10/01/10
09/01/10
O livro do entardecer 15
quando vieram as chuvas
ficaram as ruas alagadas
e os rios sem capitão
perderam-se ociosos
no além-margem
à janela deixo que o mundo
envolva os meus olhos
e me faça crer na existência
mas só vejo chuva e águas
e oiço a sombra das nuvens
a sucumbir em ruas de pedra
onde cresce a desolação
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Keith Jarrett - Autumn Leaves
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Marcadores: Música
A força do Benfica
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O professor como autoridade pública
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08/01/10
O livro do entardecer 14 - eternidade
nas ruas onde havia
uma sombra de eternidade
a melancolia vinha devagar
poisar no dorso da tarde
um punhal feria a palidez
com que a luz se despedia
e tudo se silenciava
na oscilação que a vida trazia
um restolhar de folhas
passos alvoraçados
e as horas tristes que passavam
para morrer na eternidade
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Toro Takemitsu - Requiem
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Marcadores: Música
Tornei-me um Kindle-man
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Marcadores: Ocasionália
A democracia nas escolas
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Jornal Torrejano, 8 de Janeiro de 2010

Online encontra-se já a edição semanal do Jornal Torrejano.
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Marcadores: Jornal Torrejano
Diferença entre Portugal e Espanha
No dia 29 de Novembro, comprei numa livraria portuguesa on-line um livro de que necessitava. Estamos a 8 de Janeiro e ainda não o recebi. Anteontem, enviei um email para saber o que se passava. Ainda não recebi qualquer resposta.
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Marcadores: Sociedade
Um dia de paz e amor
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07/01/10
O livro do entardecer 13
apaga-se a luz do inverno
uma melodia serena repousa
no canto da noite
e a água ao arder incendeia
de silêncio a tua voz
serás assim tão leve
os cabelos na treva
e a canção aberta na boca
ecoam como um velho navio
ao afastar-se do cais
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Ainda o referendo sobre o casamento homossexual
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Exercícios de travestimento
Independentemente da origem, da localização e mesmo da dimensão dos concelhos, o respectivo território englobava a vila (ou a cidade) e o termo ou alfoz. A primeira era a principal povoação, o centro da organização municipal, a sede política e administrativa; o segundo era a área em redor, com os seus campos de cultivo e terras bravias, onde podiam situar-se aldeias administrativamente dependentes da vila cabeça do concelho. Esta divisão reflecte uma hierarquia na organização social do espaço, uma vez que os vizinhos que habitavam na vila gozavam de melhores condições, tanto económicas como administrativas e judiciais, face aos habitantes do termo; mas, numa sociedade predominantemente rural, reflectia também a complementaridade existente entre o núcleo urbano e o campo, com este a ser imprescindível para o abastecimento alimentar do conjunto da população. Apesar da subordinação administrativa do termo à vila, apesar das por vezes gritantes desigualdades estipuladas no próprio foral entre os que residiam numa área ou na outra, o concelho só podia existir em função dessas duas componentes. [Bernardo Vasconcelos e Sousa, (2009). "Idade Média", in Rui Ramos, Bernardo Vasconcelos e Sousa e Nuno Gonçalo Monteiro, História de Portugal. Lisboa: A Esfera dos Livros, pp. 73/4]
--------------------
Estamos a falar, nesta citação, do Portugal medieval, praticamente na origem da nacionalidade. O espantoso, porém, é que pessoas da minha idade, e até mais novas, conheceram bem esta realidade e esta estruturação das relações intra-concelhias. No século XX, mesmo em concelhos bem industrializados, como era o caso do de Torres Novas, a vida dentro do concelho não apresentava estruturas muito diferenciadas daquelas que são descritas para a Idade Média. É evidente que há diferenças assinaláveis, nomeadamente diferenças tecnológicas, comunicacionais e sociais. Mas a matriz essencial manteve-se praticamente até ao 25 de Abril de 1974.
