10/01/10

O 'Cintinho e a Therezinha Velho


N'essa sua mudez e indecisão de sombra surdira, ao fim do luto do papá, o gosto muito vivo de tornear madeiras ao torno: depois, mais tarde, com a melada flôr dos seus vinte annos, brotou n'elle outro sentimento, de desejo e de pasmo, pela filha do desembargador Velho, uma menina redondinha como uma rôla, educada n'um convento de Paris, e tão habilidosa que esmaltava, dourava, concertava relogios e fabricava chapéos de feltro. [Eça de Queiroz, A Cidade e as Serras]
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No processo de me tornar num kindle-man, tenho estado à procura a a experimentar diversos textos disponíveis na internet. Um deles foi A Cidade e as Serras, de José Maria Eça de Queiroz. Li este livro já há tantos anos que não me lembrava do humor que nele havia. Pus-me, maravilhado com a excelência do suporte de leitura, a ler o livro. Quando cheguei, logo no início, aqui, à descrição dos pais de Jacinto, o 'Cintinho e a Therezinha Velho, não resisti a partilhar o implacável retrato da burguesia portuguesa. Ele sombrio e ela redondinha que nem uma rola, ambos dados aos exercícios mecânicos de carácter manual. Mantive, para criar a ambiência necessária, a ortografia original. O que fica para discussão sobre o retrato da mãe de Jacinto é se esta descrição é ironia fina ou sarcasmo violento.

09/01/10

O livro do entardecer 15

quando vieram as chuvas
ficaram as ruas alagadas
e os rios sem capitão
perderam-se ociosos
no além-margem

à janela deixo que o mundo
envolva os meus olhos
e me faça crer na existência

mas só vejo chuva e águas
e oiço a sombra das nuvens
a sucumbir em ruas de pedra
onde cresce a desolação

Keith Jarrett - Autumn Leaves

A força do Benfica


Nunca pensei que o Benfica, esta temporada, estivesse tão forte. Percebia que estava melhor, mais competitivo, que tinha outro espírito. Mas confesso que estava longe de me sentir seguro de que ele fosse um verdadeiro candidato ao título. Percebi-o ontem ao ver, nos telejornais, o discurso de Pinto da Costa, presidente do Futebol Clube do Porto. Numa espécie de sessão espírita, produziu um discurso absolutamente assombroso, mas onde o assombro não conseguia disfarçar um certo medo e uma atitude desesperada. O Benfica nem vai em primeiro lugar e já todo o arsenal de uma velha guerra ideológica está já a ser mobilizado, como se ganhar ou perder um campeonato fosse a coisa mais importante da existência humana.

Que o Presidente de um clube faça isto (e que outros gostassem de ter o talento dele para estas rábulas) ainda se percebe, mas que a comunicação social dê relevância a este tipo de coisas, as quais acabam por difundir um clima odioso entre as pessoas, só por causa de uns pontapés na bola, é coisa que me deixa ainda mais consternado com o nosso pobre rectângulo, para usar uma metáfora futebolística. Um jogo de futebol, coisa de que gosto, não passa, por muito dinheiro que nele seja investido, de uma reunião onde 22 rapazolas correm, com mais ou menos talento, atrás de uma bola para ver se a conseguem enfiar numa rede. Como é que o sentido da vida de milhares de pessoas pode ser dado pelo desenlace de uma coisa destas? Como é que um clima que parece anunciar uma fracturante guerra civil pode ter acolhimento na comunicação social e na razão das pessoas? Por ser assim, o futebol deveria ser considerado com um factor de perturbação da ordem e da paz públicas. Mas não é, e o pior é que toda a gente acha estas coisas normais.

O professor como autoridade pública


Até onde cresceram as nossas ilusões para que se chegasse aqui? A comunidade autónoma de Madrid, entidade de carácter regional, no sequência do que já aconteceu na comunidade valenciana, concedeu aos professores o estatuto de autoridade pública. Quais são as consequências? Uma primeira consequência é a de igualar os professores, em caso de agressão contra eles, aos juízes, forças de segurança, médicos, comandantes da marinha mercante e pilotos de aviação. Uma agressão a pessoas pertencentes a estes grupos é legalmente um atentado contra a autoridade. Uma segunda consequência, vem do facto de a autoridade pública ter a presunção de verdade, o que significa que a sua palavra tem, num caso de conflito, mais valor que a de um outro cidadão. Estas medidas têm sido tomadas em comunidades dirigidas pela direita. O Congresso espanhol, onde os socialistas são o maior partido, chumbou uma proposta do PP para legislar nacionalmente no mesmo sentido. Mas a chumbo não tem a ver com o conteúdo da lei, mas com o método utilizado pelo PP para a propor, enquanto ainda decorriam negociações com os sindicatos espanhóis de professores.

Que ilusões alimentámos sobre as crianças e os jovens? Que ilusões alimentámos sobre nós mesmos, para que, em desespero de causa, se comece a ter necessidade de afirmar os professores como pertencendendo às forças que asseguram a ordem no Estado? Um professor, aliás como um médico, não é um juiz, não é um militar, não é um polícia. Um professor tem um papel na soberania do Estado, mas não na repressão e na violência que assegura a ordem nesse Estado.

O que se passa, porém, é que a demagogia vinda da esquerda herdeira de uma leitura enviesada de Rousseau e do Maio de 68 (mas não só, sublinhe-se) tentou destruir a imagem do professor, retirou-lhe a frágil autoridade que era a sua e submeteu-o aos vexames dos alunos e da população. As políticas da Educação, em muitos países ocidentais, durante muitos anos, de forma mais clara ou mais encapotada, trataram de sublinhar e acentuar a desautorização dos docentes. Agora começa a reinar o desespero. Que fazer às novas gerações que ninguém controla? Que fazer com os pais que, de forma cada vez mais acintosa, acham que os professores são uma espécie de valetes de quarto para cuidar do resultado das suas flutuações hormonais (isto é, os filhos), para os quais muitos não têm apetite ou vontade de educar. Os espanhóis começam a dar uma resposta: os professores são autoridade pública, e têm presunção de verdade.

Mais tarde ou mais cedo, isto também chegará a Portugal. Mas isto é apenas um remendo. Os professores têm de facto, embora não reconhecido politicamente, um papel essencial na soberania dos Estados. São eles que, nas sociedades modernas, pelo trabalho sobre o currículo nacional, criam as condições para que todos se possam entendender e querer viver na mesma sociedade. Os professores são os criadores das condições de possibilidade do consenso em que assenta o conflito e o jogo democráticos. Isso, porém, não quer dizer que eles sejam uma autoridade pública.

A autoridade do professor assenta apenas na autoridade do seu saber. Mais nada. As sociedade ocidentais, sociedades que vivem do saber, deixaram crescer dentro delas próprias, como dentro do ovo da serpente, uma cultura juvenil que despreza o saber. Essa cultura cresceu, invadiu as escolas e as famílias, contaminou a sociedade. O saber é, socialmente, destituído de valor. O problema reside aqui. Enquanto professor, não quero ser polícia, nem juiz, nem agente da ordem pública. Quero ser visto como alguém que contribui para o desenvolvimento cívico da sua comunidade (alguém que ajuda a construir o desejo de soberania) e que, devido ao saber que possui (saber esse que a comunidade determinou como relevante), contribui para preparar as novas gerações que assegurarão o futuro dessa comunidade.

Os professores devem ser protegidos porque representam e transmitem aquilo que a comunidade determinou como sendo os melhores valores cognitivos e cívicos. Não se trata de voltar a ter medo dos professores. Trata-se de uma coisa bem mais simples. Respeitar os professores, porque se respeita a sua função social e o saber que eles transportam paras as novas gerações. Como as coisas estão, porém, isto talvez só seja possível se o medo, pois é disso que se trata na legislação de Madrid, voltar a ter um papel na vida escolar. Isso, porém, não nos deve alegrar e, muito menos, orgulhar. Pelo contrário, é o sintoma de que as últimas gerações falharam escandalosamente na educação das mais novas. Tenhamos vergonha.

