14/12/09

Banha da cobra


Sócrates

Há notícias que me deixam siderado. O i online, a propósito de um best-seller sobre um miúdo autista, noticia que Einstein, Mozart, Sócrates, Stanley Kubrik e Andy Warhol, além de geniais, tinham outra coisa em comum: todos sofriam da síndrome de Asperger, uma forma de autismo que afecta a interacção social. Diga-se de passagem que é relativamente modesto. Há outras listagens que incluem Newton, Wittgenstein e Darwin. Admito que se possa especular sobre Einstein ou Wittgenstein, gente bem conhecida e pública no século XX, para não falar de Kubrik ou de Warhol. Admito mesmo que há suficientes indícios sobre Darwin e Newton, indícios que permitiriam um diagnóstico, o qual, felizmente, nunca foi feito. Mas sobre Sócrates, de quem praticamente nada se sabe, que sentido faz este tipo de inclusão numa lista de nobres deficientes? Não seria antes Platão que sofreria de síndrome de asperger? Ou não teria Platão, genial proto-romancista, desenhado uma figura do mestre que permitisse à posteridade este tipo de exercícios? O que há de interessante nisto é a transformação, no caso de Sócrates, de uma atitude deliberada numa patologia. Ele não agiu como agiu, ele não enfrentou a hipocrisia pública como o fez, não aceitou o julgamento público e a morte, por convicção. O coitado sofria de síndrome de asperger e como não sabia, preferiu morrer por respeito à lei da cidade, em vez de aceitar a ajuda dos amigos e pôr-se a milhas, até que os ânimos se acalmassem. Isto é o que se chama transformar a ciência em banha da cobra.

Uma figura de referência



Quantas vezes os socialistas se terão já arrependido por ter nomeado Guilherme de Oliveira Martins para o Tribunal de Contas? Agora a instituição dirigida por este socialista criticou, por falta de transparência, o modelo de financiamento do cheque-dentista. Seja como for, reconheça-se que Guilherme de Oliveira Martins foi uma óptima escolha. Sócrates, neste caso, estava certíssimo, ao contrário da oposição. Por outro lado, o escolhido, devido à sua acção exemplarmente isenta, vai construindo uma imagem de grande prestígio e é, neste momento, uma das poucas figuras do mundo da política que é olhado com admiração e respeito. É já uma figura de referência. Merece ir mais longe na política do que o mero cargo de ministro, que já ocupou.

Alan Kardec



Ao Benfica parece que não basta Jesus, ele mesmo. Precisa de mais. Agora acaba de contratar Alan Kardec. Talvez por o mestre estar em greve de milagres, como se viu em Olhão, os dirigentes encarnados voltaram-se para o espiritismo (sim, Alan Kardec tem o nome de um dos inventores do espiritismo). Talvez os defuntos comuniquem aos vivos o segredo das vitórias, pois estes, os vivos, já nem sabem o que isso é.

Por falar em espírito, este contínuo e infindável ruído - refiro-me às milhões de contratações que o clube faz ou podia fazer - que envolve o Benfica é capaz de não predispor o espírito da equipa da melhor maneira. Mas o melhor é mesmo pedir ao Kardec que comunique com o outro mundo para ver se alguém tem opinião espirituosa, ou mesmo espiritual, sobre o assunto.

Projecto Protágoras



Na próxima 4.ª feira, no âmbito do Projecto Protágoras, de Platão, o Professor Trindade Santos proferirá uma conferência sobre Progresso Social e Moral no Protágoras de Platão. Seguir-se-á uma mesa-redonda onde Olga Pombo, João Constâncio, Manuel Rodrigues, António Bracinha Vieira e este blogger dialogarão sobre a conferência do Prof. Trindade Santos e o próprio Protágoras, de Platão. Apresentarão ainda os textos que escreveram sobre este, ou a partir deste, diálogo platónico, textos a editar em livro no próximo ano.

A reflexão deste blogger incide sobre o laço que une os indivíduos numa comunidade política, a partir da leitura do mito presente no texto de Platão e em contraposição com as perspectivas contratualistas modernas e contemporâneas, explorando a natureza ficcional tanto do mito platónico como das teorias do contrato social. A reflexão concluirá com dois excursos. O primeiro, sobre história, razão, comunidade política e imortalidade. O segundo, sobre o papel da educação na fabricação da comunidade política.

13/12/09

Um excesso desnecessário



Apesar de estar na moda dizer mal das crónicas de Vasco Pulido Valente, elas são do melhor que por aí se escreve. Boa literatura e boa análise política. A de hoje, no Público, é presumidamente certeira relativamente ao destino do PSD. No entanto, começa com um equívoco. Diz VPV: «A ironia é que o PSD não se entende com o Portugal moderno ou "modernizado" que ele próprio, no "cavaquismo", criou.» Isto é assim apenas na aparência. Quem criou o tal Portugal moderno não foi o dr. Cavaco nem as luminárias do PSD da altura. Quem criou essa espécie de coisa foram os dinheiros que a CEE enviou para cá com a estulta ideia de nos tornar europeus civilizados. O dr. Cavaco, bem como o eng.º Guterres e a posteridade inominável, a única coisa que fizeram, e mesmo assim com clara deficiência, foi distribuir o dinheiro proveniente do trabalho dos outros. No fundo, tudo afazeres de contabilistas ou de tesoureiros. O Portugal moderno não foi criado por nós, foi-nos imposto de fora, o que faz toda a diferença. Se fosse criado por um governo nosso, sustentado nos nossos e no nosso trabalho, as coisas seriam agora diferentes. Mas como foi receita de médico estrangeiro, não há, por cá, quem acredite um grama que seja na veleidade de se ser moderno. VPV excedeu-se desnecessariamente na bondade relativamente ao cavaquismo.

O meu gene leninista



O filósofo Slavoj Zizek conta, no seu livro Violência (Relógio d'Água, 2009), uma anedota corrente na antiga União Soviética entre estudantes. «A anedota é a seguinte: perguntaram a Marx, a Engels e a Lenine se preferiam ter uma esposa ou uma amante. Como seria de esperar, Marx, bastante conservador no que diz respeito à esfera privada, respondeu: "Uma esposa!" - ao passo que Engels, com o seu lado de bon vivant, optou por declarar que preferia uma amante. Para surpresa geral, a resposta de Lenine foi: "Gostava de ter as duas!" Porquê? Haveria nele um traço de jouisseur decadente, que a sua austera imagem de revolucionário dissimularia? De maneira nenhuma. Eis a explicação de Lenine: "É que assim podia dizer à minha mulher que vou ter com a minha amante, e à minha amante que tenho de ir ter com a minha mulher..." - "E ia para onde, então?" - "Para um lugar isolado, para estudar, estudar e estudar!"» Esta história sublinhava a verdadeira fixação do dirigente da Revolução de Outubro no estudo. Conta ainda Zizek que, aquando da catástrofe de 1914, Lenine refugiou-se na Suíça, onde em vez de se entregar a um desbragado activismo, se entreteve a estudar, estudar, estudar Hegel. E não pensem que se entreve com a Filosofia do Direito, ou com os ensaios sobre a História ou sequer com a Fenomenologia do Espírito, com a sua análise do Terror na Revolução Francesa ou a dialéctica do senhor e do escravo. Dedicou-se ao estudo daquilo que Hegel escreveu de mais abstracto, mais árido e mais difícil, a Ciência da Lógica. Mas o que gostava de sublinhar é a diferença desta atitude contemplativa de Lenine relativamente à conhecidíssima 11.ª tese de Marx ad Feuerbach: «Até agora os filósofos têm interpretado o mundo de diversas maneiras, mas o que verdadeiramente importa é transformá-lo!» Como é que um contemplativo, um homem que afinal estava interessadíssimo em interpretar o mundo, se tornou no responsável por um dos maiores acontecimentos históricos do século XX? Contrariamente ao que se pensa, não são aqueles que fazem muitas coisas que mudam o curso dos acontecimentos. Quantas mudanças históricas dependem do simples acto de estar quieto e pensar. Mas mesmo que não mude o mundo, aquele que pensa tem uma vantagem sobre os activistas, não cria desordem pela sua acção.

