08/01/10

A democracia nas escolas

(Foto retirada daqui)

O Zé Manel Trincão Marques, no comentário que faz ao post Poder de proximidade, deixa, em post-scriptum, a seguinte questão: Valerá a pena aprofundar a democracia nas escolas? Não é esta a questão substancial do seu comentário (a essa voltaremos mais tarde), mas é uma questão que vale a pensa pensar.

Colocaria o problema do seguinte modo: a escola é uma instituição democrática? Se a escola for uma instituição democrática, então tem sentido falar em aprofundar a democracia. O problema, porém, é que a escola não é, no seu funcionamento interno, uma instituição democrática, ou sequer uma espécie de República. Os vários agentes não são todos iguais e, contrariamente ao que se passa na esfera política, a diferença de funções implica também a diferença de direitos e de deveres. Por outro lado, a escola deveria ser uma instituição regulada pelo princípio aristocrático. Os melhores deveriam governá-la e orientá-la na persecução do seu bem próprio: a transmissão e aquisição do currículo prescrito pela decisão política da comunidade. Para servir a democracia (educando o melhor possível os futuros cidadãos) a escola não precisa, nem deve ser democrática. O mesmo se passa, por exemplo, com o exército, as forças de segurança ou a universidade. Democráticos devem ser o acesso à escola e as oportunidades para aprender.

Sendo assim, por que razão pareço simpatizar, no referido post, com o antigo método de escolha dos conselhos executivos? Apenas e só por razões negativas. Em primeiro lugar, porque a forma como são escolhidos actualmente os directores (eleitos por uma espécie de câmara corporativa local) os torna muito frágeis perante os poderes fácticos existentes e que começam a colonizar as escolas. Em segundo lugar, porque no actual estado de coisas, o poder dos directores e aquele que eles agregam à sua volta (por vezes, bem mais problemático do que o dos directores) acabará por cilindrar o que de melhor se faz na escola. Estando um director à mercê dos professores, como acontecia anteriormente (coisa que parece sem sentido), havia a possibilidade dos professores interessados em fazer coisas mais sérias, e contra o rumo niilista que se segue na educação, encontrarem espaço nas escolas para o fazer. Este novo modelo de gestão visa arrasar a diferença, impondo uma bitola marcada pelo eduquês e submetendo os melhores professores a uma visão medíocre do que é a educação. A avaliação serve para a gestão vigiar os melhores professores e não para punir os piores. A coisa ainda não é clara, mas basta perceber o que é importante, para antever onde se chegará. Vamos dar tem ao tempo.

Não faz muito sentido, então, falar em aprofundar a democracia nas escolas. O que faz sentido é pensar como reorientar as escolas para o que é essencial: transmitir o currículo prescrito nacionalmente e fazer com que os alunos o adquiram. A democracia, um método de decisão política, não é aqui chamada para nada.

Jornal Torrejano, 8 de Janeiro de 2010



Online encontra-se já a edição semanal do Jornal Torrejano.

Diferença entre Portugal e Espanha

No dia 29 de Novembro, comprei numa livraria portuguesa on-line um livro de que necessitava. Estamos a 8 de Janeiro e ainda não o recebi. Anteontem, enviei um email para saber o que se passava. Ainda não recebi qualquer resposta.

No dia 31 de Dezembro, comprei três livros numa livraria on-line espanhola. Hoje recebi um email explicando-me que não têm em stock dois dos livros. Informam-me também o tempo esperado para que a editora satisfaça o pedido.

Os espanhóis estão longe da eficiência britânica (já cá teria os livros), mas estão a anos-de-luz do que se passa por aqui.

Um dia de paz e amor


Hoje é um dia de paz e amor. Os gays vão poder casar-se (aqui e aqui) e os sindicatos de professores casaram-se com o Ministério da Educação (aqui e aqui). Numa altura em que o divórcio ganha peso perante o casamento, é de desconfiar tanta oficialização das uniões de facto.