08/01/10

O livro do entardecer 14 - eternidade

nas ruas onde havia
uma sombra de eternidade
a melancolia vinha devagar
poisar no dorso da tarde

um punhal feria a palidez
com que a luz se despedia
e tudo se silenciava
na oscilação que a vida trazia

um restolhar de folhas
passos alvoraçados
e as horas tristes que passavam
para morrer na eternidade

Toro Takemitsu - Requiem

Tornei-me um Kindle-man


Ok, sou fraco. Não resisti a proclamar urbi et orbi que recebi hoje (um presente de Natal serôdio e talvez não merecido - mas o melhor mesmo é aquilo que recebemos sem mérito, apenas por graça divina ou outra, como neste caso) o meu novo gadget. O Kindle, o e-book da Amazon. Ainda está a carregar a bateria (estou a fazê-lo com o aparelhómetro ligado ao computador por uma porta USB, pois ainda não comprei o adaptador para electricidade, o que me permitiria carregar e usar ao mesmo tempo), portanto não sei nada dele, mas estou em pulgas para ver como funciona. Ponto assente: não havendo luz externa não haverá leitura. Elegante e leve, a frase que ele apresenta no carregamento lê-se muito bem. Quem estiver interessado em saber alguma coisa pode consultar um blogue particular de um entusiasta português do Kindle. O blogue é o Kindle Portugal. Bem, agora vou escolher os primeiros livros que vou comprar. O descarregamento leva 60 segundos e é feito por ligação 3G sem fios e gratuita, incorporada no livrinho. Estou a preparar-me para a era do pós-papel.

A democracia nas escolas

(Foto retirada daqui)

O Zé Manel Trincão Marques, no comentário que faz ao post Poder de proximidade, deixa, em post-scriptum, a seguinte questão: Valerá a pena aprofundar a democracia nas escolas? Não é esta a questão substancial do seu comentário (a essa voltaremos mais tarde), mas é uma questão que vale a pensa pensar.

Colocaria o problema do seguinte modo: a escola é uma instituição democrática? Se a escola for uma instituição democrática, então tem sentido falar em aprofundar a democracia. O problema, porém, é que a escola não é, no seu funcionamento interno, uma instituição democrática, ou sequer uma espécie de República. Os vários agentes não são todos iguais e, contrariamente ao que se passa na esfera política, a diferença de funções implica também a diferença de direitos e de deveres. Por outro lado, a escola deveria ser uma instituição regulada pelo princípio aristocrático. Os melhores deveriam governá-la e orientá-la na persecução do seu bem próprio: a transmissão e aquisição do currículo prescrito pela decisão política da comunidade. Para servir a democracia (educando o melhor possível os futuros cidadãos) a escola não precisa, nem deve ser democrática. O mesmo se passa, por exemplo, com o exército, as forças de segurança ou a universidade. Democráticos devem ser o acesso à escola e as oportunidades para aprender.

Sendo assim, por que razão pareço simpatizar, no referido post, com o antigo método de escolha dos conselhos executivos? Apenas e só por razões negativas. Em primeiro lugar, porque a forma como são escolhidos actualmente os directores (eleitos por uma espécie de câmara corporativa local) os torna muito frágeis perante os poderes fácticos existentes e que começam a colonizar as escolas. Em segundo lugar, porque no actual estado de coisas, o poder dos directores e aquele que eles agregam à sua volta (por vezes, bem mais problemático do que o dos directores) acabará por cilindrar o que de melhor se faz na escola. Estando um director à mercê dos professores, como acontecia anteriormente (coisa que parece sem sentido), havia a possibilidade dos professores interessados em fazer coisas mais sérias, e contra o rumo niilista que se segue na educação, encontrarem espaço nas escolas para o fazer. Este novo modelo de gestão visa arrasar a diferença, impondo uma bitola marcada pelo eduquês e submetendo os melhores professores a uma visão medíocre do que é a educação. A avaliação serve para a gestão vigiar os melhores professores e não para punir os piores. A coisa ainda não é clara, mas basta perceber o que é importante, para antever onde se chegará. Vamos dar tem ao tempo.

Não faz muito sentido, então, falar em aprofundar a democracia nas escolas. O que faz sentido é pensar como reorientar as escolas para o que é essencial: transmitir o currículo prescrito nacionalmente e fazer com que os alunos o adquiram. A democracia, um método de decisão política, não é aqui chamada para nada.

Jornal Torrejano, 8 de Janeiro de 2010



Online encontra-se já a edição semanal do Jornal Torrejano.

Diferença entre Portugal e Espanha

No dia 29 de Novembro, comprei numa livraria portuguesa on-line um livro de que necessitava. Estamos a 8 de Janeiro e ainda não o recebi. Anteontem, enviei um email para saber o que se passava. Ainda não recebi qualquer resposta.

No dia 31 de Dezembro, comprei três livros numa livraria on-line espanhola. Hoje recebi um email explicando-me que não têm em stock dois dos livros. Informam-me também o tempo esperado para que a editora satisfaça o pedido.

Os espanhóis estão longe da eficiência britânica (já cá teria os livros), mas estão a anos-de-luz do que se passa por aqui.

Um dia de paz e amor


Hoje é um dia de paz e amor. Os gays vão poder casar-se (aqui e aqui) e os sindicatos de professores casaram-se com o Ministério da Educação (aqui e aqui). Numa altura em que o divórcio ganha peso perante o casamento, é de desconfiar tanta oficialização das uniões de facto.

07/01/10

O livro do entardecer 13

apaga-se a luz do inverno
uma melodia serena repousa
no canto da noite
e a água ao arder incendeia
de silêncio a tua voz

serás assim tão leve
os cabelos na treva
e a canção aberta na boca
ecoam como um velho navio
ao afastar-se do cais

Ainda o referendo sobre o casamento homossexual


Uma interessante argumentação de João Cardoso Rosas contra o referendo relativo ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. A tese central é a de que a submissão de questões referentes a direitos fundamentais a referendo é bastante problemática, devido a natureza iliberal que está associada à democracia directa. A ler no ionline.

Esta natureza não liberal da democracia directa reside no carácter irracional que preside à doxa (opinião pública). A democracia representativa tem factores de racionalização que fazem a mediação entre o sentimento popular e a decisão política. São estes mecanismos de mediação que evitam que vivamos num clima de terror, onde a virtude reside no sentimento e não na razão.

Exercícios de travestimento


Independentemente da origem, da localização e mesmo da dimensão dos concelhos, o respectivo território englobava a vila (ou a cidade) e o termo ou alfoz. A primeira era a principal povoação, o centro da organização municipal, a sede política e administrativa; o segundo era a área em redor, com os seus campos de cultivo e terras bravias, onde podiam situar-se aldeias administrativamente dependentes da vila cabeça do concelho. Esta divisão reflecte uma hierarquia na organização social do espaço, uma vez que os vizinhos que habitavam na vila gozavam de melhores condições, tanto económicas como administrativas e judiciais, face aos habitantes do termo; mas, numa sociedade predominantemente rural, reflectia também a complementaridade existente entre o núcleo urbano e o campo, com este a ser imprescindível para o abastecimento alimentar do conjunto da população. Apesar da subordinação administrativa do termo à vila, apesar das por vezes gritantes desigualdades estipuladas no próprio foral entre os que residiam numa área ou na outra, o concelho só podia existir em função dessas duas componentes. [Bernardo Vasconcelos e Sousa, (2009). "Idade Média", in Rui Ramos, Bernardo Vasconcelos e Sousa e Nuno Gonçalo Monteiro, História de Portugal. Lisboa: A Esfera dos Livros, pp. 73/4]

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Estamos a falar, nesta citação, do Portugal medieval, praticamente na origem da nacionalidade. O espantoso, porém, é que pessoas da minha idade, e até mais novas, conheceram bem esta realidade e esta estruturação das relações intra-concelhias. No século XX, mesmo em concelhos bem industrializados, como era o caso do de Torres Novas, a vida dentro do concelho não apresentava estruturas muito diferenciadas daquelas que são descritas para a Idade Média. É evidente que há diferenças assinaláveis, nomeadamente diferenças tecnológicas, comunicacionais e sociais. Mas a matriz essencial manteve-se praticamente até ao 25 de Abril de 1974.

Não estou a dizer que Portugal era um país medieval no final do século XX. Estou a chamar a atenção para a existência de uma inércia social que mantém a mesma estruturação arcaica das relações sociais, apesar de estas se irem travestindo de diferentes formas, nomeadamente no campo da dominação política e social. Em Portugal, parece concretizar-se a ideia que o sobrinho do Príncipe de Salinas utiliza para explicar ao tio o seu compromisso político com os revolucionários de Garibaldi: é preciso que alguma coisa mude, para que tudo fique na mesma. A verdade, todavia, é que a nossa cultura social não será muito diferente daquela que vigorava na Sicília descrita em O Leopardo. Em Portugal, muita da mudança social foi apenas travestimento e ocultação da realidade efectiva. Significa isso, então, a existência de determinados núcleos da realidade social que quase apresentam uma natureza metafísica, o que determinaria a sua persistência no tempo. Aquilo que é eterno não muda, apenas ganhas novas e diferentes aparências. Esta metafísica social está na base de um certo fatalismo que se abate sobre os portugueses, e que os conduz à saída do país ou à resignação. Muitas das dificuldades pelas quais passamos neste momento estão relacionadas com isto. Este núcleo eterno da realidade social torna-se evidente cada vez que abrimos a televisão e deparamos com mais um despedimento colectivo.

