07/12/09

A minha primeira vez





Não queria deixar de assinalar aqui, no averomundo, o acontecimento. Ontem, pela primeira vez, entrei no novo estádio do Sport Lisboa e Benfica. Há muitos anos, desde o fim da faculdade, que não ia ver o Benfica a jogar na Luz. Ontem, graças à generosidade e à estratégia de marketing do clube, lá fui para a bancada TMN. O jogo, enfim, é o que menos conta. Apesar de ser um espectador fleumático e de o futebol me interessar já muito pouco, gosto de ver o ambiente e de sentir o fervor do clube. Isso liga-me à minha infância e à memória do meu pai. Uma das coisas que tenho pena foi não ter conseguido levá-lo a ver a nova Luz, inaugurada quando ele estava já gravemente doente. Ontem, porém, pude ver a obra por dentro. Ela é, do ponto de vista arquitectónico, muito mais interessante vista do interior do que do exterior. Há uma leveza naquela arquitectura de ferro que faz lembrar uma águia planando sobre a presa. Depois, a concepção permite um escoamento fácil. Acabado o jogo, tudo flui e os vestígios do acontecimento nas imediações do estádio desaparecem rapidamente. Para coroar a visita, 4 golos à Académica. Talvez lá volte um dia destes.

05/12/09

A continuação do regabofe



Esta declaração da autarca socialista, Maria de Lurdes Rosinha, no congresso da Associação Nacional de Municípios, é um sinal de que esta gente ainda não percebeu nada do que se passa. A senhora quer uma "revisão urgente da lei das finanças locais para fazer face à crise orçamental de muitos municípios num período de crise".  Isto é, quer mais dinheiro para os seus estimáveis projectos. Ainda não percebeu que a crise não é conjuntural. Não se está a viver um período de crise que vai levar, naturalmente, a um período fora de crise, a um período de abundância. Para além da crise internacional, há um estado crítico estrutural que atinge o país devido à irresponsabilidade, fraqueza e oportunismo de uma classe política completamente desajustada da realidade, composta por gente que pensa que o dinheiro cai do céu aos trambolhões. E os municípios, esse glorificado exemplo do poder pós 25 de Abril, bem podem limpar as mãos à parede com o contributo que deram para se chegar onde se chegou. Por exemplo, os presidentes de Câmara deveriam fazer um voto de silêncio durante os próximos anos e evitar reunir-se em conclave para dizerem dislates deste género.

Quotas e outras batotas



Há uma falta de honestidade essencial na relação do governo com os professores. A questão das quotas na avaliação, do ponto de vista da apreciação do mérito, são uma mentira sem fim. Aliás, a própria avaliação, a que vai acabar ou a que vai entrar, não discernirá o mérito de quem quer que seja. Mas a desonestidade governamental, desonestidade que passou do anterior para o actual governo, deve-se a um pormenor que não é assumido publicamente. Não há dinheiro para pagar os salários dos professores. O país não gera riqueza para tal. Isso não é assumido porque o problema não diz respeito apenas aos professores. Não há dinheiro para pagar como se paga aos juízes, aos militares, aos universitários, aos médicos, aos enfermeiros, às chefias e aos quadros superiores da função pública, não há dinheiro para pagar a maior parte dos salários dos funcionários públicos, centrais e locais. Não há dinheiro para tanta gente dependente do Estado. Não há dinheiro para pagar muitas das reformas que o Estado tem de pagar a antigos servidores. Não há dinheiro para tanto assessor e chefe de gabinete que as classes políticas, locais e centrais, criam para assegurar o seu poder. O governo anterior pensou que proletarizando os professores estabelecia um pacto de silêncio com os outros corpos servidores do Estado e que o regabofe poderia continuar. Não resolveu problema nenhum e criou um enorme conflito com os docentes.

As coisas chegaram a um ponto que vai, mais tarde ou mais cedo, ter de se mexer na constituição para poder anular certas direitos conquistados, pelo simples motivo que não há dinheiro para os pagar. Sócrates teve uma maioria para fazer isso. Preferiu escolher um bode expiatório e fingir que resolvia o problema. Um dia destes acordamos e estamos na Argentina de há uns anos atrás. Sócrates tornou-se um impecilho, até para o seu próprio partido. O pântano cresce todos os dias. Portugal está gravemente doente. Está a chegar a hora em que a batota já não consegue encobrir a incompetência que tomou conta do país desde que entrámos na CEE. Sim, Cavaco foi o primeiro culpado disto a que se chegou. Os outros têm sido uns meros continuadores da desgraça que se começou a desenhar no cavaquismo. Fingir-se civilizado, só porque os outros nos dão muito dinheiro para fazermos auto-estradas e rotundas, deu nisto. Vamos pagar duramente.

04/12/09

Heitor Villa-Lobos - Bidu Sayão - Bachiana nº 5 - Cantilena


Universidade Independente



O esplendor de Portugal, ou aquilo em que se vem transformando, mais uma vez. É o que se chama amor ao saber, nomeadamente ao Inglês, o que é natural numa universidade.

Jornal Torrejano, 4 de Dezembro de 2009



On-line está a edição semanal do Jornal Torrejano. Um clique aqui e aparece .

03/12/09

Impressões - LVI


Edouard Manet, Corrida de Toros (1865-6)

solto do labirinto corre
na sombra da investida
um grito na clareira
anuncia a negra flor
coberta de seda
pela fúria desmedida

Joy Ryder - Wayne Shorter Quartet


Que fazer?