Pat Metheny and Michael Brecker - What do you want - 2003


Insuportável



Casas-abrigo para mulheres e crianças não chegam para as encomendas. O que se passa em Portugal é absolutamente insuportável. A violência dentro da família ou das relações ditas amorosas é uma doença social gravíssima, mas também um sintoma claro sobre a masculinidade desses heróis que batem desalmadamente e matam pessoas mais frágeis. Chegou a altura de o assunto ser tratado de outra forma. Em primeiro lugar, há que reconhecer que ainda está longe de ser um estigma social bater numa mulher, pelo contrário. Muitas vezes o herói em vez de ser visto na cobardia que o constitui é olhado com aprovação, quando não mesmo com respeito. Sempre é um "homem que sabe pôr as gajas no devido lugar". Este saber é especialmente apreciado nos lugares mais inusitados. Não se pense que isto se passa apenas nos sectores deprimidos socialmente ou sem instrução. Não passa. Em segundo lugar, a lei deve endurecer, mas mais do que isso a acção da justiça deve ser revista. Muitas vezes, e apesar dos alertas que a vítima vai emitindo, só quando ela é assassinada é que a polícia e a o aparelho judicial intervêm. Há que tornar insustentável esta cultura degradante e cobarde. No fundo, uma cultura de homens que não gostam de mulheres.

12/12/09

Brad Mehldau - Paranoid Android


Não me parece que...



O empate com o Marítimo, a derrota em Braga, a forma medrosa como empatou em Alvalade e o empate hoje com o último, Olhanense (2-2), é o outro lado das goleadas. Este Benfica ainda está longe de ser consistente. As goleadas podem encher de ilusões muitos adeptos do clube, mas estes pontos perdidos são demasiado significativos para que não se olhem bem de frente. O campeonato não vai obviamente ficar definido no próximo domingo, mas Benfica e Porto vão mostrar o que efectivamente valem. Como benfiquista, ainda que quase desisteressado do futebol, estou longe de estar tranquilo.

Cavaco e o TGV



Pequena é a memória dos homens, ou a sua capacidade para interpretar os factos. O TGV está para José Sócrates como as auto-estradas estiveram para Cavaco Silva primeiro-ministro. Na altura, muitas foram as vozes que se levantaram contra a política do alcatrão, salientando que ela não representaria uma aposta no futuro, mas serviria apenas para alimentar um país fundado na mão-de-obra barata. Cavaco, porém, não hesitou e fez o que pôde em matéria de vias rodoviárias. Agora, quando os socialistas apostam em obras como o TGV ou o aeroporto, Cavaco acha que iniciativas dos jovens em matéria de inovação são mais importantes que o TGV. Como a quase totalidade dos portugueses, não faço a mínima ideia se a construção do TGV é uma boa solução para a economia do país ou não. Pela complexidade das variáveis em jogo, tenho dúvidas, inclusive, que alguém o saiba, efectivamente. O que julgo, todavia, interessante é esta nova posição de Cavaco. Mas se ele governasse, qual seria a sua opção? Alguém duvida?

Um pequeno Blair



Houve um tempo em que simpatizei com a figura de Tony Blair. Não tanto pela sua terceira via, escorada nas perspectivas do sociólogo Anthony Giddens, mas por me parecer alguém determinado. Percebi mesmo que, de um certo ponto de vista, ela não tinha outra solução senão seguir George W. Bush na questão iraquiana. Hoje, porém, haveria da sua parte grandeza em não tentar ocultar o enorme desastre a que a política seguida no Iraque conduziu. Aquilo que diz, porém, mostra pouca capacidade crítica. Perante o flop da história das armas de destruição massiva, continuar a defender a bondada da invasão. Seja por que razão for, parece-me irresponsabilidade excessiva e sintoma de uma enorme pequenez política.

Esbjörn Svensson Trio - Behind The Yashmak (live)


11/12/09

Jornal Torrejano, 11 de Dezembro de 2009



On-line encontra-se a edição semanal do Jornal Torrejano.

Um equívoco semântico


Aquilo a que hoje se chama universidade só por equívoco tem esse nome. Segundo os dirigentes empresariais, os jovens licenciados correspondem cada vez mais ao que as empresas procuram. Merece ser lido o artigo do i. Ele é, apesar da aparência em contrário, uma demonstração da tese que se defende aqui. A universidade, contrariamente ao que se pensa, não deve servir para fornecer mão-de-obra, mesmo que de carácter cognitivo, às empresas. A universidade significa o lugar onde se educa alguém para se elevar a um ponto de vista universal. A preparação para o mercado de trabalho, para as empresas, é apenas uma preparação particular para funções particulares, mesmo que estas sejam amplas. Não se está aqui a argumentar a favor do desaparecimento dessa formação. Pelo contrário, essa formação deve ser ainda mais ampla, abranger mais pessoas e ter melhor qualidade. Não lhe chamemos, porém, aquilo que ela não é. A universidade, por seu lado, deveria encolher drasticamente, concentrando-se nas actividades de produção de saber. As universidades não se devem aproximar das empresas, devem mesmo fugir delas a sete pés, caso não queiram perverter o seu sentido. No entanto, as instituições de ensino que preparam jovens para serem engenheiros, economistas, gestores, designers, etc. devem estar em íntima relação com o mundo empresarial.  Chamar-lhes, porém, universidades é um lamentável equívoco semântico, cujas consequências serão a destruição do que resta da verdadeira universidade. É o que acontece no mundo ocidental, onde a universidade, aquela que ainda trata de questões universais, se rege agora pelo particularismo das empresas privadas. Um dia destes, aquilo a que se chama universidade não será mais do que uma espécie de prolongamento das antigas escolas industriais e comerciais.

Já não se pode ter calor



Numa escola americana, a James Madison, um contínuo (agora em Portugal acho que se chamam técnicos operacionais de educação) encontrou duas professores nuas numa sala de aula. Nuas, mesmo, sem uma roupinha a cobrir a pele. Anda tudo intrigado com o motivo de elas terem confundido a sala de aula com o velho éden, o paraíso da nossa mãe Eva e do nosso pai Adão. Ignorantes, as autoridades instauraram um processo disciplinar por atentado ao pudor. Meu Deus, já ninguém pode ter calor.

Como destruir o que resta



Perante a gravíssima crise que atinge o país, o partido do governo não sabe o que mais há-de inventar para fingir que faz política. Agora lá volta o sacrossanto tema da regionalização. Esta gente não descansa enquanto não esfrangalhar o que resta do país e o entregar a 5 clones dos senhores Jardim e César. Eu que, em princípio, seria favorável à regionalização, como forma de governar e ordenar o país e fazer frente às assimetrias existentes, quando olho as experiências das regiões autónomas e as dos municípios, só posso esperar o pior. Tendo em consideração a cultura geral da classe política e a debilidade estrutural da Justiça, a introdução das regiões será a a vitória daqueles que acham que a política é um meio para enriquecer e dos que desejam, mais ou menos inconscientemente, rasgar a velha unidade nacional. As regiões serão apenas um primeiro passo, uma espécie de supermucipalização do país, mas aberta a porta, quem sabe o que por ela vai entrar?

