20/01/10

A condecoração de Santana Lopes


Uma questão de justiça, disse o Presidente Cavaco. Mas também disse que é cumprir um dever e uma tradição. Quem leu Kant sabe muito bem o que significa esse dever, como ele deve contrariar a inclinação natural. Mas não é apenas esse conflito entre o dever e a inclinação natural que é significativo na atitude Cavaco Silva. O Presidente cumpre a regra de condecorar aqueles que tenham "terminado as funções de que foram titulares e quando já não exercem quaisquer funções políticas de destaque como deputado ou dirigente partidário”. Nas palavras de Cavaco há um alívio (ele já terminou as funções políticas) e um desejo (já não exerce, subliminarmente espera que não venha a exercer, funções político-partidárias). Duvido que Santana Lopes tenha apreciado a condecoração.

19/01/10

O livro do entardecer 22

e tudo crescia para além da esperança
o caminho costumado que te levava
um raio de sol na poeira
o cavalo na saliência do dia

se a primavera começava
esmagavas nas mãos as flores
e sentada de coração escalavrado
esperavas o fim do estio a chegar

Dave Brubeck - All The Things You Are - 1972

DA JANELA


Este é quase o cabeçalho de um blogue que estou para trazer aqui há muito, e que, sem qualquer razão, não o tenho feito. Quase o cabeçalho, pois falta-lhe o lettring (não o consegui copiar, só veio a imagem) que diz o nome do blogue, "DA JANELA". Os proprietários são marteodora e PR. Por acaso sei quem eles são, mas não os delato à comunidade. Bem, o que tem o blogue de especial? O que lá está. Excelente fotografia. Para confirmar a verdade do que digo, baste ir e ver. Vai ficar visitante.

Cavaco e a fé na educação


Uma questão de fé ou de pura ideologia. O Presidente da República, no que deverá ser acompanhado por um séquito sem fim e de todas as cores, acha que a "educação é um dos maiores investimentos que nós podemos fazer na nossa juventude", e acrescenta: "É um investimento no progresso do nosso país e um dos investimentos mais rentáveis que uma nação pode fazer”.

Já em 1979, o historiador e crítico social Christopher Lasch escrevia, em The Culture of Narcissism: "A extensão da escolarização formal a grupos anteriormente dela excluídos é um dos desenvolvimentos mais surpreendentes na história moderna. A experiência da Europa Ocidental e dos Estados Unidos nos últimos 200 anos sugere que a educação de massas fornece um dos principais fundamentos do desenvolvimento económico, e por toda a parte, no resto da mundo, os modernizadores tentaram copiar a proeza ocidental, levando a educação às massas. A fé nos prodígios da educação provou ser uma das mais duráveis componentes da ideologia liberal, facilmente assimilada por ideologias no resto hostis ao liberalismo. No entanto, a democratização da educação pouco fez para justificar esta fé. Nem melhorou a compreensão popular da sociedade moderna, elevando a qualidade da cultura popular, nem reduziu a separação entre riqueza e pobreza, que permanece tão grande como sempre. Por outro lado, contribuiu para o declínio do pensamento crítico e para a erosão dos padrões intelectuais, forçando-nos a considerar a possibilidade de que a educação de massas, como os conservadores sempre argumentaram, é intrinsecamente incompatível com a manutenção da qualidade educacional." [Christopher Lasch (1991). The Culture of Narcissism - American Life in An Age of Dimishing Expectations. New York: Norton, pp. 125]

Embora, Lasch tenha uma aproximação ao problema menos ingénua do que os conservadores, não deixa de apontar um problema que ninguém, literalmente, quer ver e muito menos discutir. Será que há uma correlação entre o crescimento da escola de massas e o desenvolvimento civilizacional, nomeadamente o crescimento económico? Cavaco, como Sócrates e todos os outros que fremem e salivam quando se fala de educação, diz aquilo que o senso comum instalado diz e quer ouvir. Com isso, porém, evita-se enfrentar o problema real, aquele que está ligado à falência dos sistemas educativos, ao crescimento do abismo entre ricos e pobres, à morte do pensamento crítico e da alta cultura, isto é, à morte do espírito.

18/01/10

B.B King / Eric Clapton - Come Rain or Come Shine

Uma dupla de peso.

Eça de Queiroz - Não querem ideias...


Passei as pontes, que separam em Paris o Temporal do Espiritual, mergulhei no meu doce Bairro Latino, evoquei, deante de certos cafés, a memoria da minha Nini; e, como outr'ora, preguiçosamente, subi as escadas da Sorbonne. N'um amphitheatro, onde sentira um grosso susurro, um homem magro, com uma testa muito branca e larga, como talhada para alojar pensamentos altos e puros, ensinava, falando das instituições da Cidade Antiga. Mas, mal eu entrára, o seu dizer elegante e límpido foi suffocado por gritos, urros, patadas, um tumulto rancoroso de troça bestial, que sahia da mocidade apinhada nos bancos, a mocidade das Escolas, Primavera sagrada, em que eu fôra flôr murcha. O Professor parou, espalhando em redor um olhar frio, e remexendo as suas notas. Quando o grosso do grunhido se moderou em susurro desconfiado, elle recomeçou com alta serenidade. Todas as suas ideias eram frias e substanciaes, expressas n'uma lingoa pura e forte; mas, immediatamente, rompe uma furiosa rajada de apitos, uivos, relinchos, cacarejos de gallo, por entre magras mãos, que se estendiam levantadas para estrangular as ideias. Ao meu lado um velho, encolhido na alta gola d'um macfrelane de xadrezes, contemplava o tumulto com melancolia, pingando endefluxado. Perguntei ao velho:

- Que querem elles? É embirração com o professor... é política?

O velho abanou a cabeça, espirrando:

- Não... É sempre assim, agora, em todos os cursos... Não querem ideias... Creio que queriam cançonetas. É o amor da porcaria e da troça. [Eça de Queiroz, A Cidade e as Serras]

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A Cidade e as Serras é um livro póstumo de Eça de Queiroz, publicado em 1901. Esta aventura de Zé Fernandes na Sorbonne, ainda, por aqueles dias, um dos templos mais sagrados do saber, deve corresponder ao Zeitgeist do fim do século. Quando hoje nos queixamos dos nossos alunos, talvez nos falte esta perspectiva que a história, nem que venha através do romance, dá. Talvez Eça assinale um momento em que na Europa se opera uma cisão entre as novas gerações pertencentes às elites intelectuais e o saber. «É sempre assim, agora, em todos os cursos... Não querem ideias...» Com a democratização do ensino, democratizou-se a pateada e o não querer ideias. Ou talvez o problema seja eterno, um inultrapassável conflito entre o saber e as hormonas, nomeadamente as masculinas.

17/01/10

O livro do entardecer 21 - o silêncio

o silêncio é um verão antigo
onde se guarda a memória
daquilo que então amámos
o olhar que se cruza contigo
um rosto que não teve história
a voz com que cantámos

Dr. Luiz Goes - Fado da Despedia

Talvez um dia destes explique o motivo desta queda (veja-se mais abaixo o que se diz acerca da queda) no fado de Coimbra.

Herdade de Cadouços


Não tema o ocasional leitor que este blogger se vá arvorar em especialista de vinhos. Não é, não vai. Mas, confesso, sou um diletante, mero amador sem formação técnico-científica, coisa hoje sempre necessária para falar de vinhos, para além da formação em retórica. Gosto de vinhos, de bons vinhos, como milhões de pessoas. Nos últimos tempos tenho-me tornado um adepto, cada vez mais fervoroso, dos vinhos do Ribatejo. Sei que as condições edafoclimáticas desta província não se podem comparar com as do Douro, mas os projectos vinícolas ribatejanos são cada vez mais interessantes.