Não é de bom tom, à esquerda, chamar a atenção para os oráculos do FMI. Mas gostava de saber como se vai resolver a situação económica nacional. Uma despesa pública enorme com salários e contribuições sociais, uma economia desvitalizada e quase moribunda, um povo sem ambição e com uma formação, mesmo quando se possui vários diplomas, a roçar a indigência, uma imaginação habituada a um longo exercício mimético mas incapaz de produzir o inédito e o não existente. Que fazer?

Desamiganços


Consta que foi criada uma nova palavra de língua inglesa. Um verbo, mais precisamente. To unfriend, que significa retirar alguém de uma rede social da Internet (tipo Facebook), abolindo o seu estatuto de "amigo". O Público traduz literalmente como desamigar. Porém, este verbo lembra um outro que, porventura, já caiu em desuso, o verbo amigar. A não sei quantas amigou-se com o não sei quantos. Amigar-se era estabelecer, na linguagem pós-moderna que nos cabe, uma união de facto. Mas se hoje - bem, já há uns tempos - uma união de facto é coisa vista com bonomia e mesmo como prova de sensatez, já o amiganço, no tempo em que não era união de facto, era olhado de esguelha. Seria uma espécie de solução de recurso para a impossibilidade de um casamento segundo o regulamento geral. Se o amiganço tinha um estatuto sombrio, o desamiganço era invisível. Para além dos dramas efectivos dos desamigados, a estrutura social ignorava-o, apesar de se sentir reforçada, pois o desamiganço acabava por ser um tributo tardio à ordem regular do matrimónio.

O novo desamiganço, o das redes sociais da Internet, é leve e pueril, embora a sua puerilidade possa provocar, por vezes, dor e infortúnio. Amigar e desamigar nas redes sociais não passam de práticas metafóricas, digamos assim. Esses amigos virtuais representam uma espécie de plateia, num mundo que se tornou num imenso espectáculo virtual. Eu exponho-me à plateia dos meus amigos virtuais e em troca eles têm-me como espectador. Mas nada disto representa uma amizade séria. A amizade implica uma certa igualdade. Só os iguais são efectivamente amigos. Esta igualdade não é de classe, embora esta possa ter peso. Diria antes que é uma afinidade electiva a partir da qual se constrói um mundo de referências partilhadas, de vivências e, fundamentalmente, de segredos. Os segredos não precisam de ser de coisas escabrosas ou muito importantes. Por exemplo, a saúde dos pais dos meus amigos é uma coisa privada, a qual é partilhada entre nós com vivo interesse, como se fosse um segredo. Mas há outros segredos na amizade mais secretos, que só entre amigos se partilham.

A amizade efectiva recolhe os amigos, iguais entre si, num círculo de onde o espectáculo e a exposição públicos são reduzidos ao mínimo possível. O amiganço nas redes sociais é transversal e democrático, pois permite que todos sejam amigos de todos com a facilidade de um ou dois cliques. A grande questão é se a democratização da amizade não significa a morte da verdadeira amizade. É que se há coisa que não é mesmo nada democrática é a amizade. A afinidade electiva que leva as pessoas a aproximarem-se entre si é apenas o primeiro impulso, o qual deve ser secundado por um conjunto infinito de provas iniciáticas, nas quais os amigos vão consolidando o cenáculo constituído. Perder um amigo, por exemplo, devido à deslealdade, é provação ontológica. Ser descartado numa rede social pode ser um ferrete no narcisismo de quem colecciona espectadores, mas nunca uma dor que atinja o núcleo essencial daquilo que se é.

02/12/09

Impressões - LV


Vincent Van Gogh, A las afueras de París cerca de Montmartre (1887)

a cidade tem uma fronte
um cavalo rasgado
na paixão do silêncio

agora pedra de sangue
na luz amotinada
a crescer no ocidente

Eugénia Melo e Castro - Bem que se quis


O monstro por trás da carne






No post anterior, disse-se que a filosofia é um espreitar os monstros e um aprender a conviver com esses monstros. Mas o que significa essa extravagante metáfora? Vejamos o exemplo deste produto da investigação científica. Não é a carne produzida em laboratório que é monstruosa. Pode ser pouco sápida, por exemplo. Mas o monstruoso não está aí. O monstruoso reside em dois outros lugares.
 
Primeiro, o monstruoso é o poder de fazer que fez aquela carne. Depois, monstruoso é a teleologia inerente a esse fazer. É monstruoso o poder decifrador da vida, por muito interessante que possam ser os seus resultados. Há uma metamorfose dentro dos poderes humanos. Até aqui o homem apoderava-se da vida nas suas particularidades, capturando-a por fora. Por exemplo, nos animais que criava e que imolava para as suas necessidades. Ele dispunha daquelas vidas, mas não da vida. Agora desenha-se um poder não apenas sobre as vidas particulares, mas sobre a própria vida, entendida no seu princípio originário e, por isso, na sua máxima extensão.
 
Mas a teleologia imanente a este poder também não deixa de ser monstruosa. A finalidade não é, por exemplo, fornecer carne abundante sem matar animais e poluir. A finalidade reside na ideia de reconstrução da realidade. Subjacente está uma outra ideia que parece afastada. A natureza material é má. A sua maldade reside na sua imperfeição. Numa espécie de novo gnosticismo, os iniciados condenam a natureza existente e vão reconstruí-la segundo uma ideia abstracta, isto é, sem as imperfeições da matéria.
 
O trabalho filosófico não será lutar contra os monstros, nem transformar a realidade para que os monstros deixem de existir, mas olhá-los, contemplá-los na sua essência, isto é, na sua monstruosidade.