10/12/09

Sebald - o meu avô



Hoje, porém, releio sempre as histórias do almanaque, provavelmente porque, como observou Benjamim, uma marca da sua perfeição é que facilmente as esquecemos. Mas não foi somente a etérea fugacidade da prosa de Hebel o que, ao cabo de um par de semanas, me levou a querer saber se o barbeiro de Segringen e o alfaiate de Pensa ainda existiam; o que me faz voltar constantemente a Hebel é também o facto, inteiramente fortuito, de o meu avô, cuja linguagem em muitos aspectos fazia lembrar a do amigo da casa, ter o hábito de comprar todos os anos um calendário Kempten no qual anotava, a lápis de tinta, os dias da festa onomástica de parentes e amigos, a primeira geada, o primeiro nevão, a irrupção do föhn, as trovoadas, granizos e similares, bem como, nas páginas para notas, uma qualquer receita para o fabrico de vermute ou de aguardente de genciana. [W. G. Sebald (2009). O Caminhante Solitário. Lisboa: Editorial Teorema, pp. 12]
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Volto a um dos meus autores preferidos, W. G. Sebald. Esta minha preferência talvez se deva à partilha do seu culto pela memória. Educado filosoficamente numa tradição que vai da reminiscência platónica à rememoração de Ricoeur, passando pela memória como presente do passado, de Agostinho de Hipona, com o passar dos anos, e o crescimento inusitado das memórias, fui ficando cada vez mais sensível aos exercícios mnésicos na literatura, chegando a pensar, muitas vezes, que toda a literatura não é outra coisa senão um imenso exercício memorial.

O meu culto de Sebald, porém, não se deve apenas a essa atenção comum à memória. Deve-se à destreza como ele convoca e entrelaça as memórias para narrar uma história, uma história que, sendo-me absolutamente estranha, parece ser a minha história. Neste pequeno excerto, Sebald começa por falar nas histórias de almanaque de Johann Peter Hebel (1760-1826), um dos grandes escritores de língua alemã, famoso precisamente por essas histórias, mas logo deriva para a memória do seu avô, dos seus gestos e da forma como regulava o mundo.

Eu, que nunca tive um avô, pois morreram ambos muitos anos antes de eu nascer, vejo-me a recordar esse avô que não tive, e recordo-me dele a anotar o seu calendário, talvez uma vulgar agenda, a anotar os dias de aniversário de filhos e netos, os acontecimentos climáticos significativos, o dia que nevou, ou aquele em que o fogo devastou o pinhal à saída da aldeia. Chego a vê-lo a consultar as suas anotações sobre receitas de aguardentes e licores. Sei bem que toda esta recordação é imaginada, mas só em parte. Conheci várias pessoas que faziam algumas daquelas coisas que regulavam a vida do avô de Sebald, mas a história que o escritor me conta permitiu sintetizá-las numa única figura, aquela que nunca conheci, o meu avô. E este meu avô comove-me, como se tivesse existido e me tivesse passeado e mostrado as estrelas e os campos. Um grande escritor é aquele que me faz ter o avô que nunca tive.

René Girard - Imitação



Não há nada ou quase nada, nos comportamentos humanos, que não seja aprendido, e toda a aprendizagem reenvia para a imitação. Se os homens, de repente, cessassem de imitar, todas as formas culturais desapareceriam. Os neurologistas lembram-nos frquentemente que o cérebro é uma enorme máquina de imitar. [Girard, René (1978). Des Choses Cachées Depuis la Fundation du Monde. Éditions Grasset & Fasquele, pp. 15]
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Eis o conceito central da aprendizagem, imitação. Daí a importância do mestre, a quem discípulo deve imitar, até ao dia que, capacitado, pode "matá-lo" e tornar-se assim em mestre e exemplo a imitar. O conceito de mimésis, já em Aristóteles, era um conceito complexo. A real imitação nunca é uma reprodução mecânica do modelo. Este, porém, constitui-se no conteúdo noemático, para falar à maneira da fenomenologia, que a intencionalidade do discípulo visa. Esta intencionalidade implica uma configuração complexa, de gestos e atitudes, para lograr a imitação, implica um trabalho árduo para alcançar o modelo. Este trabalho, porém, tem uma função surpreendentemente libertadora. Aquele que trabalha arduamente para imitar vai descobrir as suas próprias forças e o seu próprio caminho. Assim, se libertará do modelo.

Aquilo que no ensino de hoje se propõe, porém, é o contrário disto. A imitação, e o concomitante trabalho árduo, foram banidos. A criança e o jovem não devem imitar. Terão de ser criativos e de ser inovadores. Não há maior armadilha que se possa fazer a uma criança ou a um jovem que exigir que ele seja criativo e inovador (fazem-me rir as idiotices - repito para que não restem dúvidas, idiotices - que se encontram em muitos documentos de avaliação de alunos, paridos por escolas, professores e organismos do ministério, sobre avaliar criatividades e espíritos de inovação). A criatividade e a inovação só podem nascer após um longo processo mimético. Como pode um sistema de ensino que baniu os modelos a imitar, que desprezou o acto mimético e o complexo trabalho que ele requer, exigir, com tamanha falta de pudor e de probidade intelectual, que crianças e jovens sejam criativos e inovadores?

09/12/09

Uma estranha pátria



O desafio. Ser racional e desconfiar da razão. Viver racionalmente na conduta social e privadamente descobrir os limites dessa racionalidade. Será a razão filha da política? Resultará essa faculdade do exercício do cálculo na relação com o outro e da necessidade de agir segundo a justa medida? Será ela um produto da praxis? A tradição ocidental pensou o homem como animal racional. Nietzsche pensou-o como uma ponte entre o animal e o sobre-homem. Mas se o homem é uma ponte, que coisa nele fará com que seja essa ponte. Não a condição animal, pois essa é uma das margens. Resta a conclusão: a razão é uma ponte. As pontes ligam o aquém e o além. O aquém da razão todos conhecemos, são os afectos, as emoções, as pulsões. Mas o que será o além da razão? O que será a sobre-razão? Para além da ponte está a não ponte. A sobre-razão só pode ser uma não-razão. Qual o território dessa não-razão? A infra-razão, o aquém da razão, tem por território a necessidade natural, físico-biológica, a razão habita o território da necessidade social, pois não é ela a filha da praxis política? À sobre-razão resta-lhe um estranho território, o da liberdade. Onde cessam as necessidades naturais e a sociais, começa o país da liberdade. A razão ainda é uma prisão para aquele que se quer aventurar nessa estranha pátria. Não basta, para ser livre, desconstruir as estratégias do corpo como pensou Platão e a tradição ocidental com ele. Não basta opor a razão ao corpo, o espírito à matéria. Não basta sequer perorar contra os dualismos, cartesianos ou outros. O corpo encerra a razão, a razão encerra a liberdade. A sobre-razão talvez seja a faculdade de abandonar ambos os cativeiros. Mas como será possível uma sobre-crítica dessa sobre-razão que lhe assinale os direitos e os limites? Talvez o território da liberdade não tenha limites e o que penetra nele esteja libertado de direitos e de deveres.

A mistificação das competências



Graças à leitora Alice N, tive acesso a este documento. É uma interessante e reflexão e desmontagem do chamado ensino por competências. Torna evidente os interesses que se escondem na retórica educativa do ensino por competências e mostram como esse ensino desvaloriza o saber e promove a desigualdade social, ao contrário do que o discurso político anuncia.