Este vinho, por exemplo, devido ao nome que ostenta, tinha todas as condições para não ser por mim comprado. Há coisas que me recuso a experimentar por causa do nome que ostentam ou do rótulo. Preconceitos meu. Mas numa visita gastronómica à Herdade de Cadouços (Bemposta, Abrantes) bebi um dos vinhos da Herdade, o Memorium (na altura, devido ao tal preconceito, recusei este Yes We Can). Foi uma belíssima experiência. Ora, à saída da Herdade, há uma loja de vinhos e comprei vários exemplares dos produtos da casa, o Cadouços 2007 (7 €), o Harmony (14 €), o Memorium (17 €)e o famigerado Yes We Can (17 €) [preços na herdade, embora se comprar não sei quantas garrafas deste e daquele sai a um pouco menos. No restaurante da herdade, o vinho está ao mesmo preço]. Hoje abri uma garrafa do Yes We Can. Esqueça-se o nome, a identidade com o slogan de Obama, esqueçam-se os preconceitos, e beba-se lentamente, bem lentamente. Tanto o Memorium como o Yes We Can passam o exame deste pobre examinador com uma bela nota. Veremos os outros.

A queda


A nossa é uma época de imagens, e nos últimos vinte anos duas imagens deram forma à nossa compreensão dos tempos em que vivemos. A primeira foi a da queda do muro de Berlim e a segunda a do colapso das torres do World Trade Center. Estas estruturas não eram meros artefactos; era também símbolos profundamente gravados no espírito (psyche) público. O primeiro era o símbolo do totalitarismo e da Guerra Fria, a confrontação entre o mundo livre e o mundo escravizado; as segundas, o símbolo de um mundo liberal unificado pelas forças da globalização. A queda do muro de Berlim originou a crença num futuro liberal de paz e prosperidade, que fazia reviver a fé no progresso humano, que os catastróficos eventos da primeira parte do século XX quase tinha extinguido. O colapso das Twin Towers, por contraste, acendeu o medo de um novo fanatismo furioso que ameaça as nossas vidas e civilização de uma forma especialmente insidiosa. [Michael Allen Gillepsie (2008). The Theological Origins of Modernity. Chicago and London: The University of Chicago Press - Kindle Edition, Loc. 19-24]

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Não é o conteúdo substantivo da tese de Gillepsie que me interessa aqui, mas a sua referência às imagens. Estou de acordo que as duas imagens marcantes e que, de certa forma, fecham o século XX, e abrem o século XXI, são as referidas pelo autor. Aquilo que dá que pensar, no entanto, não são as crenças e as formas de existência a que essas imagens se ligam, mas as próprias imagens. Quando falamos num mundo de imagens e no facto do nosso mundo ser um mundo de imagens fazemo-lo, ainda que inconscientemente, para fugir à própria imagem. Assim, ela é signo ou símbolo de qualquer outra coisa dada na nossa existência social e histórica (o fim do comunismo ou do optimismo liberal). Isso tranquiliza-nos. Mas sob essa capa escondem-se outras camadas de sentido.

Estas imagens, que em aparência são ligadas a realidades diferentes, referem-se a uma mesma coisa: a queda. O século XXI começou, assim, sob o símbolo da queda. A queda é um velho símbolo presente na tradição judaico-cristã, um símbolo inaugural. A queda de Adão e Eva, a expulsão do paraíso, a ruína física e a degradação ontológica. Cabe perguntar, então, o que significa uma época que tem, ou que escolhe, como seu símbolo a queda? Por analogia, sabemos que é uma época de expulsão dos nossos paraísos, de ruína material e de degradação da nossa própria condição ontológica.

Na queda do muro de Berlim vimos, ansiosamente, o símbolo da liberdade. Não menos ansiosamente, pensámos na queda das Twin Towers um acto de maldade e perversidade extremas. Mas tudo isso são conversões morais que evitam olhar de frente o acontecer, a pura queda e a sua conexão com a espessa experiência da humanidade consubstanciada na simbologia religiosa da queda. Em Berlim e em Nova Iorque é um mundo que rui, por sinal o mesmo, apesar das aparências em contrário, o mundo da modernidade e do Iluminismo. Tudo isso, porém, está longe de significar uma libertação e uma emancipação. Se nos deixarmos instruir pelo velho símbolo da queda, talvez comecemos a entrever o significado desses acontecimentos.

16/01/10

Dan Dennett e os 'memes' perigosos


Uma excelente conferência do filósofo Dan Dennett, mesmo que a terapia que se desenha para a propagação de ideias perigosas possa ser ela mesmo fonte de perigo. Pode consultar a página de Daniel Dennett aqui.

Eça de Queiroz - Deixar a Europa


Acenamos um longo adeus áquelle alegre Marizac [Zé Fernandes e Jacinto, no dia em que viajariam para Portugal]. E recolhemos sem que Jacintho emergisse do silencio enrugado em que se abysmára, com braços rigidamente cruzados, como remoendo pensamentos decisivos e fortes. Depois, em frente do Arco de Triumpho, moveu a cabeça, murmurou:

- É muito grave, deixar a Europa! [Eça de Queiroz, A Cidade e as Serras]

Eça de Queiroz - Os tubarões do mar humano


Ah, os Ephrains, os Trèves, os vorazes e sombrios tubarões do mar humano, só abandonarão ou affrouxarão a exploração das Plebes, se uma influencia celeste, por milagre novo, mais alto que os milagres velhos, lhes converter as almas! O burguez triumpha, muito forte, todo endurecido no peccado - e contra elle são impotentes os prantos dos Humanitarios, os raciocinios dos Logicos, as bombas dos Anarchistas. Para amollecer tão duro granito só uma doçura divina. Eis pois esperança da terra novamente posta n'um Messias!... [Eça de Queiroz, A Cidade e as Serras]
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Para contemplar a ortografia do tempo e a prédica anti-burguesa do Zé Fernandes.

15/01/10

O livro do entardecer 20

agora o vento empurra a chuva
fá-la crescer contra a minha vidraça
e eu sou todo nessa chuva que cresce
quase um homem quase uma farsa

três vezes a chuva sobre mim cantou
e outras tantas me adormeci nela
água não é o que oiço contra a janela
mas o deus que um dia me sonhou

Pedro Caldeira Cabral - Balada da Oliveira

Para acompanhar a nostalgia que a chuva traz à noite.

As coisas técnicas



Esta belíssima imagem de propaganda a um transístor portátil da Grundig (1958) foi vampirizada de o Dias Que Voam, um blogue que merece bem estas vampirizações, para além de inúmeras visitas e leituras. Aliás, há lá outro anúncio notável da Grundig (1957), uma verdadeira lição de sociologia da época. Este transístor seria então, segundo a publicidade, uma jóia. Pequena, mas autêntica. Se pela autenticidade a Grundig nos assevera o seu carácter verdadeiro, oposto a uma falsificação, pela associação com uma jóia faz evocar em nós o que é belo e aquilo que resiste ao tempo, aquilo que é eterno.

Eis aqui, porém, a mentira da técnica. As coisas técnicas, na sua verdade, podem ser belas, e num momento apenas, mas não eternas. A beleza delas decairá rapidamente, para não falar no facto de serem produzidas para se tornarem obsoletas. Por exemplo, eu olho quase como a rapariga do anúncio para o meu e-book Kindle, mas sei já que ele representa o passado. A beleza que ainda entrevejo nele e o prazer que me dá na suavidade da leitura que me proporciona serão em breve ultrapassados por um novo objecto que se oferecerá imperativo, pelo saber da técnica e do design, à minha voluptosa faculdade de desejar.

Afinal, a social-democracia...


Aprender com a Europa é um artigo, de Paul Krugman, que tonifica aqueles que acham que o pacto social-democrata europeu é o que de melhor se poder almejar ao nível da vida política. A ler com atenção. Krugman, economista (Nobel em 2008) e professor da Universidade de Princeton, dirige-se aos conservadores americanos mostrando que, contrariamente ao que propagam, a Europa social-democratizante não está pior do que os EUA. Leitura também muito útil para os nossos clubes liberais. Krugman pode e merece ser lido todas as semanas no ionline.

Preparemo-nos para o pior que há-de vir


Tenho de reconhecer talento político no acordo alcançado por Isabel Alçada. Conseguir que a FENPROF o assinasse é obra. Talvez tenha razão em dizer que a sociedade acolheu bem o "virar de página" no sector da educação. No entanto, e apesar da simpatia e da gentileza da senhora Ministra, estão criadas as condições para que o pior se propague ainda com mais força.