Convívio com monstros


Não foi um acaso que, durante o seu primeiro período, quando praticava explicitamente a introdução à filosofia como uma iniciação, ele [Heidegger] invocasse o medo e o aborrecimento: o primeiro por que ele tira, pela perda do mundo, o sujeito ordinário da sua vulgaridade, o segundo porque ele atinge um resultado similar pela perda de si, e ambos porque fazem resvalar a existência quotidiana e incitam a meditar sobre o lado monstruoso da situação fundamental, o ser-no-mundo enquanto tal. É a razão pela qual o caminho do pensamento, no sentido forte do termo, passa unicamente por aquilo que a tradição religiosa denomina como temor e tremor, ou aquilo que a linguagem política do século XX chama estado de excepção. A filosofia, concebida como meditação do estado de excepção, tem na sua consequência última uma dimensão anti-escolar. Visto que a escola encarna o interesse pelos estados normais, ela possui mesmo, e justamente, uma orientação anti-filosófica, quando pratica a filosofia como disciplina. [Peter Sloterdijk (2000), La Domestication de l'Être. Paris: Mille et Une Nuits, pp. 8/9]


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Retomar esta citação aqui postada há muito, mas não comentada. O interesse não reside tanto na constatação de que a escola, ou a universidade, quando pratica a filosofia enquanto disciplina é essencialmente anti-filosófica. Isso decorre da natureza indisciplinar, para não dizer indisciplinada, da filosofia. O seu uso na escola, ou mesmo na academia, tem que ver com razões extrínsecas à própria filosofia. Resulta de um tributo que a sofística reinante desde sempre - é ela que determina a escola - sente necessidade para apaziguar a sua velha inimiga. A filosofia na escola e na universidade é uma espécie de concessão e uma forma de disciplinar socialmente o indisciplinar que a filosofia potencialmente representa.

Esta natureza indisciplinar da filosofia reside, e é isso que me interessa, no estado de excepção, no temor e tremor que a desencadeia. A filosofia não é assim uma forma de raciocinar melhor, de cumprir as regras lógicas e as normas retóricas da argumentação. Ela é um adentrar-se no perigo, no "lado monstruoso da situação fundamental". Esse perigo e esse monstruoso são o impensado. O impensado é aquilo que não foi reduzido à dimensão do conceito, não foi submetido à luz da razão. Quando se pensa que a filosofia tem esta ou aquela finalidade social ou política, já não se está no âmbito da filosofia.

Aproximar-se do impensado significa, em primeiro lugar, um trabalho de destruição. Destruição do pensado. A filosofia é um enorme estaleiro que visa um deitar abaixo. Nesse ponto, não se separa da poesia, onde o metaforizar é destruição da significância vulgar da linguagem. A metáfora mostra, por efeito comparativo, a insignificância da linguagem submetida à usura do uso (assim mesmo). Este destruir efectivado pela filosofia é, porém, apenas o primeiro passo para o essencial. O essencial é aprender a conviver com o monstruoso. Muitos pensam que o pensar filosófico é uma espécie de domesticação de monstros. Reduz-se o  monstro a conceitos e ele deixa de ser monstro. O filósofo seria então um domador. Mas aqui já se está no campo da sofística, o campo dos monstros amestrados para exibição nas grandes feiras anuais, isto é, nas escolas e nas universidades, bem como na retórica política. A filosofia não dá tamanho consolo nem contribui para a paz pela redução do monstro ao animal amestrado. A filosofia é um espreitar os monstros (eis a sua dimensão teórico-contemplativa, o filósofo é um voyeur consumado, pese a 11.ª tese de Marx ad Feuerbach) e um aprender a conviver com esses mesmos monstro (eis a sua dimensão prática, uma espécie de manual de sobrevivência do indivíduo na terra dos monstros). A filosofia é um convívio com as trevas. Todo o resto que se lhe atribui é literatura da má.

Um século de futebol



Este belíssimo cartaz anuncia a exposição, inaugurada no passado 28 de Novembro, sobre os 100 anos de futebol em Torres Novas. Quem puder passar pela Biblioteca Municipal Gustavo Pinto Lopes, um excelente  projecto arquitectónico enquadrado numa das zonas mais atraentes da cidade, não perderá o seu tempo. Até 10 de Janeiro.

01/12/09

Impressões - LIV


José Solís, Alta Mar (1920)

o dorso do mar é uma raiz
de água tinta de branco
em sobressalto de azul
ali mesmo onde o animal
se debruça no labirinto
e grita na noite escura
sem orvalho sem maresia
sem a espuma que a areia
em teu coração secou

Georges Ivanovitch Gurdjieff - Bayaty



Anja Lechner: Violoncello
Vassilis Tsabropoulos: Piano

Pessoa e o concurso do SPN



Vale a pena ler este artigo sobre o lançamento de uma edição fac-similada que marca 75 anos da "Mensagem" de Fernando Pessoa. A obra tinha ido a concurso organizado pelo Secretariado de Propaganda Nacional (SPN). O concurso foi ganho por um jovem missionário de 23 anos, Vasco Reis, com um dramalhão em verso, absolutamente suporífero, denominado Romaria. O artigo mostra o júri e evidencia o facto de todos os seus componentes estarem longe de ser analfabetos literários. A verdade é que preferiram o risível à genialidade de Pessoa. O tempo pôs tudo no seu lugar. Ninguém sabe quem é Vasco Reis, se escreveu mais livros ou se missionou muito e bem, convertendo almas para as suas romarias. De Pessoa, provavelmente ainda se sabe menos, mas todos julgamos que sabemos muito mais.

Defenestrem-no!