A sede que se deseja



Este belíssimo anúncio à cerveja Sagres, retirado com a devida vénia do Rua Dos Dias Que Voam, um blogue cheio de coisas destas e a visitar com regularidade, evoca em mim a primeira experiência com a cerveja (bebida da qual não sou particular adepto). Não me refiro à experiência de beber cerveja, mas de admirar a própria garrafa. Uma garrafa castanha com os símbolos e o lettring pintados a creme. Julgo que a tampa, carica, era cinzenta ou prateada com Sagres escrito a vermelho e naquelas belas letras que se vêem na imagem. Há toda uma elegância, fundada num quase despojamento de elementos icónicos, que contrasta com o ruído visual que foi crescendo ao longo dos tempos. Nas raras ocasiões que se me coloca a questão de beber uma cerveja, nunca me passa pela cabeça preterir a Sagres pela concorrência. Isso deve-se, porém, à peça de arqueologia aqui representada, a velha garrafa da Sagres. É o que faz ter espessura temporal. O slogan também é perfeito, a sede que se deseja. Ha imagens que são verdadeiros arquétipos.

06/01/10

O livro do entardecer 12 - tempestade

oiço a tempestade vinda de longe
aproxima-se coberta de flanela
e traz um ramo de orquídeas
nos braços do vento

canta ao trovejar
uma velha canção de amor
enquanto os olhos se abrem e escuto
o galopar sonâmbulo da chuva

um barco atravessa a noite
de velas embaladas pelo vento
e um enxame de pétalas desenha
a orquídea que se abre em tua mão

Sviatoslav Richter: Schubert Sonata A major


Há dias que oiço consecutivamente umas velhas gravações, reeditadas há relativamente pouco tempo pela Brilliant Classics, do grande pianista russo Sviatoslav Richter de sonatas para piano de Beethoven, Schubert e Liszt. Aqui fica uma gravação de uma sonata de Schubert (A major). Talvez explique esta audição maníaca.

Volta a saga

Volta a saga da avaliação de professores. Consta que no ano passado 83% dos professores foram avaliados com Bom. Isabel Alçada considera que o número elevado de classificados com Bom explica-se com “a tradição da atribuição desta nota aos docentes por parte de quem avalia. Para além da clara falsidade desta afirmação (como salientou Mário Nogueira, os critérios eram absolutamente objectivos e não permitiam qualquer torção subjectiva fundada ou não na tradição), o que isto demonstra é outra coisa. A enorme dificuldade de encontrar um método fiável para avaliar a função docente. O que esta gente não entende, incluindo a senhora ministra (para que lhe servirá um curso de Filosofia?), é que há coisas dificilmente avaliáveis com fiabilidade por este tipo de métodos provenientes do mundo empresarial e da burocracia de Estado. Não é por acaso que muitos países educacionalmente desenvolvidos têm métodos de avaliação largos e que permitem ae todos os professores chegarem ao topo da carreira. Esta é pensada para isso mesmo. A grande questão da qualidade dos professores não está na avaliação do seu desempenho. Está na sua formação inicial e na selecção. Por exemplo, é isso que faz a Finlândia, que nem avalia formalmente os seus professores, mas selecciona-os rigorosamente. Toda esta conversa sobre avaliação é intelectualmente indecorosa. É uma falsificação da realidade. O Estado demitiu-se durante décadas de seleccionar rigorosamente quem punha nas escolas e, agora, não tem dinheiro para pagar aos professores e inventa este tipo de ficções. Esta história cansa e a sua única finalidade, contrariamente ao que se propaga, é evitar que cheguem novos bons professores e desmoralizar aqueles que existem. Isto, depois de ter corrido com muitos dos que havia.

O poder de proximidade


A atribuição ou a confirmação de forais por parte dos soberanos correspondeu também ao seu projecto de fazer difundir a autoridade da Coroa e de firmar alianças com estas comunidades de homens livres, de modo a contrabalançar o peso dos poderes senhoriais que se faziam sentir local e regionalmente. Por sua vez, tal aliança colocou os concelhos sob a protecção régia, procurando aqueles defender-se das pressões dos senhores locais. Os habitantes dos concelhos preferiam pagar ao rei os tributos fixados por escrito no foral, quer pela posse da terra, quer pela circulação e transacção de produtos, a estarem sujeitos à arbitrariedade e aos abusos praticados pelos senhores. [Bernardo Vasconcelos e Sousa, (2009). "Idade Média", in Rui Ramos, Bernardo Vasconcelos e Sousa e Nuno Gonçalo Monteiro, História de Portugal. Lisboa: A Esfera dos Livros, pp. 73]
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Aqui podemos surpreender não apenas um reforço do que se escreveu aqui ontem sobre a questão da regionalização, mas uma das características essenciais da relação dos portugueses com o poder. Por que razão somos tendencialmente favoráveis ao centralismo? Porque tememos o arbitrário do poder que está próximo. Os portugueses desconfiam do poder, desconfiam, certamente com razão, da sua arbitrariedade. Ora o poder central é longínquo e tem um carácter abstracto e universal. Ele é preferível aos poderes mais próximos, aparentemente mais fracos, mas com uma maior capacidade de interferir na vida concreta das pessoas.

Isto revela uma outra coisa. A natureza do poder de proximidade em Portugal, ainda hoje, é dada pela capacidade de decisão arbitrária. A ocupação de determinados lugares na estruturas municipais e nas instituições locais dependentes do Estado, como escolas, hospitais, etc., não significa uma representação local de um poder abstracto e universal, que trata todos por igual, mas a possibilidade dos indivíduos e grupos locais exercerem o seu arbítrio. Não é isto, obviamente, que está consignado na lei, mas é isto que é sentido por todos.

O exemplo mais recente é o da contestação, mais ou menos surda (pois o medo está instalado), dos professores relativamente aos directores de escola. Enquanto as escolas eram dirigidas por presidentes de conselhos executivos, a arbitrariedade destes estava limitada, pois não deixavam de ser professores. A solução encontrada pelo governo anterior foi a pior possível para os professores. Não apenas lhes impôs um director, mas um director dependente dos poderes fácticos locais. Seria menos doloroso para os docentes que o director fosse estranho à comunidade local e nomeado pelo poder central. Pelo menos havia, uma aparência de universalidade e abstracção.

O triunfo nas escolas portugueses do arbitrário local tem uma consequência absolutamente devastadora para o futuro do país. As escolas, já com fraca capacidade de debate interno, são hoje em dia túmulos relativamente ao debate pedagógico e educativo. Desapareceram as condições para a divergência e para pensar contra, e para fazer de outra maneira, a não ser aquela que os poderes instalados conseguem idealizar e realizar. Uma segunda consequência, de não menor impacto no futuro, é a que deriva destes poderes existentes nas escolas, a chamada gestão intermédia ser entregues a pessoas com um pensamento extraordinariamente frágil sobre a educação e o sistema educativo, mas que, pelo princípio de autoridade, fazem calar os elementos esclarecidos, claramente minoritários, que possam existir, e que teriam capacidade crítica. As escolas ficaram sujeitas ao menos denominador comum.

A referência à escola é apenas exemplar, pois é a instituição que melhor conhecemos. Isto passar-se-á nas outras instituições. A proximidade do poder, desde a origem da nacionalidade, é sentida não como a presença do universal abstracto, mas do arbitrário concreto. Há uma profunda linha de continuidade na nossa tradição, embora na Idade Média o que estava em causa fosse a liberdade das comunidades locais perante os senhores e, hoje em dia, seja a dos indivíduos perante os poderes locais ancorados em outros indivíduos.

Em Portugal, não há um amor ao anarquismo, mas fundamentalmente um medo da arbitrariedade do outro, quando esse outro é investido por qualquer tipo de poder. Isto revela uma longa tradição de uma determinada forma de exercício de poder.

Dia de Reis

Círculo de Hugo van der Goes - La Adoración de los Magos

Hoje é dia de Reis, na tradição Católica. Revive-se o momento em que os Reis Magos vindos do Oriente adoram o Menino. Dia de desmanchar os presépios e de retirar das casas os símbolos natalícios.

