03/02/10

Fiona Apple - Why Try To Change Me Now

Carne de porco tipo viagra


A vida está difícil. A presidente da Argentina, Cristina Kirchner, descobriu agora um novo método de publicidade para tirar as suiniculturas pátrias de apuros. Proclamou as virtudes afrodisíacas da carne de porco. Melhor do que Viagra. "Comer carne de porco melhora a atividade sexual. Eu acho que é muito mais gratificante comer um porco grelhado do que tomar Viagra", afirmou. Depois, completou assumindo-se como uma "fanática" da carne de porco, o que provocou raciocínios em duplo sentido. E para confirmar a polémica teoria contou uma intimidade do casal presidencial. Revelou que recentemente comeu carne de porco "com pele crocante como biscoito", juntamente com o marido, o ex-Presidente e actual deputado Nestor Kirchner, e o resultado foi um fim-de-semana no qual tudo funcionou. "Tudo saiu muito bem. Então, pode ser que tenham razão (que o porco seja afrodisíaco). A carne de porco melhora a atividade sexual. Comprovar não custa nada", incentivou Cristina Kirchner.

Há que reconhecer que governar é uma coisa difícil. Quando a realidade é adversa não há nada como uma boa imaginação, mesmo que ela implique abrir a janela do foro privado para a praça pública. Que comam, então, muita carne de porco crocante, os meus desejos. Mas depois, quando os mirones espreitarem para dentro de casa, não se queixem.

02/02/10

Indústrias da avaliação


Abandonaram a avaliação individual – aliás, esses patrões estavam totalmente fartos dela. Durante um encontro que tive com o presidente de uma das empresas, ele confessou-me, após um longo momento de reflexão, que o que mais odiava no seu trabalho era ter de fazer a avaliação dos seus subordinados e que essa era a altura mais infernal do ano. Surpreendente, não? E a razão que me deu foi que a avaliação individual não ajuda a resolver os problemas da empresa. Pelo contrário, agrava as coisas. [Público, Entrevista a Christophe de Dejours]

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Vale a pena comentar? Talvez valha a pena observar um aspecto. Se se sente que as avaliações individuais não contribuem para melhorar o desempenho das organizações, privadas ou públicas, por que é tão propagado? A explicação não é muito difícil. Por um lado, porque se montou uma verdadeira indústria da avaliação (aquilo que se chama cultura de avaliação, um eufemismo miserável, não passa de uma indústria de natureza parasitária, com interesses próprios em diversos níveis da vida social, desde a academia até às empresas de avaliação e aos centros de recursos humanos das organizações). Por outro, porque o que está em jogo, a maioria das vezes, não é a melhoria do desempenho, mas a dominação de uns por outros. Estas questões não são as essenciais (essas têm a ver com a cultura de ruína de que são sintoma), mas mostram como estas coisas operam na vida quotidiana e contribuem para a tornar miserável e infernal.

Uma outra visão da cultura gaseificada

Christophe de Dejours

Para nós, clínicos, o que mudou [na organização do trabalho] foram principalmente três coisas: a introdução de novos métodos de avaliação do trabalho, em particular a avaliação individual do desempenho; a introdução de técnicas ligadas à chamada “qualidade total”; e o outsourcing, que tornou o trabalho mais precário.

A avaliação individual é uma técnica extremamente poderosa que modificou totalmente o mundo do trabalho, porque pôs em concorrência os serviços, as empresas, as sucursais – e também os indivíduos. E se estiver associada quer a prémios ou promoções, quer a ameaças em relação à manutenção do emprego, isso gera o medo. E como as pessoas estão agora a competir entre elas, o êxito dos colegas constitui uma ameaça, altera profundamente as relações no trabalho: “O que quero é que os outros não consigam fazer bem o seu trabalho.”