07/01/10

O livro do entardecer 13

apaga-se a luz do inverno
uma melodia serena repousa
no canto da noite
e a água ao arder incendeia
de silêncio a tua voz

serás assim tão leve
os cabelos na treva
e a canção aberta na boca
ecoam como um velho navio
ao afastar-se do cais

Ainda o referendo sobre o casamento homossexual


Uma interessante argumentação de João Cardoso Rosas contra o referendo relativo ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. A tese central é a de que a submissão de questões referentes a direitos fundamentais a referendo é bastante problemática, devido a natureza iliberal que está associada à democracia directa. A ler no ionline.

Esta natureza não liberal da democracia directa reside no carácter irracional que preside à doxa (opinião pública). A democracia representativa tem factores de racionalização que fazem a mediação entre o sentimento popular e a decisão política. São estes mecanismos de mediação que evitam que vivamos num clima de terror, onde a virtude reside no sentimento e não na razão.

Exercícios de travestimento


Independentemente da origem, da localização e mesmo da dimensão dos concelhos, o respectivo território englobava a vila (ou a cidade) e o termo ou alfoz. A primeira era a principal povoação, o centro da organização municipal, a sede política e administrativa; o segundo era a área em redor, com os seus campos de cultivo e terras bravias, onde podiam situar-se aldeias administrativamente dependentes da vila cabeça do concelho. Esta divisão reflecte uma hierarquia na organização social do espaço, uma vez que os vizinhos que habitavam na vila gozavam de melhores condições, tanto económicas como administrativas e judiciais, face aos habitantes do termo; mas, numa sociedade predominantemente rural, reflectia também a complementaridade existente entre o núcleo urbano e o campo, com este a ser imprescindível para o abastecimento alimentar do conjunto da população. Apesar da subordinação administrativa do termo à vila, apesar das por vezes gritantes desigualdades estipuladas no próprio foral entre os que residiam numa área ou na outra, o concelho só podia existir em função dessas duas componentes. [Bernardo Vasconcelos e Sousa, (2009). "Idade Média", in Rui Ramos, Bernardo Vasconcelos e Sousa e Nuno Gonçalo Monteiro, História de Portugal. Lisboa: A Esfera dos Livros, pp. 73/4]

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Estamos a falar, nesta citação, do Portugal medieval, praticamente na origem da nacionalidade. O espantoso, porém, é que pessoas da minha idade, e até mais novas, conheceram bem esta realidade e esta estruturação das relações intra-concelhias. No século XX, mesmo em concelhos bem industrializados, como era o caso do de Torres Novas, a vida dentro do concelho não apresentava estruturas muito diferenciadas daquelas que são descritas para a Idade Média. É evidente que há diferenças assinaláveis, nomeadamente diferenças tecnológicas, comunicacionais e sociais. Mas a matriz essencial manteve-se praticamente até ao 25 de Abril de 1974.

Não estou a dizer que Portugal era um país medieval no final do século XX. Estou a chamar a atenção para a existência de uma inércia social que mantém a mesma estruturação arcaica das relações sociais, apesar de estas se irem travestindo de diferentes formas, nomeadamente no campo da dominação política e social. Em Portugal, parece concretizar-se a ideia que o sobrinho do Príncipe de Salinas utiliza para explicar ao tio o seu compromisso político com os revolucionários de Garibaldi: é preciso que alguma coisa mude, para que tudo fique na mesma. A verdade, todavia, é que a nossa cultura social não será muito diferente daquela que vigorava na Sicília descrita em O Leopardo. Em Portugal, muita da mudança social foi apenas travestimento e ocultação da realidade efectiva. Significa isso, então, a existência de determinados núcleos da realidade social que quase apresentam uma natureza metafísica, o que determinaria a sua persistência no tempo. Aquilo que é eterno não muda, apenas ganhas novas e diferentes aparências. Esta metafísica social está na base de um certo fatalismo que se abate sobre os portugueses, e que os conduz à saída do país ou à resignação. Muitas das dificuldades pelas quais passamos neste momento estão relacionadas com isto. Este núcleo eterno da realidade social torna-se evidente cada vez que abrimos a televisão e deparamos com mais um despedimento colectivo.