Escrevi revive-se e não comemora-se pelo simples motivo de que no pensamento mítico-religioso, do qual o cristianismo, apesar dos seus elementos racionalizantes, faz parte, a festa não é apenas um reavivar da memória mas um tornar a viver um acontecimento eterno que se reflecte no espelho fracturado do tempo. É como se os Reis Magos eternamente chegassem a prestar vassalagem ao Menino. É evidente que, hoje em dia, já não se revive nem sequer se comemora coisa alguma. Mas isso é outro assunto. Fiquemos então com estranho mistério de três reis do Oriente, guiados por uma estrela, virem expressamente inclinar-se perante um recém-nascido.

05/01/10

O referendo sobre o casamento homossexual



Assim como não estive de acordo com a realização do referendo sobre o aborto, também discordo do referendo sobre o denominado casamento homossexual. O parlamento tem legitimidade suficiente para legislar sobre o facto e não me parece que 90 mil assinaturas (menos de 1% da população) sejam suficientes para que ele abdique de o fazer. Se a recolha de assinaturas tivesse uma expressão avassaladora, os partidos deveriam reflectir sobre o assunto. Neste caso, deve legislar e concentrar forças nos problemas efectivos do país.

Das propostas em jogo, gostaria que a aprovada fosse a do PSD. De facto, um casamento pressupõe um casal, e este é constituído por pessoas de sexo diferente. Mas a questão não é meramente lexical ou sequer de tradição, embora esta tenha a sua importância. Há uma diferença ontológica e uma diferença social. Por fim, há também uma questão ética. Tolerar a diferença é aceitá-la na sua natureza e na enunciação dessa mesma natureza. A insistência na confusão lexical entre o casamento de um homem e uma mulher e o reconhecimento civil da união de pessoas do mesmo sexo tem uma curiosa perversidade. Oculta a diferença daquilo que é efectivamente diferente. No fundo, chamar casamento a esse tipo de união não é mais do que um acto de intolerância perante a diferença.

Regiões, uma viagem de 800 anos


A instabilidade militar e social do reino, bem como o clima de conflitos a que não escapou o próprio Sancho I (em fricção com os bispos do Porto e de Coimbra e com sectores da nobreza), prolongaram-se até ao final da vida do monarca. De um modo geral, o rei colocou-se ao lado dos concelhos nas querelas contra os poderes senhoriais exercidos por alguns prelados, como sucedeu entre o burgo do Porto e o seu bispo em 1208. Face aos poderes concorrentes detidos pelos senhores laicos e eclesiásticos, o monarca privilegiava a aliança com as principais comunidades urbanas, elas próprias também interessadas numa regulada ligação à Coroa que as defendesse do que consideravam ser a arbitrariedade senhorial. [Bernardo Vasconcelos e Sousa, (2009). "Idade Média", in Rui Ramos, Bernardo Vasconcelos e Sousa e Nuno Gonçalo Monteiro, História de Portugal. Lisboa: A Esfera dos Livros, pp. 46/7]
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Não é transferível a situação política de Portugal medieval, com o reino ainda em fase de consolidação, para os nossos dias. Há, no entanto, elementos persistentes na estruturação política do país que devem ser pensados na sua espessura histórica. Hoje em dia, quando o governo e o partido que o apoia querem retornar à questão da regionalização, não é inútil, apesar da diferença epocal, social e civilizacional, perceber a estrutura fundacional da nacionalidade.

Se olharmos para o texto citado, encontramos três realidades políticas coexistentes. O poder real, de carácter central, o poder senhorial, laico e eclesiástico, que poderíamos dizer de carácter regional, e o poder concelhio de carácter municipal. O que acontecia é que a estrutura senhorial, de naturezar intermédia, constituía um factor de perturbação tanto do poder central (pois os senhores aspiravam vincar a sua paridade com o rei, que não seria mais do que o primeiro entre pares) como do poder concelhio (a quem aspiravam submeter à sua arbitrariedade).

Aqui está um dos principais problemas que se levanta contra a regionalização. Problema, aliás, claramente sublinhado pela história recente das regiões autónomas. As regiões que se preparam são, em princípio, uma espécie de sobre-município, de uma autarquia local de carácter regional. O problema é que isso é apenas o começo. À volta dessas super-autarquias criar-se-ão elites políticas que quererão aprofundar o carácter regional da autarquia, inventar uma cultura regional, aspirar a uma maior distribuição do poder. Haverá todas as oportunidades para que essas elites regionais se venham a comportar, tanto para com o poder central como para com o municipal, da mesma forma que o poder senhorial medieval se comportava perante o Rei e os concelhos.

Este é um problema que merece ser pensado. O que está em jogo não é apenas o enfraquecimento do poder central, e o que isso significa para os mais fracos, mas também o próprio poder municipal. O país mudou, a sociedade é radicalmente diferente, mas a espécie humana e a natureza das elites portuguesas mantiveram-se idênticas.

Público com défice de atenção

Andará bem? Eu sei que se podem fazer algumas compras via terminal multibanco, nomeadamente bilhetes de comboio ou de Expresso, mas 71 milhões de compras, no valor de 3 134 milhões de euros, é demais para os bens que o Multibanco oferece. Não confundirá o Público compras com pagamentos. Compro um livro numa livraria e pago através do Multibanco. Comprar e pagar
são coisas diferentes, ou eram.

Mas se a semântica vai revolvida pelas bandas do Público, a aritmética, então, está pelas ruas da amargura. «Seis escritores portugueses, uma brasileira, um espanhol e um mexicano são os dez finalistas do Prémio Literário Casino da Póvoa, no valor de 20 mil euros». Antigamente 6+1+1+1 somariam 9, hoje, talvez devido aos processos inflacionários acumulados, atingem o valor de 10. Os meninos andam desatentos. Uma consulta ao psicólogo talvez ajude.

04/01/10

O livro do entardecer 11 - nostalgia

de que árvore
a nostalgia é folha
do cedro do plátano
talvez do pinheiro
derramando caruma

vejo-a leve e branca
como algodão
solta-se de ti
e corre a prender-me
o coração

Ponto G, afinal não há, ou haverá?


A ciência continua a iluminar a minha existência, palavra de honra. Agora, porém, investigadores do King's College, e logo do King's College, asseveram, segurem-se bem, que o ponto G não existe. Reproduzo: «O estudo, publicado no The Journal of Sexual Medicine envolveu 1800 mulheres, com idades entre os 23 e os 83 anos, todas gémeas. Os investigadores preferiam analisar gémeas, pensando que a resposta seria parecida. No entanto, as respostas eram diferentes: enquanto algumas mulheres afirmam ter ponto G, as suas irmãs garantem que não têm. Para os cientistas, isto sugere que o ponto G é apenas um mito.» Um mito, afinal o ponto G era um mito, um objecto digno de fé, mas tão imaterial como a nossa alma. Quem sabe se o ponto G não será a alma ou parte da alma.

Para as pessoas não ficarem espiritualmente desanimadas e continuarem e empreender a busca do ponto G, eu deixo uma pista. O estudo só pode provar uma coisa. As gémeas - monozigóticas, depreende-se - não possuem ponto G. Mas as outras, as falsas gémeas e as mulheres não gémeas? Se o meu argumento não for suficiente, então recomendo a leitura, para consolo espiritual, sublinho, deste post, de Março de 2008, de Os Marlenes, um blogue brasileiro. Anuncia a descoberta científica do ponto G.

Se este tipo de investigação é muito inconclusivo sobre o objecto de estudo, digamos assim, é iluminador do nosso tipo de existência e das finalidades que orientam a nossa vidinha.

Uma história portuguesa


Esta é a História de uma unidade construída pelo poder político através dos séculos. Por isso, a narrativa teria de ser estribada pela História política, o que não significa que tivesse de ser uma simples crónica de actos dos titulares da soberania - tentámos que não fosse. O grande problema deste género de História é pressupor, como agente, uma entidade que é o produto e não a causa: a nação, a identidade nacional. Em Portugal, com as suas velhas fronteiras na Europa e a sua actual uniformidade linguística e antiga unanimidade religiosa, é fácil presumir a existência de uma comunhão precoce e imaginá-la como a manifestação de uma vontade e uma maneira de ser homogéneas e preexistentes à História. [Rui Ramos, Bernardo Vasconcelos e Sousa, Nuno Gonçalo Monteiro (2009). História de Portugal. Lisboa: A Esfera dos Livros, pp. III-IV]
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Esta foi uma das minhas prendas de Natal, das mais desejadas, diga-se. Uma História de Portugal séria intelectualmente e manejável. Temos Histórias de Portugal sérias, mas de difícil manejo. Muitos e pesados volumes. Há outras que são resumos, mas nas quais, por um motivo ou outro, falece-nos, talvez injustamente, a confiança intelectual. Esta junta ambos os bens. Comecei ontem a lê-la. É um prazer. De clara inspiração anglo-saxónica, é uma História narrativa, algo que se aproxima do género romanesco, embora se mantenha estritamente nos cânones da cientificidade próprios à disciplina. Vale a pena o investimento (ou o recebimento, neste caso). Não é um livro de consulta, é um livro de leitura obrigatória e apaixonada. O prazer da História.