Não estou a dizer que Portugal era um país medieval no final do século XX. Estou a chamar a atenção para a existência de uma inércia social que mantém a mesma estruturação arcaica das relações sociais, apesar de estas se irem travestindo de diferentes formas, nomeadamente no campo da dominação política e social. Em Portugal, parece concretizar-se a ideia que o sobrinho do Príncipe de Salinas utiliza para explicar ao tio o seu compromisso político com os revolucionários de Garibaldi: é preciso que alguma coisa mude, para que tudo fique na mesma. A verdade, todavia, é que a nossa cultura social não será muito diferente daquela que vigorava na Sicília descrita em O Leopardo. Em Portugal, muita da mudança social foi apenas travestimento e ocultação da realidade efectiva. Significa isso, então, a existência de determinados núcleos da realidade social que quase apresentam uma natureza metafísica, o que determinaria a sua persistência no tempo. Aquilo que é eterno não muda, apenas ganhas novas e diferentes aparências. Esta metafísica social está na base de um certo fatalismo que se abate sobre os portugueses, e que os conduz à saída do país ou à resignação. Muitas das dificuldades pelas quais passamos neste momento estão relacionadas com isto. Este núcleo eterno da realidade social torna-se evidente cada vez que abrimos a televisão e deparamos com mais um despedimento colectivo.
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A sede que se deseja
Este belíssimo anúncio à cerveja Sagres, retirado com a devida vénia do Rua Dos Dias Que Voam, um blogue cheio de coisas destas e a visitar com regularidade, evoca em mim a primeira experiência com a cerveja (bebida da qual não sou particular adepto). Não me refiro à experiência de beber cerveja, mas de admirar a própria garrafa. Uma garrafa castanha com os símbolos e o lettring pintados a creme. Julgo que a tampa, carica, era cinzenta ou prateada com Sagres escrito a vermelho e naquelas belas letras que se vêem na imagem. Há toda uma elegância, fundada num quase despojamento de elementos icónicos, que contrasta com o ruído visual que foi crescendo ao longo dos tempos. Nas raras ocasiões que se me coloca a questão de beber uma cerveja, nunca me passa pela cabeça preterir a Sagres pela concorrência. Isso deve-se, porém, à peça de arqueologia aqui representada, a velha garrafa da Sagres. É o que faz ter espessura temporal. O slogan também é perfeito, a sede que se deseja. Ha imagens que são verdadeiros arquétipos.
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Marcadores: Blogosfera, Memorália
06/01/10
O livro do entardecer 12 - tempestade
oiço a tempestade vinda de longe
aproxima-se coberta de flanela
e traz um ramo de orquídeas
nos braços do vento
canta ao trovejar
uma velha canção de amor
enquanto os olhos se abrem e escuto
o galopar sonâmbulo da chuva
um barco atravessa a noite
de velas embaladas pelo vento
e um enxame de pétalas desenha
a orquídea que se abre em tua mão
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Sviatoslav Richter: Schubert Sonata A major
Há dias que oiço consecutivamente umas velhas gravações, reeditadas há relativamente pouco tempo pela Brilliant Classics, do grande pianista russo Sviatoslav Richter de sonatas para piano de Beethoven, Schubert e Liszt. Aqui fica uma gravação de uma sonata de Schubert (A major). Talvez explique esta audição maníaca.