Fui educado no prazer da defenestração do Miguel de Vasconcelos. Aprendi na escola, nas conversas em casa, sei lá onde. O tipo era um vil serventuário, para usar uma linguagem tipo MRPP, dos castelhanos. Portanto, a defenestração foi coisa decente. E aqui estou eu, republicano confesso, a comemorar o facto e o retorno da coroa para as mãos de um português, mesmo que a posteridade de D. João IV, olhada globalmente, pareça-me não ter justificado a honra que coube aos Braganças. Há excepções, claro. Seja como for, hoje é o dia em que monárquicos e republicanos estão irmanados. Apesar de isto não ir lá grande coisa e de eu não ter nada contra Espanha, pelo contrário, gosto de pertencer a uma velha nação livre e independente. Um copo em honra dos conjurados. Pena é que a defenestração tenha caído em desuso.

30/11/09

Impressões - LIII


Salvador Tuset, Anticoli (1913)

reclino a cabeça perante a dor
o tempo a traz no regaço
promessa de cal a arder
ou vento a ferir as paredes
que resguardam da luz
a infâmia e o cansaço

Aguaviva - Poetas andaluces (1975)


O sarilho europeu



A Europa está metida num belo sarilho. Veja-se aqui a reacção europeia ao resultado do referendo suíço sobre a construção de minaretes. A esquerda horrorizada e a direita dividida entre a concordância e a rejeição das opções dos suíços. Uns insistem que não se está a passar nada, outros aproveitam o medo para vender a sua mercadoria contaminada, os mais sensatos estão perplexos e tentam encontrar um caminho para um dos grandes problemas que desafia a humanidade europeia. Esse problema não é a questão da liberdade religiosa. A proibição da construção de minaretes é mais delicado do que isso. Esse problema nasce do medo perante a exibição crescente de uma militância político-religiosa, nasce do medo perante a diluição e a erosão dos valores ocidentais em relação a um islão militante.

Nota: foram censurados alguns comentários ao post anterior sobre o referendo suíço. Uma coisa é alertar para o perigo e a perplexidade que atravessa a Europa, outra é permitir comentários racistas ou a desvalorização da pessoa que pratica o islão. O islão, desde que respeite os direitos humanos e as liberdades civis, políticas e individuais, desde que não queira misturar religião e política, é muito bem vindo à Europa. Tem valores notáveis para partilhar com os não islâmicos. Todavia, a Europa não pode permitir certos projectos, mais ou menos radicais, que visam a sua destruição.

29/11/09

Impressões - LII


Camille Pissaro, Boulevard Montmartre: Night (1897)

desce a noite sobre a grande avenida
é um pássaro de seda
tão leve que as suas asas
esvoaçam se as sopram de perto

noite noite que teces o meu coração
deixa que te toque
para que o teu júbilo contamine
de negro as trevas da solidão

Stan Getz Quartet - Desafinado, Girl from Ipanema


Ratos



São tempos ricos em homicídios de mulheres, sete nos últimos dias. Hoje, mais um. Incluiu a morte de um Guarda Republicano. O que se está a passar é absolutamente intolerável. A lei dá demasiadas garantias aos candidatos a homicidas. O país tem um combate civilizacional a travar. Nenhum ser humano pertence a ninguém. A agressividade tem crescido entre os jovens de uma forma insuportável. A percentagem de namoradas agredidas por namorados frágeis e psicologiacamente aterrados com a liberdade feminina não pára de crescer. Nem o amor, nem a infidelidade, nem o desejo, nem o quer que seja são motivos para que alguém se julgue no direito de tocar em alguém, ou de se achar proprietário de alguém. Uma mulher não é uma coisa, é uma pessoa. Homens que batem e matam mulheres não são homens, são ratos.

O referendo aos minaretes



A Suíça aprovou hoje, por mais de 57 por cento, os apelos da extrema-direita a que seja proibida a construção de novos minaretes no país. Há muitas formas de tratar um assunto delicado e que atravessa, cortante, as nossas ilusões. A utilização, na frase do Público, da expressão "apelos da extrema-direita" tem uma função tranquilizadora perante o problema. Afinal essa coisa da proibição tem a ver com os pró-fascistas. Assim dormir-se-á mais descansado. Nada que nos turve a razão. O problema, porém, são os 57% de eleitores que decidiram participar na proibição da construção de minaretes. "O maior partido nacional, o Partido do Povo da Suíça, alega que os minaretes ou torres erguidos no topo dos templos muçulmanos são um símbolo do islão militante."

Nós podemos querer enterrar a cabeça na areia. Podemos fingir que a ideia do islão militante é um produto da imaginação dos sectores mais reaccionários da sociedade europeia. Podemos até acreditar piamente que as sociedades islâmicas e as comunidades migrantes são respeitadoras dos direitos humanos e que partilham connosco um sério entusiamo pela igualdade de todos perante a lei, fundamentalmente a igualdade entre homens e mulheres. Podemos criar as ilusões que quisermos. Mas a verdade é que, para além da capa de um conjunto de opiniões politicamente de acordo com a cartilha em vigor, a população dos países europeus onde existem grandes comunidades islâmicas, nascidas da imigração, está longe de se sentir tranquila.

Mas há uma coisa muito mais tenebrosa, coisa que toda a gente se recusa a ver. A estratégia que a Europa seguiu para lidar com as guerras religiosas provocadas pela separação das Igrejas cristãs, a separação entre Igreja e Estado, entre Religião e Política, está a ser fortemente desafiada pela presença de grandes comunidades islâmicas no Ocidente. Eis um problema. Até onde é que a separação da Religião e da Política é operativa, quando o que está em causa é o militantismo político-religioso. Educados no desencantamento do mundo e na compreensão da política de um ponto de vista burocrático, para falar à maneira do grande sociólogo alemão Max Weber, as lideranças europeias não sabem o que fazer quando o religioso e o simbólico retornam em força dentro do campo da política e da guerra.