Depois, há as afinidades electivas, como a que resulta de uma visão partilhada com os autores sobre a natureza de Portugal. O que a citação nos mostra é que Portugal não é o resultado de uma comunidade com identidade própria que se organiza enquanto Estado, mas o contrário. A nação e a identidade nacional são o produto de uma acção persistente das elites políticas. São elas que inventaram uma nacionalidade para poderem ter um Estado.

Em momento algum nos deveríamos esquecer deste facto. Ele é o fundamento das ínvias relações que dizemos existir entre os portugueses e o Estado. Não foram os portugueses que produziram as instituições políticas, foram estas que produziram os portugueses. Daí, o carácter paternal com que o poder sempre olha os cidadãos, e a natureza filial, uma vezes temerosa e outras irresponsável, como os cidadão se comportam perante o seu criador.

Esta é a questão essencial do nosso carácter. Não é a inveja nem o saudosismo. O traço essencial dos portugueses é a menoridade perante um pai omnipresente, um pai que é visto como origem de todos os bens e, acima de tudo, do bem principal, a existência. Eis por que não há em Portugal correntes verdadeiramente liberais, exceptuando uns pândegos semi-distraídos ou semi-analfabetos.

O drama do presente, aquele que é representado pelos partidos e pelo Presidente, nasce aqui. Do PS ao CDS, passando pelo PSD e por Cavaco, todos acham necessário diminuir o Estado, pintar a vida política e económica de tons mais liberais, todos desejam mais iniciativa e gente mais empreendedora. O problema, que o analfabetismo generalizado das elites políticas não lhes permite compreender, é que essa não é a nossa tradição. O Estado ao criar os portugueses não os criou para serem livres do Estado, mas para estarem submetidos a ele. Para tal, educou-os sistematicamente na e para a dependência. Como é que um povo criado durante quase 900 anos para ser dependente, haveria de se tornar, de um momento para o outro, num conjunto feroz de empreendedores? Contra-argumentarão, e as descobertas não mostram a nossa capacidade empreendedora? Não, mostram a visão política e a capacidade de acção da elite política da altura.

Se as elites políticas querem um povo liberal e pleno de iniciativa, então terão de o criar de forma persistente e sem concessões, coisa que não está no espírito do tempo, nem é apanágio da lógica de quem ocupa o poder político. O drama que assistimos nasce aqui, mas na verdade não é um drama, mas uma comédia de enganos. Só um pai severo poderia educar os filhos na feroz disciplina da liberdade, mas o pai não quer já ser severo e deseja a cada segundo que os filhos façam aquilo que ele quer.

Crise de narcisismo

Despudoradamente, publiquei ontem uma foto onde estava representado. Hoje adicionei uma fotografia ao blogue. Suspeito que estou a atravessar uma grave crise narcísica. Mas, para dizer a verdade, eu sou adepto de um narcisismo mais disfarçado. O que eu queria era apenas adicionar uma foto ao perfil, mas que ela não surgisse no corpo manifesto do blogue. Não consegui. Ou tenho foto em ambos os lados ou não tenho em nenhum, e já vi que há quem tenha apenas no perfil, mas não no blogue Alguém sabe, e tem a gentiliza de me dizer como se faz esse passe de mágica? Obrigado.

03/01/10

O livro do entardecer 10 - a estirpe

de que é feita a tua estirpe
perguntavas-te
se a noite caía numa imagem
de seda desbotada pelos estios

um rumor de sangue
dois feitos numa guerra esquecida
o elmo com que enfrentas
as varejeiras vindas do sul
– tudo o que resta do passado

a linhagem terminou
sem nobreza nem necessidade
erva bravia semeada ao acaso
um cacto na planície calcinada

Reconquista da liberdade


Esta adorável criancinha de babete, com aquele olhar sério e profundo, é a minha neta Vera. Colonizou, como só as potestades despóticas o sabem fazer, esta casa desde o dia 30 até hoje e submeteu-me, com os seus 15 meses, a um dos mais intensos períodos de exercício físico de que tenho memória. E eu fiz a tropa. Da pobre da avó, nem é bom falar. Para além de determinar que a sesta não deveria em caso algum ultrapassar a hora e meia, tinha como objectivo mexer em tudo o que fosse possível e ameaçar, a cada quarto de hora, partir a cabeça devido a uma manobra mais ou menos arriscada. Aliás, não seria a primeira vez que a partiria, pois na anterior passagem por cá, teve de fazer uma visita à urgência do hospital onde, na pequena cirurgia, foi brindada com quatro pontos num sobrolho. Os livros e cd's foram o principal alvo da força inimiga. Roubava dois ou três e corria com eles casa fora, comigo atrás. Ontem, para mostrar que está a crescer e a evoluir no bom sentido, decidiu tentar escalar uma das estantes. Um pé na prateleira de baixo e, agarrada a uma mais acima, tentava, sem êxito, claro, alçar o outro pé à segunda. De noite, porém, decidia compensar os decrépitos avós. Dormia a sono solto e aí por volta das 3 da manhã brindava-os com um concerto, onde a cada número interpretado se seguiam risos e palmas, para além de uma algaraviada incompreeensível, mas que se deduzia ser o comentário à actuação. Foi-se embora há pouco. A liberdade foi reconquistada, depois desta dura provação, mas a casa ficou infinitamente vazia.

Do mistério da Trindade


Este comentário do Zé Ricardo ao meu post sobre o direito à blasfémia merece mais do que uma mera resposta na caixa de comentários. Merece uma elucidação do que eu disse e uma argumentação sobre a minha posição.

Em primeiro lugar, eu não digo “que na Europa as igrejas se deverão voltar a encher”. É o Zé Ricardo que mo atribui, mas eu digo outra coisa. Digo que “julgo ser útil e necessária a presença do Cristianismo no tecido social da Europa”, e digo também que “A Europa necessita que as igrejas se voltem a encher e a prática da moral cristã, transmitida pelos evangelhos e pela tradição, ganhe preponderância. Temo que a Europa, enquanto lugar de liberdade e de razão, sem esses valores desapareça.” O verbo dever implica a ideia de um imperativo. Eu apenas refiro que seria útil e necessário para a preservação de uma certa Europa a presença do Cristianismo na sociedade e que as igrejas se voltassem a encher. Não digo que isso vá acontecer ou que tenha necessariamente de acontecer, por um decreto do destino ou da providência. Mas terá de acontecer para aquela Europa ser preservada.

Em segundo lugar, eu não preciso de ser crente católico para advogar essa necessidade. Posso ser ateu ou agnóstico, posso mesmo ser budista zen, e compreender e afirmar a necessidade dos valores cristãos para o funcionamento de uma certa ideia de Europa, ideia essa que foi formada por esses mesmos valores (aliás, os pais fundadores da União Europeia, na altura CEE, eram todos eles cristãos). É um exercício puramente intelectual. Por isso, e contrariamente ao que o Zé Ricardo afirma, eu mesmo não indo à missa em Santiago ou em S. Pedro (aliás, igrejas onde fui muitas vezes à missa até aos meus 14 ou 15 anos), tenho toda a legitimidade intelectual para fazer um juízo sobre o decurso da história, aliás um juízo meramente analítico, para utilizar a linguagem de Kant.

Em terceiro lugar, eu não afirmo que essa Europa da razão e da liberdade se vá salvar. Digo apenas que para se salvar é necessário que o Cristianismo retome a preponderância no tecido social. E deixo subentendido que se isso não acontecer, então essa Europa da razão e da liberdade perecerá. Esta é a tese problemática e não a minha incapacidade para crer no mistério da Trindade. Será possível construir uma civilização fundada na liberdade e na razão se evacuarmos o Cristianismo? Eu acho que não (o que só pode ser discutível). Porquê? Porque a razão é impotente por si só para o fazer. O que a experiência histórica tem mostrado desde o tempo do Iluminismo, nomeadamente desde o sonho kantiano da autonomia da razão, é que a razão se abisma e se mostra impotente quando desligada de uma justificação transcendente (veja-se o século XX, veja-se as experiências totalitárias). Em segundo lugar, porque a liberdade tal como a compreendemos é o fruto do Cristianismo. Isto significa que a ideia de Europa que está em jogo é aquela onde a razão se funda na liberdade, isto é, na essência do Cristianismo. Ao evacuarmos o Cristianismo, evacuamos a liberdade e deixamos a razão à deriva. Assim lançada aí, a razão não tardará a procurar âncora noutro porto. Se este porto não é o da liberdade, então só pode ser o da servidão.