A sede que se deseja



Este belíssimo anúncio à cerveja Sagres, retirado com a devida vénia do Rua Dos Dias Que Voam, um blogue cheio de coisas destas e a visitar com regularidade, evoca em mim a primeira experiência com a cerveja (bebida da qual não sou particular adepto). Não me refiro à experiência de beber cerveja, mas de admirar a própria garrafa. Uma garrafa castanha com os símbolos e o lettring pintados a creme. Julgo que a tampa, carica, era cinzenta ou prateada com Sagres escrito a vermelho e naquelas belas letras que se vêem na imagem. Há toda uma elegância, fundada num quase despojamento de elementos icónicos, que contrasta com o ruído visual que foi crescendo ao longo dos tempos. Nas raras ocasiões que se me coloca a questão de beber uma cerveja, nunca me passa pela cabeça preterir a Sagres pela concorrência. Isso deve-se, porém, à peça de arqueologia aqui representada, a velha garrafa da Sagres. É o que faz ter espessura temporal. O slogan também é perfeito, a sede que se deseja. Ha imagens que são verdadeiros arquétipos.

06/01/10

O livro do entardecer 12 - tempestade

oiço a tempestade vinda de longe
aproxima-se coberta de flanela
e traz um ramo de orquídeas
nos braços do vento

canta ao trovejar
uma velha canção de amor
enquanto os olhos se abrem e escuto
o galopar sonâmbulo da chuva

um barco atravessa a noite
de velas embaladas pelo vento
e um enxame de pétalas desenha
a orquídea que se abre em tua mão

Sviatoslav Richter: Schubert Sonata A major


Há dias que oiço consecutivamente umas velhas gravações, reeditadas há relativamente pouco tempo pela Brilliant Classics, do grande pianista russo Sviatoslav Richter de sonatas para piano de Beethoven, Schubert e Liszt. Aqui fica uma gravação de uma sonata de Schubert (A major). Talvez explique esta audição maníaca.

Volta a saga

Volta a saga da avaliação de professores. Consta que no ano passado 83% dos professores foram avaliados com Bom. Isabel Alçada considera que o número elevado de classificados com Bom explica-se com “a tradição da atribuição desta nota aos docentes por parte de quem avalia. Para além da clara falsidade desta afirmação (como salientou Mário Nogueira, os critérios eram absolutamente objectivos e não permitiam qualquer torção subjectiva fundada ou não na tradição), o que isto demonstra é outra coisa. A enorme dificuldade de encontrar um método fiável para avaliar a função docente. O que esta gente não entende, incluindo a senhora ministra (para que lhe servirá um curso de Filosofia?), é que há coisas dificilmente avaliáveis com fiabilidade por este tipo de métodos provenientes do mundo empresarial e da burocracia de Estado. Não é por acaso que muitos países educacionalmente desenvolvidos têm métodos de avaliação largos e que permitem ae todos os professores chegarem ao topo da carreira. Esta é pensada para isso mesmo. A grande questão da qualidade dos professores não está na avaliação do seu desempenho. Está na sua formação inicial e na selecção. Por exemplo, é isso que faz a Finlândia, que nem avalia formalmente os seus professores, mas selecciona-os rigorosamente. Toda esta conversa sobre avaliação é intelectualmente indecorosa. É uma falsificação da realidade. O Estado demitiu-se durante décadas de seleccionar rigorosamente quem punha nas escolas e, agora, não tem dinheiro para pagar aos professores e inventa este tipo de ficções. Esta história cansa e a sua única finalidade, contrariamente ao que se propaga, é evitar que cheguem novos bons professores e desmoralizar aqueles que existem. Isto, depois de ter corrido com muitos dos que havia.