Muito rapidamente, as pessoas aprendem a sonegar informação, a fazer circular boatos e, aos poucos, todos os elos que existiam até aí – a atenção aos outros, a consideração, a ajuda mútua – acabam por ser destruídos. As pessoas já não se falam, já não olham umas para as outras. E quando uma delas é vítima de uma injustiça, quando é escolhida como alvo de um assédio, ninguém se mexe… [Público, Entrevista a Christophe de Dejours]


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Esta entrevista ao Público, do psiquiatra e psicanalista Christope de Dejours, merece ser lida de uma ponta a outra com muita atenção (quem ainda tiver aprendido francês pode ler também esta ao jornal L'Humanité). Ambas as entrevistas mostram como os locais de trabalho se tornaram, ou estão a tornar, em espaços concentracionários de natureza absolutamente totalitária. Escolhi o excerto acima, mas poderia ter escolhido qualquer outro da entrevista. É este modelo totalitário que está a ser importado para os serviços públicos. Por exemplo, era isto, e ainda é, que o Ministério da Educação queria, e quer, impor aos professores.

Não pretendo comentar aquilo que de político e social se manifesta aqui, nem tecer considerações sobre o carácter dos indivíduos que advogam este tipo de coisas e as põem em prática. Interessa-me, antes, voltar à questão da gaseificação da cultura. Não são apenas os produtos que são construídos para a ruína, para a sua rápida destruição na esfera do consumo. A ruína e a destruição dos próprios funcionários e gestores - muitas vezes é também esse o caso - é um elemento central da hipermoderna organização do trabalho. Sob a capa da avaliação de desempenho e da "qualidade-total", e com a ameaça de outsorcing no horizonte, o que se desenha é um cenário onde o elemento central é a destruição de tudo o que é puramente humano, desde as relações interpessoais de trabalhos até, em última instância, aos próprios indivíduos.

Outro aspecto particularmente interessante é a inevitabilidade de tudo isto. Não está nas mãos dos indivíduos parar este tipo de acontecimentos, apesar de aqui ou ali eles poderem ser refreados. Se alguém os parar numa empresa, ela acabará por ceder o seu espaço de mercado a uma outra que fará ou mesmo ou pior. Através deste modo de organização do trabalho, e dos valores sociais que o exigem, manifesta-se um modo de ser que opera muito para lá daquilo que é puramente humano. É como se um desejo ontológico de ruína e de destruição tocasse tudo aquilo que serve de base ao nosso modo de existência.

Para além das luzes brilhantes do espectáculo em que tudo se tornou, Thanatos faz o seu serviço. Mas o que há de novo, não é a presença do impulso de morte. Ele sempre existiu. A novidade é que ele deixou de ter contraposição. O mundo hipermoderno se não matou Eros, reduziu-o a uma caricatura. A deserotização da produção, característica do mundo criado a partir da Revolução Industrial, tem por função a criação de produtos que funcionem como um vácuo para o desejo dos consumidores. Da produção ao consumo, passando pelo produto, tudo é marcado por um impulso voraz de aniquilamento. O amor, Eros, que cria laços entre os seres humanos e entre estes e aquilo que os rodeia, é agora uma sombra delida, uma sombra escondida por detrás dos ciprestes que crescem no enxame de cemitérios que se escondem por todo o lado.

Entrevista a Rui Ramos


Entrevista com Rui Ramos, no caderno Ípsilon do Público, coordenador da última História de Portugal publicada. Uma panorâmica histórica de Portugal. Interesante e discutível. Vale a pena ler alguns dos comentários. Levantam problemas importantes. Há outra entrevista que merece leitura do mesmo historiador na revista Ler.

01/02/10

Uma cultura gasosa

Já não estamos naqueles tempos em que a cultura era um sistema completo e coerente de explicação do mundo. De igual modo, acabaram as grandes épocas de oposição entre cultura popular e cultura erudita, entre "civilização" das elites e "barbárie" da populaça. A este universo de oposições distintivas e hierárquicas sucedeu um mundo em que a cultura, que já não se separa da indústria mercantil, alardeia uma vocação planetária e se infiltra em todos os sectores de actividade. Ao mundo de ontem, em que a cultura era um sistema de signos distintivos, comandados pelas lutas simbólicas entre grupos sociais, que se organizava em torno de pontos de referência sagrados e institucionais, sucede o mundo da economia política da cultura e da produção cultural prolífica e incessantemente renovada. Já não existe o cosmos fixo da unidade, do sentido último e das classificações hierarquizadas, substituído que foi pelo das redes, dos fluxos, da moda e do mercado sem fundamento nem centro de referência. Nestes tempos hipermodernos, a cultura transformou-se num mundo cuja circunferência passou a estar em todo o lado e o centro em lado nenhum. [Gilles Lipovetsky & Jean Serroy (2010). A Cultura-Mundo - Resposta a uma Sociedade Desorientada. Lisboa: Edições 70, pp. 12]