Explico-me. O problema principal da educação não foi resolvido com o acordo. Mais, o acordo pouco ou nada contribui para a sua resolução. Serve para pacificar o sector e repõe alguma justiça na relação da sociedade portuguesa com os professores. Mas o problema número um da educação, contrariamente ao que pensava o anterior governo, reside nos alunos (não em todos, pois há excelentes alunos), na sua cultura e na cultura da sociedade portuguesa perante o trabalho, o esforço e o rigor. Por melhor que seja um professor, se o aluno não quiser estudar e trabalhar, os resultados não aparecerão, a não ser por prestidigitação, como tornar os exames tão fáceis que...

Agora que tudo está pacificado, vai voltar o tempo das ilusões, nas quais os professores, embalados pelas concessões feitas, serão cúmplices e vítimas. Que ilusões são essas? Que basta nós (refiro-me aos professores) querermos muito para que as nossas crianças, jovens e respectivas famílias deixem de ser o que são e de possuir a cultura que possuem. Que basta a acção do professores para os alunos sentirem-se motivados e passarem a estudantes exemplares. Ouvem-se os ventos rosnar. A tormenta da burocracia e do eduquês espreita, de novo, atrás da porta. Gostaria muito de estar enganado.

Jornal Torrejano, 15 de Janeiro de 2010


On-line está a edição semanal do Jornal Torrejano.

14/01/10

O livro do entardecer 19 - paixões

as paixões não são incêndios na planície
nem de labaredas se tecem os corpos
apenas um frio de fogo chega
sob o rumor da folhagem tocada pela hera

trazem uma nostalgia de movimento
para fugir à eterna imobilidade que as espera
e assim se entregam ao desmoronamento
como se a vida não fora mais que queda

Rabih Abou-Khalil - Ma Muse M'amuse

As graves dificuldades das finanças públicas

As graves dificuldades por que passavam as finanças públicas constituíram um tema recorrente, sobretudo nas Cortes do período final do reinado, entre 1475 e 1478. Nestas últimas a Coroa pediu um novo empréstimo, no valor de 80 milhões de reais, considerado «o maior pedido de toda a Idade Média portuguesa». Era o preço a pagar para garantir o contentamento e a deferência da nobreza face ao rei, para pagar a desventura militar na Guerra de Sucessão em Castela, para sustentar a manutenção das praças conquistadas no Norte de África. Não havia tesouro régio que pudesse aguentar tanta despesa, sobretudo num reino que nunca primara pela abundância de recursos naturais no seu território. [Bernardo Vasconcelos e Sousa, (2009). "Idade Média", in Rui Ramos, Bernardo Vasconcelos e Sousa e Nuno Gonçalo Monteiro, História de Portugal. Lisboa: A Esfera dos Livros, pp. 161]

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Não estamos a falar dos nossos dias, mas parece. Então, como agora, tínhamos os nossos elefantes brancos (intromissão na Guerra de Sucessão em Castela e manutenção das praças, que saíam bem caras, conquistadas em Marrocos). A necessidade de refrear os ímpetos dos clientes fazia o resto. Façamos, mais uma vez, o elenco. Um poder central frágil com necessidade de se proteger, poderes senhoriais clientelares vorazes, apesar da sua fragilidade, e um excesso de imaginação que nos transporta para aventuras que a razão não recomendaria. Os resultados estão à vista: as inacabáveis dificuldades das finanças públicas.

Terramotos e pensamento



O terramoto de 1755 em Lisboa, devido às suas funestas consequências, teve uma influência enorme sobre o pensamento filosófico europeu da altura. A desmesura do acontecimento dava que pensar e servia mesmo para abalar certos fundamentos de algumas filosofia então em voga. Não irá acontecer o mesmo com recente terramoto no Haiti, como aliás não aconteceu com outros anteriores. O terramoto do Haiti comove-nos e gera em nós compaixão, mas não abala a nossa maneira de pensar. Curiosamente, é a expansão e rapidez dos media bem como as explicações científicas que nos protegem desse acto de pensar.

Os media, ao mostrar continuamente as cruas imagens de todas as tragédias que se sucedem, evacuam o carácter excepcional de cada uma delas e transformam-nas no hábito e numa norma peculiar - o que acontece é aquilo que é natural acontecer. A ciência, por seu turno, ao explicar as causas materiais do acontecimento tranquiliza o espírito. A nossa comoção e a nossa compaixão não nos perturbam, nem levam ninguém a pensar, pois tudo era expectável, pelo menos é aquilo que sentimos quando ouvimos, a posteriori, as sábias palavras dos sismólogos. O espanto perante o acontecer, aquilo que leva ao pensamento, está morto, mesmo que a fotografia que apresentamos mais acima dê demasiado que pensar.

13/01/10

O livro do entardecer 18 - o filósofo

ao filósofo cabe-lhe a tarefa do infinito
sobre os seus ombros – como se fora um atlas –
repousa a negação de tudo o que acaba
e na flor não vê pétalas nem o fruto a vir
apenas a ideia que lá não está

cego pela luz do sem fim
caminha nesta terra sem pátria ou lar
e ali vai arguindo o arconte da humanidade –
dissolve os diurnos filhos da velha árvore
na névoa invisível do esconso meditar

Patxi Andion - Samaritana

Por vezes, embora não muitas, tenho uns ataques de nostalgia e o resultado é querer ouvir coisas que já ninguém (bem, isto é um exagero) ouve. Hoje deu-me para o Patxi Andion. Há coisas piores na vida.

A irmandade europeia


Por mais que as nações europeias possam estar inimizadas, elas têm, porém, um especial parentesco interno, no plano do espírito, que a todas atravessa e que sobreleva as diferenças nacionais. É qualquer coisa como uma irmandade, que nos dá, nestes círculos, a consciência de um solo pátrio. Isto prontamente sobressai assim que queiramos compreender, por exemplo, a historicidade indiana, com os seus múltiplos povos e formações culturais. Neste círculo, há de novo unidade de um parentesco familiar, mas que é estranho para nós. Por outro lado, os Indianos vivem-nos como estranhos, e só entre si se vivem como confrades. [Husserl (2006). "A Crise da Humanidade Europeia e a Filosofia", in EUROPA: CRISE E RENOVAÇÃO, trad. Pedro M. S. Alves. Lisboa: CF/UO, pp. 18]
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Eis um dos problemas centrais que se colaca à questão da entrada da Turquia na União Europeia. Se o problema fosse meramente político ou mesmo religioso, ainda seria relativamente fácil resolvê-lo. Mas, por detrás da Europa económica, política e mesmo religiosa, existe uma concepção específica de humanidade e de, para falar à maneira de Heidegger, de ser-no-mundo que é especificamente europeia, isto é, ocidental. Husserl sublinha essa especificidade aquilo que a Filosofia e a atitude teorética introduziram no mundo e cunharam, assim, um modo de ser humano diferenciado de outros modos de ser. Mais do que a questão religiosa, pois esta é apenas a manifestação de uma outra coisa, é a diferença do telos (finalidade) da própria humanidade que separa a cultura turca (não algumas elites) da europeia. A Europa é uma concretização do homem teórico, do espírito da Filosofia, a concretização de um projecto de crítica radical da tradição, enquanto a Turquia faz parte de uma humanidade que possui um telos (finalidade) diferente, um telos que, contrariamente ao espírito da Filosofia, vinca a tradição e guarda-se, tanto quanto pode, do espírito crítico.

Convém que se veja para além daquilo que são os interesses aparentes, os interesses económicos e os interesses políticos, que regem o presente momento. O que separa os europeus dos turcos não é a religião, mas a Filosofia ou, melhor, a efectiva inexistência da Filosofia no lado turco.