O papel essencial de Cassandra



Eu sei que da parte do governo, e mesmo da oposição, se olha com complacência as tomadas de posição de Medina Carreira. São diatribes de um velho que perdeu o contacto com a realidade, pensa-se, dentro da classe política, para aliviar o peso da consciência, se ainda há algum. No entanto, aquilo que o antigo ministro das Finanças diz faz todo o sentido (ler aqui ou aqui). A crítica radical que faz ao programa Novas Oportunidades só peca por ser demasiado benévola. Aquilo é, para o país, bem pior do que uma simples «aldrabice» e uma simples «trafulhice». Também a crítica que faz à educação é demasiado benevolente. A educação não está uma «miséria». A educação está pervertida. Os princípios que a orientam estão completamente errados. Também a crítica ao parlamento e aos parlamentares, apesar da contundência, acaba por ser suave. O problema não é só o facto de ninguém, com medo do chefe partidário, não miar. O problema central é que os representantes deixaram efectivamente de representar os representados. Isto significa que a democracia representativa está morta. Seja como for, o papel de Cassandra que Medina Carreira decidiu vestir é social e politicamente fundamental, pese o desagrado das múltiplas Clitmnestras que por aí há.

Escola e Sociedade - a Deriva da Razão



No âmbito do Fórum Cidadania, organização conjunta da Escola Secundária Maria Lamas e da CIVILIS, este blogger proferiu a 23 de Novembro pp., a conferência com o título Escola e Sociedade - a Deriva da Razão. Publica-se aqui e agora o abstract. Quando o texto desenvolvido da conferência estiver disponível on-line, far-se-á daqui o respectivo link.

Discute-se a sociedade que se está a construir a partir de uma visão da relação entre escola e sociedade. Tomando como ponto de partida uma descrição fenomenológica dos valores dos alunos relativamente à probidade do desempenho escolar, faz-se uma descrição das figuras sociais dominantes na sociedade portuguesa actual – a esperteza sem regras morais e cívicas, o desânimo e fuga dos melhores, a lamentação dos altos responsáveis. Assim caracterizada a sociedade, argumenta-se criticamente a ideologia da escola aberta à comunidade, nomeadamente a visão da escola como continuidade da família, a sua permeabilidade aos valores e sub-culturas locais, e o imiscuir, na instituição, dos poderes fácticos estranhos ao ethos escolar. Argumenta-se, depois, a necessidade de caracterizar a escola como espaço público fechado. Parte-se de um argumento de Michael Walzer sobre a escola japonesa do pós-guerra e de uma descrição fenomenológica da axiologia escolar, para defender que a escola deve ser esse espaço público fechado devido às características específicas da instituição (um lugar onde menores e maiores se encontram para os primeiros se elevarem à universalidade da razão) e à necessidade de preservar o currículo a transmitir da influência dos interesses privados, sejam familiares ou de natureza económica, social e política. Por fim, propor-se-á as linhas gerais de uma política conservadora de resistência e insistência que vise conservar o papel primordial da razão perante a deriva niilista actual.

08/12/09

Alexandre del Valle - Eurabismo e a morte do pai



Segundo Bat Ye'Or, o eurabismo ambiciona libertar a Europa cristã das suas bases judaicas e respectivas raízes bíblicas. Assim como os nazis queriam arianizar o cristianismo e os islâmicos quiseram palestinizá-lo, assim como determinadas igrejas do Médio Oriente pretenderam criar uma espécie de síntese islamo-cristã, assim também estará a dar-se - afirma Bat Ye'Or - uma islamização do cristianismo por via da palestinização. Trata-se de uma estratégia teo-geopolítica partilhada por personalidades como René Guenon, que sonhava, como certes nazis viriam a sonhar, com a possibilidade de fazer regressar às fontes um ocidente em declínio, islamizando a Europa e cristianizando o islão, movimento que designava por regresso salvífico ao oriente. Assim, e ainda segundo Bat Ye'Or, a propensão que diversos dirigentes europeus eurabianos - de que são exemplo, nomeadamente Jacques Chirac e José Luis Zapatero - mostram ter para a glorificação do passado arabe e islâmico da Europa, e a corte que fazem às nações mais radicalmente inimigas de Israel, são indícios de uma atitude mais ou menos consciente de rejeição do pai hebreu, ou seja, da origem fundamentalmente judaica da civilização cristã. [Alexandre del Vale (2009). A Islamização da Europa. Porto: Civilização Editora, pp. 41]

Conspirações


Portugal aqueceu 1,2 graus nas últimas décadas e vive fenómenos extremos como chuvadas intensas, ondas de calor e vagas de frio prolongadas. A responsabilidade deste incremento da temperatura é, segundo Adérito Serrão, presidente do Instituto de Meteorologia (IM), da acção humana, nomeadamente das consequências da revolução industrial, que intensificou as emissões de dióxido de carbono.

O mais curioso nesta história do aquecimento global é a emergência de teses negacionistas. Aparentam ser um exercício da razão crítica e lançam a confusão entre o senso comum destituído de capacidade analítica e de informação. No fundo, são exercícios próximos daqueles que negam o holocausto dos judeus. Muitas vezes os defensores destes teses negacionistas são os mesmos. Tentam denunciar estranhas conspirações que moldam as teses do holocausto e do aquecmento global, mas na verdade quando se começa a puxar o fio dé ambos os negacionismos encontramos interesses políticos comuns na sua origem. Quem defende a inexistência do holocausto de judeus na II Grande Guerra? Quem tem petróleo para vender e provocar mais emissões de CO2? Como se vê, é fácil montar uma nova teoria da conspiração.

07/12/09

Um pensamento falacioso



A extraordinária centralização e concentração de capital, a formação de gigantescos monopólios que, isoladamente ou em aliança, dominam ramos inteiros da produção, do comércio e serviços e das finanças, os próprios mecanismos de regulação internacional do capitalismo, são expressão de reais processos de socialização que mostram a necessidade do socialismo, como solução racional necessária à desumana anarquia e concorrência capitalistas. A solução dos grandes problemas que afectam toda a Humanidade, a começar pelo problema da paz, mas também os problemas dos recursos naturais, da energia, do ambiente, da pobreza e outros, exige a utilização de métodos racionais de planeamento inerentes ao socialismo." [Resolução Política do XVIII Congresso do PCP, aprovada em 1 Dez 2008]
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No post anterior tinha escrito que nem sempre se pode estar em desacordo com o PCP. Referia-me à crítica que o partido faz à mercantilização do suposto direito de poluir. Mas, ao olhar para os comentários dos leitores à notícia do Público sobre o assunto, deparo-me com este excerto de um documento do PCP. E logo encontro matéria onde esse acordo desaparece de imediato.

1. Não se compreende a ligação lógica entre "A extraordinária centralização e concentração de capital, a formação de gigantescos monopólios que, isoladamente ou em aliança, dominam ramos inteiros da produção, do comércio e serviços e das finanças, os próprios mecanismos de regulação internacional do capitalismo são expressão de reais processos de socialização" e "que mostram a necessidade do socialismo, como solução racional necessária à desumana anarquia e concorrência capitalistas". Estamos, antes do mais, perante a denominada falácia do falso dilema. Dá-se a entender, de forma falaciosa, que só há dois pólos de escolha. Se um gera uma situação crítica, então deveremos optar pelo o outro. Isto é falso, do ponto de vista lógico. Mas não estamos apenas perante a falácia do falso dilema, estamos perante uma outra falácia denominada non sequitur, que se refere aos casos onde, num argumento, a conclusão não se pode deduzir das premissas. Mesmo que a premissa seja verdadeira, não há conexão entre o que ela diz e aquilo que se afirma na conclusão. Da situação actual do capitalismo, por exemplo, não posso deduzir a necessidade do socialismo, como o faz o texto do PCP.