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Marcadores: Música
Volta a saga
Volta a saga da avaliação de professores. Consta que no ano passado 83% dos professores foram avaliados com Bom. Isabel Alçada considera que o número elevado de classificados com Bom explica-se com “a tradição da atribuição desta nota aos docentes por parte de quem avalia. Para além da clara falsidade desta afirmação (como salientou Mário Nogueira, os critérios eram absolutamente objectivos e não permitiam qualquer torção subjectiva fundada ou não na tradição), o que isto demonstra é outra coisa. A enorme dificuldade de encontrar um método fiável para avaliar a função docente. O que esta gente não entende, incluindo a senhora ministra (para que lhe servirá um curso de Filosofia?), é que há coisas dificilmente avaliáveis com fiabilidade por este tipo de métodos provenientes do mundo empresarial e da burocracia de Estado. Não é por acaso que muitos países educacionalmente desenvolvidos têm métodos de avaliação largos e que permitem ae todos os professores chegarem ao topo da carreira. Esta é pensada para isso mesmo. A grande questão da qualidade dos professores não está na avaliação do seu desempenho. Está na sua formação inicial e na selecção. Por exemplo, é isso que faz a Finlândia, que nem avalia formalmente os seus professores, mas selecciona-os rigorosamente. Toda esta conversa sobre avaliação é intelectualmente indecorosa. É uma falsificação da realidade. O Estado demitiu-se durante décadas de seleccionar rigorosamente quem punha nas escolas e, agora, não tem dinheiro para pagar aos professores e inventa este tipo de ficções. Esta história cansa e a sua única finalidade, contrariamente ao que se propaga, é evitar que cheguem novos bons professores e desmoralizar aqueles que existem. Isto, depois de ter corrido com muitos dos que havia.
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O poder de proximidade
A atribuição ou a confirmação de forais por parte dos soberanos correspondeu também ao seu projecto de fazer difundir a autoridade da Coroa e de firmar alianças com estas comunidades de homens livres, de modo a contrabalançar o peso dos poderes senhoriais que se faziam sentir local e regionalmente. Por sua vez, tal aliança colocou os concelhos sob a protecção régia, procurando aqueles defender-se das pressões dos senhores locais. Os habitantes dos concelhos preferiam pagar ao rei os tributos fixados por escrito no foral, quer pela posse da terra, quer pela circulação e transacção de produtos, a estarem sujeitos à arbitrariedade e aos abusos praticados pelos senhores. [Bernardo Vasconcelos e Sousa, (2009). "Idade Média", in Rui Ramos, Bernardo Vasconcelos e Sousa e Nuno Gonçalo Monteiro, História de Portugal. Lisboa: A Esfera dos Livros, pp. 73]
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Aqui podemos surpreender não apenas um reforço do que se escreveu aqui ontem sobre a questão da regionalização, mas uma das características essenciais da relação dos portugueses com o poder. Por que razão somos tendencialmente favoráveis ao centralismo? Porque tememos o arbitrário do poder que está próximo. Os portugueses desconfiam do poder, desconfiam, certamente com razão, da sua arbitrariedade. Ora o poder central é longínquo e tem um carácter abstracto e universal. Ele é preferível aos poderes mais próximos, aparentemente mais fracos, mas com uma maior capacidade de interferir na vida concreta das pessoas.
Isto revela uma outra coisa. A natureza do poder de proximidade em Portugal, ainda hoje, é dada pela capacidade de decisão arbitrária. A ocupação de determinados lugares na estruturas municipais e nas instituições locais dependentes do Estado, como escolas, hospitais, etc., não significa uma representação local de um poder abstracto e universal, que trata todos por igual, mas a possibilidade dos indivíduos e grupos locais exercerem o seu arbítrio. Não é isto, obviamente, que está consignado na lei, mas é isto que é sentido por todos.
O exemplo mais recente é o da contestação, mais ou menos surda (pois o medo está instalado), dos professores relativamente aos directores de escola. Enquanto as escolas eram dirigidas por presidentes de conselhos executivos, a arbitrariedade destes estava limitada, pois não deixavam de ser professores. A solução encontrada pelo governo anterior foi a pior possível para os professores. Não apenas lhes impôs um director, mas um director dependente dos poderes fácticos locais. Seria menos doloroso para os docentes que o director fosse estranho à comunidade local e nomeado pelo poder central. Pelo menos havia, uma aparência de universalidade e abstracção.