Em quarto lugar, eu não digo que o destino da Europa não seja a servidão. Não sei, não sou profeta, o futuro é para mim um lugar impenetrável. O que vejo no presente não me tranquiliza. Gostaria que os meus filhos e netos, e por aí fora, vivessem num mundo livre, mas esse meu desejo não passa disso mesmo, um desejo. O Zé Ricardo já sabe que a Europa não vai tornar a ser cristã (“Pois, é este o destino da Europa. Os netos, ao contrário dos avós, já não conseguem acreditar que 2+2=5. No mundo islâmico ainda acreditam.”), eu não tenho, como já disse, o dom da profecia. Aparentemente as coisas são assim, mas será que são? Será que o jogo terminou e o resultado está feito? Acreditar na liberdade significa acreditar, apesar das evidências, num mundo em aberto. Sei que a crença na liberdade é tão inverosímil quanto a crença na Trindade, provavelmente são até a mesma crença, e descubro mesmo que os mais insuspeitos defensores da liberdade afinal crêem no destino.

O direito à blasfémia


Para aqueles que o Benfica é uma religião, esta montagem é uma blasfémia. Deveria ser proibida? Claro que não. Mas se se blasfemar contra uma religião, daquelas que fazem parte do património cultural da humanidade, deverá haver punição? Isso acontece, por exemplo, na Finlândia e vai passar a acontecer na Irlanda. Eu que não sou blasfemo, nem vejo um particular interesse na blasfémia, fico perplexo pelos caminhos que se estão a seguir. O direito a blasfemar deve ser garantido como uma das formas mais genuínas da liberdade de expressão. Por que razões? Por quatro razões.

1. Porque a blasfémia atinge apenas o núcleo das crenças de um conjunto de pessoas, mas não atinge a integridade dessas pessoas. Desrespeitar crenças não é desrespeitar pessoas. O acto de blasfemar apenas pode prejudicar, do ponto de vista da salvação eterna, o blasfemador e nunca as supostas vítimas da blasfémia. Desde que o blasfemador não tente interferir na liberdade de crer e na liberdade de praticar o culto da religião em que se acredita, nada justifica a intervenção do Estado para punir o acto de blasfémia.

2. Uma segunda razão prende-se com a intervenção estatal. Que autoridade e que critérios possui um Estado laico, ou outro qualquer, para determinar que um conjunto de crenças tem natureza religiosa e que merece, por isso, o respeito? Um Estado limita-se a aceitar a liberdade de praticar determinados cultos, mas não tem competência para determinar se eles merecem o respeito ou a derrisão de terceiros. Haverá maior blasfémia para um cristão do que negar a divindade de Jesus Cristo? Deverá, então, o Estado perseguir todos os judeus e muçulmanos que não a aceitam? Onde começa e onde acaba o acto blasfemo?

3. A blasfémia tem uma função terapêutica dentro da sociedade. As religiões são crenças no absoluto. O problema, contudo, é que essas crenças são tidas por seres relativos, os seres humanos. A fé pouco esclarecida e a ausência de um espírito crítico por parte do fiel, aliada a interesses pessoais mais ou menos obscuros, conduzem a que se dê uma valor absoluto àquilo que são apenas visões e perspectivas meramente subjectivas. A blasfémia choca o que há de humano nas religiões, mostra a irrisão das pretensões de um grupo de homens. Ao fazê-lo, relativiza as suas pretensões ao absoluto e torna uma dada Igreja (entenda-se por Igreja uma qualquer sociedade religiosa) menos agressiva, mais humilde e mais afável com a espécie humana.

4. Por fim, blasfemar é um exercício, do ponto de vista do divino, absolutamente inútil. Se Deus não existir, não poderá ser insultado pelo blasfemador. Se Deus existir, como poderá a palavra de um homem atingir a divindade? Mais, a blasfémia muitas vezes não é mais do que o reconhecimento e a glorificação, ainda que por vias negativas, do divino (lembram-se de Paulo de Tarso?). Aqueles crentes que protestam contra os blasfemadores e exigem o seu castigo público estão mais preocupados consigo do que com Deus. Devem deixar a Deus a liberdade de castigar no além aquele que blasfema, se assim o entender, e preocuparem-se em respeitar a vida dos seres humanos e serem exemplares na sua relação com os outros.

Como já escrevi várias vezes, julgo ser útil e necessária a presença do Cristianismo no tecido social da Europa. Os valores por ele veiculados são estruturantes de uma civilização fundada na liberdade. A Europa necessita que as igrejas se voltem a encher e a prática da moral cristã, transmitida pelos evangelhos e pela tradição, ganhe preponderância. Temo que a Europa, enquanto lugar de liberdade e de razão, sem esses valores desapareça. No entanto, o pior que pode acontecer é voltar a uma espécie de autos-de-fé fundados na lei civil. A punição da blasfémia é uma ingerência inaceitável do poder civil na liberdade religiosa.

02/01/10

A não ser que algo aconteça…


O mundo natural luxuriante onde o homem evoluiu está a ser transformado num ambiente largamente artificial (prosthetic). De forma crucial, num espaço de tempo humanamente relevante, esta perda da biodiversidade é irreversível. É verdade que a vida na terra recuperou a sua riqueza após a última grande extinção; mas somente após terem passado dez milhões de anos. A não ser que algo aconteça para quebrar a orientação actual, todas as futuras gerações de seres humanos viverão num mundo biologicamente mais empobrecido do que foi durante uma eternidade (for aeons). [John Gray (2004). Heresies Against Progress and Other Illusions. London: Granta Books, pp. 33]

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O que dá que pensar nesta citação de John Gray não é a constatação da perda da biodiversidade. Tão pouco a ideia de um ambiente cada vez mais artificial. Aliás, a ideia de Gray remete para um ambiente protésico, isto é, pleno de próteses. O que dá que pensar é a expressão “A não ser que algo aconteça…”(Unless something occurs…). O que poderá acontecer para levar os homens a alterar a forma como colonizam o planeta? Há aqui o reconhecimento dos limites do entendimento humano, a confissão de que é necessário que algo de exterior ao homem surja, para que este altere a orientação que imprime à sua própria vida, como aliás se viu pelo magros ou nulos resultados da conferência de Copenhaga. Mas este “a não ser que algo aconteça…” inscreve o céptico filósofo inglês numa tradição pouco considerada filosoficamente, a do profetismo do Antigo Testamento. No “a não ser que algo aconteça…” pensa-se já a catástrofe a vir, o castigo de um Deus irado com os seus filhos. Quando a pura imanência se mostra impotente para travar os desvarios humanos, o que lhes resta? O recurso à transcendência, ao exógeno, ao totalmente outro.

Um retrato da pátria (2)


O que terá a ver o retrato de 1966, feito mais abaixo, com o facto de haver dois milhões de portugueses (20% da população), que seriam quatro milhões se não fosse as ajudas do Estado, a viver em situação de pobreza? A crise em Portugal não é meramente conjuntural. Resulta de uma atitude política e social, onde a relação entre os portugueses, as elites políticas e a instrução geral tem um peso enorme e absolutamente nefasto. Salazar disseminou o desprezo pela instrução entre as camadas populares. A democracia disseminou o desprezo pelo esforço dentro da escolarização. Como não podia deixar de ser, há muito em comum na percepção da realidade por parte dos dirigentes políticos antes e após o 25 de Abril. Os resultados são os 4 milhões de pobres (40% da população), declarados ou disfarçados.

01/01/10

Um retrato da pátria

Graças ao Zé Ricardo, sempre atento a estes e outros fenómenos, cheguei aqui, de onde copiei esta interessante montagem de ficheiros de aspirantes a artistas (clique na imagem para ampliar e ler), da revista Plateia, do ano de 1966. Não há nada de especial que gente entre os 17 e os 24 anos aspirasse, naqueles dias, a ser artista. O que a Plateia então fazia fazem-no hoje as televisões generalistas. Mas se se olhar bem os ficheiros temos um retrato do Portugal salazarista. Não me estou a referir às fotografias ou à altura dos candidatos (varia entre 1,53m e um 1,75m). Hoje somos um povo mais crescido, todos sabemos isso, mas da altura não vem mal ao mundo. Repare-se, porém, nas habilitações literárias dos jovens pré-artistas. Em seis candidatos só um tem mais do que a antiga 4.ª classe, chegou ao 2.º ano comercial, o equivalente ao actual 8.º ano de escolaridade. Ter mais do que a 4.ª classe, em Portugal no ano de 1966, era uma absoluta excepção. Fiz, em Setembro desse ano, dez anos. Tinha concluído em Julho a 4.ª classe. A maioria dos meus colegas de turma terminou naquele instante a sua formação escolar, reproduzindo o padrão das gerações anteriores, nascidas nos anos 40. Há qualquer coisa na Educação que, desde há muito tempo, não funciona neste país.