2. Mas o desacordo não é apenas lógico. É também ontológico e metodológico. Os métodos racionais de planeamento já foram testados no chamado socialismo real. O resultado foi desastroso. O potencial de criatividade humana foi abafado, a capacidade de gerar produtos para a satisfação das necessidades e desejos dos homens era mínimo, a liberdade era inexistente. Depois, neste tipo de pensamento há uma presunção desmedida, a presunção de que a razão planificadora consegue calcular tudo o que é necessário à vida dos homens. O capitalismo é, do ponto de vista económico, muito mais eficaz que o socialismo planificador. Só que esse capitalismo terá de ser regulado e não deve ocupar as áreas da vida social que não sejam económicas. Esta crítica ao capitalismo não visa a sua destruição, mas pô-lo ao serviço dos homens e limitar os aspectos mais insociáveis do egoísmo que lhe é inerente.

3. Voltando à questão ambiental, assunto do post anterior, não se pode afirmar que os problemas ambientais produzidos pela economia capitalista tenham por solução "a utilização de métodos racionais de planeamento inerentes ao socialismo". Para além das falácias contidas no raciocínio, existe aqui uma falta de verdade histórica. As economias socialistas eram muito mais poluidoras que as capitalistas e muito menos interessadas nas questões ambientais.

4. Eis como se pode estar muitas vezes de acordo com o PCP nas críticas que faz, e raramente com as soluções que propõe.

Recusar a mercantilização do ambiente



Nem sempre se pode estar em desacordo com o PCP. Por exemplo, a posição dos comunistas perante o comércio da poluição parece-me bastante justa. A crítica à mercantilização do ambiente e à privitização da atmosfera é essencial para afirmação sobre elas de um direito público internacional e evitar que, devido ao talento das equipas jurídicas ao serviço das grandes multinacionais, a defesa do ambiente e a protecção da atmosfera se venham a reger pelas leis do mercado e da economia, e não da política. A atmosfera bem como o ambiente do planeta são bens comuns partilhados por todos os seres que habitam a Terra, não podem estar sujeitos à lei da oferta e da procura, nem ao jogos dos interesses privados, por muito amplos que estes sejam.

A minha primeira vez





Não queria deixar de assinalar aqui, no averomundo, o acontecimento. Ontem, pela primeira vez, entrei no novo estádio do Sport Lisboa e Benfica. Há muitos anos, desde o fim da faculdade, que não ia ver o Benfica a jogar na Luz. Ontem, graças à generosidade e à estratégia de marketing do clube, lá fui para a bancada TMN. O jogo, enfim, é o que menos conta. Apesar de ser um espectador fleumático e de o futebol me interessar já muito pouco, gosto de ver o ambiente e de sentir o fervor do clube. Isso liga-me à minha infância e à memória do meu pai. Uma das coisas que tenho pena foi não ter conseguido levá-lo a ver a nova Luz, inaugurada quando ele estava já gravemente doente. Ontem, porém, pude ver a obra por dentro. Ela é, do ponto de vista arquitectónico, muito mais interessante vista do interior do que do exterior. Há uma leveza naquela arquitectura de ferro que faz lembrar uma águia planando sobre a presa. Depois, a concepção permite um escoamento fácil. Acabado o jogo, tudo flui e os vestígios do acontecimento nas imediações do estádio desaparecem rapidamente. Para coroar a visita, 4 golos à Académica. Talvez lá volte um dia destes.

05/12/09

A continuação do regabofe



Esta declaração da autarca socialista, Maria de Lurdes Rosinha, no congresso da Associação Nacional de Municípios, é um sinal de que esta gente ainda não percebeu nada do que se passa. A senhora quer uma "revisão urgente da lei das finanças locais para fazer face à crise orçamental de muitos municípios num período de crise".  Isto é, quer mais dinheiro para os seus estimáveis projectos. Ainda não percebeu que a crise não é conjuntural. Não se está a viver um período de crise que vai levar, naturalmente, a um período fora de crise, a um período de abundância. Para além da crise internacional, há um estado crítico estrutural que atinge o país devido à irresponsabilidade, fraqueza e oportunismo de uma classe política completamente desajustada da realidade, composta por gente que pensa que o dinheiro cai do céu aos trambolhões. E os municípios, esse glorificado exemplo do poder pós 25 de Abril, bem podem limpar as mãos à parede com o contributo que deram para se chegar onde se chegou. Por exemplo, os presidentes de Câmara deveriam fazer um voto de silêncio durante os próximos anos e evitar reunir-se em conclave para dizerem dislates deste género.

Quotas e outras batotas



Há uma falta de honestidade essencial na relação do governo com os professores. A questão das quotas na avaliação, do ponto de vista da apreciação do mérito, são uma mentira sem fim. Aliás, a própria avaliação, a que vai acabar ou a que vai entrar, não discernirá o mérito de quem quer que seja. Mas a desonestidade governamental, desonestidade que passou do anterior para o actual governo, deve-se a um pormenor que não é assumido publicamente. Não há dinheiro para pagar os salários dos professores. O país não gera riqueza para tal. Isso não é assumido porque o problema não diz respeito apenas aos professores. Não há dinheiro para pagar como se paga aos juízes, aos militares, aos universitários, aos médicos, aos enfermeiros, às chefias e aos quadros superiores da função pública, não há dinheiro para pagar a maior parte dos salários dos funcionários públicos, centrais e locais. Não há dinheiro para tanta gente dependente do Estado. Não há dinheiro para pagar muitas das reformas que o Estado tem de pagar a antigos servidores. Não há dinheiro para tanto assessor e chefe de gabinete que as classes políticas, locais e centrais, criam para assegurar o seu poder. O governo anterior pensou que proletarizando os professores estabelecia um pacto de silêncio com os outros corpos servidores do Estado e que o regabofe poderia continuar. Não resolveu problema nenhum e criou um enorme conflito com os docentes.

As coisas chegaram a um ponto que vai, mais tarde ou mais cedo, ter de se mexer na constituição para poder anular certas direitos conquistados, pelo simples motivo que não há dinheiro para os pagar. Sócrates teve uma maioria para fazer isso. Preferiu escolher um bode expiatório e fingir que resolvia o problema. Um dia destes acordamos e estamos na Argentina de há uns anos atrás. Sócrates tornou-se um impecilho, até para o seu próprio partido. O pântano cresce todos os dias. Portugal está gravemente doente. Está a chegar a hora em que a batota já não consegue encobrir a incompetência que tomou conta do país desde que entrámos na CEE. Sim, Cavaco foi o primeiro culpado disto a que se chegou. Os outros têm sido uns meros continuadores da desgraça que se começou a desenhar no cavaquismo. Fingir-se civilizado, só porque os outros nos dão muito dinheiro para fazermos auto-estradas e rotundas, deu nisto. Vamos pagar duramente.

04/12/09

Heitor Villa-Lobos - Bidu Sayão - Bachiana nº 5 - Cantilena


Universidade Independente



O esplendor de Portugal, ou aquilo em que se vem transformando, mais uma vez. É o que se chama amor ao saber, nomeadamente ao Inglês, o que é natural numa universidade.

Jornal Torrejano, 4 de Dezembro de 2009



On-line está a edição semanal do Jornal Torrejano. Um clique aqui e aparece .

03/12/09

Impressões - LVI


Edouard Manet, Corrida de Toros (1865-6)

solto do labirinto corre
na sombra da investida
um grito na clareira
anuncia a negra flor
coberta de seda
pela fúria desmedida

Joy Ryder - Wayne Shorter Quartet


Que fazer?



Não é de bom tom, à esquerda, chamar a atenção para os oráculos do FMI. Mas gostava de saber como se vai resolver a situação económica nacional. Uma despesa pública enorme com salários e contribuições sociais, uma economia desvitalizada e quase moribunda, um povo sem ambição e com uma formação, mesmo quando se possui vários diplomas, a roçar a indigência, uma imaginação habituada a um longo exercício mimético mas incapaz de produzir o inédito e o não existente. Que fazer?

