultaram da sua liberdade mas de um estado patológico, então não tem de que se arrepender nem merece censura moral. Censuramos uma pessoa por ter contraído um cancro? Veja-se como a liberdade é de novo negada.

Ser infiel não é um acto que afecte a sociedade, afecta apenas a relação entre o infiel e aquele que foi vítima da sua infidelidade. É motivo de quebra da relação, mas nada mais. Fundamentalmente, a infidelidade tem a ver com um acto de liberdade. A vontade pode decidir realizar aquilo que a faculdade de desejar lhe propõe (ter um caso) ou resistir a essa proposição. É aqui que está a liberdade dos homens. Woods não é um homem livre, mas um doente que é obrigado a pedir desculpa pela sua patologia. Quando se acha que a liberdade é uma doença, estamos conversados sobre o tipo de sociedade em que se vive.

Começou


Como era de prever, e aqui se disse ontem, as verdadeiras corporações que colonizam a educação começaram a cair sobre Paulo Rangel. Veja-se como se pronunciam aqui. Se eu estivesse no lugar de Rangel não diria que essa gente percebeu mal. Perguntaria, antes, pela sua responsabilidade no estado a que a educação chegou. Perguntaria, também, que interesse os move. Aquele discurso é bem conhecido de quem anda nisto há muitos anos. Começou a soar forte nos tempos em que Joaquim de Azevedo era secretário de Estado. O resultado está à vista.

Sejamos honestos. Ninguém "quer" que a escola pública funcione com exigência e seriedade. Ninguém suporta ouvir falar em selectividade. Mas todos sabemos que quanto menos selectiva é a escola pública, mais selectiva é a sociedade e menos possibilidade de êxito têm nessa sociedade os alunos da escola pública. Rangel, se for eleito líder do PSD, já comprou uma bela guerra. É um facto que o discurso de Rangel soa a senso comum. Mas os discursos científicos (ou pseudo-científicos) feitos contra o senso comum na educação criaram o caos. Chegou a altura de perguntar se não há que temperar a educação com esse senso comum, que não é outra coisa senão o sentido partilhado por uma comunidade.

Uma nota. Quem quiser alterar alguma coisa na educação não deve deixar amedrontar-se nem tomar uma posição defensiva. Pelo contrário, deve perguntar por que razão os defensores de tão belas teorias deixaram chegar o sistema educativo e a escola pública à inanidade a que ela chegou. No tribunal da Razão, não é Paulo Rangel que se deve sentar no banco dos réus. Mas os seus censuradores.

Jornal Torrejano, 19 de Fevereiro de 2010

On-line encontra-se a edição semanal do Jornal Torrejano.

Livros no domínio público (Brasil)


O Ministério da Educação da República Federal do Brasil disponibiliza um site, denominado Domínio Público, onde o viajante internético poderá descarregar um enorme conjunto de obras, de quase todas as áreas, caídas, as obras, no dito domínio público. Há muitas coisas em português, bem como noutras línguas usáveis, digamos assim. Há mesmo muitas coisas portuguesas, mais que em Portugal. Cheguei a isto através de um daqueles e-mails que se recebem e anunciam uma causa. Neste caso, a causa diz respeito à suposta intenção do governo brasileiro fechar o site devido, diz-se, ao pouco uso. Passo a transcrever parte do e-mail. "Estamos em vias de perder tudo isso, pois vão desativar o projeto por desuso, já que o número de acesso é muito pequeno". Isto foi recebido agora, mas já tinha recebido um semelhante há bastante tempo. Portanto, estamos perante uma de três hipóteses. Primeira, é mesmo verdade e o ME do Brasil, zangado com a falta de acesso a um mercado fundado na graça (tudo é grátis) e não na troca, decidiu, ou quase, encerrar a loja; segunda, é mentira e estamos perante uma daquelas histórias que povoam as mitologias urbanas em tempo de internet; terceira, o governo do Brasil encontrou uma forma sagaz de fazer publicidade ao seu site - um excelente serviço público, diga-se - utilizando a nossa infinita capacidade de indignação com quem está no poder (se for assim, a equipa de promoção está de parabéns).

Seja como for, e como cautelas e caldos de galinha não fazem mal a ninguém, passe pelo Domínio Público, faça o download de umas quantas obras em PDF, já agora leia-as por desfastio, e dê três vivas à lusofonia e um muito obrigado a todos aqueles que disponibilizam o seu tempo ou dinheiro para tornar acessível, segundo uma lógica fundada na graça, uma parte substancial da cultura humana.