O alelo 334


Como estive fora, só hoje dei por esta agradável notícia. Ficamos assim a saber que, segundo a psicóloga francesa Maryse Vaillant, a infidelidade masculina pode ajudar a salvar o casamento. Mas as coisas não ficam por aqui. Nós, os que pertencemos ao sexo masculino, não só podemos ser infiéis - para salvar o casamento, entenda-se -, como se o não formos é caso para desconfiar: «os homens que não têm casos extraconjugais podem ter “uma fraqueza de carácter”.» E qual é o homem que quer ter uma fraqueza de carácter? A sábia psicóloga esclarece: «Por norma, estes homens tiveram "um pai que era fisicamente ou moralmente ausente", e desta forma, "têm uma visão completamente idealizada da figura do pai e da função paternal. Eles não têm flexibilidade e são prisioneiros de uma imagem idealizada das funções do homem”. »

Dirá o leitor, ou a leitora, que tudo isso são especulações de uma ciência espúria, a Psicologia. São preconceitos actuais contra preconceitos antigos. Eu concordo, mas o problema é outro. Estava eu à procura de uma imagem para ilustrar este post e descubro isto: «A culpa da infidelidade masculina pode ser… dos genes. À primeira vista parece uma desculpa de um marido adúltero, mas cientistas suecos confirmam esta teoria. Segundo os investigadores do Instituto Karolinska de Estocolmo os homens que possuem um determinado gene, o alelo 334, têm mais tendência a cometer a fatídica “facada” no matrimónio. Um dos cientistas responsáveis pelo estudo afirma que “os homens que possuem uma ou duas cópias desta variação especifica no gene, têm o dobro das hipóteses de experimentar problemas com relações monogâmicas”.»

As especulações psicológicas parecem então fundar-se na pesquisa genética. O que me aborrece no meio disto tudo, porém, é que as minhas hipotéticas infidelidade ou fidelidade, mais ou menos canina, não se deverão nem a um estado passional nem ao meu livre-arbítrio, mas ao facto de possuir ou não uma ou várias cópias do alelo 334. Que depressão! Um infiel que se preze até perde a vontade de o ser ao pensar que aquilo não é ele, mas o alelo 334 em acção. Com tudo isto é a liberdade que se vai. Como compensação, naqueles países onde existe a civilizada prática de lapidação de adúlteros, passam apenas a apedrejar as mulheres (que definitivamente não têm alelo 334 e logo nada justifica a infidelidade) e os alelos 334.

Faltam os Reis, mas...


Está consumado. Ainda falta o Dia de Reis, mas a esse já ninguém liga, pelo menos por cá. É pena, pois simbolicamente tem um sentido muito interessante. Não estou a falar de religião, mas de política. Três potestades vindas do Oriente vêm prestar vassalagem ao Menino, a um novo poder que reinará no Ocidente. Por um daqueles acasos que a História amamenta no seu seio sem explicar a razão, enquanto a religião nascida daquele Menino foi operativa no Ocidente, este tornou-se no lugar mais civilizado, criativo e no maior poder à escala global. Agora que todos rejubilam com o facto de vivermos numa época pós-cristã, em que o Cristianismo é apenas uma religião como outra qualquer (ou inferior a outra qualquer), nenhum rei vindo do Oriente está disposto a prestar homenagem ao Ocidente. Se o puderem fazer explodir, terão nisso o maior dos prazeres. Que o novo ano seja leve para todos.

31/12/09

O livro do entardecer - o fim do ano

chegou o fim do ano
vem adornado de metáforas
e um véu cobre-lhe os cabelos

enrugado transpira de cansaço
e procura na noite uma cama
onde verá a eternidade

um sono leve como o dos pássaros
desejam-lhe os homens
enquanto bebem champanhe
e devoram passas

entre bocejos e libações
o ano prepara-se para dormir
não sabe se tem um destino
ou se as cinzas são a luz
que lhe resta ao partir

Do saudável e do patológico



Não é a questão de saber se a homossexualidade é uma doença que me interessa (ver aqui e aqui). O que é interessante neste tipo de debate público é o papel da saúde e da doença, esses obscuros conceitos que atormentam os nossos sonhos mais agradáveis. Há, certamente, definições técnicas para o que é um estado patológico. A Organização Mundial de Saúde (OMS) tem uma classifcação internacional de doenças, que definirá a doença segundos critérios técnico-científicos. A questão, porém, é outra. Do ponto de vista da natureza em geral, não existem estados patológicos. Os processos naturais sucedem-se uns aos outros e, de um ponto de vista global, é indiferente que eu vença um determinado vírus ou que esse vírus me mate.

A doença, ou os estados patológicos, é assim uma questão antropológica, um problema do homem. Por isso, a doença e a saúde são sobre-investidos com os nossos preconceitos e aspirações sociais e definidos segundo critérios políticos (os critérios técnicos da OMS são claramente critérios políticos, se consideraramos que, hoje em dia nas sociedades modernas, só são politicamente aceitáveis os critérios definidos de forma técnico-científica), os quais representam esses mesmos preconceitos e aspirações. Se o critério do saudável e do patológico teve um papel fundamental na instituição dos asilos psiquiátricos, por exemplo, ele não desapareceu de então para cá. Continuamos a assistir a uma intensificação da intervenção social fundada nessa separação. Num tempo em que a dominação técnica sobre a natureza humana, nomeadamente através da descodificação do ADN, se tornou avassaladora, a definição do saudável e do patológico vai ser um dos campo essenciais da nossa vida em comunidade, isto é, da nossa vida política.

Retomando a questão do início, a definição da homossexualidade como uma não patologia é tão política como a definição contrária, aquela que a propunha como uma doença, apenas os preconceitos que estribam uma ou outra decisão são diferentes. É evidente que os médicos psiquiatras referidos nos links mais acima jamais reconhecerão que a sua posição é fruto de um preconceito. Jamais um preconceito se reconhece enquanto tal, é esta uma das suas facetas. O que a humildade nos aconselharia seria então reconhecer que há diferentes tipos de preconceitos, e uns são mais úteis em determinado momento social, ou que estão mais de acordo com o espírito da época, do que outros. Contrariamente ao que se possa pensar, este tipo de pronunciamento técnico-científico não é apenas uma forma de luta contra um preconceito em desacordo com o Zeitgeist, é também uma manifestação, de natrueza não consciente, de um sintoma de mal-estar com o novo preconceito. Onde se encontra esse sintoma? Na necessidade de lhe dar, ao novo preconceito, uma fundamentação técnico-científica, tornando-o aos olhos da opinião pública, pouco versada na revisibilidade da ciência, uma aura de verdade definitiva e absoluta.

30/12/09

Libreria Beta - Sevilla



Já há uns anos que não dava um salto a Sevilha, a minha cidade preferida na Península Ibérica, depois de Lisboa, claro. Passei lá duas noites e três dias, como agora se diz. Nunca parou de chover, a não ser hoje quando saí. Os espanhóis convenceram-me definitivamente. Faça chuva ou sol, frio ou calor, as ruas estão cheias de gente, bem como os bares e restaurantes. Há uma grande alegria em viver e um prazer enorme em ser espanhol (eu sei que noutros lados dispensam esta última parte).

Aproveitando a desculpa das chuvas, às vezes bem intensas, lá me meti pelas livrarias dentro. Descobri esta, Libreria Beta. Onde? Num antigo teatro. As fotos (retiradas da Internet) mostram o palco (ao fundo, estão os clássicos da literatura greco-latina, espanhola e universal). Na outra foto vê-se a antiga plateia (do lado esquerdo estão as estantes dedicadas à filosofia, bem recheadas de livros, quase sempre traduções em castelhano). Avista-se também o balcão, todo ele dedicado aos livros de bolso, onde encontramos quase de tudo a preços bem suportáveis. Apesar da Libreria Beta pertencer à maior cadeia de livrarias de Sevilha (existindo também noutras cidades), recomenda-se esta na Calle Sierpes, 25. Um espaço muito agradável e onde se pode respirar.