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O importante já não é sublinhar o fim da explicação coerente do mundo, nem a morte da distinção entre cultura e barbárie. O que importa pensar é a natureza gasosa da cultura. A gaseificação da cultura a que assistimos tem uma suposta origem nos fenómenos acima citados desde a indústria cultural mercantil à moda, e é simbolicamente descrita nos conceitos de rede, fluxo, de mundo que é uma circunferência destituída de centro. Esta última metáfora é um indicador precioso do caminho que se está a trilhar. Ela foi já utilizada, no início da modernidade, para descrever a novo concepção de cosmos que despontava.

Com esta conexão entre o mundo da cultura e o mundo da natureza cósmica percebemos que o que está em causa é a destruição do espírito pela naturalização da cultura. Essa naturalização é feita pelo mercado. Ao transformar-se em mercadoria, a cultura está submetida aos mesmos efeitos das mercadorias cujas matérias-primas residem na natureza, isto é, aos ciclos de produção, consumo e obsolescência. Os produtos culturais nascem para se tornarem obsoletos e, desse modo, volatilizam-se, gaseificam-se.

Os clássicos da cultura são clássicos porque provêm da solidez do espírito, mas nos nossos tempos os produtos culturais não possuem solidez, são matéria gaseificada que se dissolve no ambiente, as mais das vezes poluindo-o, diga-se de passagem (veja-se a indústria do entretenimento - vai desde a "literatura" ao cinema, passando por um crescente número de novas modalidades ditas culturais ou "artísticas" - ou o infinito trabalho académico, constituído, na sua imensa globalidade, por lixo intelectual justificador de carreiras académicas ou puro diletantismo). Esta gaseificação da cultura é um dos traços da modernidade tardia, ou hipermodernidade. O que se oculta nesse processo de gaseificação? A pura ruína. Enquanto as civilizações tradicionais produziam a vida segundo a norma da eternidade e da permanência das suas construções, o nosso mundo moderno, ou hipermoderno, constrói tudo para a sua própria ruína.

A ruína deixou de ser uma consequência natural, derivada da acção das leis da natureza sobre as produções espirituais da humanidade, para ser o elemento central da cultura actual, das produções do espírito moderno ou hipermoderno. Quando se concebe um produto (e tudo se transformou num produto para o mercado global), concebe-se pensando já na sua obsolescência, na sua ruína, na sua gaseificação. Parece sólido, mas como o gás ele está pronto a desaparecer na atmosfera. Não se trata sequer de falar numa civilização do desperdício, do consumo ou mesmo do hiper-consumo.

Trata-se de uma civilização cujo núcleo central de desenvolvimento é o querer da ruína. Note-se que isto não atinge apenas os bens de consumo como automóveis, telemóveis, romances, filmes, jogos, etc. Isto atinge as próprias teorias científicas, as quais são construídas para serem destruídas e substituídas por outras consideradas melhores. As ciências, núcleo central da espiritualidade actual, são constituídas por teorias que visam, em última análise, a sua própria destruição, a sua gaseificação. Visam a ruína de si mesmas como explicação dos fenómenos que estudam. O fim que habita as ciências, um fim que visa a auto-destruição, impregna todo o ambiente em que se vive. A ruína nasce do corte entre as ciências e aquilo que as fundamentava e as ligava à ideia de eternidade, isto é, a filosofia e, num outro âmbito, a teologia. Curiosamente, o que celebramos quando celebramos a autonomia das ciências nascida na modernidade, com Galileu e Newton, é o culto da ruína como programa central da nossa vida.