O triunfo nas escolas portugueses do arbitrário local tem uma consequência absolutamente devastadora para o futuro do país. As escolas, já com fraca capacidade de debate interno, são hoje em dia túmulos relativamente ao debate pedagógico e educativo. Desapareceram as condições para a divergência e para pensar contra, e para fazer de outra maneira, a não ser aquela que os poderes instalados conseguem idealizar e realizar. Uma segunda consequência, de não menor impacto no futuro, é a que deriva destes poderes existentes nas escolas, a chamada gestão intermédia ser entregues a pessoas com um pensamento extraordinariamente frágil sobre a educação e o sistema educativo, mas que, pelo princípio de autoridade, fazem calar os elementos esclarecidos, claramente minoritários, que possam existir, e que teriam capacidade crítica. As escolas ficaram sujeitas ao menos denominador comum.
A referência à escola é apenas exemplar, pois é a instituição que melhor conhecemos. Isto passar-se-á nas outras instituições. A proximidade do poder, desde a origem da nacionalidade, é sentida não como a presença do universal abstracto, mas do arbitrário concreto. Há uma profunda linha de continuidade na nossa tradição, embora na Idade Média o que estava em causa fosse a liberdade das comunidades locais perante os senhores e, hoje em dia, seja a dos indivíduos perante os poderes locais ancorados em outros indivíduos.
Em Portugal, não há um amor ao anarquismo, mas fundamentalmente um medo da arbitrariedade do outro, quando esse outro é investido por qualquer tipo de poder. Isto revela uma longa tradição de uma determinada forma de exercício de poder.
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Dia de Reis
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Marcadores: Religião
05/01/10
O referendo sobre o casamento homossexual
Assim como não estive de acordo com a realização do referendo sobre o aborto, também discordo do referendo sobre o denominado casamento homossexual. O parlamento tem legitimidade suficiente para legislar sobre o facto e não me parece que 90 mil assinaturas (menos de 1% da população) sejam suficientes para que ele abdique de o fazer. Se a recolha de assinaturas tivesse uma expressão avassaladora, os partidos deveriam reflectir sobre o assunto. Neste caso, deve legislar e concentrar forças nos problemas efectivos do país.
Das propostas em jogo, gostaria que a aprovada fosse a do PSD. De facto, um casamento pressupõe um casal, e este é constituído por pessoas de sexo diferente. Mas a questão não é meramente lexical ou sequer de tradição, embora esta tenha a sua importância. Há uma diferença ontológica e uma diferença social. Por fim, há também uma questão ética. Tolerar a diferença é aceitá-la na sua natureza e na enunciação dessa mesma natureza. A insistência na confusão lexical entre o casamento de um homem e uma mulher e o reconhecimento civil da união de pessoas do mesmo sexo tem uma curiosa perversidade. Oculta a diferença daquilo que é efectivamente diferente. No fundo, chamar casamento a esse tipo de união não é mais do que um acto de intolerância perante a diferença.
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Regiões, uma viagem de 800 anos
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Público com défice de atenção
Andará bem? Eu sei que se podem fazer algumas compras via terminal multibanco, nomeadamente bilhetes de comboio ou de Expresso, mas 71 milhões de compras, no valor de 3 134 milhões de euros, é demais para os bens que o Multibanco oferece. Não confundirá o Público compras com pagamentos. Compro um livro numa livraria e pago através do Multibanco. Comprar e pagarsão coisas diferentes, ou eram.
Mas se a semântica vai revolvida pelas bandas do Público, a aritmética, então, está pelas ruas da amargura. «Seis escritores portugueses, uma brasileira, um espanhol e um mexicano são os dez finalistas do Prémio Literário Casino da Póvoa, no valor de 20 mil euros». Antigamente 6+1+1+1 somariam 9, hoje, talvez devido aos processos inflacionários acumulados, atingem o valor de 10. Os meninos andam desatentos. Uma consulta ao psicólogo talvez ajude.