O poder de proximidade


A atribuição ou a confirmação de forais por parte dos soberanos correspondeu também ao seu projecto de fazer difundir a autoridade da Coroa e de firmar alianças com estas comunidades de homens livres, de modo a contrabalançar o peso dos poderes senhoriais que se faziam sentir local e regionalmente. Por sua vez, tal aliança colocou os concelhos sob a protecção régia, procurando aqueles defender-se das pressões dos senhores locais. Os habitantes dos concelhos preferiam pagar ao rei os tributos fixados por escrito no foral, quer pela posse da terra, quer pela circulação e transacção de produtos, a estarem sujeitos à arbitrariedade e aos abusos praticados pelos senhores. [Bernardo Vasconcelos e Sousa, (2009). "Idade Média", in Rui Ramos, Bernardo Vasconcelos e Sousa e Nuno Gonçalo Monteiro, História de Portugal. Lisboa: A Esfera dos Livros, pp. 73]
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Aqui podemos surpreender não apenas um reforço do que se escreveu aqui ontem sobre a questão da regionalização, mas uma das características essenciais da relação dos portugueses com o poder. Por que razão somos tendencialmente favoráveis ao centralismo? Porque tememos o arbitrário do poder que está próximo. Os portugueses desconfiam do poder, desconfiam, certamente com razão, da sua arbitrariedade. Ora o poder central é longínquo e tem um carácter abstracto e universal. Ele é preferível aos poderes mais próximos, aparentemente mais fracos, mas com uma maior capacidade de interferir na vida concreta das pessoas.

Isto revela uma outra coisa. A natureza do poder de proximidade em Portugal, ainda hoje, é dada pela capacidade de decisão arbitrária. A ocupação de determinados lugares na estruturas municipais e nas instituições locais dependentes do Estado, como escolas, hospitais, etc., não significa uma representação local de um poder abstracto e universal, que trata todos por igual, mas a possibilidade dos indivíduos e grupos locais exercerem o seu arbítrio. Não é isto, obviamente, que está consignado na lei, mas é isto que é sentido por todos.

O exemplo mais recente é o da contestação, mais ou menos surda (pois o medo está instalado), dos professores relativamente aos directores de escola. Enquanto as escolas eram dirigidas por presidentes de conselhos executivos, a arbitrariedade destes estava limitada, pois não deixavam de ser professores. A solução encontrada pelo governo anterior foi a pior possível para os professores. Não apenas lhes impôs um director, mas um director dependente dos poderes fácticos locais. Seria menos doloroso para os docentes que o director fosse estranho à comunidade local e nomeado pelo poder central. Pelo menos havia, uma aparência de universalidade e abstracção.

O triunfo nas escolas portugueses do arbitrário local tem uma consequência absolutamente devastadora para o futuro do país. As escolas, já com fraca capacidade de debate interno, são hoje em dia túmulos relativamente ao debate pedagógico e educativo. Desapareceram as condições para a divergência e para pensar contra, e para fazer de outra maneira, a não ser aquela que os poderes instalados conseguem idealizar e realizar. Uma segunda consequência, de não menor impacto no futuro, é a que deriva destes poderes existentes nas escolas, a chamada gestão intermédia ser entregues a pessoas com um pensamento extraordinariamente frágil sobre a educação e o sistema educativo, mas que, pelo princípio de autoridade, fazem calar os elementos esclarecidos, claramente minoritários, que possam existir, e que teriam capacidade crítica. As escolas ficaram sujeitas ao menos denominador comum.

A referência à escola é apenas exemplar, pois é a instituição que melhor conhecemos. Isto passar-se-á nas outras instituições. A proximidade do poder, desde a origem da nacionalidade, é sentida não como a presença do universal abstracto, mas do arbitrário concreto. Há uma profunda linha de continuidade na nossa tradição, embora na Idade Média o que estava em causa fosse a liberdade das comunidades locais perante os senhores e, hoje em dia, seja a dos indivíduos perante os poderes locais ancorados em outros indivíduos.

Em Portugal, não há um amor ao anarquismo, mas fundamentalmente um medo da arbitrariedade do outro, quando esse outro é investido por qualquer tipo de poder. Isto revela uma longa tradição de uma determinada forma de exercício de poder.

Dia de Reis

Círculo de Hugo van der Goes - La Adoración de los Magos

Hoje é dia de Reis, na tradição Católica. Revive-se o momento em que os Reis Magos vindos do Oriente adoram o Menino. Dia de desmanchar os presépios e de retirar das casas os símbolos natalícios.