27/12/09

Descanso

Por motivos de força menor, mas mesmo assim de força, este blogue só volta à vida, se tudo correr bem, lá para o último dia do ano.

26/12/09

O livro do entardecer 8

tivera um corpo e seria poeta
escreveria sob o efeito
dos perfumes da noite
e o meu ânimo treparia a escarpa
que conduz ao lugar
onde o medo nunca dorme

um relâmpago levou-me o temor
e com ele a carne que dizemos corpo

vagueio assim por florestas de pedra
sento-me no portal onde avisto o mar
e por vezes oiço o meu nome

ao virar-me o deserto espera por mim

John Gray - A Ilusão do Progresso



A ilusão do progresso foi, algumas vezes, benigna. Inspirou alguns avanços sociais genuínos, como a abolição da tortura nos processos judiciais. (Ironicamente, como refiro no Capítulo 15, alguns liberais americanos argumentam, agora, a favor da sua reintrodução.) Mesmo assim, acredito que ela [a ilusão do progresso] se tornou perniciosa. Qualquer que tenha sido o seu papel no passado, a crença no progresso tornou-se num mecanismo de auto-decepção que apenas serve para bloquear a percepção dos males que vêm com o crescimento do conhecimento. Em contraste, os mitos da religião são cifras que contém a verdade da condição humana. [John Gray (2004). Heresies Against Progress and Other Illusions. London: Granta Books, pp. 5]
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Como o próprio Gray esclarece, a questão da ilusão na crença do progresso refere-se ao progresso ético e político da humanidade. A ciência e a técnica progridem efectivamente. Há um acumular de conhecimentos científicos e um acréscimo do poder técnico da humanidade. Não há, concomitantemente a este progresso do conhecimento da natureza e dos mecanismos sociais, uma transformação da natureza humana. A realidade humana mantém-se inalterada bem como a sua conduta moral e política. A grande ilusão dos séculos XIX e XX residiu na ideia de uma transformação política da qualidade moral dos homens. Tanto o marxismo como o liberalismo, esses dois irmãos inimigos nascidos das entranhas do Iluminismo, propagaram essa fé, com os resultados que se conhecem.

Parece-me, no entanto, que está a emergir, de forma insidiosa mas nem por isso menos ameaçadora, uma nova abordagem do problema. Gray refere que a crença no progresso [moral e político] bloqueia a percepção dos males que provêm do acréscimo do conhecimento científico, com o poder desmesurado que esse conhecimento confere à capacidade de violência da humanidade. Mas o que se está a passar é algo mais perigoso. O próprio mal moral, e posteriormente o mal político, irão ser colonizados pela ciência. Não uma ciência do mal, mas uma ciência dos comportamentos patológicos. O mal não derivará da liberdade humana e da responsabilidade do agente (uma perspectiva de claro pendor cristão, coisa fora de moda, como tudo o que tenha a ver com a liberdade), mas de uma falta de sanidade.

Ao transformar o mal numa questão de saúde pública, está a legitimar-se a intervenção da ciência. Isso começou já há muito, nomeadamente nas áreas da psicologia e da psiquiatria. A psicanálise, por exemplo, é um momento singularmente importante na escalada da transformação do mal moral em problema de saúde mental ou comportamental. Mas como já está a descobrir-se, este tipo de intervenção é apenas o prenúncio de uma intervenção mais radical e decisiva. A lobotomização, que valeu o único prémio Nobel a um cientista português, é um antepassado remoto do que se prepara. A chave reside no domíno do código genético. Mais tarde ou mais cedo, emergirão projectos de determinação da estrutura genética que, por exemplo, determina comportamentos violentos ou comportamentos socialmente reprováveis.

A tentação subliminar é então a seguinte: fazer com a ciência aquilo que a política não conseguiu: gerar por intervenção científica um progresso moral e político da humanidade. Isso já pode ser pensado e aquilo que é pensado, mais tarde ou mais cedo, é tentado. Por muito rudimentar que ainda seja o saber genético, é já posível surpreender no Zeitgeist a ideia de uma metamorfose da espécie humana. Esta metamorfose não é, nem de perto nem de longe, semelhante àquela que as doutrinas místicas, ou mesmo a filosofia platónica, propõem. Estas são conversões pessoais radicadas na auto-descoberta e num processo de libertação pessoal do egoísmo. Aquilo que  está em jogo, porém, não tem este carácter benigno. Visa uma intervenção na própria natureza humana para a alterar radicalmente, visa o desenho efectivo de uma pós-humanidade, numa espécie que se liberta definitivamente do mito da criação, e dos que lhe estão associados, para uma espécie auto-concebida, isto é, auto-produzida, auto-criada.

25/12/09

Fra Angélico - Natividad


24/12/09

Bom Natal



Esta é a noite em que o absoluto se torna relativo, o infinito devém finito, o divino nasce humano. Um bom Natal para todos os que passem por aqui.

O livro do entardecer 7 - soneto

de que vale a vida
se o perigo não espreitar na clareira
e a floresta for apenas um mar
de palavras secas e exaustas

poucas foram as coisas que amei
uma casa branca a vertigem ante o abismo
o galope das horas na torre da igreja
a promessa de neve nunca cumprida

amei-as no terror que traziam
ou no segredo que crescia
mal o jardineiro as podava para mim –

cortava imagens limpava visões
gritava contra a glória da manhã –
até florescerem na primavera

La Nativité du Seigneur: La vierge et l'enfant (Olivier Latry o orgue)


Botticelli - Natividad Mística (1500)


23/12/09

O livro do entardecer 6 – a casa onde vi a infância

perdi a casa onde vi a infância
levou-a o tempo
com a sua mão de seda
e um gesto de bandeiras ao vento

nada sei do braço magoado
ou das ervas que me inundaram
de luz os olhos
– esqueci e é tudo

apenas vejo uma espada de âmbar
sobre a cabeça de um centauro
e um fulgor de aço na lâmina
que por mim então passou

Olivier Messiaen - Dieu parmi nous


Maestro de la Natividad del Louvre - The Nativity


22/12/09

O livro do entardecer 5

nada sei do firmamento
dessa terra de cristal
onde sonhei nuvens e astros
princesas ao deus-dará

órfão caminho sem destino
e aspiro o pó
naquele lugar onde ouvi
o último bêbado cantar

na vastidão que nos coube
sento-me à espera
do canto da cotovia
ou de um deus que virá

Chris Potter's "Underground" - Ultrahang [2009]


A catolicidade de Shakespeare



Um dia William Shakespeare, talvez farto da sua Stratford natal, decidiu ir dar uma curva. Estávamos no ano de 1585. Só apareceu, em Londres, em 1592. Um mistério de sete anos na vida do bom William. Aventa-se, agora, a hipótese de se ter dirigido a Roma como cripto-católico, num tempo em que os ares não estavam lá muito respiráveis, em Inglaterra, para os papistas. Seja como for, aquilo que fez depois, no âmbito literário, bem pode ser considerado um verdadeiro milagre. Mistérios destes só podem ser resolvidos, porém, por métodos drásticos. Perguntem ao Shakespeare, talvez ele responda. Pelo twitter, claro. Com ida ou não a Roma, ele tornou-se mesmo católico, isto é, verdadeiramente universal.

Clássicos da Política



Clássicos da Política é uma colecção onde se reúnem algumas das obras fundamentais do pensamento político ocidental. Iniciativa conjunta da Temas e Debates e do Círculo de Leitores, estas obras apresentam um tradução cuidada e uma introdução útil. Foram publicadas, desde 2008, os seguintes volumes: O Político, de Platão; Tratado da República, de Cícero; O Príncipe, de Maquiavel; Tratado Político, de Espinosa; Testamento Político, de Richelieu; Contrato Social, de Rousseau; O que é o Terceiro Estado, de Sieyes; Defesa da Sociedade Natural, de Burke. Estão previstos 18 de Brumário, de Marx, e O Estado Comercial Fechado, de Fichte. Outra colecção de textos políticos a não perder. Julgo que alguns destes textos se encontram já esgotados.

Piero della Francesca - La Natividad (1472)


21/12/09

O livro do entardecer 4 - a tarde

entardece
carros passam na avenida
e ao longe avisto a noiva
que um dia abandonei no altar

traz um vestido branco – seda e organdi
na mão o ramo de flor de laranjeira
e uma sombra pela face anuncia
a noite que não chegará

olho as mãos vazias
de onde fugiu a noiva que esqueci
e tenho medo que a tarde acabe
e uma súbita presença de pedra
me abra a porta pela qual nunca saí

Alfred Schnittke - Polka from Gogol Suite - Play Gidon Kremer and Kremerata Baltica