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Marcadores: Ocasionália
04/01/10
O livro do entardecer 11 - nostalgia
de que árvore
a nostalgia é folha
do cedro do plátano
talvez do pinheiro
derramando caruma
vejo-a leve e branca
como algodão
solta-se de ti
e corre a prender-me
o coração
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Marcadores: Poesia, Poesia - em mim
Ponto G, afinal não há, ou haverá?
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Marcadores: Admirável Mundo Novo, Ciência, Sociedade
Uma história portuguesa
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Crise de narcisismo
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Marcadores: Ocasionália
03/01/10
O livro do entardecer 10 - a estirpe
de que é feita a tua estirpe
perguntavas-te
se a noite caía numa imagem
de seda desbotada pelos estios
um rumor de sangue
dois feitos numa guerra esquecida
o elmo com que enfrentas
as varejeiras vindas do sul
– tudo o que resta do passado
a linhagem terminou
sem nobreza nem necessidade
erva bravia semeada ao acaso
um cacto na planície calcinada
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Reconquista da liberdade
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Marcadores: Ocasionália
Do mistério da Trindade
Em primeiro lugar, eu não digo “que na Europa as igrejas se deverão voltar a encher”. É o Zé Ricardo que mo atribui, mas eu digo outra coisa. Digo que “julgo ser útil e necessária a presença do Cristianismo no tecido social da Europa”, e digo também que “A Europa necessita que as igrejas se voltem a encher e a prática da moral cristã, transmitida pelos evangelhos e pela tradição, ganhe preponderância. Temo que a Europa, enquanto lugar de liberdade e de razão, sem esses valores desapareça.” O verbo dever implica a ideia de um imperativo. Eu apenas refiro que seria útil e necessário para a preservação de uma certa Europa a presença do Cristianismo na sociedade e que as igrejas se voltassem a encher. Não digo que isso vá acontecer ou que tenha necessariamente de acontecer, por um decreto do destino ou da providência. Mas terá de acontecer para aquela Europa ser preservada.
Em segundo lugar, eu não preciso de ser crente católico para advogar essa necessidade. Posso ser ateu ou agnóstico, posso mesmo ser budista zen, e compreender e afirmar a necessidade dos valores cristãos para o funcionamento de uma certa ideia de Europa, ideia essa que foi formada por esses mesmos valores (aliás, os pais fundadores da União Europeia, na altura CEE, eram todos eles cristãos). É um exercício puramente intelectual. Por isso, e contrariamente ao que o Zé Ricardo afirma, eu mesmo não indo à missa em Santiago ou em S. Pedro (aliás, igrejas onde fui muitas vezes à missa até aos meus 14 ou 15 anos), tenho toda a legitimidade intelectual para fazer um juízo sobre o decurso da história, aliás um juízo meramente analítico, para utilizar a linguagem de Kant.
Em terceiro lugar, eu não afirmo que essa Europa da razão e da liberdade se vá salvar. Digo apenas que para se salvar é necessário que o Cristianismo retome a preponderância no tecido social. E deixo subentendido que se isso não acontecer, então essa Europa da razão e da liberdade perecerá. Esta é a tese problemática e não a minha incapacidade para crer no mistério da Trindade. Será possível construir uma civilização fundada na liberdade e na razão se evacuarmos o Cristianismo? Eu acho que não (o que só pode ser discutível). Porquê? Porque a razão é impotente por si só para o fazer. O que a experiência histórica tem mostrado desde o tempo do Iluminismo, nomeadamente desde o sonho kantiano da autonomia da razão, é que a razão se abisma e se mostra impotente quando desligada de uma justificação transcendente (veja-se o século XX, veja-se as experiências totalitárias). Em segundo lugar, porque a liberdade tal como a compreendemos é o fruto do Cristianismo. Isto significa que a ideia de Europa que está em jogo é aquela onde a razão se funda na liberdade, isto é, na essência do Cristianismo. Ao evacuarmos o Cristianismo, evacuamos a liberdade e deixamos a razão à deriva. Assim lançada aí, a razão não tardará a procurar âncora noutro porto. Se este porto não é o da liberdade, então só pode ser o da servidão.