Escrevi revive-se e não comemora-se pelo simples motivo de que no pensamento mítico-religioso, do qual o cristianismo, apesar dos seus elementos racionalizantes, faz parte, a festa não é apenas um reavivar da memória mas um tornar a viver um acontecimento eterno que se reflecte no espelho fracturado do tempo. É como se os Reis Magos eternamente chegassem a prestar vassalagem ao Menino. É evidente que, hoje em dia, já não se revive nem sequer se comemora coisa alguma. Mas isso é outro assunto. Fiquemos então com estranho mistério de três reis do Oriente, guiados por uma estrela, virem expressamente inclinar-se perante um recém-nascido.

05/01/10

O referendo sobre o casamento homossexual



Assim como não estive de acordo com a realização do referendo sobre o aborto, também discordo do referendo sobre o denominado casamento homossexual. O parlamento tem legitimidade suficiente para legislar sobre o facto e não me parece que 90 mil assinaturas (menos de 1% da população) sejam suficientes para que ele abdique de o fazer. Se a recolha de assinaturas tivesse uma expressão avassaladora, os partidos deveriam reflectir sobre o assunto. Neste caso, deve legislar e concentrar forças nos problemas efectivos do país.

Das propostas em jogo, gostaria que a aprovada fosse a do PSD. De facto, um casamento pressupõe um casal, e este é constituído por pessoas de sexo diferente. Mas a questão não é meramente lexical ou sequer de tradição, embora esta tenha a sua importância. Há uma diferença ontológica e uma diferença social. Por fim, há também uma questão ética. Tolerar a diferença é aceitá-la na sua natureza e na enunciação dessa mesma natureza. A insistência na confusão lexical entre o casamento de um homem e uma mulher e o reconhecimento civil da união de pessoas do mesmo sexo tem uma curiosa perversidade. Oculta a diferença daquilo que é efectivamente diferente. No fundo, chamar casamento a esse tipo de união não é mais do que um acto de intolerância perante a diferença.

Regiões, uma viagem de 800 anos


A instabilidade militar e social do reino, bem como o clima de conflitos a que não escapou o próprio Sancho I (em fricção com os bispos do Porto e de Coimbra e com sectores da nobreza), prolongaram-se até ao final da vida do monarca. De um modo geral, o rei colocou-se ao lado dos concelhos nas querelas contra os poderes senhoriais exercidos por alguns prelados, como sucedeu entre o burgo do Porto e o seu bispo em 1208. Face aos poderes concorrentes detidos pelos senhores laicos e eclesiásticos, o monarca privilegiava a aliança com as principais comunidades urbanas, elas próprias também interessadas numa regulada ligação à Coroa que as defendesse do que consideravam ser a arbitrariedade senhorial. [Bernardo Vasconcelos e Sousa, (2009). "Idade Média", in Rui Ramos, Bernardo Vasconcelos e Sousa e Nuno Gonçalo Monteiro, História de Portugal. Lisboa: A Esfera dos Livros, pp. 46/7]
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Não é transferível a situação política de Portugal medieval, com o reino ainda em fase de consolidação, para os nossos dias. Há, no entanto, elementos persistentes na estruturação política do país que devem ser pensados na sua espessura histórica. Hoje em dia, quando o governo e o partido que o apoia querem retornar à questão da regionalização, não é inútil, apesar da diferença epocal, social e civilizacional, perceber a estrutura fundacional da nacionalidade.

Se olharmos para o texto citado, encontramos três realidades políticas coexistentes. O poder real, de carácter central, o poder senhorial, laico e eclesiástico, que poderíamos dizer de carácter regional, e o poder concelhio de carácter municipal. O que acontecia é que a estrutura senhorial, de naturezar intermédia, constituía um factor de perturbação tanto do poder central (pois os senhores aspiravam vincar a sua paridade com o rei, que não seria mais do que o primeiro entre pares) como do poder concelhio (a quem aspiravam submeter à sua arbitrariedade).

Aqui está um dos principais problemas que se levanta contra a regionalização. Problema, aliás, claramente sublinhado pela história recente das regiões autónomas. As regiões que se preparam são, em princípio, uma espécie de sobre-município, de uma autarquia local de carácter regional. O problema é que isso é apenas o começo. À volta dessas super-autarquias criar-se-ão elites políticas que quererão aprofundar o carácter regional da autarquia, inventar uma cultura regional, aspirar a uma maior distribuição do poder. Haverá todas as oportunidades para que essas elites regionais se venham a comportar, tanto para com o poder central como para com o municipal, da mesma forma que o poder senhorial medieval se comportava perante o Rei e os concelhos.