18/02/10

3. libertinagem e conversão

Para concluir a leitura de Justine, de Marquês de Sade, retomo, aplicando-a a um discurso complexo como um romance, a teoria dos speech acts de J. L. Austin, depois prolongada por John Searle. Esta teoria distingue entre actos locucionários, actos ilocucionários e actos perlocucionários. Muito resumidamente, actos locucionários são os actos de enunciação. Neste caso, por analogia, corresponde ao texto produzido por Sade. Os ilocucionários referem-se ao que fazemos quando dizemos alguma coisa. Posso prometer, avisar, constatar uma certa realidade ou facto, narrar um conjunto de peripécias. Do ponto de vista ilocucionário, a Justine é a narrativa de um conjunto de peripécias em torno da personagem. De certa forma, a dimensão ilocucionária foi analisada nos dois posts anteriores.

Falta a dimensão perlocucionária. Esta refere-se àquilo que o auditório de uma comunicação é levado a fazer pela conjugação das acções locucionária e ilocucionária. Dito de outra maneira, o que pode ser levado a fazer aquele que lê este texto? Aqui retomo uma ideia inicial. Ler o texto como se não soubéssemos mais nada dele a não ser aquilo que ele diz, como se não soubéssemos nem quem foi o seu autor nem qual o desenvolvimento das suas ideias. O texto supostamente libertino que temos à frente pode gerar dois tipos de reacções. Aqueles que se identificam com a lei do mais forte e podem considerá-lo como um manual escolar que instrui na via libertina. Estes serão uma minoria, pois o ser humano, na sua globalidade, é uma mistura de animal e de ser racional e moral. A consciência moral, aquele que Kant supunha presente em todos os homens, sente, porém, perante a narrativa de Sade um asco crescente pelas praxis libertinas.

O carácter totalitário, o despotismo, o homicídio, o estrupo, o aviltamento do mais fraco, tudo isso presente nos quadros que Justine narra, acabam por constituir um choque para a consciência moral e ter um efeito contrário à ideologia libertina, uma espécie de vacina. Ler a Justine pode ter mesmo um efeito religioso. O universo irreligioso narrado é tão repugnante que conduz espontaneamente à atitude contrária, como efeito perlocucionário. Se não se soubesse quem era o autor e o desenvolvimentos posterior da sua obra, desconfiaríamos que se estava perante um livro apolegético do cristianismo. O próprio Sade, no texto, prevê isso, pois a irmã de Justine, uma libertina soft, ao ouvir a narrativa das peripécias pelas quais passa a irmã, e após a morte desta fulminada por um raio, converte-se e entra para um mosteiro. Mesmo que este final possa ter sido estratégico, no sentido de fazer passar um mundo libertino sob a capa de um caminho de conversão, a verdade é que o texto de Sade, mesmo sem esse fim, tem um potencial de conversão religiosa e moral que não é aquele a que habitualmente ligamos as obras de aristocrata francês.

Saberá com quem se está a meter?


Pela primeira vez vejo um político a olhar para a educação de acordo com a realidade que existe e não segundo um conjunto de abstracções. Subscrevo tudo o que Rangel disse sobre a educação, mesmo as coisas mais desagradáveis. E a coisa mais desagradável que disse é que uma criança aos 12 anos pode começar uma escolaridade voltada para o mundo do trabalho. É preciso ter coragem para dizer uma evidência. Se isso já existisse, ter-se-iam salvo muitos alunos, ter-se-ia evitado muito abandono escolar, ter-se-ia despertado muitas vocações práticas. Ter-se-ia evitado que muitos jovens caíssem na marginalidade. As boas intenções daqueles que se vão levantar indignados com Rangel - já estão a levantar-se - valem o que valem, e aquilo que valem é um abandono escolar desmedido, um terceiro ciclo do ensino básico hilariante, um ensino secundário degradado e, fundamentalmente, um mar de ilusões que transformaram a escola portuguesa num exercício de ilusionismo e de burocracia sem fim.

À pergunta "Combatia o abandono escolar introduzindo mais cedo o ensino profissional?" Rangel responde: "Não... aceitando quebrar um tabu! Introduzindo um ensino profissional misto a partir, talvez, do 7º ano de escolaridade. Aceitar esse encaminhamento sem lhes fechar a porta, caso eles queiram regressar a um sistema puramente académico (sublinhados a negrito nossos)." Nestes termos, e precisamente nestes termos, a sua proposta faz todo o sentido.