Uma triste história


Se isto é verdade, então o núcleo central do governo perdeu completamente a cabeça. Mas isso não é o pior. Pior do que isso é, caso a história seja verdadeira, repito, a cada vez mais difícil relação que o Partido Socialista tem com a liberdade. Estamos todos gratos ao Partido Socialista pela defesa da liberdade em 1975, mas isso não lhe dá nenhum direito para agora não respeitar o mais sagrado dos bens de uma democracia, a liberdade de expressão. Mas ainda pior do que isso é a atitude do Jornal de Notícias. Todos sabemos que os portugueses convivem mal com a liberdade. Os políticos só gostam dela quando a usam a seu favor, os jornais gostam principalmente de estar do bom lado da barricada, e o cidadão comum preocupa-se pouco com essa estranha coisa de ser livre e independente. Mais uma triste história.

Tanta candura aflige



Com candura, num país em que todos somos mais ou menos cândidos, o ministro das Finanças confessa que se enganou rotundamente na previsão do défice. Mas foi um engano sem intenção. Quer dizer, enganou-se não por perversidade mas por incompetência. E continua no governo? Em última análise, apesar de ser moralmente inaceitável um engano intencional, este seria tecnicamente mais admissível e, como a política não é a moral, também seria politicamente mais compreensível.

O interesse desta história reside na difícil compatibilização entre os imperativos da moral, da política e conhecimento técnico da economia. Se Teixeira dos Santos estivesse calado talvez ainda fosse o melhor. Tanta candura aflige.

31/01/10

A comédia do insucesso escolar



O Público de hoje traz uma reportagem sobre o flop dos chamados planos de recuperação dos alunos. A reportagem merece ser lida, não tanto pelo que diz, mas por aquilo que deixa suspeitar. É evidente que os planos são burocráticos e que os professores não estão preparados para lidar com o assunto, pois essa preparação nunca lhes foi dada como deve ser. Também é verdade que não existe uma tipificação das dificuldades de aprendizagem, nem se conhece medidas testadas que permitam obviar a essas dificuldades. No entanto, tudo isso apenas pode servir para ocultar uma outra realidade.

Essa outra realidade surge claramente expressa no editorial do Público. Cito:

«Por muito que haja planos, professores destacados e escolas com computadores Magalhães, a luta a que a anterior ministra da Educação se propôs dificilmente dará grandes resultados enquanto os pais não encararem a escola como um activo imprescindível. Ou enquanto as reprovações não forem vistas como um anátema social que merece censura. Agora, que se prepara uma reflexão sobre o que correu mal, talvez valha a pena reflectir sobre se a prioridade dos planos está na escola ou no meio que a envolve.»

Se há cinco anos tivessem perguntado aos professores onde se encontra o problema essencial do insucesso escolar, eles teriam explicado que era aqui mesmo, na importância que, efectivamente, famílias e alunos dão à escola. Se essa pergunta tivesse sido feita há 10, 15 ou 20 anos, a resposta teria sido exactamente a mesma. Há muito que os professores sabem onde se encontra o problema. Há muito que o Ministério da Educação, cheio de preconceitos, acha que não deve escutar os professores e continuar a lutar contra moinhos de vento, inventar uma burocracia inenarrável, cuja finalidade prática é desmotivar os professores e condenar milhões de alunos ao insucesso escolar e na vida.

Se este Ministério da Educação continuar a acreditar que a parte de leão do problema está dentro das escolas e não fora delas, coisa que me parece ser o que vai acontecer, os professores só podem esperar o pior. Novas ondas de burocracia, novas ilusões e novas acusações. Por muito que contrarie o eduquês instalado, a burocracia ministerial e os interesses que colonizam as escolas, o que, em primeiro lugar, tem de mudar é a relação da sociedade e dos alunos com a escola. A partir daí, tudo começaria a fazer sentido. Mas quem quererá afrontar uma parte dos eleitores dizendo claramente que a sua atitude é irresponsável? É preferível que a comédia continue.