Este é um problema que merece ser pensado. O que está em jogo não é apenas o enfraquecimento do poder central, e o que isso significa para os mais fracos, mas também o próprio poder municipal. O país mudou, a sociedade é radicalmente diferente, mas a espécie humana e a natureza das elites portuguesas mantiveram-se idênticas.

Público com défice de atenção

Andará bem? Eu sei que se podem fazer algumas compras via terminal multibanco, nomeadamente bilhetes de comboio ou de Expresso, mas 71 milhões de compras, no valor de 3 134 milhões de euros, é demais para os bens que o Multibanco oferece. Não confundirá o Público compras com pagamentos. Compro um livro numa livraria e pago através do Multibanco. Comprar e pagar
são coisas diferentes, ou eram.

Mas se a semântica vai revolvida pelas bandas do Público, a aritmética, então, está pelas ruas da amargura. «Seis escritores portugueses, uma brasileira, um espanhol e um mexicano são os dez finalistas do Prémio Literário Casino da Póvoa, no valor de 20 mil euros». Antigamente 6+1+1+1 somariam 9, hoje, talvez devido aos processos inflacionários acumulados, atingem o valor de 10. Os meninos andam desatentos. Uma consulta ao psicólogo talvez ajude.

04/01/10

O livro do entardecer 11 - nostalgia

de que árvore
a nostalgia é folha
do cedro do plátano
talvez do pinheiro
derramando caruma

vejo-a leve e branca
como algodão
solta-se de ti
e corre a prender-me
o coração

Ponto G, afinal não há, ou haverá?


A ciência continua a iluminar a minha existência, palavra de honra. Agora, porém, investigadores do King's College, e logo do King's College, asseveram, segurem-se bem, que o ponto G não existe. Reproduzo: «O estudo, publicado no The Journal of Sexual Medicine envolveu 1800 mulheres, com idades entre os 23 e os 83 anos, todas gémeas. Os investigadores preferiam analisar gémeas, pensando que a resposta seria parecida. No entanto, as respostas eram diferentes: enquanto algumas mulheres afirmam ter ponto G, as suas irmãs garantem que não têm. Para os cientistas, isto sugere que o ponto G é apenas um mito.» Um mito, afinal o ponto G era um mito, um objecto digno de fé, mas tão imaterial como a nossa alma. Quem sabe se o ponto G não será a alma ou parte da alma.

Para as pessoas não ficarem espiritualmente desanimadas e continuarem e empreender a busca do ponto G, eu deixo uma pista. O estudo só pode provar uma coisa. As gémeas - monozigóticas, depreende-se - não possuem ponto G. Mas as outras, as falsas gémeas e as mulheres não gémeas? Se o meu argumento não for suficiente, então recomendo a leitura, para consolo espiritual, sublinho, deste post, de Março de 2008, de Os Marlenes, um blogue brasileiro. Anuncia a descoberta científica do ponto G.

Se este tipo de investigação é muito inconclusivo sobre o objecto de estudo, digamos assim, é iluminador do nosso tipo de existência e das finalidades que orientam a nossa vidinha.