Agora, porém, Paulo Rangel não se deve iludir. O que diz sobre a educação vai mobilizar contra si muitos e poderosos interesses que colonizam o sistema de ensino e que vivem, no sentido literal do termo, da ideologia dominante na escola. O chamado facilitismo (palavra de que não gosto) e a degradação do ensino não são uma maldade da natureza, são o resultado de interesses que vivem desse facilistismo e dessa degradação, que o promovem, falando sempre em nome do sucesso escolar, para poderem parasitar o sistema educativo. Rangel deverá ter clara consciência do vespeiro onde se está a meter. Esse vespeiro é transversal ao espectro político. Quando se fala em corporações na educação, as pessoas pensam logo nos professores. Desconhecimento e ingenuidade. Há na educação, no silêncio dos gabinetes, de empresas privadas e de certos estabelecimentos do ensino superior, corporações bem mais poderosas do que os pobres 135 mil professores. Essas corporações silenciosas não brincam em serviço, como se tem visto nos últimos anos. Podemos apostar que será pela questão do ensino misto aos 12 anos que começarão os ataques e a defesa desesperada do status quo. Aguardemos as cenas dos próximos capítulos.

17/02/10

Avaliação da experiência Kindle 2


Vamos lá, então, a uma avaliação (parece que se vive num tempo de avaliações) da experiência de leitura no Kindle 2, o eReader da Amazon. Escolheram-se quatro categorias. Manuseamento, Leitura, Livros disponíveis e Trabalho. Deixaram-se de lado questões técnicas como o carregamento da bateria ou a audição dos textos (ainda não experimentei esta possibilidade).

Manuseamento­. O Kindle manuseia-se bastante bem, é leve, permite a leitura nas mais diversas situações. A princípio estranha-se o “virar” da página. A tendência é repetir o gesto mecânico inerente aos livros em papel, mas rapidamente nos habituamos a carregar nos botões (PREV PAGE e NEXT PAGE) ergonomicamente situados. A desvantagem reside em ser mais difícil e moroso saltar páginas. Há acesso a um menu que permite ir para um índice, mas muitos dos e-books disponíveis gratuitamente não possuem o índice operativo, isto é, que permite clicar na indicação do capítulo e aparecer no local onde o capítulo se inicia. Nos livros comprados (foram dois) para Kindle, na Amazon, os índices funcionam. Também noutros e-Books gratuitos esses índices funcionam, mas não em todos. O menu permite também ir para determinada localização (location) do livro, mas é necessário saber para onde se quer ir. A sensação ao tacto do aparelho não é desagradável, mas não é papel. É fria e metálica. É também escorregadia, por isso recomendo a compra de uma capa de cabedal. Torna o Kindle mais pesado, mas protege o ecrã e evita que o aparelho escorregue das mãos. Já apanhei, por sorte, o meu no ar, quando experimentava ler sem capa protectora. O miniteclado para introduzir notas e fazer pesquisa é trabalhável. Não estamos a falar de um computador, mas de um livro que permite fazer anotações nele e a partir dele.

Leitura. Incomparavelmente melhor e menos cansativa do que num bom monitor de computador, apesar do ecrã ser pequeno. Tem a vantagem de apresentar seis tamanhos de caracteres à escolha, que vão desde os caracteres para os que vêem bem de mais até aos que precisam de caracteres bem grandes por verem bem de menos. Permite também escolher o número de palavras por linha. Além disto, que para mim é muito mas que encontro no computador, refira-se a qualidade do ePaper e da eInk. De facto, a relação entre o preto dos caracteres e a cor de fundo (que não sei designar) do “papel” é bastante agradável. Não há contrastes que firam a vista. A leitura é, na minha óptica, melhor no Kindle que em papel. Esta é uma grande arma deste tipo de aparelhos relativamente ao iPad, por exemplo. Não sendo retro-iluminado, o Kindle comporta-se como um livro normal. Precisa de luz exterior para ser lido. Ao desaparecer aquele brilho dos monitores de computador a vista é poupada.

Livros disponíveis. Na Amazon.com há mais de 300 mil livros à venda para Kindle, livros com codificação própria e só legíveis no Kindle. Essencialmente em inglês, mas abrangendo um leque alargado de interesses. Há outros sites que vendem também livros que o Kindle lê. Como disse num post anterior, existem milhares de livros gratuitos que o Kindle lê. Os nossos próprios textos podem ser transformados em ebooks lidos pelo Kindle. Mas o universo de livros disponíveis, nas várias línguas, irá crescer exponencialmente nos próximos anos. Os livros em PDF apresentam algumas dificuldades de leitura. Não é possível fazer zoom sobre eles. No entanto, esses livros, se não forem em imagem mas em texto, podem ser convertidos para linguagem que o Kindle lê normalmente, e por isso permite fazer zoom sobre eles. Também os jornais podem ser lidos no Kindle. O Público já está disponível por cerca de 14 dólares mensais.