As minhas virtudes preconceituosas

(Imagem daqui)


Quando se é novo, e estamos convencidos de que não temos preconceitos, é a altura em que somos mais preconceituosos, pois julgamos os nossos preconceitos como se fossem evidências universais. Se temos a sorte de amadurecer, coisa que não acontece a muito boa gente, descobrimos que afinal essas evidências eram pouco evidentes e a sua universalidade, muito particular. Isto é meio caminho para eliminar um conjunto de preconceitos nefastos para a vida social e o respeito pelos outros, ao mesmo que tempo que se aprende a transformar outros preconceitos em virtudes individuais.


Ontem, por uma questão premente de horários, fui ver o filme de Michael Haneke, O Laço Branco, ao Corte Inglês. Quando vou ao cinema em Lisboa, por norma, vejo os filmes numa daquelas cadeias onde não existe possibilidade de comer pipocas. É um dos meus preconceitos virtuosos ou uma das minhas virtudes preconceituosas. Percebo que em muitos dos filmes que passam nas salas de cinema o melhor mesmo são as pipocas, mas o filme de Haneke não é entretenimento - horrível espanholismo -, mas um filme denso e duro, um filme que contrasta com a leveza das pipocas.


O que me surpreendeu ontem, eu que não estou habituado a salas com pop-corn, foi a idade dos pipoqueiros, gente que se aproxima perigosamente da minha idade. Não, não eram jovens modernos formatados na cultura americana. Era gente que estudou ainda no tempo em que a cultura francesa era o guia irremediável da nossa desgraça ou, quanto muito, a severa Inglaterra era o contraponto do acordeão parisiense. Como se vê, gente, ao contrário de mim, capaz de se adaptar aos novos tempos, gente despreconceituosa, capaz de aliar a leveza do que come ao peso do que vê. E eu saí do cinema, jurando que, fosse qual fosse o horário, não mais iria a uma sala pipoqueira. Por uma questão de preconceito estético.

30/01/10

Michael Haneke - O Laço Branco


Acabei de ver O Laço Branco (Das Weiss Band) do realizador Michael Haneke. Um filme magnífico situado nas vésperas da primeira Grande Guerra. O filme começa por ser uma exposição sobre o carácter precário da memória. O narrador, que participa de certa maneira da vida da comunidade onde os acontecimentos narrados se passam, reconhece, logo no início, que a memória dos factos, passados há muito, é imprecisa e que, apesar de sentir uma necessidade imperiosa de contar a história, o que sabe dela advém dessa memória vacilante e de "ouvir dizer".

Esta imprecisão memorial corresponde, porém, ao recalcamento de um conjunto de estranhos crimes ocorridos dentro de uma comunidade camponesa submetida quase feudalmente a um senhor. Esses crimes, nunca oficialmente desvendados, são obra de um conjunto de crianças. A subterrânea perversidade das crianças surge em contraponto com a subjectivação das normas morais dentro de uma comunidade protestante. O laço branco não é outra coisa senão o símbolo dessa subjectivação. No fundo, o filme trata do confronto entre a violência do bem, aquela que se exerce sobre as subjectividades infantis para a interiorização da norma moral, e a violência do mal que, dissimuladamente como os adultos, as crianças praticam.

Que o pastor, o mais zeloso dos moralistas, se recuse a encarar a perversidade dos próprios filhos, acaba por tornar evidente a cumplicidade entre a regulação protestante das consciências e o mal. Tudo isto, contudo, se dissolve na irrupção da guerra. Diria que se está perante um filme da contra-reforma, onde a subjectividade individual acaba por ser a fonte de uma perversidade oculta, mas que se manifesta continuamente. Essa falência da moral protestante perante a perversidade natural do homem fica em suspenso com o advento da Guerra de 1914-18. Nós que sabemos o que veio a seguir, percebemos como é que esse mal recalcado, na Alemanha, se veio a manifestar com o advento do nazismo. Um filme a ver.