Desamiganços


Consta que foi criada uma nova palavra de língua inglesa. Um verbo, mais precisamente. To unfriend, que significa retirar alguém de uma rede social da Internet (tipo Facebook), abolindo o seu estatuto de "amigo". O Público traduz literalmente como desamigar. Porém, este verbo lembra um outro que, porventura, já caiu em desuso, o verbo amigar. A não sei quantas amigou-se com o não sei quantos. Amigar-se era estabelecer, na linguagem pós-moderna que nos cabe, uma união de facto. Mas se hoje - bem, já há uns tempos - uma união de facto é coisa vista com bonomia e mesmo como prova de sensatez, já o amiganço, no tempo em que não era união de facto, era olhado de esguelha. Seria uma espécie de solução de recurso para a impossibilidade de um casamento segundo o regulamento geral. Se o amiganço tinha um estatuto sombrio, o desamiganço era invisível. Para além dos dramas efectivos dos desamigados, a estrutura social ignorava-o, apesar de se sentir reforçada, pois o desamiganço acabava por ser um tributo tardio à ordem regular do matrimónio.

O novo desamiganço, o das redes sociais da Internet, é leve e pueril, embora a sua puerilidade possa provocar, por vezes, dor e infortúnio. Amigar e desamigar nas redes sociais não passam de práticas metafóricas, digamos assim. Esses amigos virtuais representam uma espécie de plateia, num mundo que se tornou num imenso espectáculo virtual. Eu exponho-me à plateia dos meus amigos virtuais e em troca eles têm-me como espectador. Mas nada disto representa uma amizade séria. A amizade implica uma certa igualdade. Só os iguais são efectivamente amigos. Esta igualdade não é de classe, embora esta possa ter peso. Diria antes que é uma afinidade electiva a partir da qual se constrói um mundo de referências partilhadas, de vivências e, fundamentalmente, de segredos. Os segredos não precisam de ser de coisas escabrosas ou muito importantes. Por exemplo, a saúde dos pais dos meus amigos é uma coisa privada, a qual é partilhada entre nós com vivo interesse, como se fosse um segredo. Mas há outros segredos na amizade mais secretos, que só entre amigos se partilham.

A amizade efectiva recolhe os amigos, iguais entre si, num círculo de onde o espectáculo e a exposição públicos são reduzidos ao mínimo possível. O amiganço nas redes sociais é transversal e democrático, pois permite que todos sejam amigos de todos com a facilidade de um ou dois cliques. A grande questão é se a democratização da amizade não significa a morte da verdadeira amizade. É que se há coisa que não é mesmo nada democrática é a amizade. A afinidade electiva que leva as pessoas a aproximarem-se entre si é apenas o primeiro impulso, o qual deve ser secundado por um conjunto infinito de provas iniciáticas, nas quais os amigos vão consolidando o cenáculo constituído. Perder um amigo, por exemplo, devido à deslealdade, é provação ontológica. Ser descartado numa rede social pode ser um ferrete no narcisismo de quem colecciona espectadores, mas nunca uma dor que atinja o núcleo essencial daquilo que se é.

02/12/09

Impressões - LV


Vincent Van Gogh, A las afueras de París cerca de Montmartre (1887)

a cidade tem uma fronte
um cavalo rasgado
na paixão do silêncio

agora pedra de sangue
na luz amotinada
a crescer no ocidente

Eugénia Melo e Castro - Bem que se quis


O monstro por trás da carne






No post anterior, disse-se que a filosofia é um espreitar os monstros e um aprender a conviver com esses monstros. Mas o que significa essa extravagante metáfora? Vejamos o exemplo deste produto da investigação científica. Não é a carne produzida em laboratório que é monstruosa. Pode ser pouco sápida, por exemplo. Mas o monstruoso não está aí. O monstruoso reside em dois outros lugares.
 
Primeiro, o monstruoso é o poder de fazer que fez aquela carne. Depois, monstruoso é a teleologia inerente a esse fazer. É monstruoso o poder decifrador da vida, por muito interessante que possam ser os seus resultados. Há uma metamorfose dentro dos poderes humanos. Até aqui o homem apoderava-se da vida nas suas particularidades, capturando-a por fora. Por exemplo, nos animais que criava e que imolava para as suas necessidades. Ele dispunha daquelas vidas, mas não da vida. Agora desenha-se um poder não apenas sobre as vidas particulares, mas sobre a própria vida, entendida no seu princípio originário e, por isso, na sua máxima extensão.
 
Mas a teleologia imanente a este poder também não deixa de ser monstruosa. A finalidade não é, por exemplo, fornecer carne abundante sem matar animais e poluir. A finalidade reside na ideia de reconstrução da realidade. Subjacente está uma outra ideia que parece afastada. A natureza material é má. A sua maldade reside na sua imperfeição. Numa espécie de novo gnosticismo, os iniciados condenam a natureza existente e vão reconstruí-la segundo uma ideia abstracta, isto é, sem as imperfeições da matéria.
 
O trabalho filosófico não será lutar contra os monstros, nem transformar a realidade para que os monstros deixem de existir, mas olhá-los, contemplá-los na sua essência, isto é, na sua monstruosidade.

Convívio com monstros


Não foi um acaso que, durante o seu primeiro período, quando praticava explicitamente a introdução à filosofia como uma iniciação, ele [Heidegger] invocasse o medo e o aborrecimento: o primeiro por que ele tira, pela perda do mundo, o sujeito ordinário da sua vulgaridade, o segundo porque ele atinge um resultado similar pela perda de si, e ambos porque fazem resvalar a existência quotidiana e incitam a meditar sobre o lado monstruoso da situação fundamental, o ser-no-mundo enquanto tal. É a razão pela qual o caminho do pensamento, no sentido forte do termo, passa unicamente por aquilo que a tradição religiosa denomina como temor e tremor, ou aquilo que a linguagem política do século XX chama estado de excepção. A filosofia, concebida como meditação do estado de excepção, tem na sua consequência última uma dimensão anti-escolar. Visto que a escola encarna o interesse pelos estados normais, ela possui mesmo, e justamente, uma orientação anti-filosófica, quando pratica a filosofia como disciplina. [Peter Sloterdijk (2000), La Domestication de l'Être. Paris: Mille et Une Nuits, pp. 8/9]


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Retomar esta citação aqui postada há muito, mas não comentada. O interesse não reside tanto na constatação de que a escola, ou a universidade, quando pratica a filosofia enquanto disciplina é essencialmente anti-filosófica. Isso decorre da natureza indisciplinar, para não dizer indisciplinada, da filosofia. O seu uso na escola, ou mesmo na academia, tem que ver com razões extrínsecas à própria filosofia. Resulta de um tributo que a sofística reinante desde sempre - é ela que determina a escola - sente necessidade para apaziguar a sua velha inimiga. A filosofia na escola e na universidade é uma espécie de concessão e uma forma de disciplinar socialmente o indisciplinar que a filosofia potencialmente representa.

Esta natureza indisciplinar da filosofia reside, e é isso que me interessa, no estado de excepção, no temor e tremor que a desencadeia. A filosofia não é assim uma forma de raciocinar melhor, de cumprir as regras lógicas e as normas retóricas da argumentação. Ela é um adentrar-se no perigo, no "lado monstruoso da situação fundamental". Esse perigo e esse monstruoso são o impensado. O impensado é aquilo que não foi reduzido à dimensão do conceito, não foi submetido à luz da razão. Quando se pensa que a filosofia tem esta ou aquela finalidade social ou política, já não se está no âmbito da filosofia.