Em quarto lugar, eu não digo que o destino da Europa não seja a servidão. Não sei, não sou profeta, o futuro é para mim um lugar impenetrável. O que vejo no presente não me tranquiliza. Gostaria que os meus filhos e netos, e por aí fora, vivessem num mundo livre, mas esse meu desejo não passa disso mesmo, um desejo. O Zé Ricardo já sabe que a Europa não vai tornar a ser cristã (“Pois, é este o destino da Europa. Os netos, ao contrário dos avós, já não conseguem acreditar que 2+2=5. No mundo islâmico ainda acreditam.”), eu não tenho, como já disse, o dom da profecia. Aparentemente as coisas são assim, mas será que são? Será que o jogo terminou e o resultado está feito? Acreditar na liberdade significa acreditar, apesar das evidências, num mundo em aberto. Sei que a crença na liberdade é tão inverosímil quanto a crença na Trindade, provavelmente são até a mesma crença, e descubro mesmo que os mais insuspeitos defensores da liberdade afinal crêem no destino.
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O direito à blasfémia
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02/01/10
A não ser que algo aconteça…
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O que dá que pensar nesta citação de John Gray não é a constatação da perda da biodiversidade. Tão pouco a ideia de um ambiente cada vez mais artificial. Aliás, a ideia de Gray remete para um ambiente protésico, isto é, pleno de próteses. O que dá que pensar é a expressão “A não ser que algo aconteça…”(Unless something occurs…). O que poderá acontecer para levar os homens a alterar a forma como colonizam o planeta? Há aqui o reconhecimento dos limites do entendimento humano, a confissão de que é necessário que algo de exterior ao homem surja, para que este altere a orientação que imprime à sua própria vida, como aliás se viu pelo magros ou nulos resultados da conferência de Copenhaga. Mas este “a não ser que algo aconteça…” inscreve o céptico filósofo inglês numa tradição pouco considerada filosoficamente, a do profetismo do Antigo Testamento. No “a não ser que algo aconteça…” pensa-se já a catástrofe a vir, o castigo de um Deus irado com os seus filhos. Quando a pura imanência se mostra impotente para travar os desvarios humanos, o que lhes resta? O recurso à transcendência, ao exógeno, ao totalmente outro.
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Um retrato da pátria (2)
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01/01/10
Um retrato da pátria
Graças ao Zé Ricardo, sempre atento a estes e outros fenómenos, cheguei aqui, de onde copiei esta interessante montagem de ficheiros de aspirantes a artistas (clique na imagem para ampliar e ler), da revista Plateia, do ano de 1966. Não há nada de especial que gente entre os 17 e os 24 anos aspirasse, naqueles dias, a ser artista. O que a Plateia então fazia fazem-no hoje as televisões generalistas. Mas se se olhar bem os ficheiros temos um retrato do Portugal salazarista. Não me estou a referir às fotografias ou à altura dos candidatos (varia entre 1,53m e um 1,75m). Hoje somos um povo mais crescido, todos sabemos isso, mas da altura não vem mal ao mundo. Repare-se, porém, nas habilitações literárias dos jovens pré-artistas. Em seis candidatos só um tem mais do que a antiga 4.ª classe, chegou ao 2.º ano comercial, o equivalente ao actual 8.º ano de escolaridade. Ter mais do que a 4.ª classe, em Portugal no ano de 1966, era uma absoluta excepção. Fiz, em Setembro desse ano, dez anos. Tinha concluído em Julho a 4.ª classe. A maioria dos meus colegas de turma terminou naquele instante a sua formação escolar, reproduzindo o padrão das gerações anteriores, nascidas nos anos 40. Há qualquer coisa na Educação que, desde há muito tempo, não funciona neste país.
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O alelo 334
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Marcadores: Admirável Mundo Novo, Ciência, Sociedade
Faltam os Reis, mas...