Educação e a falácia de Vital Moreira


Como eu não frequento o blogue e sou um pouco retardatário em muitas coisas, só hoje, e por um mero acaso, descobri este post do Prof. Vital Moreira, no Causa Nossa. Confessa ele que está fora do coro que aprova o acordo entre a Ministra da Educação e os Sindicatos de Professores. Um direito inalienável, reconheço eu. Consta também, e isto não é ironia, que é um brilhante constitucionalista e professor de Direito. Será. No entanto, parece-me bem frágil no domínio da lógica. Diz ele: «Com o acordo, quase todos os professores chegam ao topo da carreira com o decurso do tempo, mesmo os que nunca passem do mediano e corriqueiro "bom" na avaliação, o que não tem paralelo em nenhuma outra carreira no sector público (muito menos no privado evidentemente). É como se todos os militares tivessem garantida a chegada a general, ou todos os funcionários públicos a subida a assessor principal.»

Quando se raciocina por analogia é necessário que aquilo que é comparado, e que funda a analogia, seja comparável. A falácia do Prof. Vital Moreira reside em estabelecer uma analogia entre a carreira de professor e a carreira da função pública ou a militar. Nestes casos, a diferenciação na carreira deve-se, efectivamente, a que essas pessoas vão desempenhando funções diferentes a que cabem responsabilidades diferentes e compensações diferentes. Na função docente, por muito estranho que pareça a um professor universitário, desempenha-se do início ao fim da carreira a mesma função. Sou professor há 25 anos e aquilo que me é distribuído como trabalho é praticamente o mesmo que me era atribuído quando comecei a leccionar. As diferenças que eventualmente existam não justificam uma carreira à parte. Estou desconfiado que o Prof. Vital Moreira deve ter alguma noção disto, e só por mera distracção se deixou envolver em tão grosseira falácia.

Por que razão existe uma carreira tão longa? Não deveriam todos ganhar o mesmo? Para além da compensação da experiência, o que determina essa espécie de evolução salarial, a que de forma infeliz se chama carreira docente, é os fracos recursos económicos do país. O que seria justo, dentro daquilo que se faz nas escolas, é que em vez de 10 patamares existissem uns 3, e que um professor atingisse o topo da carreira relativamente cedo.

Mas o Prof. Vital Moreira faz parte, ou parece, fazer parte daqueles que, muito preocupados com o défice orçamental, acham que são os professores do ensino não superior que o deverão pagar. Mas para que a sua preocupação com o défice tivesse sentido e pudesse ser escutada pelos professores do ensino inferior, ele deveria defender uma reorganização da carreira dos universitários com efeitos idênticos, embora proporcionais, àquela que, com o anterior governo, se abateu sobre os professores não superiores. E para ganhar credibilidade, deveria propor um corte do seu salário idêntico ao do primeiro-ministro irlandês. Assim, mesmo apesar da falácia no raciocínio analógico, eu seria capaz de entender o Prof. Vital Moreira. É desagradável ter de tratar de questões de mercearia, mas às vezes não pode deixar de ser.

Morte lenta


Devido à baixa competitividade, a economia portuguesa enfrenta uma ameaça de morte lenta, diz a agência de rating Moody's. Isso, porém, não obsta que a economia não vá crescer. Vai, mas os salários reais vão diminuir e o desemprego vai aumentar. No meio de toda esta trapalhada, a dívida das pessoas e do Estado não pára de crescer. Por que somos pouco competitivos? Porque gostamos de viver bem acima daquilo que produzimos. A nossa entrada para a União Europeia não significou, do ponto de vista da psicologia social, que iríamos trabalhar, estudar e planear a vida como as grandes economias europeias. Significou apenas o sentimento de ter direito a viver como os europeus, sem que isso representasse ter o dever de trabalhar como eles, a começar pelas nossas castas políticas e económicos e a acabar no comum dos cidadãos. Estes vinte e tal anos não mudaram o que havia de pior em nós, apenas serviram para mascarar esse pior, o que significou, na prática, uma acentuação até ao desespero do mal que já nos corroía. Se não nos cuidarmos, a morte lenta em breve se tornará em morte súbita.

Google vs China


Esta história da colisão da Google com os dirigentes políticos chineses é, a diversos títulos, instrutiva. Em primeiro lugar, refira-se que a Google deveria muito bem saber ao que ia quando decidiu instalar-se na China. Para tal pactuou com a censura. O mercado chinês é de tal maneira apelativo que as grandes empresas ocidentais, sempre tão prontas a falar de liberdade, esquecem de imediato o seu amor por ela, quando se trata de se instalarem na China. Em segundo lugar, a China tenta manter, e até agora com êxito, o equilíbrio entre a liberdade de iniciativa empresarial e a mais férrea censura no campo político e ideológico. Direitos do homem e direitos dos trabalhadores são coisas, talvez demasiado ocidentais, que não incomodam os dirigentes comunistas chineses. Por fim, torna-se, mais uma vez, evidente que a liberdade empresarial e a iniciativa privada não conduzem à liberdade nem são dela sintomas, como advoga o credo liberal.

12/01/10

O livro do entardecer 17 - livros

amo certos livros pela textura do papel
são frutos de seda ao tocarem os dedos
ou parecem navios que chegam ao cais
sobre a escura inquietação das águas

aqueles que mais amo são estátuas
hirtas figuras de papel de pedra –
olham-me da lonjura da estante
pedindo que os deixe no sono eterno

assim vagueio entre os meus livros
como se passeasse à tarde num jardim
sento-me e acaricio páginas como rosas
e adormeço sob o olhar que vela por mim

Sheila Jordan & Steve Kuhn Trio - The Touch of Your Lips

A rede clientelar

A prodigalidade afonsina para com os nobres tinha os seus custos. As despesas do erário régio para pagar tenças e demais rendas à nobreza atingia valores astronómicos, destinados a manter uma vasta rede clientelar que não podia deixar de ver em Afonso V um monarca útil e compensador. A nobreza, sobretudo a grande nobreza, estruturava-se cada vez mais pela sua posição relativa face à Coroa, pelos laços de parentesco entretecidos com a família real, pelo montante das tenças que recebia, pelos cargos que ocupava na corte. Até a Casa de Bragança, verdadeiro potentado feudal que poderia rivalizar com o rei, não escapava a esta lógica. No fundo, era a lógica de uma simbiose que garantia à nobreza o seu engrandecimento e à realeza a sua segurança. [Bernardo Vasconcelos e Sousa, (2009). "Idade Média", in Rui Ramos, Bernardo Vasconcelos e Sousa e Nuno Gonçalo Monteiro, História de Portugal. Lisboa: A Esfera dos Livros, pp. 160]

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Como é que, em Portugal, o poder sobrevive? Não é apenas através da contenção de poderes concorrentes. Fá-lo também através das alianças com os potentados que possam emergir (mas em caso de necessidade, nunca hesitou em destruí-los) e pela criação de uma rede clientelar. O número de clientes muda em conformidade com o tipo de regime. É mais familiar em regime-monárquico-aristocrático ou mais amplo, na criação de uma imensa força de servidores de Estado, no regime democrático. A questão, porém, é a mesma, assegurar uma base de apoio que permita o regime funcionar e o poder não cair na rua. Esta é uma tradição inerente ao próprio desenvolvimento histórico do poder em Portugal.

11/01/10

Casas senhoriais e questões regionais


Estes aspectos, a par de uma crescente dependência face à Coroa e do papel desta na estruturação e na hierarquização da nobreza, permitem compreender por que não surgiram, até ao início do século XV, verdadeiras Casas senhoriais, dotadas de um sólido e estável património fundiário e de uma enraizada e duradoura implantação local regional. Mesmo quando se constituíram, as grandes Casas senhoriais portuguesas foram directamente criadas pela Coroa e encabeçadas por membros da família real, como ocorreu com a que viria a ser a Casa de Bragança ou com os ducados de Viseu e de Coimbra. [Bernardo Vasconcelos e Sousa, (2009). "Idade Média", in Rui Ramos, Bernardo Vasconcelos e Sousa e Nuno Gonçalo Monteiro, História de Portugal. Lisboa: A Esfera dos Livros, pp. 97]
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Um pouco de história dos poderes regionais. É como se esses poderes não possuíssem uma tradição no país. Como todo o resto, as próprias Casas senhoriais são uma criação do poder central, neste caso do poder régio. Quando o poder político achou necessário criou-as, mas pouco ou nada se coibiu de interferir na sua vida e, sempre que achou necessário, de ameaçar os seus detentores. Não apenas o reino e depois a nação com o seu Estado são uma criação da elite política, como os fracos poderes regionais não representam nenhuma especificidade própria.