Aproximar-se do impensado significa, em primeiro lugar, um trabalho de destruição. Destruição do pensado. A filosofia é um enorme estaleiro que visa um deitar abaixo. Nesse ponto, não se separa da poesia, onde o metaforizar é destruição da significância vulgar da linguagem. A metáfora mostra, por efeito comparativo, a insignificância da linguagem submetida à usura do uso (assim mesmo). Este destruir efectivado pela filosofia é, porém, apenas o primeiro passo para o essencial. O essencial é aprender a conviver com o monstruoso. Muitos pensam que o pensar filosófico é uma espécie de domesticação de monstros. Reduz-se o  monstro a conceitos e ele deixa de ser monstro. O filósofo seria então um domador. Mas aqui já se está no campo da sofística, o campo dos monstros amestrados para exibição nas grandes feiras anuais, isto é, nas escolas e nas universidades, bem como na retórica política. A filosofia não dá tamanho consolo nem contribui para a paz pela redução do monstro ao animal amestrado. A filosofia é um espreitar os monstros (eis a sua dimensão teórico-contemplativa, o filósofo é um voyeur consumado, pese a 11.ª tese de Marx ad Feuerbach) e um aprender a conviver com esses mesmos monstro (eis a sua dimensão prática, uma espécie de manual de sobrevivência do indivíduo na terra dos monstros). A filosofia é um convívio com as trevas. Todo o resto que se lhe atribui é literatura da má.

Um século de futebol



Este belíssimo cartaz anuncia a exposição, inaugurada no passado 28 de Novembro, sobre os 100 anos de futebol em Torres Novas. Quem puder passar pela Biblioteca Municipal Gustavo Pinto Lopes, um excelente  projecto arquitectónico enquadrado numa das zonas mais atraentes da cidade, não perderá o seu tempo. Até 10 de Janeiro.

01/12/09

Impressões - LIV


José Solís, Alta Mar (1920)

o dorso do mar é uma raiz
de água tinta de branco
em sobressalto de azul
ali mesmo onde o animal
se debruça no labirinto
e grita na noite escura
sem orvalho sem maresia
sem a espuma que a areia
em teu coração secou

Georges Ivanovitch Gurdjieff - Bayaty



Anja Lechner: Violoncello
Vassilis Tsabropoulos: Piano

Pessoa e o concurso do SPN



Vale a pena ler este artigo sobre o lançamento de uma edição fac-similada que marca 75 anos da "Mensagem" de Fernando Pessoa. A obra tinha ido a concurso organizado pelo Secretariado de Propaganda Nacional (SPN). O concurso foi ganho por um jovem missionário de 23 anos, Vasco Reis, com um dramalhão em verso, absolutamente suporífero, denominado Romaria. O artigo mostra o júri e evidencia o facto de todos os seus componentes estarem longe de ser analfabetos literários. A verdade é que preferiram o risível à genialidade de Pessoa. O tempo pôs tudo no seu lugar. Ninguém sabe quem é Vasco Reis, se escreveu mais livros ou se missionou muito e bem, convertendo almas para as suas romarias. De Pessoa, provavelmente ainda se sabe menos, mas todos julgamos que sabemos muito mais.

Defenestrem-no!



Fui educado no prazer da defenestração do Miguel de Vasconcelos. Aprendi na escola, nas conversas em casa, sei lá onde. O tipo era um vil serventuário, para usar uma linguagem tipo MRPP, dos castelhanos. Portanto, a defenestração foi coisa decente. E aqui estou eu, republicano confesso, a comemorar o facto e o retorno da coroa para as mãos de um português, mesmo que a posteridade de D. João IV, olhada globalmente, pareça-me não ter justificado a honra que coube aos Braganças. Há excepções, claro. Seja como for, hoje é o dia em que monárquicos e republicanos estão irmanados. Apesar de isto não ir lá grande coisa e de eu não ter nada contra Espanha, pelo contrário, gosto de pertencer a uma velha nação livre e independente. Um copo em honra dos conjurados. Pena é que a defenestração tenha caído em desuso.

30/11/09

Impressões - LIII


Salvador Tuset, Anticoli (1913)

reclino a cabeça perante a dor
o tempo a traz no regaço
promessa de cal a arder
ou vento a ferir as paredes
que resguardam da luz
a infâmia e o cansaço

Aguaviva - Poetas andaluces (1975)


O sarilho europeu



A Europa está metida num belo sarilho. Veja-se aqui a reacção europeia ao resultado do referendo suíço sobre a construção de minaretes. A esquerda horrorizada e a direita dividida entre a concordância e a rejeição das opções dos suíços. Uns insistem que não se está a passar nada, outros aproveitam o medo para vender a sua mercadoria contaminada, os mais sensatos estão perplexos e tentam encontrar um caminho para um dos grandes problemas que desafia a humanidade europeia. Esse problema não é a questão da liberdade religiosa. A proibição da construção de minaretes é mais delicado do que isso. Esse problema nasce do medo perante a exibição crescente de uma militância político-religiosa, nasce do medo perante a diluição e a erosão dos valores ocidentais em relação a um islão militante.

Nota: foram censurados alguns comentários ao post anterior sobre o referendo suíço. Uma coisa é alertar para o perigo e a perplexidade que atravessa a Europa, outra é permitir comentários racistas ou a desvalorização da pessoa que pratica o islão. O islão, desde que respeite os direitos humanos e as liberdades civis, políticas e individuais, desde que não queira misturar religião e política, é muito bem vindo à Europa. Tem valores notáveis para partilhar com os não islâmicos. Todavia, a Europa não pode permitir certos projectos, mais ou menos radicais, que visam a sua destruição.

29/11/09

Impressões - LII


Camille Pissaro, Boulevard Montmartre: Night (1897)

desce a noite sobre a grande avenida
é um pássaro de seda
tão leve que as suas asas
esvoaçam se as sopram de perto

noite noite que teces o meu coração
deixa que te toque
para que o teu júbilo contamine
de negro as trevas da solidão

Stan Getz Quartet - Desafinado, Girl from Ipanema


Ratos



São tempos ricos em homicídios de mulheres, sete nos últimos dias. Hoje, mais um. Incluiu a morte de um Guarda Republicano. O que se está a passar é absolutamente intolerável. A lei dá demasiadas garantias aos candidatos a homicidas. O país tem um combate civilizacional a travar. Nenhum ser humano pertence a ninguém. A agressividade tem crescido entre os jovens de uma forma insuportável. A percentagem de namoradas agredidas por namorados frágeis e psicologiacamente aterrados com a liberdade feminina não pára de crescer. Nem o amor, nem a infidelidade, nem o desejo, nem o quer que seja são motivos para que alguém se julgue no direito de tocar em alguém, ou de se achar proprietário de alguém. Uma mulher não é uma coisa, é uma pessoa. Homens que batem e matam mulheres não são homens, são ratos.

O referendo aos minaretes



A Suíça aprovou hoje, por mais de 57 por cento, os apelos da extrema-direita a que seja proibida a construção de novos minaretes no país. Há muitas formas de tratar um assunto delicado e que atravessa, cortante, as nossas ilusões. A utilização, na frase do Público, da expressão "apelos da extrema-direita" tem uma função tranquilizadora perante o problema. Afinal essa coisa da proibição tem a ver com os pró-fascistas. Assim dormir-se-á mais descansado. Nada que nos turve a razão. O problema, porém, são os 57% de eleitores que decidiram participar na proibição da construção de minaretes. "O maior partido nacional, o Partido do Povo da Suíça, alega que os minaretes ou torres erguidos no topo dos templos muçulmanos são um símbolo do islão militante."