Trabalho. Vantagens: podemos escrever anotações, colocar bookmarks, sublinhar. Podemos também pesquisar por palavras ou expressões. Esta é uma grande vantagem. Desvantagens: os livros comprados na Amazon.com para Kindle não permitem fazer scanner sobre eles para os trabalhar no computador (uma técnica que utilizo bastante em textos difíceis, para os analisar). Os outros livros disponíveis na internet, mesmo em linguagem legível por Kindle, permitem através de um programa denominado Calibre, fazer conversão para .pdf ou para .rtf e .txt, formatos que o Word lê. Depois é só trabalhar a parte que se quer e acompanhar a leitura no Kindle. Problemas: os livros comprados na Amazon.com não têm páginas idênticas aos livros em papel. Isto levanta um problema em trabalhos académicos, nomeadamente na localização de citações. No entanto, os ebooks têm aquilo que se chama “locations”. Por exemplo, o livro que estou a ler tem 2471 locations e vou na location 632-37. Isto permite referenciar a citação. Não sei, nem procurei, se existe já alguma norma de referência bibliográfica que contemple os ebooks.

Nota final. Um ebook é um óptimo instrumento de trabalho. Poupa a floresta, evita o crescimento desmesurado das estantes numa casa, é amigo do leitor. É possível, porém, que se esteja apenas no início de uma nova forma de conceber o livro.

16/02/10

O livro do entardecer 40 - entardecer

não sei se o caminho é este
onde canto no silêncio
ou oiço a voz obscura da terra
a zunir num coro de cigarras
se é verão e transpiro de cansaço

não sei a porta por onde entrarás
vestida de vazio e dor
trazendo um vinho já amargo
a pele gasta pelo tempo
que te deixou ser rapariga

nada sei de caminhos e portas
nem de vozes a cantar no silêncio
sento-me na minha cadeira
e é tudo o que tenho para esperar
desde manhã até ao entardecer

Thomas Tallis - Spem In Alium

Vai começar a privatização das escolas



É assim que as coisas começam. O PS dá uns passos, abre umas portas. Quando chegar o PSD, e vai chegar relativamente em breve, fará o resto. Nessa altura, o PS protestará, muito de esquerda, muito ameaçador, mas escudado na maioria de direita que toma a decisão, e secretamente contente com o que ele começou. Enquanto não estiver destruído tudo na educação não estão descansados. Ou alguém imagina que a privatização das escolas públicas secundárias serve para outra coisa que não uns "empresários" da educação embolsarem uns dinheiros à conta do contribuinte e da proletarização dos professores? Haverá alguém tão ingénuo que pense que os alunos vão beneficiar alguma coisa?

O retorno e a imaginação

Portugal estava (século no início do século XV), de facto, entalado entre o poderoso vizinho e o mar, confinado num espaço periférico, um finisterra não apenas em termos do Ocidente europeu, mas até da própria Península. Daí resultava o que chamámos o impasse ibérico do reino. À época, a única via possível para buscar um caminho próprio era o mar. E desde há muito que o mar ocupava um lugar de grande importância na vida do reino. A extensão da costa, a participação directa das populações do litoral em actividades marítimas como a pesca (em largas zonas da orla costeira), a extracção de sal (em Aveiro, no Baixo Mondego, no estuário do Tejo, no Sado) e até a familiarização com o vaivém de embarcações que faziam navegação de cabotagem ligando cidades e regiões costeiras (sendo esse, por vezes, o meio de transporte mais rápido e seguro), tudo concorria para uma relação de proximidade com os elementos marinhos, não só em termos físicos mas também ao nível das representações mentais. [Bernardo Vasconcelos e Sousa, (2009). "Idade Média", in Rui Ramos, Bernardo Vasconcelos e Sousa e Nuno Gonçalo Monteiro, História de Portugal. Lisboa: A Esfera dos Livros, pp. 172]

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Com o fecho do ciclo imperial, em 1974, Portugal volta a uma situação geopolítica idêntica àquela em que viveu até ao século XV, um finisterra europeu e ibérico. A diferença, porém, é que mesmo o mar deixou, com o fim da ideologia colonial e dos respectivos impérios, de ser caminho para o impasse político do país. A partir de 1974, Portugal está perante si mesmo, dolorosamente só. O apelo à razão, isto é, à confrontação com o que somos efectivamente, porém, é substituído, por duas vezes, pelas operações da imaginação que sublimam a nossa situação. A primeira vez que a imaginação opera é nos próprios acontecimentos de 74 e anos seguintes, no denominado processo revolucionário em curso (PREC). A crença utópica numa sociedade socialista, fora do mundo ocidental onde geográfica e culturalmente pertencemos, ocupou uma largo espaço imaginal nesses anos. Estamos ainda longe de poder compreender o efectivo significado colectivo dessa grande configuração imaginária dos anos setenta.