Agora que, parece, vai tornar a debater-se a regionalização, convém perceber a longa e espessa tradição histórica do país. Um país que é a invenção de um pequeno grupo de agentes políticos, com uma dimensão diminuta e parcos recursos naturais, sempre sentiu os poderes regionais como uma ameaça desagregadora. Este sentimento velado de desagregação, a sua longa persistência, é o que merece ser pensado. Por que razão a história portuguesa é marcada pela contínua necessidade de afirmação do poder central?

Em Espanha, a regionalização visou tentar resolver um problema, o das nacionalidades. Foi uma resposta. Em Portugal, porém, isso não se coloca. O que pode acontecer, todavia, é que um processo de regionalização como o previsto na constituição, venha criar um problema que não existe. Teoricamente, democratizar as regiões administrativas parece ser uma boa medida. Mas no momento em que se criam entidades políticas, não se sabe o que pode acontecer. Forças centrífugas, agora incipientes, podem ganhar poder e acabar por desestruturar uma unidade política débil, apesar dos nove séculos de história. Há uma sabedoria na história e talvez fosse útil julgar as nossas ideias actuais e os nossos preconceitos à luz daquilo que tem sido a experiência de um povo e de uma nação, que foram criados ex nihilo. Antes de se entrar no desvario das decisões em nome da putativa modernização do país, tenha-se prudência, essa virtude suprema da acção política.

10/01/10

O livro do entardecer 16 - estrela

essas súbitas estrelas que irrompem na tarde
e anunciam o calor vindo dos trópicos
fogem como se uma maldição crescesse
no lugar onde se tece o tempo

são mendigos a caminhar pelos campos
e estendem a mão a quem passa
e todos passam sem olhar a estrela caída
que errante adormece à beira da estrada

Yves Montand - Les Feuilles Mortes (à l´Olympia)

O 'Cintinho e a Therezinha Velho


N'essa sua mudez e indecisão de sombra surdira, ao fim do luto do papá, o gosto muito vivo de tornear madeiras ao torno: depois, mais tarde, com a melada flôr dos seus vinte annos, brotou n'elle outro sentimento, de desejo e de pasmo, pela filha do desembargador Velho, uma menina redondinha como uma rôla, educada n'um convento de Paris, e tão habilidosa que esmaltava, dourava, concertava relogios e fabricava chapéos de feltro. [Eça de Queiroz, A Cidade e as Serras]
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No processo de me tornar num kindle-man, tenho estado à procura a a experimentar diversos textos disponíveis na internet. Um deles foi A Cidade e as Serras, de José Maria Eça de Queiroz. Li este livro já há tantos anos que não me lembrava do humor que nele havia. Pus-me, maravilhado com a excelência do suporte de leitura, a ler o livro. Quando cheguei, logo no início, aqui, à descrição dos pais de Jacinto, o 'Cintinho e a Therezinha Velho, não resisti a partilhar o implacável retrato da burguesia portuguesa. Ele sombrio e ela redondinha que nem uma rola, ambos dados aos exercícios mecânicos de carácter manual. Mantive, para criar a ambiência necessária, a ortografia original. O que fica para discussão sobre o retrato da mãe de Jacinto é se esta descrição é ironia fina ou sarcasmo violento.

09/01/10

O livro do entardecer 15

quando vieram as chuvas
ficaram as ruas alagadas
e os rios sem capitão
perderam-se ociosos
no além-margem

à janela deixo que o mundo
envolva os meus olhos
e me faça crer na existência

mas só vejo chuva e águas
e oiço a sombra das nuvens
a sucumbir em ruas de pedra
onde cresce a desolação

Keith Jarrett - Autumn Leaves

A força do Benfica


Nunca pensei que o Benfica, esta temporada, estivesse tão forte. Percebia que estava melhor, mais competitivo, que tinha outro espírito. Mas confesso que estava longe de me sentir seguro de que ele fosse um verdadeiro candidato ao título. Percebi-o ontem ao ver, nos telejornais, o discurso de Pinto da Costa, presidente do Futebol Clube do Porto. Numa espécie de sessão espírita, produziu um discurso absolutamente assombroso, mas onde o assombro não conseguia disfarçar um certo medo e uma atitude desesperada. O Benfica nem vai em primeiro lugar e já todo o arsenal de uma velha guerra ideológica está já a ser mobilizado, como se ganhar ou perder um campeonato fosse a coisa mais importante da existência humana.

Que o Presidente de um clube faça isto (e que outros gostassem de ter o talento dele para estas rábulas) ainda se percebe, mas que a comunicação social dê relevância a este tipo de coisas, as quais acabam por difundir um clima odioso entre as pessoas, só por causa de uns pontapés na bola, é coisa que me deixa ainda mais consternado com o nosso pobre rectângulo, para usar uma metáfora futebolística. Um jogo de futebol, coisa de que gosto, não passa, por muito dinheiro que nele seja investido, de uma reunião onde 22 rapazolas correm, com mais ou menos talento, atrás de uma bola para ver se a conseguem enfiar numa rede. Como é que o sentido da vida de milhares de pessoas pode ser dado pelo desenlace de uma coisa destas? Como é que um clima que parece anunciar uma fracturante guerra civil pode ter acolhimento na comunicação social e na razão das pessoas? Por ser assim, o futebol deveria ser considerado com um factor de perturbação da ordem e da paz públicas. Mas não é, e o pior é que toda a gente acha estas coisas normais.

O professor como autoridade pública


Até onde cresceram as nossas ilusões para que se chegasse aqui? A comunidade autónoma de Madrid, entidade de carácter regional, no sequência do que já aconteceu na comunidade valenciana, concedeu aos professores o estatuto de autoridade pública. Quais são as consequências? Uma primeira consequência é a de igualar os professores, em caso de agressão contra eles, aos juízes, forças de segurança, médicos, comandantes da marinha mercante e pilotos de aviação. Uma agressão a pessoas pertencentes a estes grupos é legalmente um atentado contra a autoridade. Uma segunda consequência, vem do facto de a autoridade pública ter a presunção de verdade, o que significa que a sua palavra tem, num caso de conflito, mais valor que a de um outro cidadão. Estas medidas têm sido tomadas em comunidades dirigidas pela direita. O Congresso espanhol, onde os socialistas são o maior partido, chumbou uma proposta do PP para legislar nacionalmente no mesmo sentido. Mas a chumbo não tem a ver com o conteúdo da lei, mas com o método utilizado pelo PP para a propor, enquanto ainda decorriam negociações com os sindicatos espanhóis de professores.

Que ilusões alimentámos sobre as crianças e os jovens? Que ilusões alimentámos sobre nós mesmos, para que, em desespero de causa, se comece a ter necessidade de afirmar os professores como pertencendendo às forças que asseguram a ordem no Estado? Um professor, aliás como um médico, não é um juiz, não é um militar, não é um polícia. Um professor tem um papel na soberania do Estado, mas não na repressão e na violência que assegura a ordem nesse Estado.

O que se passa, porém, é que a demagogia vinda da esquerda herdeira de uma leitura enviesada de Rousseau e do Maio de 68 (mas não só, sublinhe-se) tentou destruir a imagem do professor, retirou-lhe a frágil autoridade que era a sua e submeteu-o aos vexames dos alunos e da população. As políticas da Educação, em muitos países ocidentais, durante muitos anos, de forma mais clara ou mais encapotada, trataram de sublinhar e acentuar a desautorização dos docentes. Agora começa a reinar o desespero. Que fazer às novas gerações que ninguém controla? Que fazer com os pais que, de forma cada vez mais acintosa, acham que os professores são uma espécie de valetes de quarto para cuidar do resultado das suas flutuações hormonais (isto é, os filhos), para os quais muitos não têm apetite ou vontade de educar. Os espanhóis começam a dar uma resposta: os professores são autoridade pública, e têm presunção de verdade.