28/11/09

Impressões - LI


Stanislas Lépine, Péniche sur la Seine (1870)

a rosa descai sobre as águas
barco baldio de onde
avisto as margens
e quando as pétalas caem
sobra ainda a noite
que me leva na viagem

Banda do Casaco - Natação Obrigatória



Nunca uma peça musical se adaptou tão perfeitamente ao Portugal de hoje como esta antiga canção da velha e gloriosa Banda do Casaco. De facto, não há cu que não dê traque.

Estrangulado?



Eis um bom motivo para uma pessoa, que até compreende e aceita os princípios da regionalização, ser claramente contra o cumprimento desse infeliz desígnio da nossa constituição. Não por causa do futebol, claro, coisa que tem uma credibilidade a roçar o zero. Que o Porto, ou o Benfica, ou o Sporting ganhem ou percam é irrelevante. Mas a regionalização que poderia ser um princípio de desenvolvimento local, não seria mais do que o prolongamento desse universo obscuro que são os municípios, ao que se adicionaria temperamentos, estilos, desígnios, discursos e práticas como os que imperam na Madeira e nos Açores, para além das ânsias de centralização que ocorreriam logos nessas maravilhosas sedes regionais. Portugal afundar-se-ia irremissivelmente. Pinto da Costa diz que Portugal está estrangulado. É verdade. Com a regionalização, porém, além da corda central, mais cinco cordas regionais apertariam o pescoço do infeliz condenado. Como poderia ele respirar?

Desporto e virtude


Não sei se aquela retórica, que ribombava no meu tempo ao anunciar o desporto como escola de virtudes, ainda está em vigor. Provavelmente, mas claramente fora do prazo de validade. A máfia das apostas, segundo a justiça alemã, conseguiu perverter os resultados de competições desportivas em 17 países. Um dia, as pessoas decentes proibirão os filhos de pronunciar a palavra desporto. Quantos filmes não foram feitos sobre a perversão das corridas de cavalos? Agora começamos a suspeitar que não há jogo, seja de que modalidade for, que não faça parte de uma enorme rede e que qualquer resultado é fruto não do mérito, mas do embuste? Mas quando se acha que tudo é mercadoria e que o desporto é uma indústria, o que se pode esperar que aconteça? Mas o pior é que a suspeita não fica por aqui. A suspeita cresce desmesurada até à pergunta ingénua sobre quanto na economia real não é já fruto da mão invisível das máfias.

A víbora no peito e a morte da liberdade



Depois de contar uma história desagradável sobre a estranha relação entre um banco privado e o jornal Sol, motivada por uma notícia pouco favorável ao governo, Rui Ramos, na crónica de hoje no Correio da Manhã, argumenta que o problema, o da punição de quem não baixa  a cabeça perante o poder, não é só deste nem só com este governo. Conclui o artigo dizendo: «Há trinta anos que andamos a fingir que pode haver direito e pluralismo onde quem fala corre o risco de ser castigado e onde para fazer negócios é preciso pôr dinheiro em envelopes. A democracia portuguesa vive com uma víbora sobre o peito. Só não nos morde se estivermos muito quietinhos e formos bem comportados. É assim que queremos viver, quietinhos e bem comportados?»

Toda a sociedade portuguesa está, há muito, absolutamente domesticada. Alguns redutos de liberdade de expressão e de crítica existem ainda nas profissões liberais, mas poucos, e nas universidades, cada vez menos. Até ao último governo de Sócrates, os professores do ensino não superior representavam outro reduto onde a liberdade de expressão e de crítica era possível. Uma liberdade que, por essa província fora, era transferida para a esfera pública e política dos municípios, onde muitos professores tinham voz activa, tanto na vida política como na imprensa local. Mas o efeito conjugado do Estatuto da Carreira Docente, da Avaliação de Professores e da lei sobre Gestão Escolar destruiu esse reduto. Toda a gente percebe que o melhor é estar caladinho, pois há que evitar "chatices". Como nos tempos do dr. Salazar ou do prof. Caetano.

Se o debate educativo dentro das escolas era já pobre, tornou-se inexistente. As escolas são, ao nível do debate de ideias, mausoléus entregues a curadores e regedores, dos quais se tem medo ou a quem se quer agradar de forma abjecta. A indigência intelectual cresce. Muitos dos dirigentes escolares, por certo, não gostam do papel e não se sentem bem nesta fotografia de família. Mas o papel foi-lhes entregue. Mais tarde ou mais cedo, eles ou os próximos a vir, em caso de necessidade lá farão exercício do arbítrio com que foram investidos, lá saberão encontrar os mecanismos maravilhosos para calar alguma voz mais crítica e descuidada, mecanismos que políticos inimigos da liberdade e do espírito crítico lhe puseram, sem qualquer sobressalto na consciência, nas mãos.

Os professores, para além das manifestações generalistas contra o ECD e a avaliação, não passam já de uma massa amorfa, há boas excepções, claro,  sem espírito crítico e, como todos os outros portugueses, amedrontados com as indisposições ou os fluxos hormonais das chefias e daqui  a uns tempos do régulo municipal. Quem está hoje, numa escola, disponível para chamar a atenção para o que possa haver de errado, do ponto de vista educativo, na orientação  de um director executivo? Quem, sendo professor, vai amanhã criticar um Presidente de Câmara? É de um professorado assim que, depois, os demagogos habituais e os psicólogos de serviço exigem que formem cidadãos críticos e reflexivos, e outras idiotices inomináveis do género. A liberdade fica para os aposentados, por enquanto. Mas isso significa apenas que a liberdade se tornou decrépita.