29/01/10

A utopia conservadora


O Zé Ricardo faz uma citação de um belo texto de Michael Oakeshott sobre a natureza do ser conservador em política. No essencial, estou de acordo com a visão conservadora de Oakeshott. No fundo, ela não é mais do que a sábia prudência e a justa medida dos gregos. O curioso, porém, é que a crítica da utopia que está presente no texto e no pensar do filósofo anglo-saxónico não deixa de ser ela mesma utópica. Quando diz "Ser conservador, portanto, é preferir o familiar ao desconhecido, preferir o experimentado ao não experimentado..." refere apenas um ideal. O grande problema é que, mesmo na política, há momentos em que o não familiar e o desconhecido se apresentam perante os homens. Nesses momentos, não há experiência que os valha. Terão, mesmo contra vontade, de trilhar o não-experimentado. Há em tudo o que é humano uma caducidade. Por isso, também as instituições se tornam obsoletas e dão lugar a outras, muitas vezes pelo amotinamento geral.

Faz sentido o pensamento conservador como desconstrução do desejo revolucionário, do querer revolucionar as instituições que ainda são sólidas e merecem conservação. Mas há um outro lado. As revoluções não nascem do desejo dos revolucionários. Elas são como um terramoto, uma espécie de acontecimento natural, onde o não familiar reclama o não-experimentado. A sua facticidade é ultrajante. Em primeiro lugar, ultraja os defensores da velha ordem (como foi possível 1789, ou como foi possível ou o 5 de Outubro, ou... ou...?). Mas ultraja, também, os supostos revolucionários. As revoluções, como muito bem viu de Maistre, conduzem mais os homens do que estes a elas. Nestes momentos, o ideal conservador é puramente utópico. É inútil, nesses momentos de excepção, tentar parar o carro (desejo conservador) ou conduzi-lo (desejo revolucionário).

Em certas alturas históricas que nunca escolhemos, só o não-conhecido possibilita encontrar um princípio de ordem para o caos natural que impera nas relações sociais. Será esse princípio de ordem totalmente desconhecido que acabará, com o tempo, por se tornar no familiar e no conhecido que vale a pena conservar.

Jornal Torrejano, 29 de Janeiro de 2010


Já está on-line a edição desta semana do Jornal Torrejano. Um clique aqui e aparece .

28/01/10

O livro do entardecer 30

uma cor de seda na voraz voz da verdade
animais sem eira pelas praças
carros suspensos a balançar ao vento
tudo crepita no teu olhar

deixas poisar cada pesadelo
no escuro da noite
paisagens azuis sulfurosas
brancas a arder no peito

as mãos entregam-se à urgência
na clareira onde tudo resplandece

frases desconexas o sangue exausto
a espádua rasgada da respiração crepita
como uma alma ressuscitada que desfalece

Diana Krall - Este seu Olhar

Humilhações


Falando em humilhações, tenho lido muitas coisas, li Platão e Aristóteles, li Kant, Fichte, Schelling, Hegel, Nietzsche, Husserl e Heidegger, e mais não sei quantos grandes, pequenos e médios filósofos. Mas esta gente nunca me humilhou como o faz Herberto Helder. Na verdade, nunca me humilhou. Nem os poetas, nem os romancistas, por excessivos que sejam. Só há uma autora que me causava tamanha humilhação. Eu lia-a e, por vezes, ativarava com violência os livros contra a parede ou para o chão e calcava-os, depois pegava neles e retornava à leitura. Era uma leitura física. Deixei de a ler, não sei se retornarei. Porque a humilhação que nela se sente não é apenas a da escrita, da composição, a do excesso de bem escrever. É uma humilhação que ultrapassa o literário e até o social. É uma humilhação de natureza ontológica. O leitor é um verme e eu, enredado no jogo social daquelas narrativas, sentia-me um verme. O nome dela, Agustina Bessa-Luís. Peço desculpa ao Saramago e ao Lobo Antunes e a todos quanto..., mas literatura a sério é a da Senhora D. Agustina.