Mais tarde ou mais cedo, isto também chegará a Portugal. Mas isto é apenas um remendo. Os professores têm de facto, embora não reconhecido politicamente, um papel essencial na soberania dos Estados. São eles que, nas sociedades modernas, pelo trabalho sobre o currículo nacional, criam as condições para que todos se possam entendender e querer viver na mesma sociedade. Os professores são os criadores das condições de possibilidade do consenso em que assenta o conflito e o jogo democráticos. Isso, porém, não quer dizer que eles sejam uma autoridade pública.

A autoridade do professor assenta apenas na autoridade do seu saber. Mais nada. As sociedade ocidentais, sociedades que vivem do saber, deixaram crescer dentro delas próprias, como dentro do ovo da serpente, uma cultura juvenil que despreza o saber. Essa cultura cresceu, invadiu as escolas e as famílias, contaminou a sociedade. O saber é, socialmente, destituído de valor. O problema reside aqui. Enquanto professor, não quero ser polícia, nem juiz, nem agente da ordem pública. Quero ser visto como alguém que contribui para o desenvolvimento cívico da sua comunidade (alguém que ajuda a construir o desejo de soberania) e que, devido ao saber que possui (saber esse que a comunidade determinou como relevante), contribui para preparar as novas gerações que assegurarão o futuro dessa comunidade.

Os professores devem ser protegidos porque representam e transmitem aquilo que a comunidade determinou como sendo os melhores valores cognitivos e cívicos. Não se trata de voltar a ter medo dos professores. Trata-se de uma coisa bem mais simples. Respeitar os professores, porque se respeita a sua função social e o saber que eles transportam paras as novas gerações. Como as coisas estão, porém, isto talvez só seja possível se o medo, pois é disso que se trata na legislação de Madrid, voltar a ter um papel na vida escolar. Isso, porém, não nos deve alegrar e, muito menos, orgulhar. Pelo contrário, é o sintoma de que as últimas gerações falharam escandalosamente na educação das mais novas. Tenhamos vergonha.

08/01/10

O livro do entardecer 14 - eternidade

nas ruas onde havia
uma sombra de eternidade
a melancolia vinha devagar
poisar no dorso da tarde

um punhal feria a palidez
com que a luz se despedia
e tudo se silenciava
na oscilação que a vida trazia

um restolhar de folhas
passos alvoraçados
e as horas tristes que passavam
para morrer na eternidade

Toro Takemitsu - Requiem

Tornei-me um Kindle-man


Ok, sou fraco. Não resisti a proclamar urbi et orbi que recebi hoje (um presente de Natal serôdio e talvez não merecido - mas o melhor mesmo é aquilo que recebemos sem mérito, apenas por graça divina ou outra, como neste caso) o meu novo gadget. O Kindle, o e-book da Amazon. Ainda está a carregar a bateria (estou a fazê-lo com o aparelhómetro ligado ao computador por uma porta USB, pois ainda não comprei o adaptador para electricidade, o que me permitiria carregar e usar ao mesmo tempo), portanto não sei nada dele, mas estou em pulgas para ver como funciona. Ponto assente: não havendo luz externa não haverá leitura. Elegante e leve, a frase que ele apresenta no carregamento lê-se muito bem. Quem estiver interessado em saber alguma coisa pode consultar um blogue particular de um entusiasta português do Kindle. O blogue é o Kindle Portugal. Bem, agora vou escolher os primeiros livros que vou comprar. O descarregamento leva 60 segundos e é feito por ligação 3G sem fios e gratuita, incorporada no livrinho. Estou a preparar-me para a era do pós-papel.

A democracia nas escolas

(Foto retirada daqui)

O Zé Manel Trincão Marques, no comentário que faz ao post Poder de proximidade, deixa, em post-scriptum, a seguinte questão: Valerá a pena aprofundar a democracia nas escolas? Não é esta a questão substancial do seu comentário (a essa voltaremos mais tarde), mas é uma questão que vale a pensa pensar.

Colocaria o problema do seguinte modo: a escola é uma instituição democrática? Se a escola for uma instituição democrática, então tem sentido falar em aprofundar a democracia. O problema, porém, é que a escola não é, no seu funcionamento interno, uma instituição democrática, ou sequer uma espécie de República. Os vários agentes não são todos iguais e, contrariamente ao que se passa na esfera política, a diferença de funções implica também a diferença de direitos e de deveres. Por outro lado, a escola deveria ser uma instituição regulada pelo princípio aristocrático. Os melhores deveriam governá-la e orientá-la na persecução do seu bem próprio: a transmissão e aquisição do currículo prescrito pela decisão política da comunidade. Para servir a democracia (educando o melhor possível os futuros cidadãos) a escola não precisa, nem deve ser democrática. O mesmo se passa, por exemplo, com o exército, as forças de segurança ou a universidade. Democráticos devem ser o acesso à escola e as oportunidades para aprender.

Sendo assim, por que razão pareço simpatizar, no referido post, com o antigo método de escolha dos conselhos executivos? Apenas e só por razões negativas. Em primeiro lugar, porque a forma como são escolhidos actualmente os directores (eleitos por uma espécie de câmara corporativa local) os torna muito frágeis perante os poderes fácticos existentes e que começam a colonizar as escolas. Em segundo lugar, porque no actual estado de coisas, o poder dos directores e aquele que eles agregam à sua volta (por vezes, bem mais problemático do que o dos directores) acabará por cilindrar o que de melhor se faz na escola. Estando um director à mercê dos professores, como acontecia anteriormente (coisa que parece sem sentido), havia a possibilidade dos professores interessados em fazer coisas mais sérias, e contra o rumo niilista que se segue na educação, encontrarem espaço nas escolas para o fazer. Este novo modelo de gestão visa arrasar a diferença, impondo uma bitola marcada pelo eduquês e submetendo os melhores professores a uma visão medíocre do que é a educação. A avaliação serve para a gestão vigiar os melhores professores e não para punir os piores. A coisa ainda não é clara, mas basta perceber o que é importante, para antever onde se chegará. Vamos dar tem ao tempo.

Não faz muito sentido, então, falar em aprofundar a democracia nas escolas. O que faz sentido é pensar como reorientar as escolas para o que é essencial: transmitir o currículo prescrito nacionalmente e fazer com que os alunos o adquiram. A democracia, um método de decisão política, não é aqui chamada para nada.

Jornal Torrejano, 8 de Janeiro de 2010



Online encontra-se já a edição semanal do Jornal Torrejano.

Diferença entre Portugal e Espanha

No dia 29 de Novembro, comprei numa livraria portuguesa on-line um livro de que necessitava. Estamos a 8 de Janeiro e ainda não o recebi. Anteontem, enviei um email para saber o que se passava. Ainda não recebi qualquer resposta.

No dia 31 de Dezembro, comprei três livros numa livraria on-line espanhola. Hoje recebi um email explicando-me que não têm em stock dois dos livros. Informam-me também o tempo esperado para que a editora satisfaça o pedido.

Os espanhóis estão longe da eficiência britânica (já cá teria os livros), mas estão a anos-de-luz do que se passa por aqui.

Um dia de paz e amor


Hoje é um dia de paz e amor. Os gays vão poder casar-se (aqui e aqui) e os sindicatos de professores casaram-se com o Ministério da Educação (aqui e aqui). Numa altura em que o divórcio ganha peso perante o casamento, é de desconfiar tanta oficialização das uniões de facto.

07/01/10

O livro do entardecer 13

apaga-se a luz do inverno
uma melodia serena repousa
no canto da noite
e a água ao arder incendeia
de silêncio a tua voz

serás assim tão leve
os cabelos na treva
e a canção aberta na boca
ecoam como um velho navio
ao afastar-se do cais

Ainda o referendo sobre o casamento homossexual


Uma interessante argumentação de João Cardoso Rosas contra o referendo relativo ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. A tese central é a de que a submissão de questões referentes a direitos fundamentais a referendo é bastante problemática, devido a natureza iliberal que está associada à democracia directa. A ler no ionline.

Esta natureza não liberal da democracia directa reside no carácter irracional que preside à doxa (opinião pública). A democracia representativa tem factores de racionalização que fazem a mediação entre o sentimento popular e a decisão política. São estes mecanismos de mediação que evitam que vivamos num clima de terror, onde a virtude reside no sentimento e não na razão.