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Marcadores: Cadernos do Esquecimento
31/12/09
O livro do entardecer - o fim do ano
chegou o fim do ano
vem adornado de metáforas
e um véu cobre-lhe os cabelos
enrugado transpira de cansaço
e procura na noite uma cama
onde verá a eternidade
um sono leve como o dos pássaros
desejam-lhe os homens
enquanto bebem champanhe
e devoram passas
entre bocejos e libações
o ano prepara-se para dormir
não sabe se tem um destino
ou se as cinzas são a luz
que lhe resta ao partir
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Marcadores: Poesia, Poesia - em mim
Do saudável e do patológico
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Marcadores: Admirável Mundo Novo, Ciência, Pensar, Sociedade
30/12/09
Libreria Beta - Sevilla
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Marcadores: Auslands, Ocasionália
27/12/09
Descanso
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Marcadores: Ocasionália
26/12/09
O livro do entardecer 8
tivera um corpo e seria poeta
escreveria sob o efeito
dos perfumes da noite
e o meu ânimo treparia a escarpa
que conduz ao lugar
onde o medo nunca dorme
um relâmpago levou-me o temor
e com ele a carne que dizemos corpo
vagueio assim por florestas de pedra
sento-me no portal onde avisto o mar
e por vezes oiço o meu nome
ao virar-me o deserto espera por mim
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John Gray - A Ilusão do Progresso
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25/12/09
Fra Angélico - Natividad
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Marcadores: Pintura
24/12/09
Bom Natal
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Marcadores: Natal
O livro do entardecer 7 - soneto
de que vale a vida
se o perigo não espreitar na clareira
e a floresta for apenas um mar
de palavras secas e exaustas
poucas foram as coisas que amei
uma casa branca a vertigem ante o abismo
o galope das horas na torre da igreja
a promessa de neve nunca cumprida
amei-as no terror que traziam
ou no segredo que crescia
mal o jardineiro as podava para mim –
cortava imagens limpava visões
gritava contra a glória da manhã –
até florescerem na primavera
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Marcadores: Poesia, Poesia - em mim
La Nativité du Seigneur: La vierge et l'enfant (Olivier Latry o orgue)
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Botticelli - Natividad Mística (1500)
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23/12/09
O livro do entardecer 6 – a casa onde vi a infância
perdi a casa onde vi a infância
levou-a o tempo
com a sua mão de seda
e um gesto de bandeiras ao vento
nada sei do braço magoado
ou das ervas que me inundaram
de luz os olhos
– esqueci e é tudo
apenas vejo uma espada de âmbar
sobre a cabeça de um centauro
e um fulgor de aço na lâmina
que por mim então passou
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Olivier Messiaen - Dieu parmi nous
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Maestro de la Natividad del Louvre - The Nativity
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22/12/09
O livro do entardecer 5
nada sei do firmamento
dessa terra de cristal
onde sonhei nuvens e astros
princesas ao deus-dará
órfão caminho sem destino
e aspiro o pó
naquele lugar onde ouvi
o último bêbado cantar
na vastidão que nos coube
sento-me à espera
do canto da cotovia
ou de um deus que virá
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Chris Potter's "Underground" - Ultrahang [2009]
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A catolicidade de Shakespeare
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Piero della Francesca - La Natividad (1472)
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21/12/09
O livro do entardecer 4 - a tarde
entardece
carros passam na avenida
e ao longe avisto a noiva
que um dia abandonei no altar
traz um vestido branco – seda e organdi
na mão o ramo de flor de laranjeira
e uma sombra pela face anuncia
a noite que não chegará
olho as mãos vazias
de onde fugiu a noiva que esqueci
e tenho medo que a tarde acabe
e uma súbita presença de pedra
me abra a porta pela qual nunca saí
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Alfred Schnittke - Polka from Gogol Suite - Play Gidon Kremer and Kremerata Baltica
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