Exercícios penitenciais


Há dias que não temos nada para dizer. Esses, porém, não são os piores. Há outros dias que descobrimos que deveríamos estar calados. Talvez calar-me seja o maior exercício de respeito por mim e pelos outros. Seria, no mínimo, um exemplo. Tanto ruído. Mas esses dias ainda não são os piores de todos. Para mim, hoje, é um dos piores dias. Estive a ler Herberto Helder e, sempre que leio Herberto Helder, é um dia mau. Aquela poesia é tão boa, tão perfeita, tão exacta, que parece tudo ter ficado escrito para a eternidade. A poesia de Herberto Helder é perversa, esmaga-nos com o prazer que dá, esmaga-nos com a sua exactidão lexical. Na poesia de Herberto Helder, a gramatica é terrível, pois não admite excepções, mesmo que um miserável substantivo seja um advérbio. Ler Herberto Helder é um exercício feroz de humilhação. Não, não nos purifica, não nos lava a alma. Pelo contrário, aquela poesia rouba-nos a alma. Quando lemos Herberto Helder ficamos desalmados. Aquele bocadinho de alma que ainda tínhamos é desbaratado, queimado, nem o diabo a quer. Herberto Helder é um inimigo do diabo, pois desfaz as almas que o maligno queria acumular para o fogo eterno. Quando lemos Herberto Helder, e na humilhação de o lermos, ainda queremos ler mais e mais e sem parar. Há poetas, daqueles poetas verdadeiros, que se proíbem de ler Herberto Helder. Eu leio-o, pois eu não sou um poeta dos verdadeiros nem dos falsos. Mas esses dias de leitura são penitências sem fim. Quando leio "As crianças enlouquecem em coisas de poesia", eu sou essa criança a enlouquecer. Enlouquecer, nestes dias, é uma forma de penitência. O penitente tira sofrimento do prazer. O leitor de Herberto Helder não passa de um penitente, de um penitente que quer estar calado e não consegue.

27/01/10

O livro do entardecer 29 - comércio de afectos

olhei agora para as ruas da cidade
gatos e homens dormiam
pelos bancos
perdidos do mundo
esquecidos de si

são imagens de papel sem história
respiram a vida a que ninguém
os chamou
signos da ausência
a que o comércio de afectos
sempre os habituou

Joan Baez - Guantanamera

Aristóteles - Administrar uma casa


A pessoa que tiver intenção de administrar uma casa [hoje, pode entender-se por casa qualquer organização] de forma correcta tem de estar familiarizada com os lugares de que se vai ocupar, ser dotada, por natureza, de boas qualidades e de possuir, por vontade própria, sentido de trabalho e de justiça. Ora, se algum destes elementos lhe faltar, irá cometer erros frequentes na empresa a que meteu mãos. [Aristóteles, Os Económicos, 1345b7 - 11]
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Uma pequena lição de Aristóteles sobre a figura, para utilizar a linguagem actual, do gestor. Nesta pequena lição, pensa-se, porém, tudo o que é essencial. Em primeiro lugar, a vocação, isto é, o ser dotado por natureza de qualidades para o cargo que se desempenha. Vocação não significa aqui o mero desejo de ordenar e dominar os outros, mas a posse inata, nascida com a pessoa (por natureza), de qualidades que visam o bem da organização e a realização das finalidades a que esta se propõe. Não basta, todavia, a vocação, as boas qualidades naturais. São precisas mais duas coisas. Por um lado, o conhecimento (estar familiarizada com os lugares de que se vai ocupar). Como é peregrina a ideia de que um gestor gere bem qualquer coisa, desde uma empresa de sapatos até um hospital ou uma escola. Para administrar uma organização é preciso conhecê-la e aos fins a que ela se propõe. Mas qualidades naturais e conhecimento ainda não são suficientes, é preciso uma vontade boa. Como se manifesta esta vontade boa? Pela posse do sentido de trabalho e do sentido de justiça. Veja-se que não basta trabalhar muito e bem. É preciso ser justo no exercício do poder gestionário. A justiça implica o reconhecimento do contributo de todos os membros e a distribuição de encargos e recompensas de acordo com esse contributo. Se algum destes elementos faltar, então os erros na condução da organização serão frequentes. Ora, serão os nossos gestores, directores, administradores, públicos e privados, detentores de todas estas qualidades? Que importância darão eles, na prática e não na sua mera opinião, por exemplo, à justiça? A sociedade portuguesa está numa situação muito difícil. Parte substancial dessa dificuldade não advirá do facto dos nossos dirigentes não satisfazerem esta tabela de valores aristotélica? Não precisará o país de começar por reformar a sua classe dirigente a todos os níveis?