Exercícios de travestimento


Independentemente da origem, da localização e mesmo da dimensão dos concelhos, o respectivo território englobava a vila (ou a cidade) e o termo ou alfoz. A primeira era a principal povoação, o centro da organização municipal, a sede política e administrativa; o segundo era a área em redor, com os seus campos de cultivo e terras bravias, onde podiam situar-se aldeias administrativamente dependentes da vila cabeça do concelho. Esta divisão reflecte uma hierarquia na organização social do espaço, uma vez que os vizinhos que habitavam na vila gozavam de melhores condições, tanto económicas como administrativas e judiciais, face aos habitantes do termo; mas, numa sociedade predominantemente rural, reflectia também a complementaridade existente entre o núcleo urbano e o campo, com este a ser imprescindível para o abastecimento alimentar do conjunto da população. Apesar da subordinação administrativa do termo à vila, apesar das por vezes gritantes desigualdades estipuladas no próprio foral entre os que residiam numa área ou na outra, o concelho só podia existir em função dessas duas componentes. [Bernardo Vasconcelos e Sousa, (2009). "Idade Média", in Rui Ramos, Bernardo Vasconcelos e Sousa e Nuno Gonçalo Monteiro, História de Portugal. Lisboa: A Esfera dos Livros, pp. 73/4]

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Estamos a falar, nesta citação, do Portugal medieval, praticamente na origem da nacionalidade. O espantoso, porém, é que pessoas da minha idade, e até mais novas, conheceram bem esta realidade e esta estruturação das relações intra-concelhias. No século XX, mesmo em concelhos bem industrializados, como era o caso do de Torres Novas, a vida dentro do concelho não apresentava estruturas muito diferenciadas daquelas que são descritas para a Idade Média. É evidente que há diferenças assinaláveis, nomeadamente diferenças tecnológicas, comunicacionais e sociais. Mas a matriz essencial manteve-se praticamente até ao 25 de Abril de 1974.

Não estou a dizer que Portugal era um país medieval no final do século XX. Estou a chamar a atenção para a existência de uma inércia social que mantém a mesma estruturação arcaica das relações sociais, apesar de estas se irem travestindo de diferentes formas, nomeadamente no campo da dominação política e social. Em Portugal, parece concretizar-se a ideia que o sobrinho do Príncipe de Salinas utiliza para explicar ao tio o seu compromisso político com os revolucionários de Garibaldi: é preciso que alguma coisa mude, para que tudo fique na mesma. A verdade, todavia, é que a nossa cultura social não será muito diferente daquela que vigorava na Sicília descrita em O Leopardo. Em Portugal, muita da mudança social foi apenas travestimento e ocultação da realidade efectiva. Significa isso, então, a existência de determinados núcleos da realidade social que quase apresentam uma natureza metafísica, o que determinaria a sua persistência no tempo. Aquilo que é eterno não muda, apenas ganhas novas e diferentes aparências. Esta metafísica social está na base de um certo fatalismo que se abate sobre os portugueses, e que os conduz à saída do país ou à resignação. Muitas das dificuldades pelas quais passamos neste momento estão relacionadas com isto. Este núcleo eterno da realidade social torna-se evidente cada vez que abrimos a televisão e deparamos com mais um despedimento colectivo.

A sede que se deseja



Este belíssimo anúncio à cerveja Sagres, retirado com a devida vénia do Rua Dos Dias Que Voam, um blogue cheio de coisas destas e a visitar com regularidade, evoca em mim a primeira experiência com a cerveja (bebida da qual não sou particular adepto). Não me refiro à experiência de beber cerveja, mas de admirar a própria garrafa. Uma garrafa castanha com os símbolos e o lettring pintados a creme. Julgo que a tampa, carica, era cinzenta ou prateada com Sagres escrito a vermelho e naquelas belas letras que se vêem na imagem. Há toda uma elegância, fundada num quase despojamento de elementos icónicos, que contrasta com o ruído visual que foi crescendo ao longo dos tempos. Nas raras ocasiões que se me coloca a questão de beber uma cerveja, nunca me passa pela cabeça preterir a Sagres pela concorrência. Isso deve-se, porém, à peça de arqueologia aqui representada, a velha garrafa da Sagres. É o que faz ter espessura temporal. O slogan também é perfeito, a sede que se deseja. Ha imagens que são verdadeiros arquétipos.

06/01/10

O livro do entardecer 12 - tempestade

oiço a tempestade vinda de longe
aproxima-se coberta de flanela
e traz um ramo de orquídeas
nos braços do vento

canta ao trovejar
uma velha canção de amor
enquanto os olhos se abrem e escuto
o galopar sonâmbulo da chuva

um barco atravessa a noite
de velas embaladas pelo vento
e um enxame de pétalas desenha
a orquídea que se abre em tua mão

Sviatoslav Richter: Schubert Sonata A major


Há dias que oiço consecutivamente umas velhas gravações, reeditadas há relativamente pouco tempo pela Brilliant Classics, do grande pianista russo Sviatoslav Richter de sonatas para piano de Beethoven, Schubert e Liszt. Aqui fica uma gravação de uma sonata de Schubert (A major). Talvez explique esta audição maníaca.

Volta a saga

Volta a saga da avaliação de professores. Consta que no ano passado 83% dos professores foram avaliados com Bom. Isabel Alçada considera que o número elevado de classificados com Bom explica-se com “a tradição da atribuição desta nota aos docentes por parte de quem avalia. Para além da clara falsidade desta afirmação (como salientou Mário Nogueira, os critérios eram absolutamente objectivos e não permitiam qualquer torção subjectiva fundada ou não na tradição), o que isto demonstra é outra coisa. A enorme dificuldade de encontrar um método fiável para avaliar a função docente. O que esta gente não entende, incluindo a senhora ministra (para que lhe servirá um curso de Filosofia?), é que há coisas dificilmente avaliáveis com fiabilidade por este tipo de métodos provenientes do mundo empresarial e da burocracia de Estado. Não é por acaso que muitos países educacionalmente desenvolvidos têm métodos de avaliação largos e que permitem ae todos os professores chegarem ao topo da carreira. Esta é pensada para isso mesmo. A grande questão da qualidade dos professores não está na avaliação do seu desempenho. Está na sua formação inicial e na selecção. Por exemplo, é isso que faz a Finlândia, que nem avalia formalmente os seus professores, mas selecciona-os rigorosamente. Toda esta conversa sobre avaliação é intelectualmente indecorosa. É uma falsificação da realidade. O Estado demitiu-se durante décadas de seleccionar rigorosamente quem punha nas escolas e, agora, não tem dinheiro para pagar aos professores e inventa este tipo de ficções. Esta história cansa e a sua única finalidade, contrariamente ao que se propaga, é evitar que cheguem novos bons professores e desmoralizar aqueles que existem. Isto, depois de ter corrido com muitos dos que havia.

O poder de proximidade


A atribuição ou a confirmação de forais por parte dos soberanos correspondeu também ao seu projecto de fazer difundir a autoridade da Coroa e de firmar alianças com estas comunidades de homens livres, de modo a contrabalançar o peso dos poderes senhoriais que se faziam sentir local e regionalmente. Por sua vez, tal aliança colocou os concelhos sob a protecção régia, procurando aqueles defender-se das pressões dos senhores locais. Os habitantes dos concelhos preferiam pagar ao rei os tributos fixados por escrito no foral, quer pela posse da terra, quer pela circulação e transacção de produtos, a estarem sujeitos à arbitrariedade e aos abusos praticados pelos senhores. [Bernardo Vasconcelos e Sousa, (2009). "Idade Média", in Rui Ramos, Bernardo Vasconcelos e Sousa e Nuno Gonçalo Monteiro, História de Portugal. Lisboa: A Esfera dos Livros, pp. 73]
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Aqui podemos surpreender não apenas um reforço do que se escreveu aqui ontem sobre a questão da regionalização, mas uma das características essenciais da relação dos portugueses com o poder. Por que razão somos tendencialmente favoráveis ao centralismo? Porque tememos o arbitrário do poder que está próximo. Os portugueses desconfiam do poder, desconfiam, certamente com razão, da sua arbitrariedade. Ora o poder central é longínquo e tem um carácter abstracto e universal. Ele é preferível aos poderes mais próximos, aparentemente mais fracos, mas com uma maior capacidade de interferir na vida concreta das pessoas.