Uma história portuguesa


Esta é a História de uma unidade construída pelo poder político através dos séculos. Por isso, a narrativa teria de ser estribada pela História política, o que não significa que tivesse de ser uma simples crónica de actos dos titulares da soberania - tentámos que não fosse. O grande problema deste género de História é pressupor, como agente, uma entidade que é o produto e não a causa: a nação, a identidade nacional. Em Portugal, com as suas velhas fronteiras na Europa e a sua actual uniformidade linguística e antiga unanimidade religiosa, é fácil presumir a existência de uma comunhão precoce e imaginá-la como a manifestação de uma vontade e uma maneira de ser homogéneas e preexistentes à História. [Rui Ramos, Bernardo Vasconcelos e Sousa, Nuno Gonçalo Monteiro (2009). História de Portugal. Lisboa: A Esfera dos Livros, pp. III-IV]
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Esta foi uma das minhas prendas de Natal, das mais desejadas, diga-se. Uma História de Portugal séria intelectualmente e manejável. Temos Histórias de Portugal sérias, mas de difícil manejo. Muitos e pesados volumes. Há outras que são resumos, mas nas quais, por um motivo ou outro, falece-nos, talvez injustamente, a confiança intelectual. Esta junta ambos os bens. Comecei ontem a lê-la. É um prazer. De clara inspiração anglo-saxónica, é uma História narrativa, algo que se aproxima do género romanesco, embora se mantenha estritamente nos cânones da cientificidade próprios à disciplina. Vale a pena o investimento (ou o recebimento, neste caso). Não é um livro de consulta, é um livro de leitura obrigatória e apaixonada. O prazer da História.

Depois, há as afinidades electivas, como a que resulta de uma visão partilhada com os autores sobre a natureza de Portugal. O que a citação nos mostra é que Portugal não é o resultado de uma comunidade com identidade própria que se organiza enquanto Estado, mas o contrário. A nação e a identidade nacional são o produto de uma acção persistente das elites políticas. São elas que inventaram uma nacionalidade para poderem ter um Estado.

Em momento algum nos deveríamos esquecer deste facto. Ele é o fundamento das ínvias relações que dizemos existir entre os portugueses e o Estado. Não foram os portugueses que produziram as instituições políticas, foram estas que produziram os portugueses. Daí, o carácter paternal com que o poder sempre olha os cidadãos, e a natureza filial, uma vezes temerosa e outras irresponsável, como os cidadão se comportam perante o seu criador.

Esta é a questão essencial do nosso carácter. Não é a inveja nem o saudosismo. O traço essencial dos portugueses é a menoridade perante um pai omnipresente, um pai que é visto como origem de todos os bens e, acima de tudo, do bem principal, a existência. Eis por que não há em Portugal correntes verdadeiramente liberais, exceptuando uns pândegos semi-distraídos ou semi-analfabetos.

O drama do presente, aquele que é representado pelos partidos e pelo Presidente, nasce aqui. Do PS ao CDS, passando pelo PSD e por Cavaco, todos acham necessário diminuir o Estado, pintar a vida política e económica de tons mais liberais, todos desejam mais iniciativa e gente mais empreendedora. O problema, que o analfabetismo generalizado das elites políticas não lhes permite compreender, é que essa não é a nossa tradição. O Estado ao criar os portugueses não os criou para serem livres do Estado, mas para estarem submetidos a ele. Para tal, educou-os sistematicamente na e para a dependência. Como é que um povo criado durante quase 900 anos para ser dependente, haveria de se tornar, de um momento para o outro, num conjunto feroz de empreendedores? Contra-argumentarão, e as descobertas não mostram a nossa capacidade empreendedora? Não, mostram a visão política e a capacidade de acção da elite política da altura.

Se as elites políticas querem um povo liberal e pleno de iniciativa, então terão de o criar de forma persistente e sem concessões, coisa que não está no espírito do tempo, nem é apanágio da lógica de quem ocupa o poder político. O drama que assistimos nasce aqui, mas na verdade não é um drama, mas uma comédia de enganos. Só um pai severo poderia educar os filhos na feroz disciplina da liberdade, mas o pai não quer já ser severo e deseja a cada segundo que os filhos façam aquilo que ele quer.

Crise de narcisismo

Despudoradamente, publiquei ontem uma foto onde estava representado. Hoje adicionei uma fotografia ao blogue. Suspeito que estou a atravessar uma grave crise narcísica. Mas, para dizer a verdade, eu sou adepto de um narcisismo mais disfarçado. O que eu queria era apenas adicionar uma foto ao perfil, mas que ela não surgisse no corpo manifesto do blogue. Não consegui. Ou tenho foto em ambos os lados ou não tenho em nenhum, e já vi que há quem tenha apenas no perfil, mas não no blogue Alguém sabe, e tem a gentiliza de me dizer como se faz esse passe de mágica? Obrigado.