Os portugueses nunca amaram especialmente a liberdade. Agora, e eu estou a medir bem as palavras, os portugueses começam a ter medo de ser livres. Uma sociedade civil frágil. Governos locais e centrais demasiado fortes, governos que colonizam o aparelho de estado e das autarquias, governos que, em todos os lados e independentemente dos partidos a que pertençam, não têm a medida do respeito pelo pensar alheio. Portugal definha num pântano e na viscosidade que se apossou, mais uma vez, da sociedade portuguesa. Os melhores e os mais livres resta-lhes um caminho: a porta de saída. A liberdade morre em cada hora que passa. Morre por restrição subreptícia e por falta de exercício. A víbora ameça morder-nos no peito, é um facto. Mas à liberdade já a víbora envenenou há muito.

27/11/09

Impressões - L


John Singer Sargent, OliveTrees at Corfu

a terra exaltada sobre a tarde
uma ilha onde a dor te atravessa
e os anos que passam
escritos tronco a tronco
naquela sabedoria
que só as árvores trazem consigo

Arild Andersen Quartet - Anima (1978)


Condescendência



O Banco de Portugal (BdP) teve conhecimento da existência de concentração de risco na Sociedade Lusa de Negócios (SLN) durante o ano de 2000, falhas que na altura mandou corrigir sem verificar se os procedimentos tinham sido de facto alterados. O problema não é o Banco de Portugal. Esta atitude é apenas a expressão de um modo de ser, o modo de ser português. Por que carga de água haveria o Banco de Portugal ser diferente? Quantas vezes não se ouve dizer "não suporto perfeccionistas"? Ser exaustivo e tentar fazer tudo como deve ser feito e até ao fim não é, para os portugueses, uma virtude. Virtude é a condescendência. De condescendência em condescendência, o país em trinta anos chegou onde chegou.

A vida como a conhecemos



Vasco Pulido Valente (aqui), sobre a decisão próximo de Obama relativamente ao Afeganistão. O crescimento da irrelevância americana e o fim da vida como a conhecemos. Embora essa vida como a conhecemos esteja a acabar há muito, o que se passa no Afeganistão, para não falar no Iraque, Irão e Paquistão, não vai contribuir por certo para que a vida como a conhecemos continue. E quem achar que uma derrota e humilhação dos americanos é coisa boa, depressa irá saber o que custa essa vida desconhecida que nos espera. Muitas serão as saudades do império.

Jornal Torrejano, 27 de Novembro de 2009



On-line está a edição semanal do Jornal Torrejano.

A confiscação



Por vezes há, mesmo entre pessoas sempre prontas para gritar contra o cristianismo, uma estranha tolerância, para não dizer uma não dissimulada simpatia, com certas causas muçulmanas. Ainda ontem, por exemplo, ouvi a um especialista brasileiro em Michel Foucault a referência à simpatia com que o pensador francês olhava os jovens oposicionistas do Xá da Pérsia, tendo apenas posteriormente percebido o que se escondia por trás daquela militância. Esta notícia é das mais extraordinárias, entre as extraordinárias que o Irão sempre está disposto a proporcionar. Para além de outras tropelias bem mais graves, o regime de Teerão confiscou, à activista dos direitos humanos, Shirin Ebadi, a medalha e o diploma recebidos quando foi premiada com o Nobel da Paz em 2003. Os objectos foram retirados de um cofre pessoal num banco em Teerão há cerca de três semanas. É o que se chama descer ao pormenor.

26/11/09

Qualidades



Isabel Alçada quer sistema de avaliação de professores que premeie esforço e qualidade. Estas piedosas intenções também faziam parte da retórica da sua antecessora, a qual, como se viu, arquitectou um sistema completamente absurdo. O importante não está em dizer que se quer premiar a qualidade. Isso é uma trivialidade. O importante é como se define a qualidade. Também a antecessora premiava uma certa qualidade, só que não era aquela que permitia aos alunos aprender. Definir o que são professores de qualidade é o primeiro passo, para se descobrir se a intenção é boa, ou se não passa de mais uma aventura num túnel sem luz ao fundo.

23/11/09

Instintos e Instituições




Por causa disto, este blogue vai sofrer até sexta-feira uma assinalável diminuição de actividade. É a nossa condição animal. Consultar o programa aqui. "Instintos e Instituições - saberes e políticas da vida" é uma organização do “the Animal Condition” Research Group - Centro Interuniversitário de Historia das Ciências e da Tecnologia (CIUHCT). [Nota - aqui o cartaz saiu desformatado, mas foi o que se conseguiu.]

22/11/09

Impressões - XLIX


Ignacio Díaz Olano, Pueblo de Urbina, Apunte (1915)

a casa onde me abres a mão
é uma névoa de cal
a promessa de uma rosa
a crescer para o verão

deixa a água cantar
ao som do sino da igreja
deixa as árvores florir
na luz onde te veja

Ana Moura - Leva-me aos Fados


21/11/09

Impressões - XLVIII


Lilla Cabot Perry, Mountain Village, Japan (1898-1901)

a que alturas subiu o coração
para que fosse montanha
ou um ramo de árvore
inclinando-se para o chão

em que sombras habitou
depois de ter perdido a luz
e de ser roubado
de tudo aquilo que amou

Mônica Salmaso - Beatriz


O arquivamento



O procurador-geral da República decidiu arquivar as escutas a José Sócrates, considerando não existirem elementos que provem a prática de ilícito criminal. O que Pinto Monteiro não conseguirá, todavia, arquivar é a queda contínua da imagem da Justiça aos olhos do cidadão comum.