Isto revela uma outra coisa. A natureza do poder de proximidade em Portugal, ainda hoje, é dada pela capacidade de decisão arbitrária. A ocupação de determinados lugares na estruturas municipais e nas instituições locais dependentes do Estado, como escolas, hospitais, etc., não significa uma representação local de um poder abstracto e universal, que trata todos por igual, mas a possibilidade dos indivíduos e grupos locais exercerem o seu arbítrio. Não é isto, obviamente, que está consignado na lei, mas é isto que é sentido por todos.

O exemplo mais recente é o da contestação, mais ou menos surda (pois o medo está instalado), dos professores relativamente aos directores de escola. Enquanto as escolas eram dirigidas por presidentes de conselhos executivos, a arbitrariedade destes estava limitada, pois não deixavam de ser professores. A solução encontrada pelo governo anterior foi a pior possível para os professores. Não apenas lhes impôs um director, mas um director dependente dos poderes fácticos locais. Seria menos doloroso para os docentes que o director fosse estranho à comunidade local e nomeado pelo poder central. Pelo menos havia, uma aparência de universalidade e abstracção.

O triunfo nas escolas portugueses do arbitrário local tem uma consequência absolutamente devastadora para o futuro do país. As escolas, já com fraca capacidade de debate interno, são hoje em dia túmulos relativamente ao debate pedagógico e educativo. Desapareceram as condições para a divergência e para pensar contra, e para fazer de outra maneira, a não ser aquela que os poderes instalados conseguem idealizar e realizar. Uma segunda consequência, de não menor impacto no futuro, é a que deriva destes poderes existentes nas escolas, a chamada gestão intermédia ser entregues a pessoas com um pensamento extraordinariamente frágil sobre a educação e o sistema educativo, mas que, pelo princípio de autoridade, fazem calar os elementos esclarecidos, claramente minoritários, que possam existir, e que teriam capacidade crítica. As escolas ficaram sujeitas ao menos denominador comum.

A referência à escola é apenas exemplar, pois é a instituição que melhor conhecemos. Isto passar-se-á nas outras instituições. A proximidade do poder, desde a origem da nacionalidade, é sentida não como a presença do universal abstracto, mas do arbitrário concreto. Há uma profunda linha de continuidade na nossa tradição, embora na Idade Média o que estava em causa fosse a liberdade das comunidades locais perante os senhores e, hoje em dia, seja a dos indivíduos perante os poderes locais ancorados em outros indivíduos.

Em Portugal, não há um amor ao anarquismo, mas fundamentalmente um medo da arbitrariedade do outro, quando esse outro é investido por qualquer tipo de poder. Isto revela uma longa tradição de uma determinada forma de exercício de poder.

Dia de Reis

Círculo de Hugo van der Goes - La Adoración de los Magos

Hoje é dia de Reis, na tradição Católica. Revive-se o momento em que os Reis Magos vindos do Oriente adoram o Menino. Dia de desmanchar os presépios e de retirar das casas os símbolos natalícios.

Escrevi revive-se e não comemora-se pelo simples motivo de que no pensamento mítico-religioso, do qual o cristianismo, apesar dos seus elementos racionalizantes, faz parte, a festa não é apenas um reavivar da memória mas um tornar a viver um acontecimento eterno que se reflecte no espelho fracturado do tempo. É como se os Reis Magos eternamente chegassem a prestar vassalagem ao Menino. É evidente que, hoje em dia, já não se revive nem sequer se comemora coisa alguma. Mas isso é outro assunto. Fiquemos então com estranho mistério de três reis do Oriente, guiados por uma estrela, virem expressamente inclinar-se perante um recém-nascido.

05/01/10

O referendo sobre o casamento homossexual



Assim como não estive de acordo com a realização do referendo sobre o aborto, também discordo do referendo sobre o denominado casamento homossexual. O parlamento tem legitimidade suficiente para legislar sobre o facto e não me parece que 90 mil assinaturas (menos de 1% da população) sejam suficientes para que ele abdique de o fazer. Se a recolha de assinaturas tivesse uma expressão avassaladora, os partidos deveriam reflectir sobre o assunto. Neste caso, deve legislar e concentrar forças nos problemas efectivos do país.

Das propostas em jogo, gostaria que a aprovada fosse a do PSD. De facto, um casamento pressupõe um casal, e este é constituído por pessoas de sexo diferente. Mas a questão não é meramente lexical ou sequer de tradição, embora esta tenha a sua importância. Há uma diferença ontológica e uma diferença social. Por fim, há também uma questão ética. Tolerar a diferença é aceitá-la na sua natureza e na enunciação dessa mesma natureza. A insistência na confusão lexical entre o casamento de um homem e uma mulher e o reconhecimento civil da união de pessoas do mesmo sexo tem uma curiosa perversidade. Oculta a diferença daquilo que é efectivamente diferente. No fundo, chamar casamento a esse tipo de união não é mais do que um acto de intolerância perante a diferença.

Regiões, uma viagem de 800 anos


A instabilidade militar e social do reino, bem como o clima de conflitos a que não escapou o próprio Sancho I (em fricção com os bispos do Porto e de Coimbra e com sectores da nobreza), prolongaram-se até ao final da vida do monarca. De um modo geral, o rei colocou-se ao lado dos concelhos nas querelas contra os poderes senhoriais exercidos por alguns prelados, como sucedeu entre o burgo do Porto e o seu bispo em 1208. Face aos poderes concorrentes detidos pelos senhores laicos e eclesiásticos, o monarca privilegiava a aliança com as principais comunidades urbanas, elas próprias também interessadas numa regulada ligação à Coroa que as defendesse do que consideravam ser a arbitrariedade senhorial. [Bernardo Vasconcelos e Sousa, (2009). "Idade Média", in Rui Ramos, Bernardo Vasconcelos e Sousa e Nuno Gonçalo Monteiro, História de Portugal. Lisboa: A Esfera dos Livros, pp. 46/7]
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Não é transferível a situação política de Portugal medieval, com o reino ainda em fase de consolidação, para os nossos dias. Há, no entanto, elementos persistentes na estruturação política do país que devem ser pensados na sua espessura histórica. Hoje em dia, quando o governo e o partido que o apoia querem retornar à questão da regionalização, não é inútil, apesar da diferença epocal, social e civilizacional, perceber a estrutura fundacional da nacionalidade.

Se olharmos para o texto citado, encontramos três realidades políticas coexistentes. O poder real, de carácter central, o poder senhorial, laico e eclesiástico, que poderíamos dizer de carácter regional, e o poder concelhio de carácter municipal. O que acontecia é que a estrutura senhorial, de naturezar intermédia, constituía um factor de perturbação tanto do poder central (pois os senhores aspiravam vincar a sua paridade com o rei, que não seria mais do que o primeiro entre pares) como do poder concelhio (a quem aspiravam submeter à sua arbitrariedade).

Aqui está um dos principais problemas que se levanta contra a regionalização. Problema, aliás, claramente sublinhado pela história recente das regiões autónomas. As regiões que se preparam são, em princípio, uma espécie de sobre-município, de uma autarquia local de carácter regional. O problema é que isso é apenas o começo. À volta dessas super-autarquias criar-se-ão elites políticas que quererão aprofundar o carácter regional da autarquia, inventar uma cultura regional, aspirar a uma maior distribuição do poder. Haverá todas as oportunidades para que essas elites regionais se venham a comportar, tanto para com o poder central como para com o municipal, da mesma forma que o poder senhorial medieval se comportava perante o Rei e os concelhos.

Este é um problema que merece ser pensado. O que está em jogo não é apenas o enfraquecimento do poder central, e o que isso significa para os mais fracos, mas também o próprio poder municipal. O país mudou, a sociedade é radicalmente diferente, mas a espécie humana e a natureza das elites portuguesas mantiveram-se idênticas.