No entanto, para além de razões puramente fácticas - a longa ditadura, clivagens sociais humilhantes, etc., a figura imaginária da revolução surgiu como sublimação de duas feridas narcísicas insuportáveis. Em primeiro lugar, o país tornou-se efectivamente um pequeno país, reduzido a 90 mil km2 na península e a dois arquipélagos perdidos no mar e de dimensões irrelevantes. A história gloriosa e a pátria grandiosa reduziam-se a quase nada. O PREC foi um analgésico colectivo para a dor da perda. Isto dos dois lados da barricada.

Os que eram favoráveis a uma utópica continuação da guerra encontraram nos actores políticos da descolonização o bode expiatório, na figura da traição à pátria dos revolucionários de Abril, para o fim de uma política colonial sem saída. Mas aqueles que, dentro do PREC, tiveram de fazer a descolonização, ainda que ideologicamente favoráveis ao processo, encontraram no PREC um álibi para tranquilizar as consciências perante o que viria a seguir e para não pensar na nova situação do país reduzido à sua dimensão ibérica.

O PREC foi uma poderosa figura do imaginário colectivo que permitiu à direita e à esquerda, bem como à comunidade nacional no seu todo, evitar confrontar-se com a realidade da nova situação e sublimar as dores que efectivamente o fim do império colonial trouxeram para toda a sociedade. Um dos efeitos mais interessantes deste poderoso filtro da consciência foi a integração dos chamados retornados, portugueses que abandonam os novos países nascidos da descolonização. Por muito dolorosa que a partida de cada pessoa e família fosse individualmente sentida, a sua integração no todo nacional foi praticamente indolor.

Se a mitologia do PREC e da construção de uma sociedade socialista entra rapidamente em decadência, tornando-se obsoleta já nos finais da década de setenta, Portugal encontra uma nova mitologia, um novo trabalho imaginário que o vai dispensar de se confrontar com a sua realidade efectiva. A nova figura da imaginação portuguesa estava já pronta e era uma realidade bem racional na Europa. Essa figura é a CEE. A generalidade dos países que integram o projecto dos seis fazem-no racionalmente. Portugal fá-lo, porém, de uma forma imaginária. Seria interessante analisar os discursos dos vários protagonistas políticos no primeiro lustro dos anos oitenta. O inconsciente colectivo recebe a CEE como um novo espaço mítico que, por si mesmo, resolveria todos os nossos problemas. Seríamos europeus, coisa a que estávamos desabituados há cinco séculos, sem outra necessidade do que a da integração.

A triste história da integração, desde as narrativas delirantes do pelotão da frente até ao descalabro actual, passando pelo pântano, tornam evidentes à saciedade de que a nossa integração nunca correspondeu a um trabalho da razão, mas à sedução proveniente das figuras da imaginação. A CEE serviu para evitar a dor proveniente do confronto com a nossa pobreza ancestral, a falta de recursos, o desprezo pela inteligência, a fragilidade e egoísmo social das elites.

E tudo isto assenta de tal maneira em processos imaginários que o nosso elemento de referência, aquele que foi uma solução para a escassez endémica com que o país sempre se debateu, refiro-me ao mar, foi recalcado, esquecido, abandonado, fora do seu aproveitamento turístico. Com a adesão à CEE, a frota de pesca desapareceu. O que serviu a outros para racionalizar, a nós serviu para destruir, como se a relação com o mar não fosse mais do que um mero sonho. No século XV, o sonho levou-nos mar fora, para outras paragens. Hoje, o mar implica não a fuga, mas a razão, o trabalho, a diligência. Por isso o abandonámos, preferimos alugar camas e a servir refeições a quem passa por cá para olhar o mar com melancolia.

15/02/10

O livro do entardecer 39 - carnaval

dançam dançam dançam
remadores do rio da morte
dançam braços pernas ao vento
à chuva pesada e fria
dançam na melancolia
dançam no inverno
corpos a baloiçar
a pender do patíbulo
enquanto a vida foge pelo mastro
de onde cristo algum ressuscitaria