A fuga estratégica de informação tornou-se uma prática sistemática, prática essa que os não iniciados nos divinos mistérios da justiça e da política portuguesas não conseguem perceber. Nunca se chega a compreender muito bem se essas fugas são formas extraordinárias de dar força aos processos judiciais, ou se estão inscritas no conflito político interpartidário. Seja uma esperteza judiciária ou um estratagema político, ou as duas coisas ao mesmo tempo, a fuga de informação tira toda a credibilidade à decisão judiciária que seja tomada. Por mais justa que seja a decisão de Pinto Monteiro, a vox populi nunca duvidará de que ele apenas foi fraco perante o poder político. A justiça sai de rastos, por justa que a decisão seja. Quando este tipo de coisas cai na rua, a plebe, instada pelos pregoeiros de serviço e sedenta de sangue, cai sobre a vítima. Se esta for um poderoso e arrogante, ou ex-arrogante, melhor, o circo está armado.

Mas este jogo não é uma ocupação frívola. Pelo contrário, é um jogo bem perigoso. As instituições do poder e as judiciais desgastam-se continuamente, tornando a sociedade portuguesa ingovernável.

Suspeita



Marx, Nietzsche, Freud. A escola da suspeita, a luta contra a idolatria, a desmontagem do bezerro de ouro. Mas que deus anunciavam estes estranhos profetas? A libertação da opressão, o crepúsculo dos ídolos, a inevitabilidade de uma ilusão. Mas se suspeitarmos da suspeita, se contra ela virarmos a sua poderosa máquina hermenêutica, o que nos resta?

20/11/09

Impressões - XLVII


Alfred Sisley, Nieve en Louveciennes (1887)

és tu que caminhas sobre as águas
um rasto de pedra esconde-se
sob o manto branco
que o inverno estendeu
para que passasses

ó glória inacessível
desenha o rosto que se esconde
no incalculado alvoroço
que a tarde consigo traz

um traço de água uma luz de pedra
um ardor de neve sobre o pânico
com que se fecha o coração

Pedro Moutinho - Esta Contínua Saudade


Conflito das interpretações



O que para a Irlanda foi um roubo, foi para a França um milagre. Como se vê, nem no futebol se escapa à hermenêutica. A única coisa que parece não estar em jogo foi o engano do árbitro. A hermenêutica de Ricoeur dir-nos-ia, porém, que aquela engano se deveu à falibilidade humana. Mas no futebol, isso não existe.

A virtude de Henry



As palavras de Thierry Henry deveriam passar em todas as escolas portuguesas. Deveriam suscitar análise, discussão, transformar-se em exemplo. Por que se envergonha um homem que contribuiu, com a sua batota, para o apuramento da selecção do seu país para o mundial? Mesmo que nada se possa fazer em relação à Irlanda, a confissão virtuosa de Henry é absolutamente excepcional. Aquilo que o jogador diz é incompreensível para a generalidade dos nossos alunos, para não falar para a generalidade dos portugueses. E isso deveria preocupar-nos.

Ficções e exorcismos


Há um momento (61 b), logo no início do diálogo Fédon, de Platão, que Sócrates diz «que o poeta, para ser verdadeiramente poeta, deve criar ficções e não argumentos». Subentende-se que sendo ele filósofo criaria argumentos. Há nesta clivagem entre a produção de argumentos e a de ficções um equívoco que persiste há demasiados séculos. Os argumentos não passam de ficções, as ficções que os filósofos foram utilizando ao longo da história da filosofia. A filosofia faz parte da história da literatura e não passa de um longo e sofisticado exercício de retórica. Por vezes estamos perante boa literatura, outras perante algo insuportavelmente insípido. Platão acusava os poetas de serem mentirosos ao produzirem ficções. A verdade é que Platão dissimulava, mentia, enganava. Fazia-o genialmente, como Nietzsche, ou Hegel, ou qualquer filósofo que valha a pena ler. Quanto mais mente e ficcionaliza um filósofo, mais vale a pena ser lido (os outros, nem de mentir são capazes). Platão não enganava quando ficcionalizava o mundo inteligível, ou construía mitos, mas quando pretendia que os argumentos demonstravam o quer que fosse. Como é que a pobre razão humana tem a pretensão de que uma cadeia lógica entre teses e argumentos justifique alguma coisa? Devemos então deixar de argumentar? Não, por uma questão estética e de coexistência pacífica. É menos desagradável argumentar do que matar-nos uns aos outros, mas só isso. Para além da argumentação está a vida com a sua exuberância, o seu mistério, o seu carácter absolutamente insondável. Perante esse buraco negro, as pretensões da argumentação são um exercício absurdo de cobardia. O medo da escuridão leva-nos a exorcizá-la, a argumentação é a reza e o esconjuro usados.

Jornal Torrejano, 20 de Novembro de 2009



Encontra-se on-line a edição semanal do Jornal Torrejano. Um clique aqui e aparece .

19/11/09

Impressões - XLVI


Norbert Goeneutte, The Pont de l'Europe and Gare Saint Lazare (1888)

era a europa antes do grande desvario
cornucópias de fumo anunciavam
a felicidade pelas ruas não maculadas
por esses anjos caídos
de rodas e motores por asas

não era o parnaso sobre a cidade do oráculo
nem apolo tocava a lira
ou a água nascia da fonte de castália
apenas uma breve sensação de cansaço
abria as áleas por onde o futuro entrava

Gal Costa & Caetano Veloso - O Ciúme


Não nos deixemos iludir



É preciso não se deixar iludir. Esta vã presunção não deixa, no entanto, de ser verosímil. Não nos devemos deixar iludir por quem? Em primeiro e em último lugar, por nós, por aquilo que constitui a nossa opinião, pelas verdades que transportamos, pela potência do nosso argumentário, pelos preconceitos que apresentamos ao mundo como boas causas. Todas as nossas boas causas são falsas. Os homens passam a vida a alertar para as ilusões e os enganos que os outros disseminam na terra e na cabeça da gente boa. Importante, porém, é que se abandone esse proselitismo negativo, essa pregação invertida, esse sermonário sempre disponível para a conversão dos outros. Não nos deixemos iludir por aquilo que queremos vender a nós próprios. Há que rir de si mesmo, olhar de esguelha e desatar a gargalhar com as nossas pretensões, com a erudição que possuímos, com o bem gosto que ostentamos. E não devemos rir de nós como caminho para um eu mais autêntico. A autenticidade é uma nova forma de falsificação. A autenticidade é a mistificação de psicólogos castrados. Devemos rir de nós mesmos apenas por um motivo: somos absoluta e incuravelmente ridículos, irrisórios, risíveis. Não há escárnio e maldizer suficientes para nos caracterizarmos.