Nós podemos querer enterrar a cabeça na areia. Podemos fingir que a ideia do islão militante é um produto da imaginação dos sectores mais reaccionários da sociedade europeia. Podemos até acreditar piamente que as sociedades islâmicas e as comunidades migrantes são respeitadoras dos direitos humanos e que partilham connosco um sério entusiamo pela igualdade de todos perante a lei, fundamentalmente a igualdade entre homens e mulheres. Podemos criar as ilusões que quisermos. Mas a verdade é que, para além da capa de um conjunto de opiniões politicamente de acordo com a cartilha em vigor, a população dos países europeus onde existem grandes comunidades islâmicas, nascidas da imigração, está longe de se sentir tranquila.

Mas há uma coisa muito mais tenebrosa, coisa que toda a gente se recusa a ver. A estratégia que a Europa seguiu para lidar com as guerras religiosas provocadas pela separação das Igrejas cristãs, a separação entre Igreja e Estado, entre Religião e Política, está a ser fortemente desafiada pela presença de grandes comunidades islâmicas no Ocidente. Eis um problema. Até onde é que a separação da Religião e da Política é operativa, quando o que está em causa é o militantismo político-religioso. Educados no desencantamento do mundo e na compreensão da política de um ponto de vista burocrático, para falar à maneira do grande sociólogo alemão Max Weber, as lideranças europeias não sabem o que fazer quando o religioso e o simbólico retornam em força dentro do campo da política e da guerra.

28/11/09

Impressões - LI


Stanislas Lépine, Péniche sur la Seine (1870)

a rosa descai sobre as águas
barco baldio de onde
avisto as margens
e quando as pétalas caem
sobra ainda a noite
que me leva na viagem

Banda do Casaco - Natação Obrigatória



Nunca uma peça musical se adaptou tão perfeitamente ao Portugal de hoje como esta antiga canção da velha e gloriosa Banda do Casaco. De facto, não há cu que não dê traque.

Estrangulado?



Eis um bom motivo para uma pessoa, que até compreende e aceita os princípios da regionalização, ser claramente contra o cumprimento desse infeliz desígnio da nossa constituição. Não por causa do futebol, claro, coisa que tem uma credibilidade a roçar o zero. Que o Porto, ou o Benfica, ou o Sporting ganhem ou percam é irrelevante. Mas a regionalização que poderia ser um princípio de desenvolvimento local, não seria mais do que o prolongamento desse universo obscuro que são os municípios, ao que se adicionaria temperamentos, estilos, desígnios, discursos e práticas como os que imperam na Madeira e nos Açores, para além das ânsias de centralização que ocorreriam logos nessas maravilhosas sedes regionais. Portugal afundar-se-ia irremissivelmente. Pinto da Costa diz que Portugal está estrangulado. É verdade. Com a regionalização, porém, além da corda central, mais cinco cordas regionais apertariam o pescoço do infeliz condenado. Como poderia ele respirar?

Desporto e virtude


Não sei se aquela retórica, que ribombava no meu tempo ao anunciar o desporto como escola de virtudes, ainda está em vigor. Provavelmente, mas claramente fora do prazo de validade. A máfia das apostas, segundo a justiça alemã, conseguiu perverter os resultados de competições desportivas em 17 países. Um dia, as pessoas decentes proibirão os filhos de pronunciar a palavra desporto. Quantos filmes não foram feitos sobre a perversão das corridas de cavalos? Agora começamos a suspeitar que não há jogo, seja de que modalidade for, que não faça parte de uma enorme rede e que qualquer resultado é fruto não do mérito, mas do embuste? Mas quando se acha que tudo é mercadoria e que o desporto é uma indústria, o que se pode esperar que aconteça? Mas o pior é que a suspeita não fica por aqui. A suspeita cresce desmesurada até à pergunta ingénua sobre quanto na economia real não é já fruto da mão invisível das máfias.

A víbora no peito e a morte da liberdade



Depois de contar uma história desagradável sobre a estranha relação entre um banco privado e o jornal Sol, motivada por uma notícia pouco favorável ao governo, Rui Ramos, na crónica de hoje no Correio da Manhã, argumenta que o problema, o da punição de quem não baixa  a cabeça perante o poder, não é só deste nem só com este governo. Conclui o artigo dizendo: «Há trinta anos que andamos a fingir que pode haver direito e pluralismo onde quem fala corre o risco de ser castigado e onde para fazer negócios é preciso pôr dinheiro em envelopes. A democracia portuguesa vive com uma víbora sobre o peito. Só não nos morde se estivermos muito quietinhos e formos bem comportados. É assim que queremos viver, quietinhos e bem comportados?»

Toda a sociedade portuguesa está, há muito, absolutamente domesticada. Alguns redutos de liberdade de expressão e de crítica existem ainda nas profissões liberais, mas poucos, e nas universidades, cada vez menos. Até ao último governo de Sócrates, os professores do ensino não superior representavam outro reduto onde a liberdade de expressão e de crítica era possível. Uma liberdade que, por essa província fora, era transferida para a esfera pública e política dos municípios, onde muitos professores tinham voz activa, tanto na vida política como na imprensa local. Mas o efeito conjugado do Estatuto da Carreira Docente, da Avaliação de Professores e da lei sobre Gestão Escolar destruiu esse reduto. Toda a gente percebe que o melhor é estar caladinho, pois há que evitar "chatices". Como nos tempos do dr. Salazar ou do prof. Caetano.

Se o debate educativo dentro das escolas era já pobre, tornou-se inexistente. As escolas são, ao nível do debate de ideias, mausoléus entregues a curadores e regedores, dos quais se tem medo ou a quem se quer agradar de forma abjecta. A indigência intelectual cresce. Muitos dos dirigentes escolares, por certo, não gostam do papel e não se sentem bem nesta fotografia de família. Mas o papel foi-lhes entregue. Mais tarde ou mais cedo, eles ou os próximos a vir, em caso de necessidade lá farão exercício do arbítrio com que foram investidos, lá saberão encontrar os mecanismos maravilhosos para calar alguma voz mais crítica e descuidada, mecanismos que políticos inimigos da liberdade e do espírito crítico lhe puseram, sem qualquer sobressalto na consciência, nas mãos.

Os professores, para além das manifestações generalistas contra o ECD e a avaliação, não passam já de uma massa amorfa, há boas excepções, claro,  sem espírito crítico e, como todos os outros portugueses, amedrontados com as indisposições ou os fluxos hormonais das chefias e daqui  a uns tempos do régulo municipal. Quem está hoje, numa escola, disponível para chamar a atenção para o que possa haver de errado, do ponto de vista educativo, na orientação  de um director executivo? Quem, sendo professor, vai amanhã criticar um Presidente de Câmara? É de um professorado assim que, depois, os demagogos habituais e os psicólogos de serviço exigem que formem cidadãos críticos e reflexivos, e outras idiotices inomináveis do género. A liberdade fica para os aposentados, por enquanto. Mas isso significa apenas que a liberdade se tornou decrépita.

Os portugueses nunca amaram especialmente a liberdade. Agora, e eu estou a medir bem as palavras, os portugueses começam a ter medo de ser livres. Uma sociedade civil frágil. Governos locais e centrais demasiado fortes, governos que colonizam o aparelho de estado e das autarquias, governos que, em todos os lados e independentemente dos partidos a que pertençam, não têm a medida do respeito pelo pensar alheio. Portugal definha num pântano e na viscosidade que se apossou, mais uma vez, da sociedade portuguesa. Os melhores e os mais livres resta-lhes um caminho: a porta de saída. A liberdade morre em cada hora que passa. Morre por restrição subreptícia e por falta de exercício. A víbora ameça morder-nos no peito, é um facto. Mas à liberdade já a víbora envenenou há muito.

27/11/09

Impressões - L


John Singer Sargent, OliveTrees at Corfu

a terra exaltada sobre a tarde
uma ilha onde a dor te atravessa
e os anos que passam
escritos tronco a tronco
naquela sabedoria
que só as árvores trazem consigo

Arild Andersen Quartet - Anima (1978)