18/11/09

Impressões - XLV


Paul Cézanne, Village Road, Auvers (1872-73)

estrada de pó e lama
o árdua caminho que leva
da vida ao porto da redenção

aí aguardo a tua sombra
ou o eco sobre a terra
como se um sol cantasse
na cal que nos espera

Joan Baez - Sweet Sir Galahad


Pobre Cuba



O Presidente Raúl Castro intensificou a repressão em Cuba desde que substituiu no poder o seu irmão Fidel, em Julho de 2006, refere um relatório da organização Human Rights Watch, hoje publicado. Cuba chegou à fase marcelista. Raúl Castro é uma espécie de Marcello Caetano vermelho, mas numa Cuba muito pobre do que era o pobre Portugal do início da década de setenta. Cuba poderia reformar-se à imagem do que aconteceu com Espanha, mas os dirigentes comunistas cubanos parecem preferir uma saída de cena mais espectacular e dramática.

África minha



Este blogue, que não é um especial adepto do professor Queirós, reconhece que Portugal conseguiu os mínimos. Bem, conseguiu um pouco mais que os mínimos. No jogo de hoje a selecção nunca esteve em perigo, controlou o jogo e poderia ter ganho por mais. Gostava imenso de alterar a visão turva que tenho de Queirós como treinador e seleccionador de gente crescida. A África do Sul pode ser uma boa ocasião para Queirós se emancipar do passado, um passado glorioso ao nível das camadas jovens e cinzento no futebol a sério.

Joseph Maistre - O que nada custa




Foi, sem dúvida, com profunda sabedoria que os romanos deram o mesmo nome à força e à virtude. Não há, com efeito, virtude propriamente dita sem vitória sobre nós, e tudo aquilo que não nos custa nada não vale nada. [Joseph Maistre, Soirées de Saint-Pétersbourg]

17/11/09

Impressões - XLIV


Albert Gleizes, Paisaje de Courbevoie (1901)

um pequeno clarão abre o dia
fende as comportas da terra
para que magnífica caia
a pálpebra sobre a erva

sonâmbulas vacilam as mãos
e oferecem árvores e frutos
e flores que ao nascer
são luz na ardósia serena

Mafalda Arnauth - Cavalo à Solta


A visão dos outros


Aprende-se sempre com o resultado da visão dos outros sobre nós. Geralmente, essa visão recata-se na intimidade da consciência, dissimula-se, é generosa connosco ao silenciar o pensamento. As regras de urbanidade poupam alguns desgostos ao nosso precário narcisismo. Mas esse olhar estranho torna-se instrutivo quando é obrigado, pelas circunstâncias sociais ou institucionais, a objectivar-se. Objectivar-se aqui não significa tornar-se objectivo, mas simplesmente ter de se manifestar objectivamente, o que é inteiramente diferente. Nesse momento, temos a revelação de como os outros, por este ou aquele motivo, nos vêem. E isso é sempre instrutivo. Instrui-nos sobre nós e sobre os outros que nos olham. O que, porém, me tem dado mais motivo de reflexão, a partir da experiência própria, é que esse olhar sobre nós vindo dos outros muda muito em conformidade com o lugar onde nos situamos. Por lugar, refiro-me ao lugar geográfico e não a um outro tipo de espaço, seja social ou mental. Sou mais atreito à benevolência dos outros em certos lugares, enquanto outros lugares me são mais claramente adversos. É como se existisse para mim, talvez para todos nós, uma geografia onde se combinam espaços fastos e nefastos, espaços onde se é amado sem fazer nada por isso, e espaços onde se é não propriamente odiado, mas olhado de lado e com mal disfarçada desconfiança, embora também nada se tenha feito para isso. É evidente que estes espaços geograficamente fastos ou nefastos acabam por ter uma correspondência social e mental. Nunca se compreende perfeitamente aquele aviso que na adolescência os pais fazem para que não se frequentem certos sítios nem certas pessoas. Pensamos que é um conselho localizado no espaço e no tempo, mas não é. Prolonga-se vida fora. Muitos dos nossos problemas nascem de nos termos deixado arrastar, talvez por complacência para connosco e para com os outros, para espaços que não são os nossos e frequentar pessoas que não nos convêm. Elas, as pessoas que não nos convêm, sempre que tiverem oportunidade não deixarão de assinalar a nossa inconveniência.

16/11/09

Impressões - XLIII


Joaquín Sorolla y Bastida, Alrededores de Segovia (1906)

inútil nomear o âmbar a opala a safira
inútil contar as pedras ceifar o cereal
inútil abrir as mãos para o vento
ou dar a face para receber o açoite

guarda a faca no bolso da madrugada
e caminha para onde nasce o poente
não haverá um barco que te leve para longe
ou uma silhueta que te anuncie o fim

de margem em margem deixa a prisão
que teceste no linho que há em ti
muralhas de palavras no rumor da noite
escurecem-te a cegueira que nasce de mim

Camané - Estranha Forma de Vida


Chemins qui ne